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Christopher Black – Papéis do Panamá

Monday, April 11th, 2016

No seu último romance intitulado Numero Zero, Humberto Eco denunciou a realidade simultaneamente manipuladora e manipulada da imprensa ocidental, colocando na voz de um redactor editorial as palavras: “Vamos limitar-nos a divulgar suspeitas. Se alguém for mencionado em negócios condenáveis, ainda que não saibamos do que se trata, podemos pregar-lhe um susto. É quanto basta para os nossos intentos. Mais tarde, passaremos à cobrança, o nosso jornal poderá ganhar quando o momento for propício.

E é exactamente isto que está a acontecer com o aparecimento em todos os jornais ocidentais, no passado domingo dia 3 de Abril, da história a que se chamou sinteticamente “Papéis do Panamá”. Esta história, atribuída a uma obscura Coligação Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) tem todas as marcas distintivas de uma operação dos serviços secretos visando atingir selectivamente determinados governos. O alvo principal, como não poderia deixar de ser, é o Presidente Putin, para enfraquecer a sua posição nas próximas eleições e, mais tarde, retratá-lo como um criminoso no ocidente.

Mas entre os alvos estão também directores da Federação Internacional das Associações de Futebol (FIFA), dando continuidade ao assédio que o governo dos Estados Unidos da América (EUA) tem feito para impedir a participação da Rússia no próximo campeonato mundial; está Leonel Messi, um dos melhores jogadores do mundo, possivelmente como retaliação pela recusa [do jogador] em aceder ao convite dirigido por Barak Obama aquando da visita à Argentina, para que se encontrasse com as suas filhas; o de Jakie Chan, pelo apoio ao Partido Comunista Chinês; além de várias outras pessoas inscritas na lista negra dos EUA por se relacionarem com a Coreia do Norte, o Irão, o Hezbolá, a Síria ou outras entidades que os EUA consideram inimigas.

Inclui também o Presidente Porochenko da Ucrânia, porventura como sinal de que estão fartos dele; o primeiro-ministro da Islândia, que acabou por demitir-se, como castigo por ter mandado prender alguns banqueiros, confiscado os respectivos bancos e compensado parcialmente as perdas sofridas pelos cidadãos na crise financeira de 2008; Hozni Mubarak, que acusou os EUA de organizarem no Egipto uma sublevação contra ele; Kadafi, assassinado na Líbia; e Xi Jiping, o Presidente da China. Notoriamente ausentes estão os nomes dos altos dignatários dos EUA ou da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), se bem que o pai de David Cameron aí venha mencionado, como puxão de orelhas ao primeiro-ministro britânico por ter autorizado o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, pondo em risco a influência dos EUA na Europa.

Basicamente, descontando os inimigos declarados, trata-se de pessoas que, por um ou outro motivo, os EUA passaram a considerar críticos da sua política, tendo perdido o estatuto de parceiros fiáveis.

A escolha do Presidente Putin como alvo preferencial, apesar do seu nome não constar nos documentos, e também a escolha do momento acordado para a difusão do relatório levantam imediatamente reservas quanto ao valor desta divulgação no âmbito restrito do direito do público à informação, distanciado de motivações políticas do governo dos EUA, como a desestabilização de determinados governos estrangeiros. Menos reservas levanta o alinhamento desta operação com os objectivos amplamente propagandeados pelo governo dos EUA. A ocultação do dinheiro pelos ricos sempre foi uma boa maneira de provocar a ira do público e estimular distúrbios para desestabilizar governos, como os que acabámos de assistir na Islândia. Pouco interessa que a história seja verdadeira ou não. Uma parte da informação poderá ser, mas o quadro legal opaco em que se move a firma de onde os documentos foram sonegados diz muito quanto ao apego à verdade. Que importa, se conta só o que é mostrado ao público?

Só conhecendo a natureza da fonte, o ICIJ, o sentido de toda esta história começa a desvendar-se. Ficaremos mais esclarecidos quando soubermos quem é a entidade responsável pela publicação das informações, a quem está associada e quem a patrocina.

