Archive for the ‘responsabilidade intelectual’ Category

Fátima Inácio Gomes – Um caminho de resistência possível

Friday, February 4th, 2011

Manietados. Não vale a pena agora expandir as razões deste estado, elas são sobejamente conhecidas por quem está nas escolas e por aqueles que, com maior esclarecimento e atenção, têm acompanhado os acontecimentos neste palco desde 2008. Os professores sentem-se manietados e todos constatamos, uns com maior perplexidade que outros, o esmorecimento que acometeu a classe.

Contudo, ainda há caminhos… caminhos que podem começar a ser trilhados (e nunca é tarde!), mas em conjunto, sem tibiezas, e que, a evoluírem, podem levar ao esperado desencadeamento da mobilização que todos desejam.

As razões são justas e têm sido repetidas à exaustão: à cabeça, o potencial de injustiça que o modelo encerra e o potencial de degradação das relações profissionais que apresenta, com o evidente prejuízo de todos, professores e alunos.

Há um caminho que vários têm tentado trilhar, mas por falta de coordenação, de união, de clareza, não tem vingado – ou, se o tem feito, morre no indivíduo – e que deve ser explorado, com consistência: o pedido de escusa dos relatores. O que é necessário é que haja concertação de movimentos, que haja união e propósito comum:

1. O pedido de escusa só pode ser dirigido ao Coordenador de Departamento, foi ele quem nomeou, de acordo com a lei e deverá invocar, de acordo com a consciência de cada um, o princípio da imparcialidade (já muito falado, não vale a pena perder-me com considerandos sobre ele);

2. O Coordenador deverá analisar o pedido e, a meu ver (fosse eu coordenadora e seria o que faria), só lhe pode dar deferimento, pois, de facto, não estando discriminadas as quotas por escola, ficam todos em conflito de interesses e, como não é da responsabilidade do relator fixar quotas, não se lhe poder imputar a responsabilidade da não aplicação do sistema (cf. artigo 36 do Decreto 2/2010);

3. Naturalmente, o Coordenador deverá, então, nomear outro relator… que deverá fazer o mesmo, pelas mesmas razões – efeito bola de neve? Sim. Mas prefiro chamar-lhe solidariedade e concertação de acções;

4. Objecção importante – o nosso eterno calcanhar de Aquiles – e os contratados? Mais uma vez, o sentido de solidariedade, o esclarecimento, e o bem-comum (sem sacrifício de alguns, apenas) deve prevalecer: o Coordenador, à falta de relatores para avaliar, avalia os contratados e estes ficam com o problema do concurso anual “resolvido”;

5. Por outro lado, devemos reverter a própria situação em que o Ministério, o das Finanças, nos colocou a nosso favor: o facto de estarmos congelados pode ajudar os mais hesitantes, os mais temerosos, a avançar, também – dá-nos tempo. Afinal, alguém tem pressa em ser avaliado até ao fim do ano lectivo? Vai progredir, entretanto??? Sejamos inteligentes. Pense-se com clareza;

6. Ainda: isto criará um problema nas escolas – pois criará. Mas precisamente por isso é que importa ser feito. A menos que se queira que isto avance, a menos que consideremos o modelo meritoso – aí metemos a viola no saco e calamo-nos de vez! Caberá, então, aos Directores resolver. E, como também não é da sua competência fixar quotas, eles terão de solicitar esclarecimentos superiores…

Tenho plena consciência que esta “estratégia” se perde no momento em que fixem quotas. Contudo, até lá, teremos revitalizado a tal união que tanto precisamos recuperar (e não me venham com mágoas, por favor). E, por outro lado, o principal, recuperamos o sentido de dignidade que insistem em retirar-nos e que o nossa submissão apenas confirma: temos o DIREITO de conhecer todo o processo pelo qual estamos a ser avaliados. As quotas são um elemento importantíssimo, e desestabilizador, desse processo – não nos pode ser negada essa informação nem nós somos obrigados a avançar com um processo do qual não conhecemos regras importantes!

Então, querem fazer algo ou não?

Fátima Inácio Gomes

Professora da Escola Secundária de Barcelos

Baptista Bastos versus Alberto João Jardim

Thursday, September 13th, 2007

Haja quem fale claro, de modo a que a gente entenda. (AF)


Alberto João Jardim não é inimputável, não é um jumento que zurra desabrido, não é um matóide inculpável, um oligofrénico, uma asneira em forma de humanóide, um erro hilariante da natureza.

Alberto João Jardim é um infame sem remissão, e o poder absoluto de que dispõe faz com que proceda como um canalha, a merecer adequado correctivo.

