"; PlayWin.document.write(winContent); PlayWin.document.close(); // "Finalizes" new window // UniqueID = UniqueID + 1 // newWinOffset = newWinOffset + 20 // subsequent pop-ups will be this many pixels lower }

Quarta-feira, Outubro 08, 2008

Dirk Kurbjuweit - Capitalismo em crise, pacto quebrado com o povo

Primeiro, estranhei que ontem o Presidente dos EUA, George Bush, tivesse telefonado a Gordon Brown, Sarkozy e Berlusconi, não tendo feito o mesmo a Angela Merkel. Agora, percebo porquê. (AF)


De confiar no Capitalismo e fugir à interferência do governo, estamos falados. Mas banqueiros irresponsáveis viram uma oportunidade de enriquecer rapidamente e foram atrás dela. O seu fiasco, tornou-se nosso - e a promessa de um bem comum evaporou-se tal como a fé no capitalismo democrático.

A Alemanha subiu aos céus. Às 9H00 da mnahã de terça-feira 2 de Outubro, o Airbus A310 da Luftwaffe - o equivalente alemão do Air Force One - havia descolado da pista do Aeroporto Tegel de Berlim, meia-hora antes. O avião ruma para Leste, com destino a São Petersburgo, Rússia. Elementos da tripulação servem o pequeno-almoço farto como é costume, incluindo omeletes, carnes, fatiados, quejo e mel. A bordo, estão muitas pessoas que determinaram a posição que a Alemanha ocupa no Mundo: a Chanceler Alemã Angela Merkel e seis ministros, os presidentes de algumas das maiores empresas, como a Siemens, o Deutsche Gahn e a E.on, além de jornalistas. Não há banqueiros no avião, mas eles ocupam o lugar principal nas preocupações de todos os presentes e também nas suas conversas.

Após o pequeno-almoço, a Chanceler Ângela Merkel convidou os jornalistas a dirigirem-se a uma sala à frente para uma conversa off-the-record com a imprensa. Todos se aninharam na pequena sala, 25 pessoas no total, em pé, ou vários sentados na mesma cadeira, alguns mesmo sentados no chão. "O microfone avariou-se outra vez", disse a chanceler para começar.

Falou sobre a Rússia e depois referiu-se à crise financeira. De vez em quando, ouve-se o som do autoclismo: a casa de banho do avião fica adjacente à sala de conferências. A discussão é sincera. Os jornalistas põem questões com ar sério e a chanceler responde com gentileza. Cada palavra transmite preocupação.


in Dirk Kurbjuweit, CAPITALISM IN CRISIS The Broken Pact with the People, Der Spegel, 8 de Outubro de 2008

Etiquetas: , , ,

Jochen Scholz - Projecto Europeu para o Novo Século (10)

(Início)

Perspectivas

A Europa não pode, pelo seu peso global, furtar-se a desempenhar um papel mundial. É escutada fora do «Ocidente» e nos níveis mais altos da ONU. Não, concerteza, por reproduzir ou se deixar envolver na actual ordem hegemónica. Uma ordem mundial conforme ao espírito europeu deveria antes apontar para que «a Europa e os USA se entendam, ainda que as suas posições não sejam no futuro tão dominantes como hoje.» Se substituirmos nesta afirmação «os USA e a Europa» por «A Inglaterra e a França», revelar-se-á a chave do sucesso desta proposta dentro da União Europeia. Helmut Khol, assim como os seus antecessores, estão conscientes disso, mas os sucessores, não havendo passado pela experiência da guerra, reclamam para a Alemanha uma normalidade que a sua História no Século XX não permite. Enviarão para os órgãos do governo, onde se encontram os escalões intermédios de gestão, um sinal errado. Os escalões intermédios estão já nas mãos de uma geração que nem havia atingido a idade da reflexão no tempo da Guerra Fria.
Só um empenhamento activo em prol de uma mudança nas condições da política internacional terá hipóteses de criar novas oportunidades. Cada euro que a Europa gaste para reparar os Estados despedaçados pelos golpes cirúrgicos dos EUA é retirado aos investimentos nacionais. O recurso às empresas sub-contratadas que lucram com isso, como no Iraque neste momento, não compensam as perdas para a economias domésticas. Cada yuan dispendido em dólares é retitado ao desenvolvimento interno da China. As tentativas europeias de inflectir a política não passaram, até à data, do estado embrionário, apesar dos sinais de apoio muito claros, vindos, por exemplo, da China. Os «encontros euro-asiáticos anuais e as visitas das chancelarias alemãs a Pequim nada alteraram. Logo, considerando as previsões de especialistas reputados do petróleo e a extrema fragilidade do sistema financeiro mundial, o tempo urge. Os recentes acontecimentos no Cáucaso anunciam, além disso, uma mudança de paradigma: a Rússia regressa à cena internacional. Os EUA encaixaram aqui o seu primeiro «contra-golpe», que Chalmer Johnson anteviu há oito anos:
«Os USA facilmente se arvoram em vitoriosos da Guerra Fria. Com toda a verossimilhança, quem espreitar retrospectivamente para este século, não o irá lá descobrir como vencedor, principalmente se os EUA se obstinarem na sua actual política imperial.»

