Archive for April, 2011

Você tem duas vacas

Saturday, April 30th, 2011

CAPITALISMO IDEAL

Você tem duas vacas.
Vende uma e compra um boi.
Eles multiplicam-se, e a economia cresce.
Você vende a manada e aposenta-se. Fica rico!

CAPITALISMO AMERICANO

Você tem duas vacas.
Vende uma e força a outra a produzir o leite de quatro vacas.
Fica surpreso quando ela morre.

CAPITALISMO JAPONÊS

Você tem duas vacas.
Redesenha-as para que tenham um décimo do tamanho de uma vaca normal e produzam 20 vezes mais leite.
Depois cria desenhinhos de vacas chamados Vaquimon e vende-os para o mundo inteiro.

CAPITALISMO BRITÂNICO

Você tem duas vacas.
As duas são loucas.

CAPITALISMO HOLANDÊS

Você tem duas vacas.
Elas vivem juntas, em união de facto, não gostam de bois e tudo bem.

CAPITALISMO ALEMÃO

Você tem duas vacas.
Elas produzem leite regularmente, segundo padrões de quantidade e horário
previamente estabelecido, de forma precisa e lucrativa.
Mas o que você queria mesmo era criar porcos.

CAPITALISMO RUSSO

Você tem duas vacas.
Conta-as e vê que tem cinco.
Conta de novo e vê que tem 42.
Conta de novo e vê que tem 12 vacas.
Você pára de contar e abre outra garrafa de vodca.

CAPITALISMO SUÍÇO

Você tem 500 vacas, mas nenhuma é sua.
Você cobra para guardar as vacas dos outros.

CAPITALISMO ESPANHOL

Você tem muito orgulho de ter duas vacas.

CAPITALISMO BRASILEIRO

Você tem duas vacas.
E reclama porque o rebanho não cresce…

CAPITALISMO HINDU

Você tem duas vacas.
Ai de quem tocar nelas.

CAPITALISMO PORTUGUÊS

Você tem duas vacas.
Foram compradas através do Fundo Social Europeu.
O governo cria O IVVA – Imposto de Valor Vacuum Acrescentado.
Você vende uma vaca para pagar o imposto.
Um fiscal vem e multa-o, porque embora você tenha pago correctamente o IVVA, o valor era pelo número de vacas presumidas e não pelo de vacas reais.
O Ministério das Finanças, por meio de dados também presumidos do seu
consumo de leite, queijo, sapatos de couro, botões, presume que você tenha
200 vacas.
Para se livrar do sarilho, você dá a vaca que resta ao inspector das finanças para que ele feche os olhos e dê um jeitinho…

Convergência nacional em torno do emprego e da coesão social

Sunday, April 17th, 2011

Num momento dramático como o que vivemos, a sociedade portuguesa precisa de debate e de convergências democráticas. Precisa também de reconhecer que a crise do liberalismo económico, de que a acção dos programas patrocinados pelo FMI tem sido uma expressão, obriga a reavaliar opiniões e prioridades e a construir soluções novas, assentes em ideias e escolhas claras e num programa explícito, sabendo que na democracia nunca há a inevitabilidade de uma escolha única, porque a democracia procura as melhores soluções da forma mais exigente.

É indiscutível que o estado das finanças públicas, que é em grande medida o resultado da profunda crise económica, exige um conhecimento e avaliação exigentes de todos os compromissos públicos. E que se torna urgente identificar a despesa pública desnecessária, supérflua e geradora de injustiças sociais, distinguindo-a da que é indispensável, colmata problemas sociais graves e qualifica o país.É também útil que se reconheça a importância do trabalho, dos salários e dos apoios sociais na sociedade portuguesa, se admita a presença de carências profundas, sob a forma de pobreza e de desigualdades crescentes, e se considere que os progressos alcançados na nossa sociedade são o resultado da presença de mecanismos de negociação colectiva e de solidariedade cujo desmantelamento pode significar uma regressão socioeconómica que debilitará o país por muito tempo.

