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Terça-feira, Janeiro 26, 2010

Pela retirada imediata do Afeganistão

Considerando:

  • Que a guerra e a ocupação do Afeganistão, há cerca de oito anos, por forças da NATO, apenas tem acentuado a deterioração da segurança dos povos e da estabilidade na região;

  • Que a situação humanitária é catastrófica e vem alastrando, com a desestabilização no Paquistão e outras nações vizinhas do Afeganistão, como efeito directo da acção militar ofensiva, da NATO;

  • Que a resolução dos problemas do Afeganistão depende essencialmente do seu próprio povo e das soluções de regime que este escolher; que, entretanto, as forças ocupantes não hesitam em impor e apoiar narcotraficantes e senhores da guerra, no Governo e na Presidência, instalados no poder por eleições que todos consideram fraudulentas;

  • Que os protestos e resistência cívica à ocupação do Afeganistão crescem de forma notória nos EUA - potência responsável em primeira mão pelo empenhamento da NATO - e em vários países europeus, envolvendo todos os estratos da população, à medida que o desastre militar se vai tornando inevitável, falando-se mesmo, ao mais alto nível, dum novo Vietname;

  • Que Portugal e seus cidadãos, pela sua participação militar na campanha da NATO neste país são considerados inimigos pelos combatentes afegãos, tornando-se assim alvos considerados legítimos de acções de guerra. Pelo que não é sustentável argumentar-se com a defesa de Portugal, dos interesses portugueses ou de seus cidadãos e muito menos de segurança interna, para manter forças no Afeganistão.



Exigem, de acordo com os artº.s 7º, 273º e 275º da Constituição da República e tendo em conta que quaisquer compromissos militares do Estado Português não podem violar o artº 7º, que elenca os Princípios Fundamentais da Constituição, a

retirada imediata das forças armadas portuguesas do Afeganistão,

dado o carácter ilegal dessa intervenção à luz do Direito internacional e interno.



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Terça-feira, Janeiro 12, 2010

A Dinamarca na Guerra ao Iraque

O governo dinamarquês não se comportou honestamente no caso da Guerra ao Iraque, registou o relatório. A comissão classificou a justificação dada pelo governo como "algo trapalhona", pois insiste na tese do desmantelamento dos arsenais de Armas de Destruição Massiva como motivo principal, muito depois de se ter percebido que o objectivo central foi o da mudança de regime. Davids e os restantes membros da comissão assinalaram também o facto de as agências de espionagem se terem apoiado quase exclusivamente em informações prestadas pelos seus colegas de outros países, mas suavizando os termos. O ministro dinamarquês, no entanto, não conseguiu transmitir ao parlamento esta distinção.


O relatório contestou a natureza defensiva dos lançadores de mísseis Patriot (fornecidos pela Dinamarca) estacionados próximo da fronteira do da Turquia com o Iraque, lembrando que tais fornecimentos sem o consentimento do parlamento são uma violação da lei constitucional.

Dutch government misrepresented case for Iraq war, NRCHandelsblad, 12 de Janeiro de 2010

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Terça-feira, Fevereiro 03, 2009

Henry Siegman - Mentiras de Israel

Henry SiegmanOs governos ocidentais e a maior parte dos meios de comunicação dos respectivos países aceitaram determinadas declarações israelitas, justificativas do assalto militar a Gaza: que o Hamas violou repetidamente a trégua de seis meses e recusou a sua renovação, tendo Israel respeitado as tréguas; que o Hamas é uma organização terrorista, fazendo parte da jihad global; que Israel actuou, não apenas em defesa própria, mas também como parte integrante da guerra que as democracias ocidentais movem contra os terroristas.

Não descobri um só jornal norte-americano de grande difusão, uma só estação de rádio ou um único canal de televisão, que tivesse questionado esta versão dos acontecimentos em toda a cobertura feita ao assalto a Gaza. O criticismo dos actos de Israel (totalmente omisso da administração Bush) resumiu-se a indagar sobre a necessidade (proporcionalidade) da carnificina perpetrada pelo exército de Israel face às ameaças invocadas, ou então sobre as cautelas tomadas para evitar baixas civis.

Os negociadores do Médio Oriente sumiram-se em eufemismos incompreensíveis, pelo que me vejo forçado a dizer sem subterfúgios que todas as justificações dadas por Israel são mentiras. Foi Israel, não o Hamas, quem violou as tréguas: o Hamas comprometeu-se a parar o lançamento de foguetes contra Israel; como contrapartida, Israel afrouxaria o bloqueio a Gaza. Na realidade, durante o cessar-fogo, o bloqueio foi ainda mais apertado. Isto foi confirmado não apenas por muitos observadores internacionais neutros e organizações não-governamentais que estão activas no terreno, mas também pelo Brigadeiro Shmuel Zakai, ex-comandante da Israel Defense Force (IDF) em Gaza. Numa entrevista ao jornal Ha'aretz em 22 de Dezembro, Zakai acusou o governo de Israel de cometer um erro capital durante o tadiyeh - o período de seis meses das tréguas - 'ao não aproveitar a acalmia para melhorar, em vez de degradar acentuadamente, a situação económica difícil dos palestinianos na Faixa de Gaza... Quando se criam tréguas e se mantem a pressão económica na Faixa', declarou o General Zakai, 'é claro que o Hamas procuraria alcançar um trégua mais favorável, sendo o disparo dos foguetes o meio para alcançar essa meta... Não parece razoável que, após fomentar a desgraça e a ruína económica em que os palestinianos vivem na Faixa de Gaza, se esperasse que o Hamas viesse sentar-se calmamente à mesa de negociações sem que movesse um dedo.'

A trégua começou em Junho do ano passado e estava prevista a sua renovação em Dezembro, com a condição de ambas as partes, reciprocamente, se absterem de acções violentas. O Hamas comprometeu-se a cessar o lançamento de foguetes e demover outros grupos, como o Jihad Islâmica, de o fazer (até os serviços secretos de Israel reconheceram que esse compromisso foi respeitado com uma eficácia surpreendente). Israel, por seu turno, poria termo aos assassinatos de dirigentes e às incursões militares. Este pacto foi gravemente violado no dia 4 de Novembro, quando o IDF entrou em Gaza e matou seis membros do Hamas. O Hamas retorquiu, lançando foguetes Qassam e mísseis Grad. Depois disso, manifestou-se ainda disponível para prolongar as tréguas, com a única condição de Israel levantar o bloqueio. Israel recusou-se. Poderia ter cumprido a sua obrigação de proteger os israelitas, assinando o fim do bloqueio, porém, nem sequer esboçou um movimento nesse sentido. Não é possível afirmar-se que Israel tenha desencadeado o assalto a Gaza para procurar proteger os seus cidadãos. Agiu assim para vincar a sua capacidade em esmagar a população de Gaza.

Toda a gente perece ter-se esquecido de que o Hamas declarou o fim dos bombistas suicidas e dos disparos de foguetes na altura em que decidiu juntar-se ao processo político palestiniano, tendo cumprido em grande medida durante um ano. Bush elogiou publicamente essa decisão, citando-a como um exemplo de sucesso da sua campanha em prol da democracia no Médio Oriente. Quando o Hamas ganhou as eleições, contrariando as expectativas ocidentais, Israel e os EUA procuraram imediatamente retirar legitimidade ao resultado e começaram a apoiar Mahmoud Abbas, líder da Fatá, que até então havia sido tratado pelos israelitas como a 'galinha depenada'. Armaram então e treinaram as forças de segurança da Fatá para que derrubassem o Hamas; e quando o Hamas - de forma brutal, para se impor - se defendeu desta violenta tentativa de inverter o resultado da primeira eleição democrática honesta no Médio Oriente, Israel e a administração Bush impuseram o bloqueio.

Israel tenta escamotear estes factos indesmentíveis, contrapondo que, através da retirada dos colonatos de Gaza em 2005, Ariel Sharon teria oferecido ao Hamas a oportunidade para se orientar no caminho da responsabilidade estatal; oportunidade essa que o Hamas teria desperdiçado, tendo, em vez disso, transformado Gaza num rampa de lançamento de mísseis contra a população civil de Israel. Esta acusação é uma dupla mentira. Em primeiro lugar, apesar de todos os erros, o Hamas conduziu Gaza a um nível de acatamento da lei e da ordem sem precedentes nos anos recentes. Fê-lo sem as avultadas contribuições monetárias com que os dadores encharcaram a Autoridade Palestiniana enquanto foi dirigida pela Fatá. Acabou com os gangs violentos e com os senhores da guerra que haviam atemorizado as populações de Gaza durante o governo da Fatá. Muçulmanos não praticantes, cristãos e outras minorias gozam de maior liberdade religiosa com o governo do Hamas que gozariam se vivessem na Arábia Saudita, por exemplo, ou em muitos outros regimes árabes.

A mentira maior é que a retirada de Gaza tenha constituido o pronúncio de outras retiradas e uma manifestação de boa vontade a favor da Paz. Eis a forma como o conselheiro sénior de Sharon, Dov Weiglass, chefe da delegação que negociou com a administração norte-americana, caracterizou a retirada de Gaza, em entrevista ao Ha'aretz de Agosto de 2004:
O que acordámos de facto com os americanos foi que uma parte dos colonatos [i.e. o maior colonato do West Bank] seria tratado até ao fim, estando o resto fora das negociações até que os palestinianos se convertam em finlandeses... O significado [do acordo com os EUA] é o de congelar o processo político. Quando congelas o processo político, impedes o estabelecimento de um Estado palestiniano e evitas as discussões sobre refugiados, fronteiras e Jerusalém. De facto, toda esta embrulhada chamada Estado Palestino, com todas as suas consequências, foram retiradas da agenda por tempo indeterminado. Tudo isto contando com os auspícios e a benção do Presidente Bush... e também com a ractificação de ambas as câmaras do Congresso.

Cuidarão Israel e os EUA que os palestinianos não lêem jornais israelitas, ou que não descobrem por si mesmos o que Sharon pretende quando vêem o que se passa no West Bank?
Israel gostaria que o mundo acreditasse que o Hamas começou a lançar foguetes porque é isso que fazem os terroristas e o Hamas é apenas mais um grupo terrorista. De facto, o Hamas não é uma 'organização terrorista' (o termo preferido por Israel) em medida maior que o movimento sionista foi uma organização terrorista por altura dos confrontos que marcaram a criação do seu país. Nas décadas de 1930 e 1940, os partidos que constituiam o movimento sionista dedicaram-se a actividades terroristas por razões estratégicas. Segundo Benny Morris, foi o Irgun o primeiro a disparar sobre civis. Escreveu no Righteous Victims que o surgimento do terrorismo árabe em 1937 'desencadeou um onda de bombardeamentos sobre multidões árabes e sobre autocarros, introduzindo uma nova dimensão ao conflito'. Também relatou atrocidades cometidas durante a guerra de 1948-49, pela IDF. Numa entrevista publicada no Ha'aretz em 2004, reconheceu que os documentos recém-libertados para consulta pública pelo Ministério da Defesa de Israel revelavam 'muitos mais actos de massacre que aqueles que supunha... Nos meses de Abril-Maio de 1948, unidades do Haganah receberam instruções operacionais que, de forma explícita, ordenavam que levassem a cabo o desenraizamento dos aldeões, expulsando-os das suas casas e destruindo as aldeias'. Em determinadas vilas e cidades palestinas, o IDF executou civis. Questionado pelo Ha'aretz se condenava tais práticas de limpeza étnica, Morris respondeu que não:
Não teria sido possível estabelecer um estado judaico sem desenraizar 700 mil palestinos. Assim, foi necessário desenraizá-los. Não havia alternativa à expulsão da população. Era necessário limpar o interior do território, limpar as suas fronterias e as vias de acesso principais. Era necessário limpar as povoações donde saiam os disparos contra as nossa colunas de transporte e os nossos colonatos.

