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Terça-feira, Fevereiro 03, 2009

Henry Siegman - Mentiras de Israel

Henry SiegmanOs governos ocidentais e a maior parte dos meios de comunicação dos respectivos países aceitaram determinadas declarações israelitas, justificativas do assalto militar a Gaza: que o Hamas violou repetidamente a trégua de seis meses e recusou a sua renovação, tendo Israel respeitado as tréguas; que o Hamas é uma organização terrorista, fazendo parte da jihad global; que Israel actuou, não apenas em defesa própria, mas também como parte integrante da guerra que as democracias ocidentais movem contra os terroristas.

Não descobri um só jornal norte-americano de grande difusão, uma só estação de rádio ou um único canal de televisão, que tivesse questionado esta versão dos acontecimentos em toda a cobertura feita ao assalto a Gaza. O criticismo dos actos de Israel (totalmente omisso da administração Bush) resumiu-se a indagar sobre a necessidade (proporcionalidade) da carnificina perpetrada pelo exército de Israel face às ameaças invocadas, ou então sobre as cautelas tomadas para evitar baixas civis.

Os negociadores do Médio Oriente sumiram-se em eufemismos incompreensíveis, pelo que me vejo forçado a dizer sem subterfúgios que todas as justificações dadas por Israel são mentiras. Foi Israel, não o Hamas, quem violou as tréguas: o Hamas comprometeu-se a parar o lançamento de foguetes contra Israel; como contrapartida, Israel afrouxaria o bloqueio a Gaza. Na realidade, durante o cessar-fogo, o bloqueio foi ainda mais apertado. Isto foi confirmado não apenas por muitos observadores internacionais neutros e organizações não-governamentais que estão activas no terreno, mas também pelo Brigadeiro Shmuel Zakai, ex-comandante da Israel Defense Force (IDF) em Gaza. Numa entrevista ao jornal Ha'aretz em 22 de Dezembro, Zakai acusou o governo de Israel de cometer um erro capital durante o tadiyeh - o período de seis meses das tréguas - 'ao não aproveitar a acalmia para melhorar, em vez de degradar acentuadamente, a situação económica difícil dos palestinianos na Faixa de Gaza... Quando se criam tréguas e se mantem a pressão económica na Faixa', declarou o General Zakai, 'é claro que o Hamas procuraria alcançar um trégua mais favorável, sendo o disparo dos foguetes o meio para alcançar essa meta... Não parece razoável que, após fomentar a desgraça e a ruína económica em que os palestinianos vivem na Faixa de Gaza, se esperasse que o Hamas viesse sentar-se calmamente à mesa de negociações sem que movesse um dedo.'

A trégua começou em Junho do ano passado e estava prevista a sua renovação em Dezembro, com a condição de ambas as partes, reciprocamente, se absterem de acções violentas. O Hamas comprometeu-se a cessar o lançamento de foguetes e demover outros grupos, como o Jihad Islâmica, de o fazer (até os serviços secretos de Israel reconheceram que esse compromisso foi respeitado com uma eficácia surpreendente). Israel, por seu turno, poria termo aos assassinatos de dirigentes e às incursões militares. Este pacto foi gravemente violado no dia 4 de Novembro, quando o IDF entrou em Gaza e matou seis membros do Hamas. O Hamas retorquiu, lançando foguetes Qassam e mísseis Grad. Depois disso, manifestou-se ainda disponível para prolongar as tréguas, com a única condição de Israel levantar o bloqueio. Israel recusou-se. Poderia ter cumprido a sua obrigação de proteger os israelitas, assinando o fim do bloqueio, porém, nem sequer esboçou um movimento nesse sentido. Não é possível afirmar-se que Israel tenha desencadeado o assalto a Gaza para procurar proteger os seus cidadãos. Agiu assim para vincar a sua capacidade em esmagar a população de Gaza.

Toda a gente perece ter-se esquecido de que o Hamas declarou o fim dos bombistas suicidas e dos disparos de foguetes na altura em que decidiu juntar-se ao processo político palestiniano, tendo cumprido em grande medida durante um ano. Bush elogiou publicamente essa decisão, citando-a como um exemplo de sucesso da sua campanha em prol da democracia no Médio Oriente. Quando o Hamas ganhou as eleições, contrariando as expectativas ocidentais, Israel e os EUA procuraram imediatamente retirar legitimidade ao resultado e começaram a apoiar Mahmoud Abbas, líder da Fatá, que até então havia sido tratado pelos israelitas como a 'galinha depenada'. Armaram então e treinaram as forças de segurança da Fatá para que derrubassem o Hamas; e quando o Hamas - de forma brutal, para se impor - se defendeu desta violenta tentativa de inverter o resultado da primeira eleição democrática honesta no Médio Oriente, Israel e a administração Bush impuseram o bloqueio.