A reacção de um jogador de boxe é conhecida. A História oferece-nos muitos exemplos de Estados que jogaram tudo na mesma carta, logo que se convenceram que estavam encostados à parede. O ex-diplomata Kishore Mahbubani anunciou, no seu livro aparecido em 2008 «O Novo Hemisfério Asiático. O Deslize Irresistível do Poder Global para Leste» o «crepúsculo dos deuses» do ocidente. Da imagem dada pelos media ocidentais durante a breve guerra na Geórgia, escreveu, a 20 de Agosto de 2008:
É, portanto, crucial para o Ocidente que tire lições dos acontecimentos na Geórgia. Deve ter em conta que o seu pensamento estratégico restringe as opções à sua disposição. Após o afundamento da União Soviética, os analistas ocidentais acreditaram que, para o Ocidente, seriam dispensáveis novos compromissos geopolíticos. Pederiam impôr os seus ditames. Agora, devem reconhecer a realidade. A população conjunta da América do Norte, União Europeia e Australásia é de 700 milhões, cerca de 10% da população mundial. Os restantes 90% lutam por deixarem de ser objecto da História, para se tornarem sujeitos da História. O ‹Financial Times› de 18 de Agosto de 2008 proclamava ‹Frente ocidental unida na Geórgia›. Melhor fora que escrevesse ‹resto do mundo ri-se do Ocidente por causa da Geórgia›
Estas análises, contudo, ainda não foram suficientes para convencer o conselheiro-chefe do candidato democrata à presidência dos EUA, Zbigniew Brzezinski, como mostram os comentários que fez à crise no Cáucaso. Eis como exprime o seu furor sagrado:
«Actualmente a Europa - apesar do seu crescimento económico e integração financeira, assim como da duração das suas relações transatânticas - é um protectorado militar de facto dos Estados Unidos da América. Esta situação gera necessariamente tensões e ressentimentos, especialmente desde que a ameaça directa que pendia sobre a Europa e que justificava essa dependência dos EUA se desvaneceu. É um facto que a aliança entre os EUA e a Europa é desiquilibrada, mas mais do que isso, é verdade que o desiquilíbrio existente entre os dois irá ampliar-se a favor dos EUA.»
Junte-se a lastimável estratégia de divisão empreendida pela entrada da Polónia e da República Checa no «Sistema Nacional de Defesa» [a instalação do escudo antimissil]. Tudo isto exige da Europa uma resposta adequada. Até para bem dos próprios EUA.

(Traduzido por Michèle Mialane, revisto por Fausto Giudice/Tlaxcala)

Tradução a partir da versão francesa:
Jochen Scholz, PNEC – Project for the New European Century, Horizons et débats, 15 de Seyembro de 2008

Etiquetas: , , ,

Segunda-feira, Outubro 06, 2008

Jochen Scholz - Projecto Europeu para o Novo Século (9)

(Início)

O papel da China

Os EUA estão compelidos a manter a actual ordem mundial. Só os EUA conseguem reunir recursos económicos necessários para a manutenção do aparelho militar gigantesco, tão indispensável para o estatuto de superpotência, como para segurar a circulação do dólar. De momento, a China é um comprador bem-vindo, porque insubstituível, dos títulos do Tesouro dos EUA. Mas a China não se irá cingir a este papel indefinidamente. A presença militar dos EUA, cercando a China, torna a questão da energia um verdadeiro paiol. Muitos dos que investem em dólares começam também a interrogar-se: Por quanto tempo deverão os credores tolerar que o devedor os force a aceitar, para pagamento dos excedentes comerciais e financeiros, uma moeda desvalorizada acompanhada de uma ameaça contra si dirigida?
Se a Europa não ousar mudar o rumo da sua política mundial, ver-se-á um dia na circunstância de ter de acertar o passo com a potência imperial em novas guerras globais sob a bandeira da «luta contra o terrorismo». No entanto, como já ficou patenteado desde Israel à Irlanda do Norte, do Afganistão à Indonésia, passando pelas Filipinas, não é possível combater o terrorismo por meios militares. Está na natureza da «guerra desigual». Todas as capturas de chefes terroristas foram fruto de um trabalho paciente e meticuloso de polícias e serviços de espionagem, levados a cabo por cooperação internacional. Os que encarregam disso os militares, comprarão uma nova «Guerra dos Cem Anos» - como evocou o ex-director da CIA, James Woosley - para tentar vergar à disciplina dos valores ocidentais a nova comunidade dos seus vassalos.

