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William Engdahl – A Agenda geopolítica por trás do Prémio Nobel da Paz de 2010

Tuesday, November 9th, 2010

Com um sentido de oportunidade impecável, o Comité Nobel para a Paz do Parlamento Norueguês anunciou a atribuição do Prémio Nobel ao dissidente chinês e activista político Liu Xiaobo. O anúncio foi feito no momento em que o Secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geither, aumentava a pressão sobre o governo chinês para que efectuasse uma reavaliação substancial do Yuan, decisão que teria um impato reduzido no destino do dólar, mas que atingiria profundamente a economia chinesa. O teatro do Prémio Nobel é parte da escalada numa estratégia de longo prazo definida por Washington contra a China.

A atribuição do Prémio Nobel a Liu Xiaobo não foi, claramente, uma coincidência. Na minha opinião, em vez disso deve ser entendida como uma parte calculada de uma estratégia de longo prazo, não de alguns elementos do Parlamento Norueguês, mas de círculos da elite dirigente da potência hegemónica mundial, os Estados Unidos da América, para quebrar o ímpeto da China em tornar-se soberana e um factor principal na economia mundial. A China deve ser reduzida ao estatuto que lhe é conferido por aquela elite.

A encenação da imprensa mundial acerca do Prémio Nobel é uma parte calculada desta estratégia – tentando fazer com que a China “perca a face” aos olhos do resto do mundo. É tudo parte de uma orquestração mais profunda, usando os “direitos humanos” e uma teia de Organizações não governamentais (ONGs) que Washington controla directa ou indirectamente, como arma da geopolítica de Washington.

Não é plausível que venha a ter mais sucesso que os incitamentos de Washington às sublevações do Tibete em Março de 2008, baseados em círculos ligados ao Dalai Lama, ou aos apelos declarados à agitação na Província de Xinjiang, em Lulho de 2009, ou à tentativa de desestabilizar o país vizinho da China, o Myanmar (antiga Birmânia), em 2007, na assim-chamada Revolução do Açafrão. Os círculos que organizam estas picadas de aguilhão estão bem conscientes disso. O que andam a fazer é preparar cuidadosamente o ambiente internacional para transformar a imagem pública da República Popular da China, de parceiro e “amigo” para um “novo inimigo”. É uma estratégia muito arriscada , da parte de Washington. Além disso, põe em evidência um certo desespero sobre a situação geopolítica dos EUA.

Os curiosos amigos estrangeiros de Liu Xiaobo

Há uma expressão inglesa cheia de razão, afirmando que se conhece alguém pelas pessoas que o rodeiam. Não estou qualificado para me pronunciar sobre a pessoa de Liu Xiaobo. Nunca encontrei essa pessoa, nem li os seus trabalhos. O que considero significativo, porém, é a companhia de que se rodeia, especialmente os seus curiosos amigos estrangeiros.

Até 2007, Liu Xiaobo foi Presidente do Centro Chinês Independente PEN e hoje mantém um lugar na sua administração, segundo a sua biografia oficial publicada no sítio desta instituição na Internet (http://www.pen.org/viewmedia.php/prmMID/3029/prmID/172). PEN não é um conjunto circunstancial de pessoas que escrevem. É uma parte integrante da teia anglo-americana de ONG’s dedicadas aos direitos humanos e à democracia, além de organizações privadas empenhadas em alcançar os objectivos geopolíticos dos seus patrocinadores.

