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Terça-feira, Maio 26, 2009

E. Tousain e D. Millet - Porque cresce a fome no século XXI?



Como explicar que a fome ainda exista no século XXI? Uma em cada sete pessoas no planeta está permanentemente com fome.

As causas são bem conhecidas: uma profunda injustiça na distribuição da riqueza e a monopolização da terra por uma pequena minoria de grandes latifundiários. Segundo a Food and Agriculture Organization (FAO), 963 milhões de pessoas sofreram de fome em 2008. Paradoxalmente, estas pessoas vivem sobretudo nas zonas rurais. Em geral, trata-se de camponeses que não possuem terra, ou não possuem suficiente terra ou não dispõem de meios para a cultivarem de forma rentável.

O que provocou a crise alimentar em 2007-2008?



É importante realçar que, entre 2007 e 2008, o número de pessoas com fome aumentou em 140 milhões. Este aumento deveu-se à explosão dos preços dos alimentos. Em muitos países, os preços de venda a retalho dos alimentos cresceu 50% ou mesmo mais.

Porquê este aumento? Para responder a esta questão, é importante compreender o que se passou nos últimos três anos. Só então é possível delinear políticas alternativas adequadas.

Por um lado, as autoridades públicas no Hemisfério Norte aumentaram os subsídios para os agro-combustíveis (ardilosamente denominados bio-combustíveis, já que nada têm de orgânico). Subitamente, tornou-se rentável substituir culturas de subsistência por culturas de oleaginosas ou desviar parte da cultura de grãos (milho, trigo, etc) para a produção de agro-combustíveis.

Por outro lado, após o rebentamento da bolha imobiliária nos Estados Unidos da América (EUA), com repercussões no resto do mundo, os investimentos mais importantes (fundos de pensões, investimentos bancários, fundos livres -hedge funds - etc.) desviaram a sua atenção para a especulação em mercados de futuros onde se negociavam contratos de preços dos alimentos (existem três mercados de futuros principais nos EUA: Chicago, Cidade do Kansas e Miniápoles). É, por isso, urgente que os cidadãos tomem iniciativas conducentes a proibir a especulação dos preços dos alimentos. Apesar de a especulação ter atingido o seu auge em 2008, iniciando o declínio em meados desse ano, os preços de retalho não seguiram essa tendência. A grande maioria da população mundial dispõe de rendimentos muito baixos e continua afectada pelas consequências dramáticas do crescimento dos preços dos alimentos verificado entre 2007 e 2008.


As dezenas de milhões de excedentes anunciados para 2009 e 2010 em todo o mundo tornarão a situação ainda mais grave. Em Abril de 2009, a FAO informou o G8 que o número de pessoas com fome crónica se previa que viesse a aumentar entre 75 a 100 milhões no ano corrente, conduzindo a um total superior a mil milhões. Para contrariar esta tendência, era necessário que as autoridades públicas mantivessem os preços sob controlo.


O aumento da fome no mundo não se deve, até ao momento, a alterações climáticas. Mas este factor trará consequências pesadas para o futuro em certas regiões do mundo, especialmente nas regiões tropical e sub-tropical. A agricultura nas zonas temperadas será menos afectada. A solução baseia-se na redução drástica das emissões que contribuem para o efeito de estufa (o IPPC recomenda uma redução de 80% destas emissões para os países industrializados e de 20% para os restantes).

É possível erradicar a fome?



Erradicar a fome é inteiramente possível. As soluções para se alcançar esta meta residem na soberania alimentar e na reforma agrária. Ou seja, dar prioridade à produção local na alimentação das populações e controlar as importações e as exportações.

A soberania alimentar tem de constituir uma preocupação central nas decisões políticas dos governos. Tem de se privilegiar as quintas familiares, usando técnicas concebidas para a produção de alimentos orgânicos. Além disso, assim se conseguiria produtos de boa qualidade: nada de transgénicos, pesticidas, herbicidas ou fertilizantes químicos. Para tanto, 2 mil milhões de agricultores devem dispor de terra suficiente para nela trabalhar, trabalhando em benefício próprio em vez de produzirem cereais para os grandes latifúndios, multinacionais dos agro-negócios ou os grandes distribuidores. Por meio de incentivos públicos, estas pessoas deveriam dispor dos meios necessários para trabalharem na sua terra sem a esgotar.

É necessária uma reforma agrária. Estão desesperadamente carentes dessa reforma o Brasil, a Bolívia, o Paraguai, o Peru a Ásia e alguns países de África. Tal reforma agrária promoveria a redistribuição das terras, a proibição dos latifúndios e a canalização de meios de apoio público para os agricultores.

Deve notar-se que o Fundo Monetário Internacional (FMI) e, sobretudo, o Banco Mundial são largamente responsáveis pela actual crise alimentar, pois recomendaram aos governos do hemisfério Sul que desactivassem os seus grandes silos de cereais outrora usados para apoiarem o mercado doméstico em caso de escassez ou subida acentuada e repentina dos preços. O Banco Mundial e o FMI encorajaram os governos do Sul a fecharem as caixas de crédito agrícola estatal e a desviar esses meios financeiros para benefício de associações de grandes proprietários (muitas vezes também comerciantes) ou para bancos privados, praticando juros exorbitantes. Disto resultou o grande endividamento de muitos agricultores na Índia, na Nicarágua, no México, no Egipto e em muitos países da África sub-sariana. Segundo relatórios oficiais, o alto nível de endividamento constituiu a principal causa do suicídio de 150.000 agricultores verificado na Índia na década passada. Este foi o país em que o Banco Mundial conseguiu persuadir as autoridades a suprimir as agências de crédito público aos agricultores. E há mais: Nos últimos 4 anos, o Banco Mundial e o FMI também coagiram os países tropicais a reduzir a sua produção de trigo, arroz e milho e substituí-la por produtos de exportação (cacau, café, chá, bananas, amendoins, flores, etc).

Finalmente, para coroar os seus esforços a favor dos agro-negociantes e dos países grandes exportadores (começando pelos EUA, Canadá e Europa Ocidental), também persuadiram os governos a abrir as suas fronteiras à entrada de bens alimentares altamente subsidiados pelos governos do Norte. Isto conduziu muitos produtores do Sul à ruína e a uma severa redução da produção de cereais de subsistência autónoma.

Em resumo, é necessário proteger a segurança alimentar e empreender a reforma agrária. A produção de agro-combustíveis deve ser abandonada e os subsídios estatais para quem os produz eliminados. É necessário também recompor o sistema de reservas alimentares no Sul (especialmente de cereais como trigo, arroz, milho...), restaurar as agências de crédito agrícola estatais e regular os preços dos bens alimentares. O Estado deve também garantir preços de aquisição da produção aos pequenos agricultores capazes de promover a melhoria das suas condições de vida. O Estado deve alargar a rede de serviços públicos às zonas rurais (saúde, educação, comunicações, cultura, embriões de bancos estatais, etc). As autoridades públicas são perfeitamente capazes de garantir quer os preços subsidiados para na produção quer os preços de retalho no consumo suficientemente elevados para proporcionar aos produtores ganhos apropriados.

Não será esta luta contra a fome parte de uma luta muito mais geral?



Não é de esperar resultados sérios neste combate contra a fome sem que se considerem as causas fundamentais que conduziram à situação actual. A dívida é uma destas causas. A publicidade e fanfarra em torno desta questão, especialmente nas cimeiras dos últimos anos do G8 e do G20, foi incapaz de levantar o véu que cobre este persistente mistério. A crise actual está a degradar ainda mais a situação dos países pouco desenvolvidos, já penalizados pelos custos da dívida, sendo de prever que novas dívidas venham a ser contraídas a Sul. A dívida teve como consequência que os países do Sul, tantas vezes ricos em recursos naturais e humanos, se empobrecessem. A dívida é a pilhagem organizada, a que tem que se pôr cobro urgentemente.

De facto, a mecânica infernal da dívida constitui o obstáculo mais importante para que as necessidades básicas das pessoas sejam satisfeitas, incluindo o direito a uma alimentação decente. Sem dúvida, a satisfação das necessidades básicas deve ser colocada acima de quaisquer outras considerações, sejam elas geo-estratégicas ou financeiras. De um ponto de vista moral, os direitos dos credores, pessoas com meios privados ou especuladores pesam bem pouco se comparadas aos direitos fundamentais de seis mil milhões de cidadãos esmagados pela máquina implacável da dívida.

É imoral pedir a países empobrecidos pela crise global e pela qual não foram responsáveis, que afectem uma parte significativa dos seus recursos para recompensar credores ricos (sejam do Norte ou do Sul), em vez de os usarem para as suas necessidades fundamentais. O carácter imoral da dívida também resulta de, muitas vezes, elas terem sido contraídas pela mão de regimes não-democráticos, que não usaram o dinheiro que foi entregue no interesse da sua própria população tendo, em vez disso, desviado grandes somas com apoio tácito ou mesmo com a participação activa dos estados do Norte, do Banco Mundial ou do FMI. Os credores dos países industrializados mais fortes pagaram subornos, certos da cobertura que tais regimes davam à corrupção. Não estão em condições de exigir dos povos desses países qualquer pagamento de retorno que tenha tido origem nas suas práticas imorais e ilegais.

Para resumir, a dívida é uma das formas pelas quais se instala de novo o colonialismo em detrimento do povo. É uma inovação no rol das muitas injustiças históricas já perpetradas pelos países ricos: escravidão, extremínio de populações indígenas, grilhões coloniais, pilhagem de matérias-primas, destruição da biodiversidade e sonegação do know-how dos agricultores (por meio das patentes de produtos agrícolas do Sul, como o arroz Basmati da Índia, para proveito da corporações multinacionais da agricultura no Norte), pilhagem de bens culturais, fuga de cérebros, etc. Em nome da Justiça, é tempo de substituir a lógica da sujeição pela lógica da redistribuição da riqueza.

O G8, o FMI, o Banco Mundial e o Clube de Paris impõem as suas próprias verdades, a sua própria justiça, na qual são simultaneamente juiz e parte interessada. Confrontados pela crise, o G20 pegou no bastão e procura recolocar o desacreditado FMI no centro do seu campo de acção política e económica. Temos que pôr cobro a esta injustiça que aproveita aos opressores, sejam do Norte ou do Sul.

Eric Toussaint e Damien Millet, Why is There Rampant Famine in the 21st Century?

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Sexta-feira, Março 27, 2009

M. SHAHID ALAM - O Capitalismo na perspectiva das suas vítimas

Nunca foi fácil fazer uma crítica ao capitalismo ou aos mercados aos meus alunos do secundário. Muitos nunca terão escutado uma palavra menos simpática contra estas instituições basilares, que reconhecem como pilares do poder e da prosperidade dos Estado Unidos da América.

Estas são instituições sacralizadas. A capacidade do capital privado produzir empregos, riqueza e liberdade é um dos dogmas centrais que muitos norte-americanos absorvem com o leite materno. Ouvir um desafio a tal dogma - qualquer que seja o contexto - é perturbador. Às vezes, suspeito que esta pastilha amarga é ainda mais difícil de engolir pelo facto de eu não ser, notoriamente, um nativo dos Estados Unidos da América.

