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Terça-feira, Novembro 24, 2009

Embora todos entregar?

Se o ciclo de avaliação não é para ser suspenso, então porque é que não havemos de entregar todos os objectivos e a ficha de auto-avaliação?
Eu, que não entreguei os objectivos individuais, e que entreguei a minha ficha em branco só para não comprometer a minha escola perante represálias do ministério, vejo-me agora no pleno direito de entregar esses documentos, de maneira a colocar-me em igualdade de direitos com aqueles que se conformaram com o modelo que agora foi abaixo.
Não vejo porque é que não se há-de arranjar um documento "típico" para toda a gente entregar, entupindo os serviços avaliativos e deitando abaixo o que resta do hediondo pesadelo da longa noite maioritária.
Enquanto as "instâncias" dispõem de um prazo até ao fim do ano para costurar um documento que mereça o aval dos professores, os professores podem aproveitar o mesmo prazo para proceder ao enterro definitivo da aberração socialista.

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Quarta-feira, Agosto 19, 2009

Acordo ortográfico


A imagem acima foi picada de um moderno dicionário escolar.
Os pintos 2), 3), 4) e 5) ilustram uma invasão ortográfica do idioma português pelo idioma brasileiro.
As palavras "atualizado", "selecionados", "atuais" e "exceções" representam uma ortografia que foi objecto de penalização nos critérios de avaliação pedagógica que se encontravam em vigor na altura em que a maioria dos portugueses estudaram.
A nossa formação académica foi feita contra esta maneira de escrever.
Agora, somos chamados a utilizar uma ortografia que nos é estranha.
O ponto 6) refere uma diferenciação entre inglês britânico e inglês dos EUA.
A pergunta que se propõe, é a seguinte:

O que será que a língua portuguesa "unificada", terá a ganhar por via do Acordo, que o inglês "diferenciado" tem a perder com a ausência de Acordo?

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Quinta-feira, Junho 04, 2009

A Escola contra o Ambiente

O Governo de José Sócrates prepara-se para perpetrar mais uma agressão ambiental absolutamente gratuita, por ocasião da realização dos exames escolares obrigatórios que se aproximam.
Até aqui, os exames que eram realizados nas áreas de informática e multimédia, eram apresentados em suporte reutilizável como as disquetes primeiro, e mais recentemente as chamadas pen-drives.
Estes suportes, por serem reutilizáveis não representam qualquer agressão ao ambiente, e não consta que tivessem ocorrido quaisquer problemas relacionados com este procedimento, pelo menos que não pudessem ser resolvidos caso a caso.

Neste ano, as escolas serão obrigadas a recolher as provas de exame em suporte CD-R, e com o requinte de consumirem dois CD por cada prova de cada aluno, para a recolha ser individualizada e em duplicado.

Isto, quando se sabe que em geral, um único CD tem capacidade suficiente para recolher a totalidade das provas de uma escola inteira, pelo menos.
O CD é um suporte que não é reutilizável, e nem sequer é reciclável, porque não existe qualquer sistema de recolha de CD. Não será difícil imaginar a degradação ambiental resultante deste procedimento, em termos de volume do depósito ambiental para uma única época de exames.
Por outro lado, devido a este tipo de agressão, a gravação em CD não é prática corrente na actividade escolar, nem faz parte das competências que são consideradas na generalidade dos currículos escolares, salvo evidentemente alguma aplicação específica, na área do multimédia.
Trata-se pois de uma agressão absolutamente gratuita, que não deverá ter continuidade nos anos lectivos que hão-de vir.
E para isso, há que penalizar desde já nas urnas, este atrevimento.

NÃO VOTES P$!

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Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

Maria José Nogueira Pinto - Infâncias infelizes

Maria José Nogueira PintoA Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) apresentou ao Ministério da Educação uma proposta para as escolas do 1.º ciclo do ensino básico funcionarem entre as sete da manhã e as sete da tarde. Uma proposta radical que encerra em si própria a alteração do sentido último da escola e o sentido último da família. Algo que, tendo estado desde há muito subjacente a toda a discussão em torno do modelo de sistema educativo, modelo de escola e objectivos do ensino, surge agora claramente como um facto assumido, não já uma circunstância mas um dado adquirido, o de uma parentalidade em part-time.

Sabemos que muitos pais têm de depositar os seus filhos na escola durante 12 horas porque precisam dessas 12 horas para trabalharem - duplo emprego, biscates, o que seja - único modo de fazer face às necessidades do seu agregado. Mas também sabemos que uma criança confinada a um mesmo espaço durante 12 horas, um espaço que não é a sua casa, o seu habitat, provavelmente não se construirá feliz e equilibrada. Há pois, aqui, um conflito, que nem sequer é novo, e uma proposta, essa sim nova, dos pais, de que seja resolvido a favor de um modelo laboral e social profundamente errado e em desfavor dos filhos.

Os chamados ATL, actividades de tempos livres realizadas fora da escola mas em local adequado para o efeito, já existem há muito em Portugal como uma resposta social para aquelas famílias, que são confrontadas, na sua luta pela sobrevivência, com o dilema de pôr em risco ou o sustento dos filhos ou os próprios filhos. Com esta proposta da Confap transfere-se para a escola o prolongamento do horário, e aquilo que era excepcional e em função de uma circunstância concreta passa agora a ser uma regra assumida e incorporada no próprio sistema educativo. Aqui reside a diferença e a diferença é abissal!

Segundo os dados disponíveis, apenas um terço dos casais com filhos menores de 15 anos recorre a serviços de apoio às crianças, incluindo amas, creches, pré-escolar e ATL. À primeira vista, nada indica pois que uma escola a funcionar 12 horas seja uma necessidade sentida por todos os pais ou, sequer, pela maioria dos pais. Mas, uma vez aprovada uma medida como esta, rapidamente se interiorizará que as 12 horas são o horário escolar diário e que, independentemente das reais necessidades dos pais, por uma simples conveniência ou pura comodidade, o lugar da criança é na escola. A ser assim, não estamos perante uma solução mas perante um gigantesco problema a projectar-se, impiedoso, sobre o futuro de todos.

Primeiro, porque muitos dos problemas actualmente vividos nas escolas têm a sua causa na ideia errada de que estas substituem a família. A escola é meramente complementar, mas vê-se forçada a ir mais longe para compensar as fracas competências parentais que se revelam hoje como transversais à sociedade portuguesa e já não exclusivas de famílias mal estruturadas. Esta situação deve ser mudada e não institucionalizada.

Segundo, porque sendo sempre verdade que nada é tão importante como criar e educar crianças felizes, amadas e capacitadas para fazer face à vida, essa verdade é ainda mais evidente no nosso Inverno demográfico. Por isso, aqueles pais que apesar das suas vidas duras, do seu presente precário e do seu futuro incerto tiveram a coragem de ter filhos, não podem, de modo algum, ser penalizados. E também para isso servem as leis e as políticas públicas: novas formas de organização do trabalho, apoios às famílias, equidade no acesso aos serviços.

A decisão de transformar a escola num depósito, com base em precipitadas análises sociológicas, branqueando os dramas da míngua de afectos, laços e convivência entre pais e filhos, com jogos e brincadeiras escolares, é uma capitulação. As crianças não merecem. Nem as pobres nem as ricas.


Maria José Nogueira Pinto, Diário de Notícias, 12 de Fevereiro de 2009
(via A Educação do meu Umbigo)

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Terça-feira, Janeiro 20, 2009

Fátima Inácio Gomes - Carta Aberta aos meus Colegas de Departamento

Caríssimos,

Fátima Inácio GomesEm breve fará um ano que me elegestes Coordenadora do Departamento de Línguas. Um ano depois, escrevo-vos para vos comunicar que entreguei, hoje, o meu pedido de demissão do cargo. Sinto, pela confiança que em mim depositastes naquela data e desde então, que vos devo uma explicação. Conforme aleguei no meu pedido de demissão
"Os acontecimentos que se arrastam desde Janeiro de 2008 em torno do processo de Avaliação de Desempenho dos Professores, os avanços e recuos em matéria legal e funcional nesta matéria, assim como no Estatuto do Aluno do Ensino não Superior, a degradação do clima relacional e o desgaste provocado por um acréscimo de trabalho de ordem burocrático que acresce irremediavelmente por força de constantes alterações dos diplomas legais, criaram condições cada vez mais difíceis para o desempenho sério e rigoroso do trabalho que a professora reputa de maior importância – a leccionação da disciplina de que é titular e responsável.".

Creio que contribui, ao longo deste ano, para um debate sério e responsável das matérias que nos têm atormentado. Saio com a consciência de tudo ter feito para derrotar o monstro da prepotência ministerial em sede de pedagógico e de o ter feito olhando-o de frente. Não encaro a minha saída como uma desistência da luta que nos envolve a todos - conhecem-me sobejamente para saberem que estou longe de baixar os braços. A verdade é que o Conselho Pedagógico perdeu qualquer capacidade de acção – o Ministério tratou de o esvaziar, no último decreto – e em breve perderá até qualquer sentido de representatividade democrática – o novo modelo de gestão deu-lhe a estocada final. Não posso, de todo, manter-me num cargo que, como nunca, consagra o desnivelamento injusto entre os professores. Não serei parasita de um sistema contra o qual tenho lutado! Agora sim, seria fácil ficar… todo o trabalho está feito, o desgaste de horas e horas a tentar lapidar as perversidades de umas fichas insanas faz parte do passado, quase não terei de observar aulas, ou seja, nem vos avaliarei, poderia tirar proveito da redução que me deram para o meu merecido descanso, e, ainda por cima, até poderia trabalhar descansadamente para um Excelente (no pior dos casos, um Muito Bom), quando tenho o privilégio de não precisar de ser avaliada na componente científico-pedagógica! Pois agora é a hora certa para eu sair! Não quero, não posso, tirar proveito de algo que me repugna e contra o qual tenho lutado. Onde ficaria a minha dignidade? O meu amor-próprio? A minha decência? O meu sentido de justiça?

Por ter sido eleita, ainda tenho espaço para tomar uma decisão destas. Preocupava-me prejudicar-vos com a minha saída, mas agora até esse cuidado se desvaneceu – só quem solicitar aulas observadas precisará de mim e, num momento destes, como já vos disse pessoalmente, considero uma falta de solidariedade para com os colegas solicitá-las. Daí que não me sinta moralmente obrigada em relação a quem o fizer. Não sei o que o dia de amanhã me reserva. Não sei se serei obrigada a avaliar. Mas dormirei tranquila, com a consciência de que não me deixei vencer pela letargia, pelo comodismo, pelos meus próprios interesses. Continuarei a falar com a liberdade com que me tendes ouvido, porque terei sido coerente e verdadeira até ao fim. Porque a minha voz nunca se ergueu para defender uma causa própria, mas uma causa comum, uma causa justa. E não há nada que aqueça mais o coração!

Como despedida, e não querendo parecer arrogante, lembro-vos um hino à integridade:

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim, em cada lago a Lua toda

Brilha, porque alto vive.



