Raúl Ilargi Meijer – A Questão da Grécia é apenas política

A Grécia pagou ontem ao Fundo Monetário Internacional (FMI) usando as suas próprias reservas nesse banco. Será assim tão extraordinário? O que quer que se diga a respeito, não retira à Grécia a necessidade de uma reestruturação maior da sua dívida caso queira sair da crise e ter futuro como nação – muito para além de simples membro da eurozona. Mas a União Europeia (EU) e a troyka anno 2010 decidiram salvar os bancos alemães, franceses e da Wall Street (sei que há sobreposições) e, em vez de obrigarem os bancos a reestruturar dívidas resultantes de investimentos de rentabilidade irracional em títulos do tesouro ou em apostas insanas na saída da Grécia da UE, optaram por colocar os custos directamente sobre os ombros da população grega.

Esta é, como já salientei, uma decisão inteiramente política. Também é, diga-se, uma decisão que o Banco Central Europeu (BCE) deveria ter contestado veementemente, pois como instituição independente e apolítica, nunca deveria ter permitido ver-se envolvido numa situação como esta. Mas o BCE não protestou. Mal o compromisso acabara de ser assinado, Bruxelas apressou-se a alardeá-lo como sendo tão inevitável como a arca de Noé. Não é. Simplesmente, uma decisão a somar a muitas outras, onde acima da satisfação de necessidades vitais das pessoas a prioridade foi dada aos ganhos dos bancos.

Foi assim que as pessoas se viram atingidas repentinamente por uma vara muito comprida. Desde que o Syriza foi eleito com maioria significativa para governar a Grécia, este é o pomo de todas as discórdias. Por mais que se repita que os gregos viveram acima das suas possibilidades durante muitos anos, é claro que os desempregados, as crianças com fome e os idosos sem assitência médica não o fizeram.

A troyka afirma que salvou a Grécia. Os gregos, pelo contrário, alegam que apenas 8 a 9% do dinheiro do salvamento foi destinado a pagar salários, tendo sido o restante consumido na cobertura de prejuízos dos bancos sistémicos ou entregue à elite política e económica recém-apeada da Grécia. Por acaso, tal elite foi exactamente aquela com quem os membros da troyka fizeram alegres negócios. Em vésperas de eleições, era ainda possível escutar dirigentes de vários países integrantes da troyka a apelar despoduradamente aos gregos para que recolocassem a mesma elite profundamente corrupta no poder, não obstante a indesmentível responsabilidade que esta carregava e carrega na destruição da economia grega.

A troyka quer que o governo do Syriza faça coisas que contrariam as suas promessas eleitorais. Não fica perturbada pelas incontáveis vozes que já denunciaram falhas às medidas de austeridade como as que estão sendo aplicadas em vários países. A troyka insiste: é preciso mais austeridade. Sabendo perfeitamente que o mandato que o Syriza recebeu não o permite. Para já nem invocar questões morais.

Este é um jogo de Poder. É um jogo de vontade política. No entanto, quer a imprensa quer a troyka sempre o caracterizaram como sendo de natureza económica. Se tal fosse verdade, como se explicaria o facto das declarações feitas ontem pelo governador do Banco Central da Áustria e membro da direcção do BCE, Ewald Nowotny, terem passsado sem qualquer destaque ou contestação?

Nowotny do BCE: o problema da Grécia não é económico:

O problema da Grécia é mais uma questão política do que económica, afirmou na segunda-feira um membro do BCE, Ewald Nowotny. As discussões com partidos políticos de esquerda como o Syriza ou o Podemos de Espanha podem ser refrescantes por trazerem novas idéias, porém no final há que tirar conclusões. Nowotny acentuou que acrescentar novas idéias não deve ser confundido com cair num jogo estéril.

O elemento directivo do BCE abstêve-se de considerações sobre a solução do problema financeiro grego, defendendo que essa questão é mais política do que económica. O Sr Nowotny também não reconhece qualquer papel do BCE na criação de um governo financeiro federalizado dentro da zona euro. Não podemos sobrepor-nos à esfera política, disse.