Por outras palavras, quando o judeus disparam sobre civis inocentes e os matam para progredirem na sua luta nacional, são patriotas. Quando os seus adversários fazem exactamente o mesmo, são terroristas.

É tão fácil descrever o Hamas simplesmente como uma 'organização terrorista'. Trata-se de um movimento religioso e nacionalista, nascido do terrorismo, tal como o movimento sionista foi durante a luta pelo estabelecimento do estado, na convicção errada de que esta era a única via para pôr termo à ocupação opressiva e retomar o estado palestino. Mesmo que, conforme à ideologia do Hamas, se apele a que a construção do estado palestino se faça sobre as ruinas do estado de Israel, tal não caracteriza as políticas actuais do Hamas mais do que as declarações no mesmo sentido constantes da Carta da Organização da Libertação da Palestina (OLP) caracterizam hoje a política da Fatá.

As declarações a seguir citadas não foram feitas por um apologista do Hamas, mas antes por um ex-chefe da polícia secreta de Israel, a Mossad, e ex-conselheiro de Sharon para a segurança nacional, Ephraim Halevy. A liderança do Hamas sofreu uma transformação 'bem à frente dos nossos narizes', escreveu recentemente Halevy no Yedioth Ahronoth, ao reconhecer que 'a sua meta ideológica não se podia alcançar nos tempos próximos nem num futuro previsível'. Hoje está preparada para aceitar temporariamente o estabelecimento de um estado palestino com as fronteiras de 1967. Halevy notou que o Hamas não esclareceu quanto 'temporariamente' estas fronteiras se deveriam manter, 'eles sabem que, a partir do momento em que o estado palestiniano se tenha esbelecido, serão forçados a mudar as regras do jogo: ver-se-ão forçados a prosseguir uma via que os conduzirá para bem longe do seu fim ideológico inicial'. Num artigo anterior, Halevy também chamou a atenção para o absurdo de associar Hamas a al-Quaida.
Perante al-Quaida, os membros do Hamas são vistos como heréticos, uma vez que manifestaram o desejo de participar em acordos ou entendimentos com Israel ao longo do processo.[O chefe do bureau político do Hamas, Khaled] Mashl's fez declarações que contradizem frontalmente a abordagem de al-Quaida, oferecendo a Israel uma oportunidade, quiçá única na História, de alcançar a sua legitimação.

Porque estão os dirigentes de Israel tão determinados em destruir o Hamas? Porque acreditam que os dirigentes do Hamas, ao contrário da Fatá, não estão intimidados ao ponto de aceitar um acordo de paz que reduza o futuro 'estado' da Palestina a um conjunto desconexo de porções territoriais sobre os quais Israel pode manter permanentemente o seu controlo. O controlo do West Bank tem prosseguido sem interrupção pelos militares, serviços secretos e dirigentes políticos desde a Guerra dos Seis Dias. Acreditam que o Hamas não permitirá tal cantonização da Palestina, qualquer que seja o prolongamento da ocupação do território. Talvez Israel se engane àcerca de Abbas e a sua corte super-bem-remunerada, mas quanto ao Hamas está absolutamente certa.

Os observadores internacionais do Médio Oriente interrogam-se sobre as hipóteses de o assalto de Israel ao Hamas conduzir ao desmantelamento desta organização ou expulsá-la de Gaza. É uma questão irrelevante. Se Israel planeia manter no futuro o controlo sobre qualquer entidade palestiniana, não encontrará um interlocutor palestiniano. Se consiguisse agora destruir o Hamas, em tempo este movimento seria substituido por uma oposição palestiniana muitíssimo mais radical.

Se Barack Obama desaproveitar este momento, enviando para o Médio Oriente uma delegação de circunstância, convencida de que terceiras partes não têm que apresentar propostas próprias e orientadas para uma paz durável, um delegação incapaz de pressionar as partes em contenda e que se limite a assitir à exposição das suas divergências, estará então a contribuir para o surgimento de uma resistência palestina muito mais extremista que o Hamas - plausivelmente, aliada a al Quaeda. Para os EUA, a Europa e a maior parte do resto do mundo, esse seria o pior resultado. Talvez Israel, incluindo os chefes de alguns colonatos, acreditem que tal serviria os seus propósitos, pois ofereceria ao governo um convidativo pretexto para sujeitar pela força toda a Palestina. Esta é, porém, uma ilusão capaz de conduzir Israel ao seu fim como estado democrático judaico.

Anthony Cordesaman, um dos analistas militares mais sérios do Médio Oriente, que além disso é amigo de Israel, em relatório dirigido ao Centro de Estudos Estratégicos Internacionais no dia 9 de Janeiro, referiu que os ganhos tácticos alcançados pela continuação das operações em Gaza seriam suplantados pelos prejuízos estratégicos - sendo provável que ficassem aquém dos resultados anteriorememte alcançados por meio de ataques selectivos a instalações do Hamas.
Ter-se-á equivocado Israel, enveredando por um aprofundamento sistemático da guerra, desprovida de um objectivo estratégico claro ou, pelo menos, plausível de alcançar? Acabará Israel por contribuir para o fortalecimento político do seu inimigo, mesmo sendo este derrotado tacticamente? Irão as iniciativas de Israel comprometer seriamente a posição dos EUA na região? Irão comprometer as esperanças de paz e, subsequentemente, os regimes árabes moderados e as suas vozes? Tudo indica que a resposta a qualquer destas perguntas seja: Sim! Um dirigente pode sempre reclamar, engrossando a voz, que os ganhos tácticos são vitórias. Se for mesmo isso o que Olmert, Livni e Barak têm para responder, então ter-se-ão desgraçados a si próprios assim como terão desgraçado o seu país e os seus amigos.
Concluiu Cordesaman.

Henry Siegman, Israel’s Lies,
London Review of Books, 15 de Janeiro de 2009

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Quinta-feira, Janeiro 22, 2009

Fernando Nobre - Grito e choro por Gaza e por Israel

Recebido por email. (AF)

Fernando NobreHá momentos em que a nossa consciência nos impede, perante acontecimentos trágicos, de ficarmos silenciosos porque ao não reagirmos estamos a ser cúmplices dos mesmos por concordância, omissão ou cobardia.

O que está a acontecer entre Gaza e Israel é um desses momentos. É intolerável, é inaceitável e é execrável a chacina que o governo de Israel e as suas poderosíssimas forças armadas estão a executar em Gaza a pretexto do lançamento de roquetes por parte dos resistentes ("terroristas") do movimento Hamas.

Importa neste preciso momento refrescar algumas mentes ignorantes ou, muito pior, cínicas e destorcidas:

- Os jovens palestinianos, que são semitas ao mesmo título que os judeus esfaraditas (e não os askenazes que descendem dos kazares, povo do Cáucaso), que desesperados e humilhados actuam e reagem hoje em Gaza são os netos daqueles que fugiram espavoridos, do que é hoje Israel, quando o então movimento "terrorista" Irgoun, liderado pelo seu chefe Menahem Beguin, futuro primeiro ministro e prémio Nobel da Paz, chacinou à arma branca durante uma noite inteira todos os habitantes da aldeia palestiniana de Deir Hiassin: cerca de trezentas pessoas. Esse acto de verdadeiro terror, praticado fria e conscientemente, não pode ser apagado dos Arquivos Históricos da Humanidade (da mesma maneira que não podem ser apagados dos mesmos Arquivos os actos genocidários perpetrados pelos nazis no Gueto de Varsóvia e nos campos de extermínio), horrorizou o próprio Ben Gourion mas foi o acto hediondo que provocou a fuga em massa de dezenas e dezenas de milhares de palestinianos para Gaza e a Cisjordânia possibilitando, entre outros factores, a constituição do Estado de Israel..

- Alguns, ou muitos, desses massacrados de hoje descendem de judeus e cristãos que se islamizaram há séculos durante a ocupação milenar islâmica da Palestina. Não foram eles os responsáveis pelos massacres históricos e repetitivos dos judeus na Europa, que conheceram o seu apogeu com os nazis: fomos nós os europeus que o fizemos ou permitimos, por concordância, omissão ou cobardia! Mas são eles que há 60 anos pagam os nossos erros e nós, a concordante, omissa e cobarde Europa e os seus fracos dirigentes assobiam para o ar e fingem que não têm nada a ver com essa tragédia, desenvolvendo até à náusea os mesmos discursos de sempre, de culpabilização exclusiva dos palestinianos e do Hamas "terrorista" que foi eleito democraticamente mas de imediato ostracizado por essa Europa sem princípios e anacéfala, porque sem memória, que tinha exigido as eleições democrática para depois as rejeitar por os resultados não lhe convirem. Mas que democracia é essa, defendida e apregoada por nós europeus?

- Foi o governo de Israel que, ao mergulhar no desespero e no ódio milhões de palestinianos (privados de água, luz, alimentos, trabalho, segurança, dignidade e esperança ), os pôs do lado do Hamas, movimento que ele incentivou, para não dizer criou, com o intuito de enfraquecer na altura o movimento FATAH de Yasser Arafat. Como inúmeras vezes na História, o feitiço virou-se contra o feiticeiro, como também aconteceu recentemente no Afeganistão.

- Estamos a assistir a um combate de David (os palestinianos com os seus roquetes, armas ligeiras e fundas com pedras...) contra Golias (os israelitas com os seus mísseis teleguiados, aviões, tanques e se necessário...a arma atómica!).

- Estranha guerra esta em que o "agressor", os palestinianos, têm 100 vezes mais baixas em mortos e feridos do que os "agredidos". Nunca antes visto nos anais militares!

- Hoje Gaza, com metade a um terço da superfície do Algarve e um milhão e meio de habitantes, é uma enorme prisão. Honra seja feita aos "heróis" que bombardeiam com meios ultra-sofisticados uma prisão praticamente desarmada (onde estão os aviões e tanques palestinianos?) e sem fuga possível, à semelhança do que faziam os nazis com os judeus fechados no Gueto de Varsóvia!

- Como pode um povo que tanto sofreu, o judeu do qual temos todos pelo menos uma gota de sangue (eu tenho um antepassado Jeremias!), estar a fazer o mesmo a um outro povo semita seu irmão? O governo israelita, por conveniências políticas diversas (eleições em breve...), é hoje de facto o governo mais anti-semita à superfície da terra!

- Onde andam o Sr. Blair, o fantasma do Quarteto Mudo, o Comissário das Nações Unidas para o Diálogo Inter-religioso e os Prémios Nobel da Paz, nomeadamente Elie Wiesel e Shimon Perez? Gostaria de os ouvir! Ergam as vozes por favor! Porque ou é agora ou nunca!

