William Engdahl – No caos da Síria, Soros joga com um pau de dois bicos

Desde que John D. Rockefeller foi aconselhado a colocar a sua fortuna a salvo do fisco criando uma fundação filantrópica isenta de impostos em 1913, os oligarcas norte-americanos começaram a dissimular as suas múltiplas iniciativas mais obscuras sob a capa de benfeitorias para a humanidade, conhecidas pelo rótulo de filantropia ou amor ao próximo. George Soros não faz por menos e possui mais fundações isentas de impostos do que qualquer outro. As suas fundações denominadas Sociadade Aberta encontram-se em todos os países onde Washington pretende “pôr a sua mão”, ou onde existe um governo que não sabe ler a sua música. Estas sociedades desempenharam um papel crucial na mudança de regime na antiga União Soviética e na Europa de Leste depois de 1989. Agora as suas fundações afinam a pontaria ao promoverem a propaganda ao serviço da guerra da aliança Estados Unidos da América (EUA) com o Reino Unido (RU) contra a estabilidade da Síria, tal como há três anos fizeram com a Líbia, criando o actual fluxo de refugiados.

A perturbação social e devastação com que os países da União Europeia se vêem actualmente confrontados, especialmente a Alemanha que é o destino preferencial dos que procuram asilo, requer uma atenção cuidada. Geoge Soros, hoje naturalizado norte-americano, acaba de assinar uma recomendação de seis pontos dirigida à União Europeia (UE) onde explica aos seus dirigentes o que devem fazer para lidar com a esta situação. A recomendação merece ser analisada.

Começa por sentenciar: “A UE precisa de um plano abrangente para responder à crise, um plano de atenda de maneira segura e ordeira o fluxo de pessoas procurando asilo…” e prossegue “É necessário que a UE receba pelo menos um milhão de refugiados por ano nos anos vindouros“.

Soros não esclarece como chegou a este número de um milhão por ano, tampouco que actividade andam a desenvolver todas as organizações-não-governamentais (ONGs) que ele financia na Síria e em outros países. Especificamente na Síria, estas ONGs têm procurado ganhar a simpatia do público para a ideia do “No Fly Zone” (zona interdita à aviação) cara ao grupo de pressão dos EUA-RU, com vista à destruição do país, como já aconteceu com a Líbia.

O agente de especulação financeira norte-americano acrescenta então, entre os pontos a implementar na Síria, um conjunto de propostas que conceda um poder real aos burocratas supra-nacionais da Comissão Europeia (CE), sem rosto e livres de controlo democrático. As propostas de Soros apelam à criação na UE de um fundo de obrigações destinado aos refugiados. Concretamente, afirma: “A UE deve providenciar 15.000 euros por cada pessoa procurando asilo nos primeiros dois anos para cobrir despesas com habitação, cuidados médicos e educação – uma forma de tornar mais convidativo o país hospedeiro. Pode gerar este fundo emitindo títulos do tesouro a longo prazo, recorrendo à capacidade de endividamento largamente inexplorada que lhe é conferida pela notação AAA“.

Tal emissão de obrigações ascenderia imediatamente a 30 mil milhões de euros, ao mesmo tempo que muitos países da UE se debatem com crises económicas nacionais. A notação AAA é uma referência à entidade legal denominada União Europeia. Há anos que Soros tem manobrado para arrancar a Berlim, Paris, Roma ou outros estados da UE os últimos vestígios de soberania financeira nacional, concentrando-a em Bruxelas, parte de um plano para destruir o que resta das fonteiras nacionais e dos princípios do estado-nação estabelecidos no Tratado de Paz de Westfália de 1648, no fim da Guerra dos Trinta Anos.

Geoge Soros tem mais ideias de como gastar o dinheiro dos impostos dos cidadãos europeus. Apela à UE para disponibilizar uma quantia anual de 8 a 10 mil milhões de euros para apoiar os chamados países da linha da frente, a Turquia, o Líbano e a Jordânia. Depois, insidiosamente, acrescenta: “Devem ser implementados canais de trânsito seguro para os que procuram asilo, com início na Grécia e na Itália até aos países de destino. Isto é muito urgente para refrear o pânico.

Países de destino

O uso que Soros faz da expressão ‘países de destino‘ é muito interessante. Hoje, em grande medida, tal significa a República Federal da Alemanha. A estratégia de Soros é obviamente inundar principalmente a Alemanha com uma vaga de refugiados.

Torna-se cada vez mais conhecido o facto de que muitos refugiados ou pessoas que procuram asilo na UE desde o Verão de 2015 o fizeram em resposta a mensagens colocadas nas redes sociais Twitter e Facebook, apresentando a Alemanha como um país de braços abertos, amigo dos refugiados, o paraíso onde todos os sonhos se podem concretizar.

Como foi colocada no ar a ideia de que a Alemanha estava pronta a receber aqueles que quisessem fugir da Síria ou de outras zonas de conflito? Vladimir Shalak, da Academia Russa das Ciências, desenvolveu o Sistema de Análise de Conteúdos para o Twiter (Scai4Twi). Fez também um estudo às referências ao país mais hospitaleiro da Europa, abrangendo mais de 19.000 mensagens originais (descontados os reenvios). O seu estudo mostrou que a larga maioria das mensagens apontava a para a Alemanha.

