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Segunda-feira, Julho 06, 2009

Blog humorístico


Encontrei este blog humoristico feito por um professor:
L'actu en patates

Achei engraçado : )

Beijinhos

Susana

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Terça-feira, Maio 05, 2009

Alain Refalo - Em consciência, recuso-me a obedecer

Alain Refalo
A acção que desencadeei através da carta que dirigi ao meu inspector, na qual o informo de que, em consciência, me recuso a obedecer a determinadas decisões ou recomendações emanadas superiormente no início do ano lectivo, foi uma acção cuidadosamente ponderada. Ao mesmo tempo, reflecte situações já antigas pois, nos últimos meses, tivemos muitas reuniões, dedicámos tempo a discutir com colegas e com pais de alunos, onde analisámos o conjunto das medidas ou reformas que nos caíram em cima, reformas para as quais nunca fomos ouvidos nem achados e que, consideradas de uma ponta à outra, concluímos que iriam conduzir ao desmantelamento da educação nacional. Pelo que creio ter havido um amadurecimento do processo que me levou, já no início do ano, a tomar algumas decisões para as minhas aulas que eram conformes às conclusões que tirámos e, ao fim de algumas semanas, decidi dar conhecimento formal ao meu inspector sobre tais decisões, além de as publicitar para o público em geral num blogue. O que se verificou nos últimos quinze dias foi que outros professores retomaram o modelo de carta que publiquei no blogue, usaram os termos da carta que eu escrevi, escreveram eles próprios outras cartas dirigidas aos seus inspectores ou aos seus reitores e deram disso conhecimento. público Assim, publicamos todos os dias uma nova carta individual no nosso blogue. Mas, mais interessante ainda, surgiram iniciativas colectivas no seio das escolas, os professores juntaram-se, redigiram as suas próprias cartas, assinaram-nas colectivamente e enviaram-nas aos respectivos inspectores. Muito recentemente na Euro, uma intersindical, o conjunto dos sindicatos da Intersindical de L'Enseignement de l'Euro consertaram-se sobre um modelo de carta que vão difundir largamente entre os colegas professores e essas cartas serão enviadas colectivamente a 17 de Dezembro à Inspecção Escolar.
Encontramo-nos portanto no meio de um movimento colectivo que exercerá uma pressão forte sobre o ministério. É verdade que a desobediência pedagógica ou a desobediência civil não fazem parte dos meios de acção tradicionais dos sindicatos, não faz parte da cultura sindical. Os sindicatos são mais propensos a acções como as manifestações, as petições ou as greves. Creio termos hoje atingido, infelizmente, os limites destes métodos de acção na medida em que o próprio governo proclama abertamente que está pronto a resistir a esse tipo de acções, está pronto a suportá-las. O Sr Sarkozy declarou mesmo que, quando há hoje uma greve em França, já ninguém repara nela, o que é bem verdade. O governo está preparado para enfrentar um movimento grevista maciço. Portanto, a questão que se coloca é: como podemos nós alterar a nosso favor a correlação de forças? Como iremos nós radicalizar - no bom sentido - a luta, na direcção de uma marcha inédita, feita de desobediência civil e pedagógica, que permita finalmente aos professores apropriarem-se de novos instrumentos de luta. Exige-se aos professores, em suma, descartar, recusar um certo número de reformas, contrariarem tais reformas. Exige-se agora, finalmente, aos professores (...).
Assim, coloca-se à consciência uma questão forte: Será que, enquanto professores e funcionários, estamos condenados a colaborar no desmantelamento da educação nacional? Será que, ao obedecermos ou ao nos mantermos silenciosos, não assumimos uma responsabilidade? Creio que aí encontramos um incentivo, um posto de observação, a partir do qual cada professor, individualmente ou em conjunto, pode decidir-se a enveredar pela resistência. Não apenas resistência por palavras, mas também por actos, actos concretos que comprometem, que levantam o risco de sanções. Creio ser inédito na educação nacional, não apenas que se tenha tomado a iniciativa de desobedecer, como a de se tornar pública essa desobediência. É a publicitação dessa desobediência, pela amplitude social que assume, que tem a possibilidade de alterar a correlação de forças.
Esta acção de resistência pela desobediência não é apenas uma acção de contestação, uma acção de oposição. É também uma acção que se destina a construir, a propor. Claro que o modelo de escola a que aspiramos não é o da escola-competição, não é o modelo do escalonamento dos alunos, não é o do despique entre os estabelecimentos escolares, creio que o modelo a que aspiramos é o modelo em que as crianças reencontrarão o prazer em se dirigirem à escola, reencontrarão o prazer em aprender e, no plano pedagógico, a empreender projectos cooperativos capazes de as pôr a construir coisas em conjunto, a aprender em conjunto, a se ajudarem mutuamente. Creio, finalmente, tratar-se de uma escola ao serviço de uma sociedade da solidariedade, de uma sociedade onde não estejamos uns contra outros mas uns com outros. Creio ser também este o sentido do actual movimento. Ao mesmo tempo que recusamos, que contestamos e que desobedecemos, sem mesmo esperarmos que a lei mude, concretizamos alternativas pedagógicas que despertem a chama da cooperação e da solidariedade.
Relativamente à minha situação pessoal, de momento decorre um inquérito administrativo. Quer dizer que o inspector da Academia deu ordem ao inspector da Circunscrição para elaborar um relatório, no qual devem constar os pontos de desobediência. Este último procurou-me para averiguar as minhas motivações e certificar-se que as minhas palavras durante as entrevistas confirmam aquilo que deixei escrito. Agora vem às minhas aulas com regularidade para verificar se aquilo que disse e que escrevi corresponde exactamente àquilo que faço, ou inversamente. Está portanto na fase da redacção do relatório baseado naquilo que observou durante as visitas às minhas aulas. Depois disso, penso que a Inspecção da Academia irá convocar-me e mais tarde virá o tempo de reflexão sobre a sanção, caso venha a ter lugar. É preciso saber que hoje decorre uma petição na internet, no sítio do SNIPP para me apoiar e exigir que não recaia sobre mim qualquer sanção. Esta petição já foi assinada por muitos milhares de pessoas. Está a ser constituído um comité de apoio. Os pais dos alunos da minha classe têm uma proposta que será dirigida à Inspecção da Academia junto com uma carta na qual expressam a sua preocupação com o que acontecerá com os meus alunos.
Sou Alain Refalo, professor desde há dezoito anos; além disso, sou um militante da não-violência desde há mais de vinte e cinco anos. A não-violência é uma forma de luta, uma forma de resistência. Tem já uma longa história a não-violência, desde os combates de Gandi e de Martin Luther King e é nestes combates que hoje me encontro, é nesses combates que hoje me inspiro. Creio ser um professor militante, muito simplesmente.

En conscience, je refuse d’obéir
(Tradução da entrevista filmada)

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Domingo, Outubro 19, 2008

Deutsche Weller - Esmagar os paraísos fiscais

Com a economia mundial ferida pelo aguilhão da quebra financeira, muitos países desejam esmagar os chamados paraisos fiscais num esforço desesperado para levantar as suas finanças.

Depois de os governos do EUA e da Europa terem salvo numerosos bancos, muitos políticos começam agora a questionar sobre a razão da algumas instituições financeiras continuarem a operar em países que encorajam a evasão fiscal.
Será normal que um banco ao qual caucionamos os empréstimos com os nossos fundos ... continue a operar em paraísos fiscais?
perguntou o Presidente da França, Sarkozy, na semana passada.

Vinte países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) encontrar-se-ão em Paris na próxima terça-feira para discutirem como resolver a questão, se bem que os EUA não participem porque a campanha eleitoral está no seu fim.

Os países publicarão uma carta expressando o seu desejo de esmagar os paraísos fiscais.

Paraísos fiscais são países com uma estrutura de impostos tal que indivíduos ricos ou companhias pagam pouco ou nenhum imposto. Atraem investidores estrangeiros porque o dinheiro pode lá ser depositado com alto nível de secretismo e protecção contra as polícias de investigação internacional.

O Liechtenstein foi recentemente visado de uma forma particular, pelo secretismo contemplado aos investidores e depositantes internacionais das contas nos seus bancos. A OCDE qualificou este ano este pequeno principado como não colaborante.

A Alemanha à caça de fugitivos aos impostos

A Alemanha persegue alguns cidadãos nacionais, incluindo o exonerado Director Nacional dos Correios, pela falta de pagamento dos impostos, protegendo os activos em instituições financeiras do Liechtenstein.

Segundo o grupo de pressão Transparency International France, existem aproximadamente 50 paraísos fiscais em todo o mundo, nos quais operam mais de 400 bancos, dois terços dos bancos de crédito a outros bancos (hedge funds) e dois milhões de empresas de topo ocultam cerce de 10 triliões de dólares de activos financeiros - quatro vezes o Produto Nacional Bruto da França.

A reunião já havia sido agendada várias vezes, mas a crise financeira conferiu-lhe um carácter de urgência.
Não podemos resolver a crise financeira introduzindo maior regulação e mantendo bolsas de desregulação a prosperar,
disse Pascal Saint Amans, chefe da divisão internacional de impostos da OCDE.

Os centros de Offshore não são directamente responsáveis pela crise

Embora não sejam a causa da crise, para Christian Chevagneux, autor de um livro sobre o assunto, os centros de offshore permitiram a bancos como o Britain's Northern Rock, ou bancos de investimento dos EUA como o Bear Stern, ocultarem os seus prejuizos.

Também afectaram a estabilidade do sistema, ao hospedarem a maior parte dos bancos "hedge funds", estando muitos sediados nas ilhas Caimã. Estes fundos não-regulados e especulativos venderam muitos activos nas duas últimas semanas, contribuindo para a queda das acções no mercado e para a baixa dos preços das matérias-primas.