- Honra aos milhares de israelitas que se manifestam na rua em Israel para que se ponha um fim ao massacre. Não estão só a dignificar o seu povo, mas estão a permitir que se mantenha uma janela aberta para o diálogo, imprescindível de retomar como único caminho capaz de construir o entendimento e levar à Paz!

- Honra aos milhares de jovens israelitas que preferem ir para as prisões do que servir num exército de ocupação e opressão. São eles, como os referidos no ponto anterior, que notabilizam a sabedoria e o humanismo do povo judeu e demonstram mais uma vez a coragem dos judeus zelotas de Massada e os resistentes judeus do Gueto de Varsóvia!

Vergonha para todos aqueles que, entre nós, se calam por cobardia ou por omissão. Acuso-os de não assistência a um povo em perigo! Não tenham medo: os espíritos livres são eternos!

É chegado o tempo dos Seres Humanos de Boa Vontade de Israel e da Palestina fazerem calar os seus falcões, se sentarem à mesa e, com equidade, encontrarem uma solução. Ela existe! Mais tarde ou mais cedo terá que ser implementada ou vamos todos direito ao Caos: já estivemos bem mais longe do período das Trevas e do Apocalipse.

É chegado o tempo de dizer BASTA! Este é o meu grito por Gaza e por Israel (conheço ambos): quero, exijo vê-los viver como irmãos que são.



Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre, 4 de Janeiro de 2009

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Quarta-feira, Janeiro 21, 2009

Kathy Kelly - A arma mais poderosa

Guerra em Gaza

O Dr Atalá, médico, convidou-me para uma visita a sua casa na cidade de Gaza situada a poucos quarteirões de distância do Hospital Chifá.

De manhãzinha, havia regressado a casa com a sua família, após uma fuga de cinco dias que duraram os ataques mais intensos à cidade de Gaza, receando pelas suas vidas. Acreditem, ao conduzir o carro desde o Hospital até ao sítio onde se encontrava a minha família, rezava todo o tempo, disse o Dr Atalá, porque os israelitas disparavam sobre qualquer um que estivesse à noite nas ruas.

O Dr Atalá exerceu medicina na especialidade de cirurgia geral ao longo de toda a sua carreira. Hoje, com 61 anos, afirma nunca ter observado feridas tão terríveis como as que viu nas três últimas semanas, quando ele e os restantes elementos da sua equipa procuraram socorrer numerosos pacientes com membros partidos, feridas de estilhaços de granadas e queimaduras graves. Neurocirurgiões, cirurgiões vasculares, ortopédicos e de cirurgia geral juntaram-se para tratar de pacientes, como equipa, tentando salvá-los, mas houve muitos que não foram salvos. Descreveu doentes com estilhaços de granada nos olhos, no rosto, no peito, nos abdómen, doentes a quem tiveram que amputar as pernas acima do joelho. A maior parte deles - disse - eram civis.

Há maneiras estranhas de destruir o corpo humano, acrescentou o Dr Atalá. Vinde, por favor, amanhã à Unidade de Queimados, e vereis doentes sofrendo do uso de fósforo branco. O Dr Atalá disse que começou a compreender a extensão do trauma e do perigo ao ouvir as histórias dos pacientes atingidos.

Alguns estavam sentados em casa quando foram atingidos por uma bomba de um tanque. Não souberam o que lhes aconteceu, disse. Os sobreviventes chegaram ao Hospital depois de muitos dos seus familiares terem sido mortos. Doentes de Beit Laía disseram que uma grande família de 25 pessoas foi atacada em uma sua casa. Quando os familiares os vieram ajudar, atiradores furtivos (snipers) israelitas mataram oito. Muitos feridos foram deixados ao abandono até morrerem. Não foi permitida a entrada na zona de ambulâncias ou de socorristas da Cruz Vermelha.

Numa das anunciadas interrupções dos bombardeamentos, Israel aproveitou para bombardear a Praça Palestina, próxima aos escritórios da administração municipal. Quatro dos feridos graves que chegaram ao hospital não conseguimos salvá-los - disse Atalá. Outros sete sobreviveram.

Todos os edifícios importantes para os serviços de manutenção de Gaza foram bombardeados. Desde ministérios a postos de polícia, todos foram destruídos. Alguns edifícios do Hamas também, mas não todos.

Acabámos de percorrer a pé as zonas dos edifícios dos ministérios da justiça, educação e cultura: completamente destruídos. Depois, já de carro, vimos mesquitas, fábricas, casas e escolas reduzidas a escombros. Perguntámos a Atalá e razão porque, segundo a sua opinião, Israel atacou Gaza tão ferozmente.

Ele acredita que os ataques foram basicamente um acto irracional, mas que a motivação imediata para um ataque desta magnitude foi a posição de alguns candidatos face ao acto eleitoral que se aproxima, pretendendo demonstrar desta forma junto do público israelita o seu desejo de utilizar as forças armadas para garantir a segurança dos israelitas. Os palestinos acabam sempre por pagar as despesas em sangue - disse.

Um dos aspectos mais graves desta guerra - acrescentou - é a falta de respeito para com a Organização das Nações Unidas. Três escolas da Agência de Socorros das Nações Unidas (UNRWA) foram bombardeadas. Na Jabália morreram mais de 45 pessoas numa escola da ONU; os caças F16 bombardearam também estações de armanezamento e distribuição de víveres da ONU.

Do Hospital de Chifa, observámos chamas e fumo de dia e de noite. A cidade ficou permanentemente coberta de fumo e produtos químicos. Desconhecemos ainda as consequências que esta situção poderá acarretar para a saúde pública - disse Atalá.

Sim! Há lançamento de foguetes - confirmou Atalá, referindo-se aos disparos do Hamas contra cidades israelitas - e estamos solidários com qualquer israelita ferido por esses foguetes. Mas se alguém te pica com um alfinete, não irás cortar-lhe a cabeça. Simplesmente, perguntas-lhe porque está a fazer isso. As pessoas aqui estão encarceradas numa prisão onde há falta de tudo. Nada é possível ser reparado. É desejo de todos que as fronteiras estejam abertas para que os bens possam entrar e sair. Passados seis meses de fronteiras fechadas, toda a gente está insatisfeita. Agora fala-se de cessar-fogo, mas nada é adiantado sobre a abertura das fronteiras, fica por esclarecer o regresso das tropas e ainda se pretende que a NATO venha reforçar o cerco.

Espero que o Presidente Obama faça melhor que George Bush. Um poderio militar tão grande deveria estar ao serviço dos direitos humanos, não confundir-se com um grupo terrorista. Só fanáticos esperam ganhos através do terror; um estado democrático abstem-se de argumentações falaciosas para desculpar a morte em massa. Pelo contrário, um estado que procede a matanças em larga escala, deve ser julgado por um tribunal internacional.

Ainda podemos experimentar o amor. Estamos a tentar fazê-lo com judeus... por palavras e por acções. Temos que vencer. Precisamos viver em conjunto. Procuramos dar-nos bem com todos, quaisquer que sejam as opiniões. A arma mais poderosa do mundo é o amor - disse Atalá, acrescentando que sempre assim acreditou ser e procurando junto dos colegas partilhar essa convicção, fossem muçulmanos, cristãos ou judeus, ao longo da sua carreira. Declarou isso mesmo na fronteira de Eretz, logo após o início da campanha "Chumbo Pesado" lançada por Israel. Foi um dos 200 cristãos seleccionados entre 800 que se apresentaram para atravessar a fronteira e celebrar o Natal ortodoxo com familiares no "Lado Ocidental". Ao atravessar a fronteira, cumprimentou soldados israelitas: Feliz Natal. Alguns soldados retorquiam: Tens armas? Sim - respondia-lhes Atalá - Tenho a arma mais poderosa do Mundo, a arma do amor.


Kathy Kelly, The Strongest Weapon of All, publicado por Voices for Creative Nonviolence a 19 de Janeiro de 2009

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Quinta-feira, Janeiro 15, 2009

Ludo Rex - A informação assimétrica

Título da minha responsabilidade (AF)




Doze Regras de Redacção dos Grandes Media Internacionais quando a notícia é do Médio Oriente
  1. No Médio Oriente são sempre os árabes que atacam primeiro e sempre Israel que se defende. É inconveniente falar em «represálias» quando se tratar do exército israelita.
  2. Os árabes, palestinianos ou libaneses não têm o direito de matar civis. A isso chama-se «terrorismo».
  3. Israel tem o direito de matar civis. A isso chama-se «legítima defesa».
  4. Quando Israel mata civis em massa, as potências ocidentais pedem que seja mais comedido. A isso chama-se «reacção da comunidade internacional».
  5. Os palestinianos e os libaneses não têm o direito de capturar soldados de Israel dentro de instalações militares com sentinelas e postos de combate. Isso chama-se «sequestro de pessoas indefesas».
  6. Israel tem o direito de sequestrar a qualquer hora e em qualquer lugar quantos palestinianos e libaneses desejar. Actualmente são mais de 10 mil, 300 dos quais são crianças e mil são mulheres. Não é necessária qualquer prova de culpabilidade. Israel tem o direito de manter sequestrados presos indefinidamente, mesmo que sejam autoridades eleitas democraticamente pelos palestinianos. Isto chama-se «prisão de terroristas».
  7. Quando se mencionam as palavras «Hezbollah» e «Hamas», é obrigatório a mesma frase conter a expressão «apoiado e financiado pela Síria e pelo Irão».
  8. Quando se menciona «Israel», é proibida qualquer menção à expressão «apoiado e financiado pelos EUA». Isso poderia dar a impressão de que o conflito é desigual e que Israel não está em perigo de existência.
  9. Quando se referir a Israel, são proibidas as expressões «territórios ocupados», «resoluções da ONU», «violações dos Direitos Humanos» ou «Convenção de Genebra».
  10. Tanto os palestinianos como os libaneses são sempre «cobardes», que se escondem entre a população civil. Se eles dormem nas suas casas, com as suas famílias, a isso dá-se o nome de «dissimulação» e «cobardia». Israel tem o direito de aniquilar com bombas e mísseis os bairros onde eles dormem. A isso chama-se «acção cirúrgica de alta precisão».
  11. Os israelitas falam melhor inglês, francês, espanhol e português que os árabes. Por isso eles e os que os apoiam devem ser mais entrevistados e ter mais oportunidades do que os árabes para explicar as presentes Regras de Redacção (de 1 a 10) ao grande público. A isso chama-se «neutralidade jornalística».
  12. Todas as pessoas que não estão de acordo com as Regras de Redacção acima expostas são «terroristas anti-semitas de alta periculosidade».


Ludo Rex, Palestina - Atenção ao Livro de Estilo!, 14 de Janeiro de 2009

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Quarta-feira, Janeiro 07, 2009

José Goulão - Hipocrisia Sangrenta

Altos responsáveis de países que se consideram faróis da «civilização» multiplicam apelos à «contenção» e ao «cessar-fogo» em Gaza, como quem procura assim cumprir uma obrigação perante o «agravamento da crise» no Médio Oriente. A hipocrisia de presidentes, ministros, diplomatas ou porta-vozes é tão óbvia como de costume, mas ainda consegue ser chocante tendo em consideração a tragédia que vitima mais de um milhão de meio de pessoas amontoadas num pequeno território inóspito aferrolhado entre Israel, o Egipto e o Mediterrâneo.