Nas últimas semanas, porém, essas convicções parecem ter enfraquecido. No passado tomava-se como certo que os mercados estavam a cumprir um papel benéfico, espalhando a prosperidade a alguns pontos centrais do capitalismo global. Fazem o trabalho para nós, ainda que isso possa não funcionar para os asiáticos, os africanos e os latino-americanos.

No entanto, a contestação de que o mercado "livre" raramente funcionava com economias afastadas dos grandes centros do desenvolvimento parecia carecer de fundamento. Aparentemente, tal não era uma falha do mercado. Por muito tempo, o Ocidente convenceu-se de que os asiáticos, os africanos e os latino-americanos não conseguiam porque eram preguiçosos, esbanjadores, corruptos e parcos em imaginação.

Os meus alunos - tal como a maior parte dos norte-americanos - encaram o capitalismo na perspectiva dos vencedores do capitalismo global. Por um acaso de nascimento, tornaram-se beneficiários das riquezas e do poder que o capitalismo global concentra em alguns pontos do sistema. Não concebem que o sistema que tão bem funcionou para eles seja capaz de produzir miséria na Ásia, África e América Latina.

Estive afastado das minhas ocupações docentes na altura em que os Estado Unidos da América conduziram o mundo para uma depressão profunda. Em poucos meses, os gigantes da Wall Street (Bolsa) estatelaram-se ao comprido, foram salvos da extinção por meio dos impostos dos contribuintes. Vacilando à beira da bancarrota, os gigantes da indústria automóvel sobrevivem hoje também à custa dos dinheiros dos contribuintes, sendo incerto qual será o seu futuro. Neste remoinho, os passos de Bernard Maddoff, o Einstein do esquematismo, prosseguiram o seu embuste colossal durante vinte anos sem que os reguladores dessem por isso.

Milhões de norte-americanos perderam o seu emprego; milhões estão ameaçados de perder as suas casas; milhões viram as suas poupanças de reforma evaporarem-se à frente dos olhos; milhões estão em vias de perder a assistência à doença. Enquanto os norte-americanos da rua eram devastados, os dirigentes dos bancos salvos por intervenção pública continuaram a receber milhões em bonificações. A corda esticada ameaça agora quebrar a aclamada tolerância dos norte-americanos para com as diabrites do sistema capitalista.

Usualmente, a democracia norte-amaericana dirige a sua verrina contra os escritores e activistas de esquerda, suficientemente loucos para procurarem defender os desprivilegiados. Desta vez, a fúria dos norte-americanos voltou-se contra os capitães da finança e os veneráveis banqueiros com uma violência invulgar - incluindo ameaças de morte.

Encontrava-me em licença sabática quando Al-Caida destruiu as Torres Gémeas, no 11 de Setembro. Fui, na altura, dispensado de acompanhar os meus alunos, por receio de que me pudessem tomar como um dos fautores daquele ataque.

Novamente me encontrava em licença sabática na altura em que as torres da Wall Street desabaram por cupidez, imprudência e fraude; por uma ideologia do mercado livre que não tem contemplações face à vida humana; por elites capitalistas e seus parceiros na Casa Branca e no Congresso, que transformaram o sector financeiro numa esquema gigantesco de embuste.

Os norte-americanos foram atingidos por actos de terrorismo com consequências a longo prazo para a vida humana de dimensão tal que, no balanço, farão com que o 11 de Setembro pareça uma sessão de chá das cinco. Os perpetradores deste terror são todos internos; não foram treinados nas montanhas do Afganistão, mas em Harvard, Yale e Stanford; foram banqueiros, directores e legisladores, que rezam nos Estados Unidos da América e se encontram entre a nata da sociedade desta nação.

Quando retomei as aulas no final deste ano, encontrei, como era de esperar, alunos marcados por esta experiência. Nada destói tão rápida e eficazmente a ideologia capitalista como as crises capitalistas. Nenhuma crítica ao capitalismo é mais contundente que a devastação do desemprego, a pauperização e a expulsão das suas casas que este inflinge às suas vítimas. Atingidas tão recentemente - no próprio centro do capitalismo global - talvez os cidadãos norte-americanos comecem a entender as vítimas do exterior dos EUA - as que estão em África, Ásia e América Latina - que já foram devastados por este sistema durante séculos.

As ideologias capitalistas procuram a todo o vapor desviar a angústia contra o sistema e apontá-la contra uns poucos vilões, umas tantas maçãs podres. As audições no Congresso identificarão os bodes espiatórios; crucificarão umas tantas bruxas. Serão sacrificados alguns barões do capitalismo. Ao esmorecer a fúria do público, tentar-se-á desviar a culpa para compradores de casas incumpridores e consumidores compulsivos. O espactáculo capitalista deverá então continuar com o mínimo possível de alterações.

Longe porém desta crise, as novas tecnologias, combinadas com o deslocamento irreversível da soberania de alguns segmentos do capitalismo para a periferia, alteraram a dinâmica do desenvolvimento desigual. Os trabalhadores de rendimentos mais altos - a chamada classe média dos países desenvolvidos - foram perdendo as prerrogativas que desfrutaram durante muito tempo, ao entrarem em competição com os trabalhadores de baixos rendimentos da China e da Índia.

Cada vez mais o capitalismo global enriquecerá alguns trabalhadores da periferia à custa dos trabalhadores do centro do capitalismo. Nos próximos anos, a grande aliança que foi forjada entre os capitalistas e os trabalhadores no centro do capitalismo ficará sujeita a uma grande tensão. Cada vez mais, os interesses destas duas classes divergirão.

Empresas poderosas insistirão na abertura, enquanto uma parte cada vez mais importante de trabalhadores reclamarão pelo proteccionismo. Este renascimento do conflito de classes no velho centro do capitalismo alterará as alianças políticas actuais. Depois de terem cooperado durante mais de um século, as instituições democráticas começarão a ameaçar as elitres das corporações. Serão apresentadas novas exigências aos mercenários da intelectualidade nos grandes meios de comunicação social e na academia para encontrarem novos e mais eficientes instrumentos destinados à imbecilização do povo.

Quando um número cada vez mais elevado de trabalhadores de altos rendimentos dos países ricos se tornar, ele próprio, vítima do capitalismo, será que aprenderão a olhar para o capitalismo do ponto de vista das vítimas costumeiras? Consegui-lo-ão nesta nova realidade emergente, com a economia ortodoxa a fugir dos velhos centros em Londres, Cambridge e Chicago rumo aos novos centros em Bangalore e Pequim?

Estranho mundo será este, visto a partir dos velhos centros. Na verdade, ocorrerá uma correcção muito atrasada por dois séculos de desenvolvimento desigual dominado pelas potências ocidentais. Tampouco esta correcção será suficiente: deixará de fora uma grande parte do mundo, mergulhada em pobreza e doença.

M. SHAHID ALAM, Capitalism From the Standpoint of Its Victims, Counterpunch, 23 de Março de 2009

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Terça-feira, Fevereiro 17, 2009

Pedro Carvalho - Reflexões sobre a crise do sistema capitalista

Padro CarvalhoHoje é evidente para todos que a actual crise não é meramente financeira ou localizada num grupo de países. A crise financeira chegou à economia real. As principais potências imperialistas vão entrando em recessão. As últimas previsões do FMI e da OCDE apontam para uma contracção do produto em 2009 para os países capitalistas mais desenvolvidos no seu conjunto, pela primeira vez desde a segunda guerra mundial. Apontam para uma forte desaceleração do crescimento da economia mundial e, a CNUCED, aponta mesmo para um recuo do produto mundial por habitante. A crise é global e emana do centro do sistema capitalista mundial, sobretudo da sua potência central – os Estados Unidos.

Após o regresso da «estagflação» em 2007 e no primeiro semestre de 2008 e o aprofundamento da crise financeira no Outono de 2008, o fantasma da deflação e da depressão estão cada vez mais presentes. Os governos e os bancos centrais utilizam todos os instrumentos para estabilizar o sistema financeiro, estimular o «motor» do crédito do qual depende o sistema capitalista. Mas apesar das massivas doses de liquidez injectadas no mercado, das reduções das taxas de juro e de volumosos pacotes de investimento de influência keynesiana, a crise continua a aprofundar-se, evidenciando a aparente ineficácia das respostas clássicas de política monetária e orçamental. Vejamos alguns exemplos.

Tenta-se estimular o crédito. Mas esquece-se do já excessivo endividamento das empresas e famílias na Tríade (Estados Unidos, União Europeia e Japão) e os crescentes riscos de incumprimento dos créditos contraídos. Esquece-se que num contexto de restrições ao consumo e de sobreprodução, as empresas não irão contrair empréstimos para expandir a produção daquilo que não conseguem vender.

Os bancos centrais reduzem as taxas de juro de referência (com as taxas de juro reais a ficarem mesmo negativas), o que tendo impacto no serviço da dívida das empresas e das famílias face aos créditos existentes, não o terá da mesma forma na concessão de novos créditos, cujo prémio de risco será traduzido num maior spread. Por outro lado, as empresas contraem empréstimos para investir quando estão a ser lucrativas, ou seja, quando estão a realizar as taxas de lucro esperadas.

O aumento dos investimentos públicos previsto nos pacotes de estímulo orçamental contribui para compensar a «falta» de investimento de privado, mas este está limitado pela sustentabilidade orçamental das «operações de salvamento» do sector financeiro em curso e a capacidade dos Estados colocarem dívida pública. Um exemplo. O total de activos detidos pelos cinco maiores bancos ingleses equivale a quase cinco vezes o PIB da Inglaterra, ou seja, uma operação de injecção de capital de 1% custaria ao governo britânico quase 5% do seu PIB, por via do aumento da dívida pública. Então se forem necessárias operações de injecção de capitais de 5% ou 20%?

Continue a ler em ODiario.info

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Terça-feira, Janeiro 06, 2009

Joseph Stiglitz - Capitalistas estúpidos

Joseph Stiglitz
“Quando vierem a acalmar-se as ameaças mais urgentes colocadas pela crise do crédito, encontrar-nos-emos perante a tarefa principal de elaborar uma orientação para o caminho económico do futuro. Por detrás dos debates acerca da futura política económica há um debate acerca da história: um debate acerca das causas da nossa situação actual. A batalha sobre o passado determinará a batalha sobre o presente. Por isso é necessário compreender bem a história”.


ODiario.info, 5 de Janeiro de 2009

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Terça-feira, Novembro 04, 2008

António Vilarigues - Conhecer o capitalismo

É curioso notar como ainda existem intelectuais que pretendem desconhecer as leis do capitalismo. (AF)



António Vilarigues
  1. No artigo de 3 de Outubro A teoria de Pavlov aplicada à política recordei a Resolução Política aprovada, em Novembro de 2004, no XVII Congresso do PCP: No mercado imobiliário, cujos preços têm vindo a subir a níveis demasiado elevados, subsistem riscos de um ajustamento abrupto com consequências de expressão mundial. E acrescentei que como se costuma dizer O PCP previu e preveniu

    A propósito desta citação um leitor escreveu-me insinuando que a mesma era falsa. E, ironizando, questionava se os comunistas eram bruxos. Continuando no mesmo tom diria que não sei se os comunistas são bruxos ou não, mas lá que parece, parece.