Para os paraísos fiscais, no clima político actual acabaram-se as complacências.
A França e a Alemanha sempre foram hostis aos paraísos fiscais. Se Barack Obama for eleito, os tempos vindouros serão bem duros para ele,
disse Chavagneux aos repórteres.

Com uma postura contrária à do Presidente George W. Bush, o candidato presidencial fez do combate aos paraísos fiscais uma peça chave da sua campanha.

NDA (jornalista da Deutsche Weller), OECD to Crack Down on Tax Havens in Finance Crisis Action, 19 de Outubro de 2008

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Sexta-feira, Setembro 26, 2008

Yves Rossy atravessa o Canal da Mancha

Homem foguete
Filme:BBC
Fotos:Der Spiegel

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Segunda-feira, Setembro 15, 2008

Porque razão a dívida da França não será reembolsada

Nota à margem: seria muito interessante observar como o paladino do "interesse geral acima das classes" (representado pelo Governo), o distinto Vital Moreira, se pronunciaria sobre este caso de manifesta subserviência política dos interesses dos cidadãos à lógica privada. Se não fosse demais, pretender que tão primorosa figura desviasse um pouco a sua atenção dos professores ou do sindicalismo, aos quais só consegue referir-se nestes tempos repetindo as ladainhas que foi repescar ao corporativismo de Salazar. (AF)

Já ouviu falar do artido 104 do Tratado de Maastricht? Se não for o caso, o melhor é interessar-se pelo assunto. Passou despercebido pelos meios de informação, e contudo não data de ontem...

Este artigo - treasnformado em artigo 123 do Tratado de Lisboa - estipula que os Estados membros da Comunidade Europeia já não dispõem do direito de se endividarem junto dos bancos centrais, antes têm a obrigação de se endividarem junto dos bancos privados, suportando os juros muito elevados. Antes, os empréstimos concedidos aos países não eram sujeitos a juros, apenas o montante do empréstimo era reembolsado.
Depois, os banqueiros tomaram o controlo de grande parte da "criação de dinheiro" conluiados com personagens políticas sufragadas para nos representarem, para nos protegerem, em todos os sentidos da palavra.

Resultado: os bancos privados em questão geram lucros colossais graças aos nossos impostos! E a dívida pública não cessa de crescer inexoravelmente ao longo do tempo.

A França está sobre-endividada, ninguém o desmente (déficit oficial, 2000 milhões de euros!) Se se tratasse de uma empresa privada, há muito que estaria na bancarrota. Portanto, para tapar os buracos nas caixas, para manter a aparência desta grande, próspera e potente nação que foi outrora, a França reclama fundos à banca privada, que são obtidos imediatamente, pois o negócio é sunarento para estes credores. Não conseguindo equilibrar a balança de pagamente ano após ano, deve endividar-se novamente. Em primeiro ligar, para fazer funcionar o país; em segundo lugar, para reembolsar os empréstimos anteriores; em terceiro lugar, para pagar os juros da dívida anteriores, com uma percentagem indecente. E assim em diante... Este é um círculo vicioso infernal! Finalmente, esta anarquia gera um efeito inflaccionista nefasto.

Claro que este artigo consta do Tratado de Lisboa, ou "Tratado Simplificado". Sabeis, este tratado que nos quiseram impor a todo o custo, quer o queiramos quer não. Não perderam um segundo para tentarem desembaraçar-se desta esclada que tem aproveitado por décadas os coleguinhas dos lobbies financeiros.

No vídeo aqui citado, Etienne Chouard - durante a Conferência no Intituto de Estudos Políticos de Aix-en-Provence - explica como nos nosso dirigentes montaram este sistema financeiro que torna enxangue a economia de certos países europeus. A dívida não é uma espécie de destino, é uma consequência de políticas desastrosas. Estas foram concebidas e realizadas com o objectivo, entre outros, de enriquecer os novos senhores à custa dos cidadãos.

Penso que aqueles que ainda acreditam nos nossos dirigentes políticos - que há décadas desempenham o papel de replicadores de políticas alheias - aqueles que pensam que os nosso pdirigentes encarnam seres responsáveis e altruistas, eleitos para o bem das pessoas, para quem acredita nisso, o despertar arrisca-se a ser brutal. A democracia morreu há muito tempo, é necessário tomar conscincia disso...

http://www.dailymotion.com/video/x5swz0_maastricht-article-104_news

Aleth, 15 de Stembro de 2008

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Quarta-feira, Agosto 13, 2008

Nico Hirtt - A avaliação por "grelhas de competência"

No meu estabelecimento escolar, tal como em muitos outros, foi-nos proposto recentemente um projecto de "folha recapitulativa de avaliação" baseada na avaliação por competências. Entendi que devia reagir prontamente, afim de explicar a razão porque - do meu ponto de vista - esta concepção de avaliação é, ao mesmo tempo, nefasta e inoperante. Reproduzo aqui o conteudo desta reacção pois, ao que me disseram, talvez pudesse ser útil a outros professores na mesma situação...

A minha primeira e principal crítica é a de que este projecto repele os saberes e as competências disciplinares do campo da avaliação. Mal se abordou o problema pelas competências, muitas vozes (e a minha entre elas) se elevaram para alertar contra uma possível deriva: uma atenção demasiado focada nas competências arriscava-se a ignorar ou a relegar para segundo plano os conteudos cognitivos. À época, foi-me dito que os programas e as bases das competências finais continuariam a estar solidamente fundadas nas competências disciplinares e, de permeio, aos saberes. Ora, o que actualmente se propõe excede as previsões mais sombrias: supressão pura dos conhecimentos e das competências disciplinares que deixam simplesmente de ser objecto de avaliação! Um aluno do 4º ano deve ser capaz, na disciplina de Física, de resolver uma equação do primeiro grau; se o professor de Matemática do 3º ano se basear na grelha que nos foi proposta, ele não terá a mínima garantia de que os conhecimentos estão efectivamente adquiridos, pois a competência "resover uma equação do primeiro grau" (que implica conhecimentos muito específicos de Matemática e não apenas resolver maquinalmente) não se resume obviamente nem a "informar-se", nem a "integrar", nem a "comunicar", nem a "reflectir", nem a "ser criativo", nem a "gerir a sua formação".

Em segundo lugar, este projecto pressupõe - e propaga - a ilusão de que será possível definir competências "transversais" de caracter geral, as quais fariam sentido fora de uma disciplina ou actividade particular. Por um lado, não é possível reflectir sobre matemática sem conhecer as matemáticas (e vice-versa); não é possível comunicar sobre economia sem conhecer a economia; não se pode ser criativo em música se não se tiver aprendido a (fazer) música. Por outro lado, se eu souber reflectir sobre matemática, isso não me garante que saiba reflectir sobre psicologia. Não se comunica um relatório de laboratório da mesma maneira que se comunica em expressão artística. Basta, aliás, olhar à nossa volta, na sala de professores, para se observar que um alto nível de competência (mesmo competências consideradas transversais) num domínio dado não implicam que num outro domínio evidenciem o mesmo nível. Além disso, as barreiras introduzidas por esta classificação parecem arbitrárias: é possível reflectir sem se informar? É possível ser criativo sem reflectir e sem integrar? Pode-se comunicar sem reflectir e sem ser criativo? etc.

O desejo de moldar a qualquer preço toda a avaliação a uma forma comum tem como consequência inevitável que as competências sejam formuladas de maneira extremamente vaga e genérica. Cada qual porá mais o menos aquilo que melhor lhe apetecer dentro de cada um dos cinco critérios apresentados. Poder-se-ia tomar como "brandura". Receio, acima de tudo, a desregulação. A avaliação pelas competências, principalmente na sua forma extrema, caricatural, que nos é proposta, só pode ampliar as disparidades de que tanto padece o ensino na Comunidade Francesa. Cada qual poderá interpretar o PISA como entender. É porém inquestionável que a grande lição deste inquérito internacional é a grande diversidade de níveis entre as escolas e em nenhum outro país as disparidades são tão fortemente marcadas pela origem social dos alunos.

Um dos elementos mais espantosos deste projecto é a escolha artificial das competências retidas. Porque estas e não outras? Quando li o documento oficial da Comunidade Francesa sobre "as competências tranversais dos saberes comuns às humanidades profissionais e técnicas", encontrei lá competências que - se, aos meus olhos, são ainda demasiado pobres, demasiado vagas e demasiado deslocadas dos conteudos cognitivos - são porém infinitamente mais concretas que as que foram propostas na grelha de avaliação que trouxe para casa. "Situar-se no espaço e no tempo", "apropriar-se de uma cultura", "apropriar-se de ferramentas de comunicação", "tomar consciência das implicações de uma escolha", "posicionar-se com respeito ao ambiente", "posicionar-se com respeito às tecnologias e às ciências", "aprender a fazer escolhas profissionais", "abrir-se à diversidade social e cultural", "agir como consumidores responsáveis", "compreender a organização política e o papel das instituições", etc. Eis competências que têm sentido! O documento desdobra cada uma delas numa dezena de pontos ainda mais concretos. Evidentemente, cedo reparamos que é impossível comprimir num boletim esta centena de micro-competências. Mas a solução também não está em escolher ao acaso cinco critérios tão vagos como aqueles que nos foram propostos. Este dilema mostra bem, pelo absurdo, quão inútil é pretender estabelecer uma grelha de avaliação com base em competências e, por maioria de razão, se se pretender que a grelha tenha um âmbito transdisciplinar.

