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Quarta-feira, Abril 01, 2009

Desencontro com Jorge Macedo

Jorge MacedoLisboa, Aeroporto, Março de 2009. É ele, é Jorge Macedo na paragem. Vou sair aqui. Há tempos que o procuro sem conseguir encontrá-lo. Já lá vão quase trinta anos que não falamos. O autocarro parou, as portas abriram-se. Espera aí, parece que ele vai entrar. Jorge Macedo hesitou. Acompanhei-lhe os movimentos. Nessa altura, fechou-se a porta de saída. Pode ser que ele entre. Mas não, não aconteceu. A porta de entrada fechou-se também. Ao início da marcha do autocarro, tentei chamar a sua atenção através do vidro. Alguma ideia o absorvia, e cruzámo-nos a uns escassos dois metros.
  1. Luanda, 1983. Há um ano que abandonei o Coro Universitário de Luanda. Sem esperar, recebo a visita da São. Ferrão, recebemos um convite para ir a Itália. Aparece lá amanhã, vamos fazer uma reunião da Direcção. Assim fiz. Antes da reunião, assisti ao ensaio. Jorge Macedo estava mais solto. Mais de metade do reportório já era da sua autoria. Artista completo, não era maestro. Só poderia dar-lhe esse nome caso não houvesse ultrapassado três patamares que alteram a natureza das pessoas: já publicara prosa, já publicara poesia, agora divertia-se com as suas próprias composições. O brilho que um criador dá aos que beneficiam do seu contacto transcende a mera reprodução de técnicas, mesmo artísticas. Estão em níveis diferentes. Qual é o problema com Itália? Não temos dinheiro. Só isso? Então é fácil. Vamos dividir-nos em brigadas. Boavida, escolhe a tua escolta. Vais atacar as empresas multinacionais, precisamos de dólares para gastar. Irei às empresas industriais, as únicas onde ainda se cria riqueza e que já conheço porque que trabalhei nesse ministério com o saudoso e fuzilado Edgar Vales. Precisamos de kwanzas para a coreografia. Jorge Macedo conhecia pessoalmente Violante Ferrão, uma prima minha por afinidade e que, embora divorciada, eu gostava de continuar a tratar como prima. Jorge Macedo convenceu-a a conceber de graça os trajes a serem confeccionados. Cumplicidade de artistas, pensei. Nos dias seguintes foi uma azáfama. Fugando ao serviço com desculpas de ir à bicha do peixe, lá fui a umas dezenas de fábricas, quase todas na Zona Industrial do Cazenga, mas também na do Cacuaco. Aproximava-nos cautelosamente, isto tem que dar certo. À minha esquerda a doce São, pretinha estudante de Medicina, pouco acima dos vinte. À minha direita uma mulatinha dos cursos pré-universitários, muito afamada como Minjita, como gostava de acentuar. Nenhuma delas acreditava que conseguíssemos o kumbu. Enquanto nos aproximávamos da primeira fábrica, parecíamos um galheteiro. Abracei as duas. Tu, São, és o azeite e tu, Minjita, o vinagre. Precisamos dos dois. As moças sabiam preparar-se para a ocasião. Uma vez no gabinete da Direcção, expunha o nosso projecto. Angolano não é de muita dieléctica, se gosta apoia a idéia. O Coro havia-se estreado um ano antes e entrou numa fase muito aguda da história de Angola, tendo funcionado como elemento de distensão social poderoso, tal como algumas intervenções (poucas) de alguns escritores. Ideia original de Pepetela, então Ministro da Educação. O Director chamou o Chefe da Contabilidade, mandou preparar o cheque. Este resmungou, problemas de tesouraria, em vão. São e Minjita não queriam crer: cem mil kwanzas era um número que nunca tinham ouvido falar. Abeiraram de cada lado da cadeira do Director para ver o aspecto do "bicho". Uma vez assinado, cada uma descarregou um shmak sentido na bochecha mais próxima, o que plantou o Director nas nuvens. E vendo isso, pensava eu com os meus botões como a vida podia ser simples e alegre. Cheque no bolso, regressávamos ao fusca. Nesta altura, mudávamos de funções. A atrevida Minjita, a doce São e o reanimado