A chave encontra-se na composição do Conselho Consultivo e do Conselho de Administração da sua casa-mãe, o Centre For Public Integrity (CFPI) e ainda na lista dos respectivos membros fundadores. No seu sítio da internet, o ICIJ reclama-se do estatuto de organização sem fins lucrativos. Tecnicamente isto pode estar certo, mas esqueceram-se de informar que da actividade desta organização resultam proventos para as pessoas que os financiam e que controlam as suas operações. Entre os membros fundadores da CPPI estão o Democracy Fund, a Carnegie Foundation, a Ford Foundation, a MacArthur Foundation, a Open Society de George Soros, o Rockefeller Brothers Fund, o Rockefeller Family Fund o muitos outros de semelhante linhagem. Entre os contribuintes individuais encontramos pessoas como Paul Volcker, ex-presidente da Reserva Federal, e muitos outros da poderosa elite corporativa e financeira dos EUA.

No Conselho Consultivo encontramos pesoas como Geoffrey Cowan, que foi nomeado director da Voice of America pelo Presidente Clinton em 1994 e foi director associado da United States Information Agency. Hoje é o director da Anneberg Foundation, que hospeda presidentes e ex-presidentes reformados dos EUA incluindo Obama nas suas propriedades na Califórnia, apelidadas de Camp David do Oeste. É também um membro do Conselho para as Relações Internacionais, um grupo de reflexão onde pontificam numerosos directores da Central Inteligence Agency (CIA), muitos ex-Secretários de Estado (Ministros dos Negócios Estrangeiros) dos EUA e personalidades ligadas aos órgãos de comunicação que têm chamado a si a responsabilidade de promover a globalização, a liberalização do comércio e outras orientações de política internacional definidas pelos magnatas mais poderosos dos EUA.

No Conselho Consultivo sentam-se também Hodding Carter III, ex-secretário de estado adjunto no mandato do Presidente Carter e depois jornalista dos meios de informação ocidentais mais importantes incluindo a BBC, a ABC, a CBC, a CNN, a NBC, a PBS e o Wall Street Journal, ocupando actualmente o cargo de Presidente da Knight Foundation. Lá encontramos também Edith Everett, presidente da Gruntal and Company, um dos maiores e mais antigos bancos de investimento da cidade de Nova Iorque; Hebert Hanif, advogado de altos responsáveis do Estado, Kathleen Hill Jamieson, reitora do Annenberg School for Communication, especialista na utilização da imprensa para fins políticos incluindo modos de influenciar campanhas eleitorais; e Sonia Jarvis, advogada que já trabalhou com Clinton.

Ainda no Conselho Consultivo estão Harold Hongji Koh, ex-conselheiro jurídico do Departamento de Estado de 2009 a 2013, nomeado pelo Presidente Obama, conhecido por ter defendido em 2010 a legalidade do uso de aviões não-tripulados para efectuar assassinatos; Charles Ogletree, professor de Direito na Universidade de Harvard e amigo próximo de Obama; Allen Pusey, editor e redactor da American Bar Association Journal; Ben Sherwood, co-presidente da Disney Media, ex-presidente da ABC News e também membro do Conselho para as Relações Externas; Paul Volcker, que não é apenas um financiador individual mas também membro do Conselho. Além do cargo de presidente da Reserva Federal entre 1979 e 1987, Volcker foi presidente do Conselho Consultivo para a Economia entre 2009 e 2011, designado por Obama e ainda foi presidente da Trilateral Comission, tendo trabalhado para o Chase Manhattan Bank, uma posição muito próxima da família Rockefeller.

Para terminar, estão lá Harold Williams, ex-presidente da Comissão dos Valores Mobiliários (1977-1981) e membro dos conselhos de administração de dezenas de empresas, William Julius Wilson, professor de Sociologia da Universidade de Harvard e, por último mas não menos importante, Christiane Amanpour, figura cimeira da propaganda bélica da CNN, que ainda há poucos dias encenou uma farsa televisiva ao fingir desconhecer por completo o assunto dos Papéis do Panamá, em entrevista que fez a um jornalista da ICIJ. Na realidade, estava a entrevistar um funcionário da sua própria organização, mas não informou disso os telespectadores. Por alguma razão o seu nome não aparece no sítio da internet da CFPI, mas sim aparece no último Relatório Anual de Contas (2014-2015) da organização.

No Conselho de Administração, por seu lado, podemos encontrar Peter Beale, antigo chefe da CNN.com, antigo funcionário da Reuters, editor do London Times, director editorial da Microsoft; mas também Arianna Huffington, presidente da Post Media; e Bill Kovach, jornalista do New York Times, para mencionar apenas alguns nomes bem conhecidos do situacionismo dos EUA.

