LUCROS
EXTRAORDINÁRIOS DA GALP NO 1º SEMESTRE DE 2008 SOBEM 159%, NÃO PAGA
“TAXA DE ROBIM DOS BOSQUES” E O GOVERNO
“OFERECE” 212 MILHÕES DE EUROS DE IRC
RESUMO DESTE ESTUDO
No 1º semestre de 2008,
as vendas da GALP aumentaram 28,1% em relação a idêntico período
de 2007, mas os seus lucros extraordinários resultantes do chamado
“efeito de stock”, ou seja, da especulação que se verifica no
mercado internacional do petróleo e dos combustíveis atingiram 306
milhões de euros, quando no 1º semestre de 2007 tinham sido de 118
milhões de euros; portanto, os lucros extraordinários em 2008 foram
superiores aos de 2007 em 159,3%. Como consequência os lucros líquidos
totais da GALP, só no 1º semestre de 2008, somaram 524 milhões de
euros.
A GALP tem sido rápida
em aumentar os preços dos combustíveis em Portugal quando o barril
de petróleo no mercado internacional sobe. É quase imediato. No entanto,
quando ele desce , como está a suceder agora, já não é tão rápida.
Segundo a Direcção Geral de Energia do Ministério da Economia, entre
Julho e Agosto de 2008, o preço do barril de petróleo em euros desceu
no mercado internacional -10,6%, mas em Portugal a gasolina 95 baixou
apenas -3,7%, a gasolina 98 somente -3,1%, e o gasóleo desceu -5,8%.
E entre Agosto e a 1º quinzena de Setembro de 2008, o barril de petróleo
desceu -7,7%, enquanto o preço da gasolina 95 baixou apenas -0,3% (25,6
vezes menos que a descida no petróleo) e o preço do gasóleo
desceu -2,1% (3,6 vezes menos que a descida do petróleo). Os comentários
parecem ser desnecessários.
O governo apresentou
na Assembleia da República uma Proposta de Lei – A PL 418/2008 –
que inclui a chamada “Taxa de Robim dos Bosques”. Contrariamente
àquilo que tem afirmado e escreveram também muitos jornalistas, esta
proposta de lei, não cria uma nova taxa, mas apenas altera a formula
de contabilização do custo do petróleo utilizado na produção de
combustíveis a qual, com a descida do preço do petróleo que se está
a verificar, até favorece a GALP. Assim, de acordo com o artº 4º
da Proposta de Lei do governo “as empresas de fabricação ou distribuição
de produto petrolíferos refinados ficam obrigadas, para efeitos fiscais,
a adoptar os métodos FIFO ou do custo médio ponderado”. E “a diferença
positiva entre a margem bruta de produção determinada com base na
aplicação dos métodos FIFO ou do custo médio ponderado no custeio
das matérias primas consumidas e a determinada com base na aplicação
do método de custeio adoptado na contabilidade está sujeita a uma
tributação autónoma em IRC , à taxa de 25%”. É evidente, e para
isso não é preciso ter muitos conhecimentos técnicos para compreender
isso, que basta à empresa adoptar na sua contabilidade o mesmo sistema
de custeio que é obrigada para efeitos fiscais, que não tem de pagar
mais IRC. Para além disso, com a descida que se está a verificar no
preço do barril de petróleo, a adopção do método de custeio FIFO
ou do preço médio ponderado, constante na proposta de lei, ainda favorece
a GALP porque são considerados, em primeiro lugar, as aquisições
de petróleo mais antigas, cujos preços são mais elevados, o que faz
descer a margem entre custos e proveitos e, consequentemente, também
baixa a matéria colectável, o que determinará a redução do imposto
(IRC) que a empresa terá de pagar em 2009.
Em Março de 2008, o
actual governo aprovou a Resolução do Conselho de Ministros nº 55/2008,
que passou despercebida à opinião pública e aos media, que vai determinar
que a GALP pague menos 211,8 milhões de euros de IRC. Como os
principais accionistas da GALP são o grupo Amorim com 33,34% do capital,
cujo dono é o homem mais rico de Portugal como noticiaram os jornais,
e o grande grupo económico italiano de energia ENI, também com 33,34%
do seu capital, serão estes os grandes beneficiados com esta benesse
do governo dada à custa das receitas do Estado. Para se poder ficar
com uma ideia mais clara que interesses o governo de Sócrates efectivamente
defende interessa recordar o seguinte: durante o debate do Orçamento
do Estado de 2008, o grupo parlamentar a que o autor deste estudo pertencia
apresentou uma proposta com o objectivo de aumentar os escalões do
IRS em 3% relativamente aos valores que vigoraram em 2007 devido ao
facto da taxa de inflação em 2008 aumentar 3%, e não o 2,1% previsto
pelo governo. Apesar desta medida determinar uma redução de receita
fiscal que estimamos em apenas 60 milhões de euros, mesmo assim o governo
de Sócrates recusou-se aceitá-la. No entanto, oferece de mão
beijada 200 milhões de euros do IRC à GALP, quer dizer ao homem mais
rico de Portugal e ao grupo económico italiano ENI. É evidente que
serão depois principalmente os trabalhadores e os reformados a ter
de pagar com os seus impostos este “buraco” criado nas receitas
fiscais.