Qualquer solução para os nossos problemas tem de partir de uma constatação realista: até agora as intervenções externas foram a expressão de uma União Europeia incapaz de perceber que a alternativa à solidariedade, traduzida em cooperação económica e integração sem condicionalidade recessiva, é o enfraquecimento das periferias sob pressão da especulação e de cúmplices agências de notação. A zona euro paga o preço de não ter mecanismos decentes para travar a especulação em torno da dívida soberana e para promover políticas de investimento produtivo que permitam superar a crise. As periferias pagam o preço da sua desunião política, única forma de colocar o centro europeu, principal responsável por este arranjo, perante as suas responsabilidades.

No momento em que se vão iniciar negociações entre o Governo e a troika FMI-BCE-CE, sabe-se que a austeridade provoca recessão económica e gera fracturas profundas, de que o desemprego elevado é a melhor expressão. As experiências grega e irlandesa exigem uma revisão das condições associadas aos mecanismos de financiamento em vigor. De facto, devido à austeridade intensa dos últimos dois anos, a economia irlandesa contraiu-se mais de 11% e a recessão grega atingiu 6,5% só entre o último trimestre de 2009 e o último de 2010. O desemprego ultrapassa já os 13% nestes dois países. A este ritmo, e apesar dos cortes orçamentais intensos, nenhum deles conseguirá reduzir a sua dívida. Isso só acontecerá com crescimento económico e com uma noção clara de que não é nos salários e no trabalho, mas antes na escassa inovação e na fraqueza organizacional de grande parte das empresas portuguesas, que residem os problemas de competitividade. Portugal não pode ser um laboratório para repetir as mesmas experiências fracassadas, e corremos o risco de uma recessão ainda mais prolongada, se tomarmos em consideração as previsões do próprio FMI.

Por tudo isto, considera-se necessário um apelo a um compromisso sob a forma de um programa de salvaguarda da coesão social em Portugal, de manutenção e reforço das capacidades produtivas do país para gerar emprego, com atenção às pessoas, evitando sacrifícios desnecessários. Os pontos essenciais de tal compromisso são os seguintes:

  1. Garantir que em todas as decisões económicas e financeiras se coloca o objectivo de promoção exigente do crescimento e do emprego, reconhecendo que a sociedade portuguesa não comporta níveis de desemprego que outras sociedades registam, dada a fragilidade da estrutura de rendimentos e a insuficiência dos mecanismos de protecção social. A presença, já sugerida, da OIT nas negociações entre o Governo e a troika FMI-BCE-CE seria um sinal construtivo muito importante, colocando a questão do trabalho digno.
  2. Desencadear um escrutínio rigoroso da despesa pública, auditando a dívida do país, sobretudo a externa, identificando com rigor as necessidades reais e os desperdícios da administração pública e salientando a necessidade de concentrar os recursos na esfera essencial das políticas públicas que combatem a exclusão social e a desigualdade, qualificam as pessoas e promovem a actividade produtiva, a competitividade e o crescimento da economia.
  3. Afirmar que a educação, a saúde e a segurança social, bem como outros bens públicos essenciais como os correios, não podem ser objecto de privatização, fazendo da lógica lucrativa um mecanismo de regulação nestes domínios, visto que tal solução seria cara e insustentável financeiramente, levaria à exclusão de muitos e generalizaria injustiças sociais e regionais.
  4. Recusar qualquer diminuição do papel do Estado no sector financeiro, sublinhando que a Caixa Geral de Depósitos deve permanecer integralmente pública e com uma missão renovada e que a regulação do sector terá mesmo de ser reforçada para evitar novos abusos. Os signatários entendem que um compromisso deste tipo viabiliza as acções necessárias ao momento presente, capacita a sociedade para enfrentar positivamente as dificuldades e tem como objectivo tornar claro que, em circunstâncias graves, há direitos associados à dignidade do trabalho, ao respeito pelas pessoas e à garantia da coesão social que não podem ser postos em causa, sob pena de fragilizar gravemente o país e de eliminar qualquer capacidade própria de superar a situação dramática em que nos encontramos.