Eis os factos. Não se trata, portanto, de um grupo de investigadores independentes dedicados à causa da verdade e à defesa da democracia. Trata-se de um grupo de propagandistas que, disfarçados de jornalistas, prosseguem a arte do engano às ordens do governo e dos serviços secretos dos EUA. Não é de espantar que, no Relatório Anual, a aprovação de Obama à actividade da organização seja citada. Em Janeiro, este mesmo grupo lançou um ataque ao governo da China através de uma outra “fuga” de documentos financeiros referindo dirigentes chineses, algo que agora volta a acontecer, sem dúvida como parte do trampolim para a China.

Eis a informação que a CNN, The Guardian, a BBC, a CBC, o New York Times e toda a restante imprensa não forneceu, mas que é relevante para se avaliar o grau de isenção do promotores desta difusão por todo o mundo. A missão da imprensa ocidental não é a de informar o público, ou “ensinar as pessoas a pensar“, como disse Humberto Eco; é a de manipular as ideias e as acções. A omissão da informação é também uma mentira e, nas palavras de outro grande escritor, José Saramago, também é usada “como arma, como guarda avançada dos tanque e dos canhões, sobre as ruínas, sobre os mortos, sobre as míseras e sempre frustradas esperanças da humanidade“. É tempo destas pessoas serem conhecidas pelo que fazem e chamadas à responsabilidade pela forma como estão a enganar os que dizem servir. Pois haverá crime maior que o de enganar o povo?

The Panama Papers: The People Deceived, Christopher Black, New Eastern Outlook 09/ABR/2016

(Traduzido do original em inglês por António Ferrão)

11 de Setembro de 2001

Sunday, September 11th, 2011

Desde há dez anos que:
1. Começou a maior operação de encobrimento oficial de um crime exibindo todas as facetas de uma organização com acesso a grandes meios financeiros e militares.
2. Todos os governos do mundo foram sequestrados e passaram a governar subjugados pelo medo.
3. Os tribunais foram demitidos da sua função. Passaram a elemento decorativo na ordem social.
4. A NATO foi instrumentalizada e rasgou os seus estatutos.
5. A ONU abdicou de defender o direito internacional das nações; eclisou-se.
6. A guerra expansionista pelo controlo das matérias primas tomou conta das relações entre os países. Sucumbiram o Afeganistão, a Palestina. o Iraque, a Líbia, o Congo… Outros países aguardam a sua vez.

Esta situação subsiste hoje. Vozes avulsas, discordantes, foram descartadas. Políticos críticos foram silenciados. A soberania das nações foi reduzida a retórica.

Myke Prysner – O verdadeiro terrorismo

Saturday, July 24th, 2010

Jochen Scholz – Não queremos mais financiar as vossas guerras

Wednesday, May 26th, 2010

…um cerrar de fileiras desastrado

Jochen Scholz

ou à de Hitler, para referir apenas alguns exemplos. Comparativamente às forças económicas que se encontram à disposição dos países do , as forças militares desvanecem-se contra os exemplos históricos. O desenvolvimento dos EUA nos últimos 65 anos, muito marcado pela supremacia do dólar, foi retirando a este país qualquer papel dinamizador, de uma forma que se acentuou muito nos tempos mais recentes [Mesmo antes dos salvamentos, os EUA dependiam de um suprimento diário de 2 mil milhões de dólares, segundo declarações à Newsweek de Richard Haass, Chefe do Gabinete para as Relações Externas, a 3 de Novembro de 2008: «Precisamos de 2 mil milhões por dia só para nos mantermos à tona da água.»]. Em 1948, o principal responsável pelo planeamento no Departamento de Estado dos EUA [Ministério dos Negócios Estrangeiros], George F. Kennan, formulou a pretensão à liderança internacional dos EUA em termos de vantagem exclusivamente nacional. Tal pretensão foi logo contestada pelos países em vias de desenvolvimento, por ocasião da iniciativa «Nova Ordem Económica Internacional» da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. A meta era a dissolução dos Acordos do Bretton Wood. A tentativa falhou devido à relação de forças vigente na altura e também por causa da Guerra Fria. Hoje vivemos uma situação completamente distinta. Os EUA, como o maior devedor mundial, já não se encontra em posição de ditar unilateralmente as condições da economia mundial. Quando muito, seriam capazes de reduzir o seu enorme desequilíbrio da balança comercial. Tampouco a sua produção interna tem pujança suficiente para satisfazer o seu consumo, nem possui qualidade para relançar as exportações, nem detêm meios para reconquistar a competitividade – que sacrificaram deliberadamente – em tempo oportuno. Isto é tanto mais verdade quanto é certo que os milhões de milhões de dólares gastos em salvamentos estão a ser usados para manter a bola de neve dos bancos da Wall Street a crescer. Antes desta nova realidade, os esforços dos aliados atlânticos na Alemanha e na União Europeia para tentar impedir o deslocamento do centro de gravidade da economia e da influência mundial para a Ásia foram dirigidos no sentido estreitar os laços e submeter-se às condições do Ocidente, uma orientação com traços autísticos, senão mesmo suicidas.