Não me deterei sobre o volume de papeis administrativos que esta grelha implica: toda a gente vê isso. Este trabalho adicional para os professores, em algum lado haverá de ser acondicionado: em detrimento das aprendizagens e das correcções. Não nos alonguemos mais nas despesas soberbas em fotocópias necessárias para as 25x15 grelhas de avaliação para uma turma de tamanho normal. Estava eu convencido que a escola tinha falta de meios...

Para terminar, esta vontade de impor um modelo de avaliação padrão sugere-me uma espécie de gestão managériale das aprendizagens e da avaliação que não se coaduna à imagem que faço da educação. A decomposição das aprendizagens num grelha rígida de competências assemelha-se aos processos tayloristas que procuravam optimizar a produtividade decompondo o trabalho nos seus gestos elementares. Mas aquilo que pode ser eficaz no estudo de um processo de produção (à custa de condições de trabalho detestáveis - mas isso é outra história), não é eficaz de modo algum quando se passa para uma actividade de natureza infinitamente mais complexa como a educação. Este tipo de deriva é, aliás, constante na história das tentativas de inovação na didáctica: procurar camuflar debaixo de procedimentos pseudo-científicos a nossa dificuldade - de resto, inevitável - de avaliar os alunos. Há alguns anos, exigiram de nós, em nome do "rigor" e da "objectividade", que substituíssemos a avaliação por letras pela avaliação por números. Ao tempo, opus-me, porque contestava que fosse possível demonstrar que tal traria maior rigor científico à avaliação: há, em todo o julgamento escolar, um aspecto subjectivo importante. É melhor assumir esta parte de incerteza e permanecer consciente desse facto que pretender camuflá-lo por trás de notas com três decimais. Hoje, o projecto que nos é apresentado parece abandonar os números a favor dos "+" e dos "-". Sinais dos tempos. Na era do benchmarking e da mundialização, as ilusões cientistas já não tomam a forma de racionalidade numérica, antes a das grelhas e formulários pré-formatados, caras aos psicólogos das empresas...

Criticar é fácil, mas o que propões? Dir-me-ão. No estado actual do sistema de ensino na Comunidade Francesa, nada além daquilo que sempre fizemos: cada professor avalia, na base das competências e conhecimentos definidos no programa, a capacidade do aluno em prosseguir com êxito o ano seguinte. Sintetiza essa opinião numa nota (eu prefiriria que fosse uma letra, pelas razões acima indicadas, mas não é essencial). Quanto ao resto, ajusta, concretiza e explica oralmente no conselho de turma. Não vejo qualquer razão para alterar isto. O nosso problema, de resto, não é a avaliação, antes: como motivar os alunos? Como convencê-los a trabalhar? Como conseguir que compreendam? Como ajudá-los a ser mais organizados? Como colmatar as suas lacunas? Como melhorar o ambiente propício ao trabalho escolar sério, com serenidade? Qualquer destas questões é mais importante que a avaliação e não se resolve por meio de grelhas padronizadas.

Nico Hirtt, L’evaluation par « grilles de compétences »
publicado por L’école démocratique (Aped) em 25 de Julho de 2008

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Terça-feira, Agosto 12, 2008

David Brockschmidt - A Alemanha é soberana?

Contrato Secreto
Pela lei internacional, um país é soberano se tem o poder de tomar decisões internas e externas sem a interferência de outro país e sem sofrer pressões políticas de qualquer grupo interno ou externo.

A questão que coloco ao governo alemão e à Chanceler Angela Merkel é: É a República Federal Alemã hoje um estado completamente soberano segundo a sua própria lei e a lei internacional? Sim ou não?

Se a resposta é não, então explique, por favor, quais são as restrições internas ou externas impostas aos alemães. Se a resposta é sim, então explique a razão por que as questões que apresento em seguida não afectam a soberania alemã.
  1. A Alemanha não possui um Tratado de Paz com os países com os quais se esteve envolvido na Segunda Guerra Mundial. Foram 64 países, incluindo as quatro principais potências vencedoras: Estados Unidos da América (EUA), Reino Unido (RU), União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e França.
  2. A cláusula que considera a Alemanha e o Japão como inimigos continua em vigor na Carta das Nações Unidas e pode ser accionada em qualquer momento, se necessário, pela força militar.
  3. O governo actual afirma aos cidadãos e à comunidade internacional que as suas fronteiras actuais constituem a totalidade do território alemão. A decisão do Tribunal Constitucional alemão de 1973 afirma o contrário. O juízo refere claramente que o Reich Alemão ainda existe de jure dentro das fronteiras de 1937. Se olharmos para uma carta geográfica de 1937 e a compararmos com a actual, vemos claramente que há territórios alemães a Este que são hoje parte da Polónia e da Rússia. Estes territórios, de acordo com as decisões dos tratados das potências aliadas vitoriosas sobre a Alemanha nas conferências Teerão, Yalta e Postdam apenas deveriam permanecer sob administração polaca ou russa até que um tratado de paz fosse assinado com a Alemanha. Isto não aconteceu. Como é isto possível, que o governo alemão após a Segunda Guerra Mundial tenha entregue de jure estes territórios à Rússia e à Polónia, que os administram de facto? Faz algum sentido?
  4. Após a reunificação da Alemanha Ocidental com a Alemanha Oriental foi dito aos cidadãos alemães e à comunidade internacional que, conforme o Acordo dos 2 mais as 4 potências vitoriosas, que estas abdicavam dos direitos e das responsabilidades sobre as quatro zonas de ocupação no território alemão e respectivos sectores na Grande Berlim. Isto não foi feito!

    As quatro potências terminaram as actividades em território alemão, porém não abdicaram dos seus direitos.

    O documento oficialmente publicado do acordo dos 2+4 é muito claro a este respeito. O facto, porém, é que a maior parte dos direitos de ocupação dos aliados - EUA, RU e a França - sobre a Alemanha foram transferidos ou incorporados no assim chamado Estatuto das Tropas da NATO. Foi assim declarado forçosamente que os direitos dos Aliados da Guerra e do pós-Guerra sobre a derrotada Alemanha se mantinham e não foram abolidos.
  5. Os quatro pontos anteriores culminam com o dossier Kanzlerakte da Chancelaria. O governo da Alemanha Ocidental sob o Chanceler Konrad Adenauer, perante os altos comissários de três potências das forças acupantes, o EUA, o RU e a França, estabeleceram um tratado secreto datado de 21 de Maio de 1949, que foi assinado em 23 de Maio de 1949 pelo Chanceler Konrad Adenauer, o Presidente do Parlamento Alemão, Adolf Schönfeller e o vice-Presidente do Parlamento Alemão, Herman Schäfer. O ponto principal deste acordo secreto é o chamado Veto Aliado, que surge como consequência da cláusula que atribui o estatuto de inimigo à Alemanha e ao Japão pela Carta das Nações Unidas. Lá está dito:
    1. Que a imprensa alemã será controlada pelas potências ocupantes até 2099.
    2. Que as reservas de ouro da Alemanha são confiscadas como compensação.
    3. Que o assim designado Veto Aliado respeitante à derrotada Alemanha inclui qualquer decisão interna ou externa do Governo Alemão, tornando-se efectivo mediante o consenso dos três altos comissários militares ocidentais.
  6. O Major General Gerd Helmut Komossa, chefe do serviço de espionagem militar - Militarischer Abschirm Dienst (MAD) - desde 1977 até 1980, confirma este acordo top secret entre o governo alemão sob o Chanceler Adenauer e os aliados ocidentais no seu livro: Die Deutsche Karte - a Carta Alemã, Graz, 2007, ISBN: 978-3-902475-34-3, a páginas 21. Segundo o Major General Komossa, cada novo Chanceler Alemão fica obrigado a assinar o acordo secreto, o chamado Kanzlerakte, antes de tomar posse como Chanceler perante o Parlamento Alemão.
Permitam-me ainda os leitores recordar que as antigas zonas de ocupação pelas potências ocidentais estão hoje sob ocupação de forças militares dos EUA, RU, França, Canadá, Bélgica e Holanda. Esta persistência da ocupação da Alemanha pelos países mencionados é justificada e legalizada no quadro do Estatuto das Tropas da NATO que integra quase todos os direitos de ocupação das potências vencedoras sobre a Alemanha. As instalações militares dos aliados na Alemanha, como certamente no resto da Europa Ocidental e no Japão, são extra-territoriais, como as embaixadas estrangeiras. As leis e regulamentos locais não se aplicam dentro destas circunscrições militares.

Por favor, Senhora Chanceler da República Federal Alemã, Dr Angela Merkel, foi ou não obrigada a assinar o dossier do Chanceler - Kanlerakte e/ou qualquer outro documento cedendo a qualquer potência estrangeira limitações sobre a liberdade do seu povo ou a soberania da República Federal da Alemanha?

A ironia é que uma única potência vitoriosa, a Rússia (ex-URSS), abandonou permanentemente a zona de ocupação na Alemanha e o sector ocupacional na Grande Berlim!

Infelizmente, a 'soberana' República Federal Alemã não pode dar às restantes forças ocupantes ocidentais as respectivas guias de marcha. Isto iria contra os direitos dos aliados estabelecidos pelos acordos feitos entre três deles - Churchill, Roosevelt e Stalin - nas conferências de Teerão, Yalta e Postdam.

Em resumo: eu quereria estar de acordo com o ex-embaixador dos EUA na Alemanha, Kornblum, que informou enfaticamente as autoridades alemãs: "Vocês não são soberanos!" Esta declaração nunca foi repudiada ou questionada por qualquer governante alemão.

Assim, Senhora Chanceler, explique por favor! Eu pergunto:"O estado alemão soberano existe?"

