Archive for November, 2010

Portugal que já foi um império, está a ficar uma colónia

Monday, November 29th, 2010

O que se passa em Portugal?

Não é que interesse muito aos canadianos, para além de que no mês passado as Nações Unidas votaram em Portugal em vez de nós, para um mandato de dois anos no Conselho de Segurança.

Portugal é um lugar muito engraçado hoje em dia. Mas não no bom sentido. Na semana passada foram atingidos por uma greve geral que paralizou hospitais, aeroportos e comboios.

A greve geral foi uma resposta aos cortes governamentais. Portugal subsidiou o seu bem-estar europeu à custa de empréstimos. O governo coloca a sua dívida nacional nos 86% do PIB, mas a oposição eleva essa dívida aos 122%. E essa é apenas a dívida pública. A dívida privada vai aos 239% do PIB.

Portugal é um dos países mais pobres da Europa, mas a adesão à União Europeia e ao Euro retirou-lhe a autonomia que disfrutava. Os países pobres – como a China – conseguem fazer-se artificialmente competitivos desvalorizando a sua moeda. Uma moeda fraca é como uma quebra nos pagamentos, tornam as exportações mais acessíveis aos outros países, atraindo também turistas à procura de pechinchas, o que é muito interessante em países como Portugal.

Mas esses artifícios locais extinguem-se numa zona euro cujas políticas económicas de tamanho único são definidas à medida das grandes economias como a alemã. A Alemanha pode ser suficiente para fiar a Grécia e até a Irlanda. Mas se for Portugal, seguido da Espanha? Está tudo a desmoronar-se – e ainda bem que a Thatcher deixou a libra de fora.

Mas regressemos a Portugal. Não se trata apenas de uma questão de dívida e de gastos a mais. A economia é estruturalmente fraca – improdutiva e em constante quebra de postos de trabalho. Só um milagre poderia ajudar, e isso está a acabar na Europa. E nem um perdulário como o Presidente americano Barack Obama poderia resistir ao financiamento dos bancos portugueses.

Mas existe alguém que se encontra pronto a ajudar: a República Popular da China.

A China não tem dívidas. Tem antes um super-ávit. Possui um bolo de 2,6 triliões de dólares em dinheiro vivo, a escavar um buraco nos seus bolsos. E saiu às compras de poder.

No início deste mês, o presidente chinês visitou Lisboa e encontrou-se com o primeiro ministro Português, José Sócrates. Só isso, já é uma novidade. Portugal é um país pequeno – apenas 11 milhões de habitantes, com uma economia de só 250 biliões de dólares – mais pequena do que a economia de Alberta.

Mas essa é que é a questão. O passatempo chinês é coleccionar países pequenos e fracos. Arranjas uns poucos deles, e obtens uma pequena esfera de influência. Passas a ser mais do que uma simples potência económica e militar, passas a ser também uma potência geopolítica.

“Queremos tomar medidas concretas para ajudar Portugal a enfrentar a crise financeira global”, afirmou o Presidente Chinês Hu Jintao. Inesperadamente, Portugal adquiriu um novo patrão, e não é a Alemanha ou os EUA.

Para além de empréstimos, a China pretende adquirir uma participação na energia portuguesa e na companhia telefónica.

Fornecer a Portugal 100 biliões de dólares é impensável para os americanos. Seguindo-se à Grécia e à Irlanda, nem mesmo a União Europeia poderá enfrentar isso. Mas para a China, não é mais do que um simples arredondamento de contas.

Que belo retalho fará Portugal na manta chinesa, juntinho aos restantes beneficiários, como o Sudão.

O Sudão é um estado fora-da-lei; é o carniceiro do Darfur. Mas é também um importante fornecedor de petróleo para a China, e um cliente em ascenção do seu armamento. O Sudão oferece à China aquilo que eles querem. E a China retribui com a protecção do Sudão às críticas perante as Nações Unidas, com o seu veto permanente no Conselho de Segurança.

O que nos conduz de volta a Portugal. Eles ganharam o voto na ONU, não pela força que têm, mas pela sua vulnerabilidade. Os ditadores mundiais não pretendem uma democracia consolidada no Conselho de Segurança. Um pedinte desesperado é muito mais moldável.

Observem o registo da votação portuguesa no Conselho de Segurança da ONU. Observem-nos a considerar os Chineses como aliados, ao lado do Irão e do Sudão. Observem-nos acerca dos direitos humanos.

Portugal que já foi um império, está a ficar uma colónia.

By Ezra Levant on November 28, 2010 5:47 AM

http://ezralevant.com/2010/11/portugal-used-to-be-an-empire.html

Traduzido por José Ferrão

Earth Observatory – O oceano verde na Namíbia

Tuesday, November 23rd, 2010

As águas do oceano ao largo da costa Norte da Namíbia tingiram-se de verde brilhante em Novembro de 2010. O espectroradiómetro de resolução média () da NASA, a bordo do satélite Terra, captou esta imagem em cores naturais no dia 21 do mês corrente.

Estes remoinhos de cor verde-brilhante ocorrem ao longo da plataforma continental fervilhando de actividade biológica. Manchas resplandecentes de fitoplancton são frequentes em zonas costeiras onde chegam águas ricas em nutrientes, oriundas das profundezas. A coloração ligeira destas águas oceânicas sugere uma cobertura de calcite dos cocolitóforos.

Mais a Sul, perto da costa da Namíbia, ocorrem também com frequência emanações de sulfureto de hidrogénio. Segundo um estudo publicado em 2009, as correntes oceânicas fornecem águas pobres em oxigénio a partir do Norte. As bactérias que decompõem o fitoplancton consomem oxigénio, privando ainda mais estas águas daquele elemento. Neste ambiente pobre de oxigénio, as bactérias anaeróbicas começam a produzir gás sulfureto de hidrogénio. Quando o sulfureto de hidrogénio chega às águas superficiais, mais ricas em oxigénio, dá-se a precipitação de enxofre puro na água. O amarelo do enxofre misturado com o azul profundo do oceano dá o verde brilhante.

A florescência de fitoplancton e as bactérias que o decompõe podem criar uma rede complexa ao longo da plataforma continental. Estas espirais verdes podem conter fitoplancton, enxofre, ou uma combinação de ambos.

Fonte: Earth Observatory, 23 de Novembro de 2010

William Engdahl – A Agenda geopolítica por trás do Prémio Nobel da Paz de 2010

Tuesday, November 9th, 2010

Com um sentido de oportunidade impecável, o Comité Nobel para a Paz do Parlamento Norueguês anunciou a atribuição do Prémio Nobel ao dissidente chinês e activista político Liu Xiaobo. O anúncio foi feito no momento em que o Secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geither, aumentava a pressão sobre o governo chinês para que efectuasse uma reavaliação substancial do Yuan, decisão que teria um impato reduzido no destino do dólar, mas que atingiria profundamente a economia chinesa. O teatro do Prémio Nobel é parte da escalada numa estratégia de longo prazo definida por Washington contra a China.

A atribuição do Prémio Nobel a Liu Xiaobo não foi, claramente, uma coincidência. Na minha opinião, em vez disso deve ser entendida como uma parte calculada de uma estratégia de longo prazo, não de alguns elementos do Parlamento Norueguês, mas de círculos da elite dirigente da potência hegemónica mundial, os Estados Unidos da América, para quebrar o ímpeto da China em tornar-se soberana e um factor principal na economia mundial. A China deve ser reduzida ao estatuto que lhe é conferido por aquela elite.

A encenação da imprensa mundial acerca do Prémio Nobel é uma parte calculada desta estratégia – tentando fazer com que a China “perca a face” aos olhos do resto do mundo. É tudo parte de uma orquestração mais profunda, usando os “direitos humanos” e uma teia de Organizações não governamentais (ONGs) que Washington controla directa ou indirectamente, como arma da geopolítica de Washington.

Não é plausível que venha a ter mais sucesso que os incitamentos de Washington às sublevações do Tibete em Março de 2008, baseados em círculos ligados ao Dalai Lama, ou aos apelos declarados à agitação na Província de Xinjiang, em Lulho de 2009, ou à tentativa de desestabilizar o país vizinho da China, o Myanmar (antiga Birmânia), em 2007, na assim-chamada Revolução do Açafrão. Os círculos que organizam estas picadas de aguilhão estão bem conscientes disso. O que andam a fazer é preparar cuidadosamente o ambiente internacional para transformar a imagem pública da República Popular da China, de parceiro e “amigo” para um “novo inimigo”. É uma estratégia muito arriscada , da parte de Washington. Além disso, põe em evidência um certo desespero sobre a situação geopolítica dos EUA.

Os curiosos amigos estrangeiros de Liu Xiaobo

Há uma expressão inglesa cheia de razão, afirmando que se conhece alguém pelas pessoas que o rodeiam. Não estou qualificado para me pronunciar sobre a pessoa de Liu Xiaobo. Nunca encontrei essa pessoa, nem li os seus trabalhos. O que considero significativo, porém, é a companhia de que se rodeia, especialmente os seus curiosos amigos estrangeiros.

Até 2007, Liu Xiaobo foi Presidente do Centro Chinês Independente PEN e hoje mantém um lugar na sua administração, segundo a sua biografia oficial publicada no sítio desta instituição na Internet (http://www.pen.org/viewmedia.php/prmMID/3029/prmID/172). PEN não é um conjunto circunstancial de pessoas que escrevem. É uma parte integrante da teia anglo-americana de ONG’s dedicadas aos direitos humanos e à democracia, além de organizações privadas empenhadas em alcançar os objectivos geopolíticos dos seus patrocinadores.

PEN auto-proclama-se a “organização mais antiga para a defesa dos direitos humanos”, tendo sido estabelecida em Londres em 1920 por dois estrategas principais do Império Britânico na altura, G. B. Shaw e H. G. Wells. É financiada por uma rede de fundações privadas norte-americanas e europeias e corporações que incluem a Bloomberg, assim como pelo Ministério Norueguês dos Negócios Estrangeiros, além de doadores que “preferem ficar anónimos”. Visa criar algo a que chama a “cultura mundial”. Isto tresanda à expressão anglo-americana “Governação Global”, ou à “Nova Ordem Mundial” de David Rockefeller”. PEN é uma parte de uma teia muito extensa, chamada International Freedom for Expression Exchange, ou IFEX, uma rede internacional, com sede no Canadá, de cerca de noventa ONG’s animadas da aparente nobre missão de defender “o direito à liberdade de expressão”, o que quer que seja que isso signifique. Os membros da IFEX incluem a Freedom House, com sede em Washington, esta financiada pelo Departamento do Estado, e a National Endowment for Democracy (NED).

A Freedom House, fundada em 1941 para promover a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, foi usada durante a Guerra Fria como instrumento de propaganda anti-comunista dirigida pela CIA. Como ONG, as suas actividades recentes foram essenciais na desestabilização dirigida por Washington contra o Tibete, Myanmar, Ucrânia, Geórgia, Sérvia, Quirguistão e outros países, cujas políticas não satisfaziam, aparentemente, algumas pessoas poderosas nos EUA. A Freedom House trabalhou em conjunto com o Instituto para a Sociedade Aberta, de George Soros e com o Ministério Norueguês dos Negócios estrangeiros, na promoção de projectos como a Revolução das Tulipas no Quirguistão em 2005, financiada por Washington, que conduziu ao poder o ditador e patrão da droga Kurmanbek Bakiyev, amigo dos EUA (Philip Shishkin, In Putin’s Backyard, Democracy Stirs — With US Help, The Wall Street Journal, February 25, 2005).

Isto, a respeito das relações do PEN com Liu Xiaobo. Vejamos agora porque lhe foi outorgado o prémio Nobel.

A história pouco conhecida de Tiananmen de 1989

No anúncio da atribuição do Prémio Nobel, o comité citou o papel desempenhado por Liu Xiaobo nos protestos de Tiananmen como uma das razões mais importantes (http://nobelprize.org/nobel_prizes/peace/laureates/2010/press.html), além da co-autoria de uma coisa chamada Charter 08, em 2008, que a revista Time chamou “um manifesto pela reforma política da China comunista opressiva” (http://www.time.com/time/world/article/0,8599,2024405,00.html#ixzz12gorrikW)

É sabido que Liu Xiaobo, que ministrava a docência na elitista Ivy League Columbia University dos EUA, regressou apressadamente à China na Primavera de 1989 para participar nos protestos estudantis da Praça Tienenmen de Pequim. Os acontecimentos da Praça Tiananmen de Junho de 1989 estão ofuscados pelas imagens da CNN, difundidas para todo o mundo. O que poucos sabem é que Tiannamen foi, em Junho de 1989, uma tentativa precoce dos serviços secretos dos EUA de implementar aquilo que se convencionou chamar de revoluções coloridas. Outras revoluções coloridas, semelhantes a esta, foram dirigidas por Washington contra a Milosevitch na Sérvia; na Ucrânia, com o nome de Revolução Laranja; a Revolução Rosa da Geórgia e outras desestabilizações geopolíticas destinadas a mudar regimes, tornando-os amigáveis a Washington.