A Ásia e a América Latina abandonam o Titanic

Enquanto a China, o maior credor dos Estados Unidos da América, se mostra pouco disposta a acumular mais títulos de dívida imprestáveis do banco central deste país [actualmente, os títulos da dívida dos EUA à China constituem aproximadamente metade das reservas de divisa chinesas, ou seja, mais de 2 milhões de milhões de dólares] e – em conjunto com os países do BRIC e outros parceiros comercias da Ásia – encara alternativas ao dólar, os EUA preparam-se para emitir mais 3 ou 4 milhões de milhões em títulos de dívida para financiar os seus défices imobiliários. Isto elevará o défice em 1,8 milhões de milhões de dólares e colocá-lo-á 13% acima do Produto Interno Bruto para o orçamento deste ano. Prevendo que não haverá compradores suficientes, a Federal Reserve substituiu as impressoras e reiniciou a impressão de papel-moeda. O problema é que a expansão da massa monetária não é coberta pela expansão da produção de bens. Nesta situação, a quebra de confiança do resto do mundo na sensatez da administração Obama torna-se menos evidente na taxa de câmbio do dólar. A «nota verde» é ainda considerada um abrigo seguro, caso a turbulência dos mercados de investimentos surja demasiado violenta aos olhos dos especuladores. No entanto, outras iniciativas estão já em curso na Ásia e na América Latina, nitidamente orientadas para quebrar o domínio mundial do dólar. Os seis países da Organização para a Cooperação de Shangai, assim como os países do BRIC, tencionam futuramente estabelecer o seu comércio baseados nas suas próprias divisas. Foram assinados acordos bilaterais em conformidade entre a China e a Argentina e também entre a China e a Malásia. Até à data, acordos destes possuem apenas um âmbito regional. Mas até estes eram inconcebíveis antes da crise. Há menos de cinco anos, ainda o Governo dos EUA se encontava em posição de impedir, através de pressões sobre o Japão, que um acordo de 20 mil milhões de dólares (baseados em yen) fosse assinado entre este país e o Irão.

O mundo recusa-se a seguir as auto-proclamadas nações-líder

O mundo que existe para além dos 950 milhões de habitantes do Ocidente [ América do Norte, União Europeia, Austrália, Nova Zelândia, Japão] acordou. Deixou de aceitar a separação da economia mundial entre topo e base, entre lucrativos e receptadores de almas, cabendo aos segundos a obrigação de tornar disponíveis os seus recursos para a manutenção do estilo de vida sumptuoso das auto-proclamadas nações-líder e, quanto ao resto, simplesmente obediência. A nova auto-confiança dos 5.800 milhões de pessoas dos países recentemente entrados na industrialização ou na via do desenvolvimento já chegou à África. A União Africano, com os seus 53 países-membros, recusou-se a cooperar com o Tribunal Criminal Internacional no cumprimento da ordem de prisão decretada contra o Presidente do Sudão. Mais de 40 países africanos preferem a cooperação com a China, porque não vem acompanhada de acondicionamentos degradantes, que o Fundo Monetário Internacional impõe a quem empresta, sempre a favor do capital financeiro ocidental. Quando o Bundeszentrale für Politische Bildung (Agência Federal para Educação Cívica) convida um painel de discussão sobre o «Empenhamento da China em África: uma relação imoral?» por ocasião de uma série de apresentações, a forma como as questões são colocadas tornam a insolência evidente, uma insolência cultivada ao longo de 450 anos de esmagamento colonial e 250 anos de exploração capitalista. A vaidade é o pronúncio do fim, diz o ditado. A vida castiga os atrasados, afirmou o último Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética.