Israel tenta escamotear estes factos indesmentíveis, contrapondo que, através da retirada dos colonatos de Gaza em 2005, Ariel Sharon teria oferecido ao Hamas a oportunidade para se orientar no caminho da responsabilidade estatal; oportunidade essa que o Hamas teria desperdiçado, tendo, em vez disso, transformado Gaza num rampa de lançamento de mísseis contra a população civil de Israel. Esta acusação é uma dupla mentira. Em primeiro lugar, apesar de todos os erros, o Hamas conduziu Gaza a um nível de acatamento da lei e da ordem sem precedentes nos anos recentes. Fê-lo sem as avultadas contribuições monetárias com que os dadores encharcaram a Autoridade Palestiniana enquanto foi dirigida pela Fatá. Acabou com os gangs violentos e com os senhores da guerra que haviam atemorizado as populações de Gaza durante o governo da Fatá. Muçulmanos não praticantes, cristãos e outras minorias gozam de maior liberdade religiosa com o governo do Hamas que gozariam se vivessem na Arábia Saudita, por exemplo, ou em muitos outros regimes árabes.

A mentira maior é que a retirada de Gaza tenha constituido o pronúncio de outras retiradas e uma manifestação de boa vontade a favor da Paz. Eis a forma como o conselheiro sénior de Sharon, Dov Weiglass, chefe da delegação que negociou com a administração norte-americana, caracterizou a retirada de Gaza, em entrevista ao Ha'aretz de Agosto de 2004:
O que acordámos de facto com os americanos foi que uma parte dos colonatos [i.e. o maior colonato do West Bank] seria tratado até ao fim, estando o resto fora das negociações até que os palestinianos se convertam em finlandeses... O significado [do acordo com os EUA] é o de congelar o processo político. Quando congelas o processo político, impedes o estabelecimento de um Estado palestiniano e evitas as discussões sobre refugiados, fronteiras e Jerusalém. De facto, toda esta embrulhada chamada Estado Palestino, com todas as suas consequências, foram retiradas da agenda por tempo indeterminado. Tudo isto contando com os auspícios e a benção do Presidente Bush... e também com a ractificação de ambas as câmaras do Congresso.

Cuidarão Israel e os EUA que os palestinianos não lêem jornais israelitas, ou que não descobrem por si mesmos o que Sharon pretende quando vêem o que se passa no West Bank?
Israel gostaria que o mundo acreditasse que o Hamas começou a lançar foguetes porque é isso que fazem os terroristas e o Hamas é apenas mais um grupo terrorista. De facto, o Hamas não é uma 'organização terrorista' (o termo preferido por Israel) em medida maior que o movimento sionista foi uma organização terrorista por altura dos confrontos que marcaram a criação do seu país. Nas décadas de 1930 e 1940, os partidos que constituiam o movimento sionista dedicaram-se a actividades terroristas por razões estratégicas. Segundo Benny Morris, foi o Irgun o primeiro a disparar sobre civis. Escreveu no Righteous Victims que o surgimento do terrorismo árabe em 1937 'desencadeou um onda de bombardeamentos sobre multidões árabes e sobre autocarros, introduzindo uma nova dimensão ao conflito'. Também relatou atrocidades cometidas durante a guerra de 1948-49, pela IDF. Numa entrevista publicada no Ha'aretz em 2004, reconheceu que os documentos recém-libertados para consulta pública pelo Ministério da Defesa de Israel revelavam 'muitos mais actos de massacre que aqueles que supunha... Nos meses de Abril-Maio de 1948, unidades do Haganah receberam instruções operacionais que, de forma explícita, ordenavam que levassem a cabo o desenraizamento dos aldeões, expulsando-os das suas casas e destruindo as aldeias'. Em determinadas vilas e cidades palestinas, o IDF executou civis. Questionado pelo Ha'aretz se condenava tais práticas de limpeza étnica, Morris respondeu que não:
Não teria sido possível estabelecer um estado judaico sem desenraizar 700 mil palestinos. Assim, foi necessário desenraizá-los. Não havia alternativa à expulsão da população. Era necessário limpar o interior do território, limpar as suas fronterias e as vias de acesso principais. Era necessário limpar as povoações donde saiam os disparos contra as nossa colunas de transporte e os nossos colonatos.

Por outras palavras, quando o judeus disparam sobre civis inocentes e os matam para progredirem na sua luta nacional, são patriotas. Quando os seus adversários fazem exactamente o mesmo, são terroristas.

