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Terça-feira, Dezembro 08, 2009

Walden Bello - Programa para a desglobalização

    Walden Bello
  1. A produção para o mercado interno tem que voltar a ser o centro de gravidade da economia, antes da produção para os mercados de exportação.
  2. O principio de subsidiariedade deveria respeitar-se como um tesouro na vida económica, promovendo a produção de bens à escala comunitária e à escala nacional, se tal se puder fazer a custo razoável, a fim de preservar a comunidade.
  3. A política comercial – quer dizer, excedentes e tarifas— tem que servir para proteger a economia local da destruição induzida por mercadorias subsidiadas por grandes corporações com preços artificialmente baixos.
  4. A política industrial –incluídos os subsídios, tarifas e comércio— teria que servir para revitalizar e robustecer o sector manufactureiro.
  5. Algumas medidas, sempre adiadas, de redistribuição equitativa da renda e redistribuição da terra (incluindo uma reforma do solo urbano) poderiam criar um mercado interno vigoroso que serviria de âncora da economia e geraria os recursos financeiros locais para o investimento.
  6. Dar importância ao crescimento, dar importância à melhoria da qualidade de vida e maximizar a equidade reduzirá o desequilíbrio ambiental.
  7. Propiciar o desenvolvimento e a difusão de tecnologia que se conjugue bem com o meio ambiente, tanto na agricultura como na indústria.
  8. As decisões económicas estratégicas não podem entregar-se nem ao mercado nem aos tecnocratas. Em seu lugar, deve-se aumentar o raio de alcance da tomada democrática de decisões na vida económica, até que todas as questões vitais (como quais as indústrias a desenvolver ou condenar, que proporção de orçamento público se deve dedicar à agricultura, etc.) estejam sujeitas a discussão e a eleição democráticas.
  9. A sociedade civil tem que controlar e fiscalizar constantemente o sector privado e o Estado, um processo que deveria institucionalizar-se.
  10. O conjunto institucional da propriedade deveria transformar-se numa «economia mista» que incluiria cooperativas comunitárias, empresas privadas e empresas estatais e excluiria as corporação transnacionais.
  11. As instituições globais centralizadas, como o FMI e o Banco Mundial, deveriam ser substituídas por instituições regionais fundadas, não no livre comércio e no livre movimento de capitais, mas em princípios de cooperação que, para usar as palavras de Hugo Chavez na sua descrição da Alternativa Bolivariana para las Américas (ALBA), «transcenda a lógica do capitalismo».


Walden Bello, Chegou a hora de pôr fim à globalização?
publicado por ODiario.info a 8 de Dezembro de 2009

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Sábado, Dezembro 05, 2009

Filipe Diniz - Forças Armadas e Segurança Interna

No passado dia 2 de Dezembro a revista “Segurança e Defesa” promoveu um debate com o Chefe de Estado Maior do Exército (CEME), Pinto Ramalho.

A notícia que o “DN” (02.12.09) dá do evento tem um título alarmante: ”Exército disponível para intervir na segurança interna”. O conteúdo da notícia confirma as preocupações que o título inspira.

Um chefe militar da mais alta responsabilidade sente-se à vontade para opinar contra aquilo a que chama “ambiguidade constitucional”, ou seja, o enquadramento constitucional que, definindo o papel, o âmbito e as finalidades de intervenção das Forças Armadas, exclui claramente qualquer missão do domínio da segurança interna.

Não se trata de qualquer ambiguidade. Trata-se da consagração de um princípio democrático fundamental. Trata-se de consagrar, na Constituição de Abril, o papel patriótico que as Forças Armadas reconquistaram com o regime democrático, pondo fim à humilhante situação a que a hierarquia militar se sujeitou durante 48 anos, assumindo-se como um dos principais esteios do regime fascista.

As concepções reaccionárias relativas às questões da segurança interna envolvem sempre uma componente militar. Por um lado, nos objectivos de militarização das forças de segurança, de manutenção do seu carácter militarizado como sucede com a GNR, de um insólito e desproporcionado treino de tipo militar como sucede com a ASAE. Por outro lado, na tentativa de atribuir às Forças Armadas missões no âmbito da segurança interna.

O quadro nacional e internacional em que ressurgem tais concepções é o de uma das mais profundas crises do sistema capitalista, cujas consequências estão ainda muito longe de ter atingido o seu auge, e que serão (já estão a ser) socialmente devastadoras. Em que a taxa de desemprego em Portugal atingiu os dois dígitos. Em que alastram as situações de fome e de miséria extrema, em que as injustiças e desigualdades sociais atingem uma dimensão brutal.

É também o quadro em que recrudesce a ambição da ofensiva imperialista contra os povos. Em que o “tratado de Lisboa” consagra a militarização da UE. Em que prosseguem as tentativas de criminalização da resistência dos trabalhadores e dos povos.

É neste sombrio quadro que esta tomada de posição de um chefe militar ganha uma muito preocupante ressonância. Tanto maior quanto nos lembremos que para a política de direita a Constituição é letra morta, e que o actual ministro da Defesa é Augusto Santos Silva, um personagem amigo de “malhar”.


Filipe Diniz em ODiario.info a 5 de Dezembro de 2009

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Quinta-feira, Abril 30, 2009

Jack Soifer - Alta velocidade

Jack SoiferA TECNOLOGIA do TGV tem 150 anos, não inova em nada, é só força bruta. Ao contrário do Alfa, que usa a ciência e é pendular, no TGV o bogie, o chassi e os carris são tradicionais, mas maiores; só o motor eléctrico substituiu a locomotiva a vapor.
O LightAlfa usa compósito, ligas de alumínio e carbono, e HDPVC na carruagem e chapa de aço reforça­do, em vez de ferro fundido no bogie. O fio dos motores é de liga de alumínio em vez de cobre. Tudo o torna mais leve, flexível nas curvas e exige muito menos betão nas pon­tes e retirada de terras nas serras.
O LightAlfa é tecnologia de ponta, faz 240km/h de média, quase igual ao TGV e, ao invés deste, não está nas mãos de só nove empresas de quatro países.
Ao ligar Faro a Braga pelo interior, o Train de Grand Developpement (TGD) com ramais para Badajoz e Vigo e gastando 1,5 mil milhões de euros, traria emprego a 78 firmas e 18 mil cidadãos portugueses.
Só seis empresas de França, Reino Unido e Alemanha estão certificadas para vender carris, material eléctrico e electrónico, carruagens, etc. para o TGV.
A Espanha tem três empresas certificadas para as pontes e a infrastrutura.
Exige-se quatro anos e milhões para certificar.
Não estarão num cartel?
Estimativas de países que pensaram investir ou já fizeram TGV mostram brutais derrapagens. Os três grandes da UE exportariam para Portugal 65 a 74% dos 5 mil milhões, a Espanha uns 20% e as nossas três mega-empresas 8 a 9%.
Mas três gerações (de Portugueses) teriam que pagar mais 4 mil milhões em juros e sobre lucros ao cartel e cada um dos nossos 5 milhões de empregados mais 500€/ano de impostos em subsídios do Governo ao consórcio do TGV.
Se o racional e inovador é o LightAlfa, que lobby de Bruxelas está a forçar um ministro a nos meter goela abaixo uma dívida irracional e uma velha tecnologia? Por que estes dados não chegam a José Sócrates?