Tais apelos baseiam-se na objectividade de um pretenso distanciamento entre as «partes em conflito», assim se exigindo uma rigorosa simetria de comportamentos como numa guerra convencional entre exércitos clássicos. Simetria, pois, entre civis indefesos e as forças armadas que ocupam o quarto lugar no ranking das mais poderosas do mundo; entre ocupados e ocupantes; entre morteiros mais ou menos artesanais e o poder de fogo dos F-16 e dos tanques de última geração; entre comunidades famintas sujeitas há anos a um feroz bloqueio de bens essenciais e uma nação estruturada apoiada sem limites pelo mais poderoso país do planeta; entre as vítimas e respectivos descendentes de uma limpeza étnica e os ses autores.

O Hamas quebrou a trégua e tem de pagar, devendo desde já sujeitar-se ao regresso ao cessar-fogo faça o inimigo o que fizer, sentenciam os diplomatas civilizados. Trégua que verdadeiramente nunca existiu, uma vez que foi desde logo desrespeitada pelo Estado de Israel ao violar um dos seus pressupostos essenciais: o fim do bloqueio humanitário a Gaza. Durante os últimos seis meses o cerco não apenas se manteve como se apertou.

Como movimento terrorista, o Hamas tem que pagar, dirão ainda e sempre os civilizados senhores do poder de distinguir os que são e os que não são terroristas, do mesmo modo que lançam guerras contra possuidores de armas de extermínio que nunca existiram.

O Hamas, porém, praticamente não era nada quando se iniciou a primeira Intifada palestiniana, em fins de 1988. Hoje, o papel dos serviços secretos de Israel na criação efectiva de um movimento islâmico, o Hamas, para dividir a resistência nacional palestiniana dirigida pela Organização de Libertação da Palestina (OLP) já nem é sequer um segredo de Polichinelo. Os interessados em aprofundar o assunto poderão começar por pesquisar através da obra de Robert Dreyfuss e começar a desenrolar o novelo. Descobrirão elementos muito interessantes e com flagrante actualidade. A verdade é que de grupinho divisionista e terrorista o Hamas se transformou num movimento que, tirando dividendos dos fracassos sucessivos do chamado processo de paz, boicotado por Israel e Estados Unidos e assumido pela Fatah como única opção estratégica, conseguiu ganhar as eleições parlamentares palestinianas em 2006. O Hamas cresceu com as estratégias militaristas em redor, como os talibãs no Afeganistão (agora controlando zonas a menos de 50 quilómetros de Cabul) ou o Hezbollah no Líbano, fruto das invasões israelitas da década de oitenta.

Reconhecer que o Hamas é agora uma realidade evidente no problema israelo-palestiniana não significa fraqueza, simpatia ou conivência com o terrorismo. É, prosaicamente, uma simples questão de senso comum.

As eleições de 2006, proclamaram os observadores internacionais, muitos deles oriundos das terras «civilizadas», foram livres e justas. Logo, ao Hamas coube formar governo – diz-se que é assim que funciona a democracia.

Engano puro. A chamada «comunidade internacional» decidiu não reconhecer o governo escolhido pela maioria dos palestinianos; nem sequer aceitou uma aliança entre o Hamas e a Fatah, que praticamente fazia o pleno da vontade dos eleitores. Pelo contrário, também não são segredo as diligências da administração de George W. Bush e do governo israelita de Ehud Olmert para lançar a guerra civil entre as duas principais organizações palestinianas – chegando, para isso, a fornecer armas à Fatah – fazendo simultaneamente por ignorar o acordo entretanto estabelecido pelos dois movimentos sob mediação do Egipto e da Arábia Saudita.

Este processo conduziu à divisão palestiniana: a Fatah na Cisjordânia e Jerusalém Oriental, dependente do que Israel lhe permite ou não fazer; e o Hamas controlando Gaza, território dos seus principais feudos. Daí ao bloqueio a Gaza e, agora, à invasão, foi um pequeno salto.

O massacre está em curso, assistindo-se na comunicação social a tão curiosos como ridículos esforços para distinguir entre vítimas civis e militares. Em Gaza, para que conste, não há militares, a não ser os invasores. Existem restos da polícia autonómica, militantes do Hamas armados e organizados como milícias. O resto é milhão e meio de desempregados, famintos e humilhados. Tal é o inimigo de Israel que lançou alguns morteiros, por exemplo contra a cidade de Asqelon, que em 1948 se chamava Al-Majdal e era uma aldeia árabe cuja população, vítima da limpeza étnica em que assentou a criação do Estado de Israel, se refugiou em Gaza.

Os dirigentes de Israel asseguram que os «civis» serão poupados durante a invasão. Tal como aconteceu em 1982 em Beirute, onde os militares comandados por Ariel Sharon, fundador do partido de Ehud Olmert e Tzipi Livni, destruíram o sector ocidental da cidade, acabando por patrocinar os massacres de Sabra e Chatila. Ou em 1996, quando Shimon Peres, actual presidente israelita, foi responsável pelo massacre de Canan, também no Líbano, e mesmo assim perdeu as eleições parlamentares.

Gaza, ainda assim, será diferente de Sabra e Chatila. Agora, os soldados israelitas sujam mesmo as mãos com o sangue das populações indefesas – salpicando inevitavelmente os hipócritas que os defendem.


José Goulão, Hipocrisia sangrenta, Le Monde Diplomatique

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Terça-feira, Janeiro 06, 2009

Pela vida dos palestinianos

Guerra em Gaza

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Sábado, Janeiro 03, 2009

Margarida Ferrão - Ecos do Congo

Na peça da BBC, Margarida está referida pelo seu nome de casada. (AF)


As aldeias estão a ser queimadas e as populações estão a ser dizimadas. Temos notícias de que todos os corpos femininos encontrados estão despidos, do que inferimos que tenham sido violadas antes de serem mortas. Há falta de alimentos e o risco de uma situação de emergência médica e nutricional na área.

BBC News, Rebels 'advancing towards CAR', 1º de Janeiro de 2009

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Terça-feira, Outubro 21, 2008

Jim Brown - Tempestade no Deserto

Apresente-se, por favor.
Chamo-me Jim Brown. Sou veterano do exército americano com dez anos de experiência.

Quando esteve no Iraque?
Fui enviado para Arábia Saudita para apoiar as tropas que deveriam intervir no Iraque. Entrei em serviço em 25 de Setembro e deixei a Arábia Saudita em 16 de Fevereiro de 1991.

O que ocorreu ali que ainda não é conhecido?
Os militares americanos, junto com seus aliados, lançaram uma bomba nuclear de cerca de cinco quilotoneladas de potência na zona de Basrá, no Iraque.

Onde a lançaram?
Entre a cidade de Basra e a fronteira com o Irão.

Quem a lançou?
O serviço foi feito por militares americanos. É uma bomba nuclear de cinco quilotoneladas que tem o nome de ''bomba nuclear de potência variável''.

...


Não tem medo de falar disso?
É preciso entender o que é o medo. Há um ponto em que deve dizer: Basta! E quando você supera essa linha, não é por estar muito certo de si. Você faz ou não faz. Quando estava ao serviço levantei a mão direita e fiz um juramento, afirmando ''Isso é o que defenderei''.

Transcrição parcial da entrevista encontrada em Antreu, 20 de Outubro de 2008

Jim Brown
(Clicar sobre a figura para lançar o vídeo da entrevista)


Mais referências em:
L’accusa del veterano la terza bomba nucleare, RaiNews24, 8 de Outubro de 2008

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Quinta-feira, Outubro 02, 2008

Jochen Scholz - Projecto Europeu para o Novo Século (6)

(Início)

As condições económicas

Actualmente e a médio prazo o gás e o petróleo são os elementos incontornáveis da economia, logo do desenvolvimento, do poder e da influência. Face ao projecto da «grand strategy» anunciado pelos EUA, é espantoso que um assunto da máxima importância continue a ser debatido apenas em círculos fechados a sete chaves, em vez de ser tratado em discussões públicas a nível mundial (como por exemplo as mudanças climáticas): o «pico petrolífero». Os economistas relativizam a situação, contando com as reservas anunciadas pelas companhias petrolíferas. Tem todo o aspecto de um embuste, pois adia o problema central e inclui nos valores dos «recursos» as reservas, que não passam de suposições. A questão principal, segundo especialistas conceituados da geologia petrolífera, é outra: Em que momento se verificará o máximo da produção petrolífera, dando início ao seu declínio inexoravel. Estes especialistas situam entre 2010 e 2020. Mas, ao mesmo tempo, a procura dos países emergentes irá aumentar. A China é hoje o segundo importador de petróleo, a seguir aos EUA, absorvendo 20% da produção mundial.

Controlo da economia mundial

O «Cheney National Energy Report», publicado em Abril de 2001, que tem em consideração as previsões dos geólogos da «grand strategy» do PNAC, oferece explicações mais convincentes quanto à política externa, económica e financeira, e às recentes intervenções militares dos EUA, que aquelas que nos são oferecidas pelos oráculos políticos e mediáticos especializados da Casa Branca. Tanto mais interessantes são essas explicações, quanto é certo que os seus autores não são spin doctors [doutores de imagem], antes funcionários superiores e decisores com assento em lugares-chave das administração das principais companhias petrolíferas dos EUA. O relatório contem uma lista de países - para além do Iraque - que são os "felizes" contemplados pela especial atenção dos EUA, tanto nos planos político como militar, onde também se encontram informações adicionais: a Venezuela, o México, a Colômbia, o Sudão, a costa ocidental da África (São Tomé e Prícipe, Argélia e Marrocos), a Líbia - atente-se à evolução dos últimos anos, assaz reveladora - a Geórgia e a região do Cáucaso, as repúblicas muçulmanas ex-soviéticas, o Irão, o Paquistão, a Índia (com o último negócio do acordo nuclear, entretanto abortado, sobre uma parceria estratégica), a Indonésia, o Afganistão, o Japão e a Coreia. A disseminação de forças militares americanas pelo mundo e os esforços para conseguir instalar bases militares nas regiões estratégicas para o aprovisionamento de petróleo, podendo ir até à ocupação de um país, enviaram uma mensagem clara: Queremos assegurar-nos do controlo sobre a economia dos nossos rivais, decidindo quem irá terá petróleo, quanto petróleo terá e qual o preço.
«Sendo certo que há muitas regiões com grandes oportunidades para a exploração do petróleo, é no Médio Oriente, com os seus dois terços das reservas mundiais, que o preço se define em última instância. Indo directamente ao ponto: a diferença mais importante entre a Coreia do Norte e o Iraque é que, economicamente, não temos alternativa válida ao petróleo do Iraque. Este país nada num oceano de petróleo.»
Não é possível ser-se mais claro. Escutando com o ouvido atento o «Autumn Lunch Speech» (discurso para o almoço de Outono [!]) feito pelo ex-Presidente do Conselho de Administração da Halliburton e actual vice-Presidente dos EUA Dick Cheney, nota-se em que carris ele já se movia em 1999. Desde essa altura se interrogava Cheney onde poderiam ser encontrados os 50 milhões de barris suplementares que a economia mundial iria precisar, por cada dia, no ano de 2010, caso 90% dos campos petrolíferos pemanecessem nas mãos dos diferentes governos e companhias nacionais. Para dar uma ordem de grandeza: a previsão do aumento de procura situava-se em quase dois terços da produção mundial total de 1999. Cheney considerava por isso a soberania nacional como um dos problemas principais. Eis porque a preparação de uma «opção militar» visando derrubar o regime iraquiano começou oito meses antes do 11 de Setembro de 2001.

