Quarta-feira, Julho 02, 2008

APEDE versus João Freire

Para uma genealogia do Estatuto da Carreira Docente - 1


Recentemente, tem sido objecto de crescente atenção um texto que dá pelo título de Estudo sobre a Reorganização da Carreira Docente do Ministério da Educação, da autoria de João Freire, sociólogo do ISCTE e mentor da actual Ministra da Educação. O Paulo Guinote deu-lhe o devido destaque no seu blogue, e outros o têm comentado. Trata-se de um texto que permaneceu, durante demasiado tempo, no "segredo dos deuses". Percebe-se porquê: ele constitui, ao mesmo tempo, a matriz inspiradora e a legitimação "a priori" da revisão a que esta equipa ministerial entendeu submeter o Estatuto da Carreira Docente. Precisamente por isso, este texto merece sair do quase secretismo onde foi estrategicamente encerrado e deve ser exposto diante dos seus principais interessados: os professores.

A análise a que o iremos sujeitar não pretende ser exaustiva. Deter-nos-emos apenas nos aspectos que nos parecem mais significativos. Descobrir este texto é, de facto, mergulhar nas raízes de muitas das políticas educativas que o Ministério tem despejado sobre as escolas e sobre os profissionais do ensino. O Paulo falou de «arqueologia» do Estatuto da Carreira Docente. Nós preferimos o termo mais nietzschiano de genealogia, por ser uma palavra que retém uma atitude de suspeição face às maquilhagens retóricas que procuram disfarçar e servir certos interesses inconfessados e inconfessáveis.

Logo nos primeiras páginas do relatório de João Freire, há um pormenor que não pode deixar de causar estranheza até ao leitor mais distraído ou mais benevolente. De facto, o estudo parece ter sido encomendado pela Ministra a 27 de Setembro de 2005, numa carta onde explicitava os objectivos que esse trabalho deveria preencher: nada mais, nada menos do que a «revisão urgente do modelo de progressão nas carreiras de educadores de infância e de professores do ensino básico e secundário, norteada pelo princípio da valorização da prática lectiva e sustentada por referências comparativas com outras carreias profissionais de estatuto social equivalente em Portugal e com carreiras homólogas em outros países» (p. 8). Seria de esperar que um objectivo tão extenso e tão ambicioso, requerendo o tratamento analítico de imenso material empírico, a exploração de comparações pertinentes entre sistemas educativos de vários países e entre carreiras profissionais diversas, obrigasse a um longo período de trabalho científico. A virtude da "ruminação", própria do tempo da ciência, não se compadece, de facto, com as "urgências" do tempo político. Ora, qual não é o nosso espanto quando constatamos que João Freire realizou a proeza de ter o estudo pronto em... Dezembro. Pouco mais de três meses foi quanto bastou para responder a um objectivo cuja complexidade intrínseca pareceria incompatível com a celeridade das decisões políticas. Em nosso entender, esta pressa contamina todo o estudo de João Freire e compromete a qualidade e o rigor que alguns, mais "generosos", lhe apontam. Na verdade, pensamos que aqui a questão da temporalidade não é inocente, nem isenta de consequências. Ela remete para um ponto fundamental e embaraçoso da actividade científica contemporânea: o das relações promíscuas entre a ciência institucionalizada e o poder político. Numa cultura em que a religião deixou, há muito, de fornecer a caução legitimadora dos actos políticos, é a ciência que se vê solicitada a desempenhar esse papel. Os ganhos materiais e simbólicos que daí decorrem são um poderoso atractivo para muitos cientistas e uma almofada sedutora onde repousam muitos casos de desonestidade intelectual. Poder-se-á objectar que o estudo de João Freire, na sua génese, nunca pretendeu constituir uma tese de investigação aprofundada sobre um determinado tema, mas, tão-só, um produto de encomenda para satisfazer uma necessidade política conjuntural. Porém, não é exactamente assim que ele se nos apresenta, nem é assim que o seu autor e o próprio Ministério o querem ver reconhecido. O texto de João Freire habita, pois, uma zona cinzenta onde o científico se confunde com o político, e na qual o ideológico se recusa a dizer o seu nome. Cabe-nos, portanto, denunciar o que procura, desse modo, furtar-se ao nosso escrutínio.

Outro motivo de perplexidade que encontramos no início deste estudo é o enunciado dos «princípios e principais problemas esperados» (p. 9). Notem que não são «princípios» e «problemas» quaisquer. São, isso sim, princípios e problemas «consensualizados» numa reunião do autor com a Ministra. Essa «consensualização» obriga-nos a lê-los com atenção redobrada. Quanto aos princípios, deparamo-nos, desde logo, com a ideia de «progressividade, implícita na noção de carreira, com ou sem limitações de acesso aos escalões mais elevados, mas com reconhecimento do mérito individual e valorização da experiência». Sim, leram bem: parece que a Ministra e o seu antigo mestre João Freire admitiam que a progressão dos professores pudesse ser feita sem limitações de acesso aos escalões mais elevados. É verdade que semelhante hipótese vai ser rapidamente descartada pelo próprio estudo, mas não deixa de ser bizarro vê-la referida à cabeça do texto. Também é digno de nota, por ser tragicamente cómico, que entre os tais princípios «consensualizados» se contem coisas como a «simplicidade de compreensão do sistema e dos próprios processos» e, sobretudo, a «não desvalorização salarial dos docentes em exercício». A obscuridade perversa dos textos legislativos produzidos pela actual equipa ministerial - um detalhe em que ela não é, aliás, inovadora - e as medidas economicistas para bloquear a promoção salarial dos professores dispensam comentários adicionais sobre a coerência com que o Ministério tem interpretado esses dois últimos princípios. Mas, quando nos voltamos para os «principais problemas esperados» pelo autor do estudo, encontramos afirmações deveras curiosas (embora não necessariamente intrigantes). De facto, João Freire considerava "problemática" a «manutenção de uma carreira única», ou que a «transição de regimes legais» se fizesse com «respeito por direitos adquiridos», ou ainda - e isto é verdadeiramente espantoso num texto que se quer científico e nada ideológico - a «negociação da concretização ou ajustamento de soluções com as associações sindicais do sector». Será aqui que devemos encontrar a raiz do desprezo com que Maria de Lurdes Rodrigues tratou os sindicatos de professores ao longo de todo o processo negocial do Estatuto da Carreira Docente?

(Esta reflexão é para continuar)
Actualizado em ( 02-Jul-2008 )


publicado pela Associação dos Professores e Educadores para a Defesa do Ensino em 2 de Julho de 2008

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Segunda-feira, Junho 23, 2008

Matemática das bolinhas

Venn diagram for 2 sets


P(A ∪ B)=0,8
P(B)=0,6
P(A ∩ B)=0,1
P(A)=?


Exame Nacional do Ensino Secundário
Grupo I, Questão 2. da Prova Escrita de Matemática A,
12º ano de Escolaridade
Prova 635/1ª Fase
Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE)
Ministério da Educação

Documentos relacionados da Sociedade Portuguesa de Matemática
Parecer
Proposta de resolução

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Quinta-feira, Junho 19, 2008

Nuno Crato versus Maria de Lurdes Rodrigues

...as Provas de Aferição têm tido dois problemas. Em primeiro lugar, os enunciados contêm um número exagerado de questões demasiado elementares. Mesmo com estas questões, os resultados têm sido maus. Imagina-se que poderiam ser bastante piores se os enunciados fossem mais exigentes. Em segundo lugar, os enunciados têm pecado por um vício pedagógico: não se centram em questões relacionadas com os algoritmos e os conceitos básicos que os alunos deveriam dominar, mas sim em aplicações diversas, com questões em que a interpretação e a conjectura sobre os pressupostos assumem um papel excessivo.