  • Albano da Silva Pereira, Fotógrafo, Director do Centro de Artes Visuais de Coimbra;
  • Alexandre Alves Costa, Arquitecto;
  • Anália Torres, Socióloga, Professora do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa;
  • António Arnaut, Advogado;
  • António Chora, Coordenador da Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa;
  • António Manuel Hespanha, Professor da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa;
  • António Pinho Vargas, Compositor;
  • António Romão, Economista, Professor do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa;
  • Augusto M. Seabra, Crítico de cinema, literatura e música;
  • Boaventura de Sousa Santos, Sociólogo, Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Director do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra;
  • Carlos Fortuna, Sociólogo, Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra;
  • Cristina Andrade, Activista do FERVE – Fartos/as d’Estes Recibos Verdes;
  • Daniel Oliveira, Jornalista;
  • Eduardo Paz Ferreira, Advogado, Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa;
  • Elísio Estanque, Sociólogo, Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra;
  • Eugénio Fonseca, Presidente da Caritas Portuguesa;
  • Fernanda Rollo, Historiadora, Professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa;
  • Fernando Catroga, Historiador, Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra;
  • Fernando Roque de Oliveira, Economista, Presidente do Observatório sobre a Produção, o Comércio e a Proliferação de Armas Ligeiras;
  • Helena Roseta, Arquitecta;
  • Isabel Allegro, Professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa;
  • João Abel Freitas, Economista;
  • João Cravinho, Militante socialista;
  • João Ferrão, Geógrafo, Investigador do Instituto de Ciência Sociais da Universidade de Lisboa;
  • João Ferreira de Almeida, Sociólogo, Professor do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa;
  • João Ferreira do Amaral, Economista, Professor do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa;
  • João Proença, Sindicalista;
  • João de Deus, Sindicalista;
  • João Rodrigues, Economista, Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra;
  • Jorge Vala, Psicólogo Social, Investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa;
  • José de Faria Costa, Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra;
  • José Luís Pio Abreu, Médico Psiquiatra;
  • José Maria Brandão de Brito, Economista, Professor do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa;
  • José Maria Castro Caldas, Economista, Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra;
  • José Reis, Economista, Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra;
  • Luís Moita, Professor da Universidade Autónoma de Lisboa;
  • Manuel Alegre, Escritor, militante socialista;
  • Manuel Carlos Silva, Sociólogo, Professor da Universidade do Minho;
  • Manuel Carvalho da Silva, Sindicalista;
  • Manuela Silva, Economista, Professora do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa;
  • Manuel Brandão Alves, Economista, Professor do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa;
  • Maria Eduarda Gonçalves, Jurista, Professora do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa;
  • Mário Murteira, Economista, Professor do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa;
  • Mário Ruivo, Biólogo, Oceanógrafo;
  • Miguel Henriques, Músico;
  • Octávio Teixeira, Economista;
  • Paula Gil, Activista da Geração à Rasca;
  • Paulo Areosa Feio, Geógrafo, IGOT – Universidade de Lisboa;
  • Pedro Hespanha, Sociólogo, Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra;
  • Ricardo Paes Mamede, Economista, Professor do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa;
  • Rui Namorado, Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra;
  • Rui Tavares, Historiador e Eurodeputado;
  • Sandra Monteiro, Directora do Le Monde diplomatique – edição portuguesa;
  • Sandro Mendonça, Economista, Professor do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa;
  • Sérgio Azevedo, Compositor;
  • Tiago Gillot, Activista dos Precários Inflexíveis;
  • Vasco Lourenço, Associação 25 de Abril.