Portugal Ilustrado

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Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

Maria José Nogueira Pinto - Infâncias infelizes

Maria José Nogueira PintoA Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) apresentou ao Ministério da Educação uma proposta para as escolas do 1.º ciclo do ensino básico funcionarem entre as sete da manhã e as sete da tarde. Uma proposta radical que encerra em si própria a alteração do sentido último da escola e o sentido último da família. Algo que, tendo estado desde há muito subjacente a toda a discussão em torno do modelo de sistema educativo, modelo de escola e objectivos do ensino, surge agora claramente como um facto assumido, não já uma circunstância mas um dado adquirido, o de uma parentalidade em part-time.

Sabemos que muitos pais têm de depositar os seus filhos na escola durante 12 horas porque precisam dessas 12 horas para trabalharem - duplo emprego, biscates, o que seja - único modo de fazer face às necessidades do seu agregado. Mas também sabemos que uma criança confinada a um mesmo espaço durante 12 horas, um espaço que não é a sua casa, o seu habitat, provavelmente não se construirá feliz e equilibrada. Há pois, aqui, um conflito, que nem sequer é novo, e uma proposta, essa sim nova, dos pais, de que seja resolvido a favor de um modelo laboral e social profundamente errado e em desfavor dos filhos.

Os chamados ATL, actividades de tempos livres realizadas fora da escola mas em local adequado para o efeito, já existem há muito em Portugal como uma resposta social para aquelas famílias, que são confrontadas, na sua luta pela sobrevivência, com o dilema de pôr em risco ou o sustento dos filhos ou os próprios filhos. Com esta proposta da Confap transfere-se para a escola o prolongamento do horário, e aquilo que era excepcional e em função de uma circunstância concreta passa agora a ser uma regra assumida e incorporada no próprio sistema educativo. Aqui reside a diferença e a diferença é abissal!

Segundo os dados disponíveis, apenas um terço dos casais com filhos menores de 15 anos recorre a serviços de apoio às crianças, incluindo amas, creches, pré-escolar e ATL. À primeira vista, nada indica pois que uma escola a funcionar 12 horas seja uma necessidade sentida por todos os pais ou, sequer, pela maioria dos pais. Mas, uma vez aprovada uma medida como esta, rapidamente se interiorizará que as 12 horas são o horário escolar diário e que, independentemente das reais necessidades dos pais, por uma simples conveniência ou pura comodidade, o lugar da criança é na escola. A ser assim, não estamos perante uma solução mas perante um gigantesco problema a projectar-se, impiedoso, sobre o futuro de todos.

Primeiro, porque muitos dos problemas actualmente vividos nas escolas têm a sua causa na ideia errada de que estas substituem a família. A escola é meramente complementar, mas vê-se forçada a ir mais longe para compensar as fracas competências parentais que se revelam hoje como transversais à sociedade portuguesa e já não exclusivas de famílias mal estruturadas. Esta situação deve ser mudada e não institucionalizada.

Segundo, porque sendo sempre verdade que nada é tão importante como criar e educar crianças felizes, amadas e capacitadas para fazer face à vida, essa verdade é ainda mais evidente no nosso Inverno demográfico. Por isso, aqueles pais que apesar das suas vidas duras, do seu presente precário e do seu futuro incerto tiveram a coragem de ter filhos, não podem, de modo algum, ser penalizados. E também para isso servem as leis e as políticas públicas: novas formas de organização do trabalho, apoios às famílias, equidade no acesso aos serviços.

A decisão de transformar a escola num depósito, com base em precipitadas análises sociológicas, branqueando os dramas da míngua de afectos, laços e convivência entre pais e filhos, com jogos e brincadeiras escolares, é uma capitulação. As crianças não merecem. Nem as pobres nem as ricas.


Maria José Nogueira Pinto, Diário de Notícias, 12 de Fevereiro de 2009
(via A Educação do meu Umbigo)

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Quinta-feira, Outubro 02, 2008

Ser professor em Portugal: Margarida Azevedo

Rompendo a cortina do silêncio e da vergonha. (AF)
Escola EB2/3 de Vila Nova de PoiaresNum ápice, o que dava prazer transforma-se numa espécie de fobia. Esta é a história de uma professora, investigadora, mestre em Ciências Musicais, com curso de Musicoterapia, especializada em Educação Especial que deixou de acreditar na escola, pelo menos naquela onde tentava leccionar. Desenvolveu uma enorme aversão, teve acompanhamento psiquiátrico e agora está afastada da actividade devido a um cancro.

Margarida Azevedo adora(va) a sua profissão e sente-se «frustrada» por não poder exercê-la condignamente.
«Um dia, simplesmente deixei de ir trabalhar. Fui falar com um psiquiatra, disse-lhe que me recusava a aparecer naquela escola sentia com fobia e o mais provável era abandonar o ensino. Porque, não estudei a vida toda, nem me dediquei a vida toda a estas coisas para chegar a este ponto».
Sente-se o peso da decisão:
«Passado um mês e meio tentei voltar, mas voltei para casa... Ao telefone, com o psiquiatra, um querido amigo, chorava, porque não conseguia lá estar».
A medicação para a depressão foi a solução imediata, mas que não podia antever o que ainda estava para acontecer.
«Em 2006/07, leccionava em nove turmas diferentes, cerca de duzentos alunos, para além de ser directora de turma e dar aulas de substituição. Nesse ano passei para a Educação Especial - já que precisavam de professor de apoio educativo e eu tinha experiência desde 1997 - mas ainda foi pior dada a incompetência e práticas na escola»,
conta. Um ano depois, leccionando Educação Musical a crianças do 5º e 6º ano, mantinha oito turmas, mais três com áreas de projecto, em 4 níveis diferentes.

Depois de ter trabalhado vários anos em Educação Especial, não conseguiu destacamento por erro da aplicação informática da DREC («que infelizmente não detectei tendo acreditado que não poderia ser destacada já que o meu grupo é Ed. Musical») e acabou por ser colocada na Escola EB 2/3 de Vila Nova de Poiares. Para quem vivia em Coimbra, era uma tormenta percorrer aqueles quase 90km de curvas (ida e volta), para depois encontrar um pesadelo.

«Sou forte e profissional, mas por causa da forma como me trataram, transformei-me numa pessoa frustrada. Com os alunos senti-me sempre bem, o resto é que não funcionava, pois havia muita gente sem competência»,
recordou, contando que chegou a ter de «tentar corrigir e evitar colaborar em erros gravíssimos».