Sociedade Portuguesa de Matemática in Parecer sobre as provas de aferição do primeiro e segundo ciclos - Matemática
20 de Maio de 2008




Nuno Crato é o Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática. O que se segue é uma entrevista da Ministra da Educação dada à SIC no dia 18 de Junho. (AF)




SICPergunto-lhe, Sra Ministra, se o Ministério anda a fazer exames mais fáceis ou se os alunos andam a estudar muito?
Maria de Lurdes RodriguesSabe, eu não me consigo pronunciar dessa forma tão superficial. Como também considero superficial dizer que o exame de hoje ou de ontem foi a sério e que as provas de aferição não são a sério. Sabe que é muito desmobilizador para os professores e para as escolas dizer que aquilo que é um trabalho em que eles investem, só porque ele tem resultados positivos não é a sério.
SICTenho muita pena mas, neste contexto, tenho que me socorrer de autoridades como o Professor Nuno Crato que diz que há exames de preparação que são ridiculamente simples - e a expressão é dele -; tenho que me socorrer da Associação Nacional de Pais que vai ao encontro também desta expressão; tenho que me socorrer de um alerta lançado pelo Professor Paulo Heytor Pinto, da Associação Nacional de Professores de Português que diz que os professores só estão a ensinar para os exemes...
Maria de Lurdes RodriguesBom! Cada um socorre-se do que quer, cada um faz as suas escolhas...
SICEstou a socorrer-me de fontes credíveis!
Maria de Lurdes RodriguesConcerteza, são as fontes credíveis para si. Para mim, fonte credível é o Ministério da Educação e o instituto que promove a realização dos exames e que o faz com todo o rigor e com todas as exigências. É muito fácil...
SICNão são fáceis demais...?
Maria de Lurdes RodriguesEu não me consigo pronunciar, sabe? O Sr consegue pronunciar-se, essas pessoas também. Eu não consigo pronunciar-me. Sabe porquê?
SICEu não me lembro de os meus exames serem fáceis demais...
Maria de Lurdes RodriguesSabe porquê?
SIC... E acredito que quem a está a ouvir e a ver em casa também não tenha essa ideia.
Maria de Lurdes RodriguesNão... Eu gostava que me desse a oportunidade de responder. Já me fez três ou quatro perguntas e não me deu oportunidade de responder a nenhuma. Mas gostava de ter a oportunidade de responder, com toda a traquilidade, dizer-lhe o seguinte. O nível de complexidade de uma prova não se avalia assim pela opinião, pela sua opinião, a opinião dessas pessoas ou a minha. O nível de complexidade...
SICPor muito boas que essas pessoas sejam, no domínio das suas competências...
Maria de Lurdes RodriguesSe me permitir falar eu volto à SIC com toda a boa vontade. Mas se o Sr me interromper, não me deixar falar, não é possível esta entrevista.
SICFaça o favor.
Maria de Lurdes RodriguesBom! Que é que eu gostava de lhe dizer? Que o nível de complexidade de uma prova tem técnicas para ser avaliada. Não é a sua opinião, a opinião dessas pessoas ou a minha. O que conta, um dos principais indicadores que se usa, usam-se técnicas estatísticas para avaliar o nível de complexidade e uma das medidas mais simples é a curva de distribuição dos resultados. E quando apenas 5% dos alunos conseguem completar a totalidade de uma prova com êxito, isso diz tudo - ou diz alguma coisa - sobre a complexidade de uma prova. Foi o que aconteceu com todas estas que estão a ser feitas. As provas são calibradas e ajustadas ao nível de exigência daquilo que é o programa. Não é o nível de exigência que o Sr tem na cabeça ou que algum desses peritos tem na cabeça. É o nível de exigência do programa e isso é que é feito. Com todo o rigor e com toda a exigência.
SICEntão a Sra Ministra considera que estes especialistas estão a exigir demais?
Maria de Lurdes RodriguesDeixe-me acabar. Se não me deixa acabar, eu não consigo. O que eu considero é que
SICPermita-me lembrar-lhe, Sra Ministra isto não é um monólogo...
Maria de Lurdes RodriguesDeixe-me acabar.
SIC...E por isso eu pergunto-lhe, Sra Ministra, se na sua opinião estes especialistas estão a exigir demais?
Maria de Lurdes RodriguesDeixe-me acabar. O Sr já me fez essa pergunta e ainda não me deixou acabar a minha resposta. Primeiro...
SICPorque ainda não me respondeu.
Maria de Lurdes RodriguesPrimeiro ponto, o nível de complexidade de uma prova tem técnicas, não é uma questão de opinião, é uma questão de validação técnica, com recurso a técnicas estatísticas também. E essas pessoas, com a precipitação com que se pronunciaram, de certeza absoluta que não tiveram o rigor e exigência que pretendem para os outros. Depois...
SICEu diria que o Professor Nuno Crato é um reputadíssimo dominador do assunto.
Maria de Lurdes RodriguesDepois, eu gostava de lhe dizer que há uns quantos pessimistas de serviço neste país. Muito pessimista.
SICÉ o caso destas pessoas?
Maria de Lurdes RodriguesO que acontece é o país tem que estar sempre mal, e os alunos têm que ser empre maus. Quando os resultados são por si maus e revelam fragilidades nos conhecimentos e nas competências, aí está a prova que o país está mal.
SICOs pais também estão pessimistas, Sra Ministra?
Maria de Lurdes RodriguesQuando melhora, como o país não pode melhorar, são as provas que estão erradas. Mas isso faz parte...
SICInclui os pais nesse pessimismo, Sra Ministra?
Maria de Lurdes RodriguesNão incluo nada, estou-lh a responder a si.
SICÉ que eu tenho aqui uma situação da Confederação Nacional das Associações de Pais a dizer assim, o seu Presidente a dizer assim: Está tudo bem com os alunos até chegarem ao primeiro ano da faculdade e ser o descalabro, porque não têm competências nem aprenderam a estudar sozinhos. São os pais que dizem.
Maria de Lurdes RodriguesConcerteza. Mas sabe, eu não me pronuncio, eu tenho obrigação de ser exigente. Eu não me pronuncio sobre opiniões. Eu pronuncio-me sobre testes técnicos que são feitos às provas, sobre documentação que é necessário exigir quando se faz uma prova de aferição. O Sr terá oportunidade, se quiser, de convidar o director do GAVE e ele explica-lhe o que é preciso, do ponto de vista técnico, para fazer uma técn... hum... uma prova e para avaliar o nível da sua complexidade. E portanto, isto não é uma questão de opinião. E devíamos ser mais cautelosos e mais respeitadores do trabalho que os professores e as escolas fazem. Porque essas pessoas, não as vi pronunciarem-se sobre: Plano Nacional de Laitura e mais horas de trabalho na área da leitura em todas as escolas; Plano de Acção da Matemática e mais horas de trabalho para a Matemática em todas as escolas; orientações claras sobre o tempo de trabalho tanto na Matemática como na Laitura em todas as escolas; formação contínua para milhares de professores, do 1º e do 2º ciclo, em Português e Matemática. Eu gostava que o Sr e essas suas fontes, se pronunciassem sobre factos concretos: sobre as horas de trabalho, que escolas e professores tiveram, neste ano para melhorar...
SICNeste caso, Sra Ministra, as pessoas pronunciam-se sobre aquilo que pode ser corrigido.
Maria de Lurdes RodriguesNão são fontes fidedignas, são opiniões.
SICSra Ministra, gostava de
Maria de Lurdes RodriguesGostava ainda de dizer-lhe uma coisa. O facto de muitos jovens àcerca do teste: que se sentem confortáveis, aliviados por terem passado um momento em relação ao qual
SICNão é só isso, eles disseram que é fácil.
Maria de Lurdes RodriguesO facto de eles dizerem que é fácil não significa que a prova seja fácil. Como lhe disse, a simplicidade ou a complexidade de uma prova tem técnicas específicas...

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Sábado, Junho 07, 2008

Ranking das escolas privadas

É suposto um privado assumir o risco do seu negócio. Em Portugal, porém, há uma classe de privados especial: assumem o risco com os dinheiros públicos. Nada que lhes macule a alma genuinamente empreendedora ou lhes desinflame o discurso em prol do mercado livre. Eis verbas transferidas pelo Ministério da Educação para os dez falsos privados mais beneficiados:




Colégio MiramarMafra13.458.888,14
Colégio Liceal Santa Maria de LamasFeira4.976.306,32
Didáxis Soc. Coop. de EnsinoFamalicão4.456.932,14
Externato de PenafirmeTorres Vedras4.041.899,14
Externato Cooperativo da BeneditaAlcobaça3.737.326,54
Escola Cooperativa Vale S. CosmeFamalicão3.559.313,23
Escola Salesiana de ManiqueCascais3.434.207,64
Alfacoop Coop. Ensino de AlvitoBraga3.276.677,47
Externato João Alberto FariaArruda dos Vinhos3.135.527,05
Instituto Educativo D. João VPombal966.857,99

Faltam verbas para o Ensino Público? Pois, pois...