    Que dizer desta referência na Resolução Política do XV Congresso, em Dezembro de 1996: Pelo seu volume desmedido, pela tendência a empolar-se cada vez mais, pelo risco aleatório do seu movimento, esse capital fictício financeiro-especulativo faz pairar sobre a economia dos países e do mundo a instabilidade monetária e o perigo de colapsos bolsistas devastadores. E assistimos à crise asiática de 1997/98.

    De novo em Dezembro de 2000, no XVI Congresso, o PCP afirmava: Os constantes fluxos de capital-dinheiro, especialmente de curto prazo e de alto risco, provocam uma acrescida instabilidade no funcionamento do sistema financeiro e monetário internacional (…). Mercados bolsistas e imobiliários irracionalmente inflacionados são alimentados por uma insustentável expansão do crédito que potencia o perigo e a dimensão de desastres. (…). E veio a crise económica de 2001/03.

    Mas a bruxaria já vem de há 160 anos, quando dois feiticeiros alemães, de seu nome Karl Marx e Friedrich Engels, escreveram um livrinho intitulado O Manifesto do Partido Comunista. Aí se fala de mercado mundial, desenvolvimento da burguesia, multiplicação dos seus capitais, necessidade da destruição de forças produtivas excedentárias como condição de sobrevivência do sistema, crise económica como realidade inerente ao capitalismo, o socialismo como sociedade alternativa, etc., etc., etc. É esta validade das análises e das propostas propiciadas pelo marxismo-leninismo que dói aos críticos.


  2. Confesso, caros leitores, que por estes dias ando com o ego em alta. Há pouco mais de um ano referi nesta coluna que não tinha aderido à revolução semântica dos conservadores e neo-conservadores. Nos anos oitenta do século XX eles revolucionaram, com sucesso, a terminologia política e económica. O capitalismo passou a ser designado como economia de mercado. Mais recentemente trocaram o imperialismo por globalização. É sempre gratificante verificar como os conceitos por nós identificados e apreendidos voltam a ganhar significado. E como por estes dias todos escrevem e falam sobre a palavra pretensamente deitada para o caixote do lixo da história: capitalismo.

    Capitalismo esse responsável, só nas últimas semanas, pela supressão de mais de 200 mil postos de trabalho em Wall Street e outros centros financeiros. São sempre os mesmos a pagar a factura…


  3. Em 21 Junho de 2005 escrevi neste espaço (mais um exercício de memórias …) que: O Vasco Valente Correia Guedes, depois do seu artigo Crescer com o Álvaro [14 de Junho], (que me recuso a comentar por o considerar inqualificável do ponto de vista ético e moral) deveria, em coerência, deixar de assinar Vasco Pulido Valente. A memória de resistente antifascista e intelectual de vulto do seu avô assim o exige..

    Mais de três anos passados não alteraram a minha opinião. O artigo de 19 de Outubro sobre José Saramago é mais uma confirmação. Aí se repetem quase ipsis verbis os chavões e as falsidades de 2005. Já agora: no ano de 1940 não se publicou nenhum número do jornal Avante! como se pode confirmar no sítio do PCP na Internet…


António Vilarigues, Os bruxos estão bem e recomendam-se, O castendo, 3 de Novembro de 2008

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Terça-feira, Outubro 28, 2008

Sérgio Ribeiro - Romper com o capitalismo

Sérgio RibeiroQuem escora a sua leitura e interpretação da História no marxismo-leninismo, confrontando-a permanentemente com a realidade que vive, tem hoje motivos de satisfação. Não por vanglória de ter razão; não por estulta vaidade pessoal, não porque seja agradável de ver (e de conviver com) o espectáculo do mundo, bem pelo contrário. Mas porque, isso sim, dá força para a luta. Contínua.

Com a humildade que deve ser intrínseca a quem se arroga dessa leitura e interpretação, e de que Marx e Engels deram exemplo, como o prova, de forma cabal, o prefácio de 1872 ao Manifesto de 1848, quando afirma que o programa está hoje, num passo ou noutro, antiquado e que a aplicação dos princípios - que conservam, grosso modo, ainda hoje a sua plena correcção - dependerá sempre e em toda a parte das circunstâncias historicamente existentes.

Hoje, 160 anos depois, o mercado mundial a que se referia o Manifesto, como nele se lê deu ao comércio, à navegação, às comunicações por terra, um desenvolvimento imensurável (e ainda estavam para vir as comunicações por ar, em toda a sua acepção). E acrescenta-se que Este (desenvolvimento) reagiu sobre a extensão da indústria, e na mesma medida em que a indústria, o comércio, a navegação, os caminhos de ferro (e o mais que veio depois, pode acrescentar-se) se estenderam, desenvolveu-se a burguesia, multiplicou os seus capitais, empurrou todas as classes transmitidas da Idade Média para segundo plano (e entre estas estão os estados intermédios, no Manifesto o pequeno industrial, o pequeno comerciante, o artesão, o camponês).

Multiplicou os seus capitais...!, quer isto dizer que, sendo o capital uma relação social ele é, também, um valor sob a forma monetária que é investido para a criação de mais-valia.

Ora, se a possibilidade de ocorrência de sobressaltos (chamemos-lhes crises) na circulação começa com a transformação de M-M (coisa trocada por coisa) em M-D-M (mercadoria trocada por mercadoria por intermédio de moeda, na designação genérica de dinheiro), com o capitalismo, como modo de produção, a circulação passa a ser D-M-D (dinheiro trocado por mercadorias para serem trocadas por dinheiro), e as crises começam a fazer parte do funcionamento do sistema pois a circulação exige que as mercadorias se troquem por dinheiro e o objectivo dela deixou de ser o de satisfazer as necessidades sociais, com M no final da circulação, mas o de realizar mais dinheiro, com D' (mais dinheiro) no final da circulação económica e, para essa realização, não são suficientes as disponibilidades para consumo criadas durante o ciclo.

Na viragem da década de 70 para a de 80 do século passado, tudo se complicou ainda mais com a ultrapassagem, no quadro da luta de classes, de um pico de crise (monetária com inconvertibilidade do dólar, do petróleo) pela via neo-liberal, monetarista, com expressão na crescente importância da circulação D-D' (dinheiro trocado por mais dinheiro, sem passar pelo ciclo produtivo). Chamemos-lhe especulação (bolsista e outras).

Mas esta foi uma forma, precária, instável e desestabilizadora, de ultrapassar uma contradição. Agravando-a. E, ao mesmo tempo, ilustrando a crise como inerente ao sistema, pois servindo para o capitalismo tentar superar, dentro dos seus parâmetros de classe, a contradição no seu funcionamento, cuja é a do desenvolvimento incessante e sem limites das forças produtivas em oposição às dificuldades e aos limites da valorização do capital, enquanto valor sob forma monetária.

Daqui resulta a necessidade, para a sobrevivência do sistema, da destruição de forças produtivas excedentárias (maxime, de seres humanos), excedentárias para a reprodução do capital por não permitirem o processo de sua valorização como valor monetário.

Cada vez mais concentrado e menos valendo porque, mantendo-se a necessidade vital de criação de mais-valia e agudizando-se o desenvolvimento da contradição fulcral entre a capacidade de produção e a capacidade de consumo, esse capital monetário está cada vez mais empolado pela desmedida circulação D-D' (dinheiro a mais dinheiro), com intervenção também cada vez mais relevante do crédito, até pelos constrangimentos e travões na evolução dos níveis salariais.

Por isso mesmo, no actual e gravíssimo pico de crise, a injecção de dinheiro pelo moderno poder de Estado (que... lê-se no Manifesto) é apenas uma comissão que administra os negócios comunitários de toda a classe burguesa, a injecção de disponibilidades financeiras (dizia) é solução precária para a situação estrutural, sistémica, agravando-a a prazo, prazo cuja dimensão temporal é - e só esta o é - imprevisível.

As leis da economia, ainda que sacudidas tempestuosamente pela financeirização, são inelutáveis. No quadro do capitalismo, não existe saída para a crise que não passe pela radicalização violenta, fascizante ou fascista, como foi o caso dos anos 30 do século XX depois da crise de 29, a coberto de aparências democráticas, e pela destruição significativa de forças produtivas, como a militarização e a guerra o exigem e provocam.



O actual pico de crise confirma que o socialismo é um imperativo ditado pela evolução histórica. Mas para que, como possibilidade objectiva que é, ela se torne realidade, exigem-se forças sociais capazes de a concretizarem. Ora, nalgumas partes do mundo essas forças sociais perderam, batalhas que pareciam ter sido ganhas - e que o foram durante décadas -, noutras partes do mundo as forças sociais capazes de protagonizar reais mudanças, isto é, rupturas, não chegaram ainda à maturidade, por ausência de unidade entre os explorados, por divisões entre os trabalhadores, pelo atraso na tomada de consciência da classe operária e de todos os explorados, tudo entretecido capciosamente pela classe dominante e por quem a serve, com uso e abuso desmesurado da força da comunicação e informação, novos e poderosos instrumentos da luta de classes, pela agressividade do imperialismo na defesa dos interesses classistas e na permanente busca de recuperar posições perdidas.

Todas as flutuações que são próprias do processo histórico em nada põem em causa a característica fundamental da nossa época:

a crise do capitalismo abre o caminho para a alternativa ao capitalismo que é o socialismo. Tendo-se de ter bem presente que época histórica não se confina, temporalmente, aos horizontes de existência dos humanos.

Por outro lado, este pico de crise, depois de nos anos 90 do século passado e nesta primeira década do milénio em que outros já houve, depois de sucessivos sobressaltos enquanto se apregoava a estabilidade e o fim da História, este pico de crise veio trazer de novo à ribalta, e numa outra perspectiva, a noção de globalização, que apareceu com o objectivo ideológico de apagar a realidade do imperialismo. Citando Paul Krugman em 1997 (e fica sempre bem citar um Prémio Nobel...): A maioria dos governos do mundo avançado e industrializado, não são tão abalados pela globalização económica como se imagina. Eles mantêm bastante autonomia na regulação das suas economias, na definição das suas políticas sociais, e para a manutenção de instituições que diferem das que impõem aos seus parceiros económicos. E, enquanto se tergiversava sobre globalização, agudizou-se a concorrência inter-imperialista podendo dizer-se que foi a crise que se tornou global! Até já se tendo de falar nos off-shores...

Por isso mesmo, um pouco à boleia do Nobel tão fresquinho e ignorando os que ele chama teóricos acidentais que por aí pululam quando acontece o que outros previram e preveniram, ainda algo acrescentaria sobre geografia económica e soberania nacional.