O governo de Sócrates
tem-se revelado ser um “grande amigo” para os grupos económicos
e nomeadamente para a GALP, já que não tem combatido os lucros especulativos
desta empresa, e transformou a chamada “taxa de Robim dos Bosques”,
tão utilizada na propaganda oficial numa medida que vai beneficiar
a GALP, e embora isso tenha passado despercebido à opinião publica
e aos media, reduziu o IRC a pagar por esta por esta empresa, pois aprovou
uma resolução em Conselho Ministros que isenta esta empresa do pagamento
de cerca de 211,8 milhões de IRC. É tudo isto que vamos provar utilizando
dados oficiais.
OS LUCROS DA GALP NO
1º SEMESTRE DE 2008 RESULTANTES DA ESPECULAÇÃO DO PETRÓLEO E COMBUSTIVEIS
NO MERCADO INTERNACIONAL AUMENTARAM 159%
A GALP Energia acabou
de divulgar as suas contas referentes ao 1º semestre de 2008. E embora
isso tenha passado “despercebido” à generalidade dos media, quem
se dê ao trabalho de analisar as contas publicadas, e tenha os conhecimentos
técnicos necessários para as entender, fica naturalmente surpreendido
com o aumento vertiginoso que se verificou nos lucros extraordinários
da GALP resultantes da especulação que se tem verificado no mercado
internacional do petróleo e dos combustíveis O quadro seguinte, construído
com dados constantes das contas divulgadas pela GALP, permite rapidamente
concluir isso.
QUADRO I – Lucros da GALP resultantes da especulação do petróleo no mercado internacional no 1º semestre de 2007 e 2008
| RÚBRICAS | 1º SEMESTRE- Milhões euros | Variação | |
| 2007 | 2008 | 2007-08 | |
| VENDAS | 5.885 | 7.537 | 28,1% |
| Resultado Operacional | 517 | 725 | 40,2% |
| Resultado Operacional replacement cost | 376 | 322 | -14,4% |
| RESULTADO OPERACIONAL resultantes EFEITO STOCK | 141 | 403 | 185,8% |
| Resultado Liquido (incluiu “feito stock”) | 401 | 524 | 30,7% |
| Resultado Liquido replacement cost (sem efeito stock) | 283 | 218 | -23,0% |
| LUCRO LIQUIDO resultante do EFEITO STOCK (Lucros resultantes da especulação do petróleo e combustíveis) | 118 | 306 | 159,3% |
| FONTE: Resultados 1º Semestre 2008 - GALP ENERGIA | |||
Como já referimos em
artigos anteriores, os lucros totais da GALP incluem aqueles que resultam
da actividade normal da empresa, ou seja, aqueles que esta empresa
teria se não se verificasse especulação no mercado internacional
de petróleo e dos combustíveis, mais os lucros extraordinários que
resultam da especulação que se verifica naquele mercado internacional
e que a GALP se aproveita. Estes lucros extraordinários têm como origem
o facto da GALP, com base no sistema de formação de preços dos combustíveis
que utiliza, com a conivência do governo de Sócrates e da Autoridade
da Concorrência, conseguir imputar o petróleo que consome para produzir
os combustíveis que vende, a um preço superior ao que pagou quando
o adquiriu. É a este lucro extraordinário, que a GALP designa com
o eufemismo “efeito stock” ou lucro sem “replacement cost”,
como aparece nas contas da GALP, para o tornar incompreensível aos
jornalistas e à opinião pública.
E como mostram os dados
do quadro I, que constam da pág.9 dos “Resultados do 1º semestre
de 2008” divulgados pela GALP que se encontram disponíveis no seu
“site”, entre 1º semestre de 2007 e 0 1º semestre de 2008, as
vendas da GALP aumentaram 28,1%, mas os seus lucros líquidos extraordinários,
resultantes apenas do “efeito stock” aumentaram de 118 milhões
de euros para 306 milhões de euros, ou seja, subiram 159,3%. Como consequência
os lucros líquidos totais desta empresa subiram, entre o 1ºsemestre
de 2007 e 1º semestre de 2008, de 401 milhões de euros para 524 milhões
de euros. E isto apenas num semestre. O presidente da GALP quando apresentou
estes resultados na conferência de imprensa que realizou, ainda teve
a “lata” de dizer que as petrolíferas estavam a enfrentar dificuldades
semelhantes aos dos consumidores com a crise do petróleo.
