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Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

Maria José Nogueira Pinto - Infâncias infelizes

Maria José Nogueira PintoA Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) apresentou ao Ministério da Educação uma proposta para as escolas do 1.º ciclo do ensino básico funcionarem entre as sete da manhã e as sete da tarde. Uma proposta radical que encerra em si própria a alteração do sentido último da escola e o sentido último da família. Algo que, tendo estado desde há muito subjacente a toda a discussão em torno do modelo de sistema educativo, modelo de escola e objectivos do ensino, surge agora claramente como um facto assumido, não já uma circunstância mas um dado adquirido, o de uma parentalidade em part-time.

Sabemos que muitos pais têm de depositar os seus filhos na escola durante 12 horas porque precisam dessas 12 horas para trabalharem - duplo emprego, biscates, o que seja - único modo de fazer face às necessidades do seu agregado. Mas também sabemos que uma criança confinada a um mesmo espaço durante 12 horas, um espaço que não é a sua casa, o seu habitat, provavelmente não se construirá feliz e equilibrada. Há pois, aqui, um conflito, que nem sequer é novo, e uma proposta, essa sim nova, dos pais, de que seja resolvido a favor de um modelo laboral e social profundamente errado e em desfavor dos filhos.

Os chamados ATL, actividades de tempos livres realizadas fora da escola mas em local adequado para o efeito, já existem há muito em Portugal como uma resposta social para aquelas famílias, que são confrontadas, na sua luta pela sobrevivência, com o dilema de pôr em risco ou o sustento dos filhos ou os próprios filhos. Com esta proposta da Confap transfere-se para a escola o prolongamento do horário, e aquilo que era excepcional e em função de uma circunstância concreta passa agora a ser uma regra assumida e incorporada no próprio sistema educativo. Aqui reside a diferença e a diferença é abissal!

Segundo os dados disponíveis, apenas um terço dos casais com filhos menores de 15 anos recorre a serviços de apoio às crianças, incluindo amas, creches, pré-escolar e ATL. À primeira vista, nada indica pois que uma escola a funcionar 12 horas seja uma necessidade sentida por todos os pais ou, sequer, pela maioria dos pais. Mas, uma vez aprovada uma medida como esta, rapidamente se interiorizará que as 12 horas são o horário escolar diário e que, independentemente das reais necessidades dos pais, por uma simples conveniência ou pura comodidade, o lugar da criança é na escola. A ser assim, não estamos perante uma solução mas perante um gigantesco problema a projectar-se, impiedoso, sobre o futuro de todos.

Primeiro, porque muitos dos problemas actualmente vividos nas escolas têm a sua causa na ideia errada de que estas substituem a família. A escola é meramente complementar, mas vê-se forçada a ir mais longe para compensar as fracas competências parentais que se revelam hoje como transversais à sociedade portuguesa e já não exclusivas de famílias mal estruturadas. Esta situação deve ser mudada e não institucionalizada.

Segundo, porque sendo sempre verdade que nada é tão importante como criar e educar crianças felizes, amadas e capacitadas para fazer face à vida, essa verdade é ainda mais evidente no nosso Inverno demográfico. Por isso, aqueles pais que apesar das suas vidas duras, do seu presente precário e do seu futuro incerto tiveram a coragem de ter filhos, não podem, de modo algum, ser penalizados. E também para isso servem as leis e as políticas públicas: novas formas de organização do trabalho, apoios às famílias, equidade no acesso aos serviços.

A decisão de transformar a escola num depósito, com base em precipitadas análises sociológicas, branqueando os dramas da míngua de afectos, laços e convivência entre pais e filhos, com jogos e brincadeiras escolares, é uma capitulação. As crianças não merecem. Nem as pobres nem as ricas.


Maria José Nogueira Pinto, Diário de Notícias, 12 de Fevereiro de 2009
(via A Educação do meu Umbigo)

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Terça-feira, Junho 03, 2008

Elisabeth Rosenthal - Sul de Espanha sem água

Coisas estranhas acontecem quando o poder do Estado é legitimado pelos eleitores, mas não exercido em seu benefício, mas apenas no do "mercado livre". Ou as consequências sociais da Esquerda de Pacotilha. (AF)
Murcia, Espanha

Monica Gumm para o International Herald Tribune


O novo campo de batalha

Campos luxuriantes de alface e estufas de tomates ladeiam a estrada. Novos empreendimentos para umas férias verdejantes atraem compradores da Grã-Bretanha e da Alemanha. Campos de golfe - às dúzias, todos recentemente construidos - conduzem às praias. Finalmente, este recanto inóspito do sudeste espanhol prospera.