(cf Reuters, 11 de Maio de 2015)

Estas afirmações, na nossa opinião, alteram radicalmente o ponto de partida das discussões. Comecemos pelo papel do BCE. Se, por um lado, o problema grego é totalmente político, não cabe ao BCE qualquer palavra na discussão, algo que está longe de ficar esclarecido, mas que é correctamente apontado por Nowotny. Se o assunto é da esfera política, o BCE deveria retirar-se da questão grega. Assim respeitaria o seu estatuto de independência que o proíbe de intrometer-se em decisões políticas.

Ao BCE cabe providenciar dinheiro à Grécia quando solicitado, dado que não existe outro banco central que cumpra a função de emprestador de último recurso para o país. Até que, porventura, Bruxelas declarasse para parar de o fazer, o que continuaria a ser problemático pelo que representaria de submissão de uma instituição independente a uma decisão de natureza política. Seria preferível que a ‘união’, ou melhor, os restantes membros, dispensassem aquilo que a Grécia precisa. Sucede que os países da UE – aparentemente – não estão convencidos de que formam uma união.

Na perspectiva dos membros da UE, a união existe quando tudo corre bem. Ou quando os bancos precisam ser salvos: só depois as pessoas podem disputar as sobras.

O FMI anunciou que não pretende fazer parte do terceiro salvamento da Grécia. Já quase ninguém deu por isso, mas também esta declaração consagra o FMI como um novo decisor político. Lagarde e companhia alegam que não podem emprestar dinheiro aos países que não tomam as medidas ‘certas’. Mas quem concedeu a Lagarde o poder de arbitragem sobre actos de um governo que honra os compromissos sufragados pelos cidadãos? Mais significativo ainda, à luz das palavras de Lagarde, como se explica que o FMI tenha feito o recente empréstimo à Ucrânia? Será que o desempenho da economia da Ucrânia é melhor que o da Grécia? Ou estará a Ucrânia, simplesmente, a afundar-se num pesadelo político?

Levando à letra as palavras de Nowotny, cabe ainda questionar: o que fazem os ministros das finanças nas negociações da questão grega? Tal participação não redundará em perda de tempo e confusão adicionais? Não há pasquim no mundo que não tenha divulgado o reparo do ministro das finanças alemão, Schäuble, de que a Grécia deveria referendar a solução, caso quisesse, e que talvez assim o assunto ficasse resolvido.

Mas um decisão destas está longe das competências de Schäuble, tal como não compete ao ministro das finanças grego, Varoufakis, sugerir qualquer referendo a ser realizado pelo estado alemão. Quanto a esta segunda sugestão hipótética, rapidamente seria tomada como uma ingerência intolerável. Já quanto à sugestão expressa por Schäuble, passou facilmente na imprensa como sendo razoável. É um demonstração de poder, dir-se-á. Mas é sobretudo revelador de como a imprensa perdeu a noção do seu papel na sociedade. Uma imprensa reduzida a mera agência de publicidade de quem, circunstancialmente, ocupa a cadeira do poder.

Se a questão grega é agora, ou talvez tenha sido sempre, eminentemente de natureza política como Nowotny assevera, por que razão Varoufakis, Dijsselbloem (um diplomado em economia agrícola, o que quer que isso signifique) e o antigo chefe dos serviços secretos alemães Schäuble continuam a discutir o assunto? Quem ousaria delegar a decisão sobre uma questão política de primeira grandeza num ministro das finanças? Não tem cargo à altura para tanto.

Tratando-se de um contencioso político, não deveria antes ser entregue a Merkel, Juncker e Tsipras? Até aqui, algo nos dizia que talvez não fosse má idéia. Mas agora temos a certeza de que é uma boa idéia. Pois se mesmo o BCE já garante que a questão não é de dinheiro…

Raúl Ilargi Meijer, The Automatic Word, 12 de Maio de 2015

Tags: , , , , ,

Deixe um comentário

Tem que se Identificar para comentar.