Ricardo Reis


Um abraço a todos,

a vossa,



Fátima Inácio Gomes

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Sexta-feira, Janeiro 09, 2009

O Excelente político

Retirado da Ordem Trabalhos da última reunião ME / Plataforma Sindical:

Ponto 8. Acesso à categoria de Professor Titular para os Professores em exercício de funções ou actividades de interesse público, designadamente, enquanto Deputados à Assembleia da República e ao Parlamento Europeu, Autarcas, Dirigentes da Administração Pública, Dirigentes de Associações Sindicais e Profissionais.

Agora sim, irá ficar consagrado que o topo da carreira docente não ficará ao alcance de qualquer um, apenas porque andou trinta anos a dar aulas.
Já agora, aproveito para reclamar outro ponto:

Ponto 9: Acesso à categoria de Deputado Reformado para os Professores em exercício de funções ou actividades de interesse público, designadamente, enquanto Docentes ou Gestores na Escola Pública, Autarcas, Dirigentes da Administração Pública, Dirigentes de Associações Sindicais e Profissionais.

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Quinta-feira, Dezembro 04, 2008

O Cavalo e o Porco


Um fazendeiro coleccionava cavalos e só faltava uma determinada raça. -Um dia descobriu que o seu vizinho tinha este determinado cavalo. -Assim, ele atazanou seu vizinho até conseguir comprá-lo. Um mês depois o cavalo adoeceu, e ele chamou o veterinário:

-Bem, seu cavalo está com uma virose, precisa tomar este medicamento durante 3 dias, no terceiro dia eu retornarei e caso ele não esteja melhor, será necessário sacrificá-lo.

Neste momento, o porco escutava toda a conversa. No dia seguinte deu o medicamento e foram embora. O porco se aproximou do cavalo e disse:

-Força amigo! Levanta daí, senão você será sacrificado!

No segundo dia, deram o medicamento e foram embora. O porco se aproximou do cavalo e disse:

-Vamos lá amigão, levanta senão você vai morrer ! -Vamos lá, eu te ajudo a levantar... Upa!

No terceiro dia deram o medicamento e o veterinário disse:

-Infelizmente vamos ter que sacrificá-lo amanhã, pois a virose pode contaminar os outros cavalos.

Quando foram embora, o porco se aproximou do cavalo e disse:

-Cara é agora ou nunca, levanta logo! Coragem! Upa! Upa! Isso, devagar! Óptimo, vamos um, dois, três, legal, legal, agora mais depressa vai... Fantástico! -Corre, corre mais! Upa! Upa! Upa!!! Você venceu Campeão!

Então, de repente o dono chegou, viu o cavalo correndo no campo e gritou:

-Milagre! O cavalo melhorou. Isso merece uma festa... -'Vamos matar o porco!'

*MORAL DA HITÓRIA* Isso acontece com frequência no ambiente de trabalho. Nem sempre alguém percebe quem é o funcionário que tem o mérito pelo sucesso. Saber viver sem ser reconhecido é uma arte, afinal quantas vezes fazemos o papel do porco amigo ou quantos já nos levantaram e nem o sabor da gratidão puderam dispor? Se algum dia alguém lhe disser que seu trabalho não é o de um profissional, lembre-se: *AMADORES CONSTRUÍRAM A ARCA DE NOÉ E PROFISSIONAIS, O TITANIC. Procure ser uma pessoa de valor, em vez de ser uma pessoa de sucesso!!!*

Comentário extraído e adaptado daqui:

Avelinus
03.12.2008
20:54
Portugal - Porto

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Domingo, Novembro 23, 2008

Não me passa pela cabeça

"Que a lei acerca da avaliação do desempenho não seja para cumprir".

A decisão dos tribunais, de pagar as horas de substituição aos professores, essas passa-me sim pela cabeça que venham um dia a ser pagas pelo titular da pasta que se segue.

A lei acerca do estatuto do aluno, que foi feita pelo parlamento, essa sim passa-me pela cabeça que não seja para cumprir, por via de um despacho do governo, que é uma instituição muito mais democrática do que o parlamento.

A decisão dos tribunais, de chamar ACTIVIDADES DE SUBSTITUIÇÃO às aulas de substituição, essa sim senhora passa-me pela cabeça que não seja para cumprir, de maneira a poder convencer o zé pacóvio que tal como no passado, as minhas decisões revelam-se de início desacertadas, mas passado um tempo já são aceites.

Primeiro estranh-se, mas depois entranha-se.

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Domingo, Novembro 16, 2008

O implacável

No passado dia 14 de Novembro, o Presidente da República mostrou-se indignado pelo lançamento de ovos por alguns estudantes por ocasião, primeiro de uma visita da Ministra da Educação, e depois pelos seus dois secretários de estado, a duas escolas públicas.

Apraz-nos o sentido cívico demonstrado pelo mais alto magistrado da nação a propósito de atitudes assumidas por menores, mas gostaríamos de observar a mesma indignação presidencial perante figuras bem mais relevantes, que ocupam os mais elevados cargos na chefia do estado e que têm vergonha do seu próprio registo biográfico.

Pessoalmente, preferia vir um dia a suportar a vergonha por um filho meu ser apanhado a atirar ovos podres, do que passar a vida envergonhado por ser governado por governantes que têm nojo do seu próprio currículo.

Quem sabe, se a política educativa da ministra da educação e dos seus secretários de estado, não será mais culpada pela atitude daqueles menores, do que os pais e os professores desses mesmos menores?

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Terça-feira, Novembro 11, 2008

Quero progredir na carreira, mas não de qualquer maneira

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Quinta-feira, Novembro 06, 2008

A constestação dos professores no googlemaps

Contestação ao modelo de avaliação docente em Portugal

Está disponível a partir de hoje o mapa da constestação das escolas ao modelo de avalição docente do Ministério da Educação. Os dados têm sido extraídos da barra lateral do Movimento Escola Pública, podendo no futuro complementar-se com outras fontes de centralização da informação. Os endereços das escolas estão, em geral, disponíveis nos respectivos sítios da internet. Por vezes, a localização não é fácil, e optou-se por uma aproximação. Pode, no entanto, haver erros. Caso o leitor observe algum, agradeço que me dê conhecimento (antonio@ferrao.org). Para aceder ao googlemaps com este mapa, basta clicar sobre a figura no canto superior direito desta página. As informações serão actualizadas, pelo menos, uma vez cada dois dias.

O que é que o googlemaps permite que uma página estática de Hipertext Mark-Up Language (HTML) não permite?
- Arrastar para qualquer direcção e ampliar ou reduzir a escala.

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Domingo, Outubro 26, 2008

Maria Lisboa - A falsa avaliação dos professores

Que o diploma sobre a avaliação docente é um verdadeiro monstro burocrático já todos constatámos. Que a esse monstro foram sendo implementadas mais cabeças, com os diferentes despachos e memorandos que lhe foram sendo anexados, em nome da regulamentação do monstro, transformando-o numa hidra de Lerna, também já todos nos apercebemos. Que os serviços intermédios do ME, com as suas estranhas interpretações, ainda, o “amostrenguem” mais, também já todos sabemos.
Que entre nós ainda consigamos aprimorar o “bicho” tornando-o ainda pior do que é, é que já ninguém entende.

Espanto-me, cada vez mais, como alguns elementos de uma classe diferenciada, portadora das mais altas habilitações académicas, revela a sua total iliteracia quanto à leitura, interpretação e aplicação de simples articulados de uma legislação.

Que a maioria das leis são mal redigidas é uma verdade. Que a maioria das leis são dúbias é outra verdade. Que nós não somos juristas também é verdade.

Por isso, o que temos que fazer é, apenas, ler. Ler como quem lê um texto. Ler, analisar e aplicar. Não temos que inventar. Não temos que devanear sobre… Não temos que inventar sobre…

Também sabemos que o considerar os resultados dos alunos, como um dos pontos chaves desta avaliação, é um dos maiores erros do monstro. Todos estamos cientes de que este item apenas visa a obrigatoriedade de mostrar resultados para as estatísticas e não o melhorar do ensino e ou da aprendizagem. Por isso mesmo, ainda se torna mais compungente o resultado da criatividade de que enfermam alguns “artistas grelhadores”.

Vejamos o que diz o 2/2008 sobre a relação entre: os resultados dos alunos, a definição de objectivos individuais a auto-avaliação e a avaliação do Presidente do Conselho Executivo (e onde me refiro a resultados dos alunos poderia referir abandono):

Quais são os elementos de referência para a definição de objectivos individuais?

Os objectivos individuais são formulados tendo por referência os seguintes itens:
A melhoria dos resultados escolares dos alunos;
(…)

Quais são os elementos de referência para a avaliação? *

A avaliação do desempenho tem por referência:
  1. Os objectivos e metas fixados no projecto educativo e no plano anual de actividades para o agrupamento de escolas ou escola não agrupada;
  2. Os indicadores de medida previamente estabelecidos pelo agrupamento de escolas ou escola não agrupada, nomeadamente quanto ao progresso dos resultados escolares esperados para os alunos e a redução das taxas de abandono escolar tendo em conta o contexto socioeducativo.


* Reiterados neste ponto que consigna as competências da Comissão de Coordenação da Avaliação do Desempenho:

Os objectivos fixados e os resultados a atingir pelo agrupamento de escolas ou escola não agrupada no âmbito do respectivo projecto educativo ou plano de actividades são considerados pela comissão de coordenação da avaliação do desempenho no estabelecimento de directivas para uma aplicação objectiva e harmónica do sistema de avaliação do desempenho.

Que diz sobre a auto-avaliação?

A ficha de auto-avaliação é entregue aos avaliadores em momento anterior ao preenchimento, por estes, das fichas de avaliação, constituindo elemento a considerar na avaliação de desempenho mas não sendo os seus resultados vinculativos para a classificação a atribuir.

A ficha de auto-avaliação deve explicitar o contributo do docente, durante o exercício das suas funções, para o cumprimento dos objectivos individuais fixados, em particular os relativos à melhoria dos resultados escolares obtidos pelos seus alunos.

Para o efeito da parte final do número anterior o docente apresenta, na ficha de auto -avaliação, os seguintes elementos:
  1. Resultados do progresso de cada um dos seus alunos nos anos lectivos em avaliação:
    1. Por ano, quando se trate da educação pré -escolar e do 1.º ciclo do ensino básico;
    2. Por disciplina, quando se trate dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e do ensino secundário;
  2. A evolução dos resultados dos seus alunos face à evolução média dos resultados:
    1. Dos alunos daquele ano de escolaridade ou daquela disciplina naquele agrupamento de escolas ou escola não agrupada;
    2. Dos mesmos alunos no conjunto das outras disciplinas da turma no caso de alunos dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e do ensino secundário;
  3. Resultados dos seus alunos nas provas de avaliação externa, tendo presente a diferença entre as classificações internas e externas.
Além dos referidos no número anterior, pode o docente apresentar outros elementos (…) que permitam comprovar o seu contributo para o progresso dos resultados escolares dos alunos, a redução das taxas de abandono escolar e a apreciação do respectivo contexto socioeducativo.