NB:
  1. Nem todos os documentos do Acordo dos 2+4 entre os dois antigos estados alemães e os quatro aliados foram tornados públicos, e alguns estão classificados como secretos por muitos mais anos.
  2. Relativamente ao livro do Major General Gerd-Helmut Kossoma, publicado no ano passado, pergunto-me a mim próprio porque razão não terá havido um protesto ou pelo menos uma questão sobre o Kanzlerakte na imprensa alemã? Sertá que os alemães vivem num permanente estado de negação da sua própria história?
David Brockschmidt, The ‘Sovereign’ Federal Republic of Germany
publicado por Adelaide Institute em Maio de 2008

Grato ao raivaescondida pela pista. (AF)

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Quinta-feira, Abril 17, 2008

Manuel Resende - Basta de especulação, basta de crises!

Recebido por email de Carlos Júlio

Stop-finance

Caros amigos:

Surgiu em França um movimento para combater ao mesmo tempo a dominação da finança no capitalismo contemporâneo e o Tratado de Lisboa. É um movimento liderado essencialmente pelos economistas de esquerda (todas as tendências) que participaram na iniciativa pelo não ao projecto de Constituição Europeia. Creio que, neste momento, é uma iniciativa muito útil. Estão a tentar reunir, a nível internacional, o maior número possível de assinaturas até Junho.

O sítio web é o seguinte:

Spéculation et crises : ça suffit!

Pode assinar-se a petição.

Fiz uma tradução em português, que é a seguinte:

«Basta de especulação, basta de crises!

A desregulamentação da finança destrói as sociedades: destrói­‑as silenciosamente, dia a dia, quando os accionistas fazem pressão sobre as empresas, isto é, sobre os assalariados, a fim de extraírem deles maior rentabilidade, tanto nos países do Norte como nos do Sul; destrói­‑as à vista desarmada, com grande ruído, nas crises agudas em que se revelam brutalmente os inverosímeis excessos da cupidez especulativa e os seus ricochetes sobre a actividade económica e o emprego. Desemprego, precariedade, aumento das desigualdades: os assalariados e os mais pobres estão condenados a pagar os custos tanto da especulação, como dos danos que dela resultam.

Desde há duas décadas, a evolução da finança mundial mais não é do que uma longa série de crises: 1987, craque da bolsa; 1990, crise imobiliária nos Estados Unidos da América, na Europa e no Japão; 1994, craque obrigacionista americano; 1997 e 1998, crise financeira internacional; 2000-2002, craque da “nova economia”; e, por fim, 2007-2008, crise imobiliária e talvez crise financeira global.

Porquê tal repetição? Porque foram abolidos todos os entraves à circulação dos capitais e à «inovação» financeira. Quantos aos bancos centrais, que deixaram engordar a bolha financeira, não têm outra solução senão acorrer em auxílio dos bancos e dos fundos especulativos com falta de liquidez.

Não vamos esperar a próxima crise de braços cruzados, nem suportaremos mais as extravagantes desigualdades propiciadas pela finança de mercado. É que, sendo a instabilidade inerente à desregulamentação financeira, como poderão os irrisórios apelos à «transparência» e à «moralização» mudar seja o que for – e impedir que as mesmas causas venham a produzir os mesmos efeitos? Pôr cobro a isso­ pressupõe que se intervenha no cerne do «jogo», isto é, que se transforme radicalmente as suas estruturas. Ora, na União Europeia, toda e qualquer transformação vem a chocar­‑se com a incrível protecção que os tratados acharam por bem conceder ao capital financeiro.

Assim sendo, nós, cidadãos europeus, pedimos:

- a revogação do artigo 56.º do Tratado de Lisboa, que, proibindo toda e qualquer restrição aos movimentos desses capitais, proporciona ao capital financeiro todas as condições para exercer um domínio esmagador sobre a sociedade.

Pedimos ainda:

- a restrição da «liberdade de estabelecimento» (art. 48.º) que dá ao capital a oportunidade de se deslocar para onde as condições lhe são mais favoráveis, permitindo às instituições financeiras encontrar asilo na City de Londres ou noutro sítio qualquer.

Se, por «liberdade», há que entender a liberdade de as potências dominantes (hoje encarnadas na finança) reduzirem o resto da sociedade à servidão, digamos imediatamente que a não queremos: preferimos a liberdade dos povos, a liberdade de viverem livres da servidão da rentabilidade financeira.»

Manuel Resende

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Domingo, Março 30, 2008

Boris Vian - Le Déserteur

Durante a Guerra da Indochina (Vietname, ainda sob domínio colonial francês), três meses antes da queda de Diem Biem Phu, Boris Vian escreveu "O Desertor". Quando foi publicada, a canção provocou um escândalo e, pior que isso, em Novembro de 1954, quando se desencadeou a sublevação na Argélia, foi proibida de ser reproduzida na rádio por anti-patriotismo.



Monsieur le Président
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir
Monsieur le Président
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C'est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Ma décision est prise
Je m'en vais déserter

Depuis que je suis né
J'ai vu mourir mon père
J'ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants
Ma mère a tant souffert
Elle est dedans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers
Quand j'étais prisonnier
On m'a volé ma femme
On m'a volé mon âme
Et tout mon cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J'irai sur les chemins

Je mendierai ma vie
Sur les routes de France
De Bretagne en Provence
Et je dirai aux gens:
Refusez d'obéir
Refusez de la faire
N'allez pas à la guerre
Refusez de partir
S'il faut donner son sang
Allez donner le vôtre
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le Président
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n'aurai pas d'armes
Et qu'ils pourront tirer



Na versão original, os dois últimos versos eram:
"que je tiendrai une arme ,
et que je sais tirer ..."
Boris Vian aceitou a alteração sugerida pelo seu amigo Mouloudji para conservar o teor pacifista da canção.



Fonte: Paroles.net

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Terça-feira, Março 04, 2008

Laurent Lafforgue - Uma escola sem missão?

Cher Monsieur,
Je vous remercie beaucoup de votre message, de votre interet pour mes prises de position sur l'education et de votre traduction. Je sais bien sur que les problemes actuels de l'ecole ne concernent pas seulement la France mais tous les pays europeens ou occidentaux et peut-etre le monde entier.
Je suis d'accord bien sur pour que vous mettiez sur votre "blog" votre traduction de mon texte (en precisant bien sur que le texte original etait en francais puisqu'il s'agit d'un texte de conferences donnees en France).
En vous remerciant encore,
Avec mes sentiments les meilleurs et les plus respectueux,
Laurent Lafforgue.

Laurent LafforgueAs razões da destruição da escola

Como chegámos a este ponto?
Na minha opinião, a razão principal, que origina todas as outras, foi o esquecimento da razão de ser da escola: instruir, transmistir conhecimentos.
O esquecimento da missão da escola traduz-se em particular pelo florescimento de novos papéis que lhe foram sendo atribuidos por acréscimo: fazer desaparecer as desigualdades sociais, ensinar a "viver em conjunto", desenvolver as relações humanas, distrair os jovens o máximo tempo possível para os subtrair à influência da rua, para atrasar a sua entrada no mercado de trabalho... é preciso notar que, ao abandonar a missão para a qual foi feita, a escola não preencheu melhor os novos papéis, muito pelo contrário: a escola da instrução tinha mil efeitos secundários benéficos, enquanto a nova escola rotulada igualitária e racional, é muito menos igualitária, assiste no seu seio ao desenvolvimento da violência e falta de civismo numa escala que não era sequer imaginável há algumas décadas, não abre as portas ao mundo comum da razão e verte no mercado de trabalho jovens amargurados, mal preparados, tornados incapazes de trabalhar e de assumir responsabilidades.

Fique assente que tudo isto foi desejado, organizado e imposto, não pelos professores ou intrutores, mas por gente que, desde há trinta ou quarenta anos dirige a Educação nacional; e pela hierarquia ao seu serviço, cujos membros foram sendo recrutados, na sua grande maioria, em função da sua adesão aos princípios da nova escola.

Os políticos de ambos os lados e os dirigentes dos sindicatos maioritários carregam uma parte pesada da responsabilidade: seja porque puseram em questão, eles próprios, o bem fundado da instrução, seja porque desguarneceram os flancos aos destrutores da escola, seja porque usaram a Educação nacional como um escoadouro de expedientes para resolver depressa os problemas sociais, ainda que sob risco de agravar fortemente o futuro do nosso país. É assim que, não sabendo que fazer à multidão de estudantes dos "STAPS" (Sciences et Techniques des Activités Physiques et Sportives), criaram um novo concurso que os permitissem tornar-se instrutores e em que, como se fosse razoável, o francês e a matemática já não interessavam.

É também assim que os poderes públicos exercem uma pressão constante para que intervenham nas aulas os "intermitentes do espectáculo" que são demasiados, que têm necessidade de estar ocupados um número mínimo de horas todos os anos para poderem receber as indemnizações e que se quer ver afastados das ruas claro está, a expensas da aprendizagem fundamental, mas os governentes têm outras prioridades. Enfim, é assim que uma "missão de informação parlamentar sobre as disciplinas científicas" acaba de incentivar a Educação nacional a "sair dos modos tradicionais de transmissão dos saberes". O que significa, concretamente, que queram acabar de arruinar o ensino das ciências, depois do das letras.

Tendo sido desviada do seu princípio fundador, privada de bússula, impedida de manter a instrução como farol para o seu rumo, a organização da escola tornou-se aberrante em poucos decénios.

Os programas foram desarticulados, esvaziados de conhecimentos simples e elementares, a partir dos quais todos os saberes são construídos. Foi-lhe retirada quase toda a progressividade, desde a escola primária até ao fim do básico, e ocultou-se a supressão das aprendizagens de base fixando objectivos desmedidamente ambiciosos, destinados, não a serem alcançados, mas a atirar poeira aos olhos. As próprias disciplinas foram postas em causa, umas mais que outras, tendo-se afundado os horários de francês e matemática: por exemplo, mais de um terço na carga horária do francês na primária, desde os anos 60.