Um único senão neste quadro idílico: esta província, Múrcia, está sem água. As searas do sudeste de Espanha estão, de modo persistente, a converter-se num deserto, um processo desencadeado pelo aquecimento global e por deficiências na planificação dos recursos.

Em Múrcia, uma região agrícola tradicionalmente pobre, ocorreu recentemente uma construção desenfreada de casas de férias ao mesmo tempo que os agricultores mudaram para culturas mais sequiosas de água, encorajados pelos planos de transfega de água que, cada vez mais, se mostram insustentáveis. Estes dois factores conjugados pressionam a terra e o seu suprimento evanescente de água.

Este ano, os agricultores disputam aos construtores os direitos sobre a água. Também lutam entre eles pela água para as suas colheitas. Um sinal de desespero é o negócio da água, que se compra e vende como ouro num mercado negro em rápida expansão. A maior parte é extraida de furos ilegais.

Há muito que o Sul de Espanha é atingido por secas periódicas, porém a crise actual, segundo os cientistas, indicia provavelmente uma alteração climática permanente resultante do aquecimento global. É o pronúncio de uma nova espécie de conflito.

As batalhas de ontem foram travadas pela terra, advertem. As do presente estão centradas no petróleo. As do futuro - um futuro mais quente e mais seco devido a mudanças do clima em larga escala - parece que serão motivadas pela água, dizem.

"A água é a questão ambiental deste ano - o problema é urgente e imediato", diz Barbara Helferrich, uma porta-voz da Directoria Ambiental da Comissão Europeia. Se já há penúria de água na Primavera, o Verão que se aproxima será certamente mau.

...


Em Múrcia, a crise da água foi acelerada pelos construtores civis e pelos agricultores que deram o salto para culturas largamente inadaptadas para climas secos: alface, por exemplo, com a sua ampla exigência de irrigação, casas de férias com promessas de uma piscina no quintal, hectares de relvados frescos nos campos de golfe que sorvem milhões de litros de água todos os dias.

"Os agricultores e também os construtores pressionam-me fortemente para que lhes forneça água", afirma Antonio Pérez Garcia, o administrador da água em Fortuna, saboreando o seu café na companhia de agricultores na empoeirada praça central da cidade. Lamenta ser capaz de fornecer a cada proprietário apenas 30 porcento da quantidade racionada de água decidida pelo seu Governo.

"Nem sei o que faremos este Verão", acrescentou, observando que os níveis dos aquíferos locais estão a descer tão depressa que cedo as bombas não conseguirão alcançá-la. "Os consumidores podem queixar-se à vontade; quando não houver mais água, acabou-se. "Rubén Vives, um agricultor que confia da generosidade do Sr Pérez Garcia, disse que não pode suportar os preços da água no mercado negro. "Este ano o meu sustento corre perigo", disse o Sr Vives, que só cultiva espécies de sequeiro, como limoeiros, desde há cerca de vinte anos.

As centenas de milhares de furos - na maior parte ilegais, - que no passado aliviaram temporariamente a sede, esvaziaram-se a um nível de não retorno. A água do Norte, que em tempos era transfegada para aqui, foi-se esvaindo até se tornar um fio à medida que as províncias do Norte começaram também a secar.

A competição pela água está plena de escândalos. Há funcionários municipais na prisão por terem aceite subornos ao autorizarem a construção de edifícios em lugares sem rede de água apropriada. Chema Gil, uma jornalista que tornou público um destes esquemas, foi alvo de ameaças de morte, traz sempre consigo um spray de gás pimenta e é protegida dia e noite pela Guardia Civil, uma força policial que desempenha papéis civis e militares.

"O modelo (económico) de Múrcia é totalmente insustentável", assevera o Sr Gil. "Consumimos duas vezes e meia mais água que aquela que o sistema pode recuperar. Então, onde iremos buscá-la? Importamo-la algures? Secamos os aquíferos? Com as mudanças climáticas, entrámos num cul-de-sac(*). Toda a água que desperdiçamos na luxúria e nos campos de golfe fará falta para, simplesmente, conseguirmos beber."


(*)NT - em francês no original, beco sem saída.

Elisabeth Rosenthal in Water Is a New Battleground in Spain,
publicado por The New York Times em 3 de Junho de 2008

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