António eram de seguida promovidos a o motor de arranque, que isto de em Angola contar com as baterias não é para todos os dias. Só aconteceu uma vez, mas também encontrámos um director-cromo, um biaco só mesmo podia ser, mais dado ao transcendental. Ensaiou uma prosápia estranha. Angola está em condições difíceis, começou. Ora, meu Amigo a quem o dizes. Vai vender o teu peixe aos ingleses, pode ser que o comprem. Dadas as circunstâncias, insistiu, parece-me inoportuno atribuir-se prioridade a gastos desajustadas às necessidades mais elementares, pois nem essas conseguimos satisfazer. Estes biacos aprenderão a viver no momento da primeira cavadela da sua sepultura. Passei-me. Cortei recto. Não estou aqui para preparar condições para que os meus netos partam um dia para Itália. Eu quero estar em Itália daqui a quinze dias. Esbugalhou os olhos. Quase de certeza, não acreditou. Que posso fazer? Quatro milhões em kwanzas, metade em divisas. Chega.
  2. Roma, 1983. Os moços e moças dos muceques, do Marçal, do Sambizanga, do Cazenga, das Ingombotas, os sambilas, uns calus outros malanjinos, alguns do planalto, outros de Benguela e até do Moxico, nenhum deles tendo anteriormente saído do país, da primeira vez que o fizeram aterraram em Roma. Esta cidade é linda. De facto, não é uma cidade. É a rainha de todas as cidades. Ela própria é uma pilha de cidades sobrepostas, onde convivem prédios modernos com arquitectura arrojada com bairros quase da idade média, aconchegadores nos suas praças pequenas com esplanadas e rodeadas de casas de primeiro andar com varanda onde ainda se pode ver raparigas a entornar os seus encantos aos praças e magalas da rua. As romanas também são únicas. Olham de frente, não pousam os olhos no chão. Falam como quem desafia, sem darem por isso. A cozinha italiana pode parecer estranha. Quase todos se queixaram que a massa estava crua. Felizmente, tínhamos enviado um pisteiro à frente, para reconhecer o terreno. Advertiu-nos. Não se atrevam a queixar-se da massa. O ponto de cozedura é onde o cozinheiro deposita toda a sua mestria. Aprendam esta expressão italiana: al dente. O café parece desaparecer no fundo da chávena. Quase não é preciso bebê-lo, o odor solta-se desde longe e ultrapassa o sabor. Os italianos ficam lamechas quando se lhes oferece umas notas de música. Aconteceu no restaurante, quando lá caímos pela primeira vez e o dono ofereceu, com óbvias intenções, uma aguardente por conta da casa. Com as goelas aquecidas, os membros do coro começaram a cantar. O rebuliço das conversas deu o sumiço. Não só enquanto durou a canção, mas depois das palmas de agradecimento. Queriam mais. Pois então.
  3. Gorítzia, 1983. Cidade do Nordeste de Itália, cortada a meio pela fronteira com a Jugoslávia. O Coro de Luanda veio participar extra-concurso no Festival Internacional de Coros da cidade. Estavam lá coros de toda a Europa, Tanto do Ocidente como de Leste, o nosso era o único vindo de fora. Era também a sua primeira actuação internacional. Eu estava como convidado dos convidados. Angolano não esquece, nem manda recados. Porém, eu sentía-me mais à vontade que todos os restantes. Não só os do coro convidado, mas de todo o festival. Assistia às actuações dos participantes ao prémio do concurso. Olhava para os membros do júri. As vozes pareciam-me tecnicamente perfeitas, as composições elaboradas. Será que era necessário tanta sofisticação apenas para pôr emoções cá fora? Ao fim de dois dias anunciaram para aquela noite a entrada do Coro Universitário de Luanda. Jorge Macedo abeirou-se de mim no passeio pelo jardim após o almoço. Ó Ferrão, começamos pela canção italiana ou pelo Gaudeamos? Estremeci. Como era possível Jorge Macedo pôr-se com reverências perante obras alienígenas? Nada disso, retorqui. Confesso que nunca irei entender os artistas. O