Chegámos agora às sociedades tecno-burocráticas e ao sistema cognitivo que lhe corresponde. As primeiras experiências deste tipo de sociedade e de estruturas foram feitas ainda antes da Segunda Guerra Mundial em Itália, na Alemanha e, mais tarde, na Argentina. Nem a vitória militar dos aliados, nem a queda tardia de Péron na Argentina cortaram a tendência que desemboca nestas estruturas.
O fascismo tecno-burocrático pode tomar formas muito diferentes, como se pode observar comparando os regimes de Franco, em Espanha, com o de Salazar, em Portugal com aqule que sonharam - e continuam a sonhar - os partidários da OAS em França. Depois da Guerra, a política dos aliados não esconjurou estes perigos.
...
Eis, resumidamente, os seus traços essencias:- Subordinação de todas as classes sociais e grupos particulares que sobrevivam ao Estado, ele próprio dominado por cliques, sejam de tecno-burocratas, sejam de militares, sejam de "libertadores nacionais" que, desta forma, tanto podem ocultar a sua submissão como a suas desinteligências com os representantes do capital nacional ou internacional.
- Manutenção de grandes sectores sociais em permanente estado de ódio ou êxtase, muitas vezes provocados artificialmente. São apresentados como obstáculos às aspirações da grande maioria da população, politicamente neutralizadas e economicamente depauperadas.
- Os aparelhos estatais são colocados às mãos do chefe, do partido único e da polícia política todo-poderosa. As técnicas, embrenhadas em mitos, slogans e catastrofismos podem dar lugar ao aparecimento de mecanismos de extreminio em massa. A base morfológica e ecológica, essencialmente politizada, está trespassada de fanatismo e de referências mitológicas. A acumulação das riquezas acompanha a confiscação dos bens dos adversários e dos grupos étnicos perseguidos ou extreminados.
- O Direito e a Moral descem ao último lugar da hierarquia de regras sociais; a educação reduz-se às aparências, excepção feita às formas islâmicas de fascismo, que colocam como prioridade o ensino religioso tradicional...
...
Deve notar-se que este tipo de estruturas está bem mais distanciado do fenómeno social subjacente que o capitalismo dirigista organizado. De facto, todos os esforços do fascismo tecnocrático para integrar e dominar a sociedade inteira não foram suficientes para esbater as diferenças, que se mantiveram num nível considerável, entre a estrutura e a sociedade em geral. Para se completar o quadro social, há que considerar as resistências, os perseguidos, mas também os partidos proibidos; mais ainda, a grande massa da população que, escapando à empreitada alucinatória delirante dos chefes fascistas, prossegue com a normalidade possível a sua vida familiar e laboral no dia-a-dia. É neste nível que se concentram, como iremos ver, tudo o que subsiste de outras formas de conhecimento e que conseguiram subverter a estrutura do fascismo tecno-burocrático.
Vamos agora ensaiar uma nálise do sistema cognitivo correspondente a esta estrutura.- Aquilo que constitui o seu traço mais saliente é a fusão completa entre conhecimento político, conhecimento técnico e conhecimento científico. Mas esta fusão realiza-se em condições tais que a palavra conhecimento não se aplica a nenhum destes três géneros. O conhecimento científico é certamente aquele que aparece mais deformado, mais transfigurado. Perde todo o vestígio da saber independente. Quanto ao conhecimento técnico propriamente dito, está profundamente afectado e não sobrevive senão na medida em que possa subordinar-se à política governamental, podendo, se for necessário, ser usado para fins de extremínio ou guerra.Igualmente, não se poderá falar de um conhecimento político digno desse nome, estando virtualmente excluída a possibilidade de conhecimento verdadeiro. Subsiste certamente uma forma de conhecimento espontâneo: manifesta-se na excitação artificial da população ...
Outra forma de conhecimento político espontâneo pode distinguir-se nas intrigas que se alimentam em torno do chefe no seio do seu partido. Porém, reduzido o conhecimento político à arte da manipulação mais ou menos consciente da mentira, não pode desempenhar outro papel além da exaltação da doutrina política baseada na selecção de palavras de ordem, slogans, mitos grosseiramente falsos e aberrantes, numa palavra, do fanatismo. Desde que se aceite como forma válida de conhecimento, esta á a que predomina na fusão total com o "conhecimento técnico" e um "conhecimento científico" degenerado.
Como me fizeram ver colegas alemães e italianos, não era preciso ser judeu ou resistente para se ser erradicado das universidades sob o nazismo ou o fascismo. Bastava pretender continuar com a transmitir conhecimentos técnicos ou conhecimentos científicos, ainda que tecnicizados, sem ter em consideração os slogans, mitos e alucinações aberrantes da clique dominante.- Nestas condições, não é surpresa que o cnhecimento perceptivo do mundo que ocupa aqui o segundo lugar, seja - ele mesmo - penetrado (na medida em que corresponda à estrutura), pelos elementos estranhos ao saber e se encontre extremamente politizado. Não só as extensões em que o mundo exterior é colocado se dispõem em círculos concentricos e difusos (concêntricas no país de que se trate, difusas para os restantes), fazendo com que os acontecimentos tenham aparência de cíclicos ou inexplicavelmente precipitados, podendo mesmo dizer-se que este conhecimento, no seu todo, esté ferido por uma espécie de cegueira que o impede de discernir, em grande medida, sobre o que se passa no mundo exterior.
- O conhecimento filosófico, simultâneamente tecnicizado e politizado, vem em terceiro lugar neste sistema cognitivo. De resto, apenas é tolerado na medida em que sirva para justificar o regime apesar de todas a flutuações da sua política.Assim, a filosofia de Heidegger, sob o regime nazi, tornou-se ela própria, apesar do existencialismo aparente, numa glorificação do homem guiado, nas trevas da ignorância, por luzes delirantes projectadas pelo Fürer e pela sua entourage. Contudo, o nazismo preferiu justificações mais simples e planas, baseadas directamente no positivismo racista...
- O conhecimento de bom senso, o último do sistema correspondente a esta estrutura, joga contudo um papel considerável no fenómeno social subjacente. Porque todos os elementos da sociedade não integrados no regime, ainda que não estejam directamente ameaçados, recorrem a este género de conhecimento para preservar todos os outros do esquecimento a que o regime os arrasta, de tal forma que aqui se refugiam conhecimentos tecnicos, conhecimentos científicos, conhecimentos políticos, conhecimentos da percepção do mundo exterior, conhecimento do Outro e de Nós propriamente dito, que não existe no sistema cognitivo oficial...
Tradução (excerto) da versão francesa
G. Gurvitch, Les Cadres Sociaux de la Conaissance
1966
Etiquetas: sociologia, tecnoburocracia