Diana Ramos in Privados recebem verba do Estado
publicado pelo Correio da manhã em 10 de Junho 2007

Agradeço a "não passarão!" o realce da notícia.

Consultar também esta lista do Diário da República. Graças à atenção de Paulo Guinote.

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Terça-feira, Maio 13, 2008

Isabel Guerreiro - Música e Matemática

Retirado de A Educação do meu Umbigo, com a devida vénia. (AF)
Musica e Matematica

A música, essa aliada esquecida da matemática


A pretexto de uma conferência com especialistas internacionais para debater o insucesso na disciplina de Matemática em Portugal, a Ministra da Educação veio chamar a atenção para o “passivo enorme” nesta área. Atribuídas (mais uma vez) as culpas aos professores, estando presentemente alguns milhares a receber formação contínua nesta matéria; lançado um Plano de Acção para a Matemática, aumentando a carga horária na disciplina, resta‐nos prever quais serão as recomendações que resultarão de mais esta conferência.

Porventura os sucessivos responsáveis pela pasta da educação em Portugal – eles próprios fruto de uma sociedade com fraquíssima cultura musical – não têm sido sensíveis ao papel fundamental que a música pode e deve ter na formação integral do indivíduo, não só ao nível da sensibilidade estética e do desenvolvimento emocional mas também ao nível da estruturação do pensamento lógico e do raciocínio matemático/geométrico, estimulando a concentração, disciplinando a actividade de grupo, favorecendo a comunicação, a cooperação e a entreajuda – tudo isto num clima de grande criatividade e franco prazer.

No entanto, desde Pitágoras – que para além de um contributo fundamental para a Matemática e a Geometria, também estabeleceu as bases da Teoria Musical – têm vindo a comprovar‐se as muito estreitas relações entre a Música e a Matemática.

Na verdade, vários estudos revelam que a maioria dos jovens que aprendem música, para além de serem alunos mais criativos em todas as áreas, também obtêm bons resultados em Matemática, sendo certo que, para alem de um papel muito positivo no ensino de crianças disléxicas e autistas, a Música é, de facto, aquela aliada que, como por encanto, leva qualquer criança a fazer a ponte entre o concreto e o abstracto, levando‐a a descobrir novas formas de comunicação e linguagem e ajudando‐a assim a apreender a lógica e a simbólica da Matemática.

A Educação Musical consta, de facto, do currículo da escola em Portugal desde 1971, ano da reforma de Veiga Simão que introduziu alterações significativas neste campo. No entanto, ao contrário do que sucede em muitos outros países, para lá de se iniciar já numa idade tardia, a Educação Musical tem estado confinada ao 2º Ciclo do ensino básico – no 3º Ciclo tem expressão muitíssimo limitada – e, a partir da última reforma curricular, a sua carga horária sofreu mesmo uma redução substancial de 45 m, passando a dispor apenas de 90 m semanais.

Foi feita alguma avaliação destas reformas?

Ainda a este propósito, é importante também referir que uma manifesta falta de instrumentos disponíveis nas salas de aula – e o facto de muitos dos que existem já estarem anificados – o que limita, muitas vezes, os professores a um ensino elementar da prática de flauta, impedindo, dessa forma, os alunos de adquirirem as “competências” (irrealistas) previstas para a disciplina pelo próprio Ministério da Educação.

A nível do 1º Ciclo, a recente introdução do ensino da Música, embora louvável, mais não fez do que pôr em prática um aspecto que, previsto no currículo, geralmente se não cumpria, sendo que os professores, recrutados em empresas privadas, trabalham em condições muito discutíveis.

Como se tudo isto não bastasse, mais recentemente ainda, sob a capa de uma alegada “Democratização do Ensino Artístico” o Governo decidiu acabar com o chamado regime de ensino supletivo, que permitia a frequência de disciplinas de formação especializada nos Conservatórios, a par das de formação geral numa escola à sua escolha.

Promovida pela Unesco, teve lugar em Lisboa, em 2006, a 1ª Conferência Mundial de Educação Artística, da qual resultaram orientações importantes no domínio da educação artística. A sua aplicabilidade foi debatida no ano seguinte na Conferência Nacional de Educação Artística. Que repercussões têm tido eventos como estes no ensino da Música em Portugal?

O Ministério da Educação insiste agora na avaliação dos professores mas não deveria ser o próprio Ministério a ser objecto de avaliação, entre outras coisas, pela sua manifesta desatenção relativamente ao ensino da Música?

Ainda vamos a tempo de investir numa formação musical de qualidade desde o jardim de infância, da qual a Matemática, bem como as outras áreas possam vir a beneficiar e de que possa resultar um maior equilíbrio emocional dos jovens.

Sigamos então as tão apregoadas “boas práticas”: sigamos o exemplo da Finlândia onde os pais podem mandar os filhos para escolas de música patrocinadas pelo estado desde tenra idade; sigamos o exemplo da própria Venezuela (retratado numa reportagem transmitida na televisão há dias), onde a fundação «El Sistema» recorre à música para reabilitar, ensinar e proteger crianças de meios desfavorecidos, prevenindo comportamentos criminosos...!

Leibniz (filósofo e matemático alemão) afirmou: Musica est exercitium arithmeticae occultum nescientis se numerare animi (A música é o exercício oculto de matemática do espírito que não se apercebe que calcula).

Os fracos resultados dos estudantes portugueses na disciplina de matemática estarão, seguramente, na proporção exacta do desprezo que tem sido dado ao ensino da Música na Escola Pública.

Isabel Guerreiro
Professora de Educação Musical do Ensino Público
Monte Estoril


Fonte: Opiniões - Isabel Guerreiro
publicado por A Educação do meu Umbigo em 12 de Maio de 2008

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Quarta-feira, Março 19, 2008

Madalena Santos - Uma escola sem recreio?

Alunos na escola

Madalena Santos propõe hoje um tema para debate que tem passado quase despercebido e que nenhum responsável político deveria tergiversar, sob pena de ficar registado na História da Educação em Portugal como social e politicamente criminoso. (AF).


Ou "Era só o que mais faltava", foi a expressão utilizada pela Ministra da Educação no Parlamento, esta tarde, para rebater o argumento de que as notas dos alunos não devem contar para a avaliação dos professores.
Afinal, de que é que falamos, quando falamos de aprender e ensinar?
Há tanta coisa para falar, antes de falar das notas.
Reportando-me à minha realidade, o que me preocupa neste momento é a disciplina.
Outra das minhas preocupações, repito que me reporto à minha realidade, é o recreio. E até me atrevo a dizer que anda tudo ligado.
As palavras que mais se ouvem nos recreios são palavras obscenas, que vão além do calão mais frequente. É a violência verbal, que seria considerada apenas gratuita, se não fossem meninos e meninas que largaram as fraldas há menos de uma dúzia de anos a dizê-las, a gritá-las.
As nossas crianças estão a desaprender a brincadeira saudável da liberdade do recreio. Sei que é um lirismo, mas os recreios deviam significar a liberdade e não significam. O "recreio" é um stress: para comprar a senha do almoço, a cartolina para o trabalho de AP, para telefonar e mandar mensagens do telemóvel, para chegar à máquina das gulodices, com umas águas para disfarçar. Tudo isto entremeado de palavrão sim, palavrão sim.
A violência do recreio é um indicador a não subestimar de uma juventude que não sabe o que é que o futuro lhe reserva. Então, pelo sim pelo não, esmaga já a semente de liberdade, artilha-a de espinhos e aprende a atirar para o ar, sem querer saber quem vai apanhar com a bala e, muito menos, onde.
Estas palavras entram pelos ouvidos, atravessam a cabeça, mas é normalmente no coração que deixam marca. Mas a marca, em alguns, faz calo. E já nem dói. E isso é que está mal. É a estima individual a morrer aos poucos, vitima destas guerras que não têm educação nenhuma.
Muito menos nota.
Eu posso dar aos meus alunos os cincos todos, Senhora Ministra. Não custa nada. Mas uma grande parte do ser humano constrói-se a partir da auto-estima, que não se esgota numa nota. E, a julgar pelos recreios, a auto-estima está em crise na educação das nossas crianças. A auto-estima imprime-se na humanidade e na sensibilidade de um aluno, determinando-lhe um futuro.
Se não os educarmos para a liberdade e para o respeito, nada feito!