Como descrevi no meu livro Full Spectrum Dominance: Totalitarian Democracy and the New World Order, o homem que pediu ao presidente dos EUA na altura, George Herbert Walker Bush, a imposição de sanções duras contra o governo de Pequim, devido aos acontecimentos de Tiananmen, foi o embaixador dos EUA, James R. Lilley, amigo de longa data de Bush e oficial da CIA. Há boas razões para acreditar que Lilley foi o oficial responsável pela operação de desestabilização. Gene Sharp, do Instituto Albert Einstein de Boston, autor do livro “Não-Violência como Forma de Guerra”, segundos palavras suas, também se encontrava em Pequim nos dias que antecederam a escalada dos protestos em Tiananmen. A organização e o texto de Sharp, em especial o seu livro, Civilian-Based Defense: A Post Military Weapons System, reconhecidamente desempenhou um papel importante nas revoluções coloridas na Sérvia, na Ucrânia e na Geórgia. Talvez seja uma coincidência, que Sharp tenha estado em Pequim em Junho de 1989… talvez não (Philip Shishkin, In Putin’s Backyard, Democracy Stirs — With US Help, The Wall Street Journal, February 25, 2005).

Quando se verificaram os acontecimentos de desestabilização em Tenanmen, em Junho de 1989, uma fundação dirigida por George Soros, o Fundo para a Reforma e Abertura da China, foi também forçada a fechar, depois de responsáveis chineses a acusarem de trabalhar com a CIA (United Press International (UPI), China Fund employee reportedly interrogated, August 9, 1989.).

Convém lembrar que os serviços secretos dos EUA, nessa altura, também se encontravam activos no colapso da União Soviética. Assim, o facto de Liu Xiaobo decidir abdicar de uma carreira académica promissora em Nova York, na elitista Universidade de Colúmbia, mudando-se para o centro dos acontecimentos de Tiananmen na Primavera de 1989, sugere, no mínimo, que tenha sido encorajado a fazê-lo por alguns dos seus curiosos amigos nos EUA.

Quanto ao seu papel na Charter 08, é igualmente notável a oportunidade. A um tempo em que a China moderniza a economia e permite, segundo a opinião de quem escreve estas linhas, muitas vezes mais liberdade individual que aquela que podemos observar em certas assim chamadas democracias ocidentais, Liu aumenta as pressões políticas sobre o governo de Pequim. Faz isto no ano de 2008, sabendo perfeitamente que os responsáveis chineses são extremamente sensíveis às movimentações dos grupos no Tibete e noutros lados, como os Uighurs, que procuram dificultar a realização dos Jogos Olímpicos. O Departamento do Estado dos EUA admitiu em 2008 que os protestos e os distúrbios dos apoiantes do Dalai Lama constituíam a ameaça interna mais séria na história da República Popular da China. Forçosamente, há que reconhecer que era difícil encontrar melhor ocasião para abrir dissidências. Sugere que as actividades de Liu Xiaobo podem ter uma agenda ainda mais profunda que a que os seus curiosos amigos estrangeiros anunciam.

A nomeação para o Prémio Nobel

Neste contexto, a lista de personalidades que apresentaram Liu Xiaobo para a nomeação do Prémio Nobel de 2010 nada vale. Esta nomeação foi proposta por nada menos que Dalai Lama, um receptador de longa data de meios financeiros generosos da parte do governo dos EUA – quer da CIA, quer do Congresso, via a National Endowment for Democracy. O facto de a nomeação provir do Dalai Lama diz muito sobre a orientação geopolítica do Prémio Nobel da Paz deste ano.

Se olharmos agora para a lista de outras personalidades que nomearam Liu Xiaobo, esta assemelha-se a uma lista de membros da secretíssima Comissão Trilateral de Davis Rockefeller, um grupo de elite muito restrito, cujos membros são admitidos apenas por convite, de cerca de trezentas pessoas entre as mais poderosas dos EUA, Europa e Japão (a China nunca foi convidada para este clube selecto).

Além do Dalai Lama, constam: Karel, o Príncipe de Schwarzenberg e Ministro dos Negócios Estrangeiros da República Checa; o administrador principal da Organização Mundial do Comércio, Mike Moore; Grigory A. Yavlinsky, o oposicionista russo adepto do mercado livre. Todos nomearam Liu.

O Príncipe Karel, Moore e Yalinsky são todos membros da Comissão Trilateral, sugerindo que a nomeação para o vencedor do Prémio Nobel foi planeada.

O ex-Presidente pró-NATO da República Checa, Vaclav Havel, que é presidente do Conselho Internacional da Human Right Watch, financiado por George Soros, também se juntou à nomeação de Liu para o prémio. Havel, um amigo íntimo do Príncipe Karel, fez notar que a Charter 08 foi feita à imagem da Charter 77 de Havel, tendo esta sido usada, com a cobertura dos EUA, para desestabilizar a União Soviética na década de 1980 (http://www.project-syndicate.org/commentary/havel38/English). Tudo isto indicia um clube de malha estreita, pois neste caso, Havel e o clube são pagos por Washington.

Sobre o Comité Nobel do Parlamento Norueguês, pouco se conhece publicamente. O seu sítio da Internet sublinha a sua completa independência, que fica menos credível quando se olha para os nomes a quem conferiram o prémio. Inclui Dalai Lama, o dirigente preso da oposição birmanesa Aung San Suu Kyl, Barak Obama, que recebeu o prémio duas semanas após a sua tomada de posse, apesar do incremento das tropas dos EUA em combate no Afeganistão tere sido expressamente anunciada durante a sua campanha, Henry Kissinger, que, na qualidade de Secretário de Estado dos EUA, apoiou a repressão e os esquadrões da morte dos ditadores da América Latina na década de 1970. No momento em que os banqueiros da Wall Street e o establishment anglo-americano promoviam a fraude do aquecimento global, o Prémio Nobel foi atribuído à desacreditada IPCC das Nações Unidas e ao seu activista Al Gore. Para pôr os factos a descoberto, as provas são claras de que o Prémio Nobel da Paz é parte dos instrumentos geopolíticos dos círculos da NATO, a ser usado como meio de pressão de cada vez que um governo não alinha completamente com ela. A Noruega é um membro fundador da NATO e tem laços extremamente apertados com os círculos dirigentes dos EUA.

Significado geopolítico mais profundo

A questão de saber-se porque razão os círculos poderosos dos EUA escolheram este momento para agravar a pressão sobre a República Popular da China, atribuindo o prémio Nobel da Paz a Liu Chiaobo é fácil de compreender, observando a recente emergência da China como forte e dinamicamente crescente economia à escala mundial, ao mesmo tempo que os Estados Unidos da América se afundam na pior depressão económica dos seus duzentos anos de existência.

A política estratégica dos EUA continua a ser a que foi definida em Setembro de 2002 pelo National Security Strategy of the United States, por vezes designada por Doutrina Bush, que estabelece que “a missão política e militar dos EUA na era pós-guerra-fria será a de assegurar que não será admitida a emergência de qualquer superpotência rival na Europa Ocidental, na Ásia ou nos territórios da antiga União Soviética”. Esta formulação foi adoptada explicitamente pelo Pentágono desde 1992 (Patrick E. Tyler, U.S. Strategy Plan Calls for Insuring No Rivals Develop: A One-Superpower World, The New York Times, March 8, 1992).

Porque está a China na linha de mira? Simplesmente porque a China existe hoje – e existe como um factor económico e político mundial emergente e dinâmico, criando alianças externas para sustentar o crescimento em lugares como o Sudão ou o Irão, onde Washington tem menos controlo. Na actual situação, a existência de uma nação com o dinamismo estável da China é vista como uma ameaça estratégica crescente pelos EUA, não porque a China faça ameaças de guerra como Washington faz por todo o mundo. A ameaça é que os Estados Unidos da América e aqueles que dominam a sua política perdem a sua posição hegemónica mundial à medida que a China, a Rússia, os países da Organização para a Cooperação de Shangai da Ásia Central, bem como inúmeros outros países, se movem em direcção a um mundo diversificado e multi-polar. Segundo a Doutrina Bush e a estratégia geopolítica dos EUA, estes avanços devem ser impedidos a todo o custo, enquanto for possível. A recente escalada de sanções contra o Irão pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, por pressões intensas dos EUA, tem menos a ver com as ambições nucleares do Irão que com o facto de o Irão ser um parceiro económico estratégico para a China.

A atribuição do Prémio Nobel da Paz a Liu Xiaobo, longe de constituir um gesto para a promoção da paz, deveria ser visto antes por aquilo que é: uma declaração de guerra disfarçada – guiada pela batuta de Washington e alimentada por ONGs – contra a existência da China como país soberano. Desde há duzentos anos que a geopolítica britânica do Equilíbrio do Poder assume um axioma, pelo qual o império hegemónico deve seleccionar sempre o mais fraco de entre os seus dois potenciais adversários principais e aliar-se a ele, para destruir o mais forte. A política dos EUA relativamente à Índia, desde 2001, e à China, desde 2008, foi exactamente esta, aprofundar a aliança militar e estratégica com a parte notoriamente mais fraca, a Índia, contra os interesses estratégicos da China na Ásia, especialmente no Paquistão e no Afeganistão.

A presença oficial da NATO no Afeganistão, longe do Atlântico Norte, deveria constituir um aviso de que não se trata a promover da democracia e a liberdade de expressão, mas constitui antes um sinal do declínio de uma potência hegemónica, desesperadamente à procura de qualquer arma no seu arsenal para inverter o curso dos acontecimentos. Liu Xiaobo é apenas uma ferramenta conveniente para tais esforços, mais uma a acrescentar a tantas outras, como o Dalai Lama, Rebiya Kadeer ou o Congresso de Uyghur, suportado pelo Congresso dos EUA. Aparentemente, a sua credibilidade desvanece juntamente com a sua economia, uma mistura altamente instável.


William Engdahl, , Outubro de 2010
Traduzido do inglês por António Ferrão

Dimitri Khalezov – O caso Victor Bout

Thursday, November 4th, 2010

Tráfico de armas, mísseis roubados, submarinos soviéticos, explosões nucleares e o 11 de Setembro

Leia esta nova, fascinante e inquietante entrevista, dada ontem por um antigo oficial dos serviços secretos soviéticos e autor de , Dimitri Khalezov. O jornalista de investigação e autor de SHADOW MASTERS, Daniel Estulin fez esta extraordinária e cativante entrevista e enviou-me uma cópia pelo correio electrónico, autorizando-me a publicá-la no meu blog.

G. Alexander, 13 de Outubro de 2010

Entrevista de Daniel Estulin a Dimitri Khalezov

Dimitri Khalezov é um ex-oficial do quadro do Exército Soviético, mais propriamente da “Unidade Militar 46179”, mais conhecida como “Serviço Especial de Controlo” da “12ª Divisão Principal” do Ministério da Defesa da União Soviética. Aquiesceu em dar-me esta entrevista em exclusivo e é com prezer que oferecemos aos leitores de http://www.danielestulin.com mais um depoimento de primeira qualidade. Dimitri é uma peça crucial no quebra-cabeças em que se tornou o caso Victor Bout. É seguro dizer-se que, sem os esforços dedicados de Dimitri para ajudar o Sr Bout, sem o seu carácter incorruptível e sem o seu brilhantismo, Victor já estaria neste momento atrás das grades de alguma prisão de alta segurança nos Estados Unidos da América. Dimitri foi o primeiro homem a ver o Sr Bout após a sua mundialmente famosa detenção em Banguecoque e foi, em todo o mundo, quem mais deu dores de cabeça ao governo dos EUA neste caso. Além disso, Dimitri Khazelov foi a primeira pessoa no mundo inteiro a desvendar os verdadeiros propósitos do governo dos EUA, ao tomar a iniciativa de perseguir Victor Bout. A prisão do Sr Bout está directamente associada ao 11 de Setembro. O Sr Khalezov, usufruindo de uma rara posição de vantagem como antigo membro dos serviços militares de informação “atómica”, hoje “nuclear”, da União Soviética, tomou conhecimento do denominado “esquema de demolição nuclear de emergência” das Torres Gémeas já na década de 1980, quando ainda trabalhava no Serviço de Controlo Especial Soviético.

Daniel Estulin, jornalista

Como se viu envolvido neste caso?

