Archive for May, 2010

Juan Torres Lopez – El origem de la crisis

Monday, May 31st, 2010

Jochen Scholz – Não queremos mais financiar as vossas guerras

Wednesday, May 26th, 2010

…um cerrar de fileiras desastrado

Jochen Scholz

ou à de Hitler, para referir apenas alguns exemplos. Comparativamente às forças económicas que se encontram à disposição dos países do , as forças militares desvanecem-se contra os exemplos históricos. O desenvolvimento dos EUA nos últimos 65 anos, muito marcado pela supremacia do dólar, foi retirando a este país qualquer papel dinamizador, de uma forma que se acentuou muito nos tempos mais recentes [Mesmo antes dos salvamentos, os EUA dependiam de um suprimento diário de 2 mil milhões de dólares, segundo declarações à Newsweek de Richard Haass, Chefe do Gabinete para as Relações Externas, a 3 de Novembro de 2008: «Precisamos de 2 mil milhões por dia só para nos mantermos à tona da água.»]. Em 1948, o principal responsável pelo planeamento no Departamento de Estado dos EUA [Ministério dos Negócios Estrangeiros], George F. Kennan, formulou a pretensão à liderança internacional dos EUA em termos de vantagem exclusivamente nacional. Tal pretensão foi logo contestada pelos países em vias de desenvolvimento, por ocasião da iniciativa «Nova Ordem Económica Internacional» da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. A meta era a dissolução dos Acordos do Bretton Wood. A tentativa falhou devido à relação de forças vigente na altura e também por causa da Guerra Fria. Hoje vivemos uma situação completamente distinta. Os EUA, como o maior devedor mundial, já não se encontra em posição de ditar unilateralmente as condições da economia mundial. Quando muito, seriam capazes de reduzir o seu enorme desequilíbrio da balança comercial. Tampouco a sua produção interna tem pujança suficiente para satisfazer o seu consumo, nem possui qualidade para relançar as exportações, nem detêm meios para reconquistar a competitividade – que sacrificaram deliberadamente – em tempo oportuno. Isto é tanto mais verdade quanto é certo que os milhões de milhões de dólares gastos em salvamentos estão a ser usados para manter a bola de neve dos bancos da Wall Street a crescer. Antes desta nova realidade, os esforços dos aliados atlânticos na Alemanha e na União Europeia para tentar impedir o deslocamento do centro de gravidade da economia e da influência mundial para a Ásia foram dirigidos no sentido estreitar os laços e submeter-se às condições do Ocidente, uma orientação com traços autísticos, senão mesmo suicidas.

A Ásia e a América Latina abandonam o Titanic

Enquanto a China, o maior credor dos Estados Unidos da América, se mostra pouco disposta a acumular mais títulos de dívida imprestáveis do banco central deste país [actualmente, os títulos da dívida dos EUA à China constituem aproximadamente metade das reservas de divisa chinesas, ou seja, mais de 2 milhões de milhões de dólares] e – em conjunto com os países do BRIC e outros parceiros comercias da Ásia – encara alternativas ao dólar, os EUA preparam-se para emitir mais 3 ou 4 milhões de milhões em títulos de dívida para financiar os seus défices imobiliários. Isto elevará o défice em 1,8 milhões de milhões de dólares e colocá-lo-á 13% acima do Produto Interno Bruto para o orçamento deste ano. Prevendo que não haverá compradores suficientes, a Federal Reserve substituiu as impressoras e reiniciou a impressão de papel-moeda. O problema é que a expansão da massa monetária não é coberta pela expansão da produção de bens. Nesta situação, a quebra de confiança do resto do mundo na sensatez da administração Obama torna-se menos evidente na taxa de câmbio do dólar. A «nota verde» é ainda considerada um abrigo seguro, caso a turbulência dos mercados de investimentos surja demasiado violenta aos olhos dos especuladores. No entanto, outras iniciativas estão já em curso na Ásia e na América Latina, nitidamente orientadas para quebrar o domínio mundial do dólar. Os seis países da Organização para a Cooperação de Shangai, assim como os países do BRIC, tencionam futuramente estabelecer o seu comércio baseados nas suas próprias divisas. Foram assinados acordos bilaterais em conformidade entre a China e a Argentina e também entre a China e a Malásia. Até à data, acordos destes possuem apenas um âmbito regional. Mas até estes eram inconcebíveis antes da crise. Há menos de cinco anos, ainda o Governo dos EUA se encontava em posição de impedir, através de pressões sobre o Japão, que um acordo de 20 mil milhões de dólares (baseados em yen) fosse assinado entre este país e o Irão.