Um barril de pólvora para o dólar

Em vez de continuar a subvencionar o motor desgastado da economia mundial com os seus próprios excedentes, a economia europeia deveria utilizar a sua produtividade elevada para se tornar, ela própria, um motor. A ameaça dos EUA, de estrangular as exportações por via do poder sobre o dólar, revelar-se-á vã, caso os bancos centrais asiáticos comecem a aceitar euros. Porque sem os investimentos externos - da Europa e da Ásia - é impossível financiar o défice dos EUA. A China já iniciou a diversificação das suas reservas em divisas, provocando o recuo do dólar sem fim à vista. O grupo ASEAN+3 procura fixar em moeda regional as obrigações do estado. Eis um barril de pólvora para o dólar. Mas esta evolução requer um gestão conceptual e institucional. Deixada a si própria, arrisca-se-ia a espalhar efectivamente o caos de que Greenspan e consortes agitam com virtuosismo o espantalho para manterem em ordem as suas fileiras.

Uma ordem económica mundial mais justa e equitativa é possível

A Europa, em cooperação com a Ásia e a Rússia, é suficientemente forte para assumir a responsabilidade. Mas deve ser suficientemente sagaz para não repetir os erros do imperialismo do dólar das últimas décadas. Os EUA não poderão excluir-se à dinâmica de um tal processo. Afinal de contas, ele irá beneficiar a sua própria economia.
Os atlantistas de ambos os lados irão logo brandir a ameaça do isolacionismo dos EUA. Também isto é um bluff, pois os EUA não poderão furtar-se por razões geo-estratégicas. O isolacionismo significaria a morte dos EUA como grande potência mundial, pois o lado europeu, fortemente interligado e em princípio dialogante de boa fé, é-lhe indispensável. As elites dos EUA têm disso perfeita consciência. Portanto, também aqui não há razões para cobardia da Europa. Razões há sim, para que alguém seja arrastado para um canto do ring com uma infeliz jogada de póker.


(continua)


Tradução a partir da versão francesa:
Jochen Scholz, PNEC – Project for the New European Century, Horizons et débats, 15 de Seyembro de 2008

Etiquetas: , , , , , ,

Sexta-feira, Setembro 19, 2008

M K Bhadrakumar - O desaire de Cheney em Baku

M K BhadrakumarCitando o Kommersant, «Moscovo e Ankara estão a consolidar as suas posições no Cáucaso, debilitando assim a influência de Washington na região». Os sinais já aí estão. Na passada 4ª feira [4 de Setembro] Cheney visitou Baku numa missão cujo objectivo evidente era isolar a Rússia na zona e teve aí desagradáveis surpresas.

Os azeris mudaram a sua tradicional hospitalidade para com os dirigentes estadunidenses que os vistam e receberam Cheney no aeroporto com uma delegação de nível baixo. Além disso fizeram-no esperar quase todo o dia até que, finalmente, Aliyev o recebeu. Isto apesar de Cheney pensar que havia uma química especial entre ele e o dirigente azeri, desde os tempos da Halliburton (Aliyev dirigiu a petrolífera estatal SOCRAM).

Cheney acabou por ocupar o dia em visita à embaixada dos EUA em Baku em conversações com os executivos norte-americanos que trabalham no petróleo, no Azerbeijão. Quando finalmente, Aliyev o recebeu, ao fim da tarde, Cheney descobriu, perturbado, que o Azerbeijão na estava na disposição de conspirar contra a Rússia.

Cheney transmitiu a promessa solene da administração de George W Bush de apoiar os aliados dos Estados Unidos na zona contra o «revanchismo» russo. Expôs a determinação de Washington na actual situação de castigar a Rússia a qualquer preço acelerando o projecto do gasoduto Nabucco. Ma Aliyev deixou claro que não queria ser arrastado numa disputa com Moscovo. Cheney estava profundamente desgostoso e mostrou-o, declinando o convite para o banquete e sua honra. Pouco depois da sua conversa com Cheney, Aliyev falou ao telefone com Medvedev.

A posição do dirigente azeri demonstra que, contrariamente à propaganda mediática estadunidense, a posição firme russa no Cáucaso aumentou o seu prestígio e melhorou a sua posição no espaço pós soviético. Na sua reunião em Moscovo em 5 de Setembro, o CSTO apoiou energicamente a posição russa no conflito com a Geórgia. A 1 e 2 de Setembro, o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, fez uma muito significativa visita a Tashkent com o objectivo de melhorar o entendimento russo-uzbeque sobre segurança regional. A Rússia e o Uzbequistão acordaram numa maior cooperação no campo energético, incluindo a expansão do sistema de gasodutos da era soviética.