Tanto Victor Bout como eu somos russos. Ambos fomos oficiais do exército soviético. Além disso, viemos da mesma vila. Penso que são razões suficientes para tentar ajudá-lo, pois Victor foi preso em Banguecoque e eu tenho vivido em Banguecoque durante todo o tempo da sua prisão. Acontece também que tenho bastante experiência na legislação tailandesa, o que é fácil de compreender se atendermos ao facto de o governo dos Estados Unidos da América ter tentado prender-me e forçar a minha extradição para aquele país, na sequência dos acontecimentos do 11 de Setembro. Isso aconteceu em 2003. Logo, tenho boas razões para tentar ajudar o Victor.

Em Março de 2008, Victor Bout foi equiparado a Ossama Bin Laden na cena internacional. Como conseguiu visitar Victor Bout no próprio dia da detenção em Banguecoque?

Pelo Código do Processo Criminal da Tailândia, qualquer pessoa detida tem o direito inalienável de receber a visita de amigos enquanto estiver presa. Victor Bout, apesar de ter sido chamado o “Mercador da Morte” e “Senhor da Guerra”, não foi excluído destes direitos. Bastou-me chegar à esquadra da polícia onde Victor estava detido e solicitar uma visita ao meu amigo. Tiveram que conceder-me a autorização, por mais que lhes custasse. Na realidade, a polícia até se esforçou por me ajudar. Deixaram-nos conversar tranquilamente num sofá no meio de um corredor. Habitualmente, as conversas com os presos são permitidas só através das grades das celas, mas quanto a mim e ao Victor, abriram uma excepção.

Há alguma ligação entre o seu caso, Victor Bout e o 11 de Setembro?

É o que parece. Eu fui alvo de um pedido de extradição para os EUA por alegadas ligações ao 11 de Setembro e ao atentado a Bali em 2002 (que foi um explosão de uma mini-bomba atómica); quanto a Victor Bout, os americanos pretendem que tenha ligações ao 11 de Setembro e ao bombardeamento de El-Nogal em 2003. Por acaso, acontece que também El-Nogal é conhecido como um ataque por mini-bomba nuclear, pelo menos entre os oficiais responsáveis das forças de segurança. Como vê, há semelhanças.

Quem são os principais actores: os EUA ou o campo de Bout?

Pode parecer que existe um certo “campo de Bout”, mas essa impressão não tem razão de ser. O chamado “campo de Bout” é constituído por Victor Bout, a sua mulher, o seu irmão, a sua mãe, a sua irmã, eu (Dimitri Khalezov), uns poucos amigos pessoais de Victor vindos da União Soviética, o seu advogado tailandês – O Sr Lak Nittiwatvicharn, o seu advogado russo, também Daniel Estulin, claro e talvez alguns jornalistas que vieram conhecer Victor e a sua família durante a investigação do caso. Se quiser chamar a este exército de pés-rapados o “campo de Bout”, então sim, há dois actores principais – o “campo de Bout” e o campo dos EUA. Para além do governo dos EUA, há, todavia, mais uns quantos actores poderosos que se colocaram contra Victor.

Quais são esses actores poderosos e porque não ouvimos ainda falar deles?


O principal é o governo da Rússia (ao menos alguns indivíduos muito influentes desse governo), mas também o serviço secreto russo.

Como? Está a falar a sério? Acabou de acusar o governo russo de trabalhar contra Victor Bout, quando meio mundo está convencido de que, não fora Putin e Medvedev, Victor Bout já estaria extraditado há muito tempo?

Nada irá ouvir da parte deles, porque não são tão estúpidos como parecem. Irão encenar exactamente o contrário – de que estão, alegadamente, a “ajudar” Victor Bout. Mas não se engane – desde o princípio deste caso sem precedentes, o lado russo esteve fortemente envolvido com os EUA na trama completa envolvendo a montagem da armadilha e o aliciamento que o trouxe a Banguecoque. Foi concebida e trabalhada em conjunto – pelos serviços secretos russos e americanos. Além dos russos, outros actores colaboraram. Primeiro, os serviços secretos israelitas – a Mossad e o Sayaret Matkal. Estão igualmente interessados neste caso. Isso foi demonstrado pelo envolvimento sem precedentes do Sayaret Matkal no caso de um dos dirigentes das FARC – Raul Reyes e o “seu” urânio de grau de pureza adequada a aplicações bélicas como explosivo nuclear, que “alguém” deixou ficar num campo na floresta do Equador. Não desconsiderar este pormenor – Raul Reyes foi assassinado em 1 de Março de 2008 e Victor Bout foi aliciado para se deslocar a Banguecoque a 4 de Março. Aí foi confrontado com acusações relacionadas com as FARC e o urânio, mas os papéis legais que requeriam à Tailândia a detenção foram submetidos ao lado tailandês pelos americanos no último dia de Fevereiro – isto é, antes do assassinato de Raul Reyes.

Repare também que foi a israelita Sayaret Matkal (uma organização altamente especializada que trata de armas nucleares inimigas e somente disso) quem se envolveu no assassinato de Reyes e na “descoberta” do “seu” urânio. Além disso, Victor Bout não chegou sozinho a Banguecoque, mas na companhia do um estranho “amigo” – um certo coronel da FSB russa, que foi inicialmente preso com Victor e mais tarde libertado e despachado para Moscovo no primeiro avião disponível. Para enterdermos quão improvável isto é, tentemos imaginar a seguinte situação. Suponhamos que uma qualquer polícia secreta (francesa, por exemplo) consegue atrair Osama bin Laden a Paris com a promessa de que o terrorista saudita irá encontrar-se em Paris com os seus irmãos muçulmanos numa reunião destinada a derrubar a Torre Eifel com uma mini-bomba atómica de fabrico soviético, roubada. Mas Obama bin Laden não chega sozinho a Paris, antes na companhia de um coronel dos serviços de contra-espionagem dos talibãs que decidiu viajar com Osama nessa única ocasião – para ter a oportunidade de ver o Louvre e a Torre Eifel (antes de ser bombardeada). Os serviços secretos franceses prendem ambos – Osama bin Laden e o coronel talibã. Mas só então os franceses se dão conta de que pretendem Osama e não o coronel dos serviços de contra-espionagem, pessoa que, claro está, se deslocou a Paris para apreciar os seus encantos e, por mero acaso, viajou com o seu amigo Osama no mesmo vôo para a capital francesa.

Rapidamente, a polícia francesa decide libertar o coronel e enviá-lo de regresso a Kabul no primeiro avião, mantendo sob custódia somente bin Laden, pois somente ele está indiciado na urdidura do golpe. Soa isto a algo razoável? Com igual razoabilidade soa a explicação do facto de a polícia tailandesa e da polícia de combate ao narco-tráfico (DEA) dos EUA soltarem rapidamente o companheiro de viagem ocasional de Victor Bout – o coronel da FSB – estranhamente chegado com o infame “Mercador da Morte” e “Senhor da Guerra” no mesmo vôo, tomando o mesmo táxi com destino ao mesmo hotel, feito o registo de entrada na recepção em conjunto, mas que, afinal, não pretendia ajudá-lo a “vender mísseis terra-ar portáteis aos sanguinários narco-traficantes” das FARC – tão somente desejava visitar Banguecoque e experimentar a famosa massagem tailandesa.

Claro está, este coronel chegou a Banguecoque “por engano”, mas tal “engano” foi logo corrigido pela honorável e honesta polícia tailandesa que depressa se apercebeu de que o amigo do “Mercador da Morte” estava inocente e foi recambiado para casa imediatamente. Acredita nesta história? Eu não! Foram, pelo menos, quatro os países pesadamente envolvidos na trama contra Victor Bout: Rússia, Estados Unidos da América, Israel e Tailândia. Há indícios de envolvimento provável de outras nações na montagem deste esquema deplorável, porém, numa escala de menor responsabilidade. Aparentemente, dinamarqueses, alemães e romenos também cooperaram; é o que se pode entender da leitura dos papéis incriminatórios contra Victor Bout, disponíveis no Tribunal Criminal da Tailândia.

O mundo inteiro tem a impressão de que o governo russo e a sua embaixada na Tailândia envidaram todos os esforços para ajudar Bout. De facto, os EUA até já manifestram o seu desagrado pela excessiva publicidade que as aparentes movimentações discretas de Putin e companhia estão a fazer, supostamente para conseguir a libertação do Sr Bout.

Infelizmente, é um dos maiores enganos, pensar que o governo russo está envolvido na extradição de Victor Bout e que, no processo contra ele movido pelo tribunal tailandês, a Rússia se encontra do lado de Victor. É certo que a “linha oficial”, a acreditar em vários meios de informação histéricos do Ocidente e mesmo da imprensa russa, sugerem que os funcionários russos “empreenderam todos os esforços” para ajudar Victor, pois Victor poderia implicar “alguns políticos russos” em alegadas “malfeitorias”.

Esta impressão é reforçada pelo facto de a Embaixada russa ser ocasionalmente chamada à sala do tribunal na Tailândia para assistir ás audições do processo de extradição, assim como por declarações dispersas do Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia. Mas esta é uma falsa impressão. Os funcionários da Embaixada Russa que visitam Victor e assistem às audições limitam-se a cumprir as formalidades consulares normais devidas a qualquer cidadão russo; seja o cidadão chamado Victor Bout, seja o desconhecido Sergei Ivanov.

Dito isto, posso assegurar que, apesar de o Consulado Russo assistir a todas as sessões das audições, o juíz tailandês não foi “pressionado” pela delegação russa. É normal os responsáveis consulares assistirem a audições dos réus estrangeiros e os juízes estão habituados a isso. Em síntese, do facto de o Cônsul russo cumprir deligentemente as suas obrigações não decorre, de modo algum, qualquer tipo de “ajuda extrajudicial” ao réu Bout no tribunal.

Quanto às declarações, aparentemente de apoio, vindas do Ministro dos Negócios Estrangeiros russo, não se engane, tomando-as como uma ajuda dos dirigentes russos a Victor Bout. Tais declarações não o ajudaram nem o estão a ajudar, pelo contrário, contribuíram para tornar mais difícil a posição de Victor Bout no tribunal tailandês. Isto pode parecer estranho a um ocidental, mas é preciso entender a situação peculiar dos russos. Em primeiro lugar, para além de Putin, Medvedev e companhia, existem mais poderes políticos influentes na Rússia – os chamados “patriotas”, liderados por Vladimir Jirinovsky, ou os “comunistas”, para referir apenas dois exemplos. Alguns dos “velhos russos” acreditam sinceramente que o governo dos EUA não deve ter o poder de prender cidadãos russos no estrangeiro, especialmente em países terceiros. Porque, se isso for feito com impunidade, abrir-se-á um perigoso precedente. Hoje, armam uma cilada e prendem um alegado “Mercador da Morte”, de facto um inofensivo desconhecedor de todos os segredos de estado. Amanhã, invocando razões semelhantes, poderão prender um verdadeiro coronal das Forças de Mísseis Estratégicos da Rússia que por acaso tenha decidido passar uns dias de férias na Tailândia. O governo dos EUA acusa-lo-á então de “planear o aniquilamento dos Estados Unidos como entidade, usando golpes termo-nucleares em larga escala” e requerirá a sua extradição para os EUA. Ademais, nesta hipotética situação, a acusação até faz sentido – porque tal coronel pode mesmo ter participado nesses planos, no simples exercício das suas funções.

Peço que compreendam que a maioria dos cidadãos russos e membros das forças armadas russas andam muito apreensivos com a arrogância com que os EUA pretendem exercer jurisdição em países que não são parte integrante do seu território e são especialmente sensíveis quando tal disposição visa cidadãos russos. Medvedev, Putin e companhia estão conscientes deste facto e vêem-se forçados a tê-lo em consideração quando fazem declarações públicas.

As reclamações públicas de apoio do Ministro Russo dos Negócios Estrangeiros parecem denotar alguma preocupação com Victor Bout no seu processo na Tailândia. Ninguém se deixe impressionar por tão piedosas reclamações. São piruetas publicitárias. Na verdade, não incomodam mais os americanos do que os latidos dos cães vadios que se passeiam pelas redondezas do Tribunal Criminal de Banguecoque. Todas estas iniciativas do Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia se destinam a acalmar internamente a população e sugerir que o governo continua a “trabalhar para a Rússia” e de que esta “ainda constitui um obstáculo para a hegemonia mundial dos EUA”. Porém, nada disso corresponde à realidade. Ironicamente, se o governo russo tivesse optado por nada fazer no sentido de ajudar Victor Bout na sua luta contra a extradição nos tribunais tailandeses, ele teria tido muito melhores condições para vencer o caso.

Os EUA pretendem Victor Bout por ser um comerciante de armas, tal como foi mencionado pela ONU e pelo jornalista Douglas Farah, ou há mais razões neste caso?