Todas as cartas na mesa!

Nunca os Estados Unidos da América haviam usado de tamanha brutalidade, quer com os seus aliados mais próximos, quer com as Nações Unidas, criando factos consumados; tampouco haviam afrontado numa medida comparável a opinião pública do próprio país com falsidades, como o fez quando se tratou de justificar a guerra ao Iraque. Assumiram o risco de desestabilizar a região que representa para eles a prioridade das prioridades nos seus planos estratégicos e que ocupa um lugar charneira no funcionamento da economia mundial. Comprometeram a sua reputação de «potência tranquila» ao serviço da paz e da estabilidade e são hoje olhados pelo mundo inteiro como mentirosos. Ocorre, então, uma pergunta: o que impeliu políticos normalmente ponderados a enveredar por semelhantes aventuras e colocar todas as cartas na mesa? Se os agentes não eram incendiários, nem doentes mentais, uma explicação se impõe: os planos e as iniciativas do governo dos EUA basearam-se no conhecimento que dispõem relativamente ao pico petrolífero, e destinam-se a impedir que as suas consequências dramáticas ponham em causa a supremacia dos EUA.
Em socorro desta tese pode citar-se o programa económico estabelecido por Paul Bremer, em Setembro de 2003, constante no decreto 39. A exploração do gás e do petróleo iraquiano deveria permanecer sob controlo dos EUA. (As coisas alteraram-se mais tarde). Em seu favor pesa igualmente um facto que passou quase despercebido à opinião pública, embora fosse muito significativo: em Agosto de 2003, o Japão renunciou, sob pressão dos EUA, a assinar um contrato com o Irão, que já estava negociado e redigido, para a exploração de um importante campo petrolífero.
(continua)


Tradução a partir da versão francesa:
Jochen Scholz, PNEC – Project for the New European Century, Horizons et débats, 15 de Seyembro de 2008

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Sexta-feira, Setembro 05, 2008

Bento de Jesus Caraça - As ilusões nunca são perdidas

Bento de Jesus CaraçaAs páginas que vão ler-se contêm a matéria de uma conferência que o autor realizou em 1933 (25 de Maio) a convite duma organização de novos - a União Cultural "Mocidade Livre", para inauguração da sua actividade.
Viviam-se nessa altura horas inquietantes e fecundas. A marcha acelarada dos acontecimentos na Europa pressagiava grandes transformações próximas. Hitler tomara, havia meses, o poder na Alemanha; agitavam-se as mais variadas correntes dentro e fora do Reich; a instabilidade geral era manifesta; tudo isto criara um ambiente de espectativa e ansiedade.
Os espíritos moços, como sempre, viviam os acontecimentos com ansiedade, despertavam para as preocupações mais fundas, auscultavam o futuro cheios de optimismo, uniam-se para pensar. Foi desse ambiente que nasceu a União Cultural "Mocidade Livre".
O futuro imediato não correspondeu às aspirações e impaciências desses espíritos juvenis e ardentes. O desenvolver da vida social europeia seguiu por caminhos que haviam de provocar a revisão de muitos optimismos fáceis e, em contrapartida, fazer abrir muitos olhos para realidades cruéis, em suma, proporcionar grandes lições.
Tudo isso fez que se amortecessem alguns entusiasmos das primeiras horas. Que importa? é essencial que tenham existido! Mas foram mais algumas ilusões perdidas, dir-se-á. Não. As ilusões nunca são perdidas. Elas significam o que há de melhor na vida dos homens e dos povos. Perdidos são os cépticos que escondem sob uma ironia fácil a sua impotência para compreender e agir; perdidos são aqueles períodos da história em que os melhores, gastos e cansados, se retiram da luta, sem enxergarem no horizonte nada a que se entreguem, caída uma sombra uniforme sob o pântano estéril da vida sem formas.
Benditas as ilusões, a adesão firme a qualquer coisa de grande, que nos ultrapassa e nos requer. Sem ilusão, nada de sublime teria sido realizado, nem a catedral de Estrasburgo, nem as sinfonias de Beethoven. Nem a obra imortal de Galileu.


Bento de Jesus Caraça, Nota explicativa, publicada na Seara Nova, 1939
a respeito da conferência A Cultura Integral do Indivíduo, 1933

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Sexta-feira, Agosto 22, 2008

Gerhard Schröder - O fim da América unipolar

Erros graves do Ocidente



O antigo chanceler alemão Gerhard Schröder discute a guerra do Cáucaso, a possibilidade de a Alemanha se tornar um intermediário do conflito e a sua confiança no papel construtivo da Rússia.

SPIEGEL: Senhor Schröder, de quem é a erro na guerra do Cáucaso?

Gerhard Schröder: As hostilidades têm certamente as suas causas históricas e este conflito também tem os seus precedentes históricos. Porém, quem tornou o conflito num conflito armado foi a Geórgia ao invadir a Ossétia do Sul, é bom não escamotear.

SPIEGEL: Não reconhece parte da culpa do lado de Moscovo, uma resposta desproporcionada dos militares russos?

Gerhard Schröder: Isso é algo que não posso, nem quero, julgar. Os conflitos militares desenvolvem a sua própria dinâmica. O ponto essencial agora é todas as partes tirarem partido do plano de seis pontos apresentado pelo presidente francês.

SPIEGEL: Acredita que os conselheiros militares americanos estacionados em Tbilisi encorajaram a Geórgia a lançar-se ao ataque?

Gerhard Schröder: Não iria tão longe. Mas sabemos todos que estes conselheiros militares existem na Geórgia - um destacamento que nunca considerei especialmente inteligente. Seria bastante estranho se esses peritos não possuissem qualquer informação. Só se compreenderia se fossem profissionais extremamente medíocres ou completamente loucos, o que, em qualquer caso, é difícil imaginar.

SPIEGEL: O Governo dos Estados Unidos da América (EUA) reclama que advertiu o Presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, contra a iniciativa do ataque. No entanto, não terão sido os acontecimentos demasiado convenientes para os propósitos do Primeiro Ministro Vladimir Putin?

Gerhard Schröder: Isso são especulações nas quais não desejaria participar. Assumo que ninguém, entre os líderes de Moscovo, tem interesse na confrontação militar. Há suficientes problemas internos na Rússia, que são urgentes resolver. Por exemplo, a corrupção e o abuso de autoridade têm que ser enfrentados. A Rússia está cheia de dificiências, uma questão que já levantei por diversas vezes. O Presidente Dimitri Medvedev e o Primeiro Ministro Putin estão neste momento ocupados com estes problemas - conjuntamente, diga-se a propósito, e não em competição entre eles, como por vezes é referido pelo jornalismo sensacionalista.

SPIEGEL: Talvez assim seja, mas há algo que está agora em jogo: a Rússia nunca suplantou a perda do seu estatuto de superpotência e, em anos recentes, sentiu-se acossada e humilhada pela NATO. Durante a guerra nos Balcãs, durante a invasão ao Iraque pela "Coligação dos Desejosos" sob a liderança de Washington, ainda durante a declaração da independência do Kosovo...

Gerhard Schröder: ... não esqueça o desenvolvimento do sistema de mísseis defensivos na Polónia e na República Checa...

SPIEGEL: ... o Kremlin foi forçado a permanecer como espectador. É ou não possível que, após um reforço económico e militar, Moscovo veja no amigo dos EUA Saakasvili a melhor oportunidade para retaliar sobre o Ocidente? E que Putin tente afirmar as suas aspirações imperiais?

Gerhard Schröder: Na minha opinião, há certamente graves erros cometidos pelo Ocidente na sua política de relacionamento com a Rússia. Podemos encontrar alguma ligação entre esses factos e a recente resposta da Rússia à provocação da Geórgia? Penso que é errado confundir as duas coisas.

SPIEGEL: Não partilha o receio sentido por muitos no Ocidente de um novo surto de "ameaça russa"?

Gerhard Schröder: Não, de todo. Há uma percepção sobre a Rússia no Ocidente que tem pouco a ver com a realidade.

SPIEGEL: Pode dar-se o caso de o duo de liderança altamente confiante de Moscovo sentir que o Ocidente precisa da Rússia mais do que a Rússia precisa do Ocidente?

Gerhard Schröder: A dependência é recíproca. Não existe uma só, entre as questões críticas da política mundial ou da economia global que possa ser resolvida sem a Rússia: tal é o caso do conflito nuclear com o Irão, tal é o caso da questão Norte-Coreana e certamente também o advento da paz no Médio-Oriente. Tal como o conjunto de problemas do clima apenas pode ser resolvido à escala universal. Por acaso, Moscovo ratificou o Protocolo de Kioto para lutar contra o aquecimento global, enquanto nós continuamos à espera que Washington o faça. E quanto à política energética, só sonhadores podem convencer-se de que a Europa Ocidental pode tornar-se independente do petróleo e do gás natural da Rússia. Por outro lado, a Rússia precisa de cliente fieis para as suas exportações de energia.

SPIEGEL: Não vê, então, razões - face à dureza das acções no Cáucaso - para cancelar a "parceria estratégica" germano-russa ou pelo menos suspendê-la?

Gerhard Schröder: Não. Não vejo porque deveríamos desperdiçar essa parceria devido à Geórgia. A dependência mútua também cria segurança mútua. Também me oponho ao criticismo dirigido aos investimentos na Alemanha. Qual o problema do Sr Alexei Mordashov investir numa empresa de turismo (TUI), do Sr Oleg Deripaska possuir 10% da empresa de construção Hoshtief ou de outro oligarca possuir uma participação do capital de uma empresa de modas Escada? Eu preferiria ver mais - não menos - investimentos na economia alemã. Falando historicamente, esta integração económica já demonstrou ser politicamente benéfica.

SPIEGEL: Agora parece estar a repetir o antigo Secretário de Estado americano Henry Kissinger. Sempre pensou dessa forma?

Gerhard Schröder: Claro que não, enquanto pertenci às Juventudes Socialistas. Só que, desde essa data e até agora, envolvi-me profissionalmente na política externa e fui Chanceler. Esta abordagem prática ganhou a minha preferência - e é certemente a mais razoável para mim.

SPIEGEL: Com todo respeito pelo frio adepto da real-politic: Será que não temos que desenhar uma linha a vermelho agora, uma linha que Moscovo não pode atravessar, caso queira continuar a participar nas instituições internacionais ou manter-se como parceiro do Ocidente? A retirada imediata das suas tropas da Geórgia, por exemplo, e o reconhecimento da sua integridade territorial, tal como exigiu veementemente a Secretária de Estado Rice?

Gerhard Schröder: Não acredito que a Rússia prossiga uma política de anexação. Tal como não acredito que possamos regressar à situação anterior na Ossétia do Sul ou na Abecázia. Está fora de questão. Do meu ponto de vista, isto tem menos a ver com o suposto expansionismo russo do que com os desejos da população.