Em duas horas, tudo mudou.

Sem o enquadramento necessário na escola, a sentir-se recuperada Margarida candidatou-se a uma bolsa da Gulbenkian, a um projecto de investigação: dois meses para estudar e contribuir para a implementação da Educação Especial em Timor, com a colaboração do governo local.

Às 16h do dia 16 de Maio, a vida parecia tomar novo rumo, pois a bolsa tinha sido aprovada. Projectos feitos, ideias de Doutoramento, hipóteses de realização na sua área profissional, «podendo efectivamente ajudar pessoas, crianças». Duas horas depois, porém, uma visita à sua médica para conhecer os resultados de uma biópsia, ditariam um outro destino: cancro na mama. Volvidos oitos dias já estava a fazer uma mastectomia e os objectivos passavam a ser a reconstituição total e, no limite, a sobrevivência.

Não há certezas científicas, mas «o stress é apontado como uma das origens possíveis do cancro». Margarida tenta esquecer o passado enquanto vai recuperando. Pediu destacamento por doença para Coimbra, que não lhe foi concedido, e entretanto cumpre baixa médica. «No próximo ano, há concursos. Concorrerei para a Educação Especial», assegura.

Hoje em dia tenta encontrar a força na luta dos outros, ajudando colegas, denunciando outros casos e deixando o alerta:
«Não se deixem matar nem desgastar em limites preocupantes. O defeito não está em nós, mas no sistema».
A chama mantém-se viva num dos blogues de educação mais activos a nível nacional, A Sinistra Ministra.

Filipe Caetano, «Professores que sofrem»: a escola como fobia, IOL Portugal Diário, 2 de Outubro de 2008

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Quarta-feira, Outubro 01, 2008

Cheque mate ao liberalismo

Nestes dias o mundo tem os olhos postos na sorte que o Congresso dos EUA irá reservar à Wall Street, enquanto símbolo do primado da iniciativa privada para o desenvolvimento económico. Os primeiros derrotados foram a Reserva Federal e a administração Bush, que já só vêm no saque directo ao dinheiro dos contribuintes a solução para que uma elite anti-social continue a acumular capitais. No Congresso, porém, este pragmatismo não colhe. Há ainda quem queira interpretar os acontecimentos recentes como resultado da cupidez de alguns financeiros ou seus intermediários, como uma questão pontual de falta de honradez na administração dos dinheiros dos pequenos accionistas. Olhando para indivíduos, os congressistas teimam em ignorar que os grandes meios financeiros, cristalizando o trabalho de milhões de pessoas, têm um caracter irremediavelmente social. Têm de ser removidos da margem de manobra da propriedade privada. É notável que tenham sido maioritariamente os republicanos, mais enfeudados à ideologia liberal, a opor-se ao plano de salvamento de Bush. Tal também revela que os aspectos ideológicos têm mais força entre os republicanos que entre os democratas.
O jogo de forças ainda não terminou. Mas a pureza da ideologia liberal está irremediavelmente afectada. Se o plano não for aprovado pelo Congresso, o risco de recessão passa a ser imediato, segundo os próprios economistas do regime: demonstração pública do fiasco de tão ampla liberdade da Wall Street na gestão privada de recursos. No caso contrário, fica publicamente reconhecido que a sociedade - representada pelo estado - tem a obrigação de cercear liberdades excessivas dos cidadãos individuais em matérias de mercado. A regulação dos mercados sai da esfera privada e entra, por direito próprio, na esfera estritamente social. Esse é um pesadelo ainda maior para os apologistas do liberalismo económico. Vale, no entanto, a pena recordar que, enquanto ideologia, o liberalismo económico já estava ultrapassado pela realidade no final do século XIX. Nessa altura, as ilusões de que qualquer indivíduo poderia desempenhar um papel de igual para igual no crescimento da economia, já tinha suficientes desmentidos nos fenómenos de concentração monopolista, nas cartelizações, nas condições de sobrevivência cada vez mais difíceis das pequenas e médias empresas, dadas as condições de acesso ao crédito financeiro e no empobrecimento de sectores amplos da população e nas primeiras crises. De costas voltadas para a realidade, os ideólogos sobreviventes do liberalismo têm vivido os seus dias de piores pesadelos. Como aceitar condições regulatórias impondo limites aos fluxos de capitais na Wall Street? Como pode sobreviver a iniciativa criativa dos investidores, sujeitos a supervisões, a regulamentos, e a penalizações definidas pelo estado, essa entidade inerte e economicamente incapaz? Decididamente, o fim do mundo deve estar próximo: o mundo dos desmandos, do caos e da falta de transparência dos actos com severas repercursões na sociedade em geral. Tudo indica que, doravante, a lei passe a ser outra: a iniciativa privada é socialmente benéfica? Sim, talvez, mas não por definição dogmática. É preciso analisar caso a caso. Principalmente, é preciso impor-lhe limites de intervenção: tudo quanto ultrapasse esse limite, passa a ser assunto do estado: My dear friend liberal, you must stay out. That's just not of your business. I'm so sorry.

O debate ideológico não esgota, além disso, o problema. Ao serem definidas condições em Wall Street, fica aberta a porta para a fuga da alta finança para praças mais conformes às suas expectativas e às leis com que se sente confortável. Isso significa que a Wall Street perderá este importante atractivo, que até agora têm sabido defender, e que tem permitido a Washington controlar o mercado mundial. Esta questão prática é ainda mais aterradora ao olhos dos que têm procurado manter os EUA como potência hegemónica na economia. Como agir daqui para a frente? Fazer valer apenas a supremacia militar, desprovida de mecanismos de persuasão económica que tão bem têm funcionado nas relações diplomáticas? Decididamente, as coisas não vão bem para o lado republicano.

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Sábado, Setembro 20, 2008

Angela Merkel - É preciso regular os mercados

Angela MerkelHá muito tempo que se diz: 'Deixem que os mercados tomem conta de si próprios' e que 'já não há necessidade de mais transparência'.
Hoje já demos um passo em frente, pois são os próprios Estados Unidos da América (EUA) e Reino Unido (RU) a reclamar: 'Sim, precisamos da mais transparência, precisamos de novos padrões para as instituições de regulação'.
Não aceito a visão de que os mercados financeiros se auto-regulam. Aliás, oposeram-se durante demasiado tempo à introdução, pelos governos dos EUA e do RU, de regulamentos para a actividade bancária.
Para além dos regulamentos nacionais, precisamos também de acordos que barrem a especulação financeira irresponsável


Angela Merkel, citada por Deutsche-Weller em 20 de Setembro de 2008

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Segunda-feira, Julho 21, 2008

Joseph Stiglitz - O fim do neoliberalismo?

