Posts Tagged ‘FMI’

Ao desvirtuar o seu papel na Grécia, o FMI ficou refém da União Europeia

Sunday, June 7th, 2015

O pecado original do Fundo Monetário Internacional (FMI) foi o de permitir que Dominique Strauss-Kahn sequestrasse a instituição para salvar os bancos europeus e o euro quando a crise irrompeu, condenando a Grécia ao desastre.

O FMI está em sérias dificuldades. Os acontecimentos na Grécia atingiram um ponto de ruptura tal que ameaçam agora a credibilidade do Fundo e a sua sobrevivência a longo prazo.

Não foi por falta de dinheiro que os gregos adiaram o pagamento de 300 milhões de euros ao FMI, ainda que tal esteja eminente.

Cinco figuras-chave do movimento radical de esquerda Syriza – em reunião na Mansão Maximus de Atenas – tomaram ontem a decisão fria, ponderada e meticulosamente planeada de não pagar.

Sabiam exactamente o que estavam a fazer. Christine Lagarde foi apanhada em contra-pé. Os seus funcionários em Washington ficaram estarrecidos.

A agregação dos pagamentos devidos em Junho poderia ser encarada como um procedimento meramente técnico, embora usado pela última vez pela Zâmbia na recuada década de 1980. Na realidade é mais do que isso; é um tiro de aviso, uma agudização perigosa da situação para todas as partes envolvidas.

Os dirigentes do Syriza disseram que estão tão insatisfeitos, tão tocados pelo sentido de tratamento injusto, que poderão estar à espera do dia 30 de Junho para entrarem, só nessa altura, em situação de incumprimento ao FMI. Colocarão então a instituição na posição ultrajante de ter de explicar aos seus 188 países-membros porque é que perderam tanto dinheiro de forma tão displicentemente e permitiram um descalabro tão colossal nos negócios.

Os gregos acusam o FMI de conivência com a União Monetária Europeia (UME) na imposição de um regime de austeridade que quebra as próprias regras do Fundo e contrariou sistematicamente as análises feitas pelo seu excelente economista chefe do Departamento de Investigação, Oliver Blanchard, ao longo dos últimos cinco anos.

A dívida pública grega é de 180% do Produto Nacional Bruto (PNB). Os empréstimos foram feitos numa moeda que o país não controla. Trata-se, portanto, de uma dívida em divisa estrangeira. O FMI sabe que os gregos não têm a possibilidade de pagar devido à austeridade draconiana – a política que já vai no quinto ano de implementação com resultados tão contraproducentes – e também sabe que quanto mais tarde admitir publicamente o erro, mais delapida a sua própria autoridade.

Tentou à porta fechada pressionar no sentido de se alcançar o alívio da dívida, embora com pouca convicção, evitando um confronto aberto com os países credores da UME. Objectivamente, comportou-se como um autêntico lacaio do imperialismo – como diriam os marxistas gregos.

Como sería de esperar, tal desembocou na pior situação possível. O homem de campo do FMI em Atenas – Paul Thomson – procurou desenvolver um plano de auteridade com tal sanha que assustou até os funcionários da Comissão Europeia, uns gatinhos medrosos por comparação.

Até se poderia compreender as medidas se o habitual contrapeso das negociações com o FMI aparecesse: redução da dívida e desvalorização interna. É assim que os programas do FMI costumam funcionar: impõem reformas duras mas fazem igualmente tábua rasa da dívida e restablecem a viabilidade externa dos países socorridos.

É uma fórmula muito eficaz. Nas raras vezes em que o FMI se enganou, tal deveu-se a ter mantido por demasiado tempo uma taxa de câmbio fixa à data do contrato.

Tudo isto foi descartado no caso da Grécia. O FMI forçou a liquidação à bruta sem estímulos de compensação ou alívio. Anunciou que as suas políticas conduziriam a uma contracção do PNB de 2,6% em 2010, seguido de uma rápida retoma económica.

Em vez disso vieram seis anos de depressão, uma espiral deflaccionária, 26% de quebra do PNB, 60% de desemprego jovem, êxodo em massa dos jovens e dos quadros mais experientes, o afundamento do país num poço que arruinará as perspectivas de desenvolvimento por uma década e, no topo de tudo isto, a taxa de endividamento do país explodiu pelo efeito multiplicativo previsível da redução do PNB.

É um escândalo público de primeiro plano. Uma parte do FMI esboçou uma mea culpa, admitindo que as suas análises menosprezaram grosseiramente o efeito miltiplicativo no fisco. Aplausos para eles.

Outra parte continua a defender novas variantes das mesmas políticas indefensáveis, exigindo um corte de pensões e subida da colecta do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) perfazendo um valor combinado de 1% do PNB no ano corrente e 2% no próximo, mesmo que o país volte à recessão.