O Kazaquistão, que apoiou abertamente a Rússia na crise do Cáucaso, está a melhorar as suas companhias petrolíferas adquirindo activos na Europa juntamente com a empresa russa Gazprom. Tudo indica que o Tajiquistão acordou uma expansão da presença militar russa, incluindo a presença de dos seus bombardeiros estratégicos. Mais, a aprovação por parte do CSTO do recente pacote de propostas russas sobre sobre o desenvolvimento de um Tratado europeu (pós NATO) sobre segurança é, no momento presente, um valioso êxito diplomático de Moscovo.

Mas em termos tangíveis o que mais satisfez Moscovo foi a reacção do Azerbeijão às tensões do Cáucaso e ao encerramento temporário do oleoduto Baku-Tbilisi-Ceheyan, enviando as suas exportações para a Europa via oleoduto Baku-Novorossiysk da época soviética. A Cheney não lhe deve ter passado ao lado a ironia de, da noite para o dia, Baku ter passado do oleoduto patrocinado pelos Estados Unidos que evita a Rússia para um oleoduto da época soviética que atravessa o centro da Rússia.

Mais preocupante para Washington é a proposta russa posta em cima da mesa de Aliyev em que Moscovo se propõe comprar todo o gás do Azerbeijão a preços de mercado mundial, uma oferta que as companhias petrolíferas ocidentais não podem igualar. É uma oferta que Baku considerará seriamente dado o pano de fundo do novo panorama regional.

O fracasso total da missão Cheney em Baku poderá, naturalmente, fazer crer a desagradável surpresa de Washington de comprovar que Moscovo desactivou, de facto, a «diplomacia de canhoneira» de Bush no Mar Negro. Como afirmava gravemente o New Tork Times «depois de um aprofundado debate interno, a administração Bush decidiu não fazer qualquer acção punitiva directa [contra Russia] (…), concluindo que tem poucas força se actuar unilateralmente e que seria melhor pressionar para se alcançar um consenso crítico internacional dirigido a partir da Europa».

O secretário da Defesa norte-americano, Robert Gates, explicou ao New York times que Washington prefere uma abordagem estratégica a longo prazo e «não uma em que actuemos de forma reactiva o que pode ter consequências negativas. Acrescentou cautelosamente: «Se reagimos de forma demasiado precipitada, pode ser que sejamos nós quem fica isolado». O próprio Cheney atenuou a sua retórica inicial de castigar severamente a Rússia. Acredita agora que deve deixar uma porta aberta para melhorar as relações com a Rússia, e que relançar as futuras relações com os estados Unidos é uma solução que deve ser feita pelos dirigentes de Moscovo.

A Turquia parece que já fez a sua escolha. Pela rapidez com que Erdogan invocou a ideia de um Pacto de Estabilidade no Cáucaso, parece que já estava preparada há algum tempo. Não é tão fácil como parece utilizar sempre os factores geográficos e históricos para obter uma vantagem geopolítica. Além disso, como sugere o seu enganador nome, o Mar Negro é agora um irisado mar azul, cheio de delfins brincalhões, mas os piratas e os marinheiros ficaram cativos pela sua aparência negra, quando o cé se abateu sobre eles carregado de nuvens anunciadoras de tempestade.


in M K Bhadrakumar, O Tango dançado entre a Rússia e a Turquia no Mar Negro, O Diário.info, 18 de Setembro de 2008

Tradução de José Paulo Gascão

Etiquetas: , ,

Sexta-feira, Setembro 05, 2008

Correia da Fonseca - Estórias para boi dormir

A suposta «agressão russa» à pequenina Geórgia serviu aos Estados Unidos para, graças à gigantesca máquina de manipulação social de que dispõem, apresentarem aos cidadãos do Ocidente uma Rússia agressiva e brutal, à imagem e semelhança da caricatura grosseira que da URSS foi em tempos impingida ao mundo aliás com grande êxito. A televisão portuguesa cumpriu nesta manobra um importante papel, e nem outra coisa era de esperar em face do seu currículo.

Porém, acontece que, sendo desde há muito um intenso e ávido consumidor de informação televisiva, acabei por me atrever a ter opinião ou pelo menos palpites. Assim, no quadro de quanto aconteceu recentemente no Leste europeu e em torno da Rússia, o que me parece mais relevante, mais significativo e também mais perigoso, não é o conflito georgiano, pese embora a realidade terrível que mesmo uma guerra de dimensões limitadas constitui para as populações, mas sim a instalação de mísseis USA na Polónia, isto é, praticamente na fronteira da Rússia. Os serviços noticiosos da televisão portuguesa deram ao facto escassa ou nenhuma importância, o que bem se compreende. Mas, com razão ou sem ela, lembrei-me, como de uma ameaçadora simetria, da dramática crise há décadas desencadeada pela instalação de plataformas de mísseis soviéticos em Cuba, isto é, praticamente na fronteira dos Estados Unidos. Diz-se que se esteve então à beira da Terceira Guerra Mundial, e talvez seja verdade. Gostava de que me explicassem devagarinho a diferença substancial e decisiva entre a instalação de mísseis soviéticos em Cuba nesse ano já distante e a instalação de mísseis norte-americanos na Polónia neste ano da graça de 2008. Agradecendo antecipadamente que não me contem estórias de «mísseis defensivos» porque de estórias para boi dormir, como se diz no Brasil, já tenho o saco cheio.