E sobre a avaliação realizada pela direcção executiva?

Na avaliação efectuada pelo órgão de direcção executiva os indicadores de classificação ponderam o seguinte:
Progresso dos resultados escolares esperados para os alunos e redução das taxas de abandono escolar, tendo em conta o contexto socioeducativo — aprecia os dados apresentados pelo docente na ficha de auto-avaliação os quais são objecto de validação pelos avaliadores;

Como é possível que lendo o mesmo que eu li (e transcrevi) haja quem seja capaz de fazer uma ficha de registo de avaliação do PCE, como esta?

Fichas Península de Setúbal

Ou uma ficha de definição de objectivos individuais, como esta?

Objectivos individuais


Ou seja obrigado, como noutra que eu conheço, a, na ficha de objectivos individuais, indicar a média de cada turma no ano anterior e a definir objectivos de manutenção ou superação dessas médias (indicando critérios de êxito/superação), não tendo em conta se a turma era do professor, se as notas/níveis foram resultado de subida por votação em conselho de turma, se existem alunos novos na turma, etc.

Ou ainda como noutra, em que foi definida uma determinada média de sucesso por ano de escolaridade e “foi decidido” que se, por acaso existe uma turma mais fraca, outra turma desse ano, que seja melhor, tem que compensar a média (“ganhando” o seu sucesso e mais o sucesso que a outra não conseguir, para cumprir a média).

Só posso dizer que não são os deuses que devem estar loucos, mas sim os humanos! Neste caso específico, alguns humanos-professores!

Será assim tão difícil perceber o que está escrito?

Será difícil perceber que a escola/agrupamento (departamentos e conselho pedagógico) propõe uma meta de consecução de resultados, quer seja em % de redução do insucesso, quer seja em % de aumento do sucesso, que essa meta estabelecida a nível de escola/agrupamento (em geral, ou considerando excepções em determinadas disciplinas que pensem não conseguir atingir a % proposta) deverá constar do Projecto Educativo e que todos os professores deverão trabalhar com os seus alunos para essa meta?

Será difícil perceber que o que se pretende é a melhoria dos resultados, através da redução/aumento da média do insucesso/sucesso obtida na globalidade dos alunos/disciplinas/anos de escolaridade, em função da tal % estabelecida no PE, e não em cada um per si?

Será difícil perceber que só no final é que o professor, na sua auto-avaliação deve fazer a análise, em função dos diferentes itens contidos na ficha de auto-avaliação, justificando aí o seu trabalho neste item? E que será a partir dessa análise que o PCE considerará se houve ou não cumprimento do objectivo neste campo?

Será tão difícil perceber que o professor não pode trabalhar em função de uma média de turma, pré-definida, garantindo que a terá de manter, ou melhorar? É isso que se pretende, mas as circunstâncias variam de ano para ano.

Será difícil perceber um professor não pode definir como objectivo individual o número de 2, 3, 4 ou 5 que vai dar no final do ano… e muito menos ser penalizado porque em vez de cinco 4, e três 5, deu sete 4 e um 5?

Será difícil perceber que um professor não é um fabricante de peças avulso cuja produção pode ser incrementada (… e mesmo aqui só até um certo patamar)?

E que dizer da “definição das médias” encontrada na 1ª ficha de que dou o link? E que dizer quando se considera que um professor é excelente quando atinge uma progressão superior a 100%?

Só pode! Está tudo louco! Ou será que é mesmo, e só, maldade?
Esta ADD é impossível e mais impossível se torna quando os "grelhadores" atingem níveis de loucura que a tornam num inferno de que nem Dante se lembraria.



Maria Lisboa, Loucura ou maldade?, Professores sem quadro, 26 de Outubro de 2008

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Sexta-feira, Outubro 24, 2008

Plataforma Sindical de Professores - Suspensão do modelo de avaliação

Assim não se pode ser professor



A Plataforma Sindical dos Professores e a Ministra da Educação estão em rota de colisão.Plataforma Sindical de Professores



Notícia sobre a necessidade de suspensão do modelo de avaliação em Frenprof, 24 de Outubro de 2008

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Quarta-feira, Outubro 22, 2008

A auto-avaliação dos alunos

Posição pessoal acerca da ficha de auto-avaliação

Não aceito que a ficha de auto-avaliação dos alunos seja incorporada no meu processo de avaliação de desempenho, por ofender as minhas convicções pessoais acerca da acção docente.

Ao solicitar aos meus alunos o preenchimento da sua ficha de auto-avaliação, deverei fundamentar a honestidade do seu preenchimento, na desvinculação dessa ficha à avaliação, quer do aluno, quer do docente.

Se não puder afirmar isso explícitamente, nesse caso a mensagem que lhes faço chegar, por omissão será que o preenchimento da ficha destina-se precisamente a produzir efeitos, quer na avaliação do aluno quer do professor.

E eles vão perceber que o interesse em dizer bem do professor é recíproco, uma vez que ele tem necessidade de ilustrar boas notas com boas apreciações, do mesmo modo como tem necessidade de justificar más notas com depreciações.

E para a escola, então será o desastre total da sua credibilidade externa, uma vez que passará a ser aquela escola onde os professores são avaliados pelos alunos, onde aquele professor que não deixa os alunos irem à casa de banho não tem hipótese de progredir na carreira.

E para cúmulo, até o calendário em que a ficha é aprovada contribui para reforçar essa ideia, porque não é uma ficha que já se encontrava em vigor nas tradições da escola, no momento em que a escola decidiu integrá-la no sistema de avaliação docente.

Por tudo isso, e acima de tudo por uma questão de respeito aos meus alunos, venho informar da minha recusa em aceitar a introdução da ficha de auto-avaliação dos alunos no meu processo de avaliação de desempenho. Não posso aceitar que o meu relacionamento com os alunos venha a ser envenenado por um processo de avaliação que não tem por ambição interferir no processo pedagógico, mas apenas observá-lo.

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SPGL - A avaliação de desempenho nas escolas

(via (Re)flexões)

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Sábado, Outubro 18, 2008

Concordo, como mãe e professora

Comentário copiado do Blog: Educação do meu umbigo
relativo ao post:
Mais Imbróglios Financeiro-Tecnológicos
(EF)

CARTA DE E.de EDUCAÇÂO A JOSÉ SOCRATES

É longa, mas vale a pena ler

Sr. Engº José Sócrates,

Antes de mais, peço desculpa por não o tratar por Excelência nem por Primeiro-Ministro, mas, para ser franca, tenho muitas dúvidas quanto ao facto de o senhor ser excelente e, de resto, o cargo de Primeiro-ministro parece-me, neste momento, muito pouco dignificado.

Também queria avisá-lo de antemão que esta carta vai ser longa, mas penso que não haverá problema para si, já que você é do tempo em que o Ensino do Português exigia grandes e profundas leituras. Ainda pensei em escrever tudo por tópicos e com abreviaturas, mas julgo que lhe faz bem recordar o prazer de ler um texto bem escrito, com princípio, meio e fim, e que, quiçá, o faça reflectir (passe a falta de modéstia).

Gostaria de começar por lhe falar do “Magalhães”. Não sobre os erros ortográficos, porque a respeito disso já o seu assessor deve ter recebido um e-mail meu. Queria falar-lhe da gratuitidade, da inconsequência, da precipitação e da leviandade com que o senhorEngenheiro anunciou e pôs em prática o projecto a que chama de E-escolinha.

O senhor fala em Plano Tecnológico e, de facto, eu tenho visto a tecnologia, mas ainda não vi plano nenhum. Senão, vejamos a cronologia dos factos associados ao projecto “Magalhães”. No princípio do mês de Agosto, o senhor engenheiro apareceu na televisão a anunciar o projecto e-escolinhas e a sua ferramenta: o portátil Magalhães. No dia 18 de Setembro (quinta-feira) ao fim do dia, o meu filho traz na mochila um papel dirigido aos encarregados de educação, com apenas quatro linhas de texto informando que o “Magalhães” é um projecto do Governo e que, dependendo do escalão de IRS, o seu custo pode variar entre os zero e os 50 euros. Mais nada! Seguia-se um formulário com espaço para dados como nome do aluno, nome do encarregado de educação, Escola, concelho, etc. E, por fim, a oportunidade de assinalar, com uma cruzinha, se pretendemos ou não adquirir o “Magalhães”. No dia 22 de Setembro (segunda-feira), ao fim do dia, o meu filho traz um novo papel, desta vez uma extensa carta a anunciar a visita, no dia seguinte, do primeiro-ministro para entregar os primeiros “Magalhães” na EB1 Padre Manuel de Castro. Novamente uma explicação respeitante aos escalões do IRS e ao custo dos portáteis. No dia 23 de Setembro (terça-feira), o meu filho não traz mais papéis, traz um “Magalhães” debaixo do braço.

Ora, como é fácil de ver, tudo aconteceu num espaço de três dias úteis em que as famílias não tiveram oportunidade de obter esclarecimentos sobre a futura utilização e utilidade do “Magalhães”. Às perguntas que colocámos à professora sobre o assunto, ela não soube responder. Reunião de esclarecimento, nunca houve nenhuma.

Portanto, explique-me, senhor engenheiro: o que é que o seu Governo pensou para o “Magalhães”? Que planos tem para o integrar nas aulas? Como vai articular o seu uso com as matérias leccionadas? Sabe, é que 50 euros talvez seja pouco para se gastar numa ferramenta de trabalho, mas, decididamente, e na minha opinião, é demasiado para se gastar num brinquedo. Por favor, senhor engenheiro, não me obrigue a concluir que acabei de pagar por uma inutilidade, um capricho seu, uma manobra de campanha eleitoral, um espectáculo de fogo de artifício do qual só sobra fumo e o fedor intoxicante da pólvora.

Seja honesto com os portugueses e admita que não tem plano nenhum. Admita que fez tudo tão à pressa que nem teve tempo de esclarecer as Escolas e os professores. E não venha agora dizer-me que cabe aos pais aproveitarem esta maravilhosa oportunidade que o Governo lhes deu e ensinarem os filhos a lidar com as novas tecnologias. O seu projecto chama-se e-escolinha, não se chama e-familiazinha! Faça-lhe jus! Ponha a sua equipa a trabalhar, mexa-se, credibilize as suas Iniciativas!

Uma coisa curiosa, senhor engenheiro, é que tudo parece conspirar a seu favor nesta sua lamentável obra de empobrecimento do ensino assente em medidas gratuitas.

