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Jochen Scholz – Não queremos mais financiar as vossas guerras

Wednesday, May 26th, 2010

…um cerrar de fileiras desastrado

Jochen Scholz

ou à de Hitler, para referir apenas alguns exemplos. Comparativamente às forças económicas que se encontram à disposição dos países do , as forças militares desvanecem-se contra os exemplos históricos. O desenvolvimento dos EUA nos últimos 65 anos, muito marcado pela supremacia do dólar, foi retirando a este país qualquer papel dinamizador, de uma forma que se acentuou muito nos tempos mais recentes [Mesmo antes dos salvamentos, os EUA dependiam de um suprimento diário de 2 mil milhões de dólares, segundo declarações à Newsweek de Richard Haass, Chefe do Gabinete para as Relações Externas, a 3 de Novembro de 2008: «Precisamos de 2 mil milhões por dia só para nos mantermos à tona da água.»]. Em 1948, o principal responsável pelo planeamento no Departamento de Estado dos EUA [Ministério dos Negócios Estrangeiros], George F. Kennan, formulou a pretensão à liderança internacional dos EUA em termos de vantagem exclusivamente nacional. Tal pretensão foi logo contestada pelos países em vias de desenvolvimento, por ocasião da iniciativa «Nova Ordem Económica Internacional» da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. A meta era a dissolução dos Acordos do Bretton Wood. A tentativa falhou devido à relação de forças vigente na altura e também por causa da Guerra Fria. Hoje vivemos uma situação completamente distinta. Os EUA, como o maior devedor mundial, já não se encontra em posição de ditar unilateralmente as condições da economia mundial. Quando muito, seriam capazes de reduzir o seu enorme desequilíbrio da balança comercial. Tampouco a sua produção interna tem pujança suficiente para satisfazer o seu consumo, nem possui qualidade para relançar as exportações, nem detêm meios para reconquistar a competitividade – que sacrificaram deliberadamente – em tempo oportuno. Isto é tanto mais verdade quanto é certo que os milhões de milhões de dólares gastos em salvamentos estão a ser usados para manter a bola de neve dos bancos da Wall Street a crescer. Antes desta nova realidade, os esforços dos aliados atlânticos na Alemanha e na União Europeia para tentar impedir o deslocamento do centro de gravidade da economia e da influência mundial para a Ásia foram dirigidos no sentido estreitar os laços e submeter-se às condições do Ocidente, uma orientação com traços autísticos, senão mesmo suicidas.

A Ásia e a América Latina abandonam o Titanic

Enquanto a China, o maior credor dos Estados Unidos da América, se mostra pouco disposta a acumular mais títulos de dívida imprestáveis do banco central deste país [actualmente, os títulos da dívida dos EUA à China constituem aproximadamente metade das reservas de divisa chinesas, ou seja, mais de 2 milhões de milhões de dólares] e – em conjunto com os países do BRIC e outros parceiros comercias da Ásia – encara alternativas ao dólar, os EUA preparam-se para emitir mais 3 ou 4 milhões de milhões em títulos de dívida para financiar os seus défices imobiliários. Isto elevará o défice em 1,8 milhões de milhões de dólares e colocá-lo-á 13% acima do Produto Interno Bruto para o orçamento deste ano. Prevendo que não haverá compradores suficientes, a Federal Reserve substituiu as impressoras e reiniciou a impressão de papel-moeda. O problema é que a expansão da massa monetária não é coberta pela expansão da produção de bens. Nesta situação, a quebra de confiança do resto do mundo na sensatez da administração Obama torna-se menos evidente na taxa de câmbio do dólar. A «nota verde» é ainda considerada um abrigo seguro, caso a turbulência dos mercados de investimentos surja demasiado violenta aos olhos dos especuladores. No entanto, outras iniciativas estão já em curso na Ásia e na América Latina, nitidamente orientadas para quebrar o domínio mundial do dólar. Os seis países da Organização para a Cooperação de Shangai, assim como os países do BRIC, tencionam futuramente estabelecer o seu comércio baseados nas suas próprias divisas. Foram assinados acordos bilaterais em conformidade entre a China e a Argentina e também entre a China e a Malásia. Até à data, acordos destes possuem apenas um âmbito regional. Mas até estes eram inconcebíveis antes da crise. Há menos de cinco anos, ainda o Governo dos EUA se encontava em posição de impedir, através de pressões sobre o Japão, que um acordo de 20 mil milhões de dólares (baseados em yen) fosse assinado entre este país e o Irão.