Na verdade, Victor Bout não é pretendido por, alegadamente, ser um comerciante de armas, como julgam os que prestam mais atenção aos jornais do que aos factos. Se Victor Bout fosse procurado pela razão que indica, sería lógico que os americanos não esperassem por Março de 2008 para o prenderem. Teríam iniciado o processo criminal contra Victor Bout nos recuados anos 90 ou, o mais tardar, no dealbar do novo milénio. O problema é que Victor Bout não é procurado por ser um “mercador de armas”, pelo menos não é no sentido em que foi apontado nesta encenação desprezível, ou descrito num relatório da ONU por um antigo inspector de armas irresponsável, Johan Peleman. Victor é procurado por uma razão totalmente diferente, mas talvez possamos falar disso em pormenor mais à frente.

Que força tem o governo dos EUA neste caso?

Do ponto de vista jurídico, a acusação do governo dos EUA é muito fraca e Victor Bout poderia tê-la vencido facilmente. Consegue imaginar que a acusação (o governo dos EUA) não conseguiu trazer ao tribunal da Tailândia um único “míssil terra-ar portátil”, dos tais que Victor foi acusado de ter vendido ilegalmente “pela melhor oferta”? Mas o problema principal foi que o governo russo e os serviços secretos russos fizeram quanto puderam para enfraquecer a posição de Victor no tribunal: levando Victor a orientar a sua defesa de forma juridicamente incorrecta; fazendo falsas promessas para esmorecerem a sua vigilância; mas também exaurindo financeiramente Victor, privando-o de meios que ele necessitava para pagar convenientemente a sua defesa. Caso o governo russo estivesse efectivamente interessado em defender Victor Bout, como a maior parte das pessoas crê, poderia então, no mínimo, ter subsidiado as despesas legais para a sua defesa. Sería também de esperar que o governo russo colocasse à disposição do lado russo da defesa os juristas mais competentes, sem encargos para o réu, e, já agora, que contribuísse com um par de milhão de dólares para pagar as despesas legais do lado tailandês da defesa. Pelo menos, é lógico que assim fizesse. O que significam dois milhões de dólares para um governo de 150 milhões de habitantes, que vende gás e petróleo e ostenta um arsenal de armas atómicas capazes de suprimir a vida na Terra mais de cem vezes? Para que a Mãe Rússia defenda os seus cidadãos num caso assim tão notável, isto são trocos. Não lhe parece?

Mas, na realidade, o governo russo nada pagou, fosse pública ou discretamente (na forma de “donativo privado”) a Victor Bout e à sua família; não satisfeitos com isso, os serviços secretos russos ainda fizeram tudo quanto puderam para levar o irmão e a mulher de Bout a incorrer em despesas desnecessárias que acabaram por os levar à ruína. Em vez de os apoiar financeiramente, o governo russo liquidou as suas últimas poupanças. Se a isso acrescentarmos que foram funcionários russos que aconselharam Victor Bout na condução da sua defesa junto do tribunal tailandês da forma mais desastrada possível e se acrescentarmos ainda que um dos advogados de Victor Bout – um comprovado serviçal do DEA norte-americano – foi também recomendado pelos funcionários russos, compreenderá então a farsa, a injustiça e a traição cometidas. Permita-me repetir: o governo russo, desde o início, de uma forma insidiosa e muito eficaz, esteve a colaborar com os norte-americanos para que o processo de extradição de Victor Bout para os EUA vencesse no tribunal, ao mesmo tempo que promovia a imagem de uma Rússia ainda “poderosa” e capaz de “defender os seus cidadãos”.

Mas vamos aos pontos essenciais deste caso. Em primeiro lugar, os serviços secretos russos conseguiram convencer Victor e a sua mulher, Alla, a não orientar a sua defesa pela negação da existência de mísseis terra-ar prestes a serem vendidos às FARC. Acontece que era precisamente na refutação dessa acusação que a defesa tinha hipóteses de vencer. Os funcionários russos propuseram, ao contrário, que a defesa deveria assentar na demonstração de que a acusação do tribunal tailandês tinha uma motivação política, pois as FARC eram uma organização política, um partido comunista. Esta orientação da defesa, aos olhos de um jurista, valeu por um suicídio. Provando que o caso era “político”, de imediato Victor aceitava a pertinência do “caso”, nele incluída a existência de mísseis. O caso poderia ter sido resolvido facilmente, demonstrando que, do princípio ao fim, se tratava de um “não-caso”. Ora, a respeito de um “não-caso”, tão-pouco pode dizer-se que “é político”.

No entanto, Victor e a sua mulher aceitaram a recomendação dos funcionários russos e limitaram-se, durante a defesa, a alegar que o caso relacionado com as FARC era “político” – sem refutarem a acusação que estava a ser-lhes feita nos seus termos literais e exactos em que estava a ser feita. O ponto mais importante de todo este caso – o de que não havia um só dos alegados “mísseis terra-ar portáteis” que tivesse sido apreendido e apresentado ao tribunal como prova, esse ponto nunca foi referido nas sessões. O advogado de Victor Bout não questionou as testemunhas de acusação sobre a razão porque os carcereiros não houvessem investigado o paradeiro dos alegados mísseis, privando o denominado “Mercador da Morte” do seu mortífero arsenal. Dada a forma como o advogado conduziu a defesa, os juízes convenceram-se de que Victor Bout vendia, de facto, mísseis, divergindo as partes somente na consideração da natureza das FARC: uma organização terrorista (como reclamavam os norte-americanos) ou política (como reclamava Victor). Como já terá adivinhado, o tribunal terá eventualmente discordado de tal interpretação e decidido que o caso era não-político. Dado que Victor Bout e o seu advogado da altura (um serviçal dos norte-americanos) nada fizeram para provar em tribunal que se tratava de um não-caso, de não-mísseis e de não-FARC – ao invés de uma suposta “FARC”, mera encenação para consumo dos cidadãos norte-americanos, de “mísseis” que não passavam de um produto da sua imaginação fértil e doentia e que só existiam em relatórios forjados -, aquilo que Victor e o seu advogado conseguiram provar por ausência de contestação foi que as acusações dos norte-americanos tinham algum cabimento.

Em segundo lugar, os serviços secretos russos prometeram a Victor e à sua mulher que, se Victor conduzisse a sua defesa no tribunal tailandês da maneira atrás indicada (provando que o caso era político, sem contestar a acusação precisa e denunciar a total ausência de provas dos norte-americanos), então o governo russo garantiria que Victor venceria o caso, sendo que tal garantia provinha de um suposto “círculo de relações pessoais estreitas” de Putin. Decerto já reparou que esta “garantia” mais não foi que um expediente reles inventado pelos serviços secretos russos para embotar a sua vigilância e abrir caminho a que Victor perdesse o caso em tribunal, mau grado a total ausência de provas de existência dos alegados mísseis e apesar da abundância de indícios de que todo o “caso” foi urdido pela DEA norte-americana.


Acresce que a mulher de Victor, instada por mim, apresentou uma queixa muito eficaz contra a detenção ilegal do seu marido (a detenção de Victor Bout foi ilegal porque as fases processuais da extradição e as audições em tribunal deveriam realizar-se com o réu em liberdade e não atrás da grades). A apresentação desta queixa pela esposa de Victor apanhou todos os inimigos de Victor – tailandeses, russos e norte-americanos – virtualmente com as calças na mão. Acontece que a detenção de Victor Bout enfermava de vícios formais e ele devería ter sido imediatamente posto em liberdade. Tão evidentes foram as ilegalidades cometidas na detenção, para não dizer, tão auto-explicativas, denunciadas por Alla Bout por escrito e de forma tão clara, que nem o melhor advogado do mundo tería hipótses de refutar a exposição. A única saída deixada aos juízes foi a aceitação do caso e a decisão de libertar Victor Bout da sua custódia ilegal, prosseguindo as audições do processo de extradição com o réu em liberdade. Aparentemente, não houve alternativa para os russos, norte-americanos e tailandeses que haviam trabalhado tão duramente para que Victor Bout fosse preso, posto atrás das grades, e privado de quaisquer fontes de receita. Mas que puderam fazer nesta situação? Infelizmente, descortinaram uma saída: o lado russo, o “de confiança”, abordou a mulher de Bout, convencendo-a a retirar voluntariamente a sua queixa contra a detenção ilegal do seu marido, argumentando que esta tería colocado o tribunal tailandês numa posição delicada – o que, em boa verdade, acontecia. Por este acordo, em troca e uma vez retirada a queixa, o tribunal “agradecido” determinaria a libertação imediata de Victor sob caução, um entendimento que permitia “salvar a face” a todos.

A esposa de Victor Bout voltou a depositar confiança no governo russo e aceitou retirar a queixa. Só que o “agradecido” tribunal tailandês nunca libertou Victor Bout conforme a promessa. Eis mais um exemplo da “ajuda” dos funcionários russos a Victor Bout. Esta lista de “ajudas” é muito longa, mas não irei deter-me demasiado nela para não aborrecer. Vale, porém, referir que, por recomendação dos serviços secretos, o irmão de Victor Bout entregou 120.000 dólares dos EUA destinados à caução, mas tal esse dinheiro foi furtado, a caução nunca foi emitida e o dinheiro não foi devolvido. Também por recomendação dos serviços secretos russos, o irmão de Victor Bout fez entrega de 250.000 dólares dos EUA para um suposto “acordo extra judicial” que permitiria que Victor fosse libertado antes da conclusão do julgamento. Segundo as promessas dos funcionários russos, os 250 mil dólares dos EUA, uma vez pagos, determinaria a libertação de Victor Bout a 1º de Maio de 2008. O dinheiro foi pago como requerido, mas nada aconteceu no tribunal tailandês – o julgamento continuou sem que ninguém se importasse em devolver o dinheiro ou assumisse a responsabilidade por promessa não cumprida.

Como resultado deste comportamento ignóbil dos funcionários russos, o “campo de Victor Bout”, como chamou, ficou arruinado ao ponto de, quando foi necessário traduzir vários documentos importantes do tribunal de tailandês para inglês, só para compreender o que as testemunhas tailandesas alegavam nas sessões, Victor não conseguiu arranjar os 2000 dólares dos EUA necessários. Até à data, alguns documentos importantes do processo permanecem exclusivamente em tailandês. Penso que tanto chega para se estimar em que medida o governo russo realmente “ajudou” Victor Bout – ajudou sim, mas a perder o caso no tribunal.

Porque agiu então o governo russo contra Victor Bout?

Por causa do míssil russo, melhor dizendo, de fabrico soviético, que atingiu o Pentágono em 11 de Setembro de 2001.

O quê? Penso que é melhor explicar-se e, por favor, vá devagar.

Os norte-americanos, compreensivelmente, exigiram dos russos que apontassem o louco – ou grupo de loucos – responsável pelo míssil que foi encontrado dentro do Pentágono. Considerando que se tratava de um míssil equipado com cabeça nuclear (com uma carga equivalente a meia mega-tonelada de TNT, 25 vezes mais potente que a que destruiu Hiroxima), não estranhará que os americanos tenham sido tão intransigentes junto dos russos para que estes encontrassem, sem subterfúgios, o culpado, para que fosse presente à justiça dos EUA.

É muito grave. Mas, do lado russo, não há vontade em admitir a verdade – que o míssil “Granito” e respectiva cabeça termo-nuclear foi roubado ao submarino afundado “Kursk”, pois Putin declarou solenemente ao Mundo, em 2000, que o submarino afundado não tinha qualquer munição nuclear.

O que é o “Granito”?

O míssil P-700 “Granito” (também conhecido na NATO pela classificação de “Naufrágio” ou “SS-N-19” – em que, aparentemente, o “N” significa “Naval”) é o míssil naval mais avançado da era-soviética. Foi concebido para ser lançado a partir de submarinos em posição submersa e destina-se primariamente a destruir esquadras de porta-aviões. É um míssil altamente sofisticado e “inteligente”. Os mísseis “Granito” podem ser usados para atingir esquadras em combate ou outras formações, ao serem lançados em salvas de 12 mísseis simultâneos, embora também possam ser disparados isoladamente – contra alvos navais singulares, ou contra alvos terrestres imóveis (como foi claro no caso do Pentágono em 11 de Setembro de 2001). Cada míssil “Granito” pesa 7 toneladas, aproximadamente, tem um comprimento de dez metros e pode voar até 625 Km à velocidade de 2,5 mach. Em regra, cada míssil está equipado com uma ogiva termo-nuclear padrão de 500 kilo-toneladas; as cargas explosivas convencionais para este míssil, embora existam, nunca foram usadas – de forma que todo e qualquer míssil “Granito” em serviço é uma arma nuclear, sem excepção.