É que, neste pico da crise do capitalismo, nesta situação evidentemente grave por mais que se avancem com analgésicos comunicacionais, com esperanças-ilusões como Obama ou até mesmo o tão dotado e dito irreverente Nobel da Economia, tudo configura novas formas de adiar a ruptura, através das mudanças à Lampedusa para que tudo fique na mesma, depois de arranjos em que prevaleça a alternância entre os neo-liberais acusados pelos sociais-democratas procurando, aqui, fazer esquecer que compartilharam sempre governos e responsabilidades pelas políticas e invertendo-se, ali, os respectivos papeis na farsa.

Voltando à geografia económica, as referências aos países emergentes são múltiplas e, por exemplo, os nossos banqueiros e políticos da política de direita não fogem ao canto da sereia (ou do cisne?), sempre com Angola nos lábios ou no pensamento. Foi, aliás, um grupo banqueiro transnacional - o Goldman Sachs, que faz parte dos que têm andado agora nas bocas do mundo, e onde o vice-presidente do PSD, e guru do neo-liberalismo, António Borges terá tido lugar importante -, foi este banco que lançou, em 2001, o acrónimo BRIC, a partir de Brasil, Rússia, Índia e China, auto-denunciando intenções estratégicas a que podemos chamar globalizantes, neo-coloniais, imperialistas, ou simplesmente divisão internacional do trabalho, em que esses países teriam lugares proeminentes e papeis destinados no contexto imperialista, o Brasil e a Rússia como fornecedores de espaço e de natureza, a Índia e a China como fornecedores de força de trabalho e de consumidores.

Para este peditório da divisão imperialista do trabalho já Portugal deu, através do que foi a integração no espaço económico europeu, com a subordinação do território e do mar (sublinho: do mar) sob soberania nacional a lógicas alheias ao interesse do País, favoráveis ao grande capital e potências estrangeiras, e o que tem representado uma verdadeira subversão da Constituição da República Portuguesa.

Sublinho, para quem não o lembre, que acabo de citar 2 das 10 rupturas com as políticas de direita que, na Conferência nacional do PCP sobre questões económicas e sociais, realizada em Novembro de 2007!, foram consideradas indispensáveis e urgentes para uma política alternativa que evitasse aos portugueses as consequências das políticas de direita que se inscrevem, servilmente, nesta fase do capitalismo.

Às mudanças nas políticas de direita, há que opor a luta por uma ruptura (e rupturas) com o capitalismo. A alternativa ao que se vive, e aos perigos que a Humanidade corre, é o socialismo!


Sérgio Ribeiro, A Crise do Capitalismo – as causas e a resposta necessária, Partido Comunista Português, 23 Outubro 2008

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Quinta-feira, Outubro 16, 2008

François Chesnais - Limites do capitalismo

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Por isso, outro elemento a ter em conta é que esta crise tem ainda outra dimensão: a de marcar o fim da etapa em que os Estados Unidos podiam actuar como potência mundial sem concorrência... Na minha opinião, saímos do momento que analisava Mészáros no seu livro de 2001, e os Estados Unidos vão ser submetidos a uma prova: num prazo muito curto, todas as suas relações mundiais modificar-se-ão e terão, no melhor dos casos, de renegociar e reordenar todas as suas relações com base no facto de serem obrigados a partilhar o poder. E isto, evidentemente, é algo que nunca aconteceu de forma pacífica na história do capital...


Artigo Completo: François Chesnais, O capitalismo tentou romper os seus limites históricos e criou um novo 1929, ou pior, O Diario.info, 16 de Outubro de 2006

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Quarta-feira, Outubro 08, 2008

Dirk Kurbjuweit - Capitalismo em crise, pacto quebrado com o povo

Primeiro, estranhei que ontem o Presidente dos EUA, George Bush, tivesse telefonado a Gordon Brown, Sarkozy e Berlusconi, não tendo feito o mesmo a Angela Merkel. Agora, percebo porquê. (AF)


De confiar no Capitalismo e fugir à interferência do governo, estamos falados. Mas banqueiros irresponsáveis viram uma oportunidade de enriquecer rapidamente e foram atrás dela. O seu fiasco, tornou-se nosso - e a promessa de um bem comum evaporou-se tal como a fé no capitalismo democrático.

A Alemanha subiu aos céus. Às 9H00 da mnahã de terça-feira 2 de Outubro, o Airbus A310 da Luftwaffe - o equivalente alemão do Air Force One - havia descolado da pista do Aeroporto Tegel de Berlim, meia-hora antes. O avião ruma para Leste, com destino a São Petersburgo, Rússia. Elementos da tripulação servem o pequeno-almoço farto como é costume, incluindo omeletes, carnes, fatiados, quejo e mel. A bordo, estão muitas pessoas que determinaram a posição que a Alemanha ocupa no Mundo: a Chanceler Alemã Angela Merkel e seis ministros, os presidentes de algumas das maiores empresas, como a Siemens, o Deutsche Gahn e a E.on, além de jornalistas. Não há banqueiros no avião, mas eles ocupam o lugar principal nas preocupações de todos os presentes e também nas suas conversas.

Após o pequeno-almoço, a Chanceler Ângela Merkel convidou os jornalistas a dirigirem-se a uma sala à frente para uma conversa off-the-record com a imprensa. Todos se aninharam na pequena sala, 25 pessoas no total, em pé, ou vários sentados na mesma cadeira, alguns mesmo sentados no chão. "O microfone avariou-se outra vez", disse a chanceler para começar.

Falou sobre a Rússia e depois referiu-se à crise financeira. De vez em quando, ouve-se o som do autoclismo: a casa de banho do avião fica adjacente à sala de conferências. A discussão é sincera. Os jornalistas põem questões com ar sério e a chanceler responde com gentileza. Cada palavra transmite preocupação.


in Dirk Kurbjuweit, CAPITALISM IN CRISIS The Broken Pact with the People, Der Spegel, 8 de Outubro de 2008

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Segunda-feira, Outubro 06, 2008

Jerónimo de Sousa - Enfrentar a crise do capitalismo

Jerónimo de SousaO PCP entende que face à grave crise do sistema capitalista e aos seus impactos na economia nacional e na vida do Povo português, o governo deve encarar de frente a situação, assumir as suas responsabilidades e deixar-se de mistificações.

– É uma mistificação afirmar-se que a crise se deve à ganância de alguns, como se a crise fosse a violação de normas éticas, ou como se a busca do máximo lucro não fosse inerente ao sistema Capitalista.

– É uma mistificação explicar a crise apenas pelo rebentamento da bolha do sub-prime. Na verdade, a crescente financeirização da economia mundial em detrimento da produção real, a prática especulativa dos grandes senhores do dinheiro, aos quais tudo é permitido, a crescente desvalorização dos salários e a sua substituição pelo incentivo e facilitação do endividamento, são aspectos incontornáveis da grave situação a que chegámos.

– É uma desculpa esfarrapada afirmar-se que o governo foi surpreendido quando a verdade é que há muito era conhecida a bolha especulativa imobiliária. O governo conhecia a situação e mesmo depois da deflagração da crise, em Agosto do ano passado, continuou a desvalorizar a sua profundidade e a ocultar as suas consequências.

– É uma ilusão e uma mistificação pensar-se que pode haver transparência e regulação no actual quadro de economia de mercado, com a livre circulação de capitais e os off-shores, como aliás o evidenciam as medidas tomadas após o rebentamento da penúltima bolha especulativa – “nova economia” – em que se tomaram novas medidas de regulação, controlo e transparência, sem que as questões de fundo tivessem sido alteradas. Recorde-se também, que os casos do BCP e as suas ligações aos off-shores só foram conhecidas pelo Banco de Portugal porque houve denúncia interna.
Isto não significa que o PCP entenda que não se devem agravar sanções e tomar medidas que reforcem os deveres de transparência dos mercados e informação das instituições sobre a sua actividade e os seus ditos produtos.

– É uma mistificação e uma ilusão considerar-se que o país tem resistido à crise e que está hoje, melhor preparado. Infelizmente o país encontra-se estagnado, como o provam a diminuição do PIB (Produto Interno Bruto), das exportações, o aumento das taxas de juro e a quebra do poder de compra dos trabalhadores e das camadas médias, são consequências conjugadas de uma política interna desastrosa e da crise internacional.

O endividamento do País e do sistema financeiro ao estrangeiro e o endividamento das famílias a par com a fragilidade do nosso aparelho produtivo e o domínio com as privatizações de empresas básicas e estratégicas pelo estrangeiro agudizam substancialmente a exposição à crise.

O PCP considera que esta crise põe também em evidência, a falsidade dos dogmas do neo-liberalismo, do “menos Estado”, do “Estado não intervencionista”, da “mão invisível do mercado”, do mercado “regulador”. Os grandes defensores do “tudo ao privado” e do “Estado mínimo”, são agora os maiores defensores da intervenção do Estado e da nacionalização dos prejuízos, procurando assim passar a factura da crise para o povo em geral e premiar com milhões, os que ganharam e ganham milhões com especulação.

O capitalismo revela mais uma vez a sua natureza e as suas profundas contradições, um sistema que não resolve os problemas da humanidade, antes os agrava, fomentador das desigualdades, das injustiças, da pobreza, da miséria de milhões de seres humanos.

O PCP considera que face à grave crise o governo deve desde já tomar as seguintes medidas:

 No plano interno, intervir junto do sistema bancário para diminuir as taxas de juro; tomar medidas para valorizar, defender e promover a produção nacional, aliviar a tesouraria das empresas acelerando os pagamentos em dívida e de todos os fundos comunitários; aumentar os salários e repor o poder de compra dos trabalhadores; reforçar as prestações sociais designadamente, às famílias mais carenciadas; melhorar a distribuição do Rendimento Nacional.
 Na União Europeia, intervir junto do BCE para a descida das taxas de juro; a suspensão do Pacto de Estabilidade; o combate às deslocalizações; o reforço dos Fundos Estruturais e outras medidas orçamentais que relancem as actividades económicas e o investimento; aumento dos salários por forma a melhorar o poder de compra e a alargar assim o mercado interno. O Governo deveria tomar a iniciativa junto da EU para acabar com os offshores.

 O PCP está a favor da revisão do Sistema Monetário e Financeiro internacional e do combate aos privilégios do dólar, mas tal não pode ser feito com a valorização artificial do Euro, à custa das economias mais débeis da União, como é o caso de Portugal.


O PCP considera também que apesar dos planos Bush/Paulson, das intervenções em bancos em vários países da Europa e das injecções dos Bancos Centrais, a crise vai ainda perdurar e que as principais medidas já ensejadas visam passar os custos da crise para as populações em geral e terão como consequência uma ainda maior concentração da riqueza e centralização do capital.