Arrogância até um final amargo

Olhando para a situação dos Estados Unidos da América, teremos que questionar-nos sobre o que andará pelas cabeças dos atlantistas, que em 1949 foram politicamente enquadrados em redes sociais apropriadas [Atlantic Bridge, Aspen Institute, Atlantic Initiative, Deutsche Gesellschaft für Auswärtige Politik (Associação Alemã para a Política Externa)]? Os seus enlaces na Alemanha prolongaram-se pela Fundação Bertelsmann e nos Estados Unidos da América pelo Council of Foreign Relations, ocupando posições-chave na política, nas infra-estruturas económica e científica e nos meios de difusão pública. O que os leva a acreditar que a União Europeia, em conjunto com a estilhaçada economia dos Estados Unidos da América, poderá contrariar a perda de hegemonia do Ocidente?

O Produto Interno Bruto dos Estados Unidos da América, no valor de 14,326 milhões de milhões (trilions) de dólares, está acompanhado por uma dívida externa de 12 milhões de milhões de dólares. Nouriel Roubini prevê que, lá para o ano de 1014, a razão entre a dívida externa e o Produto Interno Bruto esteja duplicada. Os números do desemprego crescem mensalmente na ordem de centenas de milhares. O nível de desemprego já atingiu 16,5%, se considerarmos os empregados a tempo parcial e os que desistiram de procurar emprego. 50% do orçamento dos Estados Unidos da América é consumida em empréstimos. O serviço da dívida atingirá 13% do Produto Interno Bruto no termo do ano fiscal. Os défices orçamentais crescentes, os elevados custos das operações de salvamento do sector financeiro e os custos crescentes do serviço da dívida arrastam um efeito inflaccionário que conduzirá a uma elevação do índice de risco dos investimentos, o que contraria esforços internos de recuperação económica. Tudo conjugado, levam Roubini a concluir que a margem para novos incentivos é cada vez menor. Paul Craig Robert, Sub-Secretário do Tesouro da administração Reagan e ex-colunista do Wall Street Journal, referindo-se ao seu país, perguntou: «Onde está a economia? Já não existe economia para recuperar. A indústria dos EUA perdeu-se na deslocalização e na cegueira ideológica do mercado livre»; a sua decepção está bem patente no juízo: «Nada, entre as políticas económicas de Bush e de Obama, foi concebido para resolver as verdadeiras questões»; sobre a dívida: «Só há uma forma de a pagar: é imprimir dinheiro».

Uma aliança à custa de mais crises e guerras

Estas são as novas roupagens do imperador, com as quais o Elmar Broks da União Europeia pretende estreitar os laços contra as inevitáveis alterações geo-económicas e geopolíticas, que já podem apenas ser retardadas. Contudo, isto só pode ser alcançado ao preço de sacrifícios económicos e do perigo de novos confrontos militares em regiões críticas da Eurásia [Zbigniew Brzezinski, The Grand Chessboard]. A médio prazo, o sistema dólar não pode ser mais mantido, porque os credores cada vez mais lhe retiram a confiança e começam a investir os seus excedentes no seu próprio desenvolvimento em vez de continuarem a alimentar o consumo nos Estados Unidos da América. Desprovida de sólidos fundamentos, porém, nenhuma zona transatântica de comércio externo pode ser estabelecida. As políticas da União Europeia e da Alemanha devem finalmente tomar na devida conta estas realidades, em vez de tentarem dependurar-se nos destroços de um Titanic que se afunda. O relatório do BND é omisso quanto a esta questão. Ficará a Europa sedada pela comunidade de valores transatlânticos partilhados? Os Estados Unidos da América são o principal beneficiário do sistema económico centrado no dólar e, como sistema mundializado, fará tudo o que puder para manter a sua posição dominante. Fora da Europa, esta situação já desencadeou alguma resistência, da qual resultaram acordos efectivos e contra-medidas. A China exige uma divisa mundial que não seja controlada por um único país . Significativamente, as exportações do Japão voltam-se agora para a Ásia em prejuízo do mercado dos EUA – 50% para aquela contra 20% deste – pondo em evidência o início de um processo de saída do caos mundial [Exporte retten Japan, Financial Times Germany de 22/07/2009] desencadeado pela crise económica e financeira. Este processo de mudança não tem de ser casuístico. Pode enformar um novo tipo de relacionamento. É necessário criar novas estruturas para a economia mundial contando com a participação de todos os países, por forma a se encontrar um sistema económico internacional justo [Elmar Altvater Stosst den Dollar vom Thron, Freitag, 09/07/2009; Joseph Stiglitz, Lasst die Armen mitentscheiden, Financial Times Germany, 21/07/2009]. Enquanto países-chave da Ásia abrem novas zonas de mercado, a Europa marca passo, narcotizada por 50 anos de comunidade de valores transatlânticos partilhados e voltada para o seu próprio umbigo. Aqui, ninguém parece preocupado com as consequências de uma possível quebra de 40 a 60% do dólar devida à impossibilidade de se continuar a financiar a dívida externa dos EUA.