Em tempos, já assim alguém o fez. Recordemos. Nos finais da década de 70, invectivando contra o Conselho da Revolução, Jardim proclamou: «Os militares já não são o que eram. Os militares efeminaram-se». O comandante do Regimento de Infantaria da Madeira, coronel Lacerda, envergou a farda número um, e pediu audiência ao presidente da Região Autónoma da Madeira. Logo-assim, Lacerda aproximou-se dele e pespegou-lhe um par de estalos na cara. Lamuriou-se, o homenzinho, ao Conselho da Revolução. Vasco Lourenço mandou arrecadar a queixa com um seco: «Arquive-se na casa de banho».

A objurgatória contra chineses e indianos corresponde aos parâmetros ideológicos dos fascistas. E um fascista acondiciona o estofo de um canalha. Não há que sair das definições. Perante os factos, as tímidas rebatidas ao que ele disse pertencem aos domínios das amenidades. Jardim tem insultado Presidentes da República, primeiros-ministros, representantes da República na ilha, ministros e outros altos dignitários da nação. Ninguém lhe aplica o Código Penal e os processos decorrentes de, amiúde, ele tripudiar sobre a Constituição. Os barões do PSD babam-se, os do PS balbuciam frivolidades, os do CDS estremecem, o PCP não utiliza os meios legais, disponentes em assuntos deste jaez e estilo. Desculpam-no com a frioleira de que não está sóbrio. Nunca está sóbrio?

O espantoso de isto tudo é que muitos daqueles pelo Jardim periodicamente insultados, injuriados e caluniados apertam-lhe a mão, por exemplo, nas reuniões do Conselho de Estado. Temem-no, esta é a verdade. De contrário, o que ele tem dito, feito e cometido não ficaria sem a punição que a natureza sórdida dos factos exige. Velada ou declaradamente, costuma ameaçar com a secessão da ilha. Vicente Jorge Silva já o escreveu: que se faça um referendo, ver-se-á quem perde.

A vergonha que nos atinge não o envolve porque o homenzinho é o que é: um despudorado, um sem-vergonha da pior espécie. A cobardia do silêncio cúmplice atingiu níveis inimagináveis. Não pertenço a esse grupo.

Baptista Bastos (b.bastos@netcabo.pt)
in “Alberto João Jardim – Um fascista grotesco”
publicado por

Paulo Guinote – responsabilidade intelectual

Monday, January 8th, 2007

Aproveitando as possibilidades de comunicação disponíveis hoje, este professor de História deu origem, em Portugal, a um fenómeno totalmente invulgar. Construiu uma sala sui generis onde cada um é livre de falar, sentindo a presença de outros interlocutores, tanto mais próxima quanto mais rápido encontra a réplica às suas opiniões. As luzes permanecem apagadas: nenhum registo visual. Com o tempo, começamos ainda assim a reconhecer a figura dos comvivas.

O anfitrião detém uma prodigiosa capacidade de intervenção, tanto em quantidade como em qualidade. É facil adivinhar muitas leituras, espírito de observação aguçado, capacidade de pesquisa de informações preciosas, pontos de vista críticos sedimentados numa arrumação complexa e desenvolvida dos conhecimentos. Diria, para sua eventual surpresa: um exemplo acabado de sucesso do sistema educativo.

Mas engana-se quem pensar que o anfitrião faz a festa. Há lá representantes de muitas classes de pessoas: pais não docentes, professores de Filosofia, Desenho, Português, Inglês, História, defensores do ensino privado, defensores e adversários da TLEBS, sindicalistas, engenheiros, gestores, liberais, visitantes ocasionais, até plagiadores. Numa sala sem púlpito cada lugar da plateia vai preenchendo esse papel.

Os assuntos giram, está bem de ver, à volta da Educação. A greve dos professores justificou-se? É possível agir com mais sentido nos resultados? As crianças de dez anos já devem saber pesquisa bibliográfica? Nuno Crato tem razão? Porquê a actual taxa de insucesso? Como ensinar a Constituição dos Estados Unidos? Em que partes deve ser dividida uma aula? São úteis as aulas de substituição? E os métodos de avaliação? E os regulamentos disciplinares? E os métodos vigentes de colocação dos professores?
Por vezes a discussão descai para os gostos ideológicos. Outras vezes, centra-se nos assuntos terra-a-terra. Ouve-se um ponto de ordem, como se houvesse mesa nesta reunião virtual. Um desabafo de cansaço. Ou de alguma etilização. Falta de sono, naturalmente, não fossem professores. Falta de tempo para os filhos. Fins-de-semana e feriados a disfrutar o prazer de mais duas turmas para corrigir as provas. Uma aluna triste por ser transferida recorre ao impossível amparo do professor – demonstrando afinal em quem confiam, por muito que isso custe aos tecnocratas-burocratas. Um Ministério tomado daquele sentido de liderança a que José Sócrates nos habituou, desde que Vitor Constâncio lhe arrancou a máscara emprestada quinze dias após as eleições. Demasiado para descrever num artigo. O Leitor só tem uma solução: vá para crer. Mas está advertido: aquilo é viciante.