único representante ali presente da música da grande África, feita de dores sem medida, de mortes próximas e afastadas, de mínguas várias e muita, muita alegria para compensar tudo o resto, estava a vacilar? Se em África até o pranto dos funerais se confunde com o riso? Se em África as cordas vocais nunca ditaram regras ás exigências do coração? Se África nunca tentou sufocar o ritmo em exacerbações da melodia, tampouco sentiu necessidade de inverter esse pecado em esgares de sintetizadores ou potência de amplificadores. Ora bolas. Naquele momento decidi armar-me em director, logo eu, que odeio tudo quanto se relaciona com tais artes, só aprecio pessoas na medida em que tenha a certeza de que se movem livres à minha volta. Jorge, vamos atacar com a última canção introduzida no reportório, é o tema que me parece mais forte. Depois escolhemos, por esta ordem, o fecho da segunda parte, a abertura da segunda e o fecho da primeira. Ao fim de alguns minutos e sem polémicas, tínhamos a armação do concerto. Distribuimos as restantes peças. Jorge Macedo parecia mais animado. Faltam o tema italiano e o Gaudeamus, lembrou. Jorge Macedo, que tal deixar esses de fora do programa a apresentar ao público? Poderão ser colocados em qualquer momento do espectáculo. Aquiesceu. À noite, quando o Côro subiu ao palco, era impossível não reparar na sua singularidade. Os trajes em cores ostensivamente garridas, as figuras esbeltas das moças (pudera) sobreelevadas pelos turbantes de Cabinda, os sorrisos abertos em todas as caras, que isto de comer bem durante vários dias seguidos altera a disposição de qualquer um. O tema de entrada correu conforme tinha previsto. Um tema de autor, explorando o poderoso naipe dos baixos vindos de uma igreja protestante de Luanda, com variações rítmicas evidentes ma transposição das frases, notas bem recortadas e carregadas de emoção, lembrava o vôo indolente mas caprichoso de uma ave de arribação em puro gozo de contemplação da paisagem. Aposta ganha, conforme o testemunharam os aplausos de pé da assistência. Metade desta era composta pelos elementos dos coros participantes, outra metade pelo público italiano. A meio da segunda parte, Jorge Macedo voltou a falhar ao tema anunciado pela apresentadora. Já na primeira parte introduzira uma canção da resistência italiana. Agora dava voz à primeira frase do Gaudeamos Igitur. Para quem eventualmente não saiba, este é uma espécie de hino escolar cantado em todo o mundo. Sendo de pronto reconhecido ao fundo da sala, levantou-se espontaneamente um numeroso naipe suplementar de contraltos que, além de reforçarem as vozes do coro actuante, alargaram a dimensão espacial da fonte dos sons. Em poucos segundos, todos os elementos de todos os coros se levantaram e fizeraqm questão de libertar a sua vontade de participar. Jorge Macedo virou-se então de costas para o coro que regia e continuou a reger a plateia transformada num côro monumental com centenas de vozes alegres e honradas por este cumprimento africano à música europeia. Tornou-se assim, de forma inesperada e e involuntária, no único maestro de todo Festival a dirigir uma peça com todos os coros participamntes. O resto pode imaginar-se. Fotógrafos a perseguir os elementos femininos do Côro, que graciosamente cederam a sua imagem a capas de revistas, maestros a trocar partituras com Jorge Macedo, apesar de nenhum deles perceber kimbundu ou português.
Lisboa, Amoreiras, Março de 2009. Por onde andará toda esta gente? Quantos terão morrido na guerra? Quantos acabaram o curso, quantos puderam seguir o curso que gostavam, quanto exercem em Angola? Ó Amigo, fim-da-linha. Ou sai ou compra novo bilhete. O quê, onde estamos? Nas Amoreiras, não vê? Diacho, queria ir para o Campo Pequeno. Agora já não consigo chegar a tempo. Preste atenção às paragens na próxima vez.