A grande participação que hoje se registou no Dia Nacional de Luta convocado pela CGTP-IN, onde milhares de trabalhadores do sector público e privado, em greves, paralisações e acções de rua, manifestaram o seu repúdio à intenção do Governo PS de alteração para pior do Código do Trabalho, e exigiram o aumento dos salários e o combate à precariedade, constitui um sinal inequívoco da vontade de uma outra política comprometida com o interesse e a soberania nacional, a defesa do aparelho produtivo, uma mais justa repartição da riqueza, um país de progresso e justiça social, aspectos estes que, perante a gravidade dos últimos acontecimentos, se tornaram ainda mais decisivos para o futuro do país.


Jerónimo de Sousa, Sobre a crise internacional do capitalismo, publicado pelo Partido Comunista Português em 1º de Outibro de 2008

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Quarta-feira, Setembro 24, 2008

Jochen Scholz - Projecto Europeu para o Novo Século (2)

(Início)

Dando o tom


Em 2003, o Manager Magazin publicou o seguinte comentário:
"Quem dá o tom, são os EUA: tanto no domínio militar, como político, social, económico, jurídico, cultural e até moral. Os EUA, ao usarem o facto consumado como norma do seu poder, como se fora sua fonte de legitimação, ao pretenderem conduzir o mundo impondo aquilo que é bom para a elite dos EUA - o qual, não sendo permitida a dúvida, fica transformado em questão de fé - têm perturbado a avaliação dos factos e das ideias e espalhado no mundo inteiro a confusão sobre o que é melhor fazer ou mesmo pensar. Os visados, querendo ou não, vêem-se obrigados a acompanhar, ainda que isso represente um agravamento da sua própria situação. Para que isso aconteça, nem precisam de ser estados-párias... Custar-lhes-á caro, e custar-lhes-á cada vez com maior frequência. Tão caro, que bem se pode falar de graves prejuizos económicos - directos, imediatos, individuais."
Agora em concreto: A "Acta sancionatória do Líbano e Irão" do governo dos EUA obrigou a Thyssen-Krupp SA a resgatar a participação da Holding IFIC AG (Essen) do seu capital social, pelo valor de 19,9 milhões de euros. Só que essas acções haviam sido vendidas à Holding IFIC AG (Essen) - na qual o Irão detem uma participação - a 9 euros por acção, e para este resgate a Thyssen-Krupp SA pagou-as ao valor corrente do dia, a 24 euros. Isto agravou o seu já acentuado déficit. Neste caso, foram aplicadas as disposições do parágrafo 1-1 da lei sobre as acções (retirada, sob risco de graves prejuizos imediatos) decorrentes das restrições ao acesso ao EUA e aos seus mercados. Não foi caso isolado.
Que chegasse ao nosso conhecimento, não houve reacção do governo alemão. Um comentador, insuspeito de tendências marxistas ou anti-americanas, desfiou então os políticos e os empresários, "mas sobretudo os responsáveis pela planeamento económico e de contingência das próprias empresas a enfrentarem no plano táctico e estratégico a nova ordem mundial. Caso contrário, serão incapazes de encontrar as respostas adequadas aos novos riscos que esta crise por ela gerada comporta." Partilho a preocupação de Johannes Reich, chefe do Metzler Equities mas vou um pouco mais longe.


(continua)

Tradução a partir da versão francesa:
Jochen Scholz, PNEC – Project for the New European Century, Horizons et débats, 15 de Seyembro de 2008

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Quinta-feira, Setembro 18, 2008

Ecos de uma bomba ideológica

A palavra capitalismo já vai aperecendo muito timidamente, porém muitos continuam a resguardar-se atrás de eufemismos como mercado livre ou economia de mercado. Respeitamos, as formulações exactas como foram publicadas. A seu tempo, lá descobrirão o resto que já foi dito por Karl Marx no século XIX.
Por outro lado, manifesta-se uma tendência preocupante dos salvíficos monopólios em preferir os negócios directamente com o Estado, em vez de cada um dos eleitores individuais. É mais fácil convencer políticos corruptos sobre a excelência e "interesse social" dos seus produtos ou serviços.
(AF)

Ron Chernow

Historiador
Receio que o governo dos EUA tenham ultrapassado a linha de não-retorno. Estamos perante a ironia de uma administração do mercado livre tomar medidas que a maior parte da administrações liberais democráticas nunca teriam tomado, nem nos seus mais negros pesadelos.Ron Chernow

Mario Monti

Ex-director da Comissão Anti-trust da CE
Mario MontiOs adversários do mercado livre na Europa e não só têm agora a excelente oportunidade de invocar o exemplo dos EUA. Dirão que até no farol da economia de mercado, os EUA, a prática contradiz os seus princípios fundamentais. É a primeira vez que isto acontece no coração do capitalismo, o que tem efeitos muito mais devastadores para a credibilidade da economia de mercado.

Bernard Carayon

Jurista do governo francês
As decisões políticas tomadas hoje nos EUA demonstram a necessidade do patriotismo económico. Congratulo-os por isso. Para os evangelistas do mercado, esta é uma lição dolorosa. As economias nacionais entraram numa era em que haverá muito mais regulação e em que os sectores público e privado se embrenharão muito mais.Bernard Carayon


The New York Times, Abroad, Bailout Is Seen as a Free Market Detour,
18 de Setembro de 2008

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Quarta-feira, Setembro 17, 2008

Willem Buiter - O fim do capitalismo americano tal como o conhecemos

Da financialização da economia até à socialização das finanças. Um pequeno passo para os juristas, um passo gigantesco para a humanidade.Willem Buiter


Financial Times,
The end of American capitalism as we knew it
, 17 de Setembro de 2008

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Segunda-feira, Setembro 08, 2008

Joseph Stiglitz - O almoço grátis de Fannie e Freddie

The New York Times anunciou hoje que o governo nacionalizou os dois maiores grupos hipotecários dos EUA. Os nossos amigos, apologéticos da supremacia social da iniciativa privada, andam muito silenciosos por estes dias. Talvez comecem já a antever o fim do mundo. Porém, trata-se apenas do desrespeito do capitalismo pelas suas próprias leis. (AF)



Artigos
O almoço grátis de Fannie e Freddie



Por Joseph Stiglitz
VALOR - 30/07/2008

Joseph StiglitzMuito tem sido feito nos anos recentes a respeito de parcerias público-privadas. O governo dos EUA está prestes a embarcar em mais um exemplo desse tipo de parceria, na qual o setor privado abocanha os lucros e o setor público assume as responsabilidades.



A sugerida operação de salvamento da Fannie Mae e do Freddie Mac resulta na socialização do risco - com todas as implicações adversas de longo prazo para o risco moral - de uma administração supostamente comprometida com os princípios do livre mercado.



Os defensores do socorro argumentam que essas instituições são grandes demais para que lhes seja permitido declarar falência. Se este é o caso, o governo tinha a responsabilidade de regulá-las para que não falissem. Nenhuma companhia de seguros daria cobertura a esse incêndio sem exigir sistemas apropriados de dispersão de água contra fogo; nenhuma deixaria o assunto para a "auto-regulação". É isso, porém, o que temos feito com o sistema financeiro.



Mesmo que sejam grandes demais para falir, não são grandes demais para serem reorganizados. De fato, o governo realmente está propondo uma forma de reorganização financeira, mas do tipo que não atende aos princípios básicos do que esse tipo de programa patrocinado publicamente deveria constituir.



Primeiro, ele deve ser completamente transparente, sendo que os contribuintes devem conhecer os riscos que assumiram e quanto foi concedido aos acionistas e detentores de ações que estão sendo socorridos. Segundo, deve haver total prestação de contas. As pessoas responsáveis pelos erros - diretoria, acionistas e detentores de bônus - devem arcar com as conseqüências. Não se deve exigir que os contribuintes coloquem um tostão enquanto os acionistas estão sendo protegidos. Por fim, os contribuintes precisariam ser compensados pelos riscos que enfrentam. Quanto maiores os riscos, maior a compensação.



Todos esses princípios foram violados no salvamento do Bear Stearns. Os acionistas se retiraram com mais de US$ 1 bilhão, ao passo que os contribuintes ainda não conhecem o tamanho dos riscos que assumiram. Pelo que se pode perceber, os contribuintes não estão recebendo nenhum centavo por toda essa carga de risco. Escondidos nos títulos lastreados em créditos concedidos ao JP Morgan pelo Federal Reserve (Banco Central dos EUA), que possibilitaram ao banco assumir o controle do Bear Stearns, quase certamente existiam opções de taxas de juros e de créditos no valor de bilhões de dólares. Teria sido fácil projetar uma reestruturação mais transparente e que protegesse melhor os interesses dos contribuintes, concedendo alguma compensação para a carga de risco que suportam.





O salvamento da Fannie e do Freddie é a socialização do risco de administrações comprometidas com os princípios do livre mercado.





Mas o socorro proposto à Fannie Mae e ao Freddie Mac faz o salvamento do Bear Stearns parecer um modelo de boa governança. É um exemplo para outros países sobre o que não fazer. O mesmo governo que não conseguiu regular e depois pareceu empolgado com o plano de socorro ao Bear Stearns agora pede que o povo americano assine um cheque em branco. Eles dizem: "confiem em nós". Sim, podemos confiar na administração - ou dispensar mais um tratamento injusto aos contribuintes.



Algo precisa ser feito - nesse ponto todos concordam. Deveríamos começar do núcleo do problema, do fato de milhões de americanos terem tomado empréstimos acima da sua capacidade de pagar. Precisamos ajudá-los a permanecer nas suas residências, inclusive por meio da conversão da dedução do financiamento da casa própria em um crédito fiscal que possa ser convertido em dinheiro, e criar uma lei de concordata de proprietários de moradias, uma forma ágil de reestruturar as suas dívidas. Isso trará clareza aos mercados de capitais, reduzindo a incerteza em torno da dimensão do rombo nos balanços patrimoniais da Fannie Mae e do Freddie Mac.



O governo deve fixar um limite para o tamanho do plano de salvamento, deixando claro ao mesmo tempo que, apesar de não permitir a quebra da Fannie Mae e do Freddie Mac, tampouco entregará um cheque em branco. Uma reorganização drástica será necessária. Deveria haver uma taxa pela "linha de crédito" (qualquer empresa privada faria o mesmo) e, dado o risco, seria a uma taxa acima do normal.



O setor privado sabe como proteger os seus interesses; o governo não deveria fazer menos. Enquanto a linha de crédito for estendida, não deverão ser pagos dividendos. Para se assegurar de que o governo não estaria simplesmente socorrendo credores que foram reprovados na avaliação da sua credibilidade financeira, pelo menos, digamos, 25% de qualquer título, empréstimo ou bônus vencendo que não seja emprestado de novo deveria ser posto de lado numa conta vinculada, a ser paga apenas depois de ficar caracterizado que os contribuintes não correm risco. Todo e qualquer tipo de empréstimo do governo deve ser dívida preferencial com direito a dividendo cumulativo: os contribuintes são ressarcidos antes de qualquer outro credor receber um centavo. Para desestimular risco moral, a taxa de juros deve ser fixada a uma taxa de multa e, espelhando o risco ascendente, aumentar com a quantia tomada. Por último, o governo deveria participar no potencial positivo, assim como no potencial negativo - por exemplo, aceitando ações (que poderá vender depois) ou, como fez no socorro à Chrysler, garantias.



