Querido pai
Já não te escrevo há muito tempo e não posso deixar que esta data passe em branco. Já lá vão 86 anos! Nasceste numa época muito difícil mas,"chegaste, viste e venceste"!
Agora já quase não se escrevem cartas, só se "tecla", pois a vida corre mais depressa do que quando cá estavas. Mas hoje fiz um esforço e embora não te vá pô-la no correio, escrevo-te à mesma.
Eu gostava de receber postais das viagens que fazias e as tuas cartas mostravam uma paciência infinita às minhas propostas de inovação de procedimentos, às minhas tentativas de afirmação perante ti, às minhas mudanças, à minha sofreguidão de vida. Escrevia-te sempre mesmo que para te contradizer, adorava fazê-lo!
Hoje, sonho com os tempos em que, ao teu colo, me mostravas as estrelas. As noites eram mornas, suaves, deitávamo-nos naquelas cadeiras compridas que nos permitiam olhar o céu e sentir a brisa húmida, com cheiro a terra vermelha.
As estrelas abundavam e eu só conseguia fixar as obrigatórias: Estrela Polar, as 3 Marias, a Cassiopeia, Orion, a Ursa maior, a menor (mais?).
Fascinava-me como uma estrela tinha ajudado os nossos navegadores a escolherem rumos como me contavas tão perigosos e desconhecidos. Sorvia as estórias ( agora escreve-se estórias, em vez de histórias, vê lá tu!) que nos contavas, umas verdadeiras, outras inventadas - eram mais as inventadas - que tinham sempre um final moralista.
Assustava-me a tua rectidão, o teu rumo de vida desenhado, não percebia o teu afastamento de pessoas sem interesse, oportunistas, fingidas, vaidosas. Não entendia o teu descomprometimento com a sociedade que nos rodeava, afinal, o teu isolamento.
Hoje entendo. Percebo a asfixia em que se vivia, o apertar do cerco quando se era diferente! E também penso agora que só aprendemos a ser bons filhos quando somos pais e pais quando experimentamos a alegria de ser avós.
Lembro-me particularmente de um poema que recitavas várias vezes e que acabei por decorar e entender a sátira que encerra. Querias que eu o soubesse e conseguiste. Há 50 anos que me vou "deliciando" com ele. Hei-de ensiná-lo aos meus netos também.
Tentei identificar o autor mas ainda não consegui. Alguém me terá dito que é de Francisco Quevedo y Villegas mas não o comprovei ainda. Se souber digo-te depois, O.K.?
Vou transcrevê-lo para to relembrar:
Com propósitos severos,
A bien de la religión,
Hallabanse en reunión
Distinguidos caballeros.
Uno era contribuyente,
Otro, dueño de una tienda,
Otro, ex ministro de Hacienda,
Y así sucesivamente.
-Hay que enfrentar la cosa
Con mucha severidad
Porque reina la impiedad
De una manera asombrosa!
Mientras la gente pía
Se entusiasma y arrebata,
Falta un tintero de plata
Que estaba en la escribanía.
Dice el cura a los colosos
Con aire muy altanero:
- Todos sois muy religiosos,
Pero aquí falta un tintero!
Y para que no se sepa
Aquel que ladrón fué
Yo la luz apagaré
E vuélvalo que lo tenga.
Sopló... y por la sacristía
Se extendió un negro capuz.
E cuando volvió la luz
Faltaba la escribanía!Não sei se está bem escrito mas o que interessa é o sorriso que se "arranca" a quem lê esta sátira! E tu conseguias passar-me essa mensagem!
Obrigada por esses bons momentos e mando-te muitos, muitos beijinhos.
P.S. Os meus netitos também te mandam muitos, muitos ...
Etiquetas: Saudade, Sentimentos