Há dias arrisquei-me a ver um episódio completo da série Morangos com Açúcar. Por coincidência, apanhei precisamente o primeiro episódio da nova série que significa, na ficção, o primeiro dia de aulas daquela miudagem. Ora, nesse primeiro dia de aulas, os alunos conheceram a sua professora de matemática e o seu professor de português. As imagens sucediam-se alternando a aula de apresentação de matemática por contraposição à de português. Enquanto a professora de matemática escrevia do quadro os pressupostos da sua metodologia - disciplina, rigor e trabalho - o professor de português escrevia no quadro os pressupostos da sua - emoção, entrega e trabalho. Ora, o que me faz espécie, senhor engenheiro, é que a personagem da professora de matemática é maldosa, agressiva e antiquada, enquanto que o professor de português é um tipo moderno e bué de fixe. Então, de acordo com os princípios do raciocínio lógico, se a professora de matemática é maldosa e agressiva e os seus pressupostos são disciplina e rigor, então a disciplina e o rigor são coisas negativas. Por outro lado, se o professor de português é bué de fixe, então os pressupostos da emoção e da entrega são perfeitos. E de facto era o que se via. Enquanto que na aula de matemática os alunos bufavam, entediados, na aula de português sorriam, entusiasmados.

Disciplina e rigor aparecem, assim, como conceitos inconciliáveis com emoção e entrega, e isto é a maior barbaridade que eu já vi na minha vida. Digo-o eu, senhor engenheiro, que tenho uma profissão que vive das emoções, mas onde o rigor é “obstinado”, como dizem os poetas. Eu já percebi que o ensino dos dias de hoje não sabe conciliar estes dois lados do trabalho. E, não o sabendo, optou por deixar de lado a disciplina e o rigor. Os professores são obrigados a acreditar que para se fazer um texto criativo não se pode estar preocupado com os erros ortográficos. E que para se saber fazer uma operação aritmética não se pode estar preocupado com a exactidão do seu resultado. Era o que faltava, senhor engenheiro!

Agora é o momento em que o senhor engenheiro diz de si para si: mas esta mulher é um Velho do Restelo, que não percebe que os tempos mudaram e que o ensino tem que se adaptar a essas mudanças? Percebo, senhor engenheiro. Então não percebo? Mas acontece que o que o senhor engenheiro está a fazer não é adaptar o ensino às mudanças, você está a esvaziá-lo de sentido e de propósitos. Adaptar o ensino seria afinar as metodologias por forma a torná-las mais cativantes aos olhos de uma geração inquieta e voltada para o imediato. Mas nunca diminuir, nunca desvalorizar, nunca reduzir ao básico, nunca baixar a bitola até ao nível da mediocridade.

Mas e por falar em Velho do Restelo…

Li, há dias, numa entrevista com uma professora de Literatura Portuguesa, que o episódio do Velho do Restelo foi excluído do estudo d’Os Lusíadas. Curioso, porque este era o episódio que punha tudo em causa, que questionava, que analisava por outra perspectiva, que é algo que as crianças e adolescentes de hoje em dia estão pouco habituados a fazer. Sabem contrariar, é certo, mas não sabem questionar. São coisas bem diferentes: contrariar tem o seu quê de gratuito; questionar tem tudo de filosófico. Para contrariar, basta bater o pé. Para questionar, é preciso pensar.

Tenho pena, porque no meu tempo (que não é um tempo assim tão distante), o episódio do Velho do Restelo, juntamente com os de Inês de Castro e da Ilha dos Amores, era o que mais apaixonava e empolgava a turma. Eram três episódios marcantes, que quebravam a monotonia do discurso de engrandecimento da nação e que, por isso, tinham o mérito de conseguir que os alunos tivessem curiosidade em descodificar as suas figuras de estilo e desbravar o hermetismo da linguagem. Ainda hoje me lembro exactamente da aula em que começámos a ler o episódio de Inês de castro e lembro-me das palavras da professora Lídia, espicaçando-nos, estimulando-nos, obrigando-nos a pensar. E foi há 20 anos.

Bem sei que vivemos numa era em que a imagem se sobrepõe à palavra, mas veja só alguns versos do episódio de Inês de Castro, veja que perfeita e inequívoca imagem eles compõem:

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano d’alma ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito (…)

Feche os olhos, senhor engenheiro, vá lá, feche os olhos. Não consegue ver, perfeitamente desenhado e com uma nitidez absoluta, o rosto branco e delicado de Inês de Castro, os seus longos cabelos soltos pelas costas, o corpo adolescente, as mãos investidas num qualquer bordado, o pensamento distante, vagueando em delícias proibidas no leito do príncipe? Não vê os seus olhos que de vez em quando escapam às linhas do bordado e vão demorar-se na janela, inquietos de saudade, à espera de ver D. Pedro surgir a galope na linha do horizonte? E agora, se se concentrar bem, não vê uma nuvem negra a pairar sobre ela, não vê o prenúncio do sangue a escorrer-lhe pelos fios de cabelo? Não consegue ver tudo isto apenas nestes quatro versos?

Pois eu acho estes quatro versos belíssimos, de uma simplicidade arrebatadora, de uma clareza inesperada. É poesia, senhor engenheiro, é poesia! Da mais nobre, grandiosa e magnífica que temos na nossa História. Não ouse menosprezá-la. Não incite ninguém a desrespeitá-la.

Bem, admito que me perdi em divagações em torno da Inês de Castro. O que eu queria mesmo era tentar perceber porque carga de água o Velho do Restelo desapareceu assim. Será precisamente por estimular a diferença de opiniões, por duvidar, por condenar? Sabe, não tarda muito, o episódio da Ilha dos Amores será também excluído dos conteúdos programáticos por “alegado teor pornográfico” e o de Inês de Castro igualmente, por “incitamento ao adultério e ao desrespeito pela autoridade”.

Como é, senhor engenheiro? Voltamos ao tempo do “lápix” azul? E já agora, voltando à questão do rigor e da disciplina, da entrega e da emoção: o senhor engenheiro tem ideia de quanta entrega e de quanta emoção Luís de Camões depôs na sua obra? E, por outro lado, o senhor engenheiro duvida da disciplina e do rigor necessários à sua concretização? São centenas e centenas de páginas, em dezenas de capítulos e incontáveis estrofes com a mesma métrica, o mesmo tipo de rima, cada palavra escolhida a dedo… o que implicou tudo isto senão uma carga infinita de disciplina e rigor?

Senhor engenheiro José Sócrates: vejo que acabo de confiar o meu filho ao sistema de ensino onde o senhor montou a sua barraca de circo e não me apetece nada vê-lo transformar-se num palhaço. Bem, também não quero ser injusta consigo. A verdade é que as coisas já começaram a descarrilar há alguns anos, mas também é verdade que você está a sobrealimentar o crime, com um tirinho aqui, uma facadinha ali, uma desonestidade acolá.

Lembro-me bem da época em que fiz a minha recruta como jornalista e das muitas vezes em que fui cobrir cerimónias e eventos em que você participava. Na altura, o senhor engenheiro era Secretário de Estado do Ambiente e andava com a ministra Elisa Ferreira por esse Portugal fora, a inaugurar ETAR’s e a selar aterros. Também o vi a plantar árvores, com as suas próprias mãos. E é por isso que me dói que agora, mais de dez anos depois, você esteja a dar cabo das nossas sementes e a tornar estéreis os solos que deveriam ser férteis.

Sabe, é que eu tenho grandes sonhos para o meu filho. Não, não me refiro ao sonho de que ele seja doutor ou engenheiro. Falo do sonho de que ele respeite as ciências, tenha apreço pelas artes, almeje a sabedoria e valorize o trabalho. Porque é isso que eu espero da escola. O resto é comigo.

Acho graça agora a ouvir os professores dizerem sistematicamente aos pais que a família deve dar continuidade, em casa, ao trabalho que a escola faz com as crianças. Bem, se assim fosse eu teria que ensinar o meu filho a atirar com cadeiras à cabeça dos outros e a escrever as redacções em linguagem de sms. Não. Para mim, é o contrário: a escola é que deve dar continuidade ao trabalho que eu faço com o meu filho. Acho que se anda a sobrevalorizar o papel da escola. No meu tempo, a escola tinha apenas a função de ensinar e fazia-o com competência e rigor. Mas nos dias que correm, em que os pais não têm tempo nem disposição para educar os filhos, exige-se à escola que forme o seu carácter e ocupe todo o seu tempo livre. Só que infelizmente ela tem cumprido muito mal esse papel.

A escola do meu tempo foi uma boa escola. Hoje, toda a gente sabe que a minha geração é uma geração de empreendedores, de gente criativa e com capacidade iniciativa, que arrisca, que aposta, que ambiciona. E não é disso que o país precisa? Bem sei que apanhámos os bons ventos da adesão à União Europeia e dos fundos e apoios que daí advieram, mas isso por si só não bastaria, não acha? E é de facto curioso: tirando o Marco cigano, que abandonou a escola muito cedo, e a Fatinha que andava sempre com ranhoca no nariz e tinha que tomar conta de três irmãos mais novos, todos os meus colegas da primária fizeram alguma coisa pela vida. Até a Paulinha, que era filha da empregada (no meu tempo dizia-se empregada e não auxiliar de acção educativa, mas, curiosamente, o respeito por elas era maior), apesar de se ter ficado pelo 9º ano, não descansou enquanto não abriu o seu próprio Pão Quente e a ele se dedicou com afinco e empenho. E, no entanto, levámos reguadas por não sabermos de cor as principais culturas das ex-colónias e éramos sujeitos a humilhação pública por cada erro ortográfico. Traumatizados? Huuummm… não me parece. Na verdade, senhor engenheiro, tenho um respeito e uma paixão pela escola tais que, se tivesse tempo e dinheiro, passaria o resto da minha vida a estudar.

Às vezes dá-me para imaginar as suas conversas com os seus filhos (nem sei bem se tem um ou dois filhos…) e pergunto-me se também é válido para eles o caos que o senhor engenheiro anda a instalar por aí. Parece que estou a ver o seu filho a dizer-lhe: ó pai, estou com dificuldade em resolver este sistema de três equações a três incógnitas… dás-me uma ajuda? E depois, vejo-o a si a responder com a sua voz de homilia de domingo: não faz mal, filho… sabes escrever o teu nome completo, não sabes? Então não te preocupes, é perfeitamente suficiente…

Vendo as coisas assim, não lhe parece criminoso o que você anda a fazer? E depois, custa-me que você apareça em praça pública acompanhado da sua Ministra da Educação, que anda sempre com aquele ar de infeliz, de quem comeu e não gostou, ambos com o discurso hipócrita do mérito dos professores e do sucesso dos alunos, apoiados em estatísticas cuja real interpretação, à luz das mudanças que você operou, nos apresenta uma monstruosa obscenidade. Ofende-me, sabe? Ofende-me por me tomar por estúpida.

Aliás, a sua Ministra da Educação é uma das figuras mais desconcertantes que eu já vi na minha vida. De cada vez que ela fala, tenho a sensação que está a orar na missa de sétimo dia do sistema de ensino e que o que os seus olhos verdadeiramente dizem aos pais deste Portugal é apenas “os meus sentidos pêsames”.