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Domingo, Março 16, 2008

IST, 16 de Março de 1972

Instituto Superior Técnico


Alguns elementos da Direcção da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico (AEIST), vigente no ano anterior, haviam sido presos pela Direcção Geral de Segurança (DGS). Tal motivou um comunicado aos estudantes, istando o Director do Instituto Superior Técnico (IST), o Eng Químico Dr Fraústo da Silva, a obter informações sobre o acontecimento. Cerca das dez da manhã, aparentemente porque essa iniciativa que dava visibilidade às prisões não agradava à DGS, uma força policial significativa concentrou-se em frente ao portão principal do IST. O Dr Fraústo da Silva ficou alarmado com a situação e advertiu a polícia de que, enquanto ele fosse Director do Instituto, a polícia não tinha autorização de entrada nas instalações. Como seria de esperar, reinava grande efervescência entre os estudantes, surpreendidos por estes factos numa normal manhã de aulas que nada fazia prever que viesse a ser diferente das outras. As aulas foram interrompidas e concentraram-se todos na grande calçada em frente ao Pavilhão Central. Alguns estudantes tomaram espontaneamente a palavra, entre eles João Sarmento e Acácio Barreiros. Apelavam à calma para que se evitasse qualquer provocação. Quando eram cerca da dez e meia, deu-se a entrada intempestiva da Polícia pelo portão principal, voltado para a Alameda Afonso Henriques. À frente vinham agentes com cães polícia à trela. Foi a confusão geral. Nem todos os estudantes se aperceberam ao mesmo tempo. Seguiu-se uma correria desordenada em direcção aos dois portões laterais. Quando a frente de ataque da polícia ficou descoberta, tomei também o meu caminho, em direcção à Avenida Rovisco Pais. A meio da descida para o portão estava um monte de corpos engalfinhados, de onde sobressaiam as pernas das estudantes que levavam saias, assim como sapatos e pastas, canetas e réguas de cálculo espalhados pelo chão - uma presa demasiado fácil para os agentes que se aproximavam. Por mim, como uma flecha, vejo passar o Fred - mais tarde seria uma membro do Comité Central da UDP - gritando bem alto "Filhos da Puta". Isto deu-se perto do Instituto Nacional de Estatística.
A invasão do Técnico (abreviatura de IST) pela polícia nesse dia viria a tornar-se o elemento de detonação de acontecimenhtos marcantes na fase final do marcelismo, que ainda durou mais cerca de dois anos:
  1. Do ponto de vista de hábitos estudantis, as saias das estudantes passaram a dar lugar às calças, geralmente as jeans; os sapatos altos foram substituídos rapidamente por ténis.
  2. Nesse mesmo dia, o Director do IST, o Dr Fraústo da Silva, demitiu-se.
  3. Nesse mesmo dia, a AEIST foi encerrada.
  4. Pela reabertura da Associação foi feita a greve aos exames mais participada de toda a Academia em Portugal: dos cerca de cinco mil estudantes, apresentaram-se a exame cerca de cinquenta estudantes, ou seja, perto de um por cento. Para conseguirem realizar os exames entraram no Técnico em veículo de transporte policial. Mesmo assim, houve que aderisse à greve mesmo já estando na sala de exames, em parte por não compreender porque razão tão pouca gente lá estava, em parte porque era audível o burburinho que entrava pelas janelas, vindo do exterior; finalmente, porque era muito desagradável suportar o cheiro das bombinhas de mau cheiro do Carnaval enquanto tentavam concentrar-se nos assuntos das perguntas.
  5. Depois de um longo período de negociações, a época de exames foi anulada e repetida após a férias grandes; a AEIST foi reaberta na mesma altura.

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Terça-feira, Outubro 16, 2007

O sonho de Katulembe

Esta brasileira, autora do dicionário online de Kimbundo - uma preciosidade raríssima senão única, - foi entrevistada pelo ANGONOTÍCIAS.(AF)



Fátima ou simplesmente Katulembe é o nome de uma investigadora brasileira e médica de profissão, apaixonada pelos rituais tradicionais angolanos...
Katulembe