É tão fácil descrever o Hamas simplesmente como uma 'organização terrorista'. Trata-se de um movimento religioso e nacionalista, nascido do terrorismo, tal como o movimento sionista foi durante a luta pelo estabelecimento do estado, na convicção errada de que esta era a única via para pôr termo à ocupação opressiva e retomar o estado palestino. Mesmo que, conforme à ideologia do Hamas, se apele a que a construção do estado palestino se faça sobre as ruinas do estado de Israel, tal não caracteriza as políticas actuais do Hamas mais do que as declarações no mesmo sentido constantes da Carta da Organização da Libertação da Palestina (OLP) caracterizam hoje a política da Fatá.

As declarações a seguir citadas não foram feitas por um apologista do Hamas, mas antes por um ex-chefe da polícia secreta de Israel, a Mossad, e ex-conselheiro de Sharon para a segurança nacional, Ephraim Halevy. A liderança do Hamas sofreu uma transformação 'bem à frente dos nossos narizes', escreveu recentemente Halevy no Yedioth Ahronoth, ao reconhecer que 'a sua meta ideológica não se podia alcançar nos tempos próximos nem num futuro previsível'. Hoje está preparada para aceitar temporariamente o estabelecimento de um estado palestino com as fronteiras de 1967. Halevy notou que o Hamas não esclareceu quanto 'temporariamente' estas fronteiras se deveriam manter, 'eles sabem que, a partir do momento em que o estado palestiniano se tenha esbelecido, serão forçados a mudar as regras do jogo: ver-se-ão forçados a prosseguir uma via que os conduzirá para bem longe do seu fim ideológico inicial'. Num artigo anterior, Halevy também chamou a atenção para o absurdo de associar Hamas a al-Quaida.
Perante al-Quaida, os membros do Hamas são vistos como heréticos, uma vez que manifestaram o desejo de participar em acordos ou entendimentos com Israel ao longo do processo.[O chefe do bureau político do Hamas, Khaled] Mashl's fez declarações que contradizem frontalmente a abordagem de al-Quaida, oferecendo a Israel uma oportunidade, quiçá única na História, de alcançar a sua legitimação.

Porque estão os dirigentes de Israel tão determinados em destruir o Hamas? Porque acreditam que os dirigentes do Hamas, ao contrário da Fatá, não estão intimidados ao ponto de aceitar um acordo de paz que reduza o futuro 'estado' da Palestina a um conjunto desconexo de porções territoriais sobre os quais Israel pode manter permanentemente o seu controlo. O controlo do West Bank tem prosseguido sem interrupção pelos militares, serviços secretos e dirigentes políticos desde a Guerra dos Seis Dias. Acreditam que o Hamas não permitirá tal cantonização da Palestina, qualquer que seja o prolongamento da ocupação do território. Talvez Israel se engane àcerca de Abbas e a sua corte super-bem-remunerada, mas quanto ao Hamas está absolutamente certa.

Os observadores internacionais do Médio Oriente interrogam-se sobre as hipóteses de o assalto de Israel ao Hamas conduzir ao desmantelamento desta organização ou expulsá-la de Gaza. É uma questão irrelevante. Se Israel planeia manter no futuro o controlo sobre qualquer entidade palestiniana, não encontrará um interlocutor palestiniano. Se consiguisse agora destruir o Hamas, em tempo este movimento seria substituido por uma oposição palestiniana muitíssimo mais radical.

Se Barack Obama desaproveitar este momento, enviando para o Médio Oriente uma delegação de circunstância, convencida de que terceiras partes não têm que apresentar propostas próprias e orientadas para uma paz durável, um delegação incapaz de pressionar as partes em contenda e que se limite a assitir à exposição das suas divergências, estará então a contribuir para o surgimento de uma resistência palestina muito mais extremista que o Hamas - plausivelmente, aliada a al Quaeda. Para os EUA, a Europa e a maior parte do resto do mundo, esse seria o pior resultado. Talvez Israel, incluindo os chefes de alguns colonatos, acreditem que tal serviria os seus propósitos, pois ofereceria ao governo um convidativo pretexto para sujeitar pela força toda a Palestina. Esta é, porém, uma ilusão capaz de conduzir Israel ao seu fim como estado democrático judaico.