SPIEGEL: Deveria a Alemanha participar numa força militar de manutenção da paz no Cáucaso?

Gerhard Schröder: O Ministro alemão dos Negócios Estrangeiros está, desde há muito tempo, envolvido nos esforços para uma solução política sob o manto da diplomacia e foi astuto ao afirmar que, se a Organização para a Segurança e Cooperação Europeia (OSCE) tiver que jogar um papel de coordenação entre as partes em conflito, a Alemanha não poderia deixar de se envolver. Se, contudo, se tratar de uma missão sem consentimento da Rússia, eu não quero ver soldados alemães estacionados por lá. Isto é apenas uma questão que se depreende da nossa história partilhada.

SPIEGEL: Tem a Geórgia um lugar na NATO?

Gerhard Schröder: Pensava que o governo alemão - e curvo-me a cumprimentar a Sra Merkel e o Sr Steinmeier a este respeito - juntamente com o governo francês, tinham tomado a decisão certa durante a Cimeira da NATO em Bucareste, em Abril...

SPIEGEL: ... porque se oposeram à intenção americana e da Europa de Leste de aceitar rapidamente a Geórgia e Ucrânia, disfarçando a recusa num amontoado de promessas vagas?

Gerhard Schröder: Imagine que estivéssemos obrigados a intervir pela força militar à conta da Geórgia, por ser membro da NATO, e à conta de um batoteiro evidente, que é a maneira correcta de nos referirmos a Saakashvili. A Geórgia e a Ucrânia devem primeiro resolver os seus problemas políticos domésticos e estão ainda muito longe de consegui-lo. Considero as hipóteses de a Geórgia ascender a membro ainda mais remotas, como consequência dos recentes acontecimentos no Cáucaso e, como tal, sigo com bastante dificuldade as promessas estridentes feitas nesse sentido pelo Secretário Geral da NATO, há poucos dias.

SPIEGEL: O candidato presidencial republicano dos EUA, John McCain, acompanhou-o, ao declarar: "Hoje, somos todos georgianos".

Gerhard Schröder: Eu não sou.

SPIEGEL: Robert Kagan, um ídolo dos neoconservadores e ainda um pensador influente da política externa entre os republicanos, definiu o dia da invasão da Geórgia pela Rússia como o início de um conflito territorial renovado entre as maiores potências e "como um ponto de viragem não menos significativo que o 9 de Novembro de 1989, quando caiu o muro de Berlim".

Gerhard Schröder: Li isso, mas nada significam para mim. Kagan, bem vistas as coisas, foi um dos homens que mais defendeu a intervenção no Iraque. As consequências não foram agradáveis, nem para a América, nem para a Europa. Talvez devamos apenas ignorar o seu conselho.

SPIEGEL: Num artigo no "Die Zeit", há poucas semanas, escreveu que a "fase de transição do domínio americano" está agora a chegar ao fim. O que quiz dizer exactamante com isso? Será que conduz automaticamente a um mundo multipolar e melhor?

Gerhard Schröder: O fim da América unipolar não é evidente apenas pela emergência de um candidato presidencial democrata, Obama, mas também pelas políticas de pensamento racional dos republicanos. Se ler o relatório não-partidário Baker-Hamilton sobre o futuro do Iraque, ser-lhe-á fácil reconhecer aí que o próximo presidente dos EUA terá muitas dificuldades em agir de outra maneira que num modo multipolar - quaisquer que sejam as declarações que um ou outro político faça nas campanhas.

SPIEGEL: Qualquer que seja o próximo homem responsável pela Casa Branca, Obama ou McCain?

Gerhard Schröder: Claro que isso fará diferença. Creio, no entanto, que até uma administração republicana, que não desejo, não conseguirá evitar ter que retomar uma abordagem multipolar, ganhar aliados e trabalhar em conjunto nas instituições internacionais. Aparentemente, os que estão em Washington já perceberam que é possível ganhar uma guerra sozinho, mas não a paz.

SPIEGEL: Que papel desempenhará a Europa nesse mundo multipolar? Não haverá uma clivagem profunda entre países como a Alemenha, a França e a Itália, que não desejam, especialmente agora, permitir que a cooperação com a Rússia chegue ao fim e os países Bálticos, a Polónia e a República Checa, caracterizados pelo medo da Rússia?

Gerhard Schröder: O processo da unificação europeia nas questões de política externa e de segurança não se tornou mais fácil desde que saí da Chancelaria em 2005. Isto tem também a ver com a integração dos novos estados. Este processo de unificação deve ser entendido como uma oportunidade histórica, ainda que haja um preço a pagar.

SPIEGEL: Está a arrastar-se.

Gerhard Schröder: Esse é exactamente o preço. A Europa só poderá jogar um papel a sério no contexto entre a América por um lado e a Ásia por outro, se conseguir estabelecer e manter fortes relações com a Rússia. Vejo a Rússia como parte da Europa, mais do que parte de qualquer outra constelação.

SPIEGEL: E será que a Rússia se revê da mesma maneira?

Gerhard Schröder: Pelo menos esta é a maneira como a actual liderança a vê. E nós, na Alemanha e na Europa, devemos interpretar isso como uma oportunidade. A Rússia tem a alternativa asiática, mas a Europa não. Além disso, esta constelação não passa necessariamente por um afastamento da Europa relativamente aos EUA.

SPIEGEL: Isso parece muito optimista. Não vislumbra um reinício da Guerra Fria no horizonte?

Gerhard Schröder: Não. Pelo menos não seria do interesse da liderança russa. Sou totalmente contra a demonização da Rússia. E acredito que Moscovo reconhecerá cedo a mecessidade de, uma vez mais, integrar-se mais fortemente na comunidade internacional.

SPIEGEL: E Washington tratará de não castigar os líderes do Kremlin e de não expulsar a Rússia das organizações como o G-8?

Gerhard Schröder: Essa visão estreita, que McCain por exemplo sustenta, não prevalecerá - é o que desejo e espero.

SPIEGEL: Fala como antigo Chanceler ou como funcionário da empresa estatal Gazpron?

Gerhard Schröder: O SPIEGEL não deveria participar na difusão de falsas informações. Não sou um empregado qualquer, antes o Presidente da Comissão de Accionistas da Nord Stream, um consórcio holandês, alemão e russo, cujo único objectivo é construir um gasoduto através do Mar Báltico que tornará o fornecimento de gás à Alemanha e a Europa significativamente mais seguro.

SPIEGEL: Sr Schröder, agradecemos esta entrevista.

Entrevista de Gerhard Schröder ao Der Spiegel
publicada em 18 de Agosto de 2008

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Quarta-feira, Agosto 13, 2008

Oposição Judia - Apelo contra o ataque ao Irão

12/08/08 "Information Clearing House" -- Esforços para rufarem os tambores de guerra para um ataque às instalações nucleares do Irão estão a ser envidados tanto nos Estados Unidos da América (EUA) como em Israel. O recente artigo de opinião publicado em 18 de Julho pelo New York Times, escrito pelo historiador israelita Benny Morris, serve para dar alento a essas forças políticas. A Oposição Judia expressa aqui a sua consternação para contrariar esta proposta horrível.

Os clamores da guerra ao Irão não só enfrentam a oposição popular como prejudicam os esforços diplomáticos que o Irão desenvolveu com a Agência Nuclear das Nações Unidas, bem como as negociações comerciais com os próprios EUA. Israel está também comprometido com um cessar-fogo que dura há um mês, para alívio das populações tanto de Israel como de Gaza. Face à atmosfera política criada, favorável à prudência e ao diálogo, os militaristas renovam os seus argumentos tendentes a criar condições favoráveis ao conflito. Morris prestou-se a este papel ao afirmar:
"Parece que estão dispostos a usar qualquer bomba que fabriquem, quer porque tal decorre da sua ideologia, quer porque receiam um ataque preventivo de Israel. Logo, um ataque de Israel que impeça os iranianos de darem os passos finais para obterem a bomba é provável. A alternativa é deixar que Teerão consiga a bomba. Tanto num caso como noutro, o holocausto nuclear no Médio Oriente está em jogo."
http://www.nytimes.com/2008/07/18/opinion/18morris.html

Este sentido de inevitabilidade deflagra em Israel e entre os judeus a memória do Holocausto Nazi, assegurando um apoio imediato a um ataque militar ao Irão; suscita reacções conducentes à guerra que tem estado e ser preparada pelos EUA. Isto é especialmente deplorável, dado que as 16 agências de espionagem dos EUA concluiram que o Irão não possui armas nucleares e não está em condições de possuir a primeira dentro dos próximos cinco anos.

Enaltecemos a coragem heróica de Mordechai Vanuum ao alertar para o plano nuclear de Israel, juntando à nossa a sua voz de condenação do armazenamento por Israel de ogivas nucleares como uma actividade ilegal e apoiando o nosso apelo em prol de um Médio Oriente livre de armas nucleares.

Uma mente capaz de propugnar uma guerra de aniquilação mútua como solução para o problema da segurança é espantosamente auto-contraditória. Só a invocação de uma ameaça do tipo Nazi parece outorgar alguma força para tal chamamento à guerra, tal como a ocupação dos territórios palestinos vem sendo justificada por supostos planos palestinianos para afogar os judeus no mar. A referência à ideologia iraniana (o Islão) como móbil do confonto não resiste a qualquer exame, uma vez que o desafio político feito a Israel pelo Presidente Mahmoud Ahmadinejad não é um apelo ao extremínio, mesmo considerando a tradução tendenciosa.

Ao prosseguirmos o objectivo da segurança para todas as partes envolvidas, afirmamos o direito de todos à segurança. Ao repudiarmos o argumento da inevitabilidade da guerra, denunciamos ao mesmo tempo a histeria de funcionários iranianos, alardeando constantemente partidas falsas para uma guerra desnecessária. A tentativa de obrigar o Irão a sujeitar-se às resoluções do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) fica enfraquecida nos planos legal, diplomático e político se os EUA e Israel ignorarem ostensivamente a diplomacia da ONU e as decisões do Tribunal Internacional que pendem sobre a questão da Palestina. Exortamos todos os que se opõem à confrontação militar com o Irão a escrever aos respectivos governos exigindo que o Estado de Israel coloque as suas instalações nucleares ao dispor dos inspectores internacionais e subscreva o Tratado de Não-Proliferação de armas nucelares tal como já fez o Irão, em vez de proferir ameaças de guerra.

Apelo subscrito por organizações judias de vários países,
publicado por Information Clearing House em 12 de Agosto de 2008

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Terça-feira, Agosto 12, 2008

David Brockschmidt - A Alemanha é soberana?

Contrato Secreto
Pela lei internacional, um país é soberano se tem o poder de tomar decisões internas e externas sem a interferência de outro país e sem sofrer pressões políticas de qualquer grupo interno ou externo.

A questão que coloco ao governo alemão e à Chanceler Angela Merkel é: É a República Federal Alemã hoje um estado completamente soberano segundo a sua própria lei e a lei internacional? Sim ou não?