Joseph StiglitzNova York - O mundo não tem sido bom para o neoliberalismo, este apanhado de idéias baseado na noção fundamentalista de que os mercados são autocorrigíveis, alocam recursos de forma eficiente e atendem bem ao interesse público.

Foi esse fundamentalismo de mercado que sustentou o Thatcherismo, o Reaganomics e o chamado Consenso de Washington em favor da privatização, da liberalização e do foco dos bancos centrais no controle da inflação.

Durante um quarto de século, houve uma competição entre os países em desenvolvimento e os perdedores foram claramente os que adotaram políticas neoliberais. Mesmo quando cresceram, os benefícios se acumularam de forma desproporcional nos que já estavam no topo.

Embora os neoliberais não queiram admiti-lo, sua ideologia não passou em outro teste. Ninguém pode argumentar que os mercados financeiros fizeram um belo trabalho ao alocar recursos no fim da década de 90, quando 97% dos investimentos em fibras óticas levaram anos para ver alguma luz. Mas esse erro gerou ao menos um benefício: como os custos de comunicação foram reduzidos, Índia e China se tornaram mais depressa integradas na economia global.

Mas é difícil enxergar tais benefícios na errada alocação maciça de recursos para a construção civil. As novas residências construídas para famílias que não podiam pagar por elas viraram lixo, e milhões de residentes tiveram de deixar suas casas. Em algumas comunidades, o governo finalmente entrou no circuito para remover os destroços. Em outras, a destruição se amplia. Dessa forma, mesmo aqueles que foram modelos de cidadão, cuidadosos em seu endividamento e na manutenção de seus lares, agora verificam que o mercado desvalorizou suas residências além do que podiam supor seus piores pesadelos.

A bem da verdade, houve alguns benefícios de curto prazo no excesso de investimentos no mercado imobiliário: alguns americanos (talvez durante apenas alguns meses) gozaram do prazer de ter sua própria casa e de morar numa residência maior do que a que poderiam ter. Mas a que custo para eles mesmos e para a economia mundial! Milhões ficaram sem as economias de toda a vida quando perderam suas casas. E os arrestos de residências provocaram uma desaceleração global. Há um crescente consenso a respeito do prognóstico: ela será prolongada e abrangente.

Os mercados também não nos prepararam para os custos ascendentes do petróleo e dos alimentos. É claro que nenhum dos dois setores serve de exemplo de livre mercado, mas este é, em parte, o ponto: a retórica do livre mercado tem sido usada seletivamente — abraçada quando serve a interesses especiais, descartada quando não o faz.

Talvez uma das poucas virtudes do governo de George W. Bush é que o fosso entre a retórica e a realidade é menor do que no tempo de Ronald Reagan. Apesar de toda a retórica de Reagan sobre o livre comércio, ele impôs livremente sanções comerciais, incluindo a notória restrição “voluntária” das exportações de automóveis de concorrentes dos EUA.

As políticas de Bush foram piores, mas a abrangência com que ele serviu abertamente ao complexo industrialmilitar americano foi mais aparente. A única vez que o governo Bush se vestiu de verde foi na questão dos subsídios ao etanol (de milho), cujos benefícios ambientais são duvidosos.
Distorções no mercado de energia (especialmente via sistema fiscal) continuam, e se Bush tivesse acabado com elas, as coisas ficariam ainda piores.

Essa mistura de retórica de livre mercado e intervenção governamental foi particularmente ruim para os países em desenvolvimento. Foi-lhes dito para deixar de intervir na agricultura, expondo assim seus fazendeiros à devastadora concorrência dos Estados Unidos e da Europa. Eles poderiam competir com seus pares americanos e europeus, mas não com os subsídios dos EUA e da União Européia. Não surpreende que os investimentos em agricultura tenham caído nos países em desenvolvimento, ampliando o fosso entre os que têm e os que não têm o que comer.

Os custos recairão sobre os habitantes dos países em desenvolvimento, especialmente os pobres. Este ano, deveremos assistir a um grande aumento da pobreza, especialmente se a medirmos corretamente.

Para simplificar, num mundo de abundância, milhões nos países em desenvolvimento ainda não conseguem os ingredientes nutricionais mínimos. Em muitos países, aumentos nos preços de alimentos e energia terão um impacto devastador sobre os pobres, porque esses itens respondem por uma percentagem maior de seus gastos. A raiva ao redor do mundo é palpável. Especuladores, não é surpresa, recebem uma parte pequena dessa ira. Eles argumentam: não somos a causa do problema; estamos apenas engajados em “descobrir preços”, em outras palavras em descobrir — um pouco tarde demais para fazer algo a respeito este ano — que há escassez.

Mas essa resposta não é sincera. Expectativas sobre volatilidade de preços em alta encorajaram centenas de milhões de fazendeiros a tomar precauções. Eles poderiam ganhar mais se guardassem um pouco de seus grãos para vender mais tarde; e se não o fizerem, poderão não consegui-lo depois se a colheita do ano seguinte for menor do que o previsto. Um punhado de grãos retirado do mercado por centenas de milhões de fazendeiros em todo o mundo faz diferença.

Defensores do fundamentalismo e mercado querem transferir a culpa pela falha do mercado para o governo. Um alto funcionário chinês disse que o problema foi que o governo dos EUA deveria ter feito mais para ajudar os americanos de baixa renda na crise hipotecária. Eu concordo.
Mas isso não muda os fatos: os bancos americanos erraram no cálculo dos riscos numa escala colossal, com conseqüências globais, enquanto os responsáveis por essas instituições saíram de cena com bilhões de dólares em recompensas.

Hoje, há um descompasso entre o retorno social e o privado. A menos que sejam corretamente alinhados, o sistema de mercado não pode funcionar bem. O mercado neoliberal fundamentalista foi sempre uma doutrina política a serviço de certos interesses. Nunca recebeu o apoio da teoria econômica. Nem, agora fica claro, recebeu o endosso da experiência histórica. Aprender essa lição pode ser a nesga de sol nas nuvens que hoje pairam sobre a economia global.


Joseph Stiglitz in The End of Neo-liberalism?
publicado por Project Syndicate em Julho de 2008

© Project Syndicate, 2008.
www.project-syndicate.org

Tradução portuguesa em Arquivo de Artigos (O Globo)

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Quarta-feira, Julho 16, 2008

Mário Crespo - Tempestades de águas passadas

Mário CrespoNada nos objectivos e missão da Águas de Portugal a capacita para entrar nas ruinosas negociatas internacionais agora denunciadas pelo Tribunal de Contas. O que permitiu esta situação na AdP e noutras empresas públicas foram as interpretações abusivas do seu estatuto autonómico e o laxismo cúmplice de tutelas incapazes.

Foi na década de noventa que se iniciou o baile de máscaras que travestiu empresas do Estado em simulacros de corporações privadas de modelo americano. Houve na altura colossais transferências de Bruxelas para o Banco de Portugal que nos deram dinheiro como nunca se tinha visto. Verbas que a CEE confiava ao executivo português para serem usadas na tão necessária modernização do país.

