Portugal que já foi um império, está a ficar uma colónia

O que se passa em Portugal?

Não é que interesse muito aos canadianos, para além de que no mês passado as Nações Unidas votaram em Portugal em vez de nós, para um mandato de dois anos no Conselho de Segurança.

Portugal é um lugar muito engraçado hoje em dia. Mas não no bom sentido. Na semana passada foram atingidos por uma greve geral que paralizou hospitais, aeroportos e comboios.

A greve geral foi uma resposta aos cortes governamentais. Portugal subsidiou o seu bem-estar europeu à custa de empréstimos. O governo coloca a sua dívida nacional nos 86% do PIB, mas a oposição eleva essa dívida aos 122%. E essa é apenas a dívida pública. A dívida privada vai aos 239% do PIB.

Portugal é um dos países mais pobres da Europa, mas a adesão à União Europeia e ao Euro retirou-lhe a autonomia que disfrutava. Os países pobres – como a China – conseguem fazer-se artificialmente competitivos desvalorizando a sua moeda. Uma moeda fraca é como uma quebra nos pagamentos, tornam as exportações mais acessíveis aos outros países, atraindo também turistas à procura de pechinchas, o que é muito interessante em países como Portugal.

Mas esses artifícios locais extinguem-se numa zona euro cujas políticas económicas de tamanho único são definidas à medida das grandes economias como a alemã. A Alemanha pode ser suficiente para fiar a Grécia e até a Irlanda. Mas se for Portugal, seguido da Espanha? Está tudo a desmoronar-se – e ainda bem que a Thatcher deixou a libra de fora.

Mas regressemos a Portugal. Não se trata apenas de uma questão de dívida e de gastos a mais. A economia é estruturalmente fraca – improdutiva e em constante quebra de postos de trabalho. Só um milagre poderia ajudar, e isso está a acabar na Europa. E nem um perdulário como o Presidente americano Barack Obama poderia resistir ao financiamento dos bancos portugueses.

Mas existe alguém que se encontra pronto a ajudar: a República Popular da China.

A China não tem dívidas. Tem antes um super-ávit. Possui um bolo de 2,6 triliões de dólares em dinheiro vivo, a escavar um buraco nos seus bolsos. E saiu às compras de poder.

No início deste mês, o presidente chinês visitou Lisboa e encontrou-se com o primeiro ministro Português, José Sócrates. Só isso, já é uma novidade. Portugal é um país pequeno – apenas 11 milhões de habitantes, com uma economia de só 250 biliões de dólares – mais pequena do que a economia de Alberta.

Mas essa é que é a questão. O passatempo chinês é coleccionar países pequenos e fracos. Arranjas uns poucos deles, e obtens uma pequena esfera de influência. Passas a ser mais do que uma simples potência económica e militar, passas a ser também uma potência geopolítica.

“Queremos tomar medidas concretas para ajudar Portugal a enfrentar a crise financeira global”, afirmou o Presidente Chinês Hu Jintao. Inesperadamente, Portugal adquiriu um novo patrão, e não é a Alemanha ou os EUA.

Para além de empréstimos, a China pretende adquirir uma participação na energia portuguesa e na companhia telefónica.

Fornecer a Portugal 100 biliões de dólares é impensável para os americanos. Seguindo-se à Grécia e à Irlanda, nem mesmo a União Europeia poderá enfrentar isso. Mas para a China, não é mais do que um simples arredondamento de contas.

Que belo retalho fará Portugal na manta chinesa, juntinho aos restantes beneficiários, como o Sudão.

O Sudão é um estado fora-da-lei; é o carniceiro do Darfur. Mas é também um importante fornecedor de petróleo para a China, e um cliente em ascenção do seu armamento. O Sudão oferece à China aquilo que eles querem. E a China retribui com a protecção do Sudão às críticas perante as Nações Unidas, com o seu veto permanente no Conselho de Segurança.

O que nos conduz de volta a Portugal. Eles ganharam o voto na ONU, não pela força que têm, mas pela sua vulnerabilidade. Os ditadores mundiais não pretendem uma democracia consolidada no Conselho de Segurança. Um pedinte desesperado é muito mais moldável.

Observem o registo da votação portuguesa no Conselho de Segurança da ONU. Observem-nos a considerar os Chineses como aliados, ao lado do Irão e do Sudão. Observem-nos acerca dos direitos humanos.

Portugal que já foi um império, está a ficar uma colónia.

By Ezra Levant on November 28, 2010 5:47 AM

http://ezralevant.com/2010/11/portugal-used-to-be-an-empire.html

Traduzido por José Ferrão

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