PREÇOS DE COMBUSTVEIS
EM PORTUGAL DESCEM MUITO MENOS DE METADE DO QUE A BAIXA
REGISTADA NO PREÇO DO PETRÓLEO NO MERCADO INTERNACIONAL
As petrolíferas, e nomeadamente
a GALP, são céleres em aumentar os preços dos combustíveis em Portugal,
quando sobe o preço do barril de petróleo no mercado internacional.
É quase imediato. Mas já não têm a mesma celeridade quando o preço
desce, como revelam os dados da Direcção Geral da Energia do Ministério
da Economia constantes do quadro seguinte.
QUADRO II – Variação do preço do barril de petróleo no mercado internacional e dos preços dos combustíveis em Portugal
| DATA | BRENT Euros/barril | Gasolina sem chumbo 95 –Euros/litro | Gasolina sem chumbo 98 Euros/litro | Gasóleo Rodoviário Euros /litro |
| Julho de 2008 | 84,45 | 1,519 | 1,616 | 1,422 |
| Agosto de 2008 | 75,51 | 1,462 | 1,566 | 1,340 |
| VRIAÇÃO entre Julho e Agosto de 2008 | -10,6% | -3,7% | -3,1% | -5,8% |
| FONTE: Direcção Geral de Energia e Geologia - Ministério Economia | ||||
Entre Julho e Agosto
de 2008, o preço do barril de petróleo em euros no mercado internacional
desceu -10,6%, mas em Portugal a gasolina 95 baixou apenas
-3,7%; a gasolina 98 somente -3,1%; e o gasóleo desceu -5,8%.
Em Setembro a variação
ainda tem sido mais favorável para a GALP. Nos últimos dias da 1ª
quinzena de Setembro, o barril de petróleo estava a ser transaccionado
no mercado internacional a 97 dólares, o que correspondia a 69,67 euros.
Mas a gasolina 95 era vendida em Portugal a 1,458 euros o litro e o
gasóleo a 1,311 euros. Estes valores, relativamente aos de Agosto constantes
do quadro anterior, representavam uma descida no barril de petróleo
de -7,7%, enquanto a baixa no preço da gasolina 95 foi de -0,3% (25,6
vezes menos que a descida no petróleo) e no preço do gasóleo -2,1%
(3,6 vezes menos que a descida do petróleo). Os comentários parecem
ser desnecessários. Que o leitor tire as suas próprias conclusões.
A PROPOSTA DE LEI DO
GOVERNO SOBRE A “TAXA DE ROBIM DOS BOSQUES”
NÃO CRIA QUALQUER IMPOSTO NOVO E AINDA BENEFICIA A GALP
O governo apresentou
na Assembleia da República uma Proposta de Lei – A PL 418/2008 –
que inclui a chamada “Taxa de Robim dos Bosques”. Contrariamente
àquilo que tem afirmado o governo e escreveram muitos jornalistas,
a proposta de lei, que tarda a ser agendada para debate, não cria uma
nova taxa, mas apenas altera a formula de contabilização do custo
do petróleo utilizado na produção de combustíveis a qual, com a
descida do preço do petróleo que se está a verificar, até favorece
a GALP.
Assim, de acordo com
o artº 4º da Proposta de Lei do governo “as empresas da fabricação
ou distribuição de produto petrolíferos refinados ficam obrigadas,
para efeitos fiscais, a adoptar os métodos FIFO (First in, First
out) ou do custo médio ponderado no custo das matérias primas-consumidas,
devendo ser usadas o mesmo método para os inventários que tenham uma
natureza e uso semelhante nos sucessivos exercícios” (nº1 ). E “a
diferença positiva entre a margem bruta de produção determinada com
base na aplicação dos métodos FIFO ou do custo médio ponderado no
custeio das matérias primas consumidas e a determinada com base na
aplicação do método de custeio adoptado na contabilidade está sujeita
a uma tributação autónoma em IRC , à taxa de 25% (nº2). É evidente,
e para isso não é necessário ter muitos conhecimentos técnicos,
que basta à empresa adoptar na sua contabilidade o mesmo sistema de
custeio que é obrigada para efeitos fiscais – FIFO ou custo médio
ponderado – para aquela diferença da margem bruta de produção
ser ZERO e ser também ZERO “a tributação autónoma em IRC, à taxa
de 25% ( 0 x 25% = 0). Para além disso, com a descida que se está
a verificar no preço do barril de petróleo, a adopção do método
de custeio FIFO ou o do preço médio ponderado ainda favorece a GALP.