Se a resposta é não, então explique, por favor, quais são as restrições internas ou externas impostas aos alemães. Se a resposta é sim, então explique a razão por que as questões que apresento em seguida não afectam a soberania alemã.
  1. A Alemanha não possui um Tratado de Paz com os países com os quais se esteve envolvido na Segunda Guerra Mundial. Foram 64 países, incluindo as quatro principais potências vencedoras: Estados Unidos da América (EUA), Reino Unido (RU), União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e França.
  2. A cláusula que considera a Alemanha e o Japão como inimigos continua em vigor na Carta das Nações Unidas e pode ser accionada em qualquer momento, se necessário, pela força militar.
  3. O governo actual afirma aos cidadãos e à comunidade internacional que as suas fronteiras actuais constituem a totalidade do território alemão. A decisão do Tribunal Constitucional alemão de 1973 afirma o contrário. O juízo refere claramente que o Reich Alemão ainda existe de jure dentro das fronteiras de 1937. Se olharmos para uma carta geográfica de 1937 e a compararmos com a actual, vemos claramente que há territórios alemães a Este que são hoje parte da Polónia e da Rússia. Estes territórios, de acordo com as decisões dos tratados das potências aliadas vitoriosas sobre a Alemanha nas conferências Teerão, Yalta e Postdam apenas deveriam permanecer sob administração polaca ou russa até que um tratado de paz fosse assinado com a Alemanha. Isto não aconteceu. Como é isto possível, que o governo alemão após a Segunda Guerra Mundial tenha entregue de jure estes territórios à Rússia e à Polónia, que os administram de facto? Faz algum sentido?
  4. Após a reunificação da Alemanha Ocidental com a Alemanha Oriental foi dito aos cidadãos alemães e à comunidade internacional que, conforme o Acordo dos 2 mais as 4 potências vitoriosas, que estas abdicavam dos direitos e das responsabilidades sobre as quatro zonas de ocupação no território alemão e respectivos sectores na Grande Berlim. Isto não foi feito!

    As quatro potências terminaram as actividades em território alemão, porém não abdicaram dos seus direitos.

    O documento oficialmente publicado do acordo dos 2+4 é muito claro a este respeito. O facto, porém, é que a maior parte dos direitos de ocupação dos aliados - EUA, RU e a França - sobre a Alemanha foram transferidos ou incorporados no assim chamado Estatuto das Tropas da NATO. Foi assim declarado forçosamente que os direitos dos Aliados da Guerra e do pós-Guerra sobre a derrotada Alemanha se mantinham e não foram abolidos.
  5. Os quatro pontos anteriores culminam com o dossier Kanzlerakte da Chancelaria. O governo da Alemanha Ocidental sob o Chanceler Konrad Adenauer, perante os altos comissários de três potências das forças acupantes, o EUA, o RU e a França, estabeleceram um tratado secreto datado de 21 de Maio de 1949, que foi assinado em 23 de Maio de 1949 pelo Chanceler Konrad Adenauer, o Presidente do Parlamento Alemão, Adolf Schönfeller e o vice-Presidente do Parlamento Alemão, Herman Schäfer. O ponto principal deste acordo secreto é o chamado Veto Aliado, que surge como consequência da cláusula que atribui o estatuto de inimigo à Alemanha e ao Japão pela Carta das Nações Unidas. Lá está dito:
    1. Que a imprensa alemã será controlada pelas potências ocupantes até 2099.
    2. Que as reservas de ouro da Alemanha são confiscadas como compensação.
    3. Que o assim designado Veto Aliado respeitante à derrotada Alemanha inclui qualquer decisão interna ou externa do Governo Alemão, tornando-se efectivo mediante o consenso dos três altos comissários militares ocidentais.
  6. O Major General Gerd Helmut Komossa, chefe do serviço de espionagem militar - Militarischer Abschirm Dienst (MAD) - desde 1977 até 1980, confirma este acordo top secret entre o governo alemão sob o Chanceler Adenauer e os aliados ocidentais no seu livro: Die Deutsche Karte - a Carta Alemã, Graz, 2007, ISBN: 978-3-902475-34-3, a páginas 21. Segundo o Major General Komossa, cada novo Chanceler Alemão fica obrigado a assinar o acordo secreto, o chamado Kanzlerakte, antes de tomar posse como Chanceler perante o Parlamento Alemão.
Permitam-me ainda os leitores recordar que as antigas zonas de ocupação pelas potências ocidentais estão hoje sob ocupação de forças militares dos EUA, RU, França, Canadá, Bélgica e Holanda. Esta persistência da ocupação da Alemanha pelos países mencionados é justificada e legalizada no quadro do Estatuto das Tropas da NATO que integra quase todos os direitos de ocupação das potências vencedoras sobre a Alemanha. As instalações militares dos aliados na Alemanha, como certamente no resto da Europa Ocidental e no Japão, são extra-territoriais, como as embaixadas estrangeiras. As leis e regulamentos locais não se aplicam dentro destas circunscrições militares.

Por favor, Senhora Chanceler da República Federal Alemã, Dr Angela Merkel, foi ou não obrigada a assinar o dossier do Chanceler - Kanlerakte e/ou qualquer outro documento cedendo a qualquer potência estrangeira limitações sobre a liberdade do seu povo ou a soberania da República Federal da Alemanha?

A ironia é que uma única potência vitoriosa, a Rússia (ex-URSS), abandonou permanentemente a zona de ocupação na Alemanha e o sector ocupacional na Grande Berlim!

Infelizmente, a 'soberana' República Federal Alemã não pode dar às restantes forças ocupantes ocidentais as respectivas guias de marcha. Isto iria contra os direitos dos aliados estabelecidos pelos acordos feitos entre três deles - Churchill, Roosevelt e Stalin - nas conferências de Teerão, Yalta e Postdam.

Em resumo: eu quereria estar de acordo com o ex-embaixador dos EUA na Alemanha, Kornblum, que informou enfaticamente as autoridades alemãs: "Vocês não são soberanos!" Esta declaração nunca foi repudiada ou questionada por qualquer governante alemão.

Assim, Senhora Chanceler, explique por favor! Eu pergunto:"O estado alemão soberano existe?"

NB:
  1. Nem todos os documentos do Acordo dos 2+4 entre os dois antigos estados alemães e os quatro aliados foram tornados públicos, e alguns estão classificados como secretos por muitos mais anos.
  2. Relativamente ao livro do Major General Gerd-Helmut Kossoma, publicado no ano passado, pergunto-me a mim próprio porque razão não terá havido um protesto ou pelo menos uma questão sobre o Kanzlerakte na imprensa alemã? Sertá que os alemães vivem num permanente estado de negação da sua própria história?
David Brockschmidt, The ‘Sovereign’ Federal Republic of Germany
publicado por Adelaide Institute em Maio de 2008

Grato ao raivaescondida pela pista. (AF)

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Terça-feira, Julho 29, 2008

Marjorie Cohn - Fim à ocupação do Iraque e do Afeganistão

Marjorie Cohn é Presidente do National Lawyers Guild e professora na Escola Thomas Jefferson de Direito. É autora do Cowboy Republic. Os seus artigos estão arquivados em marjorie cohn.

Marjorie CohnPor enquanto, o plano do Sr Bush para perpetuar a presença militar dos EUA no Iraque encontrou a resistência do governo iraquiano. O calendário de retirada das tropas americanas de Barck Obama foi naturalmente ao encontro dos desejos do Primeiro Ministro Nuri al-Malaki, e Bush mencionou um "horizonte temporal" enquanto McCain foi tagarelando. Porém, Barack Obama é a favor da permanência por tempo indeterminado de 35.000 a 80.000 soldados de ocupação dos EUA com o propósito de treinar forças de segurança e empreender "acções de contra-insureccção". Isto não poria fim à ocupação. Devemos exigir o repatriamento das tropas dos EUA - não a sua renovação - ou seja, o regresso de todos os soldados e mercenários, o encerramento de todas as bases militares dos EUA e renunciar a todos os esforços para controlar o petróleo iraquiano.

Dado o aumento da violência no Afeganistão e por razões políticas - anunciadas por Obama - Bush decidiu deslocar tropas do Iraque para o Afeganistão. Se bem que a invasão do Afeganistão pelos EUA seja tão ilegal como a invasão do Iraque, muitos americanos encaram-na como uma resposta justa face aos ataques do 11 de Setembro de 2001, com perdas de vida em combate menores que as do Iraque - por enquanto. Quase ninguém nos EUA questiona actualmente a legalidade ou o direito do envolvimento militar no Afeganistão. A capa da revista Time chamava-a "A Guerra Correcta".

A Carta das Nações Unidas indica que todos os estados membros devem resolver as suas disputas internacionais por meios pacíficos, não sendo reconhecido a qualquer nação o direito ao uso da força a não ser em caso de auto-defesa ou quando autorizado pelo Conselho de Segurança. Após os ataques do 11 de Setembro, o Conselho de Segurança aprovou duas resoluções, nenhuma das quais concedia autorização para usar a força militar no Afeganistão. As Resoluções 1368 e 1373 condenavam os ataques do 11 de Setembro e ordenavam o confisco dos bens; a criminalização das actividades terroristas; a prevenção da constituição ou apoio a ataques terroristas; a tomada de medidas necessárias para evitar a formação de grupos terroristas, incluindo a partilha de informações; finalmente, a ratificação urgente de convénios internacionais contra o terrorismo (que os EUA não ratificaram).

A invasão do Afeganistão não foi um acto de legítima defesa ao abrigo do artigo 51 da Carta das Nações Unidas, porque os ataques de 11 de Setembro foram um acto criminoso, não uma invasão armada desencadeada por outro país. O Afeganistão não atacou os Estados Unidos da América. De facto, 15 dos 19 sequestradores de aviões vieram da Arábia Saudita. Além disso, não estava iminente uma ameaça de um ataque armado aos Estados Unidos nos dias subsequentes ao 11 de Setembro, ou Bush não teria esperado três semanas para iniciar a campanha de bombardeamentos, em Outubro de 2001. A necessidade de auto-defesa deve ser "imediata, irrecusável, não dando hipóteses de escolha de meios no momento da decisão". Este princípio clássico da auto-defesa consagrado na lei internacional foi definido no tribunal de Nuremberga e reafirmado pela Assembleia Geral das Nações Unidas.

A justificação de Bush para atacar o Afeganistão foi a de que hospedava Osama ben Laden e que treinava terroristas. Os iranianos poderiam usar o mesmo argumento para atacar os EUA quando derrubaram o corrupto chá Reza Palevi em 1979, a quem os EUA ofereceram custódia. Os povos dos paises da América Latina, cujos ditadores foram treinados em técnicas de tortura na School of Americas, também podiam atacar esta infra-estutura situada em Fort Bennings, na Georgia, com os mesmos fundamentos.

Aqueles que conspiraram para sequestrar aviões e mataram milhares de pessoas em 11 de Setembro são culpados de crimes contra a humanidade. Devem ser identificados e levados à justiça de acordo com a lei. Mas a retaliação invadindo o Afeganistão não é a resposta e só conduzirá a mais mortes das nossas tropas e de afegãos.

