Archive for June, 2015

Europa à deriva

Sunday, June 28th, 2015

Havendo vontade, haverá solução – Angela Merkel.
A Cimeira dos Chefes de Estado é, estatutáriamente, um órgão de decisão que não tem que se subordinar às recomendações do Eurogrupo. Mas ontem o Eurogrupo, que é um órgão apenas consultivo e que deve pronunciar-se sobre a viabilidade da propostas na agenda da Cimeira, pronunciou-se apenas sobre aspectos políticos, que eram precisamente aqueles que estão fora do seu alcance. A Cimeira eclipsou-se, deixando ao Banco Central Europeu a incumbência de extrair consequências políticas da situação.

O sinal mais característico do comportamento cobarde é a recusa em assumir integralmente os actos ou omissões. A “mulher mais poderosa do planeta” é um dichote que tenta esconder uma dirigente insegura que se agarra ao primeiro bote salva-vidas quando o navio começa a adornar.

Eric Toussaint – Relatório preliminar do inquérito parlamentar à dívida grega

Thursday, June 18th, 2015

Ao desvirtuar o seu papel na Grécia, o FMI ficou refém da União Europeia

Sunday, June 7th, 2015

O pecado original do Fundo Monetário Internacional (FMI) foi o de permitir que Dominique Strauss-Kahn sequestrasse a instituição para salvar os bancos europeus e o euro quando a crise irrompeu, condenando a Grécia ao desastre.

O FMI está em sérias dificuldades. Os acontecimentos na Grécia atingiram um ponto de ruptura tal que ameaçam agora a credibilidade do Fundo e a sua sobrevivência a longo prazo.

Não foi por falta de dinheiro que os gregos adiaram o pagamento de 300 milhões de euros ao FMI, ainda que tal esteja eminente.

Cinco figuras-chave do movimento radical de esquerda Syriza – em reunião na Mansão Maximus de Atenas – tomaram ontem a decisão fria, ponderada e meticulosamente planeada de não pagar.

Sabiam exactamente o que estavam a fazer. Christine Lagarde foi apanhada em contra-pé. Os seus funcionários em Washington ficaram estarrecidos.

A agregação dos pagamentos devidos em Junho poderia ser encarada como um procedimento meramente técnico, embora usado pela última vez pela Zâmbia na recuada década de 1980. Na realidade é mais do que isso; é um tiro de aviso, uma agudização perigosa da situação para todas as partes envolvidas.

Os dirigentes do Syriza disseram que estão tão insatisfeitos, tão tocados pelo sentido de tratamento injusto, que poderão estar à espera do dia 30 de Junho para entrarem, só nessa altura, em situação de incumprimento ao FMI. Colocarão então a instituição na posição ultrajante de ter de explicar aos seus 188 países-membros porque é que perderam tanto dinheiro de forma tão displicentemente e permitiram um descalabro tão colossal nos negócios.

Os gregos acusam o FMI de conivência com a União Monetária Europeia (UME) na imposição de um regime de austeridade que quebra as próprias regras do Fundo e contrariou sistematicamente as análises feitas pelo seu excelente economista chefe do Departamento de Investigação, Oliver Blanchard, ao longo dos últimos cinco anos.

A dívida pública grega é de 180% do Produto Nacional Bruto (PNB). Os empréstimos foram feitos numa moeda que o país não controla. Trata-se, portanto, de uma dívida em divisa estrangeira. O FMI sabe que os gregos não têm a possibilidade de pagar devido à austeridade draconiana – a política que já vai no quinto ano de implementação com resultados tão contraproducentes – e também sabe que quanto mais tarde admitir publicamente o erro, mais delapida a sua própria autoridade.

Tentou à porta fechada pressionar no sentido de se alcançar o alívio da dívida, embora com pouca convicção, evitando um confronto aberto com os países credores da UME. Objectivamente, comportou-se como um autêntico lacaio do imperialismo – como diriam os marxistas gregos.

Como sería de esperar, tal desembocou na pior situação possível. O homem de campo do FMI em Atenas – Paul Thomson – procurou desenvolver um plano de auteridade com tal sanha que assustou até os funcionários da Comissão Europeia, uns gatinhos medrosos por comparação.

Até se poderia compreender as medidas se o habitual contrapeso das negociações com o FMI aparecesse: redução da dívida e desvalorização interna. É assim que os programas do FMI costumam funcionar: impõem reformas duras mas fazem igualmente tábua rasa da dívida e restablecem a viabilidade externa dos países socorridos.

É uma fórmula muito eficaz. Nas raras vezes em que o FMI se enganou, tal deveu-se a ter mantido por demasiado tempo uma taxa de câmbio fixa à data do contrato.

Tudo isto foi descartado no caso da Grécia. O FMI forçou a liquidação à bruta sem estímulos de compensação ou alívio. Anunciou que as suas políticas conduziriam a uma contracção do PNB de 2,6% em 2010, seguido de uma rápida retoma económica.

Em vez disso vieram seis anos de depressão, uma espiral deflaccionária, 26% de quebra do PNB, 60% de desemprego jovem, êxodo em massa dos jovens e dos quadros mais experientes, o afundamento do país num poço que arruinará as perspectivas de desenvolvimento por uma década e, no topo de tudo isto, a taxa de endividamento do país explodiu pelo efeito multiplicativo previsível da redução do PNB.

É um escândalo público de primeiro plano. Uma parte do FMI esboçou uma mea culpa, admitindo que as suas análises menosprezaram grosseiramente o efeito miltiplicativo no fisco. Aplausos para eles.

Outra parte continua a defender novas variantes das mesmas políticas indefensáveis, exigindo um corte de pensões e subida da colecta do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) perfazendo um valor combinado de 1% do PNB no ano corrente e 2% no próximo, mesmo que o país volte à recessão.