O mundo recusa-se a seguir as auto-proclamadas nações-líder

O mundo que existe para além dos 950 milhões de habitantes do Ocidente [ América do Norte, União Europeia, Austrália, Nova Zelândia, Japão] acordou. Deixou de aceitar a separação da economia mundial entre topo e base, entre lucrativos e receptadores de almas, cabendo aos segundos a obrigação de tornar disponíveis os seus recursos para a manutenção do estilo de vida sumptuoso das auto-proclamadas nações-líder e, quanto ao resto, simplesmente obediência. A nova auto-confiança dos 5.800 milhões de pessoas dos países recentemente entrados na industrialização ou na via do desenvolvimento já chegou à África. A União Africano, com os seus 53 países-membros, recusou-se a cooperar com o Tribunal Criminal Internacional no cumprimento da ordem de prisão decretada contra o Presidente do Sudão. Mais de 40 países africanos preferem a cooperação com a China, porque não vem acompanhada de acondicionamentos degradantes, que o Fundo Monetário Internacional impõe a quem empresta, sempre a favor do capital financeiro ocidental. Quando o Bundeszentrale für Politische Bildung (Agência Federal para Educação Cívica) convida um painel de discussão sobre o «Empenhamento da China em África: uma relação imoral?» por ocasião de uma série de apresentações, a forma como as questões são colocadas tornam a insolência evidente, uma insolência cultivada ao longo de 450 anos de esmagamento colonial e 250 anos de exploração capitalista. A vaidade é o pronúncio do fim, diz o ditado. A vida castiga os atrasados, afirmou o último Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética.

Arrogância até um final amargo

Olhando para a situação dos Estados Unidos da América, teremos que questionar-nos sobre o que andará pelas cabeças dos atlantistas, que em 1949 foram politicamente enquadrados em redes sociais apropriadas [Atlantic Bridge, Aspen Institute, Atlantic Initiative, Deutsche Gesellschaft für Auswärtige Politik (Associação Alemã para a Política Externa)]? Os seus enlaces na Alemanha prolongaram-se pela Fundação Bertelsmann e nos Estados Unidos da América pelo Council of Foreign Relations, ocupando posições-chave na política, nas infra-estruturas económica e científica e nos meios de difusão pública. O que os leva a acreditar que a União Europeia, em conjunto com a estilhaçada economia dos Estados Unidos da América, poderá contrariar a perda de hegemonia do Ocidente?

O Produto Interno Bruto dos Estados Unidos da América, no valor de 14,326 milhões de milhões (trilions) de dólares, está acompanhado por uma dívida externa de 12 milhões de milhões de dólares. Nouriel Roubini prevê que, lá para o ano de 1014, a razão entre a dívida externa e o Produto Interno Bruto esteja duplicada. Os números do desemprego crescem mensalmente na ordem de centenas de milhares. O nível de desemprego já atingiu 16,5%, se considerarmos os empregados a tempo parcial e os que desistiram de procurar emprego. 50% do orçamento dos Estados Unidos da América é consumida em empréstimos. O serviço da dívida atingirá 13% do Produto Interno Bruto no termo do ano fiscal. Os défices orçamentais crescentes, os elevados custos das operações de salvamento do sector financeiro e os custos crescentes do serviço da dívida arrastam um efeito inflaccionário que conduzirá a uma elevação do índice de risco dos investimentos, o que contraria esforços internos de recuperação económica. Tudo conjugado, levam Roubini a concluir que a margem para novos incentivos é cada vez menor. Paul Craig Robert, Sub-Secretário do Tesouro da administração Reagan e ex-colunista do Wall Street Journal, referindo-se ao seu país, perguntou: «Onde está a economia? Já não existe economia para recuperar. A indústria dos EUA perdeu-se na deslocalização e na cegueira ideológica do mercado livre»; a sua decepção está bem patente no juízo: «Nada, entre as políticas económicas de Bush e de Obama, foi concebido para resolver as verdadeiras questões»; sobre a dívida: «Só há uma forma de a pagar: é imprimir dinheiro».