PEN auto-proclama-se a “organização mais antiga para a defesa dos direitos humanos”, tendo sido estabelecida em Londres em 1920 por dois estrategas principais do Império Britânico na altura, G. B. Shaw e H. G. Wells. É financiada por uma rede de fundações privadas norte-americanas e europeias e corporações que incluem a Bloomberg, assim como pelo Ministério Norueguês dos Negócios Estrangeiros, além de doadores que “preferem ficar anónimos”. Visa criar algo a que chama a “cultura mundial”. Isto tresanda à expressão anglo-americana “Governação Global”, ou à “Nova Ordem Mundial” de David Rockefeller”. PEN é uma parte de uma teia muito extensa, chamada International Freedom for Expression Exchange, ou IFEX, uma rede internacional, com sede no Canadá, de cerca de noventa ONG’s animadas da aparente nobre missão de defender “o direito à liberdade de expressão”, o que quer que seja que isso signifique. Os membros da IFEX incluem a Freedom House, com sede em Washington, esta financiada pelo Departamento do Estado, e a National Endowment for Democracy (NED).

A Freedom House, fundada em 1941 para promover a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, foi usada durante a Guerra Fria como instrumento de propaganda anti-comunista dirigida pela CIA. Como ONG, as suas actividades recentes foram essenciais na desestabilização dirigida por Washington contra o Tibete, Myanmar, Ucrânia, Geórgia, Sérvia, Quirguistão e outros países, cujas políticas não satisfaziam, aparentemente, algumas pessoas poderosas nos EUA. A Freedom House trabalhou em conjunto com o Instituto para a Sociedade Aberta, de George Soros e com o Ministério Norueguês dos Negócios estrangeiros, na promoção de projectos como a Revolução das Tulipas no Quirguistão em 2005, financiada por Washington, que conduziu ao poder o ditador e patrão da droga Kurmanbek Bakiyev, amigo dos EUA (Philip Shishkin, In Putin’s Backyard, Democracy Stirs — With US Help, The Wall Street Journal, February 25, 2005).

Isto, a respeito das relações do PEN com Liu Xiaobo. Vejamos agora porque lhe foi outorgado o prémio Nobel.

A história pouco conhecida de Tiananmen de 1989

No anúncio da atribuição do Prémio Nobel, o comité citou o papel desempenhado por Liu Xiaobo nos protestos de Tiananmen como uma das razões mais importantes (http://nobelprize.org/nobel_prizes/peace/laureates/2010/press.html), além da co-autoria de uma coisa chamada Charter 08, em 2008, que a revista Time chamou “um manifesto pela reforma política da China comunista opressiva” (http://www.time.com/time/world/article/0,8599,2024405,00.html#ixzz12gorrikW)

É sabido que Liu Xiaobo, que ministrava a docência na elitista Ivy League Columbia University dos EUA, regressou apressadamente à China na Primavera de 1989 para participar nos protestos estudantis da Praça Tienenmen de Pequim. Os acontecimentos da Praça Tiananmen de Junho de 1989 estão ofuscados pelas imagens da CNN, difundidas para todo o mundo. O que poucos sabem é que Tiannamen foi, em Junho de 1989, uma tentativa precoce dos serviços secretos dos EUA de implementar aquilo que se convencionou chamar de revoluções coloridas. Outras revoluções coloridas, semelhantes a esta, foram dirigidas por Washington contra a Milosevitch na Sérvia; na Ucrânia, com o nome de Revolução Laranja; a Revolução Rosa da Geórgia e outras desestabilizações geopolíticas destinadas a mudar regimes, tornando-os amigáveis a Washington.

Como descrevi no meu livro Full Spectrum Dominance: Totalitarian Democracy and the New World Order, o homem que pediu ao presidente dos EUA na altura, George Herbert Walker Bush, a imposição de sanções duras contra o governo de Pequim, devido aos acontecimentos de Tiananmen, foi o embaixador dos EUA, James R. Lilley, amigo de longa data de Bush e oficial da CIA. Há boas razões para acreditar que Lilley foi o oficial responsável pela operação de desestabilização. Gene Sharp, do Instituto Albert Einstein de Boston, autor do livro “Não-Violência como Forma de Guerra”, segundos palavras suas, também se encontrava em Pequim nos dias que antecederam a escalada dos protestos em Tiananmen. A organização e o texto de Sharp, em especial o seu livro, Civilian-Based Defense: A Post Military Weapons System, reconhecidamente desempenhou um papel importante nas revoluções coloridas na Sérvia, na Ucrânia e na Geórgia. Talvez seja uma coincidência, que Sharp tenha estado em Pequim em Junho de 1989… talvez não (Philip Shishkin, In Putin’s Backyard, Democracy Stirs — With US Help, The Wall Street Journal, February 25, 2005).