A Águas de Portugal nasce dessa imensa bonança financeira, exactamente porque era dos sectores mais necessitados de infra-estruturas. E teve muito dinheiro para isso. O suficiente para desviar algum para umas apostas no jogo da roda internacional. A coberto do pretexto de que eram as suas áreas de perícia compraram-se participações financeiras no Brasil, Cabo Verde, Argélia, Angola, Moçambique e onde quer que os aguadeiros estatais precisassem de um parceiro endinheirado, esbanjador e inimputável.

Outras empresas públicas faziam o mesmo com a inebriante liquidez que o ECU nos trazia, e de repente, funcionários públicos mascarados de gestores privados passaram gerir esses sectores do Estado opados com dinheiros comunitários e a comportar-se como magnates num confortável jogo de monopólio com dinheiro a sério, que não era deles e que e parecia inesgotável. No processo foram desbaratando activos que são propriedade do povo português.

Foi nesse período que a PT, à força de ECU, derrotou telefónicas muito mais experientes e financeiramente estruturadas, numa doida corrida para comprar uma empresa de telecomunicações brasileira que Belmiro de Azevedo identificou logo, na OPA, como sendo o calcanhar de Aquiles da telecom lusa. Foi também nesse período que o próprio Banco de Portugal, num dos mais desastrados investimentos na nossa história, apostou reservas de ouro nacionais em acções de altíssimo risco que eram oferecidas em Wall Street aos apostadores mais ousados.

Tavares Moreira, então governador do Banco de Portugal, acreditou na Dona Branca americana que se chamava Michel Milken e prometia rendimentos miríficos. Milken acabou na cadeia. Portugal perdeu não se sabe ao certo quanto, mas foi o suficiente para fazer notícia numa edição da Newsweek.

Já se passaram mais de vinte anos sobre estes desastres financeiros, mas eles estão bem contabilizados no défice das contas públicas que andamos a equilibrar à custa de maternidades e escolas encerradas, pensões de reforma proteladas e desemprego, porque não há dinheiro.

Um pormenor importante: as alterações do estatuto das empresas públicas que lhes deram esta latitude e impunidade para esbanjamento do património nacional verificaram-se entre 1985 e 95. Era primeiro-ministro o professor Aníbal Cavaco Silva. Tudo o que veio depois é consequência de um modelo tragicamente errado.


Mário Crespo
Publicado no Jornal de Notícias de 7 de Julho de 2008

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Terça-feira, Julho 15, 2008

masson - Diário das sessões

massonMudam-se os tempos, mudam-se as vontades?
masson foi buscar, não o Diário da Sessão da semana passada com o debate sobre O estado da Nação, mas o de 2 de Outubro de 2003. Vale a pena ler.

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Segunda-feira, Junho 09, 2008

Daniel Estulin - Clube Bilderberg

Recebido por email (AF)
Daniel Estulin - 'Clube Bilderberg - Os Senhores do Mundo'
Preço :19,95 €
ISBN :9789727597840
Ano de Edição/ Reimpressão :2005
N.º de Páginas :300
Encadernação :Capa mole
Dimensões :15 x 23 x 2 cm
Disponibilidade :Esgotado ou não disponível ...(porquê? CENSURA?)

Sinopse

Imagine um clube onde presidentes, primeiros-ministros e banqueiros internacionais convivem, onde a realeza presente garante que todos se entendem, onde as pessoas que determinam as guerras, controlam os mercados e impõem as suas regras a todo o mundo dizem o que nunca ousariam dizer em público. Pois este clube existe mesmo e tem um nome. Ao longo dos últimos cinquenta anos, um grupo seleccionado de políticos, empresários, banqueiros e outros poderosos tem-se reunido em segredo para tomar as grandes decisões que afectam o mundo. Se quiser saber quem mexe os cordelinhos nos bastidores dos organismos internacionais conhecidos, não hesite: leia este livro.
Não temendo pôr em risco a própria vida, Daniel Estulin foi a única pessoa a conseguir romper o muro de silêncio que protege as reuniões do clube mais exclusivo e perigoso da história.
Fique a saber:
- Porque se reúnem os cem mais poderosos do mundo todos os anos durante quatro dias.
- O porquê do silêncio dos media em relação a estas reuniões.
- Que vínculos existem entre o Clube Bilderberg e os serviços secretos ocidentais.
- Quais os planos do Clube Bilderberg para o futuro da humanidade.




Mensagem de Daniel Estulin

«Chamo-me Daniel Estulin. Sou o autor de 'Clube Bilderberg - Os Senhores do Mundo'. Devido a algumas informações muito perturbadoras que temos recebido dos nossos amigos em Portugal, estou a escrever a todos os bloggers portugueses a pedir ajuda.

Recebi informações de alguém que trabalha para a Temas & Debates em Portugal que os editores receberam FORTES PRESSÕES de membros do governo PARA NÃO VENDEREM O LIVRO acerca do Clube Bilderberg. Aparentemente este apanhou mesmo o governo de surpresa e assustou-o. Têm medo que este se torne num fenómeno mundial. De facto, está a tornar-se num fenómeno mundial, uma vez que foi editado em 28 países e em 21 línguas.

Esta carta é um pedido de ajuda. Por favor enviem-na a qualquer pessoa disposta a lutar pela liberdade de expressão. O governo e o meu editor em Portugal, Temas & Debates, estão a tentar sufocar este livro porque têm medo que este possa criar uma base que se transforme num movimento populista em Portugal, como já aconteceu na Venezuela, na Colômbia e no México, nos quais a primeira edição esgotou em menos de 4 horas e causou manifestações em frente das embaixadas dos EUA, algo que, como é óbvio e devido ao bloqueio da comunicação social, você não viu nem ouviu na televisão nem na imprensa nacionais.
Se não enfrentarmos estas pessoas da Tema & Debates e do governo, elas irão vencer esta luta e nós, o povo, ficaremos UM POUCO MENOS LIVRES E UM POUCO MAIS PODRES INTERIORMENTE.

Peço a todos aqueles que queiram ajudar que:
1. Apelem a todos os bloggers que por aí andam a telefonarem para a Temas & Debates e perguntarem o que se passa e a EXIGIREM que vendam este livro. Já contactei todas as pessoas que conheço pessoalmente e estas estão a organizar uma campanha de telefonemas e de envio de cartas PARA TELEFONAREM OU ESCREVEREM À TEMAS E DEBATES E EXIGIREM UMA EXPLICAÇÃO.

2. Estão dispostos a telefonar aos vossos contactos na imprensa, aos vossos amigos e aos amigos dos vossos amigos e verem se estão dispostos a publicar esta história e em ajudarem? O que o editor e o governo mais temem é O ESCRUTÍNIO PÚBLICO E A ATENÇÃO INDESEJADA.