Os métodos foram baralhados. As lições e tudo o que se lhe possa assemelhar foram proscritas pela nova doutrina oficial, que estipula que o aluno deve construir os seus próprios saberes. Foi banida a aprendizagem dos rudimentos e a prática sistemática dos exercícios e pretendeu-se transformar as crianças em pequenos investigadores, pedindo-lhes que redescubram sozinhos em uma dúzia de anos o que a humanidade inteira elaborou em muitos milénios. Não se trata apenas da leitura, trata-se de tudo o que se quis ensinar globalmente, confontando os alunos com textos complexos sem lhes ter dado antecipadamente os elementos que os permitiriam analisar e compreender.

Enfim, as exigências baixaram em todos os níveis: em nenhum momento se exige a aquisição real de um conhecimento exacto. É assim que um quinto dos alunos que entram para a sexta classe são iletrados; a maioria desconhece a tabuada da multiplicação; e uma maioria ainda mais expressiva não sabe escrever correctamante.

Como paliativo entre muitos, promoveu-se a passagem de classe automática, em especial no fim do ano crucial de acesso a todos os cursos preparatórios.

Tornou-se automática a entrada do ensino básico, facilitou-se muito a entrada no liceu, ao mesmo tempo que se uniformizaram as fileiras gerais, de que resultou um nivelamento por baixo de tudo e de todos, tão completo que á hoje possível afirmar que, até ao fim do "Terminale", não existe em França fileira científica digna desse nome, tampouco fileira literária. Os problemas de matemática do actual bacharelato "S" requerem menos raciocínio que os problemas de aritmética elementar da certidão escolar. No que diz respeito às letras, recebi pelo menos um testemunho de um professor de um grande liceu parisiense que observou que as cópias de alguns dos seus alunos de hoje seriam indignas de alunos da sexta classe dos anos 60.

Neste quadro geral das causas do desastre que conhecemos, o lugar de honra é ocupado pelos IUFM que, desde há 15 anos, envenenam lentamente mas persistentemente o nosso sistema educativo: pela inépcia dos pretensos formadores que aí são colocados e que, em verdade, são empresas de deformação dos espíritos dos jovens instrutores e professores; pelo absurdo das doutrinas pedagógicas e outras auto designadas ciências da educação que aí reinam; pelo poder discricionário que dispõe a IUFM sobre os estagiários dado que, excepção feita aos agregados, a titularização depende dela. Recebi uma tantas mensagens de estagiários que descrevem em pormenor o que lhes é dito, e que devem suportar sem pestanejar. Recebi também testemunhos de formadores da IUFM entre aqueles que possuem verdadeiros conhecimentos disciplinares e que, por esse motivo, são mantidos à margem pelos detentores do poder. Assim, um deles escreveu: "Para resumir o que penso: por quanto conheço da IUFM, esta dimana mais de um absurdo campo de reeducação pelo trabalho, que de um instituto de formação. A IUFM é, em grande medida, um pouso de incompetentes e intriguistas que encontraram nela um meio propício (onde nem faltam os lucros) para se pavonearem".

O que se passa na IUFM é tanto mais grave quanto, mau grado haver estagiários que resistem interiormente àquilo que lhes é dito, deixem falar e não voltem a pensar no assunto, muitos outros deixam-se influenciar, sem se aperceberem de que se trata de doutrinas falaciosas, aquilo que lhes repisam ao longo de dias. A maior parte está tanto mais desarmada para opôr alguma resistência intelectual ou moral quanto mais tenha sido degradado o sistema educativo de onde proveio.

Laurent Lafforge in Il faut sauver l'école !

(tradução de António Ferrão a partir do original em francês)



Post Scriptum:
O francês Laurent Lafforgue é um dos maiores matemáticos da sua geração. Tem um curriculum científico esmagador: tem dezenas de artigos de referência nos temas mais profundos e abstractos da Matemática actual; resol­veu um problema fundamental conhecido como conjectura de Langlands, em aberto desde os anos 60, trabalhando com objectos matemáticos com o exótico nome de Shtukas de Drinfeld.

Jorge Buescu in L’Affaire Lafforgue
Já lhe ocorreu perguntar-se quais as razões do estado catastrófico do ensino em Portugal? A resposta pode vir de França.


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Domingo, Fevereiro 24, 2008

11 de Setembro - Por uma comissão de inquérito independente

Passadas algumas semanas sobre o Parlamento Japonês, é a vez da Europa abrir um debate sobre os acontecimentos do dia 11 de Setembro de 2001. Apesar de jornalistas e políticos franceses continuarem a sustentar a versão da conspiração islâmica da adminisração Bush, o eurodeputado italiano Giulietto Chelsa organizou uma jornada histórica que irá decorrer no Parlamento Europeu de Bruxelas no próximo dia 26 de Fevereiro, que inclui a exibição do seu filme "ZERO - Inchiesta sull' 11 Setembre."

Este documentário é fruto de um trabalho colectivo englobando oito meses de inquéritos, reportagens e entrevistas, tanto na Europa como nos Estados Unidos da América. O filme será seguido de debate com, entre outros, Giulietto Chiesa (jornalista e político italiano, membro da comissão de inquérito do Parlamento Europeu sobre as prisões secretas da CIA), Andreas von Bulow (antigo ministro alemão e especialista dos serviços secretos), Pr David Ray Griffin (autor de quatro livros de referência sobre o 11 de Setembro e especialista em processos de investigação) e Yukihisa Fujita (deputado japonês).

Esta iniciativa inscreve-se no movimento de resistência, agora com amplitude internacional, iniciado pelas famílias das vítimas e que apela à formação de uma comissão de inquérito internacional independente sobre o 11 de Setembro.

Ler a notícia completa aqui.

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Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008

Le Club des Cent (3)

Uma elite de adventícios

Elite francesaO Sr Fourtou, por exemplo, cresceu na região basca de Espanha junto do seu avô, que não frequentou a escola, e durante um curto período dirigiu um jornal e quiosque de livros para ajudar a família da sua mulher, após a sua formação na École Polytechnique.

"Cresci nem pobre nem rico," afirma o Sr Fourtou. "O meu pai foi um professor de matemática." Também os pais do Sr Bébéar foram professores na região da Dordonha, a Sudoeste da França.

Em vez de um sistema rígido de classes, foi a admissão do Sr Fourtou e do Sr Bébéar na École Polytechnique que garantiram os seus lugares dentro da elite. Isto é, por outro lado, uma das grandes ironias do situacionismo francês: ao mesmo tempo de gozam de privilégios análogos aos da elite dos Estados Unidos, a entrada na elite francesa é, no mínimo, de teor meritocrático muito mais acentuado, baseada em exames e selecções cada vez mais afunilados desde uma fase muito precoce.

O acesso à Universidade de Harvard, restringido a 9% dos candidatos, é uma suave aragem quando comparado à entrada na École Polytechnique.

Em França, dos 130 mil alunos que optam pelas áreas de ciências nas escolas secundárias, só cerca de 15 porcento conseguem nota nos exames suficiente para se candidatarem aos cursos de dois ou três anos de preparação para as universidades de elite. Dos que conseguem, 5 mil candidatam-se à École Polytechnique, referida simplesmente por "o X", e destes apenas 400 provenientes da França conseguem entrada.

A admissão é estritamente baseada nos exames dos cursos preparatórios; não há sequer um teste ou entrevista. E também não há admissões por desempenhos escolares extemporâneos, desportivos ou de outra ordem, para curto-circuitar as dificuldades de entrada "no X", tão usuais aqui nos Estados Unidos.

"Podes ser mesmo sobrinho do presidente, para entrares isso em nada te ajudará", diz Bernard Oppetit, um graduado do X de 1978 que trabalhou mais tarde no BNP Parisbas, antes de fundar a "Capital Centaurus", um fundo de investimentos londrino que gere uma carteira de 4 mil milhões de dólares.

A École Polytechnique foi fundada em 1794, durante a Revolução Francesa, para treinar os engenheiros militares franceses, e oficialmente permanece debaixo da tutela do ministro francês da Defesa. Não só esta escola é gratuita, como os seus estudantes recebem uma bolsa do governo para suportarem as suas despesas.

"Chamamos-lhe elitismo democrático," diz Pier Tapie, decano da Essec, uma escola de topo em gestão. "Estes são lugares em que podes encontrar-te com gente extraordinária, que estão lá porque se esforçaram muito e, entre eles, estão os elementos mais brilhantes de uma geração."

Ainda que a escola ministre temas dos mais avançados, tais como física, engenharia e ciências de computação, o seu propósito mais lato é o de criar quadros dirigentes que partilhem uma visão ordeira, hierarquizada do mundo, afirma Xavier Nichel, o presidente da École Polytechnique e general francês no activo dentro das forças armadas.

Em França, isto é conhecido como o sistema cartesiano, em homenagem ao filósofo René Descartes, e o Sr Michel encoraja os seus estudantes a "modelar" o mundo. Quando eventualmente se tornam directores executivos, assevera, "eles compreendem as capacidades das suas empresas. Sabem o que podem e o que não podem fazer."

Até ao momento, claro, em que o modelo começou a descarrilar - como acontece muitas vezes no mundo dos negócios e da finanças, qualquer que seja o país onde se exerçam.

O prejuizo de sete mil milhões de dólares provocado pelo Sr Kerviel não podia ter sido previsto por qualquer modelo, nem que fosse elaborado pelo próprio Descartes. Esta é uma razão pela qual a história da Société Générale representou um choque tão grande no situacionismo francês, que se orgulha da sua capacidade de previsão e respeito pela ordem que o Sr Michel instila nos seus estudantes.