O míssil é virtualmente indestrutível, pois a NATO não dispõe de meios para o interceptar, ainda que consiga detectar precocemente a sua presença. De facto, aquando do ataque ao Pentágono em 11 de Setembro, a NORAD conseguiu detectar o míssil “Granito” a aproximar-se, pelo menos com seis minutos de antecedência sobre o momento do impacto. Os oficiais da NORAD conseguiram fazer soar o alerta de bomba atómica, levantar o chamado “avião do Dia do Juízo Final” em resposta, mas não conseguiram evitar o choque – o míssil conseguiu aproximar-se de Washington DC e embater nas paredes do Pentágono, apesar de ter sido detectado com seis minutos de antecedência. Quanto ao perigo desta arma, tire as conclusões por si mesmo. Quero ainda lembrar que os submarinos equipados com mísseis “Granito” podem ser usados contra os Estados Unidos da América como opção de reserva para ripostar a ataques nucleares, segundo os planos estratégicos soviéticos e da Rússia actual, (embora o papel principal desta retaliação esteja entregue às plataformas de lançamento de mísseis estratégicos balísticos intercontinentais e aos submarinos lança-mísseis, obviamente).

Por terem sido concebidos como possíveis armas de retaliação, os mísseis “Granito” podem também provocar explosões aéreas sobre cidades dos EUA – estão para isso equipados com detonadores livres de contactos, para além dos habituais detonadores por contacto. Devo referir que os mísseis “Granito” possuem um sistema de navegação muito avançado, integrando uma lista pré-carregada de alvos da NATO mais importantes. Ao sobrevoar o oceano, o míssil “Granito” escrutinará o teatro operacional e recolherá informações dos barcos, tentando distinguir entre os vários navios e, especialmente entre os porta-aviões, qual o alvo mais importante, que será seleccionado automaticamente. Ao sobrevoar o território continental, o míssil recolherá igualmente informações e procurará detectar qual o alvo estacionário mais importante no seu raio de acção, ao comparar as suas coordenadas com as previamente armazenadas em memória. Uma vez seleccionado o alvo preferencial pelo computador embutido, o míssil atingi-lo-á. Assim, quando o míssil foi disparado em direcção a Washington DC, comparou dois alvos mais importantes, a Casa Branca e o Pentágono, e seleccionou este último porque, na “sua opinião”, era o alvo mais importante. Devo também sublinhar que este é o míssil mais fortemente blindado do mundo – com as suas grossas paredes de aço, tanto pode ser comparado a um tanque voador como a uma bala descomunal. Devido à sua velocidade, peso e potência tremendas, foi possível ao míssil penetrar seis paredes de betão reforçado do Pentágono, quando este foi atingido em 11 de Setembro de 2001.

Certo! Por favor, continue.

Deverá compreender, neste momento, que o presidente Putin não pôde voltar atrás na sua palavra, admitindo que mentiu clamorosamente à comunidade mundial e que todos os mísseis do “Kursk” foram efectivamente roubados. Para ir ao encontro das exigências dos americanos para que os russos entregassem o responsável pelo ataque ao Pentágono, era necessário encontrar urgentemente qualquer outra solução. Ora, uma tal solução terá sido eventualmente encontrada. O problema era que os mísseis “Granito”, mau grado terem sido feitos nos dias da União Soviética, só podiam pertencer à Rússia e não a qualquer outra república soviética.

Pode provar essa afirmação?

Posso! O “Granito” é um míssil naval, não usado fora da Marinha. Na União Soviética havia quatro frotas navais: a frota do Ártico, a frota do Pacífico, a frota do Mar Báltico e a frota do Mar Negro. Destas quatro, a Rússia herdou integralmente três: as do Ártico, do Mar Báltico e do Pacífico. Só a frota do Mar Negro foi dividida entre a Rússia e a Ucrânia. No entanto, os mísseis “Granito” estavam em serviço apenas nas frotas do Pacífico e do Báltico; logo, tais mísseis não poderiam ter caído nas mãos dos ucranianos, nem sequer como hipótese. Todos os mísseis foram herdados pela Rússia e somente por esta. Porém, para alijar a culpa da Rússia face ao ataque feito ao Pentágono, o governo russo não teve outra escolha senão alegar que alguns mísseis deste tipo se encontravam no Mar Negro e que, por algum tempo, haviam sido propriedade da Ucrânia no período conturbado da extinção da União Soviética e da subsequente divisão do seu património (inclusivé das armas nucleares e da esquadra do Mar Negro). Por este motivo, os serviços secretos russos forjaram um relatório pós-datado, no qual era “revelado” que um dos cruzadores pesados da esquadra do Mar Negro teria sido escalado para ser re-equipado com mísseis “Granito” e que, por esse motivo, nos últimos anos de governo soviético vários destes mísseis haviam sido transportados para o Mar Negro e aí armazenados, caindo em mãos ucranianas no fim da União Soviética. Estes mísseis “Granito” em mãos ucranianas teriam sido “roubados”, acabando nas mãos de terroristas que, supostamente, dispararam um deles contra o Pentágono. O ridículo desta versão está em que, mesmo que fosse verdade a calendarização do cruzador para re-equipamento, como alegado, nunca os mísseis teriam sido armazenados com as ogivas nucleares incorporadas. Conforme as normas da União Soviética, os mísseis seriam guardados num lugar, permanecendo as ogivas nucleares noutro lugar que, além do mais, era dirigido por um departamento militar diferente. Só um leigo, desconhecedor das realidades das Forças Armadas da União Soviética e dos seus regulamentos, poderia acreditar nesta versão e na alegada possibilidade de os “imprudentes ucranianos” perderem a pista aos mísseis e às suas cargas nucleares ao mesmo tempo. Os mísseis podem ser roubadas em conjunto com as suas ogivas nucleares numa única situação – de um submarino em serviço. No entanto, parece existir um oficial responsável da segurança que acredita (ou finge acreditar) nesta versão ridícula da “pista ucraniana”, desculpabilizando os russos.

Se assim fosse, os russos estariam isentos de culpa. Os “maus da fita” que houvessem roubado mísseis à Ucrânia (mas não à Rússia) seriam os culpados. Mas isso não chega: era preciso indicar uma cabeça, o verdadeiro “mau da fita”. Quem pensa que está calhado para o papel? Acertou, o infame “Mercador da Morte” e “Senhor da Guerra”. Pelo facto de alguém o ter demonizado há muitos anos, fácil sería convencer toda a gente de que Victor Bout vendia armas, mas não só, também armas nucleares e até mesmo armas termo-nucleares, tudo a leilão pela melhor oferta. Esta é a razão que explica porque estiveram tão unidos os russos aos norte-americanos neste acordo aparentemente estranho – armar uma cilada a Victor Bout. Na verdade, não parece tão estranho, quando analisamos as circunstâncias de que se revestiu o caso, pois ambas as partes procuram urgentemente fechar o dossier Pentágono e, simplesmente, não é possível encontrar melhor que Victor Bout para o lugar de bode expiatório das vendas de tais mísseis a terroristas. Não existe outra pessoa no mundo que pudesse desempenhar melhor o papel.

Debrucemo-nos sobre o alegado parceiro de negócio com as FARC, Andrew Smulian, preso ao mesmo tempo que Victor. O que lhe sucedeu?

O denominado “cúmplice de conspiração Smulian” foi um amigo antigo de Bout e um antigo parceiro de negócio. Neste caso, porém, Smulian foi um “cúmplice de conspiração” dos agentes provocadores da DEA que prepararam a armadilha a Victor, em vez de “cúmplice” de Bout. Não é verosímil ser-se “cúmplice de conspiração” de uma pessoa que é inocente. Trata-se aqui de clarificar os termos que usamos, se me permite a minúcia desta correcção. Andrew Smulian foi quem visitou assiduamente Victor Bout em Moscovo, tendo-lhe apresentado inúmeras ofertas de negócios – tendo-lhe prometido, em particular, encontrar bons clientes para o último avião em poder de Victor, ainda hoje parqueado nos Emiratos Árabes Unidos, património que Victor ansiava por se alienar em troca de dinheiro vivo de que estava necessitado. Como um à parte, convém esclarecer que Victor estava praticamente arruinado, mesmo antes de ser preso em Banguecoque e a venda do seu último avião era um negócio importante para ele.

Smulian terá atraído Victor a Banguecoque para negociar finalmente a venda do avião com potenciais compradores. No decorrer das negociações, de acordo com documentos presentes ao tribunal pelo governo dos EUA, Smulian terá apresentado a Victor várias pessoas com aspecto de latino-americanos e que, alegadamente, falavam espanhol. Tais pessoas eram alegadamente pertencentes à organização revolucionária colombiana chamada FARC – considerada um guerrilha marxista em guerra com o governo capitalista da Colômbia desde há várias décadas. A transacção do avião foi concertada no centro de negócios do hotel. Poucos minutos passados do início da reunião, a polícia tailandesa e agentes da DEA da embaixada norte-americana local irromperam pela sala adentro e prenderam toda a gente: Victor Bout, o seu “amigo” de Moscovo (que se verificou ser um coronel da FSB) e Andrew Smulian. Dos três, só Victor acabou preso. O coronel da FSB, amigo de Victor, foi imediatamente libertado, levado ao primeiro avião disponível com partida para Moscovo e apareceu nesta cidade na manhã seguinte.

Andrew Smulian terá-se-á escapado (isto é, escapado da custódia da polícia tailandesa) e desaparecido. Repare que, supostamente, escapou de um hotel com portas trancadas e guardado por mais de 150 comandos militares tailandeses. Então, sem que ninguém se desse conta do desaparecimento, mesmo estando com as mãos algemadas atrás das costas, terá tomado um taxi para o aeroporto. Uma vez aí chegado, sem dinheiro e sem passaporte terá comprado bilhete para os EUA, o único país onde enfrentaria, caso fosse preso, uma pena de 30 anos de cadeia. Esta é a versão norte-americana dos acontecimentos. O Sr Andrew Smulian apareceu “de repente” nos EUA, onde foi preso em Nova York por cumplicidade com Victor Bout. Há informação confirmada de que Andrew Smulian foi tornado testemunha de acusação contra o seu antigo amigo. Nos EUA, Smulian não se encontra preso: está sob “custódia protectora”.

Qual a sua opinião sobre os dois advogados de Bout: Lak e Charoen?

Lak foi meu advogado durante muitos anos e, como é natural, conheço-o muito bem. Fui eu o primeiro a recomendá-lo a Victor neste caso. Lak foi apresentado a Victor a 7 de Março de 2008, quando Victor foi conduzido à esquadra da polícia, isto é, antes de ser presente ao tribunal. Quando foi levado ao tribunal, Lak estava lá e os primeiros argumentos da defesa – tanto escritos como ditos – foram feitos por Lak. Lak foi quem conseguiu a devolução do passaporte e outros pertences pessoais de Victor: o telefone móvel e o computador, apesar de os norte-americanos terem requerido estes dispositivos para os transferir para os Estados Unidos. Lak conseguiu um bom acordo com a polícia local para a recuperação quase imediata de todos estes objectos inestimáveis, com grande pesar e desconcerto do governo dos EUA. Mais tarde, Lak trabalhou também no processo de defesa do caso criminal e de extradição e na queixa contra a detenção ilegal de Victor. Porém, graças aos esforços subterrâneos dos serviços secretos russos, Lak foi despedido do caso e substituido por um novo advogado, Chamroen.

Charoen foi um lacaio do DEA norte-americano. Foi apresentado a Victor através de um longa cadeia de pessoas que trabalhavam como agentes não-oficiais da DEA. Mas não se engane. Chamroen, estando 100% demonstrado que foi um servente da DEA, foi introduzido neste processo por nem mais, nem menos que os oficiais dos serviços secretos russos, com plena consciência do que estavam a fazer. Os russos que apresentaram Chamroen a Victor sabiam de certeza que era subserviente aos norte-americanos e, apesar desse conhecimento, apresentaram-no a Victor recomendando vivamente os seus serviços. Chamroen foi quem resistiu e frustou todas as tentativas positivas de defender Victor; adoptou uma linha de argumentação no processo de extradição totalmente inadequada; conseguiu que Victor perdesse uma causa que tecnicamente tinha todas as chances de ganhar. Além disso, Chamroen fez os possíveis para impedir que aquilo que chamou o “campo de Bout” submetesse ao tribunal tailandês documentos clarificadores das acusações ridículas dos norte-americanos, documentos que constituíam a base para uma defesa a sério de Victor.

Deve supor que Chamroen, além do mais, não foi barato: custou a Victor muito mais 100 mil dólares dos EUA o que, para os padrões tailandeses é uma soma fabulosa. No período em que o trabalho da defesa tinha um valor preponderante para o desfecho do processo, isto é, durante as audições do tribunal de primeira instância e aceitação dos documentos – o caso esteve sob controlo de Chamroen. Eu consegui re-introduzir Lack no caso à custa de um expediente: já não como advogado de Victor, mas como advogado da mulher de Victor, Alla, que apresentou ao tribunal uma queixa adicional contra a detenção ilegal do seu marido, queixa essa que foi acrescentada ao processo principal de extradição.