Quantas mais pessoas telefonarem e assediarem o editor, e o governo, menos possibilidades terão eles de levar essa tarefa a cabo. Se não fizermos algo seremos tão só MENOS LIVRES NO FUTURO. É ESSE O OBJECTIVO DA BILDERBERG. MAS NÃO É ISSO O QUE EU QUERO PARA OS MEUS FILHOS.

Com base nas nossas fontes no Porto e em Lisboa, descobri que a muitas pessoas têm ido à FNAC à procura do livro mas que, de acordo com a FNAC, 'o editor, por qualquer razão, não está disposto a vendê-lo.'
Posso dizer-lhes, por experiência própria em Espanha, que esta pressão funciona. Inicialmente a primeira edição foi de 4.000 exemplares que se esgotou num dia. A Planeta (a editora espanhola - nota do tradutor) estava a ser MUITO vagarosa no reabastecimento das livrarias. Organizamos uma campanha massiva na comunicação social na qual isto quase se transformou num ponto crucial para a liberdade de expressão. E funcionou. A Planeta cedeu, o livro avançou e actualmente foram vendidas mais de 65.000 cópias. Também podem divulgar este número na vossa página.

Além disso, estou a organizar uma série de seminários em Portugal para falar sobre os Bilderbergers e os Planos da Ordem Mundial. Esta atenção indesejada irá irritá-los profundamente. Os Bilderbergers são como vampiros. O que odeiam mais que tudo na terra é que a luz da verdade brilhe sobre eles.

Se isto resultar em Portugal, irei enviar uma dura mensagem a outros países que desejem ceder à pressão dos membros do governo ou a quem quer que seja.
Agradeço-lhe adiantadamente e estou disponível para o que possam desejar de mim.»

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Segunda-feira, Junho 02, 2008

Naomi Klein - O Capitalismo do desastre

Milton Friedman compreendeu que, tal como a determinação dos prisioneiros em resistir aos interrogatórios pode ser enfraquecida pelo choque no momento da captura, os grandes desastres podem servir para debilitar as resistências sociais face à sua cruzada radical pelo "mercado livre". Advertiu os políticos que imediatamente após o desastre as reformas devem ser aplicadas todas de uma só vez, antes que as pessoas recuperem o seu equilíbrio.
A melhor maneira de nos livrarmos do choque é mantermo-nos informados.

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Sexta-feira, Março 07, 2008

José Luis Sarmento - A intifada

José Luis SarmentoJá há muitos meses li um artigo de Miguel de Sousa Tavares em que ele atacava simultaneamente os professores, os médicos e os juízes. O artigo deixou-me, devo confessá-lo, duas impressões contraditórias. Por um lado verifiquei que o autor teve a perspicácia - caso único entre os nossos fazedores de opinião - de entender que há entre essas três profissões um elemento comum que atrai sobre elas a fúria da classe política pós-moderna, bem como da tecno-burocracia que a rodeia e sustenta. Por outro, verifiquei que essa perspicácia não chegava ao ponto de entender qual é e como se caracteriza esse ponto comum.

Para ler Miguel de Sousa Tavares e entender o que o faz correr, convém estar a par de um elemento central da sua idiossincrasia: por razões de educação ou de opção filosófica, ou por circunstâncias da vida impossíveis de destrinçar, o homem é um viciado em pogroms. Convoque-se um qualquer tumulto contra um qualquer grupo a que se possam apontar privilégios - e lá está o nosso Miguel, armado de um chuço, no meio da multidão e confundido com ela, pronto a espancar, a incendiar, a esventrar.

É a sua natureza: nada a fazer.

Mas o que há de comum, então, entre juízes, médicos e professores? Em primeiro lugar, é claro, os privilégios de que gozam ou de que têm fama de gozar. Não se trata de um elemento despiciendo: o discurso dos privilégios é hoje central, como é central há milénios, na retórica dos convocadores de pogroms. Serão reais, estes privilégios? Claro que sim. Como todas as profissões, também estas têm vantagens e desvantagens para quem as pratica. Varramos as desvantagens para debaixo de tapete, e presto: cá temos as vantagens transformadas em privilégios para fins de propaganda e arruaça política.

O segundo elemento comum é o facto de se tratar de corporações no sentido medieval e europeu do termo. Para quem deseja ver o mundo transformado numa imensa América, estas remanescências da História são intoleráveis. Na América tudo é simples. Cada um, ou é um homem de negócios, ou é um trabalhador. Como muitos trabalhadores aspiram a tornar-se homens de negócios, votam Republicano contra os seus próprios interesses.

A um europeu, nada o impede de ser um homem de negócios, ou um trabalhador, ou as duas coisas, tal qual como um americano; o que lhe complica e enriquece o estatuto é que é muitas outras coisas além disso. O europeu é membro da sua família, do seu clã, da sua rede de solidariedades, da sua hierarquia profissional ou académica, da sua corporação milenar. Tudo isto parcialmente à margem - e aqui está o que é intolerável para os políticos pós-modernos e para os tecno-burocratas - da estrita racionalidade económica pela qual gostariam que o mundo se ordenasse.

O terceiro elemento comum é o facto de serem profissões cuja identidade e função se construíram na História. Quando a praga dos gestores se abateu sobre a Europa depois de ter reorganizado a América, encontrou resistências com que não contava. Quis organizar os juízes para a mais eficaz defesa dos mercados - e encontrou-os teimosamente agarrados à ancestral convicção de que a sua função é fazer justiça. Quis mobilizar os médicos para que se encarregassem da manutenção duma mão-de-obra rentável, e encontrou-os convencidos de que a sua função é tratar das pessoas. Quis converter os professores às maravilhas da indústria transformadora - num extremo da linha de montagem entram pessoas, do outro saem recursos humanos - e encontrou-os obstinadamente agarrados ao preconceito medieval de que as pessoas são a razão última do seu trabalho, e não a sua matéria-prima.

Tudo isto deve ser horrivelmente frustrante para os políticos pós-modernos, para os tecno-burocratas, para os gestores ainda frescos de Boston. Esta Europa parece-lhes velha e sem emenda. Onde esperavam encontrar colaboradores entusiásticos, encontram a cada passo empecilhos, atavismos, cepticismos obstinados - intelectuais, para dizer tudo; e palavra nenhuma exprime, no vocabulário dos nossos tecno-burocratas, um extremo mais fundo de abjecção. Os tecno-burocratas traziam nas pastas de executivo um mundo novo, pronto para ser apresentado em Power-Point aos labregos embasbacados da Velha Europa - e ninguém quis saber dele. Veio-lhes ao de cima um ódio, uma vontade de justiça ou de vingança - e encontraram a estratégia que lhes é própria, que lhes está na massa do sangue, o seu Choque e Pavor: adoptaram, como instrumento de acção e ética de trabalho, a tortura.