Não devemos nos preocupar sobre os acionistas perderem seu investimento. Nos primeiros anos, eles foram amplamente recompensados. Os pacotes de remuneração de diretoria que eles aprovaram foram projetados para incentivar a excessiva exposição a riscos. Eles tiveram o que pediram. Tampouco deveríamos ficar preocupados com a perda do dinheiro por parte dos credores. A falta de fiscalização deles alimentou a bolha da casa própria e agora todos estamos pagando o preço. Deveríamos nos preocupar em saber se existe uma oferta de liquidez no mercado habitacional, para que as pessoas que quiserem comprar uma casa possam receber um empréstimo. Esta proposta oferece a liquidez necessária.



Uma lei básica de economia sustenta que não existe almoço grátis. As pessoas no mercado financeiro tiveram um banquete suntuoso e agora o governo está pedindo ao contribuinte que pague parte da fatura. Devemos simplesmente dizer não.


Tradução para português no sítio de Celso Furtado

Artigo original em Financial Times, 25 de Julho de 2008

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Segunda-feira, Junho 02, 2008

Naomi Klein - O Capitalismo do desastre

Milton Friedman compreendeu que, tal como a determinação dos prisioneiros em resistir aos interrogatórios pode ser enfraquecida pelo choque no momento da captura, os grandes desastres podem servir para debilitar as resistências sociais face à sua cruzada radical pelo "mercado livre". Advertiu os políticos que imediatamente após o desastre as reformas devem ser aplicadas todas de uma só vez, antes que as pessoas recuperem o seu equilíbrio.
A melhor maneira de nos livrarmos do choque é mantermo-nos informados.

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Segunda-feira, Maio 26, 2008

Armas silenciosas para uma guerra tranquila

Tentar compreender José Sócrates à face do programa do Partido Socialista é tão inglório que até uma pesssoa tão bem informada como Almeida Santos já desistiu. Porventura o documento que aqui citamos torne mais fácil entender esse comportamento. (AF)

Energia

É reconhecido que a energia á a chave de todas as actividades na Terra. O papel das ciências naturais é o de estudar as fontes e o controlo da energia da Natureza e o papel das ciências sociais, expressas teoricamente através da economia, é o de estudar as fontes da energia social e o seu controlo. Tanto uma como outra devem tributo à matemática. Então, a matemática é a ciência da energia por excelência.

Toda a ciência é, essencialmente, um meio para atingir um fim. O meio é o conhecimento. O fim é o controlo. Resta apenas uma questão: "Quem será o beneficiário?"

Em 1954 esta foi uma preocupação maior. Ainda que se tenham levantado as chamadas questões morais, do ponto de vista da lei e da selecação natural, foi reconhecido que uma nação ou a população mundial que não utilizasse a sua inteligência não seria melhor do que animais destituidos de inteligência. Tais pesssoas são bestas de carga por escolha ou consentimento.

Segue-se que, no interesse da futura ordem mundial, da sua paz e da sua tranquilidade, foi decidido conduzir uma guerra silenciosa contra o público americano com o objectivo último de deslocar a energia social e natural (riqueza) da massa indisciplinada e irresponsável para as mãos de alguns afortunados autodisciplinados e responsáveis.

Para se atingir tais fins é necessário criar, proteger e utilizar novas armas que, como se verá no futuro, pertencem a um tipo tão subtil e sofisticado no seu princípio de funcionamento e imagem pública que serão chamadas "armas silenciosas".

Em conclusão, o objectivo da investigação económica, tal como é dirigida pelos dirigentes do capital (bancos) e das indústrias de bens e serviços, é o estabelecimento de uma economia totalmente previsível e manipulável.

Para se chegar a uma economia totalmente previsível os elementos das classes inferiores da sociedade devem ser sujeitos a um controlo total, isto é, devem ser desgarrados do lar, subjugados e assignados a um desígnio social a longo prazo desde a mais tenra idade, antes que tenham a oportunidade de se questionar sobre a sua sorte. Para se atingir este grau de adaptação a célula familiar das classes inferiores deve ser desintegrada por meio de processos que empolem as preocupações dos pais.

A qualidade da educação dada às classes inferiores deve ser do mais pobre possível, de modo que o fosso de ignorância que isola as classes inferiores das classes superiores permaneça fora da compreensão das classes inferiores. Com tais deficiências de base, mesmo os elementos brilhantes das classes inferiores possuirão apenas uma vaga hipótese de escapar ao desígnio que tenha sido atribuído à sua vida. Esta forma de escravidão é essencial para manter um certo nível de ordem social, de paz e tranquilidade para as classes superiores dirigentes.

in Armes silencieuses pour guerres tranquilles
publicado por Syti.net
Maio de 1979

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Domingo, Maio 25, 2008

Paradigma para uma economia sustentável

Uma economia sustentável deve basear-se num paradigma totalmente distinto, mais especificamente, no paradigma dos seres vivos. As coisas vivas são, por natureza, auto-produtoras, auto-renováveis, reprodutivas e regenerativas. As plantas têm a capacidade de capturar, organizar e armazenar a energia solar, tanto para dar suporte a outros organismos vivos como para compensar a energia que inevitavelmente se perde em entropia. As coisas vivas também têm uma tendência natural para reproduzir-se dentro da espécie. Os humanos, por exemplo, dedicam muito tempo e esforços para o crescimento das famílias, com bem pouco incentivo económico para esse efeito. Está claro que a vida de um indivíduo isolado não é sustentável pois cada coisa viva acaba, eventualmente por morrer. Porém, as comunidades e as sociedades de coisas vivas possuem claramente a capacidade e a propensão natural para serem produtivas, dado que canalizam uma parte significativa das suas energias vitais na concepção e alimentação da geração seguinte.

As relações entre os sistemas vivos saudáveis caracterizam-se por serem mutuamente benéficas e têm, por isso, uma natureza selectiva. Todos os seres vivos são contituidos por células e cada célula está contida numa membrana selectiva ou semi-permeável. Esta menbrana semi-permeável mantém algumas coisas dentro deixando escapar outras, de igual modo que mantém algumas coisas fora deixando entrar outras. Também as coisas vivas são definidas pelas suas fronteiras - pele, casca ou escamas, - que, selectivamente, permitem a diversas subastâncias - ar, água, alimentos, desperdícios - entrar ou sair do corpo. Se estas fronteiras fossem totalmente permeáveis ou impermeáveis o organismo seria incapaz de vida, logo incapaz de produzir ou de se reproduzir.

Os mesmos princípios se aplicam aos sistemas sociais: ecosistemas, famílias, comunidades, economias e culturas. As relações entre os diversos componentes de um mesmo ecosistema saudável são, por natureza, de benefício mútuo. Porém, os humanos dispõem de escolha nas suas relações com a Natureza ou com os outros homens, logo, estão obrigados a fazer uma opção consciente e propositadamente selectiva. As pessoas têm que empenhar a sua vontade para escolher e para manter as boas relações com as outras pessoas e têm que optar por cuidar da Terra, não apenas para seu próprio benefício, como para benefício das gerações futuras.

O Capitalismo não oferece incentivos económicos para sustentar a vida na Terra, porém os homens dispõem da capacidade inata e da tendência natural para o fazer. Ao longo de toda a História da Humanidade, as pessoas preferiram viver em famílias, em comunidades e sociedades à vida em isolamento, até mesmo quando, no curto prazo, não era do seu interesse pessoal fazê-lo. Ao longo de toda a História da Humanidade as pessoas desenvolveram um sentido de respeito e reverência para com a Terra e tentaram cuidar dela, mesmo quando não dispuseram de incentivos para o fazer.

in Is Capitalism sustainable?
publicado por Small Farm Today Magazine,
Missouri Farm Publications, Clark, MO.
November-December 2006.

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Sábado, Maio 03, 2008

Michael R. Krätke - Distribuir o que se produz

Há quem tome por adquirida a equivalência entre Liberdade e Capitalismo. É fácil, quando se tem os olhos bem fechados. (AF)

Os 3 macacos


Os pobres e os muito ricos

Foi há mais de mais de 250 anos que a Academia de Dijon (1754) lançou uma pergunta e ofereceu um prémio a quem conseguisse respondê-la: Qual é a origem da desigualdade entre os homens? Será porventura a consequência de uma lei natural? Jean Jacques Rousseau interessou-se pela pergunta, e em resposta escreveu a sua obra Sobre a origem da desigualdade entre os homens. Como apontou Rousseau, a desigualdade social e política não é natural, não deriva da vontade divina, nem sequer é uma consequência da desigualdade natural entre os homens. Pelo contrário, a sua origem é o resultado da propriedade privada, da apropriação privada da riqueza do mundo inteiro, e dos benefícios privados derivados dessa apropriação. Desde esse momento, tentar explicar a origem da desigualdade social tornou-se uma questão central para as ciências sociais, e também desde essa altura, que a crítica à sociedade burguesa aponta tanto para mostrar a estrutura da desigualdade social, como a da falta de liberdade – intimamente ligada à desigualdade – de uma imensa maioria das pessoas por todo o mundo.

É já bem conhecido que actualmente milhares de milhões das pessoas estão condenados a subsistir com menos de um dólar por dia, e que a metade da população mundial vive com apenas 2 dólares diários. Também sabemos que a desigualdade mundial aumenta rapidamente, e que a desigualdade entre "pobres" e "ricos" dentro dos países está a aumentar. Nos tempos de Rousseau – de acordo com os dados conhecidos – a desigualdade económica entre as diferentes regiões do mundo era menor. Desde 1800 a situação mudou radicalmente. Aproximadamente a partir do ano 1900 alargou-se o fosso entre o nível de rendimento médio nos países ricos do "norte", e o dos países pobres do "sul", até chegar a uma proporção de 1 para 4. Um século depois, na era da globalização, a proporção é de 1 para 30.

O ferro em brasa

Por conseguinte, está a aumentar o fosso entre ricos e pobres, ainda que ultimamente pareça ter diminuido o número de pobres em termos absolutos. Isto deve-se principalmente à ascensão dos "países emergentes" como a China, Índia, Brasil, Sul Coreia e Turquia. Porém, agora, tal como antes, existem 2,8 mil milhões de pobres no mundo inteiro, e 1,3 mil milhões vivem na miséria. Na Alemanha, um dos países mais ricos, o número de pobres cresceu até chegar a 13,5% da população, como entretanto ficou explícito em dois relatórios do governo sobre a pobreza. Uma boa prova disso está na incapacidade dos sete anos do governo vermelho-verde.