Público, 16 Abril 2011
Ladrões de bicicletas

Alvaro Santos Pereira – OS VERDADEIROS FACTOS DA CAMPANHA

Saturday, April 16th, 2011

Nos últimos dias, a “campanha” eleitoral tem sido constituida por um rol de “factos” que só servem para distrair os(as) portugueses(as) daquilo que realmente é essencial. E o que é essencial são os factos. E os factos são indesmentíveis. Não há argumentos que resistam aos arrasadores factos que este governos nos lega. E para quem não sabe, e como demonstro no meu novo livro, os factos que realmente interessam são os seguintes:

  1. Na última década, Portugal teve o pior crescimento económico dos últimos 90 anos
  2. Temos a pior dívida pública (em % do PIB) dos últimos 160 anos. A dívida pública este ano vai rondar os 100% do PIB
  3. Esta dívida pública histórica não inclui as dívidas das empresas públicas (mais 25% do PIB nacional)
  4. Esta dívida pública sem precedentes não inclui os 60 mil milhões de euros das PPPs (35% do PIB adicionais), que foram utilizadas pelos nosso governantes para fazer obra (auto-estradas, hospitais, etc.) enquanto se adiava o seu pagamento para os próximos governos e as gerações futuras. As escolas também foram construídas a crédito.
  5. Temos a pior taxa de desemprego dos últimos 90 anos (desde que há registos). Em 2005, a taxa de desemprego era de 6,6%. Em 2011, a taxa de desemprego chegou aos 11,1% e continua a aumentar.
  6. Temos 620 mil desempregados, dos quais mais de 300 mil estão desempregados há mais de 12 meses
  7. Temos a maior dívida externa dos últimos 120 anos.
  8. A nossa dívida externa bruta é quase 8 vezes maior do que as nossas exportações
  9. Estamos no top 10 dos países mais endividados do mundo em praticamente todos os indicadores possíveis
  10. A nossa dívida externa bruta em 1995 era inferior a 40% do PIB. Hoje é de 230% do PIB
  11. A nossa dívida externa líquida em 1995 era de 10% do PIB. Hoje é de quase 110% do PIB
  12. As dívidas das famílias são cerca de 100% do PIB e 135% do rendimento disponível
  13. As dívidas das empresas são equivalente a 150% do PIB
  14. Cerca de 50% de todo endividamento nacional deve-se, directa ou indirectamente, ao nosso Estado
  15. Temos a segunda maior vaga de emigração dos últimos 160 anos
  16. Temos a segunda maior fuga de cérebros de toda a OCDE
  17. Temos a pior taxa de poupança dos últimos 50 anos
  18. Nos últimos 10 anos, tivemos défices da balança corrente que rondaram entre os 8% e os 10% do PIB
  19. Há 1,6 milhões de casos pendentes nos tribunais civis. Em 1995, havia 630 mil. Portugal é ainda um dos países que mais gasta com os tribunais por habitante na Europa
  20. Temos a terceira pior taxa de abandono escolar de toda a OCDE (só melhor do que o México e a Turquia)
  21. Temos um Estado desproporcionado para o nosso país, um Estado cujo peso já ultrapassa os 50% do PIB
  22. As entidades e organismos públicos contam-se aos milhares. Há 349 Institutos Públicos, 87 Direcções Regionais, 68 Direcções-Gerais, 25 Estruturas de Missões, 100 Estruturas Atípicas, 10 Entidades Administrativas Independentes, 2 Forças de Segurança, 8 entidades e sub-entidades das Forças Armadas, 3 Entidades Empresariais regionais, 6 Gabinetes, 1 Gabinete do Primeiro Ministro, 16 Gabinetes de Ministros, 38 Gabinetes de Secretários de Estado, 15 Gabinetes dos Secretários Regionais, 2 Gabinetes do Presidente Regional, 2 Gabinetes da Vice-Presidência dos Governos Regionais, 18 Governos Civis, 2 Áreas Metropolitanas, 9 Inspecções Regionais, 16 Inspecções-Gerais, 31 Órgãos Consultivos, 350 Órgãos Independentes (tribunais e afins), 17 Secretarias-Gerais, 17 Serviços de Apoio, 2 Gabinetes dos Representantes da República nas regiões autónomas, e ainda 308 Câmaras Municipais, 4260 Juntas de Freguesias. Há ainda as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, e as Comunidades Inter-Municipais.
  23. Nos últimos anos, nada foi feito para cortar neste Estado omnipresente e despesista, embora já se cortaram salários, já se subiram impostos, já se reduziram pensões e já se impuseram vários pacotes de austeridade aos portugueses. O Estado tem ficado imune à austeridade