Correia da Fonseca, A simetria, ODiario.info, 2 de Setembro de 2008

Etiquetas: , , , , ,

Sexta-feira, Agosto 22, 2008

Gerhard Schröder - O fim da América unipolar

Erros graves do Ocidente



O antigo chanceler alemão Gerhard Schröder discute a guerra do Cáucaso, a possibilidade de a Alemanha se tornar um intermediário do conflito e a sua confiança no papel construtivo da Rússia.

SPIEGEL: Senhor Schröder, de quem é a erro na guerra do Cáucaso?

Gerhard Schröder: As hostilidades têm certamente as suas causas históricas e este conflito também tem os seus precedentes históricos. Porém, quem tornou o conflito num conflito armado foi a Geórgia ao invadir a Ossétia do Sul, é bom não escamotear.

SPIEGEL: Não reconhece parte da culpa do lado de Moscovo, uma resposta desproporcionada dos militares russos?

Gerhard Schröder: Isso é algo que não posso, nem quero, julgar. Os conflitos militares desenvolvem a sua própria dinâmica. O ponto essencial agora é todas as partes tirarem partido do plano de seis pontos apresentado pelo presidente francês.

SPIEGEL: Acredita que os conselheiros militares americanos estacionados em Tbilisi encorajaram a Geórgia a lançar-se ao ataque?

Gerhard Schröder: Não iria tão longe. Mas sabemos todos que estes conselheiros militares existem na Geórgia - um destacamento que nunca considerei especialmente inteligente. Seria bastante estranho se esses peritos não possuissem qualquer informação. Só se compreenderia se fossem profissionais extremamente medíocres ou completamente loucos, o que, em qualquer caso, é difícil imaginar.

SPIEGEL: O Governo dos Estados Unidos da América (EUA) reclama que advertiu o Presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, contra a iniciativa do ataque. No entanto, não terão sido os acontecimentos demasiado convenientes para os propósitos do Primeiro Ministro Vladimir Putin?

Gerhard Schröder: Isso são especulações nas quais não desejaria participar. Assumo que ninguém, entre os líderes de Moscovo, tem interesse na confrontação militar. Há suficientes problemas internos na Rússia, que são urgentes resolver. Por exemplo, a corrupção e o abuso de autoridade têm que ser enfrentados. A Rússia está cheia de dificiências, uma questão que já levantei por diversas vezes. O Presidente Dimitri Medvedev e o Primeiro Ministro Putin estão neste momento ocupados com estes problemas - conjuntamente, diga-se a propósito, e não em competição entre eles, como por vezes é referido pelo jornalismo sensacionalista.

SPIEGEL: Talvez assim seja, mas há algo que está agora em jogo: a Rússia nunca suplantou a perda do seu estatuto de superpotência e, em anos recentes, sentiu-se acossada e humilhada pela NATO. Durante a guerra nos Balcãs, durante a invasão ao Iraque pela "Coligação dos Desejosos" sob a liderança de Washington, ainda durante a declaração da independência do Kosovo...

Gerhard Schröder: ... não esqueça o desenvolvimento do sistema de mísseis defensivos na Polónia e na República Checa...

SPIEGEL: ... o Kremlin foi forçado a permanecer como espectador. É ou não possível que, após um reforço económico e militar, Moscovo veja no amigo dos EUA Saakasvili a melhor oportunidade para retaliar sobre o Ocidente? E que Putin tente afirmar as suas aspirações imperiais?

Gerhard Schröder: Na minha opinião, há certamente graves erros cometidos pelo Ocidente na sua política de relacionamento com a Rússia. Podemos encontrar alguma ligação entre esses factos e a recente resposta da Rússia à provocação da Geórgia? Penso que é errado confundir as duas coisas.

SPIEGEL: Não partilha o receio sentido por muitos no Ocidente de um novo surto de "ameaça russa"?

Gerhard Schröder: Não, de todo. Há uma percepção sobre a Rússia no Ocidente que tem pouco a ver com a realidade.

SPIEGEL: Pode dar-se o caso de o duo de liderança altamente confiante de Moscovo sentir que o Ocidente precisa da Rússia mais do que a Rússia precisa do Ocidente?