Os estudos científicos sobre a distribuição da riqueza e da pobreza são escassos. Os relatórios mais actuais sobre a evolução dos rendimentos datam de 1998. A medição da desigualdade social mundial nunca foi um assunto prioritário para o Banco Mundial ou para o FMI. Apenas o foi para as Nações Unidas. O relatório sobre o Desenvolvimento Social Mundial de 2005 considera que a crescente desigualdade económica entre as diferentes regiões do mundo e dentro dos próprios países é a causa decisiva da violência e do perigo de guerra (civil), e duvida que seja possível aproximar-se e, menos ainda, alcançar a meta para o milénio fixada pela Conferência Mundial de Copenhague de 1995: reduzir a pobreza mundial à metade.

Pouco antes do fim do ano, o Instituto Mundial para a Investigação do Desenvolvimento Económico – World Institute for Development Economics Research (WIDER) – da Universidade das Nações Unidas em Helsínquia, publicou um novo estudo, no qual pela primeira vez se investiga de modo detalhado a distribuição do rendimento, da riqueza e da sua evolução até ao ano 2000, englobando cerca de 94% da população mundial. Com este estudo, inicia-se a eliminação de uma grande lacuna na investigação, de que se queixara o governo federal alemão no seu relatório de 2006 sobre a pobreza. É do conhecimento geral que qualquer investigação que incida sobre a riqueza dos ricos e super-ricos de todo o mundo – assim como sobre as fortunas privadas ou sobre o capital, bases do poder mundial actual – será sempre um ferro em brasa do qual a ciência social oficial tem sistematicamente afastado os dedos.

Há muito que sabemos – através dos estudos nos diferentes países – que em geral a distribuição da riqueza é ainda mais desigual do que a dos rendimentos. Para ter uma imagem mais exacta da real desigualdade económica é necessário analisar ambos os parâmetros, isto é, riqueza e rendimento. Os investigadores do estudo do WIDER fizeram-no pela primeira vez. Graças ao seu trabalho pioneiro, contamos finalmente com dados medianamente fiáveis sobre a relação entre ricos e pobres, e sobre a riqueza no mundo de hoje. Investigou-se a distribuição global da riqueza na população adulta em função do rendimento familiar (liquido, após deduções). O estudo chega até ao ano 2000; dados mais recentes não estão disponíveis à escala planetária. O WIDER só pôde contar com estatísticas completas para um número relativamente pequeno de 18 países. Para um conjunto bem maior de outros teve de se contentar com dados obtidos de inquéritos, os quais, como é obvio, têm um tremendo inconveniente: as dívidas e o património financeiro (particularmente o imobiliário) em geral não são apanhados na sua totalidade, mas sim num nível muito inferior. Isso está reflectido nas estimativas dos autores, que se viram obrigados a extrapolar para os 150 países, os dados obtidos das estatísticas do conjunto de 38 países.

Na primeira divisão dos ricos

Do material recolhido conclui-se o seguinte: cerca de 90% da riqueza mundial (rendimento familiar líquido) está concentrado na América do Norte, na Europa e na região pacífico-asiática (Japão e Austrália). Só ao norte do continente americano, com 6% da população adulta mundial, corresponde um terço do rendimento mundial; à Índia, com mais de 15% da população adulta mundial, pelo contrário, corresponde apenas um escasso 1%. Porém, também entre os países ricos do norte o nível de riqueza varia de um modo significativo. Dos 1% dos rendimentos familiares privados mais elevados em termos mundiais, à Irlanda corresponde 10,4%; à Suíça, não menos que 34,8%; e aos EUA (devido à notória incompletude dos dados acerca dos muito ricos), "só" uns 33%. A isto há que acrescentar que aos grupos situados no topo dos 10% dos rendimentos mais elevados nos EUA corresponde quase 70% do rendimento familiar privado de todo o país; na China, os 10% do topo detêm exactamente 40% do rendimento familiar privado.

Quem quiser pertencer à primeira divisão dos ricos deste mundo, deverá ter uma fortuna superior a 500.000 dólares. Este grupo de topo compreende um total de cerca de 37 milhões de adultos. No entanto, desde o ano 2000, a soma mínima para aceder a este grupo aumentou, segundo se estima, uns 32%.

Daqui se conclui que uns bons 85% da riqueza mundial pertencem ao decil mais elevado. Para estar nesse grupo de 10% de eleitos, é necessário possuir, em média, quarenta vezes mais que o cidadão médio do mundo. Na metade de baixo dessa pirâmide, no entanto, a metade da população mundial adulta tem de se conformar com 1% da riqueza mundial.

Tomemos a famosa tarte, o prato predilecto de senhoras e cavalheiros conservadores que se querem convencer, e convencer-nos, de que qualquer redistribuição não tem sentido, na medida em que, como é óbvio, não se pode distribuir mais do que se produz. Transportemos a estrutura da distribuição mundial da riqueza para um grupo de dez pessoas que repartem a tarte tradicional. Temos então de imaginar um cavalheiro que reclama para si 99% da tarte, enquanto os restantes nove têm de dividir entre si o sobrante, ou seja, 1%. Se a tarte fosse redistribuída, o cavalheiro não morreria, e os outros nove ficariam muito melhor.

Onde estão os ricos e os muito ricos da Terra? A América do Norte, a Europa, o Japão e a Austrália já foram mencionados. Nos EUA, por exemplo, vivem 37% dos muito ricos; a seguir vem o Japão com 27%. Ao Brasil, Índia, Rússia, Turquia e Argentina, corresponde-lhes, a cada um, um escasso 1% do grupo de topo global; a China já tem uns 4,1% dos cidadãos mais ricos no mundo. De acordo com o estudo WIDER, no ano 2000 já havia 13,5 milhões de pessoas que detinham mais de um milhão de dólares (notoriamente mais do que indicam os estudos dos administradores de fortunas Merrill-lincham e Forbes), e exactamente 499 fortunas de mais de mil milhões de dólares. Agora serão bastante mais.


Michael R. Krätke in Estatísticas fiáveis sobre a distribuição da riqueza no mundo
publicado por resistir.info em 12 de Janeiro de 2007

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Quarta-feira, Abril 30, 2008

Ron Paul - O Capitalismo falhou?


Não sei o que o meu confrade descobriu neste artigo, que Marx não tivesse descrito - no plano dos factos, que não na orientação ideológica - já há quase 150 anos. Tratando-se de uma defesa aberta do Capitalismo, tem esse valor raro nos dias de hoje. O Autor dá notícia do confronto de que é palco o poder político, forçado a estabelecer equilíbrios precários face a relações de força dos diversos grupos de interesse em constante evolução. O resultado perece ser insatisfatório para todas as partes. Nota-se igualmente a nostalgia do Autor pelos tempos primordiais do Capitalismo, onde a divisa "Laissez faire, laisez passer" fazia sentido, a sua fase Liberal. O Liberalismo, como doutrina económica, foi esvaziado de sentido, não por acção dos revolucionários, antes pelo simples mecanismo de concentração financeira à escala mundial, quando ainda não havia terminado o Século XIX. No Século XX, os governos dos países capitalistas viram-se forçados a fazer bastantes concessões aos trabalhadores, muito pelo espectro do alastramento das revoluções socialistas, mesmo que estas tenham falhado noutros sentidos. Afastado temporariamente o papão do Comunismo, todos os avanços legais dos trabalhadores voltam a ser postos em causa. Daí resultou um revigoramento da expressão política do sistema capitalista, correctamente denominado por Neo-Liberalismo. Embora o Autor não use esta expressão, o seu texto contem as ideias essenciais desta corrente do pensamento. No ano de 2007, milhares de pequenos accionistas dos EUA viram-se desprovidos, de um dia para o outro, das suas modestas participações nos mercados financeiros. Simultâneamente, um punhado de grandes grupos financeiros viram os seus dividendos multiplicados numa medida que nem Cristo conseguiu com o seu milagre dos pães. O co-Autor da Teoria da Informação Assimétrica, Joseph Stiglitz, já havia chamado a atenção para o empacotamento pouco transparente dos produtos financeiros. É neste cenário que ocorre a discussão no Congresso dos EUA de que aqui damos notícia.
Sobre o Autor vale a pena referir que é uma das vozes mais críticas da Guerra do Iraque nos EUA, juntamente com Paul Craig Roberts, ambos do Partido Republicano.
(AF)




Ron PaulÉ hoje lugar comum e politicamente correcto culpar os chamados excessos do capitalismo pelos problemas económicos que enfrentamos, especialmente as fraudes da Bolsa (Wall Street), que dominam as notícias sobre os negócios. Os políticos ganharam alento para um dia de demagogia sobre a questão, ao mesmo tempo que se esqueceram, como era de esperar, de mencionar as fraudes e dôlos inscritas nas parlapatices orçamentais do governo federal - pelas quais são directamente responsáveis. Ao invés, forneceram à turba keynesiana que comanda os protestos uma oportunidade para atacar o mercado livre e ignorar a questão central do dinheiro.

De modo que voltamos a escutar a ladainha: "O Capitalismo falhou, precisamos de um controlo mais apertado sobre todo o mercado financeiro." Ninguém se interroga porque razão os milhares de milhões de dólares que já gastámos e as milhares de páginas de regulamentos que já foram escritas desde o último ataque maior ao capitalismo ocorrido em 1930 foram incapazes de evitar a fraude e o dôlo da Enron, da WorldCom ou da Global Crossing. Essa falha seguramente não poderá ser atribuída à escassez de regulamentos.

Notavelmente fora das referências fica o facto de todas as bolhas financeiras estarem prenhes de hiper-especulação, endividamentos, cupidez, fraudes, erros de avaliação de investimentos grosseiros, displicência dos analistas de mercado e dos investidores, dividendos gigantescos, crença no advento de uma nova era económica e, acima de tudo, expectativas desmesuradas.

Enquanto a bolha cresce, não se notam as queixas. O jogo da culpa só começa quando a bolha rebenta. Isto é especialmente certo no tempo da vitimização e feito em grande escala. Rapidamente se transforma numa questão filosófica, partidária, classista, geracional e mesmo racial. Ao se fugir ao reconhecimento das verdadeiras causas, as acusações apenas tornam mais difícil a resolução da crise e enfraquecem os princípios sobre os quais assentam a prosperidade e a liberdade.

Nixon teve razão ao afirmar: "Agora, somos todos keynesianos". Washington em peso declara que o excesso de capitalismo conduziu-nos ao ponto em que nos encontramos. Resta às centrais de planificação de Washington seleccionar o grupo de interesse que beneficiará da pretensa reforma que virá a seguir. Vários grupos de interesse se perfilam e pressionaram ferozmente, entre eles os investidores de Wall Street, as grandes corporações, o complexo militar-industrial, os bancos, os trabalhadores, os sindicatos, os lavradores, os políticos e todos os demais.

Porém, o que não se discute agora são as causas dos excessos, que se revelam neste momento a um ritmo avassalador. Reacção idêntica tiveram os políticos dos EUA em 1930, ao tentarem debelar os excessos que desembocaram na crise de 1929. Porque não compreenderam o problema na altura, a depressão prolongou-se. Estes erros permitiram que os problemas actuais se desenvolvessem com amplitude muito maior. Atendamos à falha no combate às causas da bolha dos anos de 1980, que levou a economia do Japão a arrastar-se desde então pelo nível do não-crescimento ou da recessão, com o seu mercado de acções a valer hoje um quarto do seu valor mais alto, atingido há 13 anos. Caso não sejamos cautelosos - e não fomos até agora - cometeremos os mesmos erros que acabarão por impedir a tomada das acções correctivas necessárias para reiniciar o novo ciclo de crescimento económico.