Madalena Santos in Era só o que faltava,
publicado por Chora que logo bebes em 19 de Março de 2008

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Domingo, Março 09, 2008

Marcha da indignação - Braga

Com quem Sócrates se foi meter. Encontrará depois sítio onde se esconder? AF




Marcha da indignação, Lisboa 8 de Março de 2008
(imagem: Fliscorno)

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Quinta-feira, Março 06, 2008

Maria de Lurdes Rodrigues - A escalada do facilitismo

Maria de Lurdes Rodrigues sempre enjeitou a acusação de estar a promover o facilitismo. Vejamos então como é possível mentir com uma cara de verdade. (AF)



  1. Fim das provas globais do 9º ano

  2. Alteração casuística dos exames nacionais

  3. Apelo às passagens administrativas

  4. Viciar os critérios da avaliação

  5. Torpedear as responsabilidades

  6. Escamotear o abandono escolar

  7. Ignorar as advertências

  8. Forjar equivalências

  9. Pactuar com a indisciplina

  10. Moldar a realidade aos objectivos estatísticos



Com mais alguma paciência ainda conseguiríamos testemunhos da desentivação da assistência às aulas, transformação da escola num local lúdico, neutralização da actividade docente por meio de avalanchas burocráticas...

(estou cansado)

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Maria Teresa Soares - O ensino na Alemanha e na Suiça

Maria Teresa Duarte Soares – teresa. duartesoares@t-online.de
Alemanha

Data: 26.02.08

Caríssimas colegas
Caríssimos colegas

Antes de mais, os meus mais sinceros parabéns pela organizacão do vosso movimento. Já há bastante tempo que temia ver os professores em Portugal e os professores portugueses no estrangeiro perto de cair num marasmo inoperacional relativamente às prepotências, injustiças,ilegalidades, indecências, etc,etc,etc, do nosso Ministério da Educação. Estou satisfeitíssima por ver que tal não é verdade, pelo menos no que respeita aos docentes em Portugal.
Os professores portugueses no estrangeiro encontram-se, a meu ver, ainda num estado de inacção que me custa compreender, apesar de desde 1998 terem sidpenalizados de todos os modos possíveis pelo ME, a título de uma falaciosa e irreal “poupança.l

Sou, desde 1982, professora de Língua e Cultura Portuguesas no Estrangeiro, e pertenço ao QND da Escola B 2,3 Mestre Domingos Saraiva no Algueirão.
Tenho sido sempre activa sindicalmente,encontrando-me no momento na Direcção do SPCL (Sindicato dos Professores nas Comunidades Lusíadas).

Conheço bem os sistemas de ensino da Alemanha e da Suíça, os dois países em que trabalhei longos anos.

Por isso, envio-vos aqui várias informações sobre os docentes e o ensino nos dois países, informações estas que poderão usar do modo que vos for mais útil, e onde poderão ver que os professores mais explorados da Europa, são, sem sombra de dúvida, os docentes portugueses.

(João Serra via A educação do meu umbigo)


German flag

Alemanha


Avaliação dos docentes


Têm, de 6 em 6 anos, uma aula ( 45 minutos) assistida pelo chefe da Direcção escolar. Essa assistência tem como objectivo a subida de escalão.
Depois de atingido o topo da carreira, acabaram-se as assistências e não existe mais nenhuma avaliação.
Não existe nada semelhante ao nosso professor titular. Sempre gostava de saber onde foi o ME buscar tal ideia. Existem, claro, quadros de escola.
Não existe diferença entre horas lectivas e não lectivas. Os horários completos variam entre 25 e 28 horas semanais.
As reuniões para efeito de avaliação dos alunos têm lugar durante o tempo de funcionamento escolar normal,nunca durante o período de férias. Sempre achei um pouco preverso os meninos irem de férias e os professores ficarem a fazer reuniões…
Tanto na Alemanha como na Suíça, França e Luxemburgo, durante os períodos de férias as escolas encontram-se encerradas! Encerradas para todos, alunos, pais, professores e pessoal de Secretaria! Os alunos e os professores têm exactamente o mesmo tempo de férias. Não existe essa dicotomia idiota entre interrupções lectivas, férias, etc.
As escolas não são centros de recreio nem servem para “guardar” os alunos enquanto os pais estão a trabalhar.
Nas escolas de Ensino Primário as aulas vão das 8.00 às 13 ou 14 horas.
Nos outros níveis começam às 8 .00 ou 8.30 e terminam às 16.00 ou, a partir do 10° ano,às 17.00.
Total de dias de férias por ano lectivo : cerca de 80 ( pode haver ligeiras diferenças de estado para estado)

Alunos


Claro que existem problemas de disciplina. Mas é inaudito os alunos , ou os pais dos mesmos, agredirem os professores. A agressão física de um professor por um aluno pode levar à expulsão do último.
Os trabalhos de casa existem e são para serem feitos. Absolutamente inconcebível que um encarregado de educação declare que o seu filho/filha não tem nada que fazer trabalhos de casa, como acontece, ao que sei, em Portugal.
É terminantemente proibido os alunos terem os telemóveis ligados e utilizarem-nos durante as aulas. As penas para tal são primeiro aviso aos pais, depois confiscação do telemóvel e por fim multa.


German flag

Suíça


Tal como na Alemanha, os professores só são assistidos durante o período de formação e para subida de escalão.
Durante os períodos de férias as escolas encontram-se, como na Alemanha, encerradas.
Os horários escolares são semelhantes aos da Alemanha. Até ao 4° ano de escolaridade, inclusive, não há aulas de tarde às quartas-feiras, terminam cerca das 11.30.
No início das aulas os alunos cumprimentam o professor apertando-lhe a mão e despedem-se do mesmo modo. Claro que não há 28 ou 30 alunos numa classe, mas no máximo 22.
O telemóvel tem de estar desligado durante as aulas.É dada grande importância aos trabalhos de casa. A não apresentação dos mesmos implica descida de nota final.
Total de dias de férias : cerca de 72 ( pode haver diferenças de cantão para cantão) .
Vencimentos
Só uma pequena comparação … na Suíça um professor do pré- primário no topo da carreira recebe 5.200 francos mensais líquidos ( cerca de 3.400 euros),mais ou menos o dobro do que vence um professor em Portugal no topo da carreira…..

Caras / Caros colegas:

Espero não ter abusado da vossa paciência com a minha exposição. Porém, acho que ficou claro que, se o ensino em Portugal se encontra em péssimo

estado, a culpa não é dos professores, mas sim de um ME vendido aos empresários, que tem como objective actual a quase extinção da escola pública, para que a mesma produza analfabetos funcionais, que trabalharão sem caixa médica e sem subsídio de férias , porque nem sabem o que isso é, e se souberem, não poderão reclamar porque não saberão escrever uma carta em termos…. Isto para não mencionar as massas que se entregarão à criminalidade, prostituição, etc.

Um grande abraço para todas /todos da colega

Teresa Soares

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A nova Inquisição - Epílogo

Parece chegar a um consenso o episódio do "arrependimento" do professor Manuel Cardoso da Escola EB 2,3 de Ribeirão no "Prós & Contras" .

O problema é que a acta que foi referida não apareceu na altura própria, e o jovem viu-se a braços com o ónus da prova num processo legal que não estava preparado para enfrentar, ainda por cima num ambiente de guerrilha permanente entre o ministério e os sindicatos, à volta dos recursos e contra-recursos judiciais que tem sido apanágio deste ministério.

Tudo isto porque a figura do "Livro de actas" deixou de fazer parte do quotidiano académico, deixando a acção de descontentamento dos docentes a descoberto no seu direito de defesa na altura em que essa acção possa assumir contornos jurídicos.

Em vez do Livro de actas, vulgarizou-se a elaboração de actas em folhas soltas, tornando o sistema muito mais permeável a actos de branqueamento decorrentes do interesse das partes.

"Os colegas na escola, andam receosos. O espírito é este."

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Quarta-feira, Março 05, 2008

Manuel Cardoso - E pur si muove

Lurdes Rodrigues
(Imagem: We have kaos in the garden)




Exma Srª Drª
Maria de Lurdes Rodrigues
Ministra da Educação

Permita-me sugerir a Sua Exª que mande retirar imediatamente a página obscena que foi colocada no sítio da Internet do Ministério que dirige. Julgo que a ousadia da minha sugestão ficará clara ao longo da exposição.