Uma aliança à custa de mais crises e guerras

Estas são as novas roupagens do imperador, com as quais o Elmar Broks da União Europeia pretende estreitar os laços contra as inevitáveis alterações geo-económicas e geopolíticas, que já podem apenas ser retardadas. Contudo, isto só pode ser alcançado ao preço de sacrifícios económicos e do perigo de novos confrontos militares em regiões críticas da Eurásia [Zbigniew Brzezinski, The Grand Chessboard]. A médio prazo, o sistema dólar não pode ser mais mantido, porque os credores cada vez mais lhe retiram a confiança e começam a investir os seus excedentes no seu próprio desenvolvimento em vez de continuarem a alimentar o consumo nos Estados Unidos da América. Desprovida de sólidos fundamentos, porém, nenhuma zona transatântica de comércio externo pode ser estabelecida. As políticas da União Europeia e da Alemanha devem finalmente tomar na devida conta estas realidades, em vez de tentarem dependurar-se nos destroços de um Titanic que se afunda. O relatório do BND é omisso quanto a esta questão. Ficará a Europa sedada pela comunidade de valores transatlânticos partilhados? Os Estados Unidos da América são o principal beneficiário do sistema económico centrado no dólar e, como sistema mundializado, fará tudo o que puder para manter a sua posição dominante. Fora da Europa, esta situação já desencadeou alguma resistência, da qual resultaram acordos efectivos e contra-medidas. A China exige uma divisa mundial que não seja controlada por um único país . Significativamente, as exportações do Japão voltam-se agora para a Ásia em prejuízo do mercado dos EUA – 50% para aquela contra 20% deste – pondo em evidência o início de um processo de saída do caos mundial [Exporte retten Japan, Financial Times Germany de 22/07/2009] desencadeado pela crise económica e financeira. Este processo de mudança não tem de ser casuístico. Pode enformar um novo tipo de relacionamento. É necessário criar novas estruturas para a economia mundial contando com a participação de todos os países, por forma a se encontrar um sistema económico internacional justo [Elmar Altvater Stosst den Dollar vom Thron, Freitag, 09/07/2009; Joseph Stiglitz, Lasst die Armen mitentscheiden, Financial Times Germany, 21/07/2009]. Enquanto países-chave da Ásia abrem novas zonas de mercado, a Europa marca passo, narcotizada por 50 anos de comunidade de valores transatlânticos partilhados e voltada para o seu próprio umbigo. Aqui, ninguém parece preocupado com as consequências de uma possível quebra de 40 a 60% do dólar devida à impossibilidade de se continuar a financiar a dívida externa dos EUA.

Emancipação do big brother e alternativas equilibradas

As decisões autónomas dos países do BRIC [Brasil, Rússia, Índia e China] e de outros países asiáticos são compreensíveis; porém, são opostas a uma transição disciplinada. A União Europeia claramente não entende as responsabilidades que recusa assumir, caso não construa os mecanismos de cooperação económica futura de igual para igual com a Rússia, a Ásia Central e a América Latina. Receia entrar em conflito com os Estados Unidos da América. Este conflito está em tornar claro ao seu aliado principal que, na futura ordem mundial e no futuro sistema económico internacional, poderá apenas ser – na melhor hipótese – primus inter pares e que a Europa não deseja mais entrar nas guerras dos Estados Unidos da América. A China foi mais corajosa. A sua pretensão de substituir o dólar significa também nós não queremos continuar a financiar as vossas guerrras.

A União Europeia também não compreende que armar-se em superior económico não gera parceiros de confiança. As negociações sob direcção alemã com a aliança regional da América Latina CAN [Comunidad Andina] para um tratado de comércio livre tresandava ao espírito imperial «divide e conquista». A estupidez e miopia política, patentes ao longo das negociações, tornaram-se ainda mais desprezíveis porque os aliados, de que a Europa está tão urgentemente carecida para reestruturar a economia mundial, ficaram intimidados. Os povos têm, contudo, uma memória histórica colectiva. Quem melhor que os alemães pode estar consciente disso?

Dados os desafios globais sem precedentes, onde se encontra a esquerda política? Onde estão os seus conceitos de um papel activo para a Europa e de uma União Europeia no contexto das convulsões actuais, de forma a moderar os erros com resultados previsivelmente devastadores para uma grande parte da humanidade? Não se refere constantemente ao internacionalismo como máxima para a acção? Porém, o longamente presidente do grupo parlamentar Confederal Group of the European United Left/Nordic Green Left (GUE/NGL), o comunista Francis Wurtz, realçou após 30 anos como delegado do Parlamento Europeu, que «A posição mundial da Europa enfraqueceu demasiado. Tendo em conta o que representamos, deveríamos desempenhar um papel mais activo» [Die drei aus dem Versuchslabot, Süddeutsche Zeitung, 29/Maio/2009]. Tal como o relatório do Bundesnachrichtendienst [BND - Serviços Alemães de Espionagem], a esquerda política também não apresenta recomendações para a acção ao único participante que está em condições de exercer uma influência real: a União Europeia. Não é verdade que «Os filósofos até agora limitaram-se a interpretar o mundo. A questão está em transformá-lo» [Karl Marx, Teses sobre Feuerbach, 1845]?