Ashoka Mody, ex-chefe de delegação do FMI no salvamento da Irlanda, recusa-se a criticar os seus antigos colegas da Comissão Europeia, mas as suas palavras que citei ontem à noite são suficientemente elucidativas.

Tudo o que aprendemos nos últimos cinco anos é que é estrondosamente errado forçar a austeridade num país que se encontra numa fase deflaccionária do ciclo económico. Os atletas lesionados devem primeiro recuperar a forma física, só depois podem voltar à maratona.

Nas actuais circunstâncias, o simples facto da questão da subida do IVA ser levantada já me choca. Já assistimos ao poder destrutivo da subida prematura do IVA numa economia tão forte como a do Japão.

O Syriza deveria recrutar os investigadores do Departamento de Investigação do FMI para serem seus porta-vozes, pois estes dizem sobre estas questões económicas quase exactamente o mesmo que o Syriza. Toda a estratégia dos credores está errada e quanto mais prolongada for, maiores os custos que terão que suportar.

O pecado original do FMI com respeito à Grécia foi cometido pelo parisiense citadino Dominique Strauss-Kahn, ao sequestrar a instituição para socorrer a UME e o sistema bancário europeu, quando a crise irrompeu em 2010.

A missão do Fundo é salvar países, não divisas ou bancos, e certamente não deveria ter-se envolvido em trabalhos sujos ao serviço de uma divisa de uma união rica, perfeitamente capaz de gerir os seus negócios e que se recusa a fazê-lo por motivos meramente políticos.

Houve um momento difícil em 2010. A eurozona esteve ao ponto de perder o controlo da situação. Não existiam barreiras de protecção – por negligência criminosa dos dirigentes europeus e dos reguladores bancários – e o espectro da Lehman pairou sobre o euro.

Porém, algumas fugas para a imprensa de actas de Assembleia de Governadores permitiram-nos saber que todos os países-membros dos mercados emergentes (além da Suiça) se oposeram aos termos do primeiro pacote de empréstimo à Grécia. Protestaram que foi concebido para salvar o euro, não a Grécia.

Sobrecarregaram com nova dívida os ombros de um país que já estava em bancarrota. A história ficou ainda mais sórdida por constituir uma autorização a um grande banco francês e outro alemão – sem nomes, sff – a limparem-se de uma exposição conjunta de 25 mil milhões de euros em activos tóxicos fazendo-os recair em cima dos contribuintes da UME.

O representante do Brasil alegou:

A reestruturação da dívida deveria ter sido inscrita na ordem de trablhos. Estes empréstimos não podem ser encarados como salvamento da Grécia, que terá de passar por um ajustamento penoso, antes como salvamento dos detentores privados de dívida grega que são maioritariamente instituições financeiras europeias.

Arvind Virmani, o representante da Índia, foi profético:

O esmagamento fiscal sem uma política monetária compensatória não tem precedentes. É um peso de mamute que economia alguma poderá suportar,

disse. E continuou:

Ainda que o programa seja implementado com sucesso, acarretará uma espiral deflaccionária de queda simultânea dos preços, taxa de emprego e receitas fiscais que anulará qualquer ganho.

Foi isto mesmo o que aconteceu.

O Fundo poderia ter expiado a sua falha, reconhecendo o seu dever de zelar pelos gregos e suavizando as imposições. Não o fez. Sem surpresa, o Syriza entrou em rota de colisão.

O FMI tem de ter cuidado. Tornou-se um símbolo de má governação. O Sr Strauss-Kahn foi apanhado em flagrante delicto, sendo substituído instantâneamente através de uma manobra política por outro ministro das finanças francês (de qualidade e integridade – mas esse não é o ponto). O antecessor do Sr Strauss-Kahn foi recentemente acusado em Espanha por fraude.

A instituição carece de reforma. Não há razão que justifique que o cargo de director-geral tenha de ser ocupado por um representante europeu, nem para que os países europeus controlem nove posições na Assembleia de Governadores. Poder-se-ía alegar que também não há razão para que o Reino Unido, a França e a Rússia detenham poder de veto no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Não contesto.

Estas anomalias deveriam ter sido corrigidas na altura do fiasco com Strauss-Kahn – assim como o bloqueamento da reforma das quotas decidida pelo Congresso dos Estados Unidos da América – tanto mais que a China e um conjunto apreciável de países emergentes já tinham irrompido em cena por essa altura.

Falhou a liderança. O Ocidente desgraçou-se a si próprio. Não espanta que a Ásia tenha iniciado o seu próprio caminho com novas instituições que consegue controlar.

O governo grego deita mais lenha à fogueira de uma instituição já com problemas mas que, apesar disso, conta com excelentes quadros e merece ser preservada.