Entre o povo francês indiferenciado, por outro lado, os destinos tão diversos do Sr Kerviel e do Sr Bouton reforçam o cepticismo nos valores do mercado livre cada vez mais apregoados pelos dirigentes dos negócios e também pelo nómada de circunstância, política e economicamente mais relevante, o Presidente Sarkozy.

NELSON D. SCHWARTZ and KATRIN BENNHOLD in
In France, the Heads No Longer Roll
publicado pelo The New York Times em 17 de Fevereiro de 2008

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Terça-feira, Fevereiro 19, 2008

Le Club des Cent (2)

O Senhor Bébéar

Ecole Polytechnique"Em França a Administração não despede o Chief Executive Officer (CEO) com a mesma facilidade que nos EUA", disse o Sr Bébéar. "Pensamos que o CEO é responsável, porém despedi-lo de repente não é a melhor maneira de melhorar as coisas."

O Sr Bébéar, que adquiriu larga experiência nos EUA com a compra que a AXA fez de conhecidas firmas americanas tais como a Equitable Life Insurance e a Mutual of New York, disse também que "por vezes, sinto que o CEO é o bode espiatório no vosso país".

Para se chegar ao escritório do Sr Bébéar, os visitantes atravessam um átrio de vidro ultramoderno numa das artérias mais encantadoras de Paris, a Avenida Matignon, e entram numa mansão privada construida em 1767. O frémito high-tech do átrio rapidamente desaparece quando entramos no grande salão, onde sobressai um candelabro de cristal de Luis XVI, espelhos debraodos a ouro e cadeiras e sofás vermelhas e verdes.

O escritório do Sr Bébéar é igualmente faustoso e, como convém, este senta-se numa cadeira talhada da era de Luis XV, o Rei Sol. O celebrado estatuto régio atribuido a executivos dos EUA tais como John F. Welch Jr, ex-presidente da General Electric, empalidece face ao esplendor dos titãs da finança e indústria francesa.

"O CEO de uma companhia francesa é mais monarca que nos EUA", disse o Sr Bébéar. Desenvolvendo o tema, comparou os chefes executivos da França ao rei iluminado de Voltaire, ou "le monarque eclairé". No interior da França, o Sr Bébéar, agora com 72 anos, é tão da realeza como um rei.

"A imprensa trata-o como o padrinho do capitalismo francês. Ele é emblemático," diz Philippe Favre, presidente da Invest em França, uma agência governamental que encoraja companhias estrangeiras a fazer negócios em França.

Embora o Sr Bébéar construisse a AXA nos anos de 1980 e 1990 por meio de aquisições ousadas, o poder que agora disfruta vem-lhe de ligações com administrações empresariais onde trabalha e de amizades estreitas conseguidas em organizações como o Clube des Cent - além de anfitrião de festas sociais na sua propriedade próxima de Orleães. Como outros membros do situacionismo, tem muitos conhecidos seus comprometidos no affair Société Générale, de uma forma ou de outra.

Por exemplo, Jean-Martin Folz, o membro da administração da Société Générale que dirige a investigação interna sobre os prejuizos, também é membro da administração da AXA. O Sr Bébéar, entretanto, participa na administração do BNP Paribas, o maior banco francês sobre o qual há rumores de preparar uma oferta pública de aquisição à Société Générale. O presidente do BNP Paribas Michel Pébereau, por sua vez, é também membro da administração da AXA. Todos os três frequentaram a mesma escola, a École Polytechnique.

"É um universo reduzido", reconhece Jean René Fourtou, o presidente da Vivendi, o colosso francês do entretenimento, um conhecido próximo do Sr Bébéar e membro da administração da AXA.

O Sr Fourtou, igualmente graduado pela École Polytechnique e membro do Club des Cent, relembra o papel de Bébéar na sua decisão de tomar posse como presidente da Vivendi em 2002, no período em que a empresa havia caído num depressão financeira profunda associada à espiral de aquisições das dot-com.

"Inicialmente, recusei o trabalho", esclarece o Sr Fourtou. Mas num jantar no Hotel George V, o Sr Bébéar e o Sr Giscard d'Éstaing (outro aluno da École Polytechnique) tê-lo-ão persuadido a dirigir a Vivendi. Rapidamente se concentrou na empresa, tornando-a num dos negócios mais bem sucedidos nos últimos anos.

"Disseram-me que tinha que ir", recorda, tendo-se sentido pressionado para ir para a Vivendi. "Senti-me obrigado".

Quanto á crise que a Société Générale vive actualmente, o Sr Fourtou diz que é melhor que o Sr Bouton não parta já. Mas esclarece que não afirma isto por consideração para com o Sr Bouton, por convivência no Club des Cents ou por quaisquer laços.

"Se mudares o presidente imdiatamente, espalhas confusão a um problema que está localizado", afirma. Também afirma que o apoio da Société Générale ao Sr Bouton faz sentido: "A administração tomou a decisão certa, e não por causa da solidariedade".

Ainda que jantar e discursar num jantar em um dos restaurantes com estrelas Michelin possa parecer um epítome de um modo de vida aristocrático - em cada refeição, um dos membros do Club des Cent, investido como "Brigadier", faz a apresentação da selecção de pratos e de vinhos; um outro faz as apreciações críticas - muitos membros provêm de origens relativamente modestas.


NELSON D. SCHWARTZ and KATRIN BENNHOLD in
In France, the Heads No Longer Roll
publicado pelo The New York Times em 17 de Fevereiro de 2008

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Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008

Le Club des Cent

Elite francesaParis: De todos os clubes do mundo, o Clube dos 100 em França deverá ser o mais exclusivo. Nas suas fileiras há dirigentes dos negócios, da política e da lei; é porém a sua política de admissão que torna o Clube des Cent, como é aqui conhecido, verdadeiramente notável: só quando morre um dos seus membros há lugar à entrada de um novo membro.

Oficialmente, o clube, agora com 96 anos, está estritamente devotado à gastronomia e quando o grupo se junta aos almoços de quintas-feiras num dos restaurantes lendários de Paris, como o Maxim's, a política e os negócios ficam de fora. Claude Bébéar, o presidente da AXA, o gigante francês dos seguros e membro do clube há mais de duas décadas, afirma que hé "uma atmosfera real de amizade; somos muito próximos". O mesmo acontece com as instituições de negócios francesas. Uma irmandade cerrada - são quase todos homens - que partilham ligações escolares, lugares de administração e rituais como a caça ou a prova de vinhos, a elite de negócios francesa é um conciliábulo surpreendetemente pequeno numa nação com mais de 60 milhões de pessoas.

Mas no dealbar do prejuízo de 7 milhões atribuido a um especulador num dos bancos principais do país, a Société Générale, a aristocracia francesa dos nossos dias encontrou-se num lugar onde nunca desejou estar: debaixo dos holofotes.

Enquanto que o especulador John Kerviel, agora preso, nunca foi aluno numa escola de topo ou membro de um grupo de elite como o Clube des Cent, o blindado presidente executivo da Société Générale, Daniel Bouton, foi ambas as coisas. O facto de o Sr Bouton e outros gestores de topo do banco terem permanecido nos seus postos quando o escândalo irrompeu há cerca de um mês fez renascer a crítica de que a elite francesa é um ancien régime - jogando com regras antigas (basicamente as suas próprias) e rápidas em desviar as culpas para se protegerem a si próprias.

"Haverá uma tendência em França para que as elites sejam feitas do mesmo molde e fileiras fechadas?" - interroga-se Bernard-Henry Lévy, o filósofo e observador social francês. "Sim, é uma antiga doença francesa."

Nos Estados Unidos, no Reino Unido ou na Alemanha, acrescenta Lévy, "Daniel Bouton não só teria perdido o seu emprego, como estaria num tribunal a ser interrogado."

Claro está, a controvérsia chega num momento de mais ampla tensão tanto para os negócios como para a política, com uma nova geração lutando pelo poder contra velhos guardas empedernidos, diz Stéphane Fouks, o co-director executivo da Euro RSCG, uma das maiores firmas de marketing e comunicação em França.

"Neste momento o capitalismo francês está mergulhado num crise e a criar um ponto de mudança", disse o Sr Fouks. No status quo tradicional, disse, "eram todos amigos, muito diplomáticos e constituíam um clube onde, ao fim do dia, era sempre melhor procurar um entendimento".

Os membros da elite não fazem segredos das regras do jogo. "Quando pertences a um grupo pequeno, é difícil ter uma atitude de antagonismo para com qualquer outro", disse Valéry Giscard d'Éstaign, ex-presidente da França. "Num grupo maior, há menos interferências nas considerações pessoais".

O Sr Bouton não se dispôs a comentar. Mas Philippe Citerne, co-director executivo do concelho de administração da Société Générale disse que as ligações estatutárias nada têm a ver com a permanência do Sr Bouton.

"O concelho de administração reiterou por duas vezes e por unanimidade a sua confiança no Sr Bouton", disse. Não há maneira de oferecermos serviços a 27 milhões de clientes em 82 países, caso fôssemos um pequeno clude francês.

Pelo menos metade das 40 maiores empresas de França são dirigidas por graduados de duas escolas, a École Polytechnique, que ensina os melhores engenheiros franceses, e a ENA, a escola nacional de administração. Isso é especialmente notável se repararmos que estas duas escolas em conjunto apenas graduam 600 estudantes por ano, que podemos confrontar com um único curso em Harver, que gradua 1700 por ano.

"Comportam-se como se tivessem relações de sangue", disse Ghislaine Ottenheimer, um jornalista e autor que escreveu muito sobre a elite francesa. "Há um sentido de impunidade porque não há sanções na família."