O jovem professor de matemática Manuel Cardoso, de uma escola de Ribeirão, aparenta ter uma idade em que poderia ser meu filho. Na noite de 25 de Fevereiro exprimiu-se com uma coragem e clareza que não podem deixar de lhe ser reconhecidas. Foi quase o único interveniente que tocou num aspecto muito sensível da Educação que, pela sua gravidade, diria que suplanta todos os outros problemas que naquele programa foram levantados. O assunto interessa sobremaneira à parte da administração pública que dirige, mas principalmente a todos nós, simples cidadãos: o facilitismo instaurado no ensino. É sintomático que o documento de retratação que teve o despudor de exibir não mencione este aspecto e isso é o que me preocupa na máxima medida. Nem quero admitir a possibilidade de Sª Exª desconhecer o assunto, tão óbvio é ele aos olhos de toda a gente. Já me custa saber que, neste capítulo, desperdiçou todo o tempo para procurar uma solução satisfatória nos já muitos meses de governação que cumpriu e para os quais se sentiu merecedora do salário que aufere.

Como quer que os cidadãos acreditem na ausência de facilitismo, quando o abandono e insucesso crescem incompreensivelmente a partir do nono ano? O que falta fazer no ensino básico para que tal não continue a verificar-se? Porque falham redondamente a capacidade de expressão oral ou escrita e as competências rudimentares do cálculo no fim do básico, tão necessárias para o desenvolvimento das disciplinas de história, geografia, física e química do secundário? Como foi possível chegar a este estado de coisas? Em que falharam os ministros que a antecederam? Como construir o sucesso nos estudos superiores ou numa futura profissão nesta base? Que tem a dizer aos pais dos alunos para os deixar descansados? O facilitismo é a fonte de todo o desconforto no sistema de ensino. Quando muito se fala em competição, algo não conjuga com o que se observa no seu ministério. Nunca a vi preocupada com a desarticulação dos programas; com o absurdo das aulas de noventa minutos; a desiquilibrada distribuição dos períodos de actividade e descanso; a dispersão e superficialidade das matérias. Já nem quero referir a equiparação das faltas injustificadas dos alunos a faltas justificadas.

Qualquer pessoa um pouco mais experiente que o jovem do Movimento dos Professores Revoltados ter-se-ía munido da fotocópia da acta onde a recomendação atribuída ao inspector estaria explicitamente registada. E tê-lo-ía feito antes de se deslocar a Lisboa. A isso eu chamo: experiência política. Aquela que leva na medida justa em consideração o princípio da desconfiança entre as pessoas. Como bem sabe, não foi isso que Manuel Cardoso fez.

Sua Exª, accionando uma deslocação com caracter de urgência do corpo de inspecção à escola de Ribeirão, revelou uma grande preocupação com a hipótese de as afirmações do professor Cardoso corresponderem a uma realidade. Mas não precisava, para confirmar a existência do facilitismo bastar-lhe-ia perguntar a qualquer cidadão com que se cruzasse na rua. A não ser que os factos que a colocam em sobressalto sejam a muito improvável circunstância de uma afirmação daquele teor, feita por um inspector, ficar registada em acta com assinatura de todos os presentes e de não haver extravio de qualquer acta passados dois ou mais anos. É isso que a preocupa, Srª Ministra? Se é isso, então pode dormir descansada. Não honra o seu estatuto de ministra para quem os assuntos devem ser políticos e não pessoais, como afirma. Muito menos honra o nome do ministério onde se encontra. Diria que a especificidade das competências que demonstra seriam mais úteis noutro tipo de ministério, melhor ainda noutro tipo de regime. Como cidadão preocupado com as consequências desastrosas do seu e dos anteriores magistérios da pasta da Educação em Portugal, informo Sª Exª que a rapidez com que pretendeu resolver o facilitismo não contribuiu para me deixar descansado.

Ao ler o conteúdo da página que acima referi, não reconheço de modo algum o jovem Manuel Cardoso que vi no programa Prós & Contras. São necessariamente duas pessoas diferentes. Falta qualquer coisa de genuino, de irreverente que só existe naquela idade. Como se, em dois dias, o jovem passasse para o dobro da idade. Quando um jovem se auto-esmaga, aí começam a tocar todos os meus sinais de alarme. Desejaria que tais insólitos estivessem relegados para os confins da história, fora da realidade em que vivemos. O que começou como um debate de idéias em ambiente de tolerância democrática acabou como um embate brutal, com receios pela filha à mistura. A coragem que muitos querem reconhecer em Sª Exª encontrou no jovem e indefeso professor o pior alvo para ser demonstrada.

Enquanto a página da vergonha estiver publicada poderá Sª Exª vangloriar-se de coisas bem destestáveis: surpreender um jovem na sua inexperiência política; conter pelo menos um jovem revoltado e corajoso, cuja opinião foi directamente ao encontro do interesse público e da imagem que ele havia construido para a sua carreira profissional; escamotear uma questão pertinente com episódios menos relevantes; no limite, arrasar uma vocação. Não vou felicitá-la pelo seu feito. Perdeu uma oportunidade genuína de contar com a colaboração da juventude, irreverente que seja, para prosseguir os objectivos que se propõe.

Atenciosamente
António Ferrão





Afinal até actas há. Não são é públicas. Mas já começam a notar-se:


* Os resultados das Provas de Aferição deste ano (quase meio milhão) são difíceis de comparar com os anos anteriores, dado que, anteriormente, essas provas eram aplicadas por amostra. Todas as escolas devem interpretar esses resultados, definindo estratégias de melhoria;
* Os Conselhos Executivos têm de ter particular cuidado na nomeação dos correctores de exames. Segundo a responsável da Direcção Regional da Educação,
“Os alunos têm direito a ter sucesso. Talvez fosse útil excluir de correctores aqueles professores que têm repetidamente classificações muito distantes da média. O que honra o trabalho do professor é o sucesso dos alunos;”


(Obrigado Maria Lisboa)


E pur si muove

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Terça-feira, Março 04, 2008

Manuel Cardoso no "Prós & Contras"

Manuel Cardoso
(Imagem: Apdeites)


Prós & Contras de 25 Fev 2008 - 2ª parte

Depoimento de Manuel Cardoso - Professor de Matemática
EB23 Ribeirão (Famalicão) - Mov Professores Revoltados

...Sou um jovem com muita esperança no ensino, com muita esperança nos alunos aos quais eu transmito aquilo que me foi ensinado na Universidade, e portanto não tenho, como professor já efectivo, nada contra a avaliação.
Os colegas na escola, andam receosos. O espírito é este. Eu vejo aqui líderes de sindicatos, representantes de professores, representantes de muitas instituições, e todos falam burocráticamente. Eu como professor de Matemática, não estou habituado a enrolar a língua para enganar os outros.
E neste caso, eu encaro a nossa ministra como alguém que nos canta o canto da sereia.
A ministra, na minha perspectiva, e possívelmente na dos milhares que já seguem este movimento, porque já somos milhares, consegue mentir com uma cara de verdade...
Tudo aquilo que foi já referido pelos meus colegas, defendeu muito bem a posição dos professores em Portugal.
A avaliação dos professores, começa também com a avaliação dos alunos. Os nossos alunos, neste momento não se devem sentir muito felizes, principalmente aqueles que são esforçados, aqueles que têm "mérito", não se devem sentir muito felizes por saber que o facilitismo impera nas nossas escolas. Eu não falo só dos CEFs, das novas oportunidades, não: no ensino regular.
Eu falo dum caso pessoal. Eu sou um professor empenhado, gosto daquilo que faço, amo aquilo que faço. Prejudico a minha mulher, e a minha filha, em casa, por aquilo que eu defendo que é um ensino de qualidade. Mais do que nada, eu não promovo o facilitismo nas minhas aulas, nos meus alunos...
No ano passado eu fui director de turma de duas turmas, no final do ano por doença de um colega assumi a representação do grupo disciplinar e do Plano de Acção da Matemática. Que é posto em causa, este Plano de Acção da Matemática, que está a ser implementado em muitas escolas, é posto em causa por este sistema de avaliação. Os próprios alunos não concebem que os outros alunos que não estudam, os professores sejam obrigados a passar...
Ainda o ano passado, eu tive uma reunião com um ispector que foi lá à escola, e disse-me isto, a mim e a todos os professores que estavam nessa reunião, professores do 9º ano, porque eram alunos que tinham que transitar, para que as estatísticas pudessem demonstrar aquilo que se passa em Portugal...
O inspector disse literalmente, letra por letra: os alunos, senhores professores, a nota mínima é o três, de zero a cinco...