Emancipação do big brother e alternativas equilibradas

As decisões autónomas dos países do BRIC [Brasil, Rússia, Índia e China] e de outros países asiáticos são compreensíveis; porém, são opostas a uma transição disciplinada. A União Europeia claramente não entende as responsabilidades que recusa assumir, caso não construa os mecanismos de cooperação económica futura de igual para igual com a Rússia, a Ásia Central e a América Latina. Receia entrar em conflito com os Estados Unidos da América. Este conflito está em tornar claro ao seu aliado principal que, na futura ordem mundial e no futuro sistema económico internacional, poderá apenas ser – na melhor hipótese – primus inter pares e que a Europa não deseja mais entrar nas guerras dos Estados Unidos da América. A China foi mais corajosa. A sua pretensão de substituir o dólar significa também nós não queremos continuar a financiar as vossas guerrras.

A União Europeia também não compreende que armar-se em superior económico não gera parceiros de confiança. As negociações sob direcção alemã com a aliança regional da América Latina CAN [Comunidad Andina] para um tratado de comércio livre tresandava ao espírito imperial «divide e conquista». A estupidez e miopia política, patentes ao longo das negociações, tornaram-se ainda mais desprezíveis porque os aliados, de que a Europa está tão urgentemente carecida para reestruturar a economia mundial, ficaram intimidados. Os povos têm, contudo, uma memória histórica colectiva. Quem melhor que os alemães pode estar consciente disso?

Dados os desafios globais sem precedentes, onde se encontra a esquerda política? Onde estão os seus conceitos de um papel activo para a Europa e de uma União Europeia no contexto das convulsões actuais, de forma a moderar os erros com resultados previsivelmente devastadores para uma grande parte da humanidade? Não se refere constantemente ao internacionalismo como máxima para a acção? Porém, o longamente presidente do grupo parlamentar Confederal Group of the European United Left/Nordic Green Left (GUE/NGL), o comunista Francis Wurtz, realçou após 30 anos como delegado do Parlamento Europeu, que «A posição mundial da Europa enfraqueceu demasiado. Tendo em conta o que representamos, deveríamos desempenhar um papel mais activo» [Die drei aus dem Versuchslabot, Süddeutsche Zeitung, 29/Maio/2009]. Tal como o relatório do Bundesnachrichtendienst [BND - Serviços Alemães de Espionagem], a esquerda política também não apresenta recomendações para a acção ao único participante que está em condições de exercer uma influência real: a União Europeia. Não é verdade que «Os filósofos até agora limitaram-se a interpretar o mundo. A questão está em transformá-lo» [Karl Marx, Teses sobre Feuerbach, 1845]?

Jochen Scholz, Não queremos mais financiar as vossas guerras, publicado em Current Concerns a 26 de Março de 2010

Pela retirada imediata do Afeganistão

Tuesday, January 26th, 2010
Considerando:
  • Que a guerra e a ocupação do Afeganistão, há cerca de oito anos, por forças da NATO, apenas tem acentuado a deterioração da segurança dos povos e da estabilidade na região;
  • Que a situação humanitária é catastrófica e vem alastrando, com a desestabilização no Paquistão e outras nações vizinhas do Afeganistão, como efeito directo da acção militar ofensiva, da NATO;
  • Que a resolução dos problemas do Afeganistão depende essencialmente do seu próprio povo e das soluções de regime que este escolher; que, entretanto, as forças ocupantes não hesitam em impor e apoiar narcotraficantes e senhores da guerra, no Governo e na Presidência, instalados no poder por eleições que todos consideram fraudulentas;
  • Que os protestos e resistência cívica à ocupação do Afeganistão crescem de forma notória nos EUA – potência responsável em primeira mão pelo empenhamento da NATO – e em vários países europeus, envolvendo todos os estratos da população, à medida que o desastre militar se vai tornando inevitável, falando-se mesmo, ao mais alto nível, dum novo Vietname;
  • Que Portugal e seus cidadãos, pela sua participação militar na campanha da NATO neste país são considerados inimigos pelos combatentes afegãos, tornando-se assim alvos considerados legítimos de acções de guerra. Pelo que não é sustentável argumentar-se com a defesa de Portugal, dos interesses portugueses ou de seus cidadãos e muito menos de segurança interna, para manter forças no Afeganistão.