E isto porque são considerados, em primeiro lugar, os lotes de petróleo
mais antigos, cujos preços de aquisição foram mais elevados, o que
faz descer a margem entre custos e proveitos e, consequentemente, também
baixa a matéria colectável, o que determina a diminuição do imposto
(IRC) que será entregue em 2009. Não resta dúvida que o governo de
Sócrates é “amigo da GALP que bem precisa de ajuda”, porque está
a ser “prejudicada com a crise do petróleo”, como teve a desfaçatez
de afirmar o seu presidente na última conferência de imprensa que
a empresa realizou.
GOVERNO OFERECE 212
MILHÕES DE EUROS DE IRC À GALP, OU SEJA, AO AMORIM, O HOMEM MAI S
RICO DE PORTUGAL E AO GRUPO ECONÓMICO
ITALIANO “ENI”
Em Março de 2008, o
actual governo aprovou a Resolução do Conselho de Ministros nº 55/2008,
que passou despercebida à opinião pública e aos media, que vai determinar
que a GALP pague menos 211,8 milhões de euros de IRC. De acordo com
essa resolução, como “premio” pelo investimento que esta empresa
pretende fazer para modernizar as refinarias de Sines e Matosinhos,
cujos lucros irão reverter para ela e para os seus accionistas, de
acordo com o nº 2 dessa resolução são concedidos à GALP “ os
benefícios fiscais em sede de IRC que constam do contrato de investimento
e do contrato da concessão de benefícios fiscais, sob proposta do
Ministro de Estado e das Finanças, atento o disposto do artº 39 do
Estatuto de Benefícios Fiscais, tendo, em sede de IRC , sido atribuída
pelo conselho de Ministros a majoração de relevância excepcional
do projecto para a economia nacional, na percentagem de 5%”. Portanto,
para além dos previstos já na lei, o beneficio é ainda majorado (aumentado)
em mais 5%. Fazendo cálculos, obtém-se os seguintes créditos de imposto:
(a) Credito base: 5%; (b) Credito do sector de actividade: 5%; (c) Credito
por criação de 150 postos de trabalho: 3%; (d) Credito por reconhecimento
de relevância excepcional do projecto: 5%; ( e) Crédito por protecção
ambiental: 2%. Somando dá 20%.
O credito de imposto
em euros obtém-se calculando 20% das chamadas aplicações relevantes
que inclui todo o investimento feito em activo corpóreo e incorpóreo,
com excepção dos terrenos, edifícios, viaturas ligeiras ou mistas,
mobiliário, equipamentos sociais, e “outros bens de investimento
não directa e imprescindivelmente ligados à actividade produtiva exercida
pela empresa”. Como o investimento é destinado, segundo a resolução
do Conselho de Ministros, à modernização das refinarias de Sines
e Matosinhos, naturalmente não será aplicado nas áreas excepcionadas,
consequentemente como o investimento atinge, de acordo também com resolução,
o montante de 1.059 milhões de euros, então 20% correspondem a 211,8
milhões de euros. É este o montante de IRC que a GALP deixará de
pagar devido a este benesse do governo de Sócrates. Como os principais
accionistas da GALP são o grupo Amorim com 33,34% do capital, cujo
dono final é o homem mais rico de Portugal, e o grupo italiano de energia
ENI, também com 33,34% do seu capital, serão estes os grandes beneficiados
com esta benesse do governo dada à custa das receitas do estado, que
acaba por ter de ser paga também pelos trabalhadores e outras camadas
desfavorecidas da população através dos seus impostos.
Para se poder ficar com
uma ideia mais clara que interesses o governo de Sócrates efectivamente
defende interessa recordar o seguinte: durante o debate do Orçamento
do Estado, o grupo parlamentar a que o autor deste estudo pertencia
apresentou uma proposta com o objectivo de aumentar os escalões do
IRS em 3%, que beneficiam também os trabalhadores, relativamente aos
valores que vigoraram em 2007 devido ao facto da taxa de inflação
em 2008 certamente aumentar 3%, e não o 2,1% previsto pelo governo
(em Agosto de 2008, a taxa de inflação homóloga já atingia 3%).
Apesar desta medida determinar uma redução de receita fiscal que estimamos
em 60 milhões de euros, mesmo assim o governo de Sócrates recusou-se
em aceitá-la. No entanto, oferece de mão beijada 211,8 milhões de
euros do IRC à GALP, o quer quer dizer ao homem mais rico de Portugal
(Amorim) e ao grupo económico italiano ENI. Os comentários são também
desnecessários. Os leitores que tirem as suas próprias conclusões.
Eugénio Rosa
Economista
13.9.2008