Foi assim possível forçar o regresso de Lak, investido de uma nova qualidade, ao processo nos momentos finais. Porém, nesta altura já foi demasiado tarde. O processo já estava perdido por Chamroen, que intencionalmente evitou chamar as testemunhas certas para a defesa e que sabotou o contraditório na inquirição das testemunhas de acusação. Apesar de ser apenas o advogado de Alla e não de Victor, ainda assim Lak conseguiu fazer reverter a decisão para algo mais favorável no último instante. Em vez de Alla se apresentar apenas como testemunha no processo de detenção, Alla tornou-se a testemunha principal no processo de extradição, mau grado todos os esforços em contrário de Chamroen.

O testemunho de Alla foi, provavelmente, a prova mais contudente acrescentada ao processo de extradição, graças a Lak. Lak conseguiu ainda impedir a aceitação pelo tribunal de um novo conjunto de provas que os norte-americanos tentaram submeter ao juíz quando as audições estavam practicamente terminadas. Os norte-americanos submetram as novas “provas” ao tribunal contando com a cumplicidade silenciosa de Chamroen e foi Lak quem levantou a voz para objectar, mesmo sem estar investido formalmente de competências para se pronunciar nessa matéria. Assim, os acrescentos mais perigosos preparados pelos norte-americanos para submeter ao tribunal acabaram rejeitados. Tire agora as suas conclusões sobre quem é Lak e quem é Chamroen. Acontece que, quando o veredito desfavorável a Bout foi pronunciado, foi Lak quem conseguiu evitar a extradição imediata de Victor para os EUA. Chamroen, simplesmente, desapareceu.

Só para esclarecimento, será que o avião que transportaria Victor aos EUA chegou realmente a Banguecoque, ou regressou pouco depois da descolagem?

O avião com os guardas prisionais armados chegou efectivamente a Banguecoque, mas regressou aos EUA sem o prisioneiro, graças a Lack.

O que expôs é absolutamente incrível. Não tanto pela traição do governo russo e do advogado de Victor, mas pela estupidez em geral que envolveu todo este caso. Porque razão não se pronunciou e como foi possível que Victor e a sua mulher não se dessem conta do que lhes estavam a fazer? Lamento dizer-lhe, mas não acho plausível.

Eu também não! O modo como tudo isto aconteceu deixa-me preplexo. Poderá, no entanto compreender, se levar em conta os factores psicológicos que actuam em situações excepcionais e que Victor e a sua mulher, notoriamente, não são criminosos profissionais, apenas pessoas completamente normais e inocentes. O problema é que Victor não se apercebeu a tempo de que estava a ser apontado como “aquele” que vendeu o míssil que atingiu o Pentágono aos terroristas. Parece que só agora, depois de perder o caso na instância de recurso, tal como eu o havia avisado há muito tempo, começou lentamente a tomar consciência do que estava efectivamente a acontecer-lhe e quem foram os que se moveram na sombra para montar esta armadilha. Antes, porém, estava confiante de que iria vencer o caso. A sua vigilância foi ludibriada por falsas promessas e pelas garantias irresponsáveis dos funcionários russos, que Victor levou a sério. Tente colocar-se no seu lugar. Está atrás das grades, vão-lhe dizendo continuamente de que tudo está sob controlo e a sua mulher vai corroborando, reproduzindo garantias dadas por responsáveis em Moscovo no mesmo sentido (não se esqueça de que Alla Bout foi sempre convidada por oficiais de alta patente em Moscovo), além das garantias dadas pelos serviços secretos. O simples facto de estes “grandes” condescenderem em falar com ela e assegurarem-lhe, que tudo estava “sob controlo” produziu o resultado esperado. Quem duvidaria, quando os serviços secretos e funcionários do governo do seu próprio país prometiam toda a ajuda possível, com a alegada chancela do Presidente da República, tudo confirmado por declarações públicas do Ministro dos Negócios Estrangeiros? Acha que a sua vigilância não seria igualmente afectada?

Victor e a sua mulher, simplesmente, não tinham razões para suspeitar, naqueles dias, que os funcionários russos seriam capazes de tamanha malfeitoria. É preciso ser-se cínico para se desconfiar de funcionários russos numa situação como aquela, mas Victor é claramente uma pessoa demasiado boa e demasiado inocente para isso. Para enfraquecer a posição de Victor em tribunal, os russos indigitaram agentes profissionais dos serviços secretos, que sabem desempenhar muito bem as sua missões. Sabem ser convincentes, quando mentem. Concederá que é difícil lidar com profissionais tão bem preparados, quando se é apenas uma pessoa inocente, sem antecedentes criminais, sem prévias condenações, sem contactos anteriores com o sistema judicial e sem experiência dos aspectos internos de funcionamento dos serviços secretos. Acrescente agora que, pelo facto de nem Victor nem a sua mulher serem advogados, tomaram como “razoável” o ridículo método de desfesa sugerido pelos funcionários russos, não se dando conta do jogo sujo que se escondia por trás dele.

O Sr conhece este caso melhor do que qualquer outra pessoa. O governo do EUA sabem o quanto o Sr é perigoso, tão bem como o governo da Rússia. Será que algum destes governos tentou comprar o seu silêncio ou ameaçõu-o?

Sim, é verdade! Por diversas ocasiões, os norte-americanos tentaram tanto uma coisa como a outra: assustar-me com a perspectiva de também eu acabar na prisão com uma acusação qualquer e aliciar-me com dinheiro. Primeiro, prometeram-me pagamentos confidenciais caso os ajudasse a despachar Victor para os EUA, prejudicando de forma não declarada a sua posição face ao tribunal, como fez Chamroen. Quando recusei, ainda acrescentaram que estavam dispostos a pagar-me para eu, simplemente, não me intrometer, mantendo-me afastado, prescindindo de ulteriores visitas a Victor, ulteriores assistências às sessões de audiências ou a mais conselhos a Victor e à sua mulher. Também recusei.

Quanto ao governo russo, não se dispuseram a oferecer-me dinheiro nem a ameaçar-me, pois seria demasiado arriscado para o lado deles. Não se esqueça de que, enquanto os norte-americanos eram os inimigos declarados da defesa de Victor, os russos assumiam publicamente ser “amigos de Victor”. Logo, enquanto os norte-americanos podiam encarar subornos em dinheiro ou ameaças a quem defendesse Victor com naturalidade, os russos estavam impedidos de tomar iniciativas semelhantes, sob pena de se auto-denunciarem.

Às claras, os russos nunca manifestaram o seu desagrado por causa das minhas iniciativas, procuraram antes afectar a minha reputação difundindo rumores: pela minha alegada “cooperação com os americanos”; com afirmações, “Dimitri não merece confiança”, etc. Devo reconhecer que estes esforços não foram falhos de resultados numa fase inicial do julgamento: repare que a mulher de Victor, repentinamente, perdeu a sua confiança em mim e também, como já referi, os russos conseguiram afastar Lak do processo e substitui-lo por outro advogado.

Quão valioso é Victor Bout para os EUA?

Se pensa que Victor Bout tem algum valor para os EUA como “Mercador da Morte” e “Senhor da Guerra”, está redondamente enganado. Muitos dos que acreditam na propaganda ocidental estão também convencidos de que Victor Bout é procurado nos EUA por alegado envolvimento no tráfico de armas, como pretende o filme de Hollywood, o livro e publicações periódicas histéricas do Ocidente. Totalmente falso. Compreenda que Victor Bout nunca vendeu qualquer arma, seja legal ou ilegalmente, seja em África, na Ásia ou em qualquer outro sítio. Ao longo da sua vida, nem uma simples pistola Makarov ou uma simples AK-47, muito menos grandes quantidades de armas de fabrico soviético. Sim, é verdade que, em várias ocasiões, a companhia aérea dirigida por Victor Bout e pelo seu irmão Sergei Bout transportou realmente armas, munições e até tropas armadas. A questão é que não foram as suas armas, foram as armas dos seus clientes. Além de que tais clientes foram clientes legais. Sempre que a companhia aérea de Victor e Sergei Bout transportou armas ou militares armados, foram armas e tropas do exército governamental. Nem uma única vez um avião de Victor ou do seu irmão transportou armas de clientes ilegais.

Porém, algo muito óbvio está a escapar. Victor Bout não pode ser transformado num “mercador de armas ilegais” por acção dos meios de difusão ocidentais. Somente uma sentença em tribunal pode fazê-lo. Mas nem uma só vez, durante tantos anos, foi Victor pronunciado em tribunal ou acusado de ser um negociante de armas ilegais. Não há registo de uma única iniciativa de um governo, um qualquer que fosse, ou de um acusador público ou das Nações Unidas, ou de uma outra organização qualquer – pública ou privada – de intentar uma acção contra Victor Bout por este, alegadamente, ser um “Mercador da Morte”.

Porque não? – perguntar-me-á. A resposta é simples: porque não existem provas consistentes, susceptíveis de serem apresentadas em tribunal. A imagem de Victor Bout para consumo público foi criada exclusivamente por um filme de Hollywoord, um livro de Douglas Farah e um relatório forjado nas Nações Unidas, da autoria de um inspector sem escrúpulos, Johan Peleman. Alguns antigos colaboradores do Sr Peleman quiseram testemunhar em tribunal que o nome de Victor Bout havia sido acrescentado aos relatórios das Nações Unidas na fase final da sua redacção e que tal nome era omisso em todas as versões preliminares dos relatórios das Nações Unidas sobre o tráfico de armas. O Sr não pode processar Victor Bout como negociante de armas ilegais, apresentando como prova em tribunal apenas a compilação do desavergonhado Peleman, ou trazendo à sala de audiências o filme “O Senhor da Guerra” no lugar de provas materiais. É exactamente por isso que os norte-americanos não desejam Victor Bout como mercador de armas, como muitos crêem. A prova, simplesmente, não existe.

A razão porque os norte-americanos pretendem Victor Bout é algo diferente. Este “algo” tem a ver com o facto de a imagem hollywodiana do “Mercador da Morte” não ser admissível nos tribunais dos EUA. Algumas acusações verdadeiras e demonstráveis têm que ser produzidas para que ele seja preso. Os norte-americanos não encontraram melhor que o DEA para esta finalidade. Como a área de intervenção do DEA é o tráfico de drogas, o seu modus operandi é condizente: plantar drogas nas vítimas e conseguir prendê-las. Esta abordagem simples foi também aplicada no caso de Victor Bout. Os agentes da DEA montaram uma operação que tem um aspecto normal aos olhos de um agente-provocador da corporação, mas é ridícula para todos os outros. Acontece que este agente foi um antigo amigo de Victor Bout, Andrew Smulian, que ofereceu um negócio. Porém, em vez de colocar drogas nos bolsos de Bout, a DEA “plantou” documentos forjados, falsas conversas telefónicas e correpondência electrónica “interceptada”, alegando que Victor Bout: 1) detinha em seu poder mísseis terra-ar portáteis; 2) pretendia vendê-las aos rebeldes das FARC na Colômbia; 3) assim procedendo, visava participar no assassinato (sic) de militares cidadãos dos EUA em serviço na Colômbia.

Apesar de, e contrariamente à rotineira colocação de heroína nas suas vítimas, desta vez o DEA não ter conseguido plantar mísseis terra-ar em Victor, este esquema ridículo mereceu da parte do oficiais superiores da DEA a avaliação de suficientemente bom para ser usado em tribunal. Só depois desta provocação da DEA, os funcionários dos EUA se atreveram, finalmente, a prender Victor Bout e entregá-lo ao tribunal. Antes disso, nada tinham na mão que pudesse ser admitido na sala de audiẽncias. Logo, não faz sentido sequer falar nas alegadas “actividades criminosas” de Victor Bout em África ou qualquer outro sítio, relacionando-o com este caso. Este caso tem um âmbito restrito à alegada venda de “mísseis terra-ar portáteis” às FARC da Colômbia e nada para além disso.

Esta é a versão pública da história. Existe, porém, uma parte secreta nesta mesma história. Victor Bout não é pretendido nos EUA por causa destes absurdos mísseis terra-ar portáteis inexistentes. Esta armadilha tosca nunca poderia passar num tribunal norte-americano. Victor é pretendido nos EUA, na verdade, por um motivo muito mais grave e que não pode transparecer na esfera pública, menos ainda discutido em qualquer tribunal ou tribuna aberta. Quero dizer, poderá comparar esta situação com a que ocorreu quando o infame bombista atómico Timothy McVeigh foi publicamente indiciado de usar armas de destruição massiça (disfarçadas debaixo de fertilizante barato no camião de Ryder) contra cidadãos dos EUA, porém o julgamento decorreu, por estranho que pareça, à porta fechada. O mesmo se passa com o caso Victor Bout.