Gerhard Schröder: A dependência é recíproca. Não existe uma só, entre as questões críticas da política mundial ou da economia global que possa ser resolvida sem a Rússia: tal é o caso do conflito nuclear com o Irão, tal é o caso da questão Norte-Coreana e certamente também o advento da paz no Médio-Oriente. Tal como o conjunto de problemas do clima apenas pode ser resolvido à escala universal. Por acaso, Moscovo ratificou o Protocolo de Kioto para lutar contra o aquecimento global, enquanto nós continuamos à espera que Washington o faça. E quanto à política energética, só sonhadores podem convencer-se de que a Europa Ocidental pode tornar-se independente do petróleo e do gás natural da Rússia. Por outro lado, a Rússia precisa de cliente fieis para as suas exportações de energia.

SPIEGEL: Não vê, então, razões - face à dureza das acções no Cáucaso - para cancelar a "parceria estratégica" germano-russa ou pelo menos suspendê-la?

Gerhard Schröder: Não. Não vejo porque deveríamos desperdiçar essa parceria devido à Geórgia. A dependência mútua também cria segurança mútua. Também me oponho ao criticismo dirigido aos investimentos na Alemanha. Qual o problema do Sr Alexei Mordashov investir numa empresa de turismo (TUI), do Sr Oleg Deripaska possuir 10% da empresa de construção Hoshtief ou de outro oligarca possuir uma participação do capital de uma empresa de modas Escada? Eu preferiria ver mais - não menos - investimentos na economia alemã. Falando historicamente, esta integração económica já demonstrou ser politicamente benéfica.

SPIEGEL: Agora parece estar a repetir o antigo Secretário de Estado americano Henry Kissinger. Sempre pensou dessa forma?

Gerhard Schröder: Claro que não, enquanto pertenci às Juventudes Socialistas. Só que, desde essa data e até agora, envolvi-me profissionalmente na política externa e fui Chanceler. Esta abordagem prática ganhou a minha preferência - e é certemente a mais razoável para mim.

SPIEGEL: Com todo respeito pelo frio adepto da real-politic: Será que não temos que desenhar uma linha a vermelho agora, uma linha que Moscovo não pode atravessar, caso queira continuar a participar nas instituições internacionais ou manter-se como parceiro do Ocidente? A retirada imediata das suas tropas da Geórgia, por exemplo, e o reconhecimento da sua integridade territorial, tal como exigiu veementemente a Secretária de Estado Rice?

Gerhard Schröder: Não acredito que a Rússia prossiga uma política de anexação. Tal como não acredito que possamos regressar à situação anterior na Ossétia do Sul ou na Abecázia. Está fora de questão. Do meu ponto de vista, isto tem menos a ver com o suposto expansionismo russo do que com os desejos da população.

SPIEGEL: Deveria a Alemanha participar numa força militar de manutenção da paz no Cáucaso?

Gerhard Schröder: O Ministro alemão dos Negócios Estrangeiros está, desde há muito tempo, envolvido nos esforços para uma solução política sob o manto da diplomacia e foi astuto ao afirmar que, se a Organização para a Segurança e Cooperação Europeia (OSCE) tiver que jogar um papel de coordenação entre as partes em conflito, a Alemanha não poderia deixar de se envolver. Se, contudo, se tratar de uma missão sem consentimento da Rússia, eu não quero ver soldados alemães estacionados por lá. Isto é apenas uma questão que se depreende da nossa história partilhada.

SPIEGEL: Tem a Geórgia um lugar na NATO?

Gerhard Schröder: Pensava que o governo alemão - e curvo-me a cumprimentar a Sra Merkel e o Sr Steinmeier a este respeito - juntamente com o governo francês, tinham tomado a decisão certa durante a Cimeira da NATO em Bucareste, em Abril...

SPIEGEL: ... porque se oposeram à intenção americana e da Europa de Leste de aceitar rapidamente a Geórgia e Ucrânia, disfarçando a recusa num amontoado de promessas vagas?

Gerhard Schröder: Imagine que estivéssemos obrigados a intervir pela força militar à conta da Geórgia, por ser membro da NATO, e à conta de um batoteiro evidente, que é a maneira correcta de nos referirmos a Saakashvili. A Geórgia e a Ucrânia devem primeiro resolver os seus problemas políticos domésticos e estão ainda muito longe de consegui-lo. Considero as hipóteses de a Geórgia ascender a membro ainda mais remotas, como consequência dos recentes acontecimentos no Cáucaso e, como tal, sigo com bastante dificuldade as promessas estridentes feitas nesse sentido pelo Secretário Geral da NATO, há poucos dias.

SPIEGEL: O candidato presidencial republicano dos EUA, John McCain, acompanhou-o, ao declarar: "Hoje, somos todos georgianos".

Gerhard Schröder: Eu não sou.