A Srª Lagarde deveria parar de fazer o papel de diplomata. Tem de desfazer-se do seu chapéu europeu e falar em nome da organização que dirige e falar para todo o resto do mundo.

De cabeça erguida e em público, chamar à responsabilidade os dirigentes dos países credores da UEM. Dizer-lhes sem rodeios que todos carregam o seu quinhão de culpa pelo impasse a que se chegou na Grécia.

Deve vincar bem que os gregos precisam de uma limpeza da dívida – uma questão económica básica e independente da moralidade – e que a recusa dos credores aceitarem este facto é o factor principal que impede a solução. Deixar também claro que o FMI já não se encontra disponivel para continuar a participar nesta fantochada.

Se Lagarde se esquivar a fazê-lo e a frouxa liderança da classe política europeia descambar numa catástrofe a todos os níveis, pois que essa responsabilidade caia também sobre a sua cabeça.

Ambrose Evans-Pritchard, The Telegraph, 05 Jun 2015

Raúl Ilargi Meijer – A Questão da Grécia é apenas política

Thursday, May 14th, 2015

A Grécia pagou ontem ao Fundo Monetário Internacional (FMI) usando as suas próprias reservas nesse banco. Será assim tão extraordinário? O que quer que se diga a respeito, não retira à Grécia a necessidade de uma reestruturação maior da sua dívida caso queira sair da crise e ter futuro como nação – muito para além de simples membro da eurozona. Mas a União Europeia (EU) e a troyka anno 2010 decidiram salvar os bancos alemães, franceses e da Wall Street (sei que há sobreposições) e, em vez de obrigarem os bancos a reestruturar dívidas resultantes de investimentos de rentabilidade irracional em títulos do tesouro ou em apostas insanas na saída da Grécia da UE, optaram por colocar os custos directamente sobre os ombros da população grega.

Esta é, como já salientei, uma decisão inteiramente política. Também é, diga-se, uma decisão que o Banco Central Europeu (BCE) deveria ter contestado veementemente, pois como instituição independente e apolítica, nunca deveria ter permitido ver-se envolvido numa situação como esta. Mas o BCE não protestou. Mal o compromisso acabara de ser assinado, Bruxelas apressou-se a alardeá-lo como sendo tão inevitável como a arca de Noé. Não é. Simplesmente, uma decisão a somar a muitas outras, onde acima da satisfação de necessidades vitais das pessoas a prioridade foi dada aos ganhos dos bancos.

Foi assim que as pessoas se viram atingidas repentinamente por uma vara muito comprida. Desde que o Syriza foi eleito com maioria significativa para governar a Grécia, este é o pomo de todas as discórdias. Por mais que se repita que os gregos viveram acima das suas possibilidades durante muitos anos, é claro que os desempregados, as crianças com fome e os idosos sem assitência médica não o fizeram.

A troyka afirma que salvou a Grécia. Os gregos, pelo contrário, alegam que apenas 8 a 9% do dinheiro do salvamento foi destinado a pagar salários, tendo sido o restante consumido na cobertura de prejuízos dos bancos sistémicos ou entregue à elite política e económica recém-apeada da Grécia. Por acaso, tal elite foi exactamente aquela com quem os membros da troyka fizeram alegres negócios. Em vésperas de eleições, era ainda possível escutar dirigentes de vários países integrantes da troyka a apelar despoduradamente aos gregos para que recolocassem a mesma elite profundamente corrupta no poder, não obstante a indesmentível responsabilidade que esta carregava e carrega na destruição da economia grega.

A troyka quer que o governo do Syriza faça coisas que contrariam as suas promessas eleitorais. Não fica perturbada pelas incontáveis vozes que já denunciaram falhas às medidas de austeridade como as que estão sendo aplicadas em vários países. A troyka insiste: é preciso mais austeridade. Sabendo perfeitamente que o mandato que o Syriza recebeu não o permite. Para já nem invocar questões morais.

Este é um jogo de Poder. É um jogo de vontade política. No entanto, quer a imprensa quer a troyka sempre o caracterizaram como sendo de natureza económica. Se tal fosse verdade, como se explicaria o facto das declarações feitas ontem pelo governador do Banco Central da Áustria e membro da direcção do BCE, Ewald Nowotny, terem passsado sem qualquer destaque ou contestação?

Nowotny do BCE: o problema da Grécia não é económico:

O problema da Grécia é mais uma questão política do que económica, afirmou na segunda-feira um membro do BCE, Ewald Nowotny. As discussões com partidos políticos de esquerda como o Syriza ou o Podemos de Espanha podem ser refrescantes por trazerem novas idéias, porém no final há que tirar conclusões. Nowotny acentuou que acrescentar novas idéias não deve ser confundido com cair num jogo estéril.

