Christopher Black – Papéis do Panamá

No seu último romance intitulado Numero Zero, Humberto Eco denunciou a realidade simultaneamente manipuladora e manipulada da imprensa ocidental, colocando na voz de um redactor editorial as palavras: “Vamos limitar-nos a divulgar suspeitas. Se alguém for mencionado em negócios condenáveis, ainda que não saibamos do que se trata, podemos pregar-lhe um susto. É quanto basta para os nossos intentos. Mais tarde, passaremos à cobrança, o nosso jornal poderá ganhar quando o momento for propício.

E é exactamente isto que está a acontecer com o aparecimento em todos os jornais ocidentais, no passado domingo dia 3 de Abril, da história a que se chamou sinteticamente “Papéis do Panamá”. Esta história, atribuída a uma obscura Coligação Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) tem todas as marcas distintivas de uma operação dos serviços secretos visando atingir selectivamente determinados governos. O alvo principal, como não poderia deixar de ser, é o Presidente Putin, para enfraquecer a sua posição nas próximas eleições e, mais tarde, retratá-lo como um criminoso no ocidente.

Mas entre os alvos estão também directores da Federação Internacional das Associações de Futebol (FIFA), dando continuidade ao assédio que o governo dos Estados Unidos da América (EUA) tem feito para impedir a participação da Rússia no próximo campeonato mundial; está Leonel Messi, um dos melhores jogadores do mundo, possivelmente como retaliação pela recusa [do jogador] em aceder ao convite dirigido por Barak Obama aquando da visita à Argentina, para que se encontrasse com as suas filhas; o de Jakie Chan, pelo apoio ao Partido Comunista Chinês; além de várias outras pessoas inscritas na lista negra dos EUA por se relacionarem com a Coreia do Norte, o Irão, o Hezbolá, a Síria ou outras entidades que os EUA consideram inimigas.

Inclui também o Presidente Porochenko da Ucrânia, porventura como sinal de que estão fartos dele; o primeiro-ministro da Islândia, que acabou por demitir-se, como castigo por ter mandado prender alguns banqueiros, confiscado os respectivos bancos e compensado parcialmente as perdas sofridas pelos cidadãos na crise financeira de 2008; Hozni Mubarak, que acusou os EUA de organizarem no Egipto uma sublevação contra ele; Kadafi, assassinado na Líbia; e Xi Jiping, o Presidente da China. Notoriamente ausentes estão os nomes dos altos dignatários dos EUA ou da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), se bem que o pai de David Cameron aí venha mencionado, como puxão de orelhas ao primeiro-ministro britânico por ter autorizado o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, pondo em risco a influência dos EUA na Europa.

Basicamente, descontando os inimigos declarados, trata-se de pessoas que, por um ou outro motivo, os EUA passaram a considerar críticos da sua política, tendo perdido o estatuto de parceiros fiáveis.

A escolha do Presidente Putin como alvo preferencial, apesar do seu nome não constar nos documentos, e também a escolha do momento acordado para a difusão do relatório levantam imediatamente reservas quanto ao valor desta divulgação no âmbito restrito do direito do público à informação, distanciado de motivações políticas do governo dos EUA, como a desestabilização de determinados governos estrangeiros. Menos reservas levanta o alinhamento desta operação com os objectivos amplamente propagandeados pelo governo dos EUA. A ocultação do dinheiro pelos ricos sempre foi uma boa maneira de provocar a ira do público e estimular distúrbios para desestabilizar governos, como os que acabámos de assistir na Islândia. Pouco interessa que a história seja verdadeira ou não. Uma parte da informação poderá ser, mas o quadro legal opaco em que se move a firma de onde os documentos foram sonegados diz muito quanto ao apego à verdade. Que importa, se conta só o que é mostrado ao público?

Só conhecendo a natureza da fonte, o ICIJ, o sentido de toda esta história começa a desvendar-se. Ficaremos mais esclarecidos quando soubermos quem é a entidade responsável pela publicação das informações, a quem está associada e quem a patrocina.

A chave encontra-se na composição do Conselho Consultivo e do Conselho de Administração da sua casa-mãe, o Centre For Public Integrity (CFPI) e ainda na lista dos respectivos membros fundadores. No seu sítio da internet, o ICIJ reclama-se do estatuto de organização sem fins lucrativos. Tecnicamente isto pode estar certo, mas esqueceram-se de informar que da actividade desta organização resultam proventos para as pessoas que os financiam e que controlam as suas operações. Entre os membros fundadores da CPPI estão o Democracy Fund, a Carnegie Foundation, a Ford Foundation, a MacArthur Foundation, a Open Society de George Soros, o Rockefeller Brothers Fund, o Rockefeller Family Fund o muitos outros de semelhante linhagem. Entre os contribuintes individuais encontramos pessoas como Paul Volcker, ex-presidente da Reserva Federal, e muitos outros da poderosa elite corporativa e financeira dos EUA.