Jochen Scholz, Não queremos mais financiar as vossas guerras, publicado em Current Concerns a 26 de Março de 2010

Ladislau Dowbor – Sobre o Fundo Monetário Internacional (FMI)

Monday, May 24th, 2010

A teoria oficial do Fundo Monetário Internacional, largamente prevalecente apesar de gerar cepticismo crescente face às novas dinâmicas, parece cínica: «Os benefícios fundamentais da mundialização financeira são bem conhecidos; ao canalizar fundos para finalidades mais produtivas, pode ajudar os países desenvolvidos, assim como em vias de desenvolvimentos, a atingir padrões de vida mais elevados.»

O processo real é oposto. O sector produtivo, o Estado, as comunidades e os consumidores são descapitalizados. A liberalização dos fluxos de capitais, que deveriam teoricamente «canalizar fundos para utilizações mais produtivas», pelo contrário, escoam recursos em aplicações especulativas com o propósito de se auto-financiarem, dando origem a um feudalismo financeiro, no qual cada um tenta ser auto-suficiente, perdendo-se exactamente a capacidade de as poupanças de alguns alimentarem os investimentos de outros. O resultado é o converso do anunciado ou imaginado pelo Fundo, mas rigorosamente coerente com a verdadeira economia.

Para nós, é interessante notar que já não existe objectivo económico do tipo «reacção dos mercados» isto é uma maquinação consciente de um processo de desestabilização económica e financeira, envolvendo pagamentos gigantescos e com a articulação de uma rede de amigos no governo dos Estados Unidos da América, organizações financeiras internacionais e grandes corporações. Há processos de decisão que não satisfazem os propósitos anunciados e ainda menos os mecanismos do mercado. Claro que podemos dar nomes feios a este processo, como imperialismo financeiro, por exemplo, mas é um facto que se trata de mecanismos de manipulação político-financeiros não descritos nos compêndios e que autores como o acima citado desmontam, numa espécie de reverse engineering, explicando «como» um segmento determinado da actividade económica «funciona», baseando-se em exemplos vividos.

A extensão da falta de informação sobre factos elementares da especulação financeira, que os ocultadores gostam de designar por investimento, capaz de levar ao enriquecimento do homem comum sem que seja gerado qualquer valor, é impressionante; e este enriquecimento sem correspondente produção – logo, com apropriação da produção de outrem – é feito com o nosso dinheiro e não com o dinheiro do nosso homem comum.

Ladislau Dowbor, , São Paulo, 11 de Maço de 2007

dEUS II

Sunday, May 23rd, 2010

É uma perda de tempo afirmar que deus não existe“, explica o Jorge no seu . O que é certo é que nesta linda tarde de Maio, em que estou no meu trabalho para supostamente … trabalhar, uma discussão de cariz tão prático como a questão do sexo dos anjos é um apelo irresistível à minha tendência para a procrastinação. Tempo vai ser perdido, como admoestado…

Pelo que percebi do bilhete, na discussão da existência de deus há que diferenciar a noção de deus,  da entidade-deus, sabendo que a noção de deus é um lugar comum, enquanto que a entidade deus é uma aberração lógica.

No que me diz respeito, penso que todos concordamos que a noção de deus existe, da mesma maneira que a noção de porco-borboleta existe, pelo simples facto de eu ter imaginado a infeliz criatura, e transmitido a noção dela ao pobre leitor que não pedia tanto.

No entanto, estabelecer a dicotomia entre a noção e a entidade deus não me parece suficiente para poder discutir desta questão em boas condições. O outro problema é que a noção de deus é extremamente variável segundo as tradições, culturas, e gostos pessoais. O que se chama deus é muito diverso, e é difícil fazer comentários gerais sobre uma etiqueta que encobre múltiplos conceitos.

Portanto para discutirmos de deus, temos de saber de que deus falamos. Ora ninguém perde tempo a discutir da existência do deus porco-borbuleta, que se preocupa do regime alimentar dos pulgões das . Os deuses que geram discussão são aqueles que pretendem decidir como deve ser organizado o universo, a sociedade, e como deve viver ou pensar cada indivíduo. As razões invocadas para justificar essas pretensões são em geral de que o tal deus é omnisciente (e portanto sabe o que é bom para nós – cenoura?), mas sobretudo porque ele é omnipotente (pau). É pois o profundo impacto que tem a noção de deus omnisciente e omnipotente na nossa vida que nos leva a discutir da existência desse tipo de criatura, ao invés do nosso desdenhado porco-bobuleta.

Ora no caso particular da entidade omnipotente, omnisciente, capaz de empatia para com os humanos e de forma geral “bondosa”, tal como é entendido deus pelo comum dos católicos, penso que é inicialmente impossível afirmar de maneira peremptória o quer que seja, só podemos dar as nossas opiniões sobre o assunto. E não acho que uma opinião negativa seja hostil para quem tem uma opinião positiva (o mesmo não pode ser dito de uma “atitude”).