Anthony Cordesaman, um dos analistas militares mais sérios do Médio Oriente, que além disso é amigo de Israel, em relatório dirigido ao Centro de Estudos Estratégicos Internacionais no dia 9 de Janeiro, referiu que os ganhos tácticos alcançados pela continuação das operações em Gaza seriam suplantados pelos prejuízos estratégicos - sendo provável que ficassem aquém dos resultados anteriorememte alcançados por meio de ataques selectivos a instalações do Hamas.
Ter-se-á equivocado Israel, enveredando por um aprofundamento sistemático da guerra, desprovida de um objectivo estratégico claro ou, pelo menos, plausível de alcançar? Acabará Israel por contribuir para o fortalecimento político do seu inimigo, mesmo sendo este derrotado tacticamente? Irão as iniciativas de Israel comprometer seriamente a posição dos EUA na região? Irão comprometer as esperanças de paz e, subsequentemente, os regimes árabes moderados e as suas vozes? Tudo indica que a resposta a qualquer destas perguntas seja: Sim! Um dirigente pode sempre reclamar, engrossando a voz, que os ganhos tácticos são vitórias. Se for mesmo isso o que Olmert, Livni e Barak têm para responder, então ter-se-ão desgraçados a si próprios assim como terão desgraçado o seu país e os seus amigos.
Concluiu Cordesaman.

Henry Siegman, Israel’s Lies,
London Review of Books, 15 de Janeiro de 2009

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Quinta-feira, Janeiro 22, 2009

Fernando Nobre - Grito e choro por Gaza e por Israel

Recebido por email. (AF)

Fernando NobreHá momentos em que a nossa consciência nos impede, perante acontecimentos trágicos, de ficarmos silenciosos porque ao não reagirmos estamos a ser cúmplices dos mesmos por concordância, omissão ou cobardia.

O que está a acontecer entre Gaza e Israel é um desses momentos. É intolerável, é inaceitável e é execrável a chacina que o governo de Israel e as suas poderosíssimas forças armadas estão a executar em Gaza a pretexto do lançamento de roquetes por parte dos resistentes ("terroristas") do movimento Hamas.

Importa neste preciso momento refrescar algumas mentes ignorantes ou, muito pior, cínicas e destorcidas:

- Os jovens palestinianos, que são semitas ao mesmo título que os judeus esfaraditas (e não os askenazes que descendem dos kazares, povo do Cáucaso), que desesperados e humilhados actuam e reagem hoje em Gaza são os netos daqueles que fugiram espavoridos, do que é hoje Israel, quando o então movimento "terrorista" Irgoun, liderado pelo seu chefe Menahem Beguin, futuro primeiro ministro e prémio Nobel da Paz, chacinou à arma branca durante uma noite inteira todos os habitantes da aldeia palestiniana de Deir Hiassin: cerca de trezentas pessoas. Esse acto de verdadeiro terror, praticado fria e conscientemente, não pode ser apagado dos Arquivos Históricos da Humanidade (da mesma maneira que não podem ser apagados dos mesmos Arquivos os actos genocidários perpetrados pelos nazis no Gueto de Varsóvia e nos campos de extermínio), horrorizou o próprio Ben Gourion mas foi o acto hediondo que provocou a fuga em massa de dezenas e dezenas de milhares de palestinianos para Gaza e a Cisjordânia possibilitando, entre outros factores, a constituição do Estado de Israel..

- Alguns, ou muitos, desses massacrados de hoje descendem de judeus e cristãos que se islamizaram há séculos durante a ocupação milenar islâmica da Palestina. Não foram eles os responsáveis pelos massacres históricos e repetitivos dos judeus na Europa, que conheceram o seu apogeu com os nazis: fomos nós os europeus que o fizemos ou permitimos, por concordância, omissão ou cobardia! Mas são eles que há 60 anos pagam os nossos erros e nós, a concordante, omissa e cobarde Europa e os seus fracos dirigentes assobiam para o ar e fingem que não têm nada a ver com essa tragédia, desenvolvendo até à náusea os mesmos discursos de sempre, de culpabilização exclusiva dos palestinianos e do Hamas "terrorista" que foi eleito democraticamente mas de imediato ostracizado por essa Europa sem princípios e anacéfala, porque sem memória, que tinha exigido as eleições democrática para depois as rejeitar por os resultados não lhe convirem. Mas que democracia é essa, defendida e apregoada por nós europeus?

- Foi o governo de Israel que, ao mergulhar no desespero e no ódio milhões de palestinianos (privados de água, luz, alimentos, trabalho, segurança, dignidade e esperança ), os pôs do lado do Hamas, movimento que ele incentivou, para não dizer criou, com o intuito de enfraquecer na altura o movimento FATAH de Yasser Arafat. Como inúmeras vezes na História, o feitiço virou-se contra o feiticeiro, como também aconteceu recentemente no Afeganistão.

- Estamos a assistir a um combate de David (os palestinianos com os seus roquetes, armas ligeiras e fundas com pedras...) contra Golias (os israelitas com os seus mísseis teleguiados, aviões, tanques e se necessário...a arma atómica!).

- Estranha guerra esta em que o "agressor", os palestinianos, têm 100 vezes mais baixas em mortos e feridos do que os "agredidos". Nunca antes visto nos anais militares!