Quando se verificaram os acontecimentos de desestabilização em Tenanmen, em Junho de 1989, uma fundação dirigida por George Soros, o Fundo para a Reforma e Abertura da China, foi também forçada a fechar, depois de responsáveis chineses a acusarem de trabalhar com a CIA (United Press International (UPI), China Fund employee reportedly interrogated, August 9, 1989.).

Convém lembrar que os serviços secretos dos EUA, nessa altura, também se encontravam activos no colapso da União Soviética. Assim, o facto de Liu Xiaobo decidir abdicar de uma carreira académica promissora em Nova York, na elitista Universidade de Colúmbia, mudando-se para o centro dos acontecimentos de Tiananmen na Primavera de 1989, sugere, no mínimo, que tenha sido encorajado a fazê-lo por alguns dos seus curiosos amigos nos EUA.

Quanto ao seu papel na Charter 08, é igualmente notável a oportunidade. A um tempo em que a China moderniza a economia e permite, segundo a opinião de quem escreve estas linhas, muitas vezes mais liberdade individual que aquela que podemos observar em certas assim chamadas democracias ocidentais, Liu aumenta as pressões políticas sobre o governo de Pequim. Faz isto no ano de 2008, sabendo perfeitamente que os responsáveis chineses são extremamente sensíveis às movimentações dos grupos no Tibete e noutros lados, como os Uighurs, que procuram dificultar a realização dos Jogos Olímpicos. O Departamento do Estado dos EUA admitiu em 2008 que os protestos e os distúrbios dos apoiantes do Dalai Lama constituíam a ameaça interna mais séria na história da República Popular da China. Forçosamente, há que reconhecer que era difícil encontrar melhor ocasião para abrir dissidências. Sugere que as actividades de Liu Xiaobo podem ter uma agenda ainda mais profunda que a que os seus curiosos amigos estrangeiros anunciam.

A nomeação para o Prémio Nobel

Neste contexto, a lista de personalidades que apresentaram Liu Xiaobo para a nomeação do Prémio Nobel de 2010 nada vale. Esta nomeação foi proposta por nada menos que Dalai Lama, um receptador de longa data de meios financeiros generosos da parte do governo dos EUA – quer da CIA, quer do Congresso, via a National Endowment for Democracy. O facto de a nomeação provir do Dalai Lama diz muito sobre a orientação geopolítica do Prémio Nobel da Paz deste ano.

Se olharmos agora para a lista de outras personalidades que nomearam Liu Xiaobo, esta assemelha-se a uma lista de membros da secretíssima Comissão Trilateral de Davis Rockefeller, um grupo de elite muito restrito, cujos membros são admitidos apenas por convite, de cerca de trezentas pessoas entre as mais poderosas dos EUA, Europa e Japão (a China nunca foi convidada para este clube selecto).

Além do Dalai Lama, constam: Karel, o Príncipe de Schwarzenberg e Ministro dos Negócios Estrangeiros da República Checa; o administrador principal da Organização Mundial do Comércio, Mike Moore; Grigory A. Yavlinsky, o oposicionista russo adepto do mercado livre. Todos nomearam Liu.

O Príncipe Karel, Moore e Yalinsky são todos membros da Comissão Trilateral, sugerindo que a nomeação para o vencedor do Prémio Nobel foi planeada.