Em todo o caso, é fácil compreender que é impossível de negar de maneira objectiva a existência de uma entidade omnipotente e omnisciente: se deus pode fazer tudo e sabe tudo, nenhum argumento pode ser construído que ponha em causa a sua existência. Por exemplo, a divindade pode ter criado o mundo há um segundo, e todas as nossas memórias e conhecimentos do universo não seriam mais do que uma ilusão, e portanto inúteis para demonstrar a sua não existência.

Por outro lado, também é impossível provar que uma tal entidade existe: Postulando que ela existisse, como é que ela poderia provar aos humanos que de facto é omnipotente e omnisciente? Como seres finitos e portanto limitados, não dispomos de recursos suficientes para realmente verificar que a entidade é tão omnitudo quanto pretende ser.

Como é evidente, esse deus poderia facilmente convencer um humano de que é omnipotente e omnisciente, mas isso também consegue qualquer charlatão carismático (… resistir à tentação de citar exemplos, no interesse de uma discussão serena). No fim de contas, só uma entidade omnisciente e omnipotente pode verificar se uma outra criatura também o é. O problema é que duas criaturas omnipotentes não podem coexistir (não é um acidente que as religiões em que deus é omnipotente sejam monoteístas), portanto é realmente impossível verificar que um deus preenche realmente esses requerimentos.

Desta forma está a questão resolvida: não é possível provar a existência ou não existência de um ser omnisciente e omnipotente, e cada um pode ter o seu palpite sobre a questão. A partir daqui o espírito pragmático arruma a questão numa gaveta mental e dedica-se a construir pontes, tratar de doentes, ou salvar a nação à beira da bancarrota, em suma fazer qualquer coisa da sua vida.

Infelizmente este desfecho não satisfará o espírito melancólico e perverso, avesso ao esforço e acção, causa perdida do empenho produtivo, enfim, o irredutível procrastinador. Esta malograda criatura vai continuar a duvidar do perfeito equilíbrio na falta de senso das duas opções.

Certo, mostrámos que é impossível provar que deus existe, e que é impossível provar que deus não existe. Mas resolver esta questão com duas incapacidades, se bem que sendo um resultado definitivo, também é pouco empolgante. Porque não mudar de perspectiva, e abordar a questão de maneira mais abstracta? Proponho que reformule-mos o problema da seguinte forma: será impossível que o universo exista sem que haja deus? Será possível que o nosso universo e deus coexistam?

Pelo que eu sei, não existe nenhum facto conhecido do nosso universo que implique a existência de um ser omnipotente e omnisciente. Como é evidente, sabemos pouco do nosso universo, mas até agora não existe nada do que sabemos que positivamente implique a existência de uma tal entidade, o que é diferente de ignorar-mos as causas de um facto. Confundir as duas noções leva à crença do “deus das sombras“, ou “dos buracos“, isto é um deus que explica o que não sabemos, e cujo campo de acção diminui à medida que a nossa ignorância recua. É o deus das sombras ou dos buracos do nosso conhecimento, um tipo de deus que não entusiasma ninguém.

A vantagem desta perspectiva é que em vez de tentar provar qualquer coisa que não o pode ser, podemos tranquilamente considerar que o nosso universo não precisa de deus para funcionar, até que apareça qualquer coisa que nos mostre o contrário. É deus que tem de mostrar que é necessário ao universo, em vez de sermos nós de ter de nos cansar para provar que ele não existe. Uma estratégia bem mais compatível com o carácter plácido e mandrião próprio do procrastinador.

=> 1:0 a favor da existência do nosso universo sem que deus exista…

Mas ainda temos de considerar a opção inversa, em que o nosso universo e deus coexistem. Como é que isso poderia funcionar?

Comecemos por discutir a omnisciência… Será que qualquer coisa pode ser omnisciente no nosso universo, independentemente de ser omnipotente?. Em geral quando dizemos que sabemos qualquer coisa, queremos dizer que podemos exprimir factos e princípios que se aplicam a essa coisa. No caso de um terreno, podemos por exemplo desenhar um mapa que representa o que sabemos dele. Quanto mais aumenta o nosso conhecimento do terreno, mais o nosso mapa é detalhado. Levando a metáfora até ao seu limite, a melhor representação possível do terreno é o próprio terreno, ou seja a única coisa que pode ser omnisciente no nosso universo é o próprio universo, que é a representação perfeita a cada momento de si próprio. Não que ser o universo seja suficiente (ainda faltam os princípios, para além da representação dos factos), mas é a condição mínima.