- Hoje Gaza, com metade a um terço da superfície do Algarve e um milhão e meio de habitantes, é uma enorme prisão. Honra seja feita aos "heróis" que bombardeiam com meios ultra-sofisticados uma prisão praticamente desarmada (onde estão os aviões e tanques palestinianos?) e sem fuga possível, à semelhança do que faziam os nazis com os judeus fechados no Gueto de Varsóvia!

- Como pode um povo que tanto sofreu, o judeu do qual temos todos pelo menos uma gota de sangue (eu tenho um antepassado Jeremias!), estar a fazer o mesmo a um outro povo semita seu irmão? O governo israelita, por conveniências políticas diversas (eleições em breve...), é hoje de facto o governo mais anti-semita à superfície da terra!

- Onde andam o Sr. Blair, o fantasma do Quarteto Mudo, o Comissário das Nações Unidas para o Diálogo Inter-religioso e os Prémios Nobel da Paz, nomeadamente Elie Wiesel e Shimon Perez? Gostaria de os ouvir! Ergam as vozes por favor! Porque ou é agora ou nunca!

- Honra aos milhares de israelitas que se manifestam na rua em Israel para que se ponha um fim ao massacre. Não estão só a dignificar o seu povo, mas estão a permitir que se mantenha uma janela aberta para o diálogo, imprescindível de retomar como único caminho capaz de construir o entendimento e levar à Paz!

- Honra aos milhares de jovens israelitas que preferem ir para as prisões do que servir num exército de ocupação e opressão. São eles, como os referidos no ponto anterior, que notabilizam a sabedoria e o humanismo do povo judeu e demonstram mais uma vez a coragem dos judeus zelotas de Massada e os resistentes judeus do Gueto de Varsóvia!

Vergonha para todos aqueles que, entre nós, se calam por cobardia ou por omissão. Acuso-os de não assistência a um povo em perigo! Não tenham medo: os espíritos livres são eternos!

É chegado o tempo dos Seres Humanos de Boa Vontade de Israel e da Palestina fazerem calar os seus falcões, se sentarem à mesa e, com equidade, encontrarem uma solução. Ela existe! Mais tarde ou mais cedo terá que ser implementada ou vamos todos direito ao Caos: já estivemos bem mais longe do período das Trevas e do Apocalipse.

É chegado o tempo de dizer BASTA! Este é o meu grito por Gaza e por Israel (conheço ambos): quero, exijo vê-los viver como irmãos que são.



Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre, 4 de Janeiro de 2009

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Quarta-feira, Janeiro 21, 2009

Kathy Kelly - A arma mais poderosa

Guerra em Gaza

O Dr Atalá, médico, convidou-me para uma visita a sua casa na cidade de Gaza situada a poucos quarteirões de distância do Hospital Chifá.

De manhãzinha, havia regressado a casa com a sua família, após uma fuga de cinco dias que duraram os ataques mais intensos à cidade de Gaza, receando pelas suas vidas. Acreditem, ao conduzir o carro desde o Hospital até ao sítio onde se encontrava a minha família, rezava todo o tempo, disse o Dr Atalá, porque os israelitas disparavam sobre qualquer um que estivesse à noite nas ruas.

O Dr Atalá exerceu medicina na especialidade de cirurgia geral ao longo de toda a sua carreira. Hoje, com 61 anos, afirma nunca ter observado feridas tão terríveis como as que viu nas três últimas semanas, quando ele e os restantes elementos da sua equipa procuraram socorrer numerosos pacientes com membros partidos, feridas de estilhaços de granadas e queimaduras graves. Neurocirurgiões, cirurgiões vasculares, ortopédicos e de cirurgia geral juntaram-se para tratar de pacientes, como equipa, tentando salvá-los, mas houve muitos que não foram salvos. Descreveu doentes com estilhaços de granada nos olhos, no rosto, no peito, nos abdómen, doentes a quem tiveram que amputar as pernas acima do joelho. A maior parte deles - disse - eram civis.

Há maneiras estranhas de destruir o corpo humano, acrescentou o Dr Atalá. Vinde, por favor, amanhã à Unidade de Queimados, e vereis doentes sofrendo do uso de fósforo branco. O Dr Atalá disse que começou a compreender a extensão do trauma e do perigo ao ouvir as histórias dos pacientes atingidos.

Alguns estavam sentados em casa quando foram atingidos por uma bomba de um tanque. Não souberam o que lhes aconteceu, disse. Os sobreviventes chegaram ao Hospital depois de muitos dos seus familiares terem sido mortos. Doentes de Beit Laía disseram que uma grande família de 25 pessoas foi atacada em uma sua casa. Quando os familiares os vieram ajudar, atiradores furtivos (snipers) israelitas mataram oito. Muitos feridos foram deixados ao abandono até morrerem. Não foi permitida a entrada na zona de ambulâncias ou de socorristas da Cruz Vermelha.