O estudo de Shalak revelou que 93% de todos as mensagens sobre a Alemanha continham referências à hospitalidade da política para os refugiados. Eis algumas dessas mensagens:

  • Alemanha Sim! Activistas de Esquerda pintam um grafiti num comboio escrevendo em árabe: “Bem vindos, refugiados!“.
  • Pessoas amáveis – video mostrando alemães dando as boas vindas a refugiados nas respectivas comunidades.
  • Respeito! Fãs de futebol ostentando cartazes”Sejam bem vindos, refugiados!” em muitos estádios da Alemanha.
  • Este grafiti em árabe chega à estação de Dresden, desejando as boas vindas: (ahalan wa sahlan – uma saudação calorosa).
  • Nós amamos a Alemanha!“, grita um refugiado na estação de combóio na estação de Munique.
  • Milhares saudam os refugiados na Alemanha – Sky News Austrália.
  • Onde quer que se situe a cidade alemã que recebeu o treinador sírio com cartazes de boas vindas e flores – Muito obrigado!.

Agora a surpresa. A grande maioria destas mensagens “A Alemanha saúda os refugiados” são provenientes, não da Alemanha, mas dos EUA e do RU, os dois países comprometidos até ao pescoço nas acções sangrentas do Estado Islâmico (EI) e de Al Quaeda, além de incontáveis outras organizações de terror que floresceram pela Síria nos últimos quatro anos.

Shalak analisou 5.704 mensagens originais contendo a marca “#RefugeeWelcom” associada ao nome de um país que saudava a chegada dos refugiados. Mostrou que quase 80% destas mensagens defendiam que a Alemanha era o país mais hospitaleiro. O segundo país mais apontado foi a Áustria, com 12% to total. Porém, também descobriu que tais mensagens anunciando “Germany welcomes you!” não foram originadas na Alemanha. Mais de 40% foram originados nos EUA, RU e Austrália. Apenas 6,4% tiveram origem na Alemanha.

George Soros é também o rico benfeitor que financia o grupo de reflexão denominado Conselho Europeu para as Relações Exteriores (CERE). No sítio da internet da CERE está um editorial intitulado: “Se a Europa quer que as pessoas não se afoguem, deve deixá-las voar“. O grupo de reflexão de Soros argumenta que a razão principal que faz com que os emigrantes prefiram chegar à Europa de barco é a directiva 51/2001/EC: “A directiva da UE foi aprovada em 2001. Simplificando, ela estabelece que a companhia de transportes – seja de aviação ou de navegação – é responsável por certificar-se de que os cidadãos nacionais de fora da Europa e que viajem para a Europa possuem documentos válidos. No caso contrário, o repatriamento é feito às custas da companhia transportadora“. É quase como dizer: “Senhor, abra mais as portas do Céu!

As ONGs de Soros fazem soar os tambores da guerra

O cinismo do apelo de Soros aos contribuintes de impostos da UE para que correspondam ao nível do desafio e recebam milhões de novos refugiados, os tragam de avião sem papéis e tudo o mais, fica claro quando reparamos que a mesma rede de ONGs activa na Síria desenvolve propaganda promovendo uma nova zona de exclusão aérea neste país como já foi feito no Iraque em 1991 e na Líbia em 2012, causando o retrocesso destes dois últimos para os primórdios da Idade da Pedra.

Uma das peças chave na Internet para a promoção da zona de exclusão aérea tão cara aos EUA/RU – pese embora tal intenção estar agora bloqueada pela intervenção russa de 30 de Setembro – é a organização denominada Avaaz. A Avaaz recebeu um apoio financeiro inicial da fundação Soros em 2007 para promover políticas essenciais alinhadas com o Departamento de Estado (Ministério dos Negócios Estrangeiros) dos EUA. Menciona a fundação “Open Society” como parceiro fundador. Avaaz teve um papel fundamental na promoção da zona de exclusão aérea na Líbia em 2011, que introduziu um regime de terror e caos naquela que fora uma nação africana próspera e estável. A Avaaz está agora a tentar repetir o mesmo estratagema na Síria.

Outra ONG financiada por Soros que activamente demoniza o governo de Assad como causador de todas as atrocidades na Síria e tenta ganhar apoio público para a necessidade dos EUA/RU se envolverem numa nova guerra é a Amnistia Internacional. Suzanne Nossel, que foi directora do ramo norte-americano da Amnistia Internacional até 2013, tinha trabalhado antes no Departamento de Estado, onde fora vice-Secretária de Estado, não propriamente o melhor currículo para apoiar uma perspectiva imparcial do conflito na Síria. A agência Human-Rights Watch, igualmente financiada por Soros, desempenhou um papel importante na divulgação dos massacres de civis feitos pelo EI e e por Al Quaeda, atribuindo-os falsamente ao regime de Assad, como forma de forçar a intervenção militar dos EUA/RU.

As guerras no Médio Oriente e outras guerras incluindo a da Ucrânia resultam da doutrina de política externa delineada em 1992 pelo então Secretário Adjunto da Defesa do EUA Paul Wolfowitz, a infame doutrina Wolfowitz, que justifica as guerras perventivas, ao arrepio do Conselho de Segurança da Nações Unidas, a empreender contra qualquer nação ou grupo de nações que ameacem o papel de Superpotência Mundial Única dos EUA. George Soros, o especulador financeiro que se auto-intitula filantropo e as suas fundações isentas de impostos são parte integrante da máquina de guerra preventiva. Agora Soros pretende explicar aos países da UE e à Alemanha acima de tudo como devem receber os escombros humanos que resultaram das guerras que ele e os seus acólitos conduziram. É muita temeridade, ou talvez seja demasiada presunção.

Soros Plays Both Ends in Syria Refugee Chaos, New Eastern Outlook, 18.12.2015

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