No entanto esta maneira de encarar o conhecimento não toma em conta o aspecto temporal da questão. O que significa conhecer? Conhecer é não só produzir a indicação do conhecimento, mas também é quando a produzir. Negligenciar o aspecto temporal do conhecimento pode levar a resultados paradoxais: digamos que estou a preparar o meu jantar, e esqueço de usar luvas quando tiro a panela do fogo. Isto vai provocar alguns acontecimentos interessantes do ponto de vista do conhecimento ao longo do tempo. A informação sobre a queimadura vai chegar à espinha medula, que vai reagir sem esperar instruções da parte do cérebro. Portanto durante algum tempo, o cérebro vai continuar a deliciar-se com a antecipação do jantar, enquanto que a espinha medula já está a gerir a situação de crise. O que é que eu sei nesse momento? Do ponto de vista exterior, considera-se que eu sei que me queimei, porque já deixei cair a panela, provando o meu conhecimento. Do ponto de vista interno, alguns elementos de meu sistema nervoso estão a par dos últimos desenvolvimentos, enquanto que outros não.

O mesmo se passa quando eu me deparo com uma tarântula. A informação visual é enviada simultaneamente ao córtex mas também à amígdala. Enquanto que o córtex digere as diferentes informações que lhe chegam, já a amígdala classificou a silhueta como perigosa e activa todas as respostas fisiológicas para desencadear uma reacção de fuga. Só mais tarde é que o córtex, integrando os diferentes dados que lhe permitem criar um contexto, reconhece que a tarântula está num aquário, e portanto inactiva a amígdala, já que não existe perigo. A minha reacção final é nula, provando do ponto de vista exterior que eu sei que não há perigo, mas durante algum tempo diferentes partes do meu cérebro tiveram opiniões diferentes.

Em todo o caso, é certo que a nenhum momento qualquer centímetro cúbico do cérebro está a par de todos os conhecimentos que o sistema nervoso na sua totalidade pode demonstrar. Um lapso de tempo é necessário para integrar suficientemente as informações para produzir uma resposta que prove conhecimento. Isto ainda é mais verdade no caso de princípios, em que a prova de conhecimento tem de ser construída, e não só recuperada.

Tendo em conta o princípio temporal, para ser omnisciente no sentido usual de conhecer coisas e produzir a prova desse conhecimento de forma rápida (em alguns segundos ou minutos), é necessário que não somente o ser omnisciente tenha uma representação de todo o conhecimento, mas também é necessário que possa aceder a essa informação de maneira praticamente instantânea. Ora se no nosso universo, o próprio universo é a única coisa que pode ter uma representação perfeita de todo o universo, é impossível para ele de aceder a essa informação de maneira instantânea, já que pelo que sabemos a velocidade de transmissão da informação está limitada à velocidade da luz. Ou seja, é impossível para um ser omnisciente de existir no nosso universo sem quebrar várias leis que nos parecem reger a nossa realidade.

=> 2:0 a favor da existência do nosso universo sem que deus exista…

Esta necessidade quebrar as leis do universo é uma das razões que leva à obrigação de um ser omnisciente de também ter de ser omnipotente (outra é por exemplo a vontade dos crentes que ele seja infalível, etc).

Como seria o nosso universo se um ser omnipotente existisse? Para já, todas as leis físicas que conhecemos seriam falidas, já que por definição cada uma é uma incompatibilidade para a existência de um ser omnipotente. Portanto o preço de admitir a existência desse deus é de descartar tudo o que sabemos do universo, o que não é barato.

Mas o problema vai mais longe do que isso. Não é que não tenhamos percebido as leis do universo, mas o facto é que não podem existir leis, quaisquer que sejam. O universo é um caos ou pelo menos a única lei que existe é a vontade única de deus. Portanto o facto de que pensamos ver leis não passa de uma espécie de “partida” ou anedota que deus faz consigo próprio.

Para além disso, devemos notar que se um ser omnipotente existe, isso implica que os humanos não existem, pelo menos tal como os consideramos habitualmente. Para explicar o raciocínio, temos de voltar à ideia de que é impossível existir no universo dois seres omnipotentes, já que um seria uma limitação ao outro. Mas rapidamente observamos que de facto não pode existir mais do que uma fonte de iniciativa (ou vontade) num universo que alberga um ser omnipotente. Mesmo que as outras vontades não sejam omnipotentes, a mera existência delas seria um limite à omnipotência de deus.

Eu nem sequer estou a falar da possibilidade de os humanos terem livre-arbítrio (pessoalmente não acredito na noção de , que considero tão problemática de um ponto de vista lógico como a questão da omnipotência de deus). O que quero dizer é que os humanos não são uma fonte de iniciativa autónoma, mas são parte do universo-deus da mesma maneira que um pelo é parte de uma pessoa.