Parece claro que os funcionários dos EUA, em especial os responsáveis pelos assuntos jurídicos, são suficientemente sagazes para se aperceberem de que nunca iriam vencer o actual caso contra Victor Bout com os métodos de provocação da DEA, principalmente porque não foi encontrado qualquer míssil e a DEA nem sequer se deu ao trabalho de o procurar.

Porque pensa que isso aconteceu?

Porque sabiam que toda a história era forjada e que não iriam encontrá-lo em lado algum. Eis porque nem tentaram ir atrás dos mísseis. A causa real da extradição de Victor Bout não reside nos inexistentes mísseis terra-ar portáteis. A causa real é a colaboração secreta do governo dos EUA com o governo russo para culpar um indivíduo chamado “Victor Bout” pela venda aos terroristas de um míssil de fabrico soviético “Granito” que atingiu o Pentágono em 11 de Setembro de 2001. E esta é a verdade escondida por detrás do julgamento de Victor. E quanto a esta parte secreta do caso, os juristas norte-americanos estão confiantes de vencerem nos EUA, num tribunal à porta fechada. Pois parece que a FSB russa, secretamente, preparou algumas “provas” convincentes que implicam Victor Bout nesse alegado negócio e, aparentemente, os funcionários norte-americanos são suficientemente ingénuos para acreditarem nos seus colegas russos e acalentarem a esperança de que, munidos de tais “provas”, poderão conduzir o processo do 11 de Setembro a uma conclusão satisfatória. Victor Bout está sendo secretamente acusado de vender armas nucleares – conhecidas como “mini-bombas atómicas” ou “bombas atómicas de mala” – a várias organizações terroristas, desde as FARC colombianas a Al-Qaeda de Osama bin Laden. Aparentemente, várias bombardeamentos nucleares recentes, verdadeiros ou fictícios, estão a ser secretamente atribuidos a Victor Bout. Sendo o mais importante de todos, o infame bombardeamento nuclear de “El Nogal” de Bogotá, apresentado aos não-iniciados como provocado por um carro-bomba e que, conforme fontes da segurança dos EUA, usou o mesmo tipo de mini-bomba atómica que o usado em 1985 no bombardeamento de Oklahoma.

Dimitri, o Sr é um ex-oficial dos serviços de informação nucleares da 12ª Directoria das Forças Armadas Soviéticas. A pronúncia pública de acusação de 26 de Agosto de 2009 declarou que Bout conspirou para fornecer mísseis balísticos guiados às FARC. Será que sugerem que Bout esteja envolvido em terrorismo nuclear?

Sim. Neste caso, foi um lapsus linguae. Um acto falhado freudiano. Nos papéis oficiais do caso Victor Bout no Tribunal tailandês, assim como nos pedidos oficiais norte-americanos de extradição, não aparece a expressão “míssil balístico guiado”. Falam em “mísseis terra-ar portáteis” (são bastante pequenos para poderem carregar-se ao ombro). Na sombra, porém, os funcionários dos EUA procuraram convencer os seus colegas tailandeses que, apesar da provocação dos mísseis terra-ar ser bastante grotesca, a causa real para a extradição de Victor era mais séria, mas que, infelizmente, não estavam autorizados a pronunciar-se sobre ela publicamente, tão-pouco de mencioná-la em sessões públicas no tribunal.

Assim, de modo a convencerem os tailandeses a aceitar o caso de extradição, mau grado a falta de provas e as numerosas violações da lei tailandesa, não tiveram outra escolha senão revelar a “horrenda verdade”, pelo menos a alguns funcionários tailandeses. Logo, os oficiais superiores da segurança e da polícia e uns poucos procuradores tailandeses seleccionados sabiam muito bem que Victor era procurado, não por vender mísseis portáteis, mas por vender o míssil cruzeiro com cargas termo-nuclear de guerra, não explodida, equivalente a 500 kilo-toneladas de TNT que atingiu o Pentágono em 11 de Setembro de 2001 e, por um triz, falhou a icineração completa da cidade de Washington, devido a uma avaria no detonador.

Mas porque a Tailândia é um país sem mísseis e não-nuclear, os tailandeses não distinguem bem a diferença entre mísseis de cruzeiro e mísseis balísticos, acontecendo que o acusador público enganou-se ao acreditar que o Pentágono foi atingido por um míssil balístico com ogiva termo-nuclear, quando, na realidade, foi atingido por um míssil cruzeiro com ogiva termo-nuclear. É compreensível esta confusão da parte tailandesa, pois também a diferença não é grande para o que interessa. Se, porém, tentarmos comparar o míssil portátil de poucos kilogramas com os dez-metros-de-comprido míssil balístico de algumas toneladas, aí sim, encontramos uma enorme diferença. Sendo desculpável a confusão entre os mísseis balístios com os de cruzeiro na boca do procurador público (que não era um militar, já agora), dado que era tailandês, já o mesmo não podemos dizer quanto à confusão do oficial norte-americano (pois se trata de um oficial militar superior), misturando no mesmo saco mísseis portáteis com os outros dois.

Houve uma discussão no Conselho de Segurança da Tailândia sobre se Bout estava a ser culpado pelo ataque ao Pentágono em 11 de Setembro; por ambos, o míssil e a sua carga termo-nuclear. Aparentemente, o procurador geral apanhou a ideia nessa reunião e descaíu-se na redacção da acusação, mencionando acidentalmente o “míssil balístico guiado” em vez do “politicamento correcto” “míssil terra-ar portátil”. Respondendo à segunda parte da sua pergunta: Sim! Victor Bout, tudo leva a crer, é pretendido pelos EUA por nada menos do que terrorismo nuclear. Está sendo secretamente culpado de, no mínimo: 1) vender o míssil de fabrico soviético “Granito” com carga termo-nuclear equivalente a meia mega-tonelada de TNT a terroristas, que mais tarde o lançaram contra o Pentágono, em 11 de Setembrop de 2001; 2) vender três ou mais mini-bombas de fabrico soviético conhecidas como RA-115 e RA-116 a terroristas, antes de 11 de Setembro de 2001 (é o que parece, ao ler-se o artigo publicado no jornal “El Mundo” a 16 de Setembro de 2001; mas também pelo comunicado oficial do ex-director dos serviços secretos norte-americanos, D.Negroponte publicado imediatamente após a detenção de Victor Bout em Banguecoque, em Março de 2008 e disponível aqui: [http://www.csis.org/media/csis/pubs/tnt_03-08.pdf] ); finalmente, 3) vender urânio enriquecido de qualidade bélica a terroristas – como sugere o rumo da ofensiva contra as FARC e, em especial, contra o grupo de Raul Reyes na floresta equatoriana, cinco dias antes de Victor Bout ser atraído a Banguecoque para aí ser preso.

Para melhor compreensão dos nossos leitores, explique, por favor, a diferença entre míssil balístico com ogiva termo-nuclear e míssil de cruzeiro com ogiva termo-nuclear.

Um míssil balístico é lançado verticalmente e viaja a uma velocidade próxima do primeiro vôo cósmico, bem acima da atmosfera terestre, numa trajectória chamada balística – isto é, os seus propulsores levam o míssil balístico até ao chamado “espaço” e então a sua cabeça cai para o alvo a partir do espaço, da mesma maneira que um meteoro. Poderá, grosso modo, comparar a trajectória de um míssil balístico à de uma bola de futebol, quando um guarda-redes a atira desde a sua área para o meio campo contrário. Um míssil de cruzeiro é muito mais lento do que um míssil balístico: a sua velocidade é um pouco abaixo ou um pouco acima da velocidade do som e o míssil viaja até ao seu alvo (e entrega-lhe a carga) sem sair da atmosfera, como faria um típico avião a jacto. O míssil “Granito” em especial, que é muito dispendioso e muito avançado, viaja à velocidade de 2,5 mach quando está na altitude de cruzeiro e abranda para 1,5 mach na descida e quando entra na parte final da sua rota de ataque – paralela ao solo (como foi demonstrado do ataque ao Pentágono em 11 de Setembro de 2001). No que se refere à carga termo-nuclear, não há diferenças. Não sentirá qualquer diferença quando uma carga de meia mega-tonelada produzir repentinamente uma luz branca ofuscante e, nos mili-segundos seguintes, o incinerar com a sua radiação térmica intensa. Não importa que tal ogiva tenha caído do espaço vinda de um míssil balístico, ou voado horizontalmente a bordo de um míssil de cruzeiro. Os efeitos de ambas as explosões termo-nucleares e a destruição que causam serão indistinguíveis.

O nome de Victor Bout é frequentemente associado a alegadas vendas de mísseis X-55 ao Irão e à China. Pode falar-nos disso?

Esse é um exemplo das “fugas de informação controladas”, propositadamente postas a circular para emprestar alguma credibilidade junto dos oficiais sem estatuto suficiente para conhecerem a verdade completa, mas a quem se podería dar uma meia-verdade. A história da venda ilegal de X-55 não passou de uma operação de diversão, para desviar as atenções do verdadeiro culpado – o horrendo míssil “Granito”. Falar do míssil “Granito” que atingiu o Pentágono é tabú. Está fora dos limites. Apenas uns poucos oficiais de alta-patente da segurança dos EUA (assim como oficiais de alta-patente da segurança da Rússia e de alguns países aliados dos EUA da máxima confiança) estão habilitados a saber que o míssil foi o “Granito”. Para todo o resto, só conhecer esta palavra já é tabú. Mas muita gente sabe que foi um míssil (e também que foi um míssil de fabrico soviético ou russo) que atingiu o Pentágono. O problema é que aqueles que sabem a verdade ou têm suspeitas são muitos mais do que aqueles que estão qualificados para a conhecer com os pormenores completos. Há, então, que alimentar com meias-verdades os que não podem conhecer a verdade total e para isso foi forjada a história dos mísseis X-55.

Em segundo lugar, mesmo do ponto de vista técnico a história dos mísseis X-55 não pode ser verdadeira; este míssil não seria capaz de perfurar 6 (seis!) paredes de betão reforçado do Pentágono, como aconteceu no ataque de 11 de Setembro. Em todo o mundo, só existe um míssil capaz desta proeza. Significa então que tanto norte-americanos como russos estão a envidar os máximos esforços para evitar o conhecimento público dos factos, ao mesmo tempo que procuram aprisionar e levar a tribunal alguém alegadamente responsável pela reslização do ataque. Daí a perseguição a Victor Bout. Daí as histórias ridículas dos negócios ilegais dos mísseis X-55 (que também são compatíveis com cargas nucleares. A propósito, tenha em consideração este ponto importante: o facto de os mísseis X-55 serem compatíveis com cargas nucleares vem sendo cuidadosamente referido de cada vez que se alega que Victor Bout e seus companheiros venderam estes mísseis da Ucrânia ao Irão).

Soube que a primeira pergunta dirigida a Bout pela DEA no interrogatório foi sobre o nome do míssil de cruzeiro que ele tería vendido ao Irão. Porque teriam feito tal pergunta?

Sim, é verdade! A primeira pergunta feita a Victor quando foi preso não mencionava os ridículos e inexistentes mísseis terra-ar portáteis, que ele alegadamente tencionava vender às FARC da Colômbia. A primeira pergunta foi sobre mísseis de cruzeiro que alegadamente Victor tería vendido ao Irão. Tal deveu-se ao facto de os oficiais da DEA serem de patente média, insuficiente para conhecerem a verdade completa: os mísseis “Granito”. Em vez disso, haviam sido instruídos pelos seus superiores sobre os alegados mísseis de cruzeiro X-55 como já indiquei.

Os órgãos de comunicação mais influentes dos EUA e da Europa fizeram um grande esforço para associar Bout às FARC e ao urânio. Qual a relação destes com Bout?

Na verdade, os oficiais da segurança têm uma dupla tarefa. Por um lado, têm que terminar a investigação sobre o míssil que atingiu o Pentágono em 11 de Setembro. Por outro lado, também têm que terminar a investigação dos numerosos casos de mini-bombas atómicas que, alegadamente ou de facto, foram usadas nos chamados atentados por “carros-armadilhados” “suicidas” e “não-suicidas”. Os mais importantes – os atentados nucleares às embaixadas dos EUA no Quénia e na Tanzânia em 1998, por ocasião do aniversário do bombardeamento de Hiroshima; em 1996, o atentado nuclear da Torre Khobar; em 1995, o atentado nuclear em Oklahoma; em 2002, o atentado nuclear em Bali; em 1993, o primeiro atentado nuclear ao World Trade Center de Nova York; vários atentados nucleares recentes no Iraque, Paquistão, Argélia e Arábia Saudita que foram noticiados como “carros armadilhados”; ainda, em 2003 o atentado nuclear a El-Nogal em Bogotá, assim como o anterior atentado nuclear em Bogotá, em Novembro de 1999, ambos atribuídos às FARC. Como não há muitos especialistas em armas nucleares disponíveis para consulta, fica a impressão junto dos leigos de que é possível produzir artesanalmente bombas nucleares de pequeno calibre feitas de urânio (quando, na realidade, todas as mini-bombas são feitas exclusivamente de plutónio e nada têm a ver com urânio).