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Faz cinco anos que comecei o estudo do kimbundu. Sem medo, com ousadia, comecei a Kimbundo Home Page devido a falta de pessoas que falem a língua...
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Quando comecei o estudo, percebi a beleza da língua e passei a estudar com amor.
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Eu não sou professora, mas sou uma divulgadora da língua que está morrendo. Apesar de não preencher todas as necessidades das pessoas que desejam falar com habilidade, ofereço e deixo visível o estudo que estou fazendo sozinha. Escrevo na Kimbundo Home Page as coisas que leio, e repasso do modo como entendi. Mas se a língua está morrendo, se faltam professores e livros também, o pouco é um começo para nós que desejamos salvar a língua.
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Helli Chatelain no prefácio da "Gramática do Kimbundu"(1888-89), diz que o seu livro foi destinado aos nativos, para aprenderem a amar e cultivar a sua bela língua pátria; aos portugueses, funcionários e negociantes de Angola para melhor cumprirem seus deveres e atender seus interesses, particulares e nacionais; aos missionários cristãos, para anunciação do evangelho; e finalmente, aos africanistas.
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Nos dias de hoje, a gramática destina-se a quem? A língua portuguesa predomina hoje em Angola, e quem poderia estar com interesse em aprender línguas nativas? Restam-nos os africanistas que dedicam-se ao estudo profundo da Mãe África, e os angolanos que desejam preservar a sua história e sua cultura.
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Em ambos, o único desejo é o amor puro, despojado de qualquer conveniência ou qualquer desejo financeiro. Porém, estes últimos, motivaram sempre as ações da maior parte da humanidade.
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As línguas nativas de Angola estão morrendo. A língua carrega a história da terra, a maneira de ver, sentir, e pensar de um povo. Não podemos enterrar esta riqueza!
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Apesar das dificuldades, precisamos seguir com coragem, porque temos um compromisso com todo um passado que não podemos esquecer. Como diz minha Mãe Maza Kessy, "Angola tu és rica e poderosa!".
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Ndoko tuakabulule o unvama iú? Etu, ku ubeka uetu, ki tu kima etu, maji ni kisangela tutena ima ioso (Vamos preservar esta riqueza? Nós, sozinhos, não somos nada, mas com união podemos todas as coisas).


Excertos de Investigadora brasileira, fala em entrevista bilingue da sua paixão pelo Kimbundo
Publicado por ANGONOTÍCIAS em 23 de Abril de 2007

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Quinta-feira, Junho 21, 2007

Luis Morais e António Miranda

Uma mistura explosiva: Maria Gabriela com o clarinete mágico de Luis Morais e Pôr do Sol com as cores fortes a óleo de António Miranda. Para apreciar melhor, fazer-se acompanhar de um whisky com soda ou de um mazagrã.(AF)

António.Jorge. Miranda

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ImagemKoresdAfrika
SomQuipiri

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Terça-feira, Maio 15, 2007

Farinhada

Tava na peneira eu tava peneirando
Eu tava num namoro eu tava namorando.
Na farinhada lá da Serra do Teixeira
Namorei uma cabôca nunca vi tão feiticeira
A mininada descascava macaxeira
Zé Migué no caititú e eu e ela na peneira.
Tava na peineira eu tava peneirando
Eu tava num namoro eu tava namorando.
O vento dava sacudia a cabilêra
Levantava a saia dela no balanço da peneira

Fechei os óio e o vento foi soprando
Quando deu um ridiminho sem querer tava espiando.
Tava na peneira eu tava peneirando
Eu tava num namoro eu tava namorando.
De madrugada nós fiquemos ali sozinho
O pai dela soube disso deu de perna no caminho
Chegando lá até riu da brincadeira
Nós estava namorando eu e ela, na peneira...


Aos que não conheceram e aos que já esqueceram.
Cifra de Luíz Gonzaga.

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Terça-feira, Abril 24, 2007

24 de Abril de 1974


É um dia muito parecido com todos os outros. O Instituto Superior Técnico está transformado numa praça forte. Polícias fora e dentro do recinto vigiam os movimentos dos estudantes e professores. Desde Novembro do ano passado que a entrada se faz mediante a apresentação de um documento de identificação; este cartão não foi concedido a cerca de setenta estudantes. Há poucos dias, a solução Técnico foi alargada a Económicas.
Desde há alguns meses que o espectro da incorporação e embarque para a guerra na Guiné paira sobre vários colegas. Passa-me pela cabeça a oportunidade da emigração: uma irmã já está em Bruxelas. O Partido Comunista Português encoraja os que desejam opor-se ao regime a permanecer em Portugal e aceitar a incorporação. Vou-me deixando ficar, mas acho estranho que não me tenham chamado ainda.
Para aguentar as despesas, dou aulas na Emídio Navarro e na Anselmo de Andrade em Almada e, às segundas-feiras, escrutino bilhetes dos apostadores do Totobola ali ao alto do elevador da Glória: estas são as minhas ocupações.
O nascimento do primeiro filho está previsto para Junho.
Há um mês que vejo sempre a mesma figura no outro lado da rua quando saio de manhã para Almada e quando chego a casa ao fim da tarde. Confesso que há visões mais agradáveis. O homem nem sequer disfarça ou muda de sítio.
Hoje, quando o autocarro de regresso a Lisboa passou sobre a ponte Salazar, pude ver um navio militar americano. Os jornais dão notícia da presença da esquadra da NATO em Lisboa. Algures nas docas de Alcântara, alguém pichou, não com piche, mas com spray: OTAN GO HOME. Achei curiosa a mensagem, pela mistura de línguas. Que dirão os militares americanos, para quem era impossível não ver o que lá estava escrito? Portugal é um país engraçado, alvitrei. Mas que fazem esses militares em Portugal? - interroguei-me.