Não me pesa a consciência por estar a escrever-lhe esta carta. Sabe, é que eu não votei em si para primeiro-ministro, portanto estou à vontade. Eu votei em branco. Mas, alto lá! Antes que você peça ao seu assessor para lhe fazer um discurso sobre o afastamento dos jovens da política, lembre-se, senhor engenheiro: o voto em branco não é o voto da indiferença, é o voto da insatisfação! Mas, porque vos é conveniente, o voto em branco é contabilizado, indiscriminadamente, com o voto nulo, que é aquele em que os alienados desenham macaquinhos e escrevem obscenidades.

Você, senhor engenheiro, está a arriscar-se demasiado. Portugal está prestes a marcar-lhe uma falta a vermelho no livro de ponto. Ah… espere lá… as faltas a vermelho acabaram… agora já não há castigos…

Bem, não me vou estender mais, até porque já estou cansada de repetir “senhor engenheiro para cá”, “senhor engenheiro para lá”. É que o meu marido também é engenheiro e tenho receio de lhe ganhar cisma.

Esta carta não chegará até si. Vou partilhá-la apenas e só com os meus E-leitores (sim, sim, eu também tenho os meus eleitores) e talvez só por causa disso eu já consiga hoje dormir melhor. Quanto a si, tenho dúvidas.

Para terminar, tenho um enorme prazer em dedicar-lhe, aqui, uma estrofe do episódio do Velho do Restelo. Para que não caia no esquecimento. Nem no seu, nem no nosso.

A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?



Atenciosamente e ao abrigo do artigo nº 37 da Constituição da República Portuguesa,

Uma mãe preocupada

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Quinta-feira, Outubro 16, 2008

A escola pública

Greve dos alunosNão estou a alcançar o apelo à unidade, entre coisas que são diferentes.
Os sindicatos devem fazer, e bem, aquilo para que estão mandatados que é a defesa dos direitos laborais dos professores.
Os movimentos empenham-se na defesa dos valores da escola pública.
Se as acções de rua puderem coincidir, tanto melhor;
senão, também não será por isso que cada um poderá acusar o outro de divisionismo.
E sobretudo, não será por isso que cada parte poderá acusar a outra parte dos seus próprios desaires.
Não vejo como é que deverei abster-me de defender a escola pública, pelo simples facto de não ter concorrido às eleições sindicais.
Se eu como defensor da causa da escola pública me revoltar contra o novo estatuto do aluno, que obriga a escola a avaliar um aluno que faltou a uma semana de aulas, precisamente acerca da matéria que o aluno perdeu por ter faltado, aonde é que está o sindicato para colocar o «eduquês» no seu lugar?


Imagem: Global Notícias, 16 de Outubro de 2008

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Quarta-feira, Outubro 08, 2008

A Pergunta

O Estado não paga aos utentes nenhum medicamento, sem ouvir o médico;
Mas o mesmo Estado subsidia a internet aos utentes, sem ouvir o Professor.

A pergunta que se põe, é muito simples:
Se um Professor fizer a denúncia de um benefício que o Estado concedeu ao seu aluno,

Essa denúncia corre contra as regras que o Estado impôs para conceder o benefício, ou contra a avaliação que o Estado faz do desempenho do Professor?

Da resposta (ou falta dela) que o avaliador registar em acta, irá depender o tipo de participação que o avaliado fizer na avaliação do seu desempenho.

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Quinta-feira, Outubro 02, 2008

Ser professor em Portugal: Margarida Azevedo

Rompendo a cortina do silêncio e da vergonha. (AF)
Escola EB2/3 de Vila Nova de PoiaresNum ápice, o que dava prazer transforma-se numa espécie de fobia. Esta é a história de uma professora, investigadora, mestre em Ciências Musicais, com curso de Musicoterapia, especializada em Educação Especial que deixou de acreditar na escola, pelo menos naquela onde tentava leccionar. Desenvolveu uma enorme aversão, teve acompanhamento psiquiátrico e agora está afastada da actividade devido a um cancro.

Margarida Azevedo adora(va) a sua profissão e sente-se «frustrada» por não poder exercê-la condignamente.
«Um dia, simplesmente deixei de ir trabalhar. Fui falar com um psiquiatra, disse-lhe que me recusava a aparecer naquela escola sentia com fobia e o mais provável era abandonar o ensino. Porque, não estudei a vida toda, nem me dediquei a vida toda a estas coisas para chegar a este ponto».
Sente-se o peso da decisão:
«Passado um mês e meio tentei voltar, mas voltei para casa... Ao telefone, com o psiquiatra, um querido amigo, chorava, porque não conseguia lá estar».
A medicação para a depressão foi a solução imediata, mas que não podia antever o que ainda estava para acontecer.
«Em 2006/07, leccionava em nove turmas diferentes, cerca de duzentos alunos, para além de ser directora de turma e dar aulas de substituição. Nesse ano passei para a Educação Especial - já que precisavam de professor de apoio educativo e eu tinha experiência desde 1997 - mas ainda foi pior dada a incompetência e práticas na escola»,
conta. Um ano depois, leccionando Educação Musical a crianças do 5º e 6º ano, mantinha oito turmas, mais três com áreas de projecto, em 4 níveis diferentes.

Depois de ter trabalhado vários anos em Educação Especial, não conseguiu destacamento por erro da aplicação informática da DREC («que infelizmente não detectei tendo acreditado que não poderia ser destacada já que o meu grupo é Ed. Musical») e acabou por ser colocada na Escola EB 2/3 de Vila Nova de Poiares. Para quem vivia em Coimbra, era uma tormenta percorrer aqueles quase 90km de curvas (ida e volta), para depois encontrar um pesadelo.

«Sou forte e profissional, mas por causa da forma como me trataram, transformei-me numa pessoa frustrada. Com os alunos senti-me sempre bem, o resto é que não funcionava, pois havia muita gente sem competência»,
recordou, contando que chegou a ter de «tentar corrigir e evitar colaborar em erros gravíssimos».

Em duas horas, tudo mudou.

Sem o enquadramento necessário na escola, a sentir-se recuperada Margarida candidatou-se a uma bolsa da Gulbenkian, a um projecto de investigação: dois meses para estudar e contribuir para a implementação da Educação Especial em Timor, com a colaboração do governo local.

Às 16h do dia 16 de Maio, a vida parecia tomar novo rumo, pois a bolsa tinha sido aprovada. Projectos feitos, ideias de Doutoramento, hipóteses de realização na sua área profissional, «podendo efectivamente ajudar pessoas, crianças». Duas horas depois, porém, uma visita à sua médica para conhecer os resultados de uma biópsia, ditariam um outro destino: cancro na mama. Volvidos oitos dias já estava a fazer uma mastectomia e os objectivos passavam a ser a reconstituição total e, no limite, a sobrevivência.

Não há certezas científicas, mas «o stress é apontado como uma das origens possíveis do cancro». Margarida tenta esquecer o passado enquanto vai recuperando. Pediu destacamento por doença para Coimbra, que não lhe foi concedido, e entretanto cumpre baixa médica. «No próximo ano, há concursos. Concorrerei para a Educação Especial», assegura.

Hoje em dia tenta encontrar a força na luta dos outros, ajudando colegas, denunciando outros casos e deixando o alerta:
«Não se deixem matar nem desgastar em limites preocupantes. O defeito não está em nós, mas no sistema».
A chama mantém-se viva num dos blogues de educação mais activos a nível nacional, A Sinistra Ministra.

Filipe Caetano, «Professores que sofrem»: a escola como fobia, IOL Portugal Diário, 2 de Outubro de 2008

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Segunda-feira, Setembro 29, 2008

Projecto de Acta

Proposta de acta para a reunião preparatória entre os avaliadores e os avaliandos da avaliação do pessoal docente.

- Nível alcançado
= Características do relatório de apreciação do desempenho

- Excelente
= O relatório consegue justificar tudo sem dizer mal de ninguém, ou quando muito e apenas em caso de manifesta necessidade, da Santíssima Trindade ou então da acção da oposição ao governo.

- Muito Bom
= O relatório consegue justificar tudo dizendo mal apenas dos anteriores, ou então do próprio avaliando.

- Bom
= O relatório consegue justificar tudo dizendo mal, quando muito dos anteriores ou então desde que fundamentadamente, da acção de outros avaliados ou de entidades exteriores à influência da Educação.

- Suficiente
= O relatório consegue justificar tudo dizendo mal de tudo menos dos avaliadores.

- Insuficiente
= O relatório diz mal dos avaliadores.

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Sábado, Setembro 27, 2008

Um insulto aos contribuintes

A iniciativa do Ministério da Educação, ou melhor do Primeiro-ministro, porque é quem se tem mais erguido na sua imposição, de pagar a internet móvel aos coitadinhos dos estudantes que já gastaram os seus parcos recursos na aquisição do telemóvel que é proibido nas escolas, constitui um autêntico insulto, não digo aos professores, porque eles estão ao corrente do que se passa, mas um insulto à ignorância da população que se esforça para pagar os seus impostos.
Técnicamente, a aquisição da internet móvel juntamente com cada computador portátil, não tem mais lógica do que a aquisição de um contador de electricidade para alimentar o mesmo computador.
Se o aluno já dispõe de contador de electricidade em casa e na escola, afinal onde é que se pretende que ele utilize o seu portátil? Só se for nalgum ambiente onde nem os encarregados de educação, nem os professores possam assistir aos conteúdos que ele pretende frequentar.
Porque a chamada banda larga, que o Primeiro-ministro não se cansa de apregoar aos quatro ventos com uma petulância de quem sabe que os seus ouvintes ignoram, a banda larga é acima de tudo isso mesmo, é a capacidade de poder ligar tantos computadores à mesma assinatura, quantos os portáteis que o mesmo quadro de electricidade pode suportar.
E as operadoras, essas perante a iniciativa do governo, não só ficam dispensadas de ser elas a explicar aos contribuintes o que é a banda larga, como ainda se dão ao luxo de embrulhar o portátil no mesmo pacote, tudo isso à custa da ignorância daqueles que ainda se vão deixando embalar na cantiga do choque tecnológico.

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Quarta-feira, Julho 23, 2008

Carlos Ceia - A decadência do Português no ensino

Carlos CeiaDecadência e falência não são palavras em que me reveja, mas a actual situação do ensino em Portugal obriga a um alerta contra um conjunto de sinais que trazem preocupados todos aqueles que diariamente vivem dentro do sistema educativo. Quem está fora dele sente hoje uma grande desconfiança sobre qualquer crítica que se aponte às actuais políticas educativas, precisamente porque os assusta que possamos estar tão próximos do abismo.

A denúncia que a seguir descrevo não é gratuita: em devido tempo, enviei para o Ministério da Educação pareceres construtivos sobre todas estas matérias, que nunca obtiveram resposta, a exemplo de todos os outros pareceres que conheço e que foram igualmente ignorados; escrevi ainda um livro sobre os problemas e as soluções para a formação inicial de professores, área que tenho à minha responsabilidade na universidade onde trabalho. Este esclarecimento prévio deve-se ao facto de que muitos comentadores livres da nossa praça julgarem que quem critica as políticas educativas o faz sempre por má-fé sem apresentar soluções. Quando um Ministério da Educação não ouve as soluções que lhe apresentam, quem não gosta de o ouvir ser criticado deve procurar outro ministério para comentar.