...Eu dar-lhe-ei o nome do inspector: não tenho comigo, mas está em actas. Mas mais do que isso, sra ministra, nós temos que perceber que os nossos alunos não estão a ser dignificados, e eu estou aqui para lutar pelos meus alunos...
...É verdade, senhora ministra...

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Quarta-feira, Dezembro 19, 2007

Fernando Ornelas Marques - Certificação de manuais escolares

Curiosos sinais dos tempos: um blog especializado no ensino, revelando temas de actualidade publicada ou não na imprensa, com a marca de um conhecedor da matéria, vai-se transformando aos poucos num abrigo de resistência de toda uma classe profissional contra os desvarios da actual detentora da pasta ministerial. Foi nessa qualidade que A Educação do meu Umbigo acabou por ser contactada pelo professor Fernando Ornelas Marques como forma de ultrapassar a recusa do Público em dar a conhecer a sua Carta aberta à Ministra da Educação. O que se segue é a parte final desta carta, relacionada com os novos processos de certificação de manuais escolares. (AF)
Fernando Ornelas MarquesSra. Ministra, os Programas de Estudo do ME, presentemente em vigor, são na sua generalidade maus. São enormes, e/ou irrelevantes, e/ou desactualizados, e/ou definem muito deficientemente as competências a adquirir/desenvolver pelos alunos. Como espera a Sra. Ministra que se possa fazer bons manuais sobre maus programas? Note que os programas existentes já são o resultado de Comissões nomeadas com base em critérios nunca explicitados e nunca claros. Talvez seja por isso que eles são tão maus!

A nova Lei contém muita burocracia, mas não aborda os temas mais críticos. Propõe a constituição de um Conselho e de Comissões, e refere que há cargos a tempo inteiro, e que até têm direito a subsídios de deslocação e ajudas de custo. No entanto, a Lei nada diz sobre os critérios que fundamentarão a escolha dos conselheiros e dos comissários. Não lhe parece, Sra. Ministra, que este aspecto é muito mais importante do que a burocracia dos subsídios? Ou será que a Sra. Ministra não se quer comprometer com critérios rigorosos e quantificáveis de escolha de avaliadores? Porque não diz, claramente, na proposta de Lei que os critérios de selecção terão como base (1) o curriculum científico (publicações internacionais em revistas cotadas no ISI - Institute for Scientific Information – preferencialmente como primeiro autor), como se faz nos países mais desenvolvidos, e (2) a prática corrente de avaliação de manuais escolares (por exemplo número de relatórios de apreciação de manuais escolares enviados ao ME nos últimos 10 anos)? No caso das Ciências Físicas e Naturais, os Conselheiros/Comissários deveríam ter um curriculum de excelência nas áreas da Física, das Geociências e das Ciências da Vida, e terem a prática, comprovada, de avaliação regular de manuais escolares das respectivas disciplinas. Não é assim que são constituídos os Conselhos Editoriais e escolhidos os revisores das revistas científicas conceituadas? Porque não adopta sistemas de avaliação há muito testados e eficientes, e de contornos perfeitamente claros?

Conselheiro(s) e Comissário(s) a tempo inteiro?! Como espera a Sra. Ministra que uma pessoa, cientificamente competente/excelente, vá deixar o seu trabalho de investigador e os seus projectos para se dedicar, a tempo inteiro, à causa dos manuais? É uma causa muito importante e nobre, mas não necessita de ocupação a tempo inteiro. Só quem desconhece o que é a avaliação de manuais e como se faz é que pode pensar o contrário. Este tipo de emprego (leia-se job) vai tornar-se apetecível a quem? É fácil de prever: (1) a amigos (leia-se boys) que apenas almejam poder político, mas que têm pouca ou nehuma competência/excelência científica e pedagógica para levar o processo a bom termo; (2) a burocratas que vão tornar um processo simples de revisão num amontoado de regras e papéis que tornarão a avaliação num inferno e que não conduzirão a nada; (3) a pessoas arrogantes que acham que sabem tudo mas que vão certificar os mesmos maus manuais actualmente existentes no mercado; (4) a fracos que se vão deixar corromper pelo grande poder do lobby editorial. E porquê a tempo inteiro, num tempo de grande contenção de despesas?! O trabalho de avaliação deve ser por peer review dos mais competentes (cv científico de excelência e experiência de avaliação de manuais), tal e qual como se faz nas revistas internacionais de grande impacto: um editor (de reconhecido renome na sua área científica) que escolhe os melhores revisores de entre os melhores especialistas numa determinada área. Como é que a Sra. Ministra espera que um Conselho de Avaliação (equivalente de um Conselho Editorial de uma revista científica), constituído como propõe no ponto 2 do artigo 10º do anteprojecto de Lei, seja capaz de desenvolver o trabalho próprio de um Editor ou Conselheiro Editorial de uma revista científica? Como é que a Sra. Ministra espera que uma Comissão de Avaliação (equivalente de um Revisor de uma revista científica), constituída como propõe no ponto 2 do artigo 12º do anteprojecto de Lei, seja capaz de realizar trabalho eficiente, de qualidade e rápido? Se escolher um bom revisor já não é tarefa fácil (o seu anteprojecto nem explicita critérios de escolha!), imagine-se escolher um grupo com a dimensão proposta, e que mantenha uma coerência tal que evite gastar o seu tempo em discórdias e discussões estéreis!

A nova Lei não prevê a aceitação de relatórios oriundos da sociedade civil, que incidam quer directamente sobre os manuais quer sobre o produto da avaliação efectuada pelas comissões. Neste aspecto a nova Lei é muito pior que a anterior. A não existência de controlo por parte da sociedade civil levará inevitavelmente à arrogância dos avaliadores, por acharem que não existirá controlo “legal” do produto da sua avaliação. Os avaliadores têm que saber que eles próprios são objecto de avaliação. A Sra Ministra espera que este trabalho seja então feito na comunicação social, com os efeitos perniciosos que tem a lavagem de roupa suja em praça pública?

Uma empresa privada como a Elsevier, de grande poder económico, prestígio e renome mundial na edição de trabalho científico e tecnológico, não paga aos editores nem aos revisores de centenas de revistas por ela publicadas. Mas o Estado Português, pobre, prepara-se para publicar uma Lei que prevê gastos avultados para o orçamento do estado. Como o estado não fabrica dinheiro e é constituído pelo somatório dos governantes mais a restante população, em especial a que paga impostos, vão ser estes a suportar mais uma despesa supérflua proposta pelos governantes. Ponha-se os investigadores competentes/excelentes a prestar o serviço de peer review, suportado pelo vencimento que o Estado lhes paga mensalmente. O prestígio que advém de se ser escolhido como avaliador devia ser reconhecido por toda a sociedade civil, e ser paga suficiente para a nobre tarefa de melhorar efectivamente o nosso precário sistema de ensino.


in Fernando Ornelas Marques
Certificação de Manuais,
publicada por A Educação do meu Umbigo em 18 de Dezembro de 2006

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Quarta-feira, Dezembro 05, 2007

John Cox - Cursos do MIT disponíveis na Internet

MIT


Esta semana o MIT anunciou um feito importante: acabou de completar o seu projecto pioneiro OpenCourseWare. Todos os envolvidos pareceram satisfeitos, embora não estivessem convencidos sobre o que exactamente é importante neste projecto.

A meta era digitalizar todos os materiais didácticos das aulas respeitantes a cada um dos 1800 cursos ministrados, colocá-los na rede (online) e convidar toda a gente a fazer desta informação o que lhes aprouver. Designámo-lo por projecto Unlocking Knowledge, Empowering Minds (OCW) e já provocou uma onda generalizada de acessos - por parte professores e educadores de toda a parte - daquilo que até agora foi um recurso didáctico ciosamente guardado.