O ex-Presidente pró-NATO da República Checa, Vaclav Havel, que é presidente do Conselho Internacional da Human Right Watch, financiado por George Soros, também se juntou à nomeação de Liu para o prémio. Havel, um amigo íntimo do Príncipe Karel, fez notar que a Charter 08 foi feita à imagem da Charter 77 de Havel, tendo esta sido usada, com a cobertura dos EUA, para desestabilizar a União Soviética na década de 1980 (http://www.project-syndicate.org/commentary/havel38/English). Tudo isto indicia um clube de malha estreita, pois neste caso, Havel e o clube são pagos por Washington.

Sobre o Comité Nobel do Parlamento Norueguês, pouco se conhece publicamente. O seu sítio da Internet sublinha a sua completa independência, que fica menos credível quando se olha para os nomes a quem conferiram o prémio. Inclui Dalai Lama, o dirigente preso da oposição birmanesa Aung San Suu Kyl, Barak Obama, que recebeu o prémio duas semanas após a sua tomada de posse, apesar do incremento das tropas dos EUA em combate no Afeganistão tere sido expressamente anunciada durante a sua campanha, Henry Kissinger, que, na qualidade de Secretário de Estado dos EUA, apoiou a repressão e os esquadrões da morte dos ditadores da América Latina na década de 1970. No momento em que os banqueiros da Wall Street e o establishment anglo-americano promoviam a fraude do aquecimento global, o Prémio Nobel foi atribuído à desacreditada IPCC das Nações Unidas e ao seu activista Al Gore. Para pôr os factos a descoberto, as provas são claras de que o Prémio Nobel da Paz é parte dos instrumentos geopolíticos dos círculos da NATO, a ser usado como meio de pressão de cada vez que um governo não alinha completamente com ela. A Noruega é um membro fundador da NATO e tem laços extremamente apertados com os círculos dirigentes dos EUA.

Significado geopolítico mais profundo

A questão de saber-se porque razão os círculos poderosos dos EUA escolheram este momento para agravar a pressão sobre a República Popular da China, atribuindo o prémio Nobel da Paz a Liu Chiaobo é fácil de compreender, observando a recente emergência da China como forte e dinamicamente crescente economia à escala mundial, ao mesmo tempo que os Estados Unidos da América se afundam na pior depressão económica dos seus duzentos anos de existência.

A política estratégica dos EUA continua a ser a que foi definida em Setembro de 2002 pelo National Security Strategy of the United States, por vezes designada por Doutrina Bush, que estabelece que “a missão política e militar dos EUA na era pós-guerra-fria será a de assegurar que não será admitida a emergência de qualquer superpotência rival na Europa Ocidental, na Ásia ou nos territórios da antiga União Soviética”. Esta formulação foi adoptada explicitamente pelo Pentágono desde 1992 (Patrick E. Tyler, U.S. Strategy Plan Calls for Insuring No Rivals Develop: A One-Superpower World, The New York Times, March 8, 1992).

Porque está a China na linha de mira? Simplesmente porque a China existe hoje – e existe como um factor económico e político mundial emergente e dinâmico, criando alianças externas para sustentar o crescimento em lugares como o Sudão ou o Irão, onde Washington tem menos controlo. Na actual situação, a existência de uma nação com o dinamismo estável da China é vista como uma ameaça estratégica crescente pelos EUA, não porque a China faça ameaças de guerra como Washington faz por todo o mundo. A ameaça é que os Estados Unidos da América e aqueles que dominam a sua política perdem a sua posição hegemónica mundial à medida que a China, a Rússia, os países da Organização para a Cooperação de Shangai da Ásia Central, bem como inúmeros outros países, se movem em direcção a um mundo diversificado e multi-polar. Segundo a Doutrina Bush e a estratégia geopolítica dos EUA, estes avanços devem ser impedidos a todo o custo, enquanto for possível. A recente escalada de sanções contra o Irão pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, por pressões intensas dos EUA, tem menos a ver com as ambições nucleares do Irão que com o facto de o Irão ser um parceiro económico estratégico para a China.