O programa e o exame de Português no Ensino Secundário


Na discussão pública que ocorreu antes da homologação do Programa de Português do Ensino Secundário dos Cursos Científico-Humanísticos e Cursos Tecnológicos (10.º ano em 2001 e 11.º e 12.º anos em 2002), foram inúmeros os pareceres a denunciar a falácia científica do seu conteúdo e organização. Escrevi e defendi na altura que pagaríamos muito caro o erro colossal cometido e que o futuro provaria que este Programa não servia o seu objectivo maior ("Esta disciplina permitirá também que, no final do ensino secundário, o aluno seja capaz de interagir, oralmente e por escrito, receptiva e produtivamente, de forma adequada, nas situações de comunicação dos domínios gregário, transaccional e educativo, fundamentais para uma integração plena na sociedade, nomeadamente na resolução de questões da vida quotidiana.", como se escreve na Introdução). Os resultados dos exames de Português de 2008 comprovam-no e, infelizmente, na próxima década, dificilmente se adquirirão as competências exigidas e esperadas neste nível de escolaridade.

O professor de Português passou a ser oficialmente um apresentador de notícias sobre factos literários passados, limitando-se a mostrar aos seus discípulos a parte luminosa das obras exemplares na exacta medida em que essa mesma luz lhe foi transmitida livrescamente por manuais cada vez mais normativos que tendem a promover uma ideia falsa de que a aprendizagem de uma cultura, literatura e língua se faz de forma exacta e verificada empiricamente; o estudo da literatura transformou-se numa didáctica de charadas literárias. Não se trata da resolução de problemas, que é uma das grandes tarefas do pensamento crítico, mas de simples procura de uma solução objectiva e breve quanto possível para questões que se repetem de manual em manual, de ano em ano, de professor em professor. Por exemplo, quantas vezes se reduziu a análise de um poema a perguntas do tipo: "Qual a relação do eu com a Natureza?", "Como viam os poetas românticos a Natureza?", "Qual o papel da mulher na lírica galego-portuguesa?", ou a questão mais dramática que se pode colocar no estudo da literatura: "Explique o contexto em que se insere a obra?". O estudo da história literária foi reduzido, neste caso, à explicação contextual, que se acredita ser uma forma mais ou menos natural de aproximação à obra literária.

O questionário do exame de Português sobre Os Lusíadas (em itálico, por favor, e não entre aspas, porque a comunidade académica portuguesa e internacional há muito concordou nesta fórmula de referenciação bibliográfica, ao contrário da espantosa e ignorante indicação dada pelos supervisores do GAVE aos professores correctores, impedindo-os de corrigir este erro comum) é revelador do lastimável estado a que chegou o ensino do nosso património literário. Discordo em absoluto da opinião veiculada por dirigentes da A.P.P., que consideraram o grupo de questões sobre Os Lusíadas "grau de dificuldade elevado" ou que o problema dos resultados decorre apenas de um mau enunciado de exame, como se o exame não estivesse directamente ligado ao programa que examina. O comentário crítico guiado sempre foi um modelo seguido e não sofre contestação, mas o grau de complexidade da análise é confrangedor sobretudo nas questões mais técnicas: a identificação de uma apóstrofe ("ó vós que as famas estimais") é um exercício que um aluno de catorze anos deve ser capaz de executar, com a agravante de a correcção oficial exigir que a identificação inclua a expressão que relativiza a entidade apostrofada e não a entidade que se interpela, que por si só devia ser considerada válida; e a identificação do modo imperativo de uma estrutura verbal devia ser uma competência adquirida desde o 6.º ano de escolaridade, no mínimo. Acrescento que se impunha uma vistoria às propostas de correcção dos exames e às indicações dos supervisores aos professores encarregados da sua correcção. Este é um domínio obscuro, onde, se fosse possível tornar público o que aqui se passa, nos deveríamos assombrar ainda mais. A falência de resultados de exames nacionais também passa por aqui, embora todos ignorem esta variável.

Insisto na desmontagem do exame de Português quanto mais não seja para provar à Ministra da Educação que há quem consiga demonstrar que este exame é de facto um erro, mas um erro que resulta do cumprimento coercivo de um programa oficial espúrio, do qual ninguém pode esperar que se façam bons manuais ou esperar que dele nasçam boas práticas pedagógicas. Quando assim é, culpar os professores pelo insucesso é um acto de má-fé; se daqui nascer algum sucesso (ver curva descendente dos exames nacionais a Português nos últimos 3 anos), elogie-se a imaginação dos que ainda assim conseguir ensinar alguma coisa a partir de coisa nenhuma.

Hoje não se desafia directamente o estudante de 12.º ano a dizer, de moto próprio, o que é a fruição da obra de arte ou a comentar criticamente uma qualquer definição de obra de arte a partir de um comentário canónico; a pedagogia dominante obriga apenas a que o estudante saiba determinar, a partir de um duvidoso texto de Luís Francisco Rebelo (Grupo II do exame de Português do 12.º), se "na fruição da obra de arte, classificá-la torna-se: A) inadequado; B) impossível; C) indiferente; ou D) imprescindível". A resposta correcta esperada é C). A competência aqui testada é meramente dedutiva, o que indica que um aluno maduro (aquilo que se espera que seja um aluno que termina doze anos de escolaridade) é tratado como incapaz de fazer um exercício especulativo-demonstrativo sobre algo tão universal e rebatível como a definição do gosto e da fruição artística. Não sendo capaz de demonstrar tal capacidade, como vai este estudante evoluir para um sistema universitário onde o pensamento crítico é essencial para poder discutir não só os universais da cultura como os particulares de qualquer ciência ou arte? Podíamos continuar com as restantes questões de escolha múltipla e contestar a resposta dita "correcta". O exercício tem várias ambivalências e só prova que as disciplinas humanísticas (acontece o mesmo com a História e a Filosofia, por exemplo) jamais se poderão submeter a estes falsos exames para testar a competência da leitura textual (argumento de sempre da Associação de Professores de Português). Não se aprende a ler por dedução exacta de uma proposição dada como correcta a partir de um texto estudado; aprende-se a ler um texto reflectindo criticamente sobre os seus argumentos, o que só se consegue fazer construindo outros argumentos (validando ou refutando os argumentos iniciais) e não tentando adivinhar qual das soluções propostas por outrem é a mais exacta.

É o mesmo problema com a questão 7 sobre correspondências semânticas (uma das quais indemonstrável), um exercício de charada que substitui a análise crítico-interpretativa do discurso. Quem não estudou para este exame, pode, por capricho da sorte, acertar todas as correspondências, comprovando-se estatisticamente que o estudante de Português é hábil na capacidade de análise do discurso. Recordo que o objectivo assumido para este grupo II é o seguinte. "Todos os itens deste grupo visam avaliar a competência de leitura de um texto expositivo-argumentativo, bem como avaliar conhecimentos relativos ao funcionamento da língua." Esta filosofia representa o que sempre me afastou dos programadores oficiais da actual disciplina de Português. Em artigos e em livros publicados, expliquei já os fundamentos da minha crítica. Concluo agora a falência total do modelo de ensino que tentou transformar a disciplina de Português numa disciplina pragmática, de utilidade pública ao serviço da sociedade globalizada que nos oprime e impede de aprender por outra via, como se o ensino humanístico da cultura e da literatura fosse um caminho de perdição.

Para lutar contra o insucesso do Português, afirmar que "importa equacionar medidas de reforço do trabalho dos alunos nesta disciplina, designadamente estendendo ao ensino secundário as dinâmicas do Plano Nacional de Leitura", como o fizeram os responsáveis do ME, é um equívoco que mostra como são decididas as políticas educativas: acredita-se que o reforço de uma dada dimensão da aprendizagem (leitura) pode ser a solução para remediar um problema conjuntural que nasceu de uma errada concepção de um programa curricular nacional. Em vez de afirmar a necessidade de repensar o currículo e o seu efeito desastroso na formação dos estudantes, remenda-se a situação com a extensão de um programa de (justo) sucesso que é apenas isso mesmo, um remendo. O pensamento estratégico para o futuro que deve envolver toda a comunidade educativa quando se constrói um programa disciplinar do currículo nacional não interessa a quem governa a Educação.

A falência da formação de professores


Continuo a denunciar o Decreto-Lei n.º 43/2007 por entender, até prova em contrário, que compromete o presente e o futuro da formação de professores em Portugal. Um ano depois e já com o primeiro ano dos novos mestrados de ensino concluído, vejo reforçadas todas as preocupações que o diploma sempre levantou a todos os que têm a responsabilidade prática de formar professores. Continuo a acreditar que, infelizmente, os professores que estamos agora a formar nunca estarão preparados cientificamente para o exercício da docência de uma disciplina (ou de um par de disciplinas na maior parte dos casos, o que é ainda mais grave). Amanhã, dirão que as universidades não formam correctamente os professores, que a sua competência científica é cada vez mais deficiente e que o resultado se transfere para uma massa estudantil cada vez mais iletrada. O insucesso escolar dos professores vai juntar-se ao insucesso escolar dos estudantes e as teses sobre iliteracia cultural e literária multiplicar-se-ão. Este cenário de falência resulta directamente de uma política falhada de formação inicial de professores. Não repito aqui o longo parecer científico onde demonstro as falácias do DL n.º 43/2007, nomeadamente na junção absurda que faz de vários pares de disciplinas. Não repito aqui que o ME, ignorou todos os pareceres que recebeu denunciando esses erros graves de organização de falsos domínios científicos (História e Geografia, Biologia e Geologia, Física e Química) e uma arrumação desastrosa do Português com as línguas estrangeiras e as línguas clássicas. Continuo a denunciar que não é possível formar um professor de História ou de Geografia com apenas 54 créditos ECTS (um ano lectivo ou 9 disciplinas de licenciatura!); continuo a denunciar que é um crime jurídico ter deixado de fora os licenciados em Línguas com a variante de Estudos Portugueses e Ingleses, sem que ninguém encontre justificação para tal. Todos os dias sou obrigado a tentar resolver os graves e complexos problemas de equivalências e processos de transição que este Decreto-Lei criou. Apetece-me quase sempre reenviar os candidatos a professor à Rua 5 de Outubro: se irresponsavelmente o ME criou a Lei, não resolve agora um único problema dos muitos que a Lei levanta. Infelizmente, a falência que agora facilmente se pode prever para quem está no terreno será amanhã atribuída a que forma os professores e não a quem produziu a legislação.