Aos juízes, sobrecarregaram-nos de trabalho ao mesmo tempo que os impediam de fazer justiça. Aos médicos dos serviços públicos, reduzem-nos à exaustão física, emocional e psicológica - mas não os deixam tratar doentes. Aos professores, carregam-nos de tarefas inúteis, quando não nocivas, e despojam-nos de cada minuto que possam ter de tempo livre - mas não lhes permitem, em caso algum, que ensinem.

É a tortura de Sísifo. É por aqui que esperam vergar-nos. Mas não conhecem a natureza humana. Não sabem que os juízes, os médicos e os professores são seres humanos - e que a sua tendência, como a de qualquer animal, é odiar quem os trata mal. E que vão acabar por se unir contra o inimigo comum.

Mas os burocratas sentem, confusamente, que alguma coisa não está bem. Sabiam que iam ter a oposição de muitos - mas não contavam com a insurreição de quase todos. Os governantes e os seus séquitos evitam cada vez mais visitar os tribunais, os centros de saúde e as escolas. Quando não podem evitar lá ir, vêem algo de inquietante nos olhos dos magistrados, dos médicos, dos professores, dos funcionários, dos utilizadores, dos alunos. Alguns de entre eles, mais sensíveis aos ambientes, apercebem-se de que estão a ser figurativamente apedrejados. Num ou noutro caso, sê-lo-ão literalmente - e não precisarão de especial sensibilidade para entenderem o que lhes está a acontecer.

Os políticos portugueses e europeus entraram pelas instituições da sociedade civil como Bush pelo Iraque, esperando ser recebidos com flores. Agora perguntam: porque é que nos atiram pedras?!

Permitam que lhes responda: atiramos-lhes pedras porque não temos Kalatchnikovs.



José Luis Sarmento in As minhas leituras, 8 de Janeiro de 2008

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Domingo, Dezembro 09, 2007

Pascal Lamy - Capitalismo tout court

Como alguém já reparou, o termo clássico "capitalismo", sob a ofensiva ideológica do sistema, foi sendo substituido pelo termo "neoliberalismo". Tal, porém, não aconteceu com o actual Director da Organização Mundial do Comércio (OMC). (AF)
O sistema tende a tornar os ricos cada vez mais ricos, desde que possuam capital; e os pobres cada vez mais pobres, desde que possam contar apenas com a sua força de trabalho.Pascal Lamy



Entrevista completa: Daniel Fortin & Mathieu Magnaudeix,
Nous ne pouvons pas nous satisfaire du capitalisme

publicado por Chalenges.fr a 6 de Dezembro de 2007

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Segunda-feira, Junho 25, 2007

Patrick Keefe - Não privatizem os nossos espiões

Nem só a Câmara Municipal de Lisboa anda em roda livre no outsourcing. Veja-se até onde já chegam os campeões do neo-liberalismo.(AF)


David SuterLogo a seguir ao 11 de Setembro, o senador Bob Graham, presidente da Comissão do Senado para a espionagem, apelou à "relação simbiótica entre a comunidade de espionagem e o sector privado". Foi então dito que deveríamos ter cuidado com o que queríamos.

Nos anos subsequentes foi desenvolvido um imenso complexo industrial de espionagem, à medida que o governo contratava externamente tudo, desde a tecnologia de vigilância até gestão de gabinetes oficiais no estrangeiro. Hoje, menos de metade dos membros em serviço no Centro Nacional de Contra-terrorismo em Washington são funcionários do estado, segundo noticiou o Los Angeles Times; No escritório da CIA em Islamabad, Paquistão, as contrataçóes externas ultrapassam o número de empregado na razão de três para um.

Que parte do orçamento de espionagem vai parar a mãos privadas? Como o orçamento está abrangido pelo mais alto grau de secretismo e muitos contratos são feitos sem controlo de custos ou confontos de competitividade, parece que nunca haveremos de saber. Até que, no mês passado, um funcionário superior da Procuradoria do Gabinete de Direcção da National Intelligence fez uma apresentação em PowerPoint numa conferência no Colorado e deixou escapar um dado estatístico espantoso - os contratos privados ascendem agora a 70% do orçamento para a espionagem.

Excerto do artigo de Patrick Radden Keefe:
Don’t Privatize Our Spies
publicado pelo New York Times em 25 de Junho de 2007

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Quarta-feira, Março 07, 2007

Heinrich Wohlmeyer - o mundo em que vivemos



...Se não fecharmos os olhos, descobrimos os sinais da tempestade. Sucedem-se as terapias dos sintomas, mas não se atacam as causas. Como exemplo, as reacções ao último inquérito PISA relativo à qualidade do ensino: a psicóloga Chrisla Meves já previa, há 25 anos, numa conferência dada em Österreichische Industriellenvereinigung, que a destruição da família protectora e o enfraquecimento da cultura dos valores da vida comunitária daria lugar a indivíduos insatisfeitos, incapazes de concentração, de perseverança e inadaptados para os constrangimentos da vida conjugal. Tais indivíduos tornar-se-iam um fardo e trariam a ruptura do contrato social. A isto, acrescem os regulamentos económicos, cuja alteração já era também considerada necessária nas décadas de 1970 e 1980 (reforma fiscal, por exemplo), mas que não foram tocados, por egoismos privados, lassidão, lealdades não declaradas ou simples ignorância (ou ainda tudo à mistura). A corrida - organizada de maneira «efficaz» - para a autodestuição individual e mundial prossegue à vista desarmada.

Mundialização dos mercados financeiros

Toda a terapia supõe um diagnóstico lúcido. Eis porque iremos debruçar-nos brevemente sobre as grandes tendências que se podem detectar.

O primeiro domínio mundializado, motor de toda a mundialização, é o dos mercados financeiros. As finanças lutaram para alcançar a liberalização mundial e, com a ajuda da electrónica e da informática (redes mundiais), tranformarem-se na primeira forma de mundialização verdadeira. Isto não conduziu apenas à acumulações transnacionais de dinheiro, mas também a pressões enormes sobre a economia real. Com os juros acumulados, os capitais aumentam de forma sustentada; volumes de capitais cada vez maiores absorveram investimentos cada vez mais significativos (sem contemplações pelas situações sociais e ecológicas locais), mas são atraídos tambem pelo mercado monetário, em especial os mercados derivados que estão desligados da economia real. Esta tendência não satisfaz o conceito de tecnologia adequada nem o de descentralização, logo, contraria o princípio da adaptação.

A maior parte das instituições financeiras nacionais carecem de dimensão para disputarem nesse terreno. Então, estabelecem parcerias com os «global players» ou deixam-se absorver por eles. Em ambos os casos há alienação, pois os que decidem são desprovidos de lealdade nacional ou sentido de responsabilidade ecológica, social ou económica local. Isto é confirmado pelo facto de o volume comercial representar aproximadamente o dobro do valor dos bens produzidos e as transferências financeiras representarem quinze vezes esse valor. Este comércio hipertrofiado ilustra a medida em que as finanças globais se desprenderam da economia real.[...]