Bem, será então possível produzir domesticamente bombas nucleares de baixo calibre?

Ao se explorar o desconhecimento geral do grande público (inclusivé a de muitos oficiais de segurança e políticos de topo) relativamente a armas nucleares, foram largamente disseminadas numerosas concepções erradas, algumas já apontadas. É certo que muitos oficiais de segurança e políticos acreditam sinceramente que seja possível arranjar 50 kilogramas (a massa crítica) de urânio-235 altamente enriquecido no mercado negro e confeccionar uma mini-bomba com ele. Na realidade, é impossível fazer “mini-bombas” nucleares com urânio, mesmo em instalações fabris, quanto mais na indústria artesanal, mas há ingénuos que crêem o contrário. Então, pessoas sem escrúpulos que efectivamente estão por detrás destes atentados por “carros armadilhados” ou “camiões-armadilhados”, sem vergonha aproveitam-se dessa ingenuidade. No caso particular do grupo das FARC dirigido por Raul Reyes, foram colocados quase 50 Kg de urânio-235 enriquecido de qualidade bélica, próximo, mas oculto, do acampamento de Reyes na floresta equatoriana; em seguida, mataram Reyes e, disfarçadamente, descarregaram alguns ficheiros no seu computador, a partir dos quais foi proclamado que Reyes e o seu grupo foram, alegadamente, os responsáveis pelos atentados nucleares de 2003 em Bogotá e andavam à procura de mais fornecimentos de urãneo-235 enriquecido de qualidade bélica. Os ingénuos oficiais que pouco entendem da tecnologia das armas nucleares podiam, ao menos, tomar a devida nota deste pormenor importantíssimo: os 50 Kg de verdadeiro urânio-235 enriquecido de qualidade bélica encontrados perto do acampamento de Reyes constitui uma confirmação de que ambos os atentados de Bogotá, o de 1999 e o de 2003, foram feitos com mini-bombas nucleares. Este cenário, porém, não deve levar ao engano: qualquer um destes atentados em Bogotá, assim como o de Oklahoma em 1995 e os restantes bem conhecidos feitos pelos misteriosos “carros armadilhados”, usaram “mini-bombas” nucleares de plutónio e não de urânio; os 50 kg de urânio-235 enriquecido colocados nas proximidades do acampamento de Reyes não devem iludir pessoas sérias, convencendo-as do contrário.

Quanto a Victor Bout, se analisar com cuidado as informações tornadas por diversas entidades, descobrirá o seguinte: 1) a alegada ligação de Victor Bout às FARC é mencionada na mesma lista de “provas” onde se “revelam” os ficheiros do computador de Reyes, o qual, alegadamente, estava prestes a comprar 50 kg (a massa crítica para construir uma bomba atómica, semelhante à que foi usada em Hiroshima) de urânio-235 enriquecido de qualidade bélica, lançando, ao mesmo tempo, sobre Reyes a responsabilidade pelo atentado por meio de “carro-armadilhado” feito contra El-Nogar (conhecido no seio das forças de segurança como um atentado nuclear); 2) a “rota internacional” para transporte dos “mísseis terra-ar portáteis” que Victor Bout haveria alegadamente usado, a saber: Rússia – Arménia – Roménia – Dinamarca – Antilhas Holandesas – Colômbia coincide estranhamente com a rota alegadamente usada no transporte de urânio-235 enriquecido de qualidade bélica destinada a Reyes, urânio esse encontrado no acampamento de Reyes após o seu assassinato pelos norte-americanos no 1º de Março de 2008, cinco dias apenas antes da prisão de Victor Bout em Banguecoque. Convido cada um a retirar as suas próprias conclusões.

Acrescentemos agora que os responsáveis norte-americanos exploram duas linhas explicativas respeitantes à demolição dos edifícios do World Trade Center em 11 de Setembro de 2001. Imagine que é muito significativo o número daqueles oficiais da segurança de patente intermédia e também de políticos, suficientemente sagazes para não se convencerem do poder da querosene em “fundir aço”, muito menos em reduzi-lo a gotículas tão microscópicas que ficam em suspensão na atmosfera; oficiais e políticos esses que não ignoram que a expressão “ground zero” possui um significado militar preciso, constante em todos os dicionários de língua inglesa anteriores ao 11 de Setembo, a saber, “o lugar de uma explosão nuclear”. Este tipo de gente, portanto, não engulirá a explicação dada à plebe de “queda das torres provocada pelos aviões”. Alguma explicação mais racional e plausível terá que ser apresentada para os contentar. Assim, o guião para o “nível intermédio da verdade” sobre os eventos de 11 de Setembro – destinado a satisfazer os oficiais e políticos intermédios dos EUA e de outros países – prescreve que as duas Torres Gémeas, assim como o Edifício 7 do World Trade Center foram demolidos por 3 mini-bombas nucleares, alegadamente pertencentes a operacionais de Osama bin Laden. Poderá confirmar esta minha afirmação no artigo “Mi hermano bin Laden”, publicada pelo jornal espanhol El Mundo, a 16 de Setembro de 2001. No entanto, uma vez declarado que o World Trade Center foi demolido por três explosões nucleares de engenhos soviéticos, alegadamente trazidos por Osama a partir da Ucrânia, então, como responsável pela segurança, torna-se necessário encontrar a pessoa, russo ou ucraniano, que foi a primeira a roubar as mini-bombas do arsenal nuclear soviético e que vendeu tão medonho armamento aos terroristas. Não lhe parece? Eis porque os norte-americanos tentam implicar Victor Bout no negócio de mini-bombas, nos materiais de qualidade bélica, além dos mísseis com ogivas de meia-megatonelada que costumam sobrevoar e golpear os pentágonos. Aparentemente, Victor Bout serve como bode expiatório para tudo o que seja nuclear. É assim que a perseguição sem precedentes a Victor Bout começa apenas depois de 11 de Setembro de 2001 e, pelos indícios, relacionada com o 11 de Setembro. leia o comunicado de D. Negroponte (disponível aqui: [http://www.csis.org/media/csis/pubs/tnt_03-08.pdf] ), publicado imediatamente após a prisão de Victor Bout em Banguecoque e que, além disso, é inteiramente dedicado à sua prisão. Se comparar agora o comunicado de John D. Negroponte com o artigo citado de “El Mundo” sobre a 3 mini-bombas alegadamente trazidas por Osama bin Laden a partir da Ucrânia, usadas na destruição dos edifícios do World Trade Center a 11 de Setembro, certamente não deixará escapar a ideia geral. Há ainda dois momentos cruciais para o esclarecimento da ligação “nuclear” que se pretende fazer entre Victor Bout, as FARC e os chamados “carros armadilhados” ou “camiões armadilhados” (locais estranhamente denominados por “ground zero”). O primeiro momento esclarecedor ocorreu logo a seguir à prisão de Victor Bout.

Cerca de duas semanas após a prisão foi lançado um vídeo no Youtube com o logotipo do canal de televisão “Russia Today”, com o título “O Mercador da Morte recusou ajuda em Banguecoque”. Como sabe, qualquer pessoa que se registe pode fazer comentários aos vídeos colocados no Youtube. Adivinhe qual foi o primeiro comentário a este vídeo, assinado: “amigo de Victor Bout”? Isto é o que está escrito no comentário: “Faltam 180 bombas pesadas russas, em breve os EUA irão provar o apocalipse nuclear no traseiro”. Como avalia tal comentário? Ou prefere acreditar em coincidẽncias? Eis como os serviços secretos interpretam. Há operações bem feitas e outras mal feitas. Coincidências não existem. Especialmente quando, logo a seguir, se deu uma verdadeira explosão nuclear no Dubai, a 26 de Março de 2008. Exactamente a cidade de onde Victor Bout havia sido expulso e onde perdeu todo o seu anterior negócio de aviação. Pode inteirar-se de pormenores desta explosão nuclear aqui: [http://www.youtube.com/watch?v=KRws9eHvVgw]; ou, lendo nas entrelinhas, aqui: [http://www.arabianbusiness.com/514699-explosion-in-al-quoz-in-dubai?ln=en]. Não deixe escapar expressões como “nuvem de cogumelo” e “defesa civil” neste último artigo. A propósito, quando me dei conta da provocação no Youtube e tive notícia da explosão da mini-bomba atómica no Dubai passados poucos dias, imediatamente reclamei junto do responsável da segurança na Embaixada Russa em Banguecoque. Quer saber o que então se passou? No dia seguinte, o comentário/ameaça sobre as “180 mini-bombas roubadas” e o “apocalipse nuclear” foi removido do Youtube.

Felizmente, fiz uma “captura de imagem” do ecrã do meu computador com a página do Youtube ostentando ainda o comentário que mencionei. Assim, ainda guardo essa página. Ah, quase me esquecia. Porque me envolvi na defesa legal no caso Victor Bout aqui, em Banguecoque, logo no dia seguinte à sua prisão – isto é, a 7 de Março de 2008 -, como é fácil de compreender, atraí sobre mim uma enorme atençao dos EUA. O oficial local da DEA – o Sr M. Derek Odney, responsável pela captura de Victor em Banguecoque a 6 de Março de 2008, convidou-me para beber um café com ele para “discutir um assunto” lá para meados de Abril. Como estava curioso em conhecer as perguntas que iriam fazer-me sobre Victor e também porque eu próprio pretendia ter uma oportunidade para lhes dirigir perguntas que, eventualmente, poderíam ajudar a esclarecer o mistério deste caso, aceitei “tomar o café”.

Derek apareceu com alguém que me pareceu pertencer a outro departamento, porventura dos serviços secretos militares ou da CIA. A conversa começou morna, sem referências a Victor Bout. Pediram-me para colaborar com a DEA na captura de alguns traficantes de droga em Banguecoque. Atendendo à missão da DEA, até podia parecer lógico, mas não naquelas circunstâncias, pois eu estava a ajudar Vitor no seu caso que em nada se relacionava com drogas. De qualquer forma, a conversa foi deslizando lentamente das drogas e dos traficantes para algo diferente: o companheiro de Derek perguntou-me se eu tinha conhecimento do mercado negro de materiais nucleares, em especial do urânio enriquecido e quanto podería custar, na minha opinião, o urânio de qualidade bélica nesse mercado. Muito indelicado! Exprimi a minha humilde opinião, quanto à abordagem de tal assunto. Mesmo sendo essa a minha opinião, sempre acrescentei que não conhecia os valores exactos, porque não estava envolvido em tráfico ilegal de materiais nucleares.

Repliquei, perguntando-lhes se a pergunta que me fizeram se devia ao urânio altamente enriquecido que havia sido encontrado próximo do acampamento de Reyes na floresta equatoriana. Responderam-me que sim, queriam saber a resposta por essa razão, pois o governo dos EUA considerava o assunto da máxima prioridade. O mais risível foi que não foram mencionados os “mísseis terra-ar portáteis” ao longo desta conversa, apenas o urânio das FARC (os tais “mísseis terra-ar portáteis” também não constavam na menção a Victor Bout no computador de Reyes. O que lá foi encontrado foi a compra de urânio enriquecido e a responsabilidade das FARC nos “carros armadilhados”…) Esta foi a minha primeira conversa com o Sr Derek Odney.

Dimitri, avancemos para os dias de hoje. Onde está Victor e que hipóteses de defesa lhe restam?

Victor está ainda em Banguecoque. Para ser mais preciso, está na província de Nonthaburi (na orla de Banguecoque), na prisão de alta segurança de Bangwang, conhecida aqui como o “Hilton de Banguecoque”, graças ao famoso filme com o mesmo nome. Foi transferido para lá desde a Prisão Preventiva de Banguecoque, a 20 de Agosto, dia em que foi lido o veredito com a decisão da extradição.
Não é fácil responder à segunda parte da sua questão. Há várias opções disponíveis, porém, não gostaria de as expôr publicamente, porque os norte-americanos irão ler esta entrevista com grande interesse e podem tomar algumas contra-medidas. Seguramente, há aspectos pendentes relacionados com os meios legais da defesa de Victor Bout. O seu advogado Lak continua activo e tem trabalhado arduamente na sua defesa. Apesar do caso da extradição parecer “terminado” após o veredito do Tribunal da Relação, não é tão “final”, na realidade. Muita coisa ainda pode ser feita, graças a Deus.

Texto original (em inglês) e figuras: Dobroyeutr’s Blog
Tradução de António Ferrão