Ashoka Mody, ex-chefe de delegação do FMI no salvamento da Irlanda, recusa-se a criticar os seus antigos colegas da Comissão Europeia, mas as suas palavras que citei ontem à noite são suficientemente elucidativas.

Tudo o que aprendemos nos últimos cinco anos é que é estrondosamente errado forçar a austeridade num país que se encontra numa fase deflaccionária do ciclo económico. Os atletas lesionados devem primeiro recuperar a forma física, só depois podem voltar à maratona.

Nas actuais circunstâncias, o simples facto da questão da subida do IVA ser levantada já me choca. Já assistimos ao poder destrutivo da subida prematura do IVA numa economia tão forte como a do Japão.

O Syriza deveria recrutar os investigadores do Departamento de Investigação do FMI para serem seus porta-vozes, pois estes dizem sobre estas questões económicas quase exactamente o mesmo que o Syriza. Toda a estratégia dos credores está errada e quanto mais prolongada for, maiores os custos que terão que suportar.

O pecado original do FMI com respeito à Grécia foi cometido pelo parisiense citadino Dominique Strauss-Kahn, ao sequestrar a instituição para socorrer a UME e o sistema bancário europeu, quando a crise irrompeu em 2010.

A missão do Fundo é salvar países, não divisas ou bancos, e certamente não deveria ter-se envolvido em trabalhos sujos ao serviço de uma divisa de uma união rica, perfeitamente capaz de gerir os seus negócios e que se recusa a fazê-lo por motivos meramente políticos.

Houve um momento difícil em 2010. A eurozona esteve ao ponto de perder o controlo da situação. Não existiam barreiras de protecção – por negligência criminosa dos dirigentes europeus e dos reguladores bancários – e o espectro da Lehman pairou sobre o euro.

Porém, algumas fugas para a imprensa de actas de Assembleia de Governadores permitiram-nos saber que todos os países-membros dos mercados emergentes (além da Suiça) se oposeram aos termos do primeiro pacote de empréstimo à Grécia. Protestaram que foi concebido para salvar o euro, não a Grécia.

Sobrecarregaram com nova dívida os ombros de um país que já estava em bancarrota. A história ficou ainda mais sórdida por constituir uma autorização a um grande banco francês e outro alemão – sem nomes, sff – a limparem-se de uma exposição conjunta de 25 mil milhões de euros em activos tóxicos fazendo-os recair em cima dos contribuintes da UME.

O representante do Brasil alegou:

A reestruturação da dívida deveria ter sido inscrita na ordem de trablhos. Estes empréstimos não podem ser encarados como salvamento da Grécia, que terá de passar por um ajustamento penoso, antes como salvamento dos detentores privados de dívida grega que são maioritariamente instituições financeiras europeias.

Arvind Virmani, o representante da Índia, foi profético:

O esmagamento fiscal sem uma política monetária compensatória não tem precedentes. É um peso de mamute que economia alguma poderá suportar,

disse. E continuou:

Ainda que o programa seja implementado com sucesso, acarretará uma espiral deflaccionária de queda simultânea dos preços, taxa de emprego e receitas fiscais que anulará qualquer ganho.

Foi isto mesmo o que aconteceu.

O Fundo poderia ter expiado a sua falha, reconhecendo o seu dever de zelar pelos gregos e suavizando as imposições. Não o fez. Sem surpresa, o Syriza entrou em rota de colisão.

O FMI tem de ter cuidado. Tornou-se um símbolo de má governação. O Sr Strauss-Kahn foi apanhado em flagrante delicto, sendo substituído instantâneamente através de uma manobra política por outro ministro das finanças francês (de qualidade e integridade – mas esse não é o ponto). O antecessor do Sr Strauss-Kahn foi recentemente acusado em Espanha por fraude.

A instituição carece de reforma. Não há razão que justifique que o cargo de director-geral tenha de ser ocupado por um representante europeu, nem para que os países europeus controlem nove posições na Assembleia de Governadores. Poder-se-ía alegar que também não há razão para que o Reino Unido, a França e a Rússia detenham poder de veto no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Não contesto.

Estas anomalias deveriam ter sido corrigidas na altura do fiasco com Strauss-Kahn – assim como o bloqueamento da reforma das quotas decidida pelo Congresso dos Estados Unidos da América – tanto mais que a China e um conjunto apreciável de países emergentes já tinham irrompido em cena por essa altura.

Falhou a liderança. O Ocidente desgraçou-se a si próprio. Não espanta que a Ásia tenha iniciado o seu próprio caminho com novas instituições que consegue controlar.

O governo grego deita mais lenha à fogueira de uma instituição já com problemas mas que, apesar disso, conta com excelentes quadros e merece ser preservada.

A Srª Lagarde deveria parar de fazer o papel de diplomata. Tem de desfazer-se do seu chapéu europeu e falar em nome da organização que dirige e falar para todo o resto do mundo.

De cabeça erguida e em público, chamar à responsabilidade os dirigentes dos países credores da UEM. Dizer-lhes sem rodeios que todos carregam o seu quinhão de culpa pelo impasse a que se chegou na Grécia.

Deve vincar bem que os gregos precisam de uma limpeza da dívida – uma questão económica básica e independente da moralidade – e que a recusa dos credores aceitarem este facto é o factor principal que impede a solução. Deixar também claro que o FMI já não se encontra disponivel para continuar a participar nesta fantochada.

Se Lagarde se esquivar a fazê-lo e a frouxa liderança da classe política europeia descambar numa catástrofe a todos os níveis, pois que essa responsabilidade caia também sobre a sua cabeça.

Ambrose Evans-Pritchard, The Telegraph, 05 Jun 2015