Numa das anunciadas interrupções dos bombardeamentos, Israel aproveitou para bombardear a Praça Palestina, próxima aos escritórios da administração municipal. Quatro dos feridos graves que chegaram ao hospital não conseguimos salvá-los - disse Atalá. Outros sete sobreviveram.

Todos os edifícios importantes para os serviços de manutenção de Gaza foram bombardeados. Desde ministérios a postos de polícia, todos foram destruídos. Alguns edifícios do Hamas também, mas não todos.

Acabámos de percorrer a pé as zonas dos edifícios dos ministérios da justiça, educação e cultura: completamente destruídos. Depois, já de carro, vimos mesquitas, fábricas, casas e escolas reduzidas a escombros. Perguntámos a Atalá e razão porque, segundo a sua opinião, Israel atacou Gaza tão ferozmente.

Ele acredita que os ataques foram basicamente um acto irracional, mas que a motivação imediata para um ataque desta magnitude foi a posição de alguns candidatos face ao acto eleitoral que se aproxima, pretendendo demonstrar desta forma junto do público israelita o seu desejo de utilizar as forças armadas para garantir a segurança dos israelitas. Os palestinos acabam sempre por pagar as despesas em sangue - disse.

Um dos aspectos mais graves desta guerra - acrescentou - é a falta de respeito para com a Organização das Nações Unidas. Três escolas da Agência de Socorros das Nações Unidas (UNRWA) foram bombardeadas. Na Jabália morreram mais de 45 pessoas numa escola da ONU; os caças F16 bombardearam também estações de armanezamento e distribuição de víveres da ONU.

Do Hospital de Chifa, observámos chamas e fumo de dia e de noite. A cidade ficou permanentemente coberta de fumo e produtos químicos. Desconhecemos ainda as consequências que esta situção poderá acarretar para a saúde pública - disse Atalá.

Sim! Há lançamento de foguetes - confirmou Atalá, referindo-se aos disparos do Hamas contra cidades israelitas - e estamos solidários com qualquer israelita ferido por esses foguetes. Mas se alguém te pica com um alfinete, não irás cortar-lhe a cabeça. Simplesmente, perguntas-lhe porque está a fazer isso. As pessoas aqui estão encarceradas numa prisão onde há falta de tudo. Nada é possível ser reparado. É desejo de todos que as fronteiras estejam abertas para que os bens possam entrar e sair. Passados seis meses de fronteiras fechadas, toda a gente está insatisfeita. Agora fala-se de cessar-fogo, mas nada é adiantado sobre a abertura das fronteiras, fica por esclarecer o regresso das tropas e ainda se pretende que a NATO venha reforçar o cerco.

Espero que o Presidente Obama faça melhor que George Bush. Um poderio militar tão grande deveria estar ao serviço dos direitos humanos, não confundir-se com um grupo terrorista. Só fanáticos esperam ganhos através do terror; um estado democrático abstem-se de argumentações falaciosas para desculpar a morte em massa. Pelo contrário, um estado que procede a matanças em larga escala, deve ser julgado por um tribunal internacional.

Ainda podemos experimentar o amor. Estamos a tentar fazê-lo com judeus... por palavras e por acções. Temos que vencer. Precisamos viver em conjunto. Procuramos dar-nos bem com todos, quaisquer que sejam as opiniões. A arma mais poderosa do mundo é o amor - disse Atalá, acrescentando que sempre assim acreditou ser e procurando junto dos colegas partilhar essa convicção, fossem muçulmanos, cristãos ou judeus, ao longo da sua carreira. Declarou isso mesmo na fronteira de Eretz, logo após o início da campanha "Chumbo Pesado" lançada por Israel. Foi um dos 200 cristãos seleccionados entre 800 que se apresentaram para atravessar a fronteira e celebrar o Natal ortodoxo com familiares no "Lado Ocidental". Ao atravessar a fronteira, cumprimentou soldados israelitas: Feliz Natal. Alguns soldados retorquiam: Tens armas? Sim - respondia-lhes Atalá - Tenho a arma mais poderosa do Mundo, a arma do amor.