Exigem, de acordo com os artº.s 7º, 273º e 275º da Constituição da República e tendo em conta que quaisquer compromissos militares do Estado Português não podem violar o artº 7º, que elenca os Princípios Fundamentais da Constituição, a

retirada imediata das forças armadas portuguesas do Afeganistão,

dado o carácter ilegal dessa intervenção à luz do Direito internacional e interno.

A Dinamarca na Guerra ao Iraque

Tuesday, January 12th, 2010

O governo dinamarquês não se comportou honestamente no caso da Guerra ao Iraque, registou o relatório. A comissão classificou a justificação dada pelo governo como “algo trapalhona”, pois insiste na tese do desmantelamento dos arsenais de Armas de Destruição Massiva como motivo principal, muito depois de se ter percebido que o objectivo central foi o da mudança de regime. Davids e os restantes membros da comissão assinalaram também o facto de as agências de espionagem se terem apoiado quase exclusivamente em informações prestadas pelos seus colegas de outros países, mas suavizando os termos. O ministro dinamarquês, no entanto, não conseguiu transmitir ao parlamento esta distinção.

O relatório contestou a natureza defensiva dos lançadores de mísseis Patriot (fornecidos pela Dinamarca) estacionados próximo da fronteira do da Turquia com o Iraque, lembrando que tais fornecimentos sem o consentimento do parlamento são uma violação da lei constitucional.

, NRCHandelsblad, 12 de Janeiro de 2010

Henry Siegman – Mentiras de Israel

Tuesday, February 3rd, 2009
,
, 15 de Janeiro de 2009

Fernando Nobre – Grito e choro por Gaza e por Israel

Thursday, January 22nd, 2009

Recebido por email. (AF)

Há momentos em que a nossa consciência nos impede, perante acontecimentos trágicos, de ficarmos silenciosos porque ao não reagirmos estamos a ser cúmplices dos mesmos por concordância, omissão ou cobardia.

O que está a acontecer entre Gaza e Israel é um desses momentos. É intolerável, é inaceitável e é execrável a chacina que o governo de Israel e as suas poderosíssimas forças armadas estão a executar em Gaza a pretexto do lançamento de roquetes por parte dos resistentes (“terroristas”) do movimento Hamas.

Importa neste preciso momento refrescar algumas mentes ignorantes ou, muito pior, cínicas e destorcidas:

- Os jovens palestinianos, que são semitas ao mesmo título que os judeus esfaraditas (e não os askenazes que descendem dos kazares, povo do Cáucaso), que desesperados e humilhados actuam e reagem hoje em Gaza são os netos daqueles que fugiram espavoridos, do que é hoje Israel, quando o então movimento “terrorista” Irgoun, liderado pelo seu chefe Menahem Beguin, futuro primeiro ministro e prémio Nobel da Paz, chacinou à arma branca durante uma noite inteira todos os habitantes da aldeia palestiniana de Deir Hiassin: cerca de trezentas pessoas. Esse acto de verdadeiro terror, praticado fria e conscientemente, não pode ser apagado dos Arquivos Históricos da Humanidade (da mesma maneira que não podem ser apagados dos mesmos Arquivos os actos genocidários perpetrados pelos nazis no Gueto de Varsóvia e nos campos de extermínio), horrorizou o próprio Ben Gourion mas foi o acto hediondo que provocou a fuga em massa de dezenas e dezenas de milhares de palestinianos para Gaza e a Cisjordânia possibilitando, entre outros factores, a constituição do Estado de Israel..