No entanto, o caso Kerviel e principalmente o destino do Sr Bouton - até o Presidente Nicolas Sarkozy sugeriu que o sr Bouton deveria demitir-se - abanaram o status quo francês no seu âmago e encorajaram aqueles que, como a Sra Ottenheimer, pretendem a mudança.

"O velho sistema está a morrer; este é o seu último suspiro", disse. O Sr Boutom faz parte de uma geração que irá passar rapidamente o controlo do capitalismo francês para uma elite mais alargada."

Talvez. Mas não parece que o Sr Bouton esteja na iminência da guilhotina, ao contrário dos executivos dos EUA na Citigroup e na Merry Lynch, que foram obrigados a demitir-se depois dos seus bancos terem sofridos prejuizos imensos na crise das hipotecas de alto risco.

Enquanto alguns analistas prevêm que a resignação ao cargo de Bouton venha a ocorrer dentro de um ano, talvez mesmo mais cedo, o Sr Bébéar da AXA afirma que os executivos franceses gozam de maior poder de permanência que os seus congéneres nos Estados Unidos.

NELSON D. SCHWARTZ and KATRIN BENNHOLD in
In France, the Heads No Longer Roll
publicado pelo The New York Times em 17 de Fevereiro de 2008

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Quarta-feira, Fevereiro 06, 2008

Giap, o professor

Vo Nguyen Giap é apresentado habitualmente como um general e nesta qualidade não lhe são poupados elogios. Menos conhecida é a sua profissão civil: professor de História do ensino secundário. (AF)



General GiapO general de quatro estrelas Vo Nguyen Giap conduziu os exércitos no Vietname desde que se formaram, na década de 1940, até ao momento da sua entrada triunfal em Saigão, em 1975.

Detentor de uma das mentes mais brilhantes entre os militares deste século (XX), a sua estratégia para vencer adversários mais poderosos não se resumia a suplantá-los no terreno, mas em afectar o seu poder de decisão infligindo desaires políticos desmoralizadoras por meio de tácticas notáveis.

Esta faceta revelou-se logo em 1944, quando Giap fez avançar a sua minúscula força contra um posto francês na Indochina. O momento que escolheu para o fazer foi a véspera do Natal. Mais devastadora, a sua ofensiva de 1954 num lugar chamado Dien Bien Phu atraiu os franceses, demasiado confiantes da sua superioridade, para um ponto onde se verificou a viragem da batalha, culminado numa vitória espantosa com posicionamentos brilhantes. Demonstrou sempre talento em aproveitar as forças do inimigo como se fossem fraquezas para serem exploradas.

Um quarto de século mais tarde, em 1968, o general lançou uma ofensiva surpresa contra as forças americanas e sul-vietnamitas na véspera das celebrações do Novo Ano lunar. Foram tomadas capitais de província por todo o país, levados a cabo ataques simutâneos a guarnições militares e, talvez mais espantoso, invadida a Embaixada dos EUA em Saigão. As baixas para as forças norte-vietnamitas foram tremendas mas o gambito resultou num desastre fulcral para o discurso mediático da Casa Branca e para a presidência de Lyndon Johnson. A estratégia de Giap derrubou o comandante-em-chefe dos EUA. Inverteu a maré da guerra e selou a fama do general como o génio militar dominante da segunda metade do século XX.

John Colvin author of "Giap Volcano Under Snow"

in Tet Offensive
publicado por Vets With A Mission




Vo Nguyen Giap nasceu na aldeia de An Xa, na provícia de Quang Binh. O seu pai a a sua mãe, Vo Quang Nghiem e Nguyen Thi Kien trabalhavam a terra, alugavam alguma aos vizinhos e viviam de forma razoavelmente confortável. Aos quatorze anos, Giap tornou-se estafeta da Companhia Eléctrica de Haiphong e logo a seguir fez parte de um grupo de juventude revolucionária romântica, o Tan Viet Mang Dang. Dois anos mais tarde entrou para um liceu dirigido por franceses em Hué, de onde foi expulso passados outros dois anos por organizar a luta dos estudantes, segundo narra o próprio. Em 1933, com 21 anos, Giap entrou para a Universidade de Hanoi. Leccionou depois História, durante um ano, na escola Thang Long de Hanoi. Na década de 1930 prosseguiu a sua actividade como professor e jornalista...

in Vo Nguyen Giap
publicado por Wikipedia

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Quinta-feira, Janeiro 24, 2008

Société Generale - Trapaça gigantesca

Societe Generale

O Banco francês Société Generale anunciou ter descoberto uma fraude gigantesca, provocada por um trapaceiro, de que resultou um prejuízo de 4,9 mil milhões de euros.

O banco acrescentou que a fraude se baseou em transacções simples, mas foi oculta por meio de tecnicas diversificadas e sofisticadas.

Também anunciou novos prejuízos de 2,05 mil milhões de euros devido à crise dos créditos de alto risco dos Estados Unidos.

As acções do banco, que foram suspensas durante a manhã, sofreram uma queda de 3,6% quando voltaram a ser negociadas.

A Société Generale esclareceu que um traficante cometeu o que foi designado por posições fraudulentas de grande envergadura durante os anos de 2007 e 2008, ultrapassando a sua competência.

A fraude é uma réplica extraordinária de uma outra cometida pelo trapaceiro Nick Leeson, que levou ao colapso do banco Barings em 1995, disse o correspondente da BBC para a área de negócios Nils Blythe.

Só que os prejuízos descobertos pelos patrões do Barings ascenderam apenas a 1600 milhões de euros ou seja, cerca de um quarto daquilo que perdeu a Société Generale.

Negócio secreto

O banco, um dos maiores de França, precisa de novos capitais no valor de 5,5 mil milhões de euros para se recompor do prejuízo.

Mas garantiu que, ainda assim, terá um lucro de 600 e 800 milhões de euros em 2007, apesar do rombo na sua folha de balanço.

O banco acrescentou que o negociante possuía conhecimentos profundos dos procedimentos de controlo, adquiridos durante uma antiga posição que deteve num departamento bancário.

As transacções fraudulentas eram simples - incidindo sobre subidas de acções - mas camifladas por técnicas extremamente diversificadas e sofisticadas, disse o director executivo Daniel Bouton num carta dirigida aos clientes do banco.

O banco acrescentou que o traficante confessou a fraude e foi demitido. Os seus chefes abandonarão também o banco.

Lamento mas não compro a ideia de que um traficante possa empreender um 'negócio secreto' de 4,9 mil milhões de euros sem que alguém seja capaz de o descobrir, disse Ion-Marc Valhi do banco Amas.

Frederic Hamm, fundador do Agilis Gestion, crê que a fraude tem impacto na reputação do banco.

O Sr Bouton colocou o lugar à disposição, mas a administração rejeitou o pedido de demissão.

Richard Fuld, presidente do Lehman Brothers, disse ao correspondente da BBC em Davos que nada me espanta, nada me surpreende verdadeiramente nos dias que passam.

Acontecimento sem precedentes

Os prejuízos do banco afectaram gravemente os ganhos em 2007.

A companhia irá apresentar os resultados a 21 de Fevereiro próximo, tendo já anunciado que espera um lucro entre 600 a 800 milhões de euros.

As acções da Société Generale caíram 50% nos últimos seis meses.

A Société Generale irá também aumentar o capital em 5,5 mil milhões de euros para reforçar o seu activo.

Entretanto, outro banco francês, o BNP Parisbas disse que não detectou perdas que justificassem qualquer alerta para o mercado.

Gilles Glicenstein, director executivo do BNP Paribas, deixou entender que faltam peças de informação para se compreender o que se passou na Sociéé Generale.

Dada a amplitude da fraude, deve haver uma explicação complexa ... para a Société Generale, isto é um acontecimento sem precedentes, acrescentou.

O Sr Glicenstein disse também que estas não eram boas notícias para os bancos em geral, pois podem lançar dúvidas.

Noutros tempos, este tipo de notícias era escondido, porém hoje há uma tendência para revelar tudo e talvez seja revelando tudo que se consiga refazer a confiança, disse.

O primeiro-ministro francês, Francois Fillon, disse que a Société Generale tomou medida sérias para lidar com a situação.

Reparei que o Banco de Fraça informou que não há razão para nos preocuparmos com a saúde da Société Generale e estou satisfeito com isso, acrescentou.

Fonte: Rogue trader to cost SocGen $7bn,
publicado por BBC News em 24 de Janeiro de 2008

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Quinta-feira, Dezembro 13, 2007

França - Inflacção anual atinge 2,4%

Artigo: L'inflation au plus haut depuis trois ans
publicado por Le Monde a 13 de Dezembro de 2007
Bandeira francesa
Institut national de la statistique et des études économiques (Insee):
A progressão do índice de preços ao consumidor registada em Novembro resulta essencialmente da nova subida dos preços dos produtos petrolíferos.

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Quinta-feira, Dezembro 06, 2007

Der Spiegel - Fricções germano-gaulesas

Já começam a manifestar-se ao mais alto nível as forças centrífugas latentes dentro da União Europeia. As posições agora assumidas pelos mais altos dirigentes dos principais estados europeus não são novas, mas foram sempre pronunciadas à boca pequena. Assim foi, até que a presidência da comissão e a presidência da União foram entregues a duas figurinhas ridículas. Agora podemos assistir ao vivo e a cores ao resultado lógico dos gestos precipitados, que não têm em conta as condições políticas. (AF)

Angela Merkel e Nicola Sarkozy


A chanceler alemã Angela Merkel opôs-se firmemente à visão do presidente francês Nicolas Sarkozy de uma União Mediterrânica. Merkel crê que o bloco proposto põe em risco o núcleo da União Europeia e pode libertar forças explosivas.

Como contrapartida à formação pela França de uma união mediterrânica excluindo a Alemanha, esta poderá formar uma união com os países do leste, nomeadamente a Ucrânia...