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Quarta-feira, Janeiro 10, 2007

Mendes da Ponte - Degraus da Sabedoria


António Mendes da Ponte, com 81 anos, é um dos poucos agrónomos da Junta do Café de Angola e do Instituto de Investigação Agronómica de Angola que ainda está vivo. Vai vertendo no papel aquilo que fica, depois de esquecer tudo. Eis o que ficou em 9 de Agosto de 2004.(AF)

OBSERVARe interpretar os bons e os maus exemplos, os sucessos e os insucessos, os resultados ou consequências e as suas causas
ESCUTARos mais experientes, mais instruidos e bem intencionados
ESTUDARpara aquisição de mais conhecimentos, saber, ciência, preparação, formação e mais capacitação
ASSIMILARos novos conhecimentos, saber ou ciência adquirida
SELECCIONARdentre os conhecimentos ou ciência adquirida os mais adequados à sua vocação e necessidades
EXECUTARcom eficiencia e orgulho do trabalho ou obra produzida
ECONOMIZARou poupar, evitando desperdícios, nomeadamente em ostentação, alimentação, vícios e fanatismos para mais facilmente se alcançar a independência ou auto-suficiência
TOLERARperdoar ou desculpar as deficiências ou limitações dos semelhantes menos favorecidos pela natureza ou pelo meio em que se desenvolveram
AJUDARprincipalmente através do ensino, formação e capacitação e não através da esmolinha sistemática que pode conduzir à inércia e à dependência
ALCANÇARcom merecimento a estima, o respeito, o auxílio e a protecção do próximo
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Segunda-feira, Janeiro 08, 2007

As conchinhas do meu mar




Neste silêncio cortado pelo som da ribeira em que a várzea dormita, com uma teia de luar a baloiçar na minha janela, à luz de duas velas, eu escolho as conchinhas, separo-as:
amarelas, alaranjadas ( como o Sol ); rosadas ( como as núvens de um entardecer quente ); branquinhas ( como a espuma do mar ); acinzentadas ( como o lusco-fusco ).

Coloco-as em grupos conforme o formato. Disponho-as em carreiras: das maiores às mais pequenas, subindo na tela que preparei. Faço um desenho forte de quase arco-íris. Estão todas nos seus lugares e começo a colá-las à base para as segurar no esquema que imaginei.

Pego numa e noutra e, de cada vez que o faço, vejo um sorriso, ora de um neto ora de outro. Foram eles que as apanharam, num dia repleto de Sol, à beira-mar, uma leve brisa levantando-lhes os cabelitos, muitos salpicos de água e sal à mistura e um saco que ía ficando cheio, cada vez mais cheio de conchas variadas e areia, muita areia... Todos queriam participar, apanhar as mais bonitas. Escolhemos as melhores, no meio de incompreensões e malandrices. Partiram-se conchas, esconderam-se conchas, trocaram-se conchas, roubaram-se conchas...

O quadro está pronto, a cola a secar; vou pendurá-lo num canto da parede onde eu o possa ver bem e, assim, rever o rosto de cada um dos meus botões-de-rosas a desabrochar. Reconheço-lhes as carinhas associadas a cada concha, ouço-lhes os risos e uma paz imensa penetra-me a alma.

M. Rasa, 6 de Janeiro de 2007

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Quinta-feira, Dezembro 14, 2006

Fernando Torres - O último homem da Junta

Todos os membros originais da junta militar que derrubou Allende e o seu governo, com o conhecimento e apoio directo do governo dos Estados Unidos, já partiram.

Nixon já partiu; Kissinger ficou sozinho na Terra.