A atribuição do Prémio Nobel da Paz a Liu Xiaobo, longe de constituir um gesto para a promoção da paz, deveria ser visto antes por aquilo que é: uma declaração de guerra disfarçada – guiada pela batuta de Washington e alimentada por ONGs – contra a existência da China como país soberano. Desde há duzentos anos que a geopolítica britânica do Equilíbrio do Poder assume um axioma, pelo qual o império hegemónico deve seleccionar sempre o mais fraco de entre os seus dois potenciais adversários principais e aliar-se a ele, para destruir o mais forte. A política dos EUA relativamente à Índia, desde 2001, e à China, desde 2008, foi exactamente esta, aprofundar a aliança militar e estratégica com a parte notoriamente mais fraca, a Índia, contra os interesses estratégicos da China na Ásia, especialmente no Paquistão e no Afeganistão.

A presença oficial da NATO no Afeganistão, longe do Atlântico Norte, deveria constituir um aviso de que não se trata a promover da democracia e a liberdade de expressão, mas constitui antes um sinal do declínio de uma potência hegemónica, desesperadamente à procura de qualquer arma no seu arsenal para inverter o curso dos acontecimentos. Liu Xiaobo é apenas uma ferramenta conveniente para tais esforços, mais uma a acrescentar a tantas outras, como o Dalai Lama, Rebiya Kadeer ou o Congresso de Uyghur, suportado pelo Congresso dos EUA. Aparentemente, a sua credibilidade desvanece juntamente com a sua economia, uma mistura altamente instável.


William Engdahl, , Outubro de 2010
Traduzido do inglês por António Ferrão

Jochen Scholz – Não queremos mais financiar as vossas guerras

Wednesday, May 26th, 2010

…um cerrar de fileiras desastrado

Jochen Scholz

ou à de Hitler, para referir apenas alguns exemplos. Comparativamente às forças económicas que se encontram à disposição dos países do , as forças militares desvanecem-se contra os exemplos históricos. O desenvolvimento dos EUA nos últimos 65 anos, muito marcado pela supremacia do dólar, foi retirando a este país qualquer papel dinamizador, de uma forma que se acentuou muito nos tempos mais recentes [Mesmo antes dos salvamentos, os EUA dependiam de um suprimento diário de 2 mil milhões de dólares, segundo declarações à Newsweek de Richard Haass, Chefe do Gabinete para as Relações Externas, a 3 de Novembro de 2008: «Precisamos de 2 mil milhões por dia só para nos mantermos à tona da água.»]. Em 1948, o principal responsável pelo planeamento no Departamento de Estado dos EUA [Ministério dos Negócios Estrangeiros], George F. Kennan, formulou a pretensão à liderança internacional dos EUA em termos de vantagem exclusivamente nacional. Tal pretensão foi logo contestada pelos países em vias de desenvolvimento, por ocasião da iniciativa «Nova Ordem Económica Internacional» da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. A meta era a dissolução dos Acordos do Bretton Wood. A tentativa falhou devido à relação de forças vigente na altura e também por causa da Guerra Fria. Hoje vivemos uma situação completamente distinta. Os EUA, como o maior devedor mundial, já não se encontra em posição de ditar unilateralmente as condições da economia mundial. Quando muito, seriam capazes de reduzir o seu enorme desequilíbrio da balança comercial. Tampouco a sua produção interna tem pujança suficiente para satisfazer o seu consumo, nem possui qualidade para relançar as exportações, nem detêm meios para reconquistar a competitividade – que sacrificaram deliberadamente – em tempo oportuno. Isto é tanto mais verdade quanto é certo que os milhões de milhões de dólares gastos em salvamentos estão a ser usados para manter a bola de neve dos bancos da Wall Street a crescer. Antes desta nova realidade, os esforços dos aliados atlânticos na Alemanha e na União Europeia para tentar impedir o deslocamento do centro de gravidade da economia e da influência mundial para a Ásia foram dirigidos no sentido estreitar os laços e submeter-se às condições do Ocidente, uma orientação com traços autísticos, senão mesmo suicidas.