SPIEGEL: Robert Kagan, um ídolo dos neoconservadores e ainda um pensador influente da política externa entre os republicanos, definiu o dia da invasão da Geórgia pela Rússia como o início de um conflito territorial renovado entre as maiores potências e "como um ponto de viragem não menos significativo que o 9 de Novembro de 1989, quando caiu o muro de Berlim".

Gerhard Schröder: Li isso, mas nada significam para mim. Kagan, bem vistas as coisas, foi um dos homens que mais defendeu a intervenção no Iraque. As consequências não foram agradáveis, nem para a América, nem para a Europa. Talvez devamos apenas ignorar o seu conselho.

SPIEGEL: Num artigo no "Die Zeit", há poucas semanas, escreveu que a "fase de transição do domínio americano" está agora a chegar ao fim. O que quiz dizer exactamante com isso? Será que conduz automaticamente a um mundo multipolar e melhor?

Gerhard Schröder: O fim da América unipolar não é evidente apenas pela emergência de um candidato presidencial democrata, Obama, mas também pelas políticas de pensamento racional dos republicanos. Se ler o relatório não-partidário Baker-Hamilton sobre o futuro do Iraque, ser-lhe-á fácil reconhecer aí que o próximo presidente dos EUA terá muitas dificuldades em agir de outra maneira que num modo multipolar - quaisquer que sejam as declarações que um ou outro político faça nas campanhas.

SPIEGEL: Qualquer que seja o próximo homem responsável pela Casa Branca, Obama ou McCain?

Gerhard Schröder: Claro que isso fará diferença. Creio, no entanto, que até uma administração republicana, que não desejo, não conseguirá evitar ter que retomar uma abordagem multipolar, ganhar aliados e trabalhar em conjunto nas instituições internacionais. Aparentemente, os que estão em Washington já perceberam que é possível ganhar uma guerra sozinho, mas não a paz.

SPIEGEL: Que papel desempenhará a Europa nesse mundo multipolar? Não haverá uma clivagem profunda entre países como a Alemenha, a França e a Itália, que não desejam, especialmente agora, permitir que a cooperação com a Rússia chegue ao fim e os países Bálticos, a Polónia e a República Checa, caracterizados pelo medo da Rússia?

Gerhard Schröder: O processo da unificação europeia nas questões de política externa e de segurança não se tornou mais fácil desde que saí da Chancelaria em 2005. Isto tem também a ver com a integração dos novos estados. Este processo de unificação deve ser entendido como uma oportunidade histórica, ainda que haja um preço a pagar.

SPIEGEL: Está a arrastar-se.

Gerhard Schröder: Esse é exactamente o preço. A Europa só poderá jogar um papel a sério no contexto entre a América por um lado e a Ásia por outro, se conseguir estabelecer e manter fortes relações com a Rússia. Vejo a Rússia como parte da Europa, mais do que parte de qualquer outra constelação.

SPIEGEL: E será que a Rússia se revê da mesma maneira?

Gerhard Schröder: Pelo menos esta é a maneira como a actual liderança a vê. E nós, na Alemanha e na Europa, devemos interpretar isso como uma oportunidade. A Rússia tem a alternativa asiática, mas a Europa não. Além disso, esta constelação não passa necessariamente por um afastamento da Europa relativamente aos EUA.

SPIEGEL: Isso parece muito optimista. Não vislumbra um reinício da Guerra Fria no horizonte?

Gerhard Schröder: Não. Pelo menos não seria do interesse da liderança russa. Sou totalmente contra a demonização da Rússia. E acredito que Moscovo reconhecerá cedo a mecessidade de, uma vez mais, integrar-se mais fortemente na comunidade internacional.

SPIEGEL: E Washington tratará de não castigar os líderes do Kremlin e de não expulsar a Rússia das organizações como o G-8?

Gerhard Schröder: Essa visão estreita, que McCain por exemplo sustenta, não prevalecerá - é o que desejo e espero.

SPIEGEL: Fala como antigo Chanceler ou como funcionário da empresa estatal Gazpron?

Gerhard Schröder: O SPIEGEL não deveria participar na difusão de falsas informações. Não sou um empregado qualquer, antes o Presidente da Comissão de Accionistas da Nord Stream, um consórcio holandês, alemão e russo, cujo único objectivo é construir um gasoduto através do Mar Báltico que tornará o fornecimento de gás à Alemanha e a Europa significativamente mais seguro.

SPIEGEL: Sr Schröder, agradecemos esta entrevista.

Entrevista de Gerhard Schröder ao Der Spiegel
publicada em 18 de Agosto de 2008

Etiquetas: , , , ,

Domingo, Junho 08, 2008

Maksim Mrvica - O vôo do moscardo

Etiquetas: , ,

Sábado, Abril 05, 2008

Lobacheva e Averbukh - dança flamenga - Moscovo

Etiquetas: , , , , ,

Domingo, Novembro 11, 2007

Kalinka

Oi, Tónio, prefiro o kalinka...