Aumenta a clivagem social

A distância entre os países mais pobres e os países mais ricos, tomando como medida o produto nacional bruto, aumentou ao longo das três últimas décadas, tendo passado da razão de 1 para 30 para a razão de 1 para 60. Dentro dos estados, também se alargou de forma contínua o fosso entre os mais ricos e os mais pobres. Isto deve-se, em parte, à dinâmica dos capitais - devida à acumulação de juros e às vantagens fiscais - mas principalmente ao facto de os rendimentos dos salários não acompanharem os aumentos de produtividade. O conhecido desígnio do capitalismo renano (Ludwig Erhard 1897-1977), pelo qual os progressos da produtividade deviam beneficiar a população, aumentando o seu poder de compra, caducou.[...]

Problemas orçamentais do estado e das organizações internacionais

A dinâmica que poupa aos ricos o peso dos impostos e impõe ao resto da população a redução dos rendimentos, especialmente devido ao desemprego, resulta na redução das receitas do estado. Com os orçamentos nacionais deprimidos, as contribuições dos estados para as organizações internacionais também sofre. A margem de manobra para investimentos sociais fica reduzida.

Perda contínua da legitimidade dos políticos nacionais

As tendências acima apontadas também conduzem à instablidade política, porque a maior parte dos cidadãos atribui a responsabilidade pela deterioração da sua situação aos eleitos locais, ainda que a acção destes políticos seja limitada por constrangimentos materiais da economia global que não está na sua mão alterar. Os descontentes tendem a engrossar as fileiras dos movimentos extremistas, que prometem transformações radicais. Emergem então fenómenos que lembram os anos 1930.

Para além das tendências referidas, que interagem mutuamente, é necessário considerar outros factores.

Hipermobilidade geográfica

A concepção neoliberal em voga exige mobilidade total da mão-de-obra. A sua velocidade de adaptação deve seguir a vertigem dos movimentos de capitais, o que leva à erosão social, pelo que representa de dissolução dos laços de solidariedade locais que só são possíveis com um mínimo de estabilidade. Sofrem os processos de socialização das crianças e o dos adolescentes, cujo desenvolvimento requer um espaço delimitado onde possam experimentar os seus comportamentos sociais.

Mas este requisito de mobilidade profissional excessiva conduz, antes do mais, à substituição do sentimento profundo de segurança pelo de medo, assumindo um carácter pandémico. Nos anos do pós-guerra na Europa, a política económica foi o oposto desta: em favor do desenvolvimento regional, com acesso criterioso aos meios financeiros e colocação à disposição de infra-estruturas que facilitassem o desenvolvimento de postos de trabalho para todos. Foi uma política consciente de descentralização, resultante do conhecimento de que a reconstrução, após o colapso das relações interregionais, só podería efectuar-se pela revitalização da vida comunitária na base da auto-organização.

Hipermobilidade profissional

Bem cedo, Hans Zeier alertou para o ritmo de adaptação intrínseco ao homem. O sobre-esforço pode conduzir a uma grave instabilidade psicológica, susceptível de empurrar os indivíduas para refúgios em mundos virtuais. Ao sobre-esforço provocado pela adaptação desregrada, junta-se o medo de perder o emprego e a impossibilidade de prever a sua situação social assim como a sua situação económica no momento da velhice.

A resposta a estes medos é, frequentemente, a fuga para a falsa segurança oferecida pelo nacionalismos fundamentalistas e pelas seitas religiosas. Em casos extremos, isto pode conduzir ao aparecimento de «associações mutualistas» paralelas às do estado. Os custos sociais elevados associados a estas escapatórias não são tidos geralmente em consideração.[...]

Estratégias de dominação desestabilizantes dos Estados Unidos da América (EUA)

Ao fazermos o exame dos duzentos anos de história dos EUA, observamos que, excepção feita à guerra pela independência, todas as outras foram guerras de conquista ou guerras de «recuperação de fundos». Entre as guerras de conquista estão o extremínio dos índios, a do controlo do canal do Panamá e a do Novo México. A guerra de «recuperação de fundos» mais séria foi a Primeira Guerra Mundial. Como W. F. Engdahl mostrou no seu livro A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, já na primeira guerra mundial a qustão foi o petróleo. Com o caminho-de-ferro de Bagdad, os alemães tinham ganho o acesso às jazidas de petróleo recém-descobertas de Mossul e KirKuk contornando o canal de Suez. A Inglaterra inquietou-se logo que os engenheiros alemães conseguiram passar as montanhas da Anatólia e diante dles se estendeu a planície da Mesopotâmia.


Excertos traduzidos da versão em francês de:
Heinrich Wolhlmeyer, "Globales Schafe Scheren. Gegen die Politik das Niedergangs"
publicado por Horizons et débats em 2 de Março de 2007

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Segunda-feira, Março 05, 2007

Neoliberalismo e linguagem

Recorrência das palavras

...Cada forma particular de linguagem é caracterizada pela frequência do uso de constelações de palavras...
A linguagem neoliberal, mesmo quando se refere à Educação, é dominada pelos termos do mercado. Os autores contaram o número de vezes que determinadas palavras-chave ocorreram no Relatório da OCDE "Review of National Policies for Education: Review of Higher Education in Ireland" (OECD, Dublin 2003):


investigação293
estudante179
aprendizagem48
I&D42
competitivo27
mudança23
ensino21
mercado20
estudo18
organização16
indústria15
negócio13
gerente9
competição5
professor2
assistente2
intelectual2
biblioteca1
estudo individual0
literatura0

Confusão de conceitos

Significativamente, as palavras mais usadas são investigação e I&D e, apesar das suas conotações totalmente distintas, são usadas intermutavelmente. Por exemplo:

...[Um] número de medidas tem que ser tomadas para criar uma cultura de investigação sustentada que proporcionará a quantidade de recursos necessários para atrair empresas internacionais em número muito maior que actualmente, dispostas a investir em I&D na Irlanda e sustentar a indústria indígena...

Repetidamente, ao longo do documento, o deslize entre os dois termos embacia, de tal modo que a referência a um dos termos se transforma na referência ao outro. Uma frase do relatório diz:

...A Irlanda necessitará de traduzir os seus investimentos em áreas de nicho de desenvolvimento nas universidades numa cultura alargada&aprofundada (broadeR&Deeper) de investigação antes que uma ou mais dessas universidades se possa classificar como universidade de investigação de 'nível mundial'.

A identificação entre investigação desinteressada empreendida por um académico ou um grupo de académicos e as actividades de I&D das corporações destinadas ao mercado são amalgamadas, o que revela a medida em que o pensamento dos autores é orientado para a indústria e para o mercado.

Excerto traduzido de:
The Interconnections between Neo-liberalism and English
Marnie Holborow, 29 de Maio de 2006

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