- Alguns, ou muitos, desses massacrados de hoje descendem de judeus e cristãos que se islamizaram há séculos durante a ocupação milenar islâmica da Palestina. Não foram eles os responsáveis pelos massacres históricos e repetitivos dos judeus na Europa, que conheceram o seu apogeu com os nazis: fomos nós os europeus que o fizemos ou permitimos, por concordância, omissão ou cobardia! Mas são eles que há 60 anos pagam os nossos erros e nós, a concordante, omissa e cobarde Europa e os seus fracos dirigentes assobiam para o ar e fingem que não têm nada a ver com essa tragédia, desenvolvendo até à náusea os mesmos discursos de sempre, de culpabilização exclusiva dos palestinianos e do Hamas “terrorista” que foi eleito democraticamente mas de imediato ostracizado por essa Europa sem princípios e anacéfala, porque sem memória, que tinha exigido as eleições democrática para depois as rejeitar por os resultados não lhe convirem. Mas que democracia é essa, defendida e apregoada por nós europeus?

- Foi o governo de Israel que, ao mergulhar no desespero e no ódio milhões de palestinianos (privados de água, luz, alimentos, trabalho, segurança, dignidade e esperança ), os pôs do lado do Hamas, movimento que ele incentivou, para não dizer criou, com o intuito de enfraquecer na altura o movimento FATAH de Yasser Arafat. Como inúmeras vezes na História, o feitiço virou-se contra o feiticeiro, como também aconteceu recentemente no Afeganistão.

- Estamos a assistir a um combate de David (os palestinianos com os seus roquetes, armas ligeiras e fundas com pedras…) contra Golias (os israelitas com os seus mísseis teleguiados, aviões, tanques e se necessário…a arma atómica!).

- Estranha guerra esta em que o “agressor”, os palestinianos, têm 100 vezes mais baixas em mortos e feridos do que os “agredidos”. Nunca antes visto nos anais militares!

- Hoje Gaza, com metade a um terço da superfície do Algarve e um milhão e meio de habitantes, é uma enorme prisão. Honra seja feita aos “heróis” que bombardeiam com meios ultra-sofisticados uma prisão praticamente desarmada (onde estão os aviões e tanques palestinianos?) e sem fuga possível, à semelhança do que faziam os nazis com os judeus fechados no Gueto de Varsóvia!

- Como pode um povo que tanto sofreu, o judeu do qual temos todos pelo menos uma gota de sangue (eu tenho um antepassado Jeremias!), estar a fazer o mesmo a um outro povo semita seu irmão? O governo israelita, por conveniências políticas diversas (eleições em breve…), é hoje de facto o governo mais anti-semita à superfície da terra!

- Onde andam o Sr. Blair, o fantasma do Quarteto Mudo, o Comissário das Nações Unidas para o Diálogo Inter-religioso e os Prémios Nobel da Paz, nomeadamente Elie Wiesel e Shimon Perez? Gostaria de os ouvir! Ergam as vozes por favor! Porque ou é agora ou nunca!

- Honra aos milhares de israelitas que se manifestam na rua em Israel para que se ponha um fim ao massacre. Não estão só a dignificar o seu povo, mas estão a permitir que se mantenha uma janela aberta para o diálogo, imprescindível de retomar como único caminho capaz de construir o entendimento e levar à Paz!

- Honra aos milhares de jovens israelitas que preferem ir para as prisões do que servir num exército de ocupação e opressão. São eles, como os referidos no ponto anterior, que notabilizam a sabedoria e o humanismo do povo judeu e demonstram mais uma vez a coragem dos judeus zelotas de Massada e os resistentes judeus do Gueto de Varsóvia!

Vergonha para todos aqueles que, entre nós, se calam por cobardia ou por omissão. Acuso-os de não assistência a um povo em perigo! Não tenham medo: os espíritos livres são eternos!

É chegado o tempo dos Seres Humanos de Boa Vontade de Israel e da Palestina fazerem calar os seus falcões, se sentarem à mesa e, com equidade, encontrarem uma solução. Ela existe! Mais tarde ou mais cedo terá que ser implementada ou vamos todos direito ao Caos: já estivemos bem mais longe do período das Trevas e do Apocalipse.

É chegado o tempo de dizer BASTA! Este é o meu grito por Gaza e por Israel (conheço ambos): quero, exijo vê-los viver como irmãos que são.

Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre, 4 de Janeiro de 2009

Kathy Kelly – A arma mais poderosa

Wednesday, January 21st, 2009

, publicado por a 19 de Janeiro de 2009