No Conselho Consultivo encontramos pesoas como Geoffrey Cowan, que foi nomeado director da Voice of America pelo Presidente Clinton em 1994 e foi director associado da United States Information Agency. Hoje é o director da Anneberg Foundation, que hospeda presidentes e ex-presidentes reformados dos EUA incluindo Obama nas suas propriedades na Califórnia, apelidadas de Camp David do Oeste. É também um membro do Conselho para as Relações Internacionais, um grupo de reflexão onde pontificam numerosos directores da Central Inteligence Agency (CIA), muitos ex-Secretários de Estado (Ministros dos Negócios Estrangeiros) dos EUA e personalidades ligadas aos órgãos de comunicação que têm chamado a si a responsabilidade de promover a globalização, a liberalização do comércio e outras orientações de política internacional definidas pelos magnatas mais poderosos dos EUA.

No Conselho Consultivo sentam-se também Hodding Carter III, ex-secretário de estado adjunto no mandato do Presidente Carter e depois jornalista dos meios de informação ocidentais mais importantes incluindo a BBC, a ABC, a CBC, a CNN, a NBC, a PBS e o Wall Street Journal, ocupando actualmente o cargo de Presidente da Knight Foundation. Lá encontramos também Edith Everett, presidente da Gruntal and Company, um dos maiores e mais antigos bancos de investimento da cidade de Nova Iorque; Hebert Hanif, advogado de altos responsáveis do Estado, Kathleen Hill Jamieson, reitora do Annenberg School for Communication, especialista na utilização da imprensa para fins políticos incluindo modos de influenciar campanhas eleitorais; e Sonia Jarvis, advogada que já trabalhou com Clinton.

Ainda no Conselho Consultivo estão Harold Hongji Koh, ex-conselheiro jurídico do Departamento de Estado de 2009 a 2013, nomeado pelo Presidente Obama, conhecido por ter defendido em 2010 a legalidade do uso de aviões não-tripulados para efectuar assassinatos; Charles Ogletree, professor de Direito na Universidade de Harvard e amigo próximo de Obama; Allen Pusey, editor e redactor da American Bar Association Journal; Ben Sherwood, co-presidente da Disney Media, ex-presidente da ABC News e também membro do Conselho para as Relações Externas; Paul Volcker, que não é apenas um financiador individual mas também membro do Conselho. Além do cargo de presidente da Reserva Federal entre 1979 e 1987, Volcker foi presidente do Conselho Consultivo para a Economia entre 2009 e 2011, designado por Obama e ainda foi presidente da Trilateral Comission, tendo trabalhado para o Chase Manhattan Bank, uma posição muito próxima da família Rockefeller.

Para terminar, estão lá Harold Williams, ex-presidente da Comissão dos Valores Mobiliários (1977-1981) e membro dos conselhos de administração de dezenas de empresas, William Julius Wilson, professor de Sociologia da Universidade de Harvard e, por último mas não menos importante, Christiane Amanpour, figura cimeira da propaganda bélica da CNN, que ainda há poucos dias encenou uma farsa televisiva ao fingir desconhecer por completo o assunto dos Papéis do Panamá, em entrevista que fez a um jornalista da ICIJ. Na realidade, estava a entrevistar um funcionário da sua própria organização, mas não informou disso os telespectadores. Por alguma razão o seu nome não aparece no sítio da internet da CFPI, mas sim aparece no último Relatório Anual de Contas (2014-2015) da organização.

No Conselho de Administração, por seu lado, podemos encontrar Peter Beale, antigo chefe da CNN.com, antigo funcionário da Reuters, editor do London Times, director editorial da Microsoft; mas também Arianna Huffington, presidente da Post Media; e Bill Kovach, jornalista do New York Times, para mencionar apenas alguns nomes bem conhecidos do situacionismo dos EUA.

Eis os factos. Não se trata, portanto, de um grupo de investigadores independentes dedicados à causa da verdade e à defesa da democracia. Trata-se de um grupo de propagandistas que, disfarçados de jornalistas, prosseguem a arte do engano às ordens do governo e dos serviços secretos dos EUA. Não é de espantar que, no Relatório Anual, a aprovação de Obama à actividade da organização seja citada. Em Janeiro, este mesmo grupo lançou um ataque ao governo da China através de uma outra “fuga” de documentos financeiros referindo dirigentes chineses, algo que agora volta a acontecer, sem dúvida como parte do trampolim para a China.

Eis a informação que a CNN, The Guardian, a BBC, a CBC, o New York Times e toda a restante imprensa não forneceu, mas que é relevante para se avaliar o grau de isenção do promotores desta difusão por todo o mundo. A missão da imprensa ocidental não é a de informar o público, ou “ensinar as pessoas a pensar“, como disse Humberto Eco; é a de manipular as ideias e as acções. A omissão da informação é também uma mentira e, nas palavras de outro grande escritor, José Saramago, também é usada “como arma, como guarda avançada dos tanque e dos canhões, sobre as ruínas, sobre os mortos, sobre as míseras e sempre frustradas esperanças da humanidade“. É tempo destas pessoas serem conhecidas pelo que fazem e chamadas à responsabilidade pela forma como estão a enganar os que dizem servir. Pois haverá crime maior que o de enganar o povo?

The Panama Papers: The People Deceived, Christopher Black, New Eastern Outlook 09/ABR/2016

(Traduzido do original em inglês por António Ferrão)

Deixe um comentário

Tem que se Identificar para comentar.