Kathy Kelly, The Strongest Weapon of All, publicado por Voices for Creative Nonviolence a 19 de Janeiro de 2009

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Quinta-feira, Janeiro 15, 2009

Ludo Rex - A informação assimétrica

Título da minha responsabilidade (AF)




Doze Regras de Redacção dos Grandes Media Internacionais quando a notícia é do Médio Oriente
  1. No Médio Oriente são sempre os árabes que atacam primeiro e sempre Israel que se defende. É inconveniente falar em «represálias» quando se tratar do exército israelita.
  2. Os árabes, palestinianos ou libaneses não têm o direito de matar civis. A isso chama-se «terrorismo».
  3. Israel tem o direito de matar civis. A isso chama-se «legítima defesa».
  4. Quando Israel mata civis em massa, as potências ocidentais pedem que seja mais comedido. A isso chama-se «reacção da comunidade internacional».
  5. Os palestinianos e os libaneses não têm o direito de capturar soldados de Israel dentro de instalações militares com sentinelas e postos de combate. Isso chama-se «sequestro de pessoas indefesas».
  6. Israel tem o direito de sequestrar a qualquer hora e em qualquer lugar quantos palestinianos e libaneses desejar. Actualmente são mais de 10 mil, 300 dos quais são crianças e mil são mulheres. Não é necessária qualquer prova de culpabilidade. Israel tem o direito de manter sequestrados presos indefinidamente, mesmo que sejam autoridades eleitas democraticamente pelos palestinianos. Isto chama-se «prisão de terroristas».
  7. Quando se mencionam as palavras «Hezbollah» e «Hamas», é obrigatório a mesma frase conter a expressão «apoiado e financiado pela Síria e pelo Irão».
  8. Quando se menciona «Israel», é proibida qualquer menção à expressão «apoiado e financiado pelos EUA». Isso poderia dar a impressão de que o conflito é desigual e que Israel não está em perigo de existência.
  9. Quando se referir a Israel, são proibidas as expressões «territórios ocupados», «resoluções da ONU», «violações dos Direitos Humanos» ou «Convenção de Genebra».
  10. Tanto os palestinianos como os libaneses são sempre «cobardes», que se escondem entre a população civil. Se eles dormem nas suas casas, com as suas famílias, a isso dá-se o nome de «dissimulação» e «cobardia». Israel tem o direito de aniquilar com bombas e mísseis os bairros onde eles dormem. A isso chama-se «acção cirúrgica de alta precisão».
  11. Os israelitas falam melhor inglês, francês, espanhol e português que os árabes. Por isso eles e os que os apoiam devem ser mais entrevistados e ter mais oportunidades do que os árabes para explicar as presentes Regras de Redacção (de 1 a 10) ao grande público. A isso chama-se «neutralidade jornalística».
  12. Todas as pessoas que não estão de acordo com as Regras de Redacção acima expostas são «terroristas anti-semitas de alta periculosidade».


Ludo Rex, Palestina - Atenção ao Livro de Estilo!, 14 de Janeiro de 2009

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Domingo, Janeiro 11, 2009

Mahmud Darwish - O teu silêncio dói-me

Palestina
O teu silêncio dói-me. Tanto como a vida. Tanto como o tempo.
Mahmud Darwish

Pensar, Escrever, Desenhar, Reenviar, Opinar, Participar… Gritar
Para que o Silêncio não nos transforme em cúmplices
Não ao Genocídio
Não ao Holocausto Palestiniano
Não à Invasão Sionista
Pela Liberdade da Palestina
Não ao Bloqueio
Palestina Livre
Respeito pelo Tratado de 1967

(In, arte, revolución y utopía)

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Quarta-feira, Janeiro 07, 2009

José Goulão - Hipocrisia Sangrenta

Altos responsáveis de países que se consideram faróis da «civilização» multiplicam apelos à «contenção» e ao «cessar-fogo» em Gaza, como quem procura assim cumprir uma obrigação perante o «agravamento da crise» no Médio Oriente. A hipocrisia de presidentes, ministros, diplomatas ou porta-vozes é tão óbvia como de costume, mas ainda consegue ser chocante tendo em consideração a tragédia que vitima mais de um milhão de meio de pessoas amontoadas num pequeno território inóspito aferrolhado entre Israel, o Egipto e o Mediterrâneo.

Tais apelos baseiam-se na objectividade de um pretenso distanciamento entre as «partes em conflito», assim se exigindo uma rigorosa simetria de comportamentos como numa guerra convencional entre exércitos clássicos. Simetria, pois, entre civis indefesos e as forças armadas que ocupam o quarto lugar no ranking das mais poderosas do mundo; entre ocupados e ocupantes; entre morteiros mais ou menos artesanais e o poder de fogo dos F-16 e dos tanques de última geração; entre comunidades famintas sujeitas há anos a um feroz bloqueio de bens essenciais e uma nação estruturada apoiada sem limites pelo mais poderoso país do planeta; entre as vítimas e respectivos descendentes de uma limpeza étnica e os ses autores.