A Ásia e a América Latina abandonam o Titanic

Enquanto a China, o maior credor dos Estados Unidos da América, se mostra pouco disposta a acumular mais títulos de dívida imprestáveis do banco central deste país [actualmente, os títulos da dívida dos EUA à China constituem aproximadamente metade das reservas de divisa chinesas, ou seja, mais de 2 milhões de milhões de dólares] e – em conjunto com os países do BRIC e outros parceiros comercias da Ásia – encara alternativas ao dólar, os EUA preparam-se para emitir mais 3 ou 4 milhões de milhões em títulos de dívida para financiar os seus défices imobiliários. Isto elevará o défice em 1,8 milhões de milhões de dólares e colocá-lo-á 13% acima do Produto Interno Bruto para o orçamento deste ano. Prevendo que não haverá compradores suficientes, a Federal Reserve substituiu as impressoras e reiniciou a impressão de papel-moeda. O problema é que a expansão da massa monetária não é coberta pela expansão da produção de bens. Nesta situação, a quebra de confiança do resto do mundo na sensatez da administração Obama torna-se menos evidente na taxa de câmbio do dólar. A «nota verde» é ainda considerada um abrigo seguro, caso a turbulência dos mercados de investimentos surja demasiado violenta aos olhos dos especuladores. No entanto, outras iniciativas estão já em curso na Ásia e na América Latina, nitidamente orientadas para quebrar o domínio mundial do dólar. Os seis países da Organização para a Cooperação de Shangai, assim como os países do BRIC, tencionam futuramente estabelecer o seu comércio baseados nas suas próprias divisas. Foram assinados acordos bilaterais em conformidade entre a China e a Argentina e também entre a China e a Malásia. Até à data, acordos destes possuem apenas um âmbito regional. Mas até estes eram inconcebíveis antes da crise. Há menos de cinco anos, ainda o Governo dos EUA se encontava em posição de impedir, através de pressões sobre o Japão, que um acordo de 20 mil milhões de dólares (baseados em yen) fosse assinado entre este país e o Irão.

O mundo recusa-se a seguir as auto-proclamadas nações-líder

O mundo que existe para além dos 950 milhões de habitantes do Ocidente [ América do Norte, União Europeia, Austrália, Nova Zelândia, Japão] acordou. Deixou de aceitar a separação da economia mundial entre topo e base, entre lucrativos e receptadores de almas, cabendo aos segundos a obrigação de tornar disponíveis os seus recursos para a manutenção do estilo de vida sumptuoso das auto-proclamadas nações-líder e, quanto ao resto, simplesmente obediência. A nova auto-confiança dos 5.800 milhões de pessoas dos países recentemente entrados na industrialização ou na via do desenvolvimento já chegou à África. A União Africano, com os seus 53 países-membros, recusou-se a cooperar com o Tribunal Criminal Internacional no cumprimento da ordem de prisão decretada contra o Presidente do Sudão. Mais de 40 países africanos preferem a cooperação com a China, porque não vem acompanhada de acondicionamentos degradantes, que o Fundo Monetário Internacional impõe a quem empresta, sempre a favor do capital financeiro ocidental. Quando o Bundeszentrale für Politische Bildung (Agência Federal para Educação Cívica) convida um painel de discussão sobre o «Empenhamento da China em África: uma relação imoral?» por ocasião de uma série de apresentações, a forma como as questões são colocadas tornam a insolência evidente, uma insolência cultivada ao longo de 450 anos de esmagamento colonial e 250 anos de exploração capitalista. A vaidade é o pronúncio do fim, diz o ditado. A vida castiga os atrasados, afirmou o último Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética.