Pode encontrar-se a apresentação geral de um curso sob o título "fundamentals" em data network, incluindo sumário e notas das aulas. Há uma apresentação PowerPoint de 2006 sob o título Trends in RFID Sensing. Proposto em 2000 por uma comissão, anunciado em 2001 e lançado em 2002, o OCW dispôs de um orçamento de 29 milhões de dólares, sendo 5 milhões do MIT e o restante contribuições voluntaŕias de fundações ou indivíduos. Um patrocinador-chave, a William and Flora Hewlett Foundation, decidiu atribuir nos próximos cinco anos mais 100 milhões de dólares em vários outros programas de educação aberta, em grande parte motivado pela experiência que teve no OCW, segundo declarações de Marshall Smith, director do programa educacional da fundação.

O MIT decidiu ir mais além que o inicialmente planeado para o OCW. Durante a festa de celebração no campus de Cambridge do MIT na quarta-feira, a Presidente Susan Hockfield anunciou a abertura de um novo portal do OCW, concebido especificamente para professores e estudantes do secundário (high school). Baptizado “Highlights for High School", este portal ambrange selectivamente cursos introdutórios de Ciências, Engenharias, Tecnologias e Matemáticas incluindo notas dos professores, leituras recomendadas, exames e outras informações das aulas. Os recursos do OCW, incluindo filmes de actividades laboratoriais, simulações, exercícios e outros materiais prontos a serem utilizados, correspondem todos aos requisitos da categoria de Advanced Placement do ensino.


in John Cox
MIT digitizes its courses, throws them online, and asks ‘What now?”
publicado por Network World em 29 de Novembro de 2007

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Finlandia - Truly free lunch

Finlândia
"According to Finnish law schools must organize a free lunch for all their students. The meal must be healthy and balanced and it must fulfill a third of the daily nutritional requirements. It must contain main course, salad, drink and bread and margarine every day. School lunch is an important part of school's educational and social values."
in The Finnish School

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Quinta-feira, Novembro 22, 2007

Joël Perino - Os professores e a riqueza

Crescimento PIB França

Ambos eram professores primários. Chamá-los-emos Aimée e Alberto. Começaram as suas carreiras pouco depois da 2ª Guerra. Em 1950 instalaram-se finalmente na mesma cidade. Por volta de 1955 compraram o seu primeiro carro, um Simca. No Verão foram acampar com os seus três filhos. Na cidade onde viviam, eram pessoas tão importantes como o padre e o presidente da Câmara. Habitavam uma residência reservada ao seu estatuto. Chamavam-nos: O casal de regentes. Se um gaiato era castigado, tentava a todo o custo impedir que os seus pais tomassem conhecimento, com medo de um segundo castigo do pai. Alberto reformou-se aos 55 anos, mantendo-se por algum tempo como secretário da Câmara. Não por neceesidade, mas por satisfação. Pelos seus três filhos, Aimée pode reformar-se mais cedo, aos 52 anos. Com as suas economias, compraram um bom apartamento. A reforma era confortável e passaram a viajar com outros sócios do clube dos antigos professores.

Se atribuirmos o valor 200 ao Pruduto Interno Bruto da França em 1948, obtemos, a preços constantes (francos), cerca de 1500 em 2004. Ou seja, segundo o Institut National de la Statistique et des Études Économiques, um crescimento da riqueza de cerca de 750% ou até mais.

Foi precisamente em 2004 que Alexia e Antoine começaram as suas carreiras de professores. Hoje ganham 3300 euros e pagam 1050 euros de renda de casa além de uma boa parte do salário à creche dos seus dois filhos. Têm um Scenic de ocasião e um Twingo apodrecido. António faz 80 kilómetros por dia e Alexia 30. Hesitam em prolongar as saídas de férias. Aguardam por uma colocação na mesma cidade. Interrogam-se sobre a possibilidade do terceiro filho. A muito custo conseguem pôr algum dinheiro de lado. Ainda não estão no inferno, mas já não estão no paraíso. O pior é a falta de consideração. Quando um gaiato é castigado, não raro os pais vêm sacar-lhes explicações, exibindo sem pudôr o seu nível de vida superior. Antoine reformar-se-á, no melhor dos casos, aos 60 anos e Alexia um pouco antes. Isto, se tudo correr bem e os seus contratos não foram unilateralmente renegociados.

Há dias que Antoine e Alexia se questionam: Para onde foi toda esta riqueza? Esta bela multiplicação do Produto Interno Bruto por 7,5? Porque razão se esgotam tanto, quando os seus avós foram tão bem sucedidos? Que sociedade é esta que trata os seus professores de forma tão impiedosa?

Fonte: JoëlIP,
Richesse
publicado por Dernières nouvelles de l'homme a 21 de Novembro de 2007

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Quarta-feira, Novembro 21, 2007

Sam Dillon - Aptidões em matemática

Math performance

Amostra dos resultados relativos a Matemática (oitavo ano de escolaridade), obtidos em testes levados a cabo em 50 estados dos EUA e 45 estados fora dos EUA.

in Sam Dillon
Study Compares States’ Math and Science Scores With Other Countries’
publicado por Logo New York Times

a 14 de Novembro de 2007

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Terça-feira, Novembro 20, 2007

O caso Lafforgue - Minoria perigosa

Laurent LafforgeSeria muito interessante que os responsáveis das direcções nacionais do Ministério da Educação nos últimos anos não se escondessem hoje no anonimato envergonhado. O livro refere-se à França, mas a realidade descrita é, em quase todos os aspectos, idêntica em Portugal.(AF)
...
a deriva que a Escola e o conjunto do sistema de educação sofreram, e da qual constatamos os efeitos, não parece ser imputável aos docentes - contra a opinião dos quais ela foi feita, e que continuam a trabalhar em condições cada vez mais difíceis -, nem aos pais dos alunos - que gostariam que os seus filhos aprendessem mais, e que se queixam cada vez mais do estado actual da escola -, mas antes a uma minoria de pessoas influentes bloqueadas por a priori ideológicos e incapazes de reconhecerem os seus erros. Nos últimos trinta anos, essa minoria conseguiu, infelizmente, tomar conta de todos os organismos de controlo da Educação Nacional...; essa minoria esforça-se por impedir a avaliação das suas acções e recusa-se, na maior parte dos casos, a ouvir as opiniões dos docentes e dos especialistas independentes.

in Roger Balian e outros
Eduquês: Um Flagelo sem Fronteiras - o caso Lafforgue
publicado por Gradiva em Setembro de 2007

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Sexta-feira, Novembro 16, 2007

João Rato - O não-professor do ano

Burocracia

Faço projectos, planos, planificações;
Sou membro de assembleias, conselhos, reuniões;
Escrevo actas, relatórios e relações;
Faço inventários, requerimentos e requisições;
Escrevo actas, faço contactos e comunicações;
Consulto ordens de serviço, circulares, normativos e legislações;
Preencho impressos, grelhas, fichas e observações;
Faço regimentos, regulamentos, projectos, planos, planificações;
Faço cópias de tudo, dossiers, arquivos e encadernações;
Participo em actividades, eventos, festividades e acções;
Faço balanços, balancetes e tiro conclusões;
Apresento, relato, critico e envolvo-me em auto-avaliações;
Defino estratégias, critérios, objectivos e consecuções;
Leio, corrijo, aprovo, releio múltiplas redacções;
Informo-me, investigo, estudo, frequento formações;
Redijo ordens, participações e autorizações;
Lavro actas, escrevo, participo em reuniões;
E mais actas, planos, projectos e avaliações;
E reuniões e reuniões e mais reuniões!...

E depois ouço,
alunos, pais, coordenadores, directores, inspectores,
observadores, secretários de estado, a ministra
e, como se não bastasse, outros professores,
e a ministra!...

Elaboro, verifico, analiso, avalio, aprovo;
Assino, rubrico, sumario, sintetizo, informo;
Averiguo, estudo, consulto, concluo,
Coisas curriculares, disciplinares, departamentais,
Educativas, pedagógicas, comportamentais,
De comunidade, de grupo, de turma, individuais,
Particulares, sigilosas, públicas, gerais,
Internas, externas, locais, nacionais,
Anuais, mensais, semanais, diárias e ainda querem mais?
- Que eu dê aulas!?...

in Pata Negra
O Não Professor do Ano
publicado por A Sinistra Ministra em 15 de Novembro de 2007

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Terça-feira, Outubro 30, 2007

Helena Matos e a inteligência dos pobres/ricos

Não gosto de etiquetas. Classifica-se a pessoa A ou B como sendo de direita ou de esquerda, do PCP ou do PSD. Habituámo-nos a duvidar do conteúdo de um qualquer artigo só porque foi escrito por X ou Y e, muitas vezes, nem o lemos por puro preconceito. O mesmo sucede com as religiões: é ateu, é muçulmano, é católico, hindu...