O elemento directivo do BCE abstêve-se de considerações sobre a solução do problema financeiro grego, defendendo que essa questão é mais política do que económica. O Sr Nowotny também não reconhece qualquer papel do BCE na criação de um governo financeiro federalizado dentro da zona euro. Não podemos sobrepor-nos à esfera política, disse.

(cf Reuters, 11 de Maio de 2015)

Estas afirmações, na nossa opinião, alteram radicalmente o ponto de partida das discussões. Comecemos pelo papel do BCE. Se, por um lado, o problema grego é totalmente político, não cabe ao BCE qualquer palavra na discussão, algo que está longe de ficar esclarecido, mas que é correctamente apontado por Nowotny. Se o assunto é da esfera política, o BCE deveria retirar-se da questão grega. Assim respeitaria o seu estatuto de independência que o proíbe de intrometer-se em decisões políticas.

Ao BCE cabe providenciar dinheiro à Grécia quando solicitado, dado que não existe outro banco central que cumpra a função de emprestador de último recurso para o país. Até que, porventura, Bruxelas declarasse para parar de o fazer, o que continuaria a ser problemático pelo que representaria de submissão de uma instituição independente a uma decisão de natureza política. Seria preferível que a ‘união’, ou melhor, os restantes membros, dispensassem aquilo que a Grécia precisa. Sucede que os países da UE – aparentemente – não estão convencidos de que formam uma união.

Na perspectiva dos membros da UE, a união existe quando tudo corre bem. Ou quando os bancos precisam ser salvos: só depois as pessoas podem disputar as sobras.

O FMI anunciou que não pretende fazer parte do terceiro salvamento da Grécia. Já quase ninguém deu por isso, mas também esta declaração consagra o FMI como um novo decisor político. Lagarde e companhia alegam que não podem emprestar dinheiro aos países que não tomam as medidas ‘certas’. Mas quem concedeu a Lagarde o poder de arbitragem sobre actos de um governo que honra os compromissos sufragados pelos cidadãos? Mais significativo ainda, à luz das palavras de Lagarde, como se explica que o FMI tenha feito o recente empréstimo à Ucrânia? Será que o desempenho da economia da Ucrânia é melhor que o da Grécia? Ou estará a Ucrânia, simplesmente, a afundar-se num pesadelo político?

Levando à letra as palavras de Nowotny, cabe ainda questionar: o que fazem os ministros das finanças nas negociações da questão grega? Tal participação não redundará em perda de tempo e confusão adicionais? Não há pasquim no mundo que não tenha divulgado o reparo do ministro das finanças alemão, Schäuble, de que a Grécia deveria referendar a solução, caso quisesse, e que talvez assim o assunto ficasse resolvido.

Mas um decisão destas está longe das competências de Schäuble, tal como não compete ao ministro das finanças grego, Varoufakis, sugerir qualquer referendo a ser realizado pelo estado alemão. Quanto a esta segunda sugestão hipótética, rapidamente seria tomada como uma ingerência intolerável. Já quanto à sugestão expressa por Schäuble, passou facilmente na imprensa como sendo razoável. É um demonstração de poder, dir-se-á. Mas é sobretudo revelador de como a imprensa perdeu a noção do seu papel na sociedade. Uma imprensa reduzida a mera agência de publicidade de quem, circunstancialmente, ocupa a cadeira do poder.

Se a questão grega é agora, ou talvez tenha sido sempre, eminentemente de natureza política como Nowotny assevera, por que razão Varoufakis, Dijsselbloem (um diplomado em economia agrícola, o que quer que isso signifique) e o antigo chefe dos serviços secretos alemães Schäuble continuam a discutir o assunto? Quem ousaria delegar a decisão sobre uma questão política de primeira grandeza num ministro das finanças? Não tem cargo à altura para tanto.

Tratando-se de um contencioso político, não deveria antes ser entregue a Merkel, Juncker e Tsipras? Até aqui, algo nos dizia que talvez não fosse má idéia. Mas agora temos a certeza de que é uma boa idéia. Pois se mesmo o BCE já garante que a questão não é de dinheiro…

Raúl Ilargi Meijer, The Automatic Word, 12 de Maio de 2015

Michael Hudson – FMI, o carrasco da economia

Monday, July 11th, 2011

Michael Hudson não é comedido nas palavras. Com palavras doces, não vamos lá. Nesta entrevista, Michael Hudson afirma que se está a instalar um neo-feudalismo na Europa; que o Banco Central Europeu não é um verdadeiro banco central; que as instituições europeias foram tomadas pela alta finança; que não há uma Alemanha contra a Grécia, mas sim banqueiros alemães contra os gregos e também contra os alemães. Que o FMI só espalha pobreza e já ninguém queria saber dele, quando foi chamado (pela Comissão Europeia) para intervir na Grécia. Vale a pena ouvir, a partir do minuto 14 (em inglês).