O Hamas quebrou a trégua e tem de pagar, devendo desde já sujeitar-se ao regresso ao cessar-fogo faça o inimigo o que fizer, sentenciam os diplomatas civilizados. Trégua que verdadeiramente nunca existiu, uma vez que foi desde logo desrespeitada pelo Estado de Israel ao violar um dos seus pressupostos essenciais: o fim do bloqueio humanitário a Gaza. Durante os últimos seis meses o cerco não apenas se manteve como se apertou.

Como movimento terrorista, o Hamas tem que pagar, dirão ainda e sempre os civilizados senhores do poder de distinguir os que são e os que não são terroristas, do mesmo modo que lançam guerras contra possuidores de armas de extermínio que nunca existiram.

O Hamas, porém, praticamente não era nada quando se iniciou a primeira Intifada palestiniana, em fins de 1988. Hoje, o papel dos serviços secretos de Israel na criação efectiva de um movimento islâmico, o Hamas, para dividir a resistência nacional palestiniana dirigida pela Organização de Libertação da Palestina (OLP) já nem é sequer um segredo de Polichinelo. Os interessados em aprofundar o assunto poderão começar por pesquisar através da obra de Robert Dreyfuss e começar a desenrolar o novelo. Descobrirão elementos muito interessantes e com flagrante actualidade. A verdade é que de grupinho divisionista e terrorista o Hamas se transformou num movimento que, tirando dividendos dos fracassos sucessivos do chamado processo de paz, boicotado por Israel e Estados Unidos e assumido pela Fatah como única opção estratégica, conseguiu ganhar as eleições parlamentares palestinianas em 2006. O Hamas cresceu com as estratégias militaristas em redor, como os talibãs no Afeganistão (agora controlando zonas a menos de 50 quilómetros de Cabul) ou o Hezbollah no Líbano, fruto das invasões israelitas da década de oitenta.

Reconhecer que o Hamas é agora uma realidade evidente no problema israelo-palestiniana não significa fraqueza, simpatia ou conivência com o terrorismo. É, prosaicamente, uma simples questão de senso comum.

As eleições de 2006, proclamaram os observadores internacionais, muitos deles oriundos das terras «civilizadas», foram livres e justas. Logo, ao Hamas coube formar governo – diz-se que é assim que funciona a democracia.

Engano puro. A chamada «comunidade internacional» decidiu não reconhecer o governo escolhido pela maioria dos palestinianos; nem sequer aceitou uma aliança entre o Hamas e a Fatah, que praticamente fazia o pleno da vontade dos eleitores. Pelo contrário, também não são segredo as diligências da administração de George W. Bush e do governo israelita de Ehud Olmert para lançar a guerra civil entre as duas principais organizações palestinianas – chegando, para isso, a fornecer armas à Fatah – fazendo simultaneamente por ignorar o acordo entretanto estabelecido pelos dois movimentos sob mediação do Egipto e da Arábia Saudita.

Este processo conduziu à divisão palestiniana: a Fatah na Cisjordânia e Jerusalém Oriental, dependente do que Israel lhe permite ou não fazer; e o Hamas controlando Gaza, território dos seus principais feudos. Daí ao bloqueio a Gaza e, agora, à invasão, foi um pequeno salto.

O massacre está em curso, assistindo-se na comunicação social a tão curiosos como ridículos esforços para distinguir entre vítimas civis e militares. Em Gaza, para que conste, não há militares, a não ser os invasores. Existem restos da polícia autonómica, militantes do Hamas armados e organizados como milícias. O resto é milhão e meio de desempregados, famintos e humilhados. Tal é o inimigo de Israel que lançou alguns morteiros, por exemplo contra a cidade de Asqelon, que em 1948 se chamava Al-Majdal e era uma aldeia árabe cuja população, vítima da limpeza étnica em que assentou a criação do Estado de Israel, se refugiou em Gaza.

Os dirigentes de Israel asseguram que os «civis» serão poupados durante a invasão. Tal como aconteceu em 1982 em Beirute, onde os militares comandados por Ariel Sharon, fundador do partido de Ehud Olmert e Tzipi Livni, destruíram o sector ocidental da cidade, acabando por patrocinar os massacres de Sabra e Chatila. Ou em 1996, quando Shimon Peres, actual presidente israelita, foi responsável pelo massacre de Canan, também no Líbano, e mesmo assim perdeu as eleições parlamentares.

Gaza, ainda assim, será diferente de Sabra e Chatila. Agora, os soldados israelitas sujam mesmo as mãos com o sangue das populações indefesas – salpicando inevitavelmente os hipócritas que os defendem.


José Goulão, Hipocrisia sangrenta, Le Monde Diplomatique

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