Estou cansada destas catalogações e, perante os problemas que as sociedades actuais enfrentam, qualquer opinião com que eu concorde, que eu considere válida para mudar, alterar uma situação, ou simplesmente, tomar conhecimento de algo que desconheça, para mim é válida venha ela de onde vier, desde que reconheça os direitos do próximo e respeite as suas liberdades.

Vem isto a propósito de um artigo de Helena Matos, da revista Atlântico, considerada de direita.

O que ela escreveu no Público, 29/10, é crítico e no sentido de mudança, não de conservadorismo, por isso, me interessou. (M.R.)



Passo a transcrever:

"Em que escola estavas quando foi o 25 de Abril? Em que escola estão os teus filhos?"

À célebre pergunta "Onde é que estavas no 25 de Abril?" é imperioso que se juntem agora estas duas interrogações. Experimente-se por exemplo fazer estas perguntas aos ministros, deputados, autarcas, assessores, artistas, professores... e descobrir-se-á que a maior parte deles frequentou o ensino público, mas optou pelo ensino privado na hora de inscrever os seus filhos e netos na escola. Não porque os seus filhos sejam mais ou menos inteligentes, mas simplesmente porque têm medo que a falta de exigência os embruteça.


Duvido que alguns destes hipotéticos inquiridos o assumisse claramente. Dariam como justificação os horários, os amigos, às vezes até os piolhos, mas o que dificilmente diriam é que o fazem porque não acreditam na qualidade do ensino público. Muitos provavelmente serão oficialmente a favor do Estatuto do Aluno, tal como foram da afectação de tempos lectivos a "coisas" como a Área de Projecto ou da desautorização dos professores e funcionários. Na prática isso não os afecta, porque os seus filhos e os seus netos estão a salvo destes desmandos. O falhanço do ensino público em Portugal tornou-se uma ratoeira contra os mais pobres: pobreza e o insucesso escolar tornaram-se sinónimos. E assim continuaremos, para que ninguém preste contas por aquilo que começou por ser um erro e se está a transformar num crime.

Ao contrário do que se tornou quase banal dizer, não foi a massificação do ensino público que comprometeu a sua qualidade. Os responsáveis por aquilo que os rankings cruamente espelham foram aqueles que fizeram da escola pública um espaço de experiências sociológicas. Passamos a vida a discutir os programas, mas um mau programa ainda é um programa.

O pior foi baixar em cada ano lectivo o nível de exigência. Primeiro, porque era mais moderno. Depois, porque assim não se faziam distinções entre mais e menos inteligentes. Depois, porque o objectivo da escola não era ensinar conteúdos, mas sim ensinar a relacionar-se. Depois, porque já não podia ser de outro modo.

Os filhos dos pobres não são nem mais nem menos inteligentes que os filhos dos ricos. Tiveram sim o azar de os seus pais não ganharem o suficiente para os poupar a esse papel de cobaias de teorias que tanto vêem na ignorância o estado supremo da perfeição igualitária, como entendem que aprender tem de ser divertido e fácil.

Nada disto afecta quem legisla, porque os seus filhos não estão nas escolas públicas ou quando estão souberam souberam contornar o crivo das moradas e horários, de modo a frequentarem as turmas ditas "dos filhos dos professores". Quem não pode fugir das más escolas é quem não tem dinheiro nem conhecimentos.

Alguns como Francisco Louçã querem agora diabolizar os rankings, vislumbrando apoios da extrema-direita aos colégios que se encontram nos primeiros lugares. Engana-se redondamente. Quem fez a fortuna recente das escolas de maristas, jesuítas e da Opus Dei, dos colégios franceses, ingleses e modernos, sem esquecer as escolas alemãs e americanas, foram precisamente aqueles -às vezes de esquerda mas nem sempre - que resolveram que a escola pública não era o local onde todos tinham igual oportunidade de aprender, mas sim o espaço onde a irrelevância medíocre dos resultados provaria que todos podemos ser igualmente ignorantes e irresponsáveis.


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Sexta-feira, Outubro 12, 2007

Comunistas e os exames nacionais

Alguma vez tinha que suceder. Depois de se desinvestir no ensino, depois de se desmantelar parte importante dos equipamentos laboratoriais, depois de se desviar a atenção dos professores para precipitadas "Ciências da Educação" de onde se extirparam vestígios dos métodos científicos, depois de se preencher o tempo dos alunos mais que o bom senso aconselha, depois de se desvirtuarem os programas da sua sequência lógica natural, depois de se espalhar a confusão sobre os livros didácticos, alguém se lembrou - finalmente - de consertar tudo isto de uma penada: restaurar os exames nacionais. Simplex. Mesmo assim, fui incomodar dois amigos para tentar entender a razão do alarido.(AF)




  1. Caro António

    Acho que todos nós devemos pensar pela nossa cabeça, independentemente do Partido a que pertencemos (ou não). E podemos - e devemos - levantar aí aquilo que consideramos estar mal.

    Em relação aos exames, penso que deve haver uma posição equilibrada.Tenho dúvidas sobre exames, como havia antigamente na quarta classe. Mas tenho a certeza que não podemos continuar a ter analfabetos, que não sabem nada de coisa nenhuma, com o diploma do novo ano. Por outro lado, de nada servem provas globais feitas nas escolas. No actual contexto, penso que deveria haver exames nacionais no sexto, nono décimo-primeiro e décimo segundo anos de escolaridade. Mas desde logo isso impossibilitaria os governos de apresentarem estatísticas cada vez melhores. Porque muitos dos que agora dizem ter o nono ano ou o décimo segundo têm menos conhecimentos básicos do que nós tinhamos no terceiro ou quarto ano de liceu (é o caso de um miudo que tem o 12º ano feito na província e teria chumbado o nosso segundo ano de liceu). Estamos essencialmente a formar analfabetos com diploma.E o tão badalado programa novas oportunidades, pelo que sei dele, vai no mesmo sentido. Quando o que nós precisamos é de programas que qualifiquem as pessoas, independentemente de equivalências a diplomas escolares.

    Mas os exames não são a SOLUÇÃO e só fazem sentido no âmbito de uma profunda remodelação de todo o sistema de ensino.

    Acho que tem havido uma tendência para fazer a promoção do ensino privado (geralmente escolas que só alguns podem pagar) como a excelência do ensino no básico e secundário: Esquecendo que aqueles que vão para esse ensino saem frequentemente de classes sociais com maior nível económico e cultural (quando é só nível económico pagam a explicadores). Mas tembém não podemos fazer de conta que não sabemos que o actual sistema de ensino público não funciona (excepto para escolas situadas em bairros da classe alta). Porque muitas crianças (geralmente de meios mais desfavorecidos) estão desinteressadas por aquele tipo de ensino com base no abstracto, completamente desligado das suas vivências, e não têm alternativas. Da incapacidade para acompanhar os outros surge a indisciplina, o tentarem afirmar-se por uma liderança nas questões negativas, e o impedimento da aprendizagem dos próprios e dos outros.

    É preciso criar alternativas de ensino, com vertentes mais práticas para os que não querem ou não têm capacidade para chegar à Universidade. Alternativas que devem começar não apenas a partir do nono ano -mesmo aí existem poucas, mas logo a partir do sexto ano de escolaridade (vejam bem, eu que contestava as escolas técnicas e comerciais). ?Há crianças que não se adaptam a um tipo de nesino mais abstracto, mas também há muitas que não têm capacidades intelectuais e precisam de uma vertente mais prática e de ensino especial.

    Tudo isto revela a necessidade de uma profunda reforma.

    Portanto. Eu sou a favor de alguns exames (nacionais), mas por si só pouco resolvem. Devemos bater-nos por uma reforma de ensino a sério, amplamente discutida, com a participação de professores, pais, especialistas e de toda a sociedade. Que não saia da cabeça de ministros ou ministras prepotentes e da sua "entourage".

    Já agora. O ensino soviético tinha a vertente de dar diferentes saídas de ensino, era exigente, deu uma formação escolar sólida - como ainda hoje se vê, naqueles países. Mas nem tudo seriam maravilhas. Uma reforma em Portugal tem de ser portuguesa.

    Um abraço




  2. Meu caro Tónio Ferrão:



    Não assisti a esse telejornal. Mas, independentemen