Num universo em que existe um ser omnipotente, temos menos vontade própria do que um pelo em relação ao resto do indivíduo. É evidente que podemos rapar, queimar, corar, descolorir ou acarinhar os nossos pelos, mas é preciso estar bastante psicótico para os classificar de “santos” ou “pecadores”. Na realidade, a noção de que deus é omnipotente é tão problemática para a visão do mundo dos cristãos quanto ela é indigesta para os ateus. Por outro lado, uma religião que se baseasse verdadeiramente no conceito de que deus é omnipotente tomaria ainda menos em conta a vontade de deus do que uma filosofia materialista que nega a existência de deus. Aliás, os crentes de ambas as filosofias teriam poucos motivos de discordar, quanto às implicações práticas para a sociedade e vida de cada um.

Em resumo, para encarar a coexistência do nosso universo com um ser omnipotente, temos de considerar que tudo o que sentimos do mundo não é meramente uma ilusão acidental (isso seria a versão optimista), mas de que se trata na realidade de uma mentira (já que produto de uma vontade alheia). Para além da má notícia de que deus é mentiroso, ainda teríamos de aceitar não ser mais do que personagens fictivos de um romance escrito por um deus enroscado na sua bolha de caos.

Ou seja até agora tudo o que pensamos saber, sentir ou desejar do universo (ou de nós) é incompatível com a existência de um ser omnipotente.

=> 3:0 a favor da existência do nosso universo sem que deus exista…

O resultado esmagador de todas estas divagações é que se bem que não se possa provar ou desprovar a existência de deus, o certo é que de um ponto de vista lógico ou meramente emocional, é muito mais defensível pensar não existe um deus omnisciente ou omnipotente do que o contrário, simplesmente pelo facto de que a realidade tal como a conhecemos se adequa mais com a não existência de um deus omnipotente e omnisciente (princípio de parcimónia)

Agora se por um milagre digno da conversão de Paulo, algum incauto leitor chegou ao fim deste bilhete, estaria curioso de saber qual é a sua perspectiva sobre a questão: É realmente o deus em que acredita omnipotente e omnisciente, e se não o for, quais são os limites dos seus conhecimentos ou capacidades:

  1. hard core omnitudo
  2. sabe de tudo o que se passa, não conhece o futuro, mas certifica que no fim haverá um happy end (pelo menos para os bons)
  3. criou o mundo e desde então aprecia os espectáculo com um copo de pop-corn sem fundo. Desconhece o fim da história, mas isso é o que torna a coisa interessante para ele.

A Aritmética das Horas

Thursday, May 20th, 2010

A Teresa e o Rui combinaram encontrar-se na piscina às 10 horas.
A Teresa chegou três quartos de hora antes da hora marcada e o Rui atrasou-se um quarto de hora.
Quantos minutos chegou o Rui depois da Teresa?
Mostra como chegaste à tua resposta.

15
x3
45 m

10,00
-.45
09.55

Teresa chegou – 9:55 m
Rui chegou – 10:15 m

Resposta: Chegou 60 minutos mais tarde

E não é que acertou? !!!!

Afinal qual é o país

Monday, May 17th, 2010

comunista que tem casamentos homosexuais?
Porque é que a ainda chamada esquerda, só é capaz de se unir quando se encontram em causa os valores humanos?
Fazem tudo e mais alguma coisa para mostrarem que são diferentes dos outros, mas quando se trata de aborto, casamento homosexual e vamos lá a ver a eutanásia que é a próxima festa, não fazem outra coisa que não seja adicionar os seus votos, nem que seja contra os movimentos espontâneos de cidadãos?

Olinda Gil – Insulto aos professores

Monday, May 17th, 2010

Ex.mos Senhores

Esqueceram-se de que os professores são as pessoas que mais compram livros neste país e que fazem com que os outros os comprem. Uma editora que se chama “Civilização” e que trata assim os professores de um país não pode continuar a ser digna da minha preferência. Num país onde a falta de autoridade dos professores é cada vez maior, em vez de termos as editoras do nosso lado no combate à iliteracia e desenvolvendo a civilização do povo, assistimos a este lamentável enxovalho. Nunca mais comprarei livros da vossa editora e vou divulgar por todos os meus contactos, este mail, para que saibam da minha indignação.

A professora

Graham Summers – Factos que deve conhecer sobre o sistema financeiro

Sunday, May 16th, 2010

Vamos ligar os pontos para dizermos algo sobre o sistema financeiro, visto como um todo no momento actual.