O ódio que motivou 19 pessoas a fazerem-se explodir e levarem consigo 3000 inocentes tem a sua génese na história de exploração de pessoas das nações ricas em petróleo, empreendida pelos governos dos EUA em todo o mundo. Bush acusou os terroristas de tomarem como alvo as nossas liberdades e a democracia. Não foi, porém, a estátua da Liberdade que foi destruida. Foi o World Trade Center - símbolo do sistema económico mundial dirigido pelos EUA e o Pentágono - o coração do aparelho militar - que foram atingidos. Aqueles que cometeram esses odiosos crimes estavam a atacar a política externa americana. Esta política resultou na morte de dois milhões de iraquianos - causadas, quer pelas sanções punitivas de Clinton, quer pela guerra de Bush. Do que resultou um apoio acrítico à brutal ocupação das terras palestinas por Isreal; e o estacionamento de mais de 700 mil soldados dos EUA em bases de países estrangeiros.

Manifestamente ausente do discurso nacional está a análise política das razões conducentes à tragédia do 11 de Setembro e a orientação geral para escrutinar a política externa dos EUA que nos afastasse da cólera daqueles que desprezam o imperialismo americano. A "Guerra ao Terror" foi acriticamente aceite por quase todo o país. Mas terrorismo é uma tática, não um inimigo. Não se pode declarar guerra a uma táctica. A maneira de combater o terrorismo é isolando e atingindo as suas raízes, incluindo a pobreza, o não acesso às escolas e a ocupação estrangeira.

Já existem 60.000 tropas estrangeiras, incluindo 36.000 americanas, no Afeganistão. O grande aumento de tropas dos EUA no último ano não conseguiu estabilizar a situação; em vez disso, em Julho de 2008, os ataques aumentaram 40%. Zbigniew Brzezinski, consultor para a segurança nacional ao tempo de Jimmy Carter, duvida que a resposta para o Afeganistão resida em mais tropas. Adverte que os EUA podem ser considerados, como antes foi a União Soviética, como um invasor, especialmente se forem realizadas operações militares "com pouca consideração pelas baixas civis".
Brzezinski apoia a abordagem europeia de subsidiar os agricultores afegãos que abdiquem da cultura da papoila da ópio, assim como apoiar financeiramente os chefes tribais, como forma de isolar al-Quaeda dos talibãs. Estes últimos "não constituem uma força centralizada, nem são um movimento terrorista mundialmente orfanizado, apenas um fenómeno genuinamente afegão".

Devemos prestar atenção ao Canadá, que defende que uma missão mais ampla, sob a égide das Nações Unidas em vez da NATO, seria mais eficaz. A nossa política no Afeganistão e no Paquistão deveria focar-se na assistência económica para a reconstrução, no desenvolvimento e na educação, não nas armas. Os EUA deveriam refrear-se de mais ataques predatórios de mísseis ao Paquistão e prosseguir numa via diplomática, não na ocupação bélica.

Tampouco deveríamos fazer ameaças de guerra ao Irão, que seria novamente ilegal e originaria novos desastres descontrolados. A Carta das Nações Unidas proibe qualquer país de usar, ou de ameaçar usar, a força militar contra outro país, excepto em auto-defesa ou quando o Conselho de Segurança declare o seu acordo. Apesar da Agência Internacional para a Energia Atómica, um organismo das Nações Unidas, concluir que não existem provas de que o Irão esteja a desenvolver armas nucleares, a Casa Branca, o Congresso e Israel continuam a brandir as espadas na direcção do Irão. No entanto, o movimento contra a guerra tem conseguido barrar o caminho à Resolução 362 da Casa dos Representantes, uma decisão que equivaleria a uma ordem de bloqueio naval contra o Irão - pela lei internacional considerado como um acto de guerra. Graças a movimentos como United for Peace and Justice, Code Pink, Peace Action e dúzias de outros, que pressionaram o Congresso a meditar duas vezes antes de dar esse passo.

Deveremos enveredar pela diplomacia, não pela guerra, com o Irão; acabar com a ocupação do Iraque; e repatriar as nossas tropas do Afeganistão.

Marjorie Cohn, Of Iraq and Afghanistan - End the Occupations
publicado por Counterpunch em 29 de Julho de 2008

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Domingo, Maio 25, 2008

A Guerra segundo Mark Knopfler


These mist covered mountains
Are a home now for me
But my home is the lowlands
And always will be
Some day you'll return to
Your valleys and your farms
And you'll no longer burn
To be brothers in arms

Through these fields of destruction
Baptisms of fire
I've witnessed your suffering
As the battles raged higher
And though they did hurt me so bad
In the fear and alarm
You did not desert me
My brothers in arms

There's so many different worlds
So many different sounds
And we have just one world
But we live in different ones

Now the sun's gone to heaven
And the moon's riding high
Let me bid you farewell
Every man has to die
But it's written in the starlight
And every line on your palm
We're fools to make war
On our brothers in arms


Texto: Sing 365

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Domingo, Março 30, 2008

Boris Vian - Le Déserteur

Durante a Guerra da Indochina (Vietname, ainda sob domínio colonial francês), três meses antes da queda de Diem Biem Phu, Boris Vian escreveu "O Desertor". Quando foi publicada, a canção provocou um escândalo e, pior que isso, em Novembro de 1954, quando se desencadeou a sublevação na Argélia, foi proibida de ser reproduzida na rádio por anti-patriotismo.



Monsieur le Président
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir
Monsieur le Président
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C'est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Ma décision est prise
Je m'en vais déserter

Depuis que je suis né
J'ai vu mourir mon père
J'ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants
Ma mère a tant souffert
Elle est dedans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers
Quand j'étais prisonnier
On m'a volé ma femme
On m'a volé mon âme
Et tout mon cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J'irai sur les chemins

Je mendierai ma vie
Sur les routes de France
De Bretagne en Provence
Et je dirai aux gens:
Refusez d'obéir
Refusez de la faire
N'allez pas à la guerre
Refusez de partir
S'il faut donner son sang
Allez donner le vôtre
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le Président
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n'aurai pas d'armes
Et qu'ils pourront tirer



Na versão original, os dois últimos versos eram:
"que je tiendrai une arme ,
et que je sais tirer ..."
Boris Vian aceitou a alteração sugerida pelo seu amigo Mouloudji para conservar o teor pacifista da canção.



Fonte: Paroles.net

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Domingo, Março 23, 2008

Paul O'Niel - Iraque antes do 11 de Setembro

Bush decidiu a invasão do Iraque antes do 11/9

Desde a primeira reunião do Conselho Nacional de Segurança, o governo de Bush elaborou planos para derrubar o governo de Saddam e preparou a ocupação do Iraque. "Encontrem um meio de o fazer", ordenava Bush aos seus conselheiros. Um documento CBS e transcrição VF.

Paul O'Niel, Secretário do Tesouro no primeiro governo de Bush, foi entrevistado em 2004 por uma jornalista da CBS, por altura da publicação de uma obra descrevendo as antecâmaras do poder em Washington.

Ron Suskind, o autor de "O Preço da Lealdade", recolheu testemunhos de muitos funcionários e membros do governo, entre os quais o de Paul O'Niel, que aceitou ser citado pelo seu nome. Na altura, Donald Rumsfeld telefonou a Suskind para tentar dissuadi-lo da publicação.


Com início aos 1:50 o vídeo foi legendado na parte que se refere aos preparativos da invasão do Iraque antes do 11 de Setembro. (AF)




Fonte: Bush avait décidé l’invasion de l’Irak avant le 11 septembre 2001,
publicado por Contre Info a 19 de Março da 2008

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Quarta-feira, Fevereiro 06, 2008

Giap, o professor

Vo Nguyen Giap é apresentado habitualmente como um general e nesta qualidade não lhe são poupados elogios. Menos conhecida é a sua profissão civil: professor de História do ensino secundário. (AF)



General GiapO general de quatro estrelas Vo Nguyen Giap conduziu os exércitos no Vietname desde que se formaram, na década de 1940, até ao momento da sua entrada triunfal em Saigão, em 1975.

Detentor de uma das mentes mais brilhantes entre os militares deste século (XX), a sua estratégia para vencer adversários mais poderosos não se resumia a suplantá-los no terreno, mas em afectar o seu poder de decisão infligindo desaires políticos desmoralizadoras por meio de tácticas notáveis.

Esta faceta revelou-se logo em 1944, quando Giap fez avançar a sua minúscula força contra um posto francês na Indochina. O momento que escolheu para o fazer foi a véspera do Natal. Mais devastadora, a sua ofensiva de 1954 num lugar chamado Dien Bien Phu atraiu os franceses, demasiado confiantes da sua superioridade, para um ponto onde se verificou a viragem da batalha, culminado numa vitória espantosa com posicionamentos brilhantes. Demonstrou sempre talento em aproveitar as forças do inimigo como se fossem fraquezas para serem exploradas.

Um quarto de século mais tarde, em 1968, o general lançou uma ofensiva surpresa contra as forças americanas e sul-vietnamitas na véspera das celebrações do Novo Ano lunar. Foram tomadas capitais de província por todo o país, levados a cabo ataques simutâneos a guarnições militares e, talvez mais espantoso, invadida a Embaixada dos EUA em Saigão. As baixas para as forças norte-vietnamitas foram tremendas mas o gambito resultou num desastre fulcral para o discurso mediático da Casa Branca e para a presidência de Lyndon Johnson. A estratégia de Giap derrubou o comandante-em-chefe dos EUA. Inverteu a maré da guerra e selou a fama do general como o génio militar dominante da segunda metade do século XX.

John Colvin author of "Giap Volcano Under Snow"

in Tet Offensive
publicado por Vets With A Mission




Vo Nguyen Giap nasceu na aldeia de An Xa, na provícia de Quang Binh. O seu pai a a sua mãe, Vo Quang Nghiem e Nguyen Thi Kien trabalhavam a terra, alugavam alguma aos vizinhos e viviam de forma razoavelmente confortável. Aos quatorze anos, Giap tornou-se estafeta da Companhia Eléctrica de Haiphong e logo a seguir fez parte de um grupo de juventude revolucionária romântica, o Tan Viet Mang Dang. Dois anos mais tarde entrou para um liceu dirigido por franceses em Hué, de onde foi expulso passados outros dois anos por organizar a luta dos estudantes, segundo narra o próprio. Em 1933, com 21 anos, Giap entrou para a Universidade de Hanoi. Leccionou depois História, durante um ano, na escola Thang Long de Hanoi. Na década de 1930 prosseguiu a sua actividade como professor e jornalista...

in Vo Nguyen Giap
publicado por Wikipedia

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Quinta-feira, Janeiro 24, 2008

NATO/OTAN - tratado defensivo?

Formalmente sim. Mas parece que para desgosto de alguns militares que andam muito nervosos e querem brincar às bombinhas antes do Carnaval. Ele há cada cromo.

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Segunda-feira, Dezembro 10, 2007

Gordon Brown - Your war is over

War is over
(clique sobre a figura para aceder à fonte)

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Terça-feira, Dezembro 04, 2007

Harry Reid versus Dick Cheney

Harry Reid é o líder da bancada do Partido Democrata dos EUA no Senado. O resumo executivo do relatório a que se refere foi publicado pela BBC e está disponível aqui. (AF)
O último relatório de avaliação das agências de espionagem dos EUA desafiam directamente alguns pontos da retórica alarmística da administração (da Casa Branca) sobre a ameaça representada pelo Irão.Harry Reid

Fonte: Mark Mazzetti
U.S. Finds Iran Halted Its Nuclear Arms Effort in 2003
publicado porThe New York Times logoa 4 de Dezembro de 2007

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