Isto não é política. São factos. Factos que andámos a negar durante anos até chegarmos a esta lamentável situação. Ora, se tomarmos em linha de conta estes factos, interessa perguntar: como é que foi possível chegar a esta situação? O que é que aconteceu entre 1995 e 2011 para termos passado termos de “bom aluno” da UE a um exemplo que toda a gente quer evitar? O que é que ocorreu entre 1995 e 2011 para termos transformado tanto o nosso país? Quem conduziu o país quase à insolvência? Quem nada fez para contrariar o excessivo endividamento do país? Quem contribuiu de sobremaneira para o mesmo endividamento com obras públicas de rentabilidade muito duvidosa? Quem fomentou o endividamento com um despesismo atroz? Quem tentou (e tenta) encobrir a triste realidade económica do país com manobras de propaganda e com manipulações de factos? As respostas a estas questões são fáceis de dar, ou, pelo menos, deviam ser. Só não vê quem não quer mesmo ver.
A verdade é que estes factos são obviamente arrasadores e indesmentíveis. Factos irrefutáveis. Factos que, por isso, deviam ser repetidos até à exaustão até que todos nós nos consciencializássemos da gravidade da situação actual. Estes é que deviam ser os verdadeiros factos da campanha eleitoral. As distracções dos últimos dias só servem para desviar as atenções daquilo que é realmente importante.

Alvaro Santos Pereira, Desmitos, 14 Abril 2011

Marta Caballero – Raiva

Monday, April 11th, 2011


Meus Caros,

Os meus pais ensinaram-me que, quando estamos zangados e irritados, devemos sempre usar o vocativo senhor(a) para controlarmos o impulso de dizer palavrões.

Ensinamentos sábios que caíram em saco roto.

Tenho náuseas ao ouvir esta cambada, por me lembrar das sucessivas mentiras e discursos iluminados, ainda há pouco mais de um ano, de que “Portugal passou ao lado da CRISE”, tenho náuseas ao ouvir uma oposição a dizer, para consumo interno, que nada tem de concreto para propor e a comprometer-se externamente com programas de austeridade para os mais desfavorecidos e um liberalismo feroz.

Quando os vejo na televisão (exercício que vou evitando porque se partir o aparelho ninguém me compra outro) não consigo dizer:

- “O Senhor pensa que estamos amnésicos? Como explica ter baixado o IVA e a taxa de retenção do IRS em 2009, ano em que aumentou 2,9% a função pública? Por mero acaso ano de eleições…”.

- “O Senhor sabe quem foi o precursor das PPP (parcerias publico-privadas) em Portugal, sem cuidar de preparar os quadros nacionais para os alçapões jurídicos dos contratos? Sem cuidar de preparar ou sem querer preparar? Lembra-se da ponte Vasco da Gama e do buzinão na Ponte 25 de Abril? Lembra-se?! O mestre d’obras Cavaco Silva”

- “O Senhor sabe para que servem os submarinos? Quantas Portas se abriram com esta negociata que nos empobreceu a todos, excepto a alguns?”

- “O Senhor sabe quantos estádios de futebol não tiveram utilização depois do EURO 2004? Sabe quanto custam ao País? Sabe que receberam Comendas do Estado todos os “altos dignitários” ligados a este fantástico projecto?”

Saiem-me, ligeiros, uns “filho da p…” e ” …abrão”, isto porque ainda não fui fazer o meu prometido estágio ao mercado do Bulhão para enriquecer o meu vocabulário.

A raiva de quem trabalha e vive honestamente é imensa.
Eu tenho RAIVA.

Marta
(via mail)