Facto #1: os bancos estão insolventes

Só continuam em serviço porque estão autorizados a avaliar as suas folhas de balanço ao preço que melhor entenderem. Posso, arbitrariamente, atribuir ao meu carro o preço de 500 biliões de dólares, o que não implica que, no momento da venda, consiga obter esse dinheiro.

E é tudo quanto há a dizer a respeito do lixo das folhas de balanço.

Facto #2: Os países estão insolventes

A Europa, uma união de estados falidos, anunciou recentemente que está a auto-salvar-se. É um pouco como o teu amigo falido anunciar que está pronto a oferecer-se a si próprio uma prenda no valor de mil milhões de dólares: nada adianta. Como tendo dito, não consegues resolver uma dívida criando nova dívida.

Facto #3: A Wall Street é uma organização de malfeitores

Quem quer que pretenda debater isto só ganha em passar uma vista de olhos sobre a folha dos resultados comerciais mais recentes da Goldman Sach: Goldman conseguiu obter ganhos em todos e cada um dos dias do último trimestre. Não satisfeita em anunciar uma impossibilidade estatística, a empresa anunciou mais, que em 35 de uma série de 63 dias consecutivos, tais ganhos excederam 100 milhões de dólares. Ora bem: uma façanha destas está fora do alcance de qualquer conduta ética. A única hipótese de realizar tais prodígios é com batota: seja apostando com conhecimento prévio de ordens de compra dos próprios clientes [front-running your clients], seja manipulando o mercado.

Facto #4 Os bancos centrais nada podem salvar

Os bancos centrais estão desprovidos de mecanismos para reparar os problemas de dívidas nos países europeus. Se um banco privado se atrevesse a usar as tácticas de Ben Barnanke, iria à ruína. Deixar um pisa-papéis em cima da tecla “print” não enforma uma política monetária. Tampouco adquirir activos tóxicos (destituídos de qualquer valor) à razão de 100 cêntimos por cada dólar de valor facial. Só há uma palavra para tipificar quem proponha tal caminho: “mal-cheiroso [sucker]“.

Facto #5: os mercados de capitais são controlados por computadores

Os mercados de capitais tiram partido de manipulações e fraudes descaradas. Os dinheiros dos salvamentos de Ben Barnanke não foram destinados aos norte-americanos, foram parar à Wall Street onde serviram como munições para fazer subir as operações da bolsa num dia para logo as descerem a zero no dia seguinte, usando algoritmos de cálculo sofisticados e computadores poderosos, contando com o conhecimento antecipado dos movimentos dos clientes.

Portanto, os mercados de capitais não se baseiam em investidores reais, baseiam-se em computadores que transaccionam para trás e para a frente em milésimas de milionésimas de segundo, senão mais rápido ainda. Estes programas foram criados para sacar ¼ de penny por cada transacção (uma política criada pela Bolsa de Nova York [New York Stock Exchange] para encorajar os investidores a efectuarem transacções e ganhar “liquidez”). Contudo, como ficou claro na quarta-feira passada, quando as coisas ficam tortas, toda esta liquidez parece evaporar-se repentinamente.

(…)

O facto de a Europa ter lançado a maior operação de slvamento da História e de – como consequência – haver acalmado os mercados durante um único dia diz tudo sobre o estado de sobre-saturação da dívida no mundo inteiro.

, 13 de Maio de 2010

Portugal Esotérico – Autorizaram a ocupação de Portugal?

Thursday, May 13th, 2010

Existe um EXÉRCITO SECRETO EUROPEU, que também pode ser chamado de FORÇA SECRETA POLICIAL DE INTERVENÇÃO PARA O ESMAGAMENTO DE REVOLTAS NA EUROPA.

Já se encontra dentro da União Europeia, porém apenas muito poucos sabem disso.

A força possui os mais amplos direitos, tem de momento 3.000 homens e responde pelo nome de “EURO GENDFOR (EUROPEAN GENDARMERIE FORCE)”, ou seja, TROPA DE POLÍCIA EUROPEIA. O seu comando encontra-se em Vicenza, na Itália, longe do Centro da UE.

Quem deu vida a este projecto foi a Ministra da Defesa Francesa, Alliot-Marie, com o objectivo de mais facilmente esmagar levantamentos populares, como os que têm surgido frequentemente em cidades francesas.

Esta força, já existente, pode agora ser empregue por toda a União Europeia, anulando os direitos nacionais e as soberanias dos Estados Membros!

(Continua em )

Ferrao.org de volta

Tuesday, May 11th, 2010

Depois de uns breves dias a aprender php e WordPress eis que temos o de volta. Espero que gostem da nova versão. Comentários são bem vindos :)