O mundo recusa-se a seguir as auto-proclamadas nações-líder

O mundo que existe para além dos 950 milhões de habitantes do Ocidente [ América do Norte, União Europeia, Austrália, Nova Zelândia, Japão] acordou. Deixou de aceitar a separação da economia mundial entre topo e base, entre lucrativos e receptadores de almas, cabendo aos segundos a obrigação de tornar disponíveis os seus recursos para a manutenção do estilo de vida sumptuoso das auto-proclamadas nações-líder e, quanto ao resto, simplesmente obediência. A nova auto-confiança dos 5.800 milhões de pessoas dos países recentemente entrados na industrialização ou na via do desenvolvimento já chegou à África. A União Africano, com os seus 53 países-membros, recusou-se a cooperar com o Tribunal Criminal Internacional no cumprimento da ordem de prisão decretada contra o Presidente do Sudão. Mais de 40 países africanos preferem a cooperação com a China, porque não vem acompanhada de acondicionamentos degradantes, que o Fundo Monetário Internacional impõe a quem empresta, sempre a favor do capital financeiro ocidental. Quando o Bundeszentrale für Politische Bildung (Agência Federal para Educação Cívica) convida um painel de discussão sobre o «Empenhamento da China em África: uma relação imoral?» por ocasião de uma série de apresentações, a forma como as questões são colocadas tornam a insolência evidente, uma insolência cultivada ao longo de 450 anos de esmagamento colonial e 250 anos de exploração capitalista. A vaidade é o pronúncio do fim, diz o ditado. A vida castiga os atrasados, afirmou o último Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética.

Arrogância até um final amargo

Olhando para a situação dos Estados Unidos da América, teremos que questionar-nos sobre o que andará pelas cabeças dos atlantistas, que em 1949 foram politicamente enquadrados em redes sociais apropriadas [Atlantic Bridge, Aspen Institute, Atlantic Initiative, Deutsche Gesellschaft für Auswärtige Politik (Associação Alemã para a Política Externa)]? Os seus enlaces na Alemanha prolongaram-se pela Fundação Bertelsmann e nos Estados Unidos da América pelo Council of Foreign Relations, ocupando posições-chave na política, nas infra-estruturas económica e científica e nos meios de difusão pública. O que os leva a acreditar que a União Europeia, em conjunto com a estilhaçada economia dos Estados Unidos da América, poderá contrariar a perda de hegemonia do Ocidente?

O Produto Interno Bruto dos Estados Unidos da América, no valor de 14,326 milhões de milhões (trilions) de dólares, está acompanhado por uma dívida externa de 12 milhões de milhões de dólares. Nouriel Roubini prevê que, lá para o ano de 1014, a razão entre a dívida externa e o Produto Interno Bruto esteja duplicada. Os números do desemprego crescem mensalmente na ordem de centenas de milhares. O nível de desemprego já atingiu 16,5%, se considerarmos os empregados a tempo parcial e os que desistiram de procurar emprego. 50% do orçamento dos Estados Unidos da América é consumida em empréstimos. O serviço da dívida atingirá 13% do Produto Interno Bruto no termo do ano fiscal. Os défices orçamentais crescentes, os elevados custos das operações de salvamento do sector financeiro e os custos crescentes do serviço da dívida arrastam um efeito inflaccionário que conduzirá a uma elevação do índice de risco dos investimentos, o que contraria esforços internos de recuperação económica. Tudo conjugado, levam Roubini a concluir que a margem para novos incentivos é cada vez menor. Paul Craig Robert, Sub-Secretário do Tesouro da administração Reagan e ex-colunista do Wall Street Journal, referindo-se ao seu país, perguntou: «Onde está a economia? Já não existe economia para recuperar. A indústria dos EUA perdeu-se na deslocalização e na cegueira ideológica do mercado livre»; a sua decepção está bem patente no juízo: «Nada, entre as políticas económicas de Bush e de Obama, foi concebido para resolver as verdadeiras questões»; sobre a dívida: «Só há uma forma de a pagar: é imprimir dinheiro».

