Ladislau Dowbor – Sobre o Fundo Monetário Internacional (FMI)

A teoria oficial do Fundo Monetário Internacional, largamente prevalecente apesar de gerar cepticismo crescente face às novas dinâmicas, parece cínica: «Os benefícios fundamentais da mundialização financeira são bem conhecidos; ao canalizar fundos para finalidades mais produtivas, pode ajudar os países desenvolvidos, assim como em vias de desenvolvimentos, a atingir padrões de vida mais elevados.»

O processo real é oposto. O sector produtivo, o Estado, as comunidades e os consumidores são descapitalizados. A liberalização dos fluxos de capitais, que deveriam teoricamente «canalizar fundos para utilizações mais produtivas», pelo contrário, escoam recursos em aplicações especulativas com o propósito de se auto-financiarem, dando origem a um feudalismo financeiro, no qual cada um tenta ser auto-suficiente, perdendo-se exactamente a capacidade de as poupanças de alguns alimentarem os investimentos de outros. O resultado é o converso do anunciado ou imaginado pelo Fundo, mas rigorosamente coerente com a verdadeira economia.

Para nós, é interessante notar que já não existe objectivo económico do tipo «reacção dos mercados» isto é uma maquinação consciente de um processo de desestabilização económica e financeira, envolvendo pagamentos gigantescos e com a articulação de uma rede de amigos no governo dos Estados Unidos da América, organizações financeiras internacionais e grandes corporações. Há processos de decisão que não satisfazem os propósitos anunciados e ainda menos os mecanismos do mercado. Claro que podemos dar nomes feios a este processo, como imperialismo financeiro, por exemplo, mas é um facto que se trata de mecanismos de manipulação político-financeiros não descritos nos compêndios e que autores como o acima citado desmontam, numa espécie de reverse engineering, explicando «como» um segmento determinado da actividade económica «funciona», baseando-se em exemplos vividos.

A extensão da falta de informação sobre factos elementares da especulação financeira, que os ocultadores gostam de designar por investimento, capaz de levar ao enriquecimento do homem comum sem que seja gerado qualquer valor, é impressionante; e este enriquecimento sem correspondente produção – logo, com apropriação da produção de outrem – é feito com o nosso dinheiro e não com o dinheiro do nosso homem comum.

Ladislau Dowbor, , São Paulo, 11 de Maço de 2007

6 Comentários

  1. Alexandre
    Sem te aperceberes, deste razão a Lenine, quando este declarou que a verdadeira guerra não é entre nações, mas tem que ser travada dentro de cada nação entre classes que se tornaram antagónicas.

  2. Alexandre Santos says:

    “Contudo, quais são as condições necessárias para atrair o IDE?”

    A resposta depende profundamente do tipo de economia, projecto de sociedade e político de um país. Países como a Suíça, a China ou Angola atraem investimento estrangeiro, mas a maneira como é feito o investimento e o seu impacto na sociedade é totalmente diferente.

    Na realidade o investimento estrangeiro acontece porque alguém lá fora pensa que há oportunidades de crescimento na actividade económica do país. Que tipo de desenvolvimento acontece depende em grande parte do próprio país, e vários tipos de modelos económicos vão atrair tipos diferentes de investimento.

    Para dar um exemplo, as companhias farmacêuticas só vão investir em centros de investigação e instalações de longo prazo em países com uma certa estabilidade política e garantias quanto ao respeito da sua propriedade intelectual. Portanto o tipo de sistema político e legal terá um efeito profundo no género de investimento que essas companhias farão num dado país.

  3. marta says:

    Alexandre,

    É óbvio que o IDE é um factor de crescimento económico, basta que, pelo menos, cria postos de trabalho. Queiramos ou não, neste momento em que há tantos filhos bastardos do capitalismo – os que aspiram ardentemente ao estatuto de escravos assalariados -, tudo o que implique criação de emprego é bem-vindo. Contudo, quais são as condições necessárias para atrair o IDE? Esta ansiedade frenética de aumentar a produtividade do trabalho, a que consequências induz? Como é que se concretiza o efectivo aumento da produtividade do trabalho, não será pela substituição da indústria de mão-de-obra intensiva pela de capital intensivo?
    Uma última questão: o que é que pensam fazer aos milhões de excluídos que o neoliberalismo está a gerar?

  4. Alexandre says:

    A citação do FMI é talvez tendenciosa, mas parece-me bastante razoável. A possibilidade de captar investimento estrangeiro é um recurso que pode ser utilizado para o desenvolvimento de uma economia.

    Como todos os recursos, também pode ser mal utilizado ou abusado. A China é talvez um dos melhores exemplos de como o investimento de capital estrangeiro é firmemente enquadrado para fins de desenvolvimento da economia nacional.

    Não que ache que a estratégia do governo chinês seja boa ou má, mas simplesmente é um exemplo extremo de como o investimento estrangeiro é simplesmente um instrumento, e não uma vasta conspiração (de quem, contra quem?)

  5. Jorge says:

    Uma coisa é a teoria e outra é a prática.

  6. marta says:

    O Banco Mundial está sob a alçada do FMI que está sob o controlo do governo dos EU que, por sua vez, está ao serviço dos cabecilhas! É este o esquema mais simplificado da trama em que envolveram o mundo!

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