Há cada vez mais uma política oculta na educação portuguesa para desprestigiar a formação científica dos professores, que se estende a muitos cargos administrativos do Edifício educativo. Alguns exemplos:
  1. os directores dos Centros de Formação de Associações de Escolas são seleccionados com critérios que privilegiam a formação especializada em Educação e remetem para o fim desses critérios, por exemplo, algo tão importante como comunicações apresentadas em conferências, congressos, colóquios, debates, seminários ou acções congéneres, e deixando de fora a aquisição de habilitações académicas para além da licenciatura.
  2. Pelo Decreto-Lei n.º 104/2008 de 24 de Junho, "a admissão a concurso para acesso a professor titular depende de prévia aprovação do candidato em prova pública que incide sobre a actividade profissional desenvolvida pelo docente, com o objectivo de demonstrar a sua aptidão para o exercício específico das funções inerentes à categoria." Mas a prova pública que passa pela apresentação de um trabalho pelo candidato e respectiva discussão, "versa sobre a experiência do quotidiano escolar vivenciada no exercício efectivo de funções docentes, designadamente na área disciplinar do candidato". Ou seja, para se poder ascender na hierarquia profissional dos professores de nada serve apostar na formação académica, por isso muitos mestres e doutores que já existem nos Ensinos Básico e Secundário são colocados na situação humilhante em que a sua aposta numa formação avançada é irrelevante, com o prejuízo agravado, e de natureza jurídica-administrativa mais do que duvidosa, de virem a ser avaliados por indivíduos com inferior qualificação académica.
  3. Depois de uma licenciatura e um mestrado em ensino (5 anos de formação), um indivíduo que se queira candidatar à profissão docente tem agora que prestar uma prova de ingresso, como se a profissão estivesse regulada por uma ordem profissional e como se o próprio ME fosse essa "Ordem". Em vez de reconhecer a formação científico-pedagógica concluída e avaliada pelas instituições do Ensino Superior, o ME declara a sua desconfiança no sistema que ele próprio criou (impondo o Decreto-Lei nº 43/2007), mas entrando em contradição institucional: o controlo da qualidade da formação faz-se na avaliação dos cursos de formação. Ora, as formações de 1.º ciclo (licenciatura) e de 2.º ciclo (mestrado) já são pré-avaliados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e espera-se que em breve sejam acreditados todos os cursos pela prometida Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior. Para quê então uma prova de ingresso para avaliar aquilo que já está avaliado pelas estruturas de outro Ministério? Ou não confia o ME na competência do MCES? E onde vai buscar o ME doutores em número suficiente para avaliar os novos mestres em ensino? Ou optará pela mesma estratégia (?) dos anunciados concursos para professor titular, com os burocratas licenciados do GAVE a avaliar os mestres formados pelas universidades, subvertendo ridiculamente a hierarquia académica e facilitando o caminho a impugnações fáceis de qualificações destorcidas?


Carlos Ceia

Publicado no Educare
em 21 de Julho de 2008

(via A Educação do meu umbigo - Maria C.)

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Quinta-feira, Julho 17, 2008

Américo Tavares - Exames de Matemática

Exame de Matemática de 2008
A questão do facilitismo do Ministério da Educação entrou finalmente na arena pública, com a Ministra a desconsiderar as múltiplas chamadas de atenção do Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática.
Exame de Matemática de 1968
Américo Tavares não elaborou considerações directas sobre esta desinteligência entre o governo e a sociedade civil. Oferecendo uma contribuição maior para o debate, conseguiu recuperar uma prova do antigo sétimo ano do liceu, o nível escolar equivalente ao actual 11º Ano. De forma que qualquer leitor pode hoje tirar as suas próprias conclusões.
Reproduzo apenas as primeiras questões das duas provas, separadas por quarenta anos. O resto pode ser consultado em problemas|teoremas de Américo Tavares:
  1. Exame de Matemática de 1968
  2. Exame de Matemática de 2008


PS: Já depois de escrito o post, descobri que também cá por casa havia exames graças aos cuidados de Magda Reprezas. São também do sétimo ano de 1968. Digitalizei dois, ambos da primeira chamada:
  1. Exame de Matemática (pág 1 e pág 2)
  2. Exame de Física e Química (pág 1 e pág 2)


Nessa altura não havia ainda máquinas de calcular de bolso, mas era permitido usar a tabela de logaritmos.

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Sábado, Julho 12, 2008

Paulo Guinote - Opções insanas na política da Educação

Há duas maneiras de ultrapassar a ansiedade dos factos adversos às nossas aspirações: prepararmo-nos cuidadosamente para vencer uma a uma cada dificuldade ou baixarmos as nossas expectativas. Quando assumidas, qualquer uma destas opções é válida, embora naturalmente com resultados diferentes. Mas há quem ceda à tentação de enveredar pela segunda e se convença que está a seguir a primeira. Aparentemente, há um tipo de esquizofrenia induzida pela tentativa do exercício de funções acima do nível de competência. (AF)




É recorrente em Portugal dizer-se que a Educação está mal. De tanto o dizermos tornou-se uma espécie de ruído de fundo familiar, uma das nossas fatalidades, à qual já nos habituámos e sem a qual dificilmente viveríamos. Se desaparecesse, estranharíamos. É o escape para todos os nossos falhanços:
  • A economia não se desenvolve? É a falta de qualificações!
  • A vida política é uma lástima? Falta de educação cívica!
  • A corrupção e o cunhismo são um modo de vida? Precisamos de uma mudança de mentalidade que deve começar na Escola.
Verdade se diga que com mais 150 anos de declínio, a anunciar-se repetidamente que a Educação está bater no fundo, só é possível que esse mesmo fundo esteja seja em movimento descendente.

Mas, neste particular, o actual Governo inovou com alguma ousadia e não pouco arreganho, pois decidiu que apesar de estarmos mal, a partir de agora vamos ter números para demonstrar à saciedade que estamos bem.
  • Há falta de qualificações? Damos Novas Oportunidades ao desbarato para o pessoal se certificar e diplomar.
  • Há (ou voltam a haver) sinais do abandono escolar não descer? Retira-se gravidade à falta de assiduidade dos alunos.
  • Há maus resultados nos exames? Manda-se «melhorar a qualidade» dos exames.
O actual Governo, pelas mãos diligentes da equipa do Ministério da Educação decidiu apresentar «reformas», traduziu-as em milhentas iniciativas legislativas e declarou que a partir de agora tudo entraria nos eixos, a começar pelos professores, esses dispendiosos malandros, que são responsáveis, desde sempre, pelas políticas educativas, pelos decretos, leis, portarias e despachos, pela sua própria formação e pelas condições de ingresso na carreira, pelo currículo, pelos programas e pelo sistema de avaliação, mais o desequilíbrio orçamental.

As coisas não parecem dar mais resultado do que libertar verbas para equipar as escolas, porque os alunos em pouco parecem ter melhorado o seu desempenho? Fabrica-se sucesso a rodos, a começar pela Matemática, essa velha bête noire do sistema educativo. Os alunos não sabem a tabuada aos 10 anos? Coloca-se a dita no formulário do exame. Aos 12 não sabem calcular a área de um quadrado ou círculo, coloca-se a fórmula no enunciado. Aos 15 ainda não sabem o que devioam saber aos 12? Então elaboram-se questões para um aluno de 10 anos.

E assim se constrói toda uma nova realidade ridente, de muitos numerozinhos feita.

Deve ser um novo paradigma.

Paulo Guinote in O estado da Educação
publicado em A Educação do meu umbigo em 11 de Julho de 2008

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Terça-feira, Junho 24, 2008

Mário Rodrigues - Fraude na Educação

Sexta-feira passada, dia 20, participei numa fraude, uma fraude monumental. Como professor de letras, fui escalado para vigilante do Exame Nacional de Matemática, do 9.º Ano de Escolaridade.
Quando olhei para a prova não tive qualquer surpresa. Há muitos meses que previra a realidade que se me antolhava naquele momento. Quem percebeu quem é José Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues só podia esperar esta fraude nos exames. As suas políticas de “faz de conta”, de demagogia e de mentira já faziam prever o que se viria a passar. Talvez não se esperasse uma fraude tão colossal, mas parece não haver limites para estes (ir)responsáveis governamentais. Não lhes interessa o País nem o futuro dos alunos. Interessa-lhes apenas o poder, que os cega nesta política de mentira e de demagogia.
Para não causar problemas à escola onde lecciono e não perturbar a concentração dos alunos, não abandonei a sala. Vigiei a prova até ao seu termo, sujeitando-me à indignidade de colaborar nesta fraude intolerável. Aquele exame, com um grau de facilidade descomunal, pedagogicamente foi uma autêntica fraude. Os seus autores morais e materiais não são penalmente puníveis, mas à face das mais elementares regras da ética e da moral cometeram um crime hediondo. Com esta política educativa de mentira e de sucesso puramente estatístico, estão a assassinar gerações sucessivas de jovens e a aniquilar o futuro do País.
Não há nenhum dever institucional que obrigue um professor a silenciar estes crimes. Os alunos e Portugal são bem mais importantes do que o emprego ou a avaliação de um docente. O Ministério da Educação, com José Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues, está a cometer um verdadeiro crime de lesa-pátria que nenhum professor honesto e digno pode silenciar. Pelos alunos, pelos seus pais e por Portugal, impõe-se denunciar esta fraude, mesmo conhecendo-se as práticas persecutórias deste Governo. Quem tem como única política a defesa de Portugal e dos seus jovens, não pode temer retaliações, mesmo quando vários factos parecem indiciar que estamos perante políticos sem escrúpulos e de duvidosa hombridade…

Publicado em A Educação do meu Umbigo
em 24 de Junho de 2008

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Sexta-feira, Junho 20, 2008

Uma pergunta para o GAVE:

Assinalar com uma cruz, duas ou três cruzes ou nenhuma cruz, qual é a resposta que deve obter a cotação total da pergunta:

a) o aluno trabalhou correctamente a questão proposta, mas no campo "resposta" inseriu uma resposta errada;

b) o aluno trabalhou incorrectamente a questão proposta, mas no campo "resposta" inseriu a resposta certa;

c) o aluno trabalhou correctamente a questão proposta, mas não preencheu o campo "resposta".

Se algum leitor por acaso conseguir encontrar um documento oficial com a resposta a esta questão, agradecia que inserisse essa resposta no comentário.

Muito obrigado,

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Carlos Fiolhais versus Maria de Lurdes Rodrigues

Carlos FiolhaisEm matéria de exames, há dois aspectos que são bem mais relevantes que os erros pontuais nas provas. Em primeiro lugar, toda a gente, excepto o GAVE, percebe que os exames estão, em geral, cada vez mais fáceis. Quem não sabe nada de nada pode sempre tentar a sua sorte em mal alinhavadas questões de "cruzinhas", não precisando sequer de saber escrever. Este caminho para o abismo da ignorância tem sido denunciado por muita gente. Mas o presidente do GAVE, num insulto à inteligência, retorquiu dizendo que não existem "perguntas demasiado elementares, mas sim de dificuldade diferente". O que fazer a não ser, talvez, dar gargalhadas?