Arrogância até um final amargo

Olhando para a situação dos Estados Unidos da América, teremos que questionar-nos sobre o que andará pelas cabeças dos atlantistas, que em 1949 foram politicamente enquadrados em redes sociais apropriadas [Atlantic Bridge, Aspen Institute, Atlantic Initiative, Deutsche Gesellschaft für Auswärtige Politik (Associação Alemã para a Política Externa)]? Os seus enlaces na Alemanha prolongaram-se pela Fundação Bertelsmann e nos Estados Unidos da América pelo Council of Foreign Relations, ocupando posições-chave na política, nas infra-estruturas económica e científica e nos meios de difusão pública. O que os leva a acreditar que a União Europeia, em conjunto com a estilhaçada economia dos Estados Unidos da América, poderá contrariar a perda de hegemonia do Ocidente?

O Produto Interno Bruto dos Estados Unidos da América, no valor de 14,326 milhões de milhões (trilions) de dólares, está acompanhado por uma dívida externa de 12 milhões de milhões de dólares. Nouriel Roubini prevê que, lá para o ano de 1014, a razão entre a dívida externa e o Produto Interno Bruto esteja duplicada. Os números do desemprego crescem mensalmente na ordem de centenas de milhares. O nível de desemprego já atingiu 16,5%, se considerarmos os empregados a tempo parcial e os que desistiram de procurar emprego. 50% do orçamento dos Estados Unidos da América é consumida em empréstimos. O serviço da dívida atingirá 13% do Produto Interno Bruto no termo do ano fiscal. Os défices orçamentais crescentes, os elevados custos das operações de salvamento do sector financeiro e os custos crescentes do serviço da dívida arrastam um efeito inflaccionário que conduzirá a uma elevação do índice de risco dos investimentos, o que contraria esforços internos de recuperação económica. Tudo conjugado, levam Roubini a concluir que a margem para novos incentivos é cada vez menor. Paul Craig Robert, Sub-Secretário do Tesouro da administração Reagan e ex-colunista do Wall Street Journal, referindo-se ao seu país, perguntou: «Onde está a economia? Já não existe economia para recuperar. A indústria dos EUA perdeu-se na deslocalização e na cegueira ideológica do mercado livre»; a sua decepção está bem patente no juízo: «Nada, entre as políticas económicas de Bush e de Obama, foi concebido para resolver as verdadeiras questões»; sobre a dívida: «Só há uma forma de a pagar: é imprimir dinheiro».

Uma aliança à custa de mais crises e guerras

Estas são as novas roupagens do imperador, com as quais o Elmar Broks da União Europeia pretende estreitar os laços contra as inevitáveis alterações geo-económicas e geopolíticas, que já podem apenas ser retardadas. Contudo, isto só pode ser alcançado ao preço de sacrifícios económicos e do perigo de novos confrontos militares em regiões críticas da Eurásia [Zbigniew Brzezinski, The Grand Chessboard]. A médio prazo, o sistema dólar não pode ser mais mantido, porque os credores cada vez mais lhe retiram a confiança e começam a investir os seus excedentes no seu próprio desenvolvimento em vez de continuarem a alimentar o consumo nos Estados Unidos da América. Desprovida de sólidos fundamentos, porém, nenhuma zona transatântica de comércio externo pode ser estabelecida. As políticas da União Europeia e da Alemanha devem finalmente tomar na devida conta estas realidades, em vez de tentarem dependurar-se nos destroços de um Titanic que se afunda. O relatório do BND é omisso quanto a esta questão. Ficará a Europa sedada pela comunidade de valores transatlânticos partilhados? Os Estados Unidos da América são o principal beneficiário do sistema económico centrado no dólar e, como sistema mundializado, fará tudo o que puder para manter a sua posição dominante. Fora da Europa, esta situação já desencadeou alguma resistência, da qual resultaram acordos efectivos e contra-medidas. A China exige uma divisa mundial que não seja controlada por um único país . Significativamente, as exportações do Japão voltam-se agora para a Ásia em prejuízo do mercado dos EUA – 50% para aquela contra 20% deste – pondo em evidência o início de um processo de saída do caos mundial [Exporte retten Japan, Financial Times Germany de 22/07/2009] desencadeado pela crise económica e financeira. Este processo de mudança não tem de ser casuístico. Pode enformar um novo tipo de relacionamento. É necessário criar novas estruturas para a economia mundial contando com a participação de todos os países, por forma a se encontrar um sistema económico internacional justo [Elmar Altvater Stosst den Dollar vom Thron, Freitag, 09/07/2009; Joseph Stiglitz, Lasst die Armen mitentscheiden, Financial Times Germany, 21/07/2009]. Enquanto países-chave da Ásia abrem novas zonas de mercado, a Europa marca passo, narcotizada por 50 anos de comunidade de valores transatlânticos partilhados e voltada para o seu próprio umbigo. Aqui, ninguém parece preocupado com as consequências de uma possível quebra de 40 a 60% do dólar devida à impossibilidade de se continuar a financiar a dívida externa dos EUA.