Em 1930 era muito popular encontrar entre os culpados da crise a cupidez do capitalismo, o padrão ouro, a falta de regulamentação e a falta de garantias estatais sobre os depósitos bancários. O homem de negócios foi o bode expiatório. Entre as mudanças então empreendidas está a institucionalização do Estado Providência/Desgraça. O crédito fácil tornou-se o bálsamo da política monetária, especialmente com Alan Greenspan, "o último Maestro". Hoje, apesar da presumível protecção destes programas de governo introduzidos no sistema, estamos numa trapalhada pior do que em qualquer outra altura. A bolha á maior, o estrondo prolonga-se por mais tempo e o preço do ouro foi deliberadamente escamoteado pelo sinal de alerta da situação económica que representava. A inflação da moeda prossegue a um ritmo nunca antes visto, num esforço desesperado para conter o valor das acções e o crescimento do mercado imobiliário, ao mesmo tempo que se procura adiar as consequências que advirão inevitavelmente do crédito fácil. Isto é assim porque não queremos ver que a política actual está apenas a preparar o terreno para a gigantesca queda do valor do dólar. Todos a temem, porém, ninguém quer enfrentá-la.

A ignorância, aliada à não aceitação das restrições que o capitalismo e a saúde do mercado impõem quanto a certos excessos conduziram os nossos dirigentes actuais a rejeitar o Capitalismo e culpá-lo por todos os problemas com que nos deparamos. Caso esta falácia não seja corrigida e o Capitalismo continue a ser minado, a prosperidade gerada pelo mercado livre será destruida.

A corrupção e as práticas contabilísticas fraudulentas de muitas empresas tornam-se visíveis. Há os que nos pretendem fazer crer que isto é uma parte integrante do mercado livre do Capitalismo. Se tivermos, de facto, Capitalismo, não temos garantias de que em algum lugar não ocorram fraudes. Quando acontecem, devem ser tratadas pelas autoridades responsáveis pelo cumprimento da lei, e não pelos políticos do Congresso, que tiveram a sua chance de prevenir estes problemas e que, depois disso, tentam ainda politizar a questão, aproveitando o momento para promulgarem mais umas quantas regulamentações keynesianas inúteis.

O Capitalismo não deve ser condenado, pois já não temos Capitalismo. Um sistema capitalista presume moeda sólida, não papel-moeda manipulado por um banco central. O Capitalismo valoriza os contratos voluntários e as taxas de juro resultantes das poupanças, não créditos inventados por um banco central. Não é capitalista o sistema que está refém de normas incompreensíveis quanto a fusões, aquisições, venda de acções, assim como controlos salariais, controlos de preços, proteccionismo, subsídios às empresas, tratados internacionais de comércio, impostos complicados e punitivos sobre as empresas, contratos governamentais privilegiados com o complexo militar-industrial e uma política externa subordinada aos interesses das corporações e aos investimentos externos. Acrestemos a isto a gestão federal centralizadora e ruinosa para a agricultura, a educação, a saúde, os seguros, a banca e o bem-estar. Isto não é Capitalismo!

Condenar hoje o Capitalismo porque algo não vai bem não faz sentido. Não há provas de que o Capitalismo exista hoje. Estamos profundamente envolvidos num processo intervencionista-centralizado da economia que canalizam para as partes ligadas aos dois maiores partidos os maiores benefícios. Pode-se condenar a fraude e o sistema actual, porém, este deve ser chamado pelo seu nome próprio - inflacionismo keynesiano, intervencionismo e corporativismo.

O que não vem à baila é que a sucessão de bancarrotas a que assistimos, reveladora das distorções gritantes e das mentiras sustentadas durante anos de orgia especulativa, era previsível.

Em primeiro lugar, o Congresso deveria investigar as fraudes contabilísticas e as dívidas contraídas pelo Governo federal, muito em particular as que se relacionam com obrigações de pagamentos futuros como os da Segurança Social, bem como a forma como o sistema monetário destrói a riqueza. Estes problemas são mais graves que quaisquer outros apresentados pelas empresas e são da responsabilidade directa do Congresso. Além disso, é o conjunto de medidas impostas pelo governo e pelo sistema monetário que ele opera que contribui em maior escala para tudo quanto corre mal hoje na Wall Street. Onde possa ser encontrada fraude, aí encontramos um assunto de Estado e não um assunto federal a as autoridades estaduais podem perfeitamente fazer respeitar a lei sem qualquer ajuda do Congresso.

Em segundo lugar, conhecemos a razão porque ocorrem as bolhas financeiras, e também sabemos pela História que estão associadas normalmente à especulação, ao endividamento excessivo, à cobiça, à mentira e à vigarice. Estes problemas já foram abordados por um número respeitável de observadores, tais como os que se pronunciaram sobre a década de 1990, porém, as suas advertências foram ignoradas por uma razão determinada. Cada um estava empenhado em espetar mais um prego no caixão e ninguém se preocupava com isso; os que se lembravam da História foram sossegados pelo Presidente da Reserva Federal, que asseverava que desta vez estávamos perante a chegada de uma nova era. O crescimento da produtividade, disse, poderiam comportar tudo.

Mas sabemos agora que isto não é assim. As bolhas especulativas e tudo quanto assistimos são consequência dos montantes enormes de crédito fácil, produzidas a partir de uma magra porção de ar da Reserva Federal. Ficámos praticamente sem poupanças, que constituem um dos vectores mais poderosos do Capitalismo. A ilusão criada pelas taxas de juro prolongaram a bolha e todas as mazelas que dela provêm. Tal não é uma falha do Capitalismo. Estamos a enfrentar um sistema inflacionista e intervencionista que sempre produziu bolhas económicas que acabam da pior maneira.

Até à data, as estimativas feitas pela Administração, pelo Congresso e pela Reserva Federal constituem um mau presságio quanto ao nosso futuro económico. Tudo quanto oferecem é mais do mesmo, o que pode não ser de grande ajuda. Tudo quanto fazem é conduzir-nos para a beira da bancarrota nacional, um dólar drasticamente mais fraco e um padrão de vida mais baixo para a maior parte dos americanos, acompanhado de menos liberdade para todos.

Este é um mau cenário que não tem razão de existir. Mas a preservação do nosso sistema é impossível se for permitido aos críticos culpar o Capitalismo e se as políticas monetárias consistentes forem rejeitadas. Mais gastos, maior dívida, mais créditos baratos, maior distorção das taxas de juro, mais regulamentações para tudo e mais intervenções bélicas externas cedo nos levarão à indesejável posição de termos que decidir o destino de todo o nosso sistema político.

Se estivermos entre aqueles que escolheram a liberdade e o capitalismo, deveremos procurar restaurar a equivalência do dólar a alguma mercadoria ou ao padrão ouro. As despesas federais devem ser reduzidas, as taxas de importação também e abolidos todos os impostos incidentes sobre as poupanças, os dividendos e os ganhos de capital. As regulações devem ser reduzidas, os subsídios especias eliminados assim como as medidas legais proteccionistas. A nossa política externa deveria mudar e as nossas tropas deveriam regressar a casa.

Não podemos depender do governo para restaurar a confiança nos mercados; só pessoas de confiança podem conseguir isso. Actualmente, a falta de confiança nos executivos da Wall Street é saudável porque eles merecem-na e as precauções são legítimas. Da mesma falta de confiança gozam os políticos, podendo os métodos orçamentais e o sistema monetário servir de incentivo saudável às reformas de governo de que carecemos.

Os mercados regulam-se melhor que os governos. Os regulamentos governamentais que nos protegem apenas contribuem para alimentar a mentalidade da bolha.

Estas medidas conduziriam ao restabelecimento de um clima favorável à libertação de energias criadoras que iriam ao encontro dos interesse dos consumidores, o que está na essencia do capitalismo. O sistema que apenas alimenta a emancebia entre as corporações e o governo conducentes ao actual desastre seria afastado.

O Capitalismo não nos oferece a crise de confiança que actualmente afecta o mundo dos negócios privados. A ausência de mercado livre e de uma moeda forte sim. O Congresso tem um papel a desempenhar, mas não é pro-activo. O papel do Congresso é ficar de fora.

O Dr Ron Paul é um membro republicano do Congresso dos EUA pelo Estado do Texas e candidato presidencial em 2008. Pode ser contactado por correio electrónico. Aceita comentários no seu blog. Este artigo é um excerto da primeira parte da obra Pillars of Prosperity.



Ron Paul in Has Capitalism Failed?
publicado por Ludwig von Mises Institute em 16 de Abril de 2008

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Segunda-feira, Janeiro 14, 2008

François Ruffin - Trabalho e Capital

"A parte dos lucros é hoje invulgarmente elevada (e a parte dos salários invulgarmente baixa). Na realidade, a amplitude desta evolução e o leque dos países a que diz respeito não tem precedentes nos últimos 45 anos."
... estas linhas ... estão num artigo do Banco de Pagamentos Internacionais (BPI), instituição que todos os meses , em Basileia, reune os responsáveis dos bancos centrais... Não se trata propriamente de um covil de marxistas, mas o seu requisitório contra a referida "margem de lucro de um valor sem precedentes" ocupa vinte e três páginas do referido texto (Luci Ellis e Kathrin Smith, "The Global Upward Trend in the Profit Share", Bank of International Settlement, Working Papers, nº 231, Basileia, Julho de 2007).
Com esta transcrição começa François Ruffin o seu excelente artigo, que vale em todos os seu parágrafos. Por ele ficamos a saber que, enquanto eminentes socialistas Vitor Constâncio, José Sócrates e Vital Moreira e Vieira da Silva continuam a praguejar contra os privilégios dos trabalhadores, os banqueiros já estão preocupados com possíveis revoluções caso não se ponha termo a esta grande bouffe do Capital.(AF)

in François Ruffin, SALÁRIOS: O TABU DA PARTILHA DA RIQUEZA
publicado por Le Monde Diplomatique em Janeiro de 2008

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Domingo, Dezembro 09, 2007

Pascal Lamy - Capitalismo tout court

Como alguém já reparou, o termo clássico "capitalismo", sob a ofensiva ideológica do sistema, foi sendo substituido pelo termo "neoliberalismo". Tal, porém, não aconteceu com o actual Director da Organização Mundial do Comércio (OMC). (AF)
O sistema tende a tornar os ricos cada vez mais ricos, desde que possuam capital; e os pobres cada vez mais pobres, desde que possam contar apenas com a sua força de trabalho.Pascal Lamy



Entrevista completa: Daniel Fortin & Mathieu Magnaudeix,
Nous ne pouvons pas nous satisfaire du capitalisme

publicado por Chalenges.fr a 6 de Dezembro de 2007

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