O segundo aspecto é tão grave como o primeiro (quase apetece o trocadilho "tão GAVE"). Trata-se da linguagem tanto das provas como das "propostas" de correcção oficiais. É uma enormidade linguística e educativa que, num exame do 12º ano de Poirtuguês, apareça uma frase como:
"Para responder, escreva, na folha de respostas, o número do item, o número identificativo de cada elemento da coluna A e a letra identificativa do único elemento da coluna B que lhe corresponde".
Isto não é um exame a sério do domínio da língua, é uma charada.

Como fiquei sem saber para que serve este tipo de exames, fui ao sítio do GAVE:
"Os exames nacionais são instrumentos de avaliação sumativa externa no Ensino Secundário. Enquadram-se num processo que contribui para a certificação das aprendizagens e competências adquiridas pelos alunos e, paralelamente, revelam-se instrumentos de enorme valia para a regulação das práticas educativas, no sentido da garantia de uma melhoria sustentada das aprendizagens."
Fiquei na mesma. Alguém me decifra este arrazoado?


Carlos Fiolhais in Errar muito é desumano
publicado no jornal Público em 20 de Junho de 2008

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Sociedade Portuguesa de Matemática versus GAVE

Provas de Aferição
Resposta ao director do GAVE



As declarações que o Director do GAVE fez a propósito do parecer da Sociedade Portuguesa de Matemática sobre as recentes provas de aferição são inexactas e infelizes.

O tom é totalmente inadequado, não dignifica ninguém e não o mantemos. Estão em discussão duas provas concretas, às quais é necessário fazer reparos. Segundo o Jornal de Notícias, citando a Lusa, o Director do GAVE acusa as nossas críticas de "levianas", dando a entender que a SPM não detém o "conhecimento técnico indispensável".

Repudiamos em absoluto. A Sociedade Portuguesa de Matemática tem a competência para criticar rovas de matemática, fá-lo ponderadamente e tem todo o direito de o fazer.

Mantemos que "os enunciados contêm um número exagerado de questões demasiado elementares" (sublinhado do parecer). Vejam-se, por exemplo, a questão 18 da prova do primeiro ciclo e as questões 8 e 16 da do segundo ciclo. O comentário do Director do GAVE dá a entender que nunca, em circunstância alguma, poderia haver questões demasiado elementares, mas apenas questões de dificuldade variável. Discordamos, como é óbvio.

Este aspecto é muito importante, pois com provas tão fáceis, o Ministério está a desautorizar o esforço dos professores que têm insistido com os seus alunos na necessidade de dominar bem o cálculo, o raciocínio e os conceitos matemáticos. Estas provas não apoiam a exigência escolar nem fazem justiça ao esforço de professores e alunos.

As nossas críticas podem ser ouvidas, segundo o que diz o Director do Gave, mas não é verdade, em geral, que sejam tomadas em conta. Temos insistido na necessidade de provas fiáveis, comparáveis de ano a ano, mas o ministério não o tem querido, sabido ou decidido fazer. Temos insistido na necessidade de as provas serem mais exigentes e isso não tem acontecido. Temos insistido na necessidade de estabelecer mais exames, e isso não tem ocorrido.

Finalmente, temos de esclarecer que, apesar de nos termos sempre disposto a colaborar com o GAVE em todos os aspectos para que somos solicitados, não temos qualquer responsabilidade na concepção ou no grau de dificuldade de nenhumas provas. Neste particular, o único aspecto em que temos colaborado — e apenas em algumas provas, que não estas — é na correcção de possíveis erros científicos. A nossa colaboração com o Ministério, que mantemos e manteremos sempre que solicitada, não pode significar a restrição da discordância.

O Gabinete do Ensino Básico e Secundário
da Sociedade Portuguesa de Matemática


publicado pela Sociedade Portuguesa de Matemática
a 22 de Maio de 2008

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Quinta-feira, Março 13, 2008

As estatísticas do Ministério da Educação

O ME não anda a trabalhar pelos alunos. Estes, não são mais do que carne para canhão ao serviço da sua estatística.
Vejamos o que se anda a passar na Matemática, do 3º ciclo do ensino básico.
Para melhorar a estatística do sucesso no exame nacional, o ME anda a transformar a prova numa operação de teatro em três actos.
A prova própriamente dita, não é mais do que o terceiro acto dessa peça de teatro, que se encontra escalada para 20 de Junho.
Antes disso, já ocorreu o primeiro acto, a 31 de Janeiro, e está calendarizado o segundo acto para dia 7 de Maio.
Só o último acto é que é público, porque os dois primeiros actos decorrem à revelia dos pais, dos alunos e do país.
Ao atropelo da escola, que é obrigada a transformar a aula regular que está prevista para aquela hora, em horário da peça de teatro, que como é a nível nacional tem que decorrer em todas as escolas à mesma hora.
Ao atropelo dos pais, que nem sequer são informados da existência da prova, e muito menos das suas eventuais implicações na avaliação do aluno, ficando até na confusão se a prova se realiza em todas as escolas, ou apenas em algumas.
E principalmente em prejuízo dos alunos, aos quais não é oferecido um período de preparação que é sempre contemplado em provas de âmbito nacional, decorrendo as provas em completa acumulação com todas as restantes responsabilidades na preparação das aulas e na prestação das provas nas restantes disciplinas.
Tudo isso, apenas para que a ministra possa vir a "tirar proveito" duma eventual melhoria da classificação em Matemática, ao mesmo tempo que os pais culpam os filhos de terem piorado os resultados nas restantes disciplinas.

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Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

António Jacinto Pascoal - A fraude

Grato à Moriae pelo lembrete e a Martim Gouveia e Sousa pela publicação no seu blog. Quanto ao professor Pascoal, rendo-lhe a minha homenagem pela sua coragem e verticalidade. Quando um dia esta situação se inverter, poderá reclamar com justiça o seu quinhão de responsabilidade. (AF)

O ensino não vai bem e dele não se esperam melhorias. Dos resultados, o melhor é dizer que, se, em geral, não são francamente baixos, é porque são confeccionados. Um pequeno grão de uma longa fraude. A mentira é o sintoma do sistema. E começa na cúpula.

Para chegar a esta conclusão, não tomei muitas notas nem delineei a estrutura de qualquer tratado: constata-se. Todos o sabem, embora não esteja nos livros. O espectáculo, bem montado, vincula-nos (quando não nos premeia) a todos, professores, pais, alunos: celebramos, é certo, o mais infeliz dos papéis, que é o de bobos estultos.

Actualmente, um estabelecimento de ensino - em geral, público - é um lugar desconfortável. Os docentes, à falta de melhor, destilam fel; os alunos, feita a ressalva devida, são rudes; os auxiliares vivem o ingrato dilema de vigiar professores e ser desautorizados por alunos. E o caos só não escandaliza porque é tacitamente aceite. Ninguém leva a mão à boca de espanto, pois já ninguém estranha.

Acresce que domínios curriculares como Formação Cívica (a bem dizer, uma obrigação de família), Estudo Acompanhado (na verdade, um pressuposto do estudo, que é nem mais do que verificar uma matéria) ou Área de Projecto (entenda-se trabalhos em grupo sob mote), cujo sentido talvez fosse possível admitir numa fase inicial da escolaridade (e, ainda assim, diluídos nas disciplinas vigentes de 1.º Ciclo - ler, escrever e contar continuam a ser objectivos - e tanto faz que se leia competências - essenciais), não passam de folclore dessa farsa a que se convencionou chamar reorganização curricular e gestão flexível do currículo.

Não será preciso ter dois dedos de testa para perceber que as turmas de 1.º, 2.º e 3.º ciclos do Ensino Básico não comportam mais de 15 alunos (número arbitrário, mas razoável, a atender ao perfil do modelo actual de aluno).

A destituição do poder a que os professores têm sido sujeitos gerou um paradigma comportamental profundamente enraizado nos discentes, a transcender a ética humana: banalização do estudo, privando-o de importância e solenidade; incumprimento de tarefas; transformação da aprendizagem em divertimento ou entretenimento fútil; infantilização; boicote do sistema de ensino; desvalorização do esforço e sacrifício; iliteracia; desregramento, desrespeito e imbecilidade.

Recordo duas gratas figuras a quem ouvi chamar algumas coisas pelos nomes: Marçal Grilo e Lobo Antunes. Este último, se bem me lembro, aconselhava a que se tratasse os alunos como cães (entenda-se a metáfora, sem precipitações). Não acredito num ensino em que um professor não tenha, muitas vezes, de ser austero, e um aluno, não raro, de ser espartano. Por isso me espanta que o que dimana do Ministério da Educação contrarie tudo isto: erradicação da importância da Filosofia, rasura da literatura, despenalização das faltas, elaboração de planos redentores (Plano de Recuperação, de Acompanhamento, da Matemática, etc.), criação de inúmeras fraldas pedagógicas, elaboração de exames manifestamente caricaturais, invenção de "aulas" substitutas, e tanto mais. Os fautores do ministério não são incompetentes: são, antes, irreais. E irracionais.

Na sua nefasta acção, ajudam o aluno a ser esmoler e a pedinchar notas, convencem os encarregados de Educação a reivindicar o irrazoável e a encarnar um largo espectro de qualidades diabólicas e boçais e obrigam os professores a capitular na sua missão - se é ainda possível imaginar que o ensino assim tenha sido alguma vez considerado.

Nem tudo é deste modo, mas muito do que sabemos é-o. Vemos, ouvimos e lemos: não podemos ignorar. Contudo, este silêncio é de ouro, e nem sequer os sindicatos perturbam as boas consciências (as greves de sexta sucedem-se como a expressão de um mundo sinistramente repetitivo). (...) Não nos rebelando contra o sistema - o que exigiria, no mínimo, uma paralisação de todos os sectores de ensino por tempo indeterminado -, só nos resta sermos as chocas da arena morna em que pactuamos. E a haver desculpa, só a de não darmos por nada.

Para coroar o fracasso deste modelo de ensino, a recente alteração no estatuto, que prevê a "titularidade" dos docentes, e a proposta de modificação na gestão, que antevê a figura do "director", têm um duplo imperativo: fazer dos professores galos de combate e amplificar a divisão no seio da docência. Nada mais hábil, vindo da parte da classe política, a quem só resta limpar as mãos, já lavadas por inúmeros Pilatos. O que se adivinha, contudo, não se revela muito animador para o futuro da Educação em Portugal.

A actual ministra, entretanto, balanceia-se entre uma rigorosa verve e uma logorreia falsa. Não é dela a culpa: muitos outros vieram antes e indicaram-lhe o caminho. Ela só teve de caminhar.
Nota - Ficou a jeito esta minha cabeça. Se ela rolasse, não seria sinal de ser incómoda. Seria antes a prova de que o Big Brother não é ficção literária.

António Jacinto Pascoal (professor)
Escola Secundária Fernando Assis Pacheco, Lisboa

Carta ao Director do jornal O Público, publicada em 16 de Dezembro de 2007 e reproduzida em post por martim de gouveia e sousa em Ave azul a 17de Dezembro de 2007

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