Emancipação do big brother e alternativas equilibradas

As decisões autónomas dos países do BRIC [Brasil, Rússia, Índia e China] e de outros países asiáticos são compreensíveis; porém, são opostas a uma transição disciplinada. A União Europeia claramente não entende as responsabilidades que recusa assumir, caso não construa os mecanismos de cooperação económica futura de igual para igual com a Rússia, a Ásia Central e a América Latina. Receia entrar em conflito com os Estados Unidos da América. Este conflito está em tornar claro ao seu aliado principal que, na futura ordem mundial e no futuro sistema económico internacional, poderá apenas ser – na melhor hipótese – primus inter pares e que a Europa não deseja mais entrar nas guerras dos Estados Unidos da América. A China foi mais corajosa. A sua pretensão de substituir o dólar significa também nós não queremos continuar a financiar as vossas guerrras.

A União Europeia também não compreende que armar-se em superior económico não gera parceiros de confiança. As negociações sob direcção alemã com a aliança regional da América Latina CAN [Comunidad Andina] para um tratado de comércio livre tresandava ao espírito imperial «divide e conquista». A estupidez e miopia política, patentes ao longo das negociações, tornaram-se ainda mais desprezíveis porque os aliados, de que a Europa está tão urgentemente carecida para reestruturar a economia mundial, ficaram intimidados. Os povos têm, contudo, uma memória histórica colectiva. Quem melhor que os alemães pode estar consciente disso?

Dados os desafios globais sem precedentes, onde se encontra a esquerda política? Onde estão os seus conceitos de um papel activo para a Europa e de uma União Europeia no contexto das convulsões actuais, de forma a moderar os erros com resultados previsivelmente devastadores para uma grande parte da humanidade? Não se refere constantemente ao internacionalismo como máxima para a acção? Porém, o longamente presidente do grupo parlamentar Confederal Group of the European United Left/Nordic Green Left (GUE/NGL), o comunista Francis Wurtz, realçou após 30 anos como delegado do Parlamento Europeu, que «A posição mundial da Europa enfraqueceu demasiado. Tendo em conta o que representamos, deveríamos desempenhar um papel mais activo» [Die drei aus dem Versuchslabot, Süddeutsche Zeitung, 29/Maio/2009]. Tal como o relatório do Bundesnachrichtendienst [BND - Serviços Alemães de Espionagem], a esquerda política também não apresenta recomendações para a acção ao único participante que está em condições de exercer uma influência real: a União Europeia. Não é verdade que «Os filósofos até agora limitaram-se a interpretar o mundo. A questão está em transformá-lo» [Karl Marx, Teses sobre Feuerbach, 1845]?

Jochen Scholz, Não queremos mais financiar as vossas guerras, publicado em Current Concerns a 26 de Março de 2010