Uma aliança à custa de mais crises e guerras

Estas são as novas roupagens do imperador, com as quais o Elmar Broks da União Europeia pretende estreitar os laços contra as inevitáveis alterações geo-económicas e geopolíticas, que já podem apenas ser retardadas. Contudo, isto só pode ser alcançado ao preço de sacrifícios económicos e do perigo de novos confrontos militares em regiões críticas da Eurásia [Zbigniew Brzezinski, The Grand Chessboard]. A médio prazo, o sistema dólar não pode ser mais mantido, porque os credores cada vez mais lhe retiram a confiança e começam a investir os seus excedentes no seu próprio desenvolvimento em vez de continuarem a alimentar o consumo nos Estados Unidos da América. Desprovida de sólidos fundamentos, porém, nenhuma zona transatântica de comércio externo pode ser estabelecida. As políticas da União Europeia e da Alemanha devem finalmente tomar na devida conta estas realidades, em vez de tentarem dependurar-se nos destroços de um Titanic que se afunda. O relatório do BND é omisso quanto a esta questão. Ficará a Europa sedada pela comunidade de valores transatlânticos partilhados? Os Estados Unidos da América são o principal beneficiário do sistema económico centrado no dólar e, como sistema mundializado, fará tudo o que puder para manter a sua posição dominante. Fora da Europa, esta situação já desencadeou alguma resistência, da qual resultaram acordos efectivos e contra-medidas. A China exige uma divisa mundial que não seja controlada por um único país . Significativamente, as exportações do Japão voltam-se agora para a Ásia em prejuízo do mercado dos EUA – 50% para aquela contra 20% deste – pondo em evidência o início de um processo de saída do caos mundial [Exporte retten Japan, Financial Times Germany de 22/07/2009] desencadeado pela crise económica e financeira. Este processo de mudança não tem de ser casuístico. Pode enformar um novo tipo de relacionamento. É necessário criar novas estruturas para a economia mundial contando com a participação de todos os países, por forma a se encontrar um sistema económico internacional justo [Elmar Altvater Stosst den Dollar vom Thron, Freitag, 09/07/2009; Joseph Stiglitz, Lasst die Armen mitentscheiden, Financial Times Germany, 21/07/2009]. Enquanto países-chave da Ásia abrem novas zonas de mercado, a Europa marca passo, narcotizada por 50 anos de comunidade de valores transatlânticos partilhados e voltada para o seu próprio umbigo. Aqui, ninguém parece preocupado com as consequências de uma possível quebra de 40 a 60% do dólar devida à impossibilidade de se continuar a financiar a dívida externa dos EUA.

Emancipação do big brother e alternativas equilibradas

As decisões autónomas dos países do BRIC [Brasil, Rússia, Índia e China] e de outros países asiáticos são compreensíveis; porém, são opostas a uma transição disciplinada. A União Europeia claramente não entende as responsabilidades que recusa assumir, caso não construa os mecanismos de cooperação económica futura de igual para igual com a Rússia, a Ásia Central e a América Latina. Receia entrar em conflito com os Estados Unidos da América. Este conflito está em tornar claro ao seu aliado principal que, na futura ordem mundial e no futuro sistema económico internacional, poderá apenas ser – na melhor hipótese – primus inter pares e que a Europa não deseja mais entrar nas guerras dos Estados Unidos da América. A China foi mais corajosa. A sua pretensão de substituir o dólar significa também nós não queremos continuar a financiar as vossas guerrras.

A União Europeia também não compreende que armar-se em superior económico não gera parceiros de confiança. As negociações sob direcção alemã com a aliança regional da América Latina CAN [Comunidad Andina] para um tratado de comércio livre tresandava ao espírito imperial «divide e conquista». A estupidez e miopia política, patentes ao longo das negociações, tornaram-se ainda mais desprezíveis porque os aliados, de que a Europa está tão urgentemente carecida para reestruturar a economia mundial, ficaram intimidados. Os povos têm, contudo, uma memória histórica colectiva. Quem melhor que os alemães pode estar consciente disso?

Dados os desafios globais sem precedentes, onde se encontra a esquerda política? Onde estão os seus conceitos de um papel activo para a Europa e de uma União Europeia no contexto das convulsões actuais, de forma a moderar os erros com resultados previsivelmente devastadores para uma grande parte da humanidade? Não se refere constantemente ao internacionalismo como máxima para a acção? Porém, o longamente presidente do grupo parlamentar Confederal Group of the European United Left/Nordic Green Left (GUE/NGL), o comunista Francis Wurtz, realçou após 30 anos como delegado do Parlamento Europeu, que «A posição mundial da Europa enfraqueceu demasiado. Tendo em conta o que representamos, deveríamos desempenhar um papel mais activo» [Die drei aus dem Versuchslabot, Süddeutsche Zeitung, 29/Maio/2009]. Tal como o relatório do Bundesnachrichtendienst [BND - Serviços Alemães de Espionagem], a esquerda política também não apresenta recomendações para a acção ao único participante que está em condições de exercer uma influência real: a União Europeia. Não é verdade que «Os filósofos até agora limitaram-se a interpretar o mundo. A questão está em transformá-lo» [Karl Marx, Teses sobre Feuerbach, 1845]?

Jochen Scholz, Não queremos mais financiar as vossas guerras, publicado em Current Concerns a 26 de Março de 2010

Jochen Scholz – Projecto Europeu para o Novo Século (9)

Monday, October 6th, 2008

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Tradução a partir da versão francesa:
Jochen Scholz, , , 15 de Seyembro de 2008