Ler mais em: Merkel Slams Sarkozy's 'Club Med' Plans
publicado por Spiegel Online Internacional a 6 de Dezembro de 2007

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Quinta-feira, Novembro 22, 2007

Joël Perino - Os professores e a riqueza

Crescimento PIB França

Ambos eram professores primários. Chamá-los-emos Aimée e Alberto. Começaram as suas carreiras pouco depois da 2ª Guerra. Em 1950 instalaram-se finalmente na mesma cidade. Por volta de 1955 compraram o seu primeiro carro, um Simca. No Verão foram acampar com os seus três filhos. Na cidade onde viviam, eram pessoas tão importantes como o padre e o presidente da Câmara. Habitavam uma residência reservada ao seu estatuto. Chamavam-nos: O casal de regentes. Se um gaiato era castigado, tentava a todo o custo impedir que os seus pais tomassem conhecimento, com medo de um segundo castigo do pai. Alberto reformou-se aos 55 anos, mantendo-se por algum tempo como secretário da Câmara. Não por neceesidade, mas por satisfação. Pelos seus três filhos, Aimée pode reformar-se mais cedo, aos 52 anos. Com as suas economias, compraram um bom apartamento. A reforma era confortável e passaram a viajar com outros sócios do clube dos antigos professores.

Se atribuirmos o valor 200 ao Pruduto Interno Bruto da França em 1948, obtemos, a preços constantes (francos), cerca de 1500 em 2004. Ou seja, segundo o Institut National de la Statistique et des Études Économiques, um crescimento da riqueza de cerca de 750% ou até mais.

Foi precisamente em 2004 que Alexia e Antoine começaram as suas carreiras de professores. Hoje ganham 3300 euros e pagam 1050 euros de renda de casa além de uma boa parte do salário à creche dos seus dois filhos. Têm um Scenic de ocasião e um Twingo apodrecido. António faz 80 kilómetros por dia e Alexia 30. Hesitam em prolongar as saídas de férias. Aguardam por uma colocação na mesma cidade. Interrogam-se sobre a possibilidade do terceiro filho. A muito custo conseguem pôr algum dinheiro de lado. Ainda não estão no inferno, mas já não estão no paraíso. O pior é a falta de consideração. Quando um gaiato é castigado, não raro os pais vêm sacar-lhes explicações, exibindo sem pudôr o seu nível de vida superior. Antoine reformar-se-á, no melhor dos casos, aos 60 anos e Alexia um pouco antes. Isto, se tudo correr bem e os seus contratos não foram unilateralmente renegociados.

Há dias que Antoine e Alexia se questionam: Para onde foi toda esta riqueza? Esta bela multiplicação do Produto Interno Bruto por 7,5? Porque razão se esgotam tanto, quando os seus avós foram tão bem sucedidos? Que sociedade é esta que trata os seus professores de forma tão impiedosa?

Fonte: JoëlIP,
Richesse
publicado por Dernières nouvelles de l'homme a 21 de Novembro de 2007

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Terça-feira, Novembro 20, 2007

O caso Lafforgue - Minoria perigosa

Laurent LafforgeSeria muito interessante que os responsáveis das direcções nacionais do Ministério da Educação nos últimos anos não se escondessem hoje no anonimato envergonhado. O livro refere-se à França, mas a realidade descrita é, em quase todos os aspectos, idêntica em Portugal.(AF)
...
a deriva que a Escola e o conjunto do sistema de educação sofreram, e da qual constatamos os efeitos, não parece ser imputável aos docentes - contra a opinião dos quais ela foi feita, e que continuam a trabalhar em condições cada vez mais difíceis -, nem aos pais dos alunos - que gostariam que os seus filhos aprendessem mais, e que se queixam cada vez mais do estado actual da escola -, mas antes a uma minoria de pessoas influentes bloqueadas por a priori ideológicos e incapazes de reconhecerem os seus erros. Nos últimos trinta anos, essa minoria conseguiu, infelizmente, tomar conta de todos os organismos de controlo da Educação Nacional...; essa minoria esforça-se por impedir a avaliação das suas acções e recusa-se, na maior parte dos casos, a ouvir as opiniões dos docentes e dos especialistas independentes.

in Roger Balian e outros
Eduquês: Um Flagelo sem Fronteiras - o caso Lafforgue
publicado por Gradiva em Setembro de 2007

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Domingo, Outubro 28, 2007

David Prud'Homme - Não vendamos a nossa democracia ao desbarato

Agora Vox


O tratado modificativo europeu, sobre o qual chegaram a acordo os 27 estados membros, não removeu as lacunas democráticas já identificadas no defunto tratado constitucional. Estaremos condenados a subjugar-nos à vontade do príncipe ou existirá algum meio de influenciar a decisão final?

O cidadão lambda que eu sou foi recentemente informado que os 27 governos europeus concordaram entre si um tratado europeu dito modificativo (conhecido entre nós como simplificado). Este será ratificado pela França antes do final de Dezembro por via parlamentar. Não tendo conhecimento do texto até ao presente, apresso-me a escutar o alerta daqueles que seguem este processo e, à frente deles, o de Etienne Chouard, o primeiro a sinalizar o risco que representou para as nossas democracias o tratado constitucional europeu (TCE).

Que nos diz ele? Detalhes à parte, o essencial dos aspectos polémicos foram reconduzidos para o tratado simplificado. Nomeadamente nos cinco pontos seguintes (serei sintético, como habitualmente, mas os pormenores poderão ser apreciados na entrevista ao Liberation ou no portal do autor):
  • O executivo (a Comissão e o Conselho de ministros) dispõe de poderes excessivos, não submetidos ao controlo dos deputados.
  • Os juízes europeus são nomeados pelo executivo, o que é contrário ao princípio da separação dos poderes.
  • A persistência da perda de soberania monetária (impossibilidade de os estados emitirem moeda, efectiva desde Maastricht, mas crescentemente problemática segundo Chouard).
  • A revisão da constituição será feita sem participação popular.
  • Irresponsabilidade dos membros do executivo; nem o Conselho europeu, nem o Conselho de miinistros ou o Parlamento são responsáveis perante qualquer autoridade constituida.

É preciso lembrar que a separação dos poderes executivo, legislativo e judiciário é uma condição sine qua non do bom funcionamento democrático assim como a responsabilidade dos representantes de cada um dos poderes face aos restantes. Se o texto proposto po Nicolas Sarkozy e Angela Merckel for adoptado, renunciaremos por algumas dezenas de anos às frágeis conquistas democráticas da nossa própria Constituição.

Dado que, desta vez, estamos dispensados de nos pronunciarmos por meio de referendo, as nossas opiniões enquanto cidadãos de nada valem. Dever-se-á aceitar - sem fazer nada - que seja votado pelos parlamentares aquilo contra o que se levantaram os cidadãos dos países baixos e a França?

Alguns dos que votaram NÃO em 2005 fizeram-no por razões claramente europeístas. Quando nos falam de constituição europeia, isto é, de leis constitucionais supranacionais, devemos ter o cuidado de observar o que elas garantem ou seja, que melhorias trazem aos princípios democráticos já estabalecidos à escala nacional. O Tratado Constitucional Europeu ameaça os princípios democráticos, logo votámos NÃO.

O nosso cuidado é duplamente motivado. Por uma lado, a História mostra que nenhuma democracia está ao abrigo da sua própria destruição e, por outro lado, sabemos que num futuro próximo serão colocadas questões fundamentais para as nossas sociedades ou civilizações ou mesmo a para espécie humana no seu todo. Ignoramos alguns riscos ecológicos, dependerá da vontade política reduzi-los ou não. Também sabemos que as tecnologias biológicas comportam tantos benefícios quanto ameaças, a vontade política é novamente chamada a distingui-las. Finalmente, as nanotecnologias, ainda incipientes, contêm potencialidades de utilização abusiva que são assustadoras e também aqui será necessário um enquadramento político para definir a sua utilização.

Mas como conseguir isto? Há quem, como Anne-Marie Le Pourhiet (na tribuna publicada em Marianne e retomada pelo Contre Info), apele cruamente à insurreição ou, no mínimo, que os parlamentares se reunam em Corte Suprema para deliberar a "fuga do presidente às suas obrigações, cometendo actos manifestamente incompatíveis com o exercício do seu mandato". Outros pretendem que a oposição cumpra o seu papel, quando é certo que o PS se prepara, na melhor das hipóteses, para se abster.

Eu proponho uma petição, outra petição e mais outra petição, pois apenas podemos contar com isso: a nossa qualidade de cidadãos para conseguirmos ser escutados.

Pouco antes do referendo de 2005 já havia entre nós quem detectasse que tanto o SIM como o NÃO seriam insatisfatórios e, em conformidade, apresentámos uma petição para a eleição de uma assembleia constituinte europeia. Esta exigência mantem-se actual e está aberta aos cidadãos dos 27 países membros, estando agora ao critério de cada um julgar dos seus méritos.

Fonte: David Prud'Homme em
Europe : ne bradons pas NOTRE démocratie !,
publicado por Agora Vox, le média ctoyen em 26 de Outubro de 2007

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Quarta-feira, Julho 11, 2007

Sarkozy - Adiar o equilíbrio da balança comercial

SarkoizyQuando se trata da política fiscal europeia, o presidente Sarkozy não brinca. Quer adiar por dois anos os objectivos do déficit e questiona a independência do Banco Central Europeu, para grande desgosto da Alemanha.
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O presidente franziu o sobrolho quando se convidou a si próprio para uma reunião de 13 ministros das finanças da zona euro na passada segunda-feira.
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Realces de: Sarkozy's 'General Attack' on the Eurozone
Publicado por Spiegel Online em 11 de Julho de 2007

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