Agora nunca saberemos a quantidade de segredos e as memórias que arrastaram com eles para a tumba. Nem o paradeiro dos desaparecidos - um só que seja. Espantar-me-ia que a justiça prevalecesse e caísse sobre Kissinger, o último homem da Junta. F. T.

"Não vejo porque devamos esperar para ver um país ir para o comunismo devido à irresponsabilidade do seu povo. As questões são demasiado importantes para que deixemos os eleitores chilenos decidirem por si próprios." - Henry Kissinger

Carta aberta a Henry Kissinger

Não fui um dos chilenos "irresponsáveis" senhor, mas sofri uma pena pesada pelas suas palavras.

Senhor Henry Kissinger
Kissinger Associates
New York

Lembro-me da sua repreensão aos chilenos, quando elegeram o socialista Salvador Allende em 1970: "Não podemos permitir que um país vá para o marxismo só porque o seu povo é irresponsável".

Se bem que estivéssemos habituados a esta retórica vinda da Casa Branca naqueles anos, não imaginávamos que essas suas palavras vergonhosas iriam eventualmente selar o futuro do Chile ao mais horrendo episódio da história da América Latina. Sim - devo dizê-lo - nós subestimámo-lo, Senhor.

Bombas a cair do céu, torres e edifícios destruidos,a carnificina de centenas de pessoas. Milhares de desaparecidos e estádios de futebol transformados em campos de concentração. Lembra-se disso, do seu próprio 11 de Setembro?

Desde o primeiro dia; desde antes de Allende ter sido ractificado pelo parlamento chileno como o legítimo presidente, o Senhor, Secretário de Estado e Conselheiro da Segurança Nacional, o Senhor Henry Kissinger planeava secretamente derrubar Allende. Conjurou o assassinato do General René Schneider - que apoiava a Constituição chilena - de forma a provocar um golpe militar.

Planeou a política da "dupla via" relativamente a este pequeno país que pretendia, com uma mão, isolar Allende internacionalmente e, com a outra (mais suja), provocar o golpe militar através de assassinatos, subversão política e sabotagem económica.

O seu objectivo, Senhor Kissinger, ao reunir os dirigentes militares dos países vizinhos para pressionar o Chile, na operação que mais tarde se denominou "Operação Condor", foi a coordenação das polícias secretas para trocarem informações e prisioneiros, levarem a cabo raptos, torturas e assassinatos como o de Orlando Letelier e seu ajudante de campo Ronni Moffit em Washington DC, realizado por terroristas chilenos e cubanos sob o comando dos agentes Michael Townley e Novo Sampol da CIA (que mais tarde foram condenados no Panamá por vários ataques terroristas e pela tentativa de assassinato de Fidel Castro, tendo sido libertados depois sob os auspícios dos Estados Unidos, que puxou os cordelinhos à sua marionete, o presidente demissionário Mireva Moscoso).

Você, Senhor Kissinger, e Nixon mentiram ao Congresso, prestando informações falsas e assegurando que os Estados Unidos não desempenharam qualquer papel no esmagamento da democracia chilena. Deve saber que naqueles tempos não havia o perigo das aludidas "armas de destruição maciça", mas sim o "perigo" da expansão do comunismo no cone Sul. Acreditou que o povo "irresponsável" do Chile representava um mau exemplo: Chile era um punhal cravado no coração da América. Um punhal que havia que remover a qualquer preço. Allende tinha que ser travado, ainda que ao preço da própria democracia.

Porque o 11 de Setembro de 1973 foi da sua absoluta responsabilidade, Senhor Kissinger, nós, o povo "irresponsável" do Chile, nomeamo-lo a versão chilena de Osanma Bin Lagen, para dizer o mínimo.

Senhor Kissinger, eu não fui um "irresponsável" chileno porque tinha 14 anos e não pude votar; mas na realidade paguei a pesada e sangrenta factura das suas palavras por inteiro, Senhor. No entanto, pensando no papel que desmpenhou não só no Chile como na Indochina, Timor Leste, Chipre, a sua traição aos curdos no Iraque, o seu apoio incondicional à segregação racial na África do Sul, etc, etc, eu posso dizer algo que o senhor não pode: as minhas mãos estão limpas.

Sinceramente

Fernando A. Torres

Traduçao da versão em inglês:
The Last Man of the Junta
Publicado em
CounterpunchCounterpunch em 12/12/2006

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