Etiquetas: ,

Sábado, Novembro 10, 2007

Coro do Exército Vermelho - Poljuschka polje

Post dedicado.

Por ocasião dos 90 anos da Grande Revolução de Outubro.(AF)








A propósito, a entrada na Wikipedia com a letra em russo.
...

A crença na propriedade privada



Repare-se, por exemplo, na crença da propriedade privada - crença nascida originariamente com a família patriarcal e que consiste no direito que cada homem supõe ter relativamente ao produto do seu próprio trabalho, ou o direito que ele foi capaz de obter naquilo que conquistou pela espada. Apesar da antiguidade e diminuição de poder destas origens remotas da crença na propriedade privada e apesar do facto de nenhumas novas origens serem apontadas, a grande maioria da humanidade tem uma profunda e indiscutível crença nestas inviolabilidades, devidas am grande parte ao tabu que resulta das palavras não roubarás. É certo que a propriedade privada é uma herança da era pré-industrial, quando um indivíduo ou uma família podiam fazer qualquer produto por suas próprias mãos. Num sistema industrial um homem nunca faz o todo de qualquer coisa, mas antes a milésima parte de um milhão de coisas. Nestas circunstâncias, é totalmente absurdo dizer que um homem possui um direito relativamente ao produto do seu próprio trabalho. Considerai um carregador numa estação, cuja ocupação é carregar e descarregar comboios de mercadorias: que proporção de mercadorias carregadas pode representar o produto do seu trabalho? A questão é totalmente impossível de resolver.

Deste modo, é impossível assegurar a justiça social dizendo que cada homem deve possuir o que ele próprio produz.

Os primeiros socialistas antes de Marx sugeriram isto como uma cura para as injustiças do capitalismo, mas as suas sugestões foram a um tempo utópicas e retrógradas, desde que se tornaram incompatíveis com a indústria em larga escla. É, por conseguinte, evidente que a injustiça do capitalismo não pode ser sarada enquanto a inviolabiliade da propriedade privada for reconhecida. Os bolcheviques observaram isto e, por consequência, confiscaram todo o capital privado para uso do Estado. Foi por terem recusado a crença na inviolabilidade da propriedade privada que a perseguição contra eles foi tão grande. Mesmo entre os socialistas declarados, há muitos que sentem um estremecimento de horror ao pensar na expulsão dos homens ricos das suas casas, para darem lugar aos proletários. Tais sentimentos instintivos são difíceis de vencer, por razões óbvias. Os poucos homens que conseguem isto, tais como os chefes bolcheviques, têm de enfrentar a hostilidade do mundo. Mas com a criação actual de uma ordem social que não tenha em vista somente os malefícios tradicionais, está-se mais habilitado a destruir tais malefícios nos espíritos vulgares do que o que pode ser feito num século de propaganda teórica. Creio que se mostrará, quando, na devida altura, os homens observarem as coisas na sua verdadeira proporção, que o principal serviço prestado pelos bolcheviques assenta na sua recusa prática da crença na propriedade privada, crença que não existe, de modo algum, somente entre ricos e constitui no momento presente um obstáculo ao progresso fundamental - e um tão grande obstáculo, que unicamente a sua destruição tornará possível um mundo melhor.

in Romeu de Melo:
O Pensamento de Bertrand Russel, Selecção de textos
publicado por Editorial Presença, Lda, LISBOA, 1966

Etiquetas: , ,

Quarta-feira, Novembro 07, 2007

An Lu - Rússia suspende o Tratado Europeu de Forças Convencionais

China View

O Parlamento russo votou na quarta-feira por unanimidade a suspensão da participação de Moscovo no tratado europeu de 1990 para o controlo de armas estratégicas.

A Duma, ou câmara baixa do Parlamento, aprovou a lei de suspensão da participação russa prevista no Tratado Europeu de Forças Convencionais (CFE).

A ratificação prevê-se que seja imediata e será encaminhada para o Conselho Federal, a câmara alta do Parlamento, para aprovação.

Esta lei foi submetida à Duma pelo Presidente da Rússia, Vladimir Putin, na sequência de uma moratória no mesmo sentido assinada por ele em Julho passado.

Numa nota justificativa, Putin defendia que a sua anterior decisão se devia ao fato de "o tratado já não reflectia as realidades políticas e militares da Europa, não precavendo portanto os interesses da segurança da Federação Russa".

A lei foi aprovada unânimemente pelos 418 deputados na sessão de quarta-feira.

in An Lu,
Russia's parliament approves suspension of European arms control treaty
publicado por China View em 7 de Novembro de 2007

Etiquetas: , ,


hits: