"; PlayWin.document.write(winContent); PlayWin.document.close(); // "Finalizes" new window // UniqueID = UniqueID + 1 // newWinOffset = newWinOffset + 20 // subsequent pop-ups will be this many pixels lower }

Sexta-feira, Outubro 31, 2008

Pela suspensão do modelo da avaliação do desempenho docente

Movimento de resistencia à avaliação docente (modelo do Ministério da Educação) em Portugal, 30 de Outubro de 2008
(Clique para aumentar)


Neste pequeno mapa podemos observar a localização de muitas das escolas públicas que já se manifestaram contra o modelo da avaliação do desempenho do M.E. com abaixo-assinados ou que suspenderam a mesma ou nas quais se demitiram em grande número os respectivos avaliadores.
Nas zonas da grande Lisboa e do Porto não se consegue observar bem as diversas escolas mas foi o que se obteve do trabalho executado usando o Google Earth.


Fonte: Movimento Escola Pública, 30 de Outubro de 2008
Mapa: Google Earth

Etiquetas: , ,

Quarta-feira, Outubro 29, 2008

Pedro Carvalho* - A crise por detrás da(s) crise(s)

Pedro Carvalho«O moderno poder de Estado é apenas uma comissão que administra os negócios comunitários de toda a classe burguesa»
«Nas crises irrompe uma epidemia social (...) – a epidemia da sobreprodução. (...) E como triunfa a burguesia nas crises? (...) pela aniquilação forçada de uma massa de forças produtivas (...) [e] pela conquista de novos mercados e pela exploração mais profunda de antigos mercados. De que modo, então? Preparando crises mais omnilaterais e mais poderosas, e diminuindo os meios de prevenir as crises.»
K. Marx/F. Engels [1]

A ponta do iceberg

A injecção de capital de 200 mil milhões de dólares, efectuada pelo governo norte-americano no passado dia 7 de Setembro, para salvar os seus dois «gigantes» do crédito hipotecário, Fannie Mae e Freddie Mac [2], marcou o início de uma vaga de operações de salvamento efectuadas por diversos governos do centro do sistema capitalista mundial, por via de tomadas de posição directa no capital ou pela promoção de fusões&aquisições, à medida em que diversos bancos e outras instituições financeiras entravam em colapso. Desde então, só as injecções de capital, com vista à «recapitalização» do sistema bancário, que se traduziram em efectivas «nacionalizações» parciais, ascenderam a mais de 545 mil milhões dólares, em 24 bancos de 7 países do centro do sistema capitalista [3]. Ao mesmo tempo, os governos têm concedido milhares de milhões de dólares em garantias e avales ao sistema bancário e financeiro. Em paralelo, os principais bancos centrais ao nível mundial, tomam acções concertadas de redução das taxas de juro de referência e injectam milhares de milhões de dólares em liquidez no mercado interbancário. Intervenções que visam também trazer confiança aos mercados de capitais, que continuam a deflacionar, no meio de muita volatilidade, numa sucessão de crashs e mini-crashs bolsistas. O FMI estima que só as perdas, ao nível dos activos financeiros e empréstimos dos EUA possam atingir os 1,4 milhões de milhões de dólares [4].

As operações de salvamento em curso seguem a resposta do sistema às crises financeiras que tem pontuado as últimas três décadas: nunca deixar «cair» uma instituição financeira que possa por em causa o fluxo constante de crédito ao sistema e injectar liquidez, de forma directa ou indirecta, «encharcando» o sistema de capital-dinheiro. Foi assim na crise das «savings and loans» [5] durante as décadas de 80-90 (a última crise do sector imobiliário nos EUA), no colapso do hedge fund «Long Term Capital Management» [6] em 1998 nos EUA, na crise do sector bancário dos países nórdicos no seguimento do crash bolsista de 1987 ou, em episódios localizados, como o colapso do Credit Lyonnaise em 1994 em França [7]. Os governos tudo fazem para fazer arrancar o «motor» do crédito do qual depende o sistema capitalista, substituído dívida privada por dívida pública.

Mas face à amplitude da actual crise financeira e ao peso dos activos financeiros detidos pelos principais bancos, levanta-se a questão da sustentabilidade orçamental da resposta tradicional do sistema. Só a título de exemplo, o total de activos detidos pelo ING equivale a quase 3 vezes o PIB da Holanda, ou seja, uma operação de injecção de capital de 1% custaria ao governo holandês 3% do seu PIB, por via do aumento da dívida pública [8]. Ao que acresce o exemplo da denominada «década perdida» do Japão, que no rescaldo do crash bolsista de 1987, entrou num longo período de estagnação económica, do qual ainda não recuperou, apesar de taxas de juro reais negativas e todos os estímulos orçamentais.

A crise financeira vai continuar a agravar-se, na medida que mais ajustamentos serão necessários nos mercados de capitais e no sector bancário, nomeadamente tendo em conta o grau de inflação dos activos financeiros.

O sistema vive hoje a maior crise financeira desde a Grande Depressão da década de 30. Ao contrário das últimas crises financeiras localizadas sectorialmente ou geograficamente, como foi o caso da crise financeira que «varreu» a periferia do sistema capitalista mundial na segunda metade da década de 90 (com destaque para a crise asiática de 1997-1998), a presente crise é global e emana do centro do sistema capitalista mundial. E se o actual episódio de crise pode ser reportado à crise do «sub-prime» de Agosto de 2007 e, recuando a Março de 2000, à crise das empresas «dot.com» – da dita «nova economia», a verdade é que a responsabilidade da actual crise advém do grau de financeirização atingido pelo sistema capitalista mundial.

E a financeirização foi a resposta encontrada pelo sistema para a crise estrutural que atravessa, que reflecte a fraqueza e as contradições inerentes ao processo de acumulação de capital, a sua sobre-extensão, sobreprodução e sobre-acumulação e que afecta a componente central da reprodução do capital – a taxa de lucro esperada. Uma crise de rentabilidade na Tríade (EUA, UE e Japão), no «coração» do sistema capitalista mundial, que se arrasta nas últimas três décadas. A qual acresce um declínio da taxa de reposição do «capital natural» [9], onde a acumulação de capital, que se «alimenta» dos recursos naturais, põe cada vez mais em causa a capacidade de regeneração do meio natural, visível no aumento estrutural dos preços das matérias-primas de um ponto de vista histórico, nomeadamente o petróleo. Esta é a crise por detrás da(s) crise(s). A actual crise financeira é apenas a ponta do iceberg.

A Financeirização e a(s) crise(s)

Entre o esvaziamento da «bolha» especulativa de activos mobiliários, em Março de 2000, e a tentativa gorada, de transferência da «bolha» especulativa dos activos imobiliários para os bens alimentares, as matérias-primas e (sobretudo) o petróleo, o sistema capitalista vai ficando com falta de «balões de oxigénio», para responder ao avolumar da(s) crise(s), numa explosão sem paralelo do crédito e do capital fictício. Dois exemplos para ilustração. O valor da dívida internacional titularizada ascendia a quase 22 milhões de milhões de dólares em 2007, ou seja, mais de 40% do produto mundial e quase 2,5 vezes o valor de 2002 [10] (no primeiro trimestre de 2008, o valor já ascendia a quase 23 milhões de milhões de dólares). Só o valor nacional [11] dos contratos estabelecidos no mercado de derivados, em Dezembro de 2007, ascendia a cerca de 596 milhões de milhões de dólares, ou seja 11 vezes o produto mundial, tendo como base contratos cujo valor de mercado não chegava aos 15 milhões de milhões de dólares [12].

Estes números reflectem a contradição entre o fraco crescimento da base material – a economia real – nas últimas décadas e o forte crescimento do capital financeiro (e fictício), sobretudo no centro do sistema. Este crescimento do «direito de saque» sobre a base material, reflecte-se num «cheque sem cobertura», onde se esgota a capacidade de expansão do capital financeiro, por não haver crescimento da base material que o suporte como contrapartida.

Taxas de lucro


As crises financeiras recorrentes do sistema, com diferentes graus de severidade e com cada vez maior contágio internacional (fruto da «libertina» circulação dos capitais e da integração dos mercados financeiros a nível mundial), são a consequência da sua progressiva financeirização e do crescente predomínio do capital financeiro, que se acentuou desde o início da década de 80. Estima-se que a capitalização bolsista, a dívida titularizada e os activos financeiros em posse dos bancos comerciais, representem mais de 4,2 vezes o produto mundial [13].

Esta tem sido a principal resposta do sistema capitalista para a crise estrutural - a autonomização dos fluxos financeiros, onde o circuito do capital fica reduzido à transformação de capital-dinheiro em mais capital-dinheiro. Esta foi a resposta «deflacionária» (ou «neoliberal») do sistema, sedimentada na década de 90, no consenso de Washington, assente no crédito (endividamento) e na inflação dos activos financeiros. Ao contrário da resposta «inflacionária» (ou keynesiana), seriam os «défices privados» [14], em vez dos «défices públicos», a tentarem contrariar a tendência inerente ao sistema para a estagnação.

A não obtenção das taxas médias de lucro esperadas na esfera produtiva, com a estagnação do crescimento do produto material, o aumento da concorrência intercapitalista, a sobreprodução e o aumento da composição orgânica do capital, levou (e leva) à transferência das mais valias geradas para a esfera (da especulação) financeira e sua centralização em cada vez menos «mãos». E esta é a questão central, a baixa tendencial das taxas médias de lucro e sua baixa, que o aumento das taxas de exploração e as derrotas do bloco socialista, no começo da década de 90, não conseguiram inverter, como demonstra a evolução das taxas médias de lucro na principal potência imperialista – os EUA (ver Gráfico 1) [15].

Ao mesmo tempo, impregna-se a super-estrutura ideológica e usam-se as instituições nacionais (como os bancos centrais) e internacionais (como o FMI), com o suporte do aparelho do Estado (o orçamento), para se criar, quer as condições necessárias ao fomento e sustentação da própria financeirização, quer um quadro potenciador de uma maior intensificação da exploração do trabalho, num contexto de subutilização da capacidade industrial instalada e de crescimento do exército de reserva de desempregados e subempregados, com os cerca de 190 milhões de desempregados e os mais de 1,3 mil milhões de «trabalhadores pobres» existentes a nível mundial em 2007 [16]. Na última década e referenciando apenas as estatísticas oficiais, acrescentaram-se mais 35 milhões de desempregados ao exército de reserva «mundial» [17], num quadro de proletarização crescente de quase todas as camadas sociais. No contexto da actual crise, estima-se que o número de desempregados a nível mundial chegue aos 210 milhões em 2009 e que mais 100 milhões de trabalhadores engrossem as fileiras da pobreza [18].

As causas da crise

As crises financeiras são um «sintoma» da crise estrutural que o sistema capitalista atravessa, que não nos pode fazer distrair das causas profundas subjacentes à actual crise – as contradições e limites do modo de produção capitalista. Esta crise estrutural, com epicentro na potência hegemónica do sistema capitalista – os EUA, resulta da sobreprodução crescente de amplos segmentos industriais do sistema capitalista mundial e da sobre-acumulação de meios de produção existentes, face às dificuldades crescentes de obtenção por parte dos capitalistas das taxas médias de lucro esperadas e de realização das mais-valias geradas na esfera produtiva, sem as quais o processo de acumulação capitalista é interrompido. A perenidade dos gastos em investimento e em consumo são indispensáveis para o processo de acumulação de capital. O investimento para expandir o capital existente. O consumo para realizar a mais-valia. Sem a obtenção das taxas médias de lucro esperadas, os capitalistas não investem. Com o aumento da taxa de exploração e a desvalorização dos salários dos trabalhadores, o consumo não se efectua, sendo o crédito um substituto imperfeito e temporário.

Quotas salariais


O capital constitui em si mesmo uma barreira a sua própria expansão, face à contradição existente entre acumulação de capital e a baixa tendencial das taxas médias de lucro, e, face à contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e as condições limitadas em que se processa o crescimento do consumo.

A ofensiva imperialista procura aumentar, por todos os meios, a taxa de exploração do trabalho – pela intensificação dos ritmos de trabalho, pela redução dos salários reais e pelo aumento do horário de trabalho, procurando extrair mais mais-valias, relativas e absolutas, com a vista a contrariar a tendência para a redução das taxas médias de lucro. Nas últimas quatro décadas têm se verificado a redução progressiva do peso dos salários no produto/rendimento nacionais na Tríade (de década para década), ou seja, tem se verificado um aumento da parte do produto/rendimento que vai para o capital, o que dá uma indicação sobre o progressivo aumento da taxa de exploração (ver Gráfico 2) [19].

Só nas últimas duas décadas estima-se que o peso dos salários no rendimento tenha se reduzido 13 pontos percentuais na América Latina, 10 na Ásia e Pacífico e 9 no centro do sistema capitalista 20].

O sistema capitalista mundial continua assim mergulhado num longo ciclo de estagnação, com crises recorrentes globais e localizadas, que se pode depreender da contínua desaceleração, de década para década, das taxas médias de crescimento do produto mundial (ver Gráfico 3), assim como das taxas de crescimento do produto das potências capitalistas mais desenvolvidas (o G7) [21]. Estagnação que a progressiva integração na economia mundial de potências, como a China, a Índia e a Rússia, não conseguiu inverter.

Se integração destas economias potenciou a exploração de novos mercados e contribuiu para o aumento da taxa de exploração, nomeadamente com a deslocalização da produção dos segmentos de mão-de-obra intensiva do centro do sistema capitalista, um maior acesso a fontes de «capital natural», uma maior integração do capital produtivo e o «embaratecimento» dos meios de reprodução da força de trabalho, aumentou também o grau de sobreprodução e o excesso de capacidade industrial instalada existente, aumentando as dificuldades de manutenção das taxas médias de lucro. As últimas previsões do FMI, apontam que a desaceleração do crescimento mundial irá acentuar-se em 2008 e 2009 22].

Produto mundial

O «capital natural» e a recolonização

Mas na fase actual, o sistema capitalista confronta-se com outro problema estrutural – a escassez da matérias-primas no seu centro e a crescente dependência da sua periferia, fruto das consequências do grau atingido de delapidação dos recursos naturais (nomeadamente a água, os solos, a floresta, os recursos minerais e os hidrocarbonetos - petróleo e gás), que põem em causa a normal «alimentação» do processo de acumulação de capital, que conjuntamente com a «bolha» especulativa no primeiro semestre de 2008, fez disparar os preços dos bens alimentares, das matérias-primas e do petróleo. Desde 2006, o preço médio das matérias-primas não energéticas aumentou 52% e o preço médio do petróleo 95% 23], tendo superado em Junho de 2008 a fasquia dos 140 dólares por barril. A recente descida dos preços das matérias-primas e do petróleo (para preços que rondam os 70 a 75 dólares o barril), em consequência da redução da procura mundial e das perspectivas de forte desaceleração do crescimento do produto mundial, confirma o aumento estrutural dos preços das matérias-primas e sua tendência de subida no futuro, com a progressiva escassez de «capital natural».

A luta pelo domínio dos recursos naturais e das principais fontes de matérias-primas, nomeadamente dos hidrocarbonetos, que são o «motor» energético do sistema, leva à militarização das relações internacionais e à guerra, ao aumento das rivalidades interimperialistas na divisão do mapa-mundo e no reforço da sua presença militar na periferia, a par da concertação estratégica contra outras potências emergentes, como a China. Assiste-se a uma progressiva recolonização pela Tríade (sobretudo EUA e UE) da periferia do sistema capitalista, na ânsia de obtenção de mercados e de controlo de recursos naturais e energéticos estratégicos ao desenvolvimento e reprodução das relações de produção capitalistas. Assim se explicam as «agressões e ocupações» no Médio Oriente, pelo domínio das maiores reservas mundiais de hidrocarbonetos, e o «despertar» do interesse das grandes potências imperialistas por África. Estima-se que se encontrem no continente africano 30% das reservas mundiais de minerais e metais (ainda não exploradas) [24], para além de 10% das reservas de petróleo e de cerca de 8% das reservas de gás 25].

Neste contexto, avolumam-se as contradições entre o centro do sistema capitalista, que concentra cada vez mais o consumo de bens, matérias-primas e recursos energéticos mundiais, e a sua periferia, numa lógica de desenvolvimento desigual, tendo em conta as necessidades, dos novos países emergentes, em matérias-primas e recursos energéticos para assegurarem o seu desenvolvimento, como é o caso da China, da Índia, dos novos países industrializados do Sudeste Asiático e dos países da Europa de Leste. Contradição em que se destaca os EUA que com 5% da população mundial, consome 25% dos recursos energéticos e é responsável por 22% das emissões de CO2 ao nível mundial 26].

A disputa pelo «capital natural» num contexto em que este se revela progressivamente mais escasso, é particular motivo de fricção e a principal causa de actuais e futura(s) guerra(s). A baixa tendencial da taxa de reposição do «capital natural» mete em causa factores essenciais para a sustentação da Humanidade, tornando cada vez mais premente a superação do modo de produção capitalista.

O esgotamento das respostas

As «respostas» que o sistema encontrou para a(s) crise(s) são apenas saídas «temporárias» para o estado de crise permanente e a tendência inerente para a estagnação. Na medida em que o sistema esgota as suas respostas – «inflacionária» e «deflacionária», num contexto em que os limites naturais se impõem e as contradições internas do sistema se agudizam, onde o sistema sofre cada vez mais de um problema de sobre-extensão, impondo limites à contínua expansão geográfica dos mercados, para além dos limites humanos físicos relativos às possibilidades de aumento da taxa de exploração, mais se acentua o perigo para toda a Humanidade de uma saída violenta do sistema – a guerra. Tanto mais quando se abrem brechas na hegemonia (nomeadamente económica) dos EUA e surgem novas potências emergentes na periferia do sistema capitalista.

A fragilidade financeira dos EUA, evidenciada pela actual crise, mostra, não só a fragilidade do sistema financeiro (e monetário) internacional, como põe em causa a posição privilegiada dos EUA, como principal centro financeiro mundial e emissor de moeda «mundial» – o dólar. A forte desvalorização do dólar e dos activos financeiros denominados em dólares, potencia o risco subjacente do excessivo endividamento norte-americano, que tem sido uma peça fundamental, embora precária e artificial, de sustentação do sistema capitalista mundial nas últimas décadas, á custa do crescimento do triplo défice (público, privado e externo) dos EUA, financiados pelas transferências dos seus «rivais» da tríade (Alemanha e Japão) e de outras potências emergentes, como a China. É de sublinhar que, o défice público atingiu os 345 mil milhões de dólares em 2007 (2,5% do PIB, duplicando face a 2000) e o défice da balança de transacções correntes atingiu os 739 mil milhões de dólares (5,3% do PIB, duplicando face a 2000) [27].

Assim impõe-se a seguinte questão: qual o grau de destruição que seria necessário dos meios de produção existentes, para repor a valorização do capital «desejada» e encetar um novo ciclo longo de acumulação de capital? A Grande Depressão, a última crise estrutural do sistema capitalista, apesar da já então resposta keynesiana, só foi «resolvida» com ampla destruição dos meios de produção, principalmente na Europa, na sequência da segunda guerra mundial. Os «trinta anos de ouro do capitalismo» ocorreram num contexto de reconstrução e de escoamento da produção dos EUA, por via do plano Marshall para Europa e do Plano Dodge para o Japão. Em paralelo com o crescimento do complexo industrial-militar, sobretudo dos EUA, em ligação com a «Guerra-fria». Mas dissipados os efeitos do pós-guerra, a crise voltou no final da década de 60. Em 1971, ruía o sistema monetário internacional do pós-guerra. Em 1973, a crise de sobreprodução ressurgia, sob a capa da «estagflação» e no «início» da crise energética, com o atingir do pico de produção petrolífera nos EUA e a guerra de Yom Kippur. Hoje, 35 anos depois, retorna a «estagflação» – estagnação económica com o aumento simultâneo da inflação e do desemprego, no pico da crise energética. Neste contexto ou sistema consegue revolucionar (novamente) os meios e instrumentos de produção, o que implica uma mudança do seu actual paradigma tecnológico, energético e agrícola, ou a guerra se torna cada vez mais provável, como saída do sistema para a crise que atravessa.

Num quadro em que se tornam evidentes os limites históricos do sistema capitalista, num contexto de uma crescente ofensiva imperialista que potencia as derivas destrutivas do sistema para toda a Humanidade, com a sombra da guerra e da destruição do meio natural, onde aumentam as desigualdades de rendimento e a pobreza, deixando milhões de seres humanos longe da satisfação das suas necessidades básicas, torna-se imperioso a tomada de consciência por parte dos trabalhadores e dos povos das causas sistémicas das desigualdades sociais e a necessária ruptura com o modo de produção capitalista. O capitalismo não é reformável nem regulável.

A actual crise financeira, tendo por detrás uma crise estrutural do sistema, potencia a intensificação da luta de classes, a consciencialização da classe operária e o desenvolvimento da acção revolucionária, como se pode depreender pelo recrudescimento das convulsões sociais e das oportunidades revolucionárias que despontam ao nível mundial. Mas estas não resultam em processos revolucionários, a não ser quando surgem sujeitos sociais com disposição revolucionária. E sabemos, por experiência, que o processo revolucionário é irregular, feito de avanços e recuos, de períodos de refluxo e de períodos de ascensão. Esta é a fraqueza dos nossos tempos, na dialéctica entre condições objectivas e subjectivas, o grau de amadurecimento das primeiras (nomeadamente o grau de socialização da produção e de centralização do capital), as condições subjectivas encontram-se numa fase quase embrionária, após anos de derrotas e enfraquecimento do movimento comunista internacional. E a ofensiva imperialista vai crescer em intensidade e violência, com a limitação dos direitos políticos (a mudança das leis eleitorais!) e económicos (ainda) existentes, com a intimidação e o uso dos crescentes aparelhos repressivos, mas também com a progressiva criminalização dos comunistas. Sabemos como a miséria e o desespero podem conduzir a soluções de cariz fascizante, a história do século XX assim o demonstra. São nestes tempos de resistências que vamos ter de (re)construir a alternativa.

Estamos a viver um momento particular da história que terá de trazer mudanças estruturais ao mundo que conhecemos. Um momento de enormes perigos para a Humanidade, mas também de imensas oportunidades, cujo pêndulo dependerá da luta, resistência e conquistas dos trabalhadores e dos povos. Da luta de classes. A Humanidade precisa do triunfo do socialismo. É cada vez mais necessário afirmar o futuro para construir o presente.



Este artigo teve por base a estrutura de um artigo publicado pelo mesmo autor na Revista O Militante nº 296, de Setembro/Outubro 2008, com o título A Crise do Sistema Capitalista.

Notas:
[1] Marx, K./Engels, F., «Manifesto do Partido Comunista», Edições Avante, Março 1999, pp. 38 e 42.
[2] Estas duas instituições possuem ou garantem cerca de metade das hipotecas do sector imobiliário nos EUA.
[3] Estes dados não tem em conta a «nacionalização» de 79,9% do capital da seguradora AIG, que teve uma injecção de capital inicial de 85 mil milhões de dólares no dia 17 de Setembro e um reforço de 37 mil milhões de dólares no dia 9 de Outubro. Esta inclusão faria ascender as injecções de capital para a mais de 667 mil milhões de dólares, dos quais 460 mil milhões de dólares dos EUA, 97 mil milhões de dólares do Reino Unido, 68 mil milhões de dólares da Alemanha e 42 mil milhões dólares dos restantes países (Holanda, Islândia, Suíça, Bélgica). Doherty, S., «State to the Rescue», FT.com, 20/10/2008.
[4] FMI, Global Financial Stability Report, Outubro 2008.
[5] Esta crise afectou mais de 740 associações que recolhiam poupanças e efectuavam empréstimos nos EUA para a compra de habitação – crédito hipotecário. O custo da crise cifrou-se em cerca de 160 mil milhões de dólares, dos quais quase 80% acabaram por ser cobertos por operações de salvamento por parte do orçamento federal norte-americano.
[6] Este fundo de arbitragem dos EUA acabou por ser alvo de uma operação de salvamento da Reserva Federal dos EUA, após perder 4,6 mil milhões de dólares num período de 4 meses, na sequência da crise asiática e da crise na Rússia de 1998. O valor nocional do fundo em derivados chegou a representar quase 1,3 milhões de milhões de dólares.
[7] Para uma perspectiva histórica comparativa das crises financeiras, consultar: Reinhart, C.&Rogoff K., «Is the 2007 U.S. Sub-Prime Financial Crisis so Different? An Internacional Historical Comparison», 5/2/2008.
[8] Para uma perspectiva global sobre o peso dos activos financeiros detidos pelos principais bancos europeus, consultar: O´Murchu, C.&Sauders, E., «Are European banks too big to fail?», FT.com, 7/10/2008.
[9] Sobre esta questão, ver: Rosa, Rui N.,«Uma terra generosa mas finita», publicado www.odiario.info, 23/09/2008 e do mesmo autor «As Crises em Crise – crescimento capitalista em causa», revista «O Militante» nº 296, Setembro/Outubro 2008.
[10] Cerca de 1/3 desta dívida foi emitida em dólares. FMI, Global Financial Stability Report, Outubro 2008.
[11] Os instrumentos derivados são geralmente transaccionados tendo por base o valor nocional, ou seja, o valor que representa o total global da negociação, cujo efeito no resultado será uma variação de preço, taxa ou índice sobre o montante.
[12] Entre Dezembro de 2005 e Dezembro de 2007, o valor nocional dos contratos estabelecidos pelos instrumentos derivados aumentou mais de 73%. Entre Junho de 2007 e Dezembro 2007 (após a crise do sub-prime) o valor nocional sofreu um aumento de mais de 15%, ou seja, um valor de quase 80 milhões de milhões de dólares. FMI, Global Financial Stability Report, Outubro del 2008.
[13] O valor ascendia a cerca de 230 milhões de milhões de dólares. Só o valor da capitalização bolsista no mundo era superior ao produto mundial. A Tríade (EUA, UE e Japão) tem rácios superiores. O valor da capitalização bolsista, da dívida titularizada total e dos activos bancários na UE era 5,5 vezes superior ao seu produto, nos EUA era 4,4 vezes superior e no Japão era quase 5 vezes superior. FMI, Global Financial Stability Report, de Outubro 2008, referentes ao ano de 2007.
[14] Utiliza-se aqui a mesma terminologia usada por Robert Brenner, numa «carta» aos editores da revista Against the Current, intitulada «Devasting Crisis Unfolds».
[15] Utiliza-se para o cálculo aproximado da taxa de lucro a taxa de retorno do capital (lucros depois de impostos/stock de capital). É de recordar que no final da década de 80 e na década de 90 ocorreu uma recuperação das taxas médias de lucro no centro do sistema capitalista, mas para níveis inferiores aos verificados antes da crise do começo da década de 70. «Note on the returns for domestic nonfinancial corporations in 1960-2005», U.S. Survey of Current Business, Maio 2006. Os trabalhos de Robert Brenner também mostram a tendência para a baixa da taxa de lucro no sector industrial na Tríade, ver por exemplo «The Economics of Global Turbulence”, Verso, 2006. Os trabalhos de Chris Harman apontam para as mesmas conclusões, ver por exemplo «The rate of profit and the world today”, International Socialism nº115, Julho 2007. Esta é uma das questões mais controversas entre pensadores marxistas, mas é uma das leis fundamentais para analisar o desenvolvimento do sistema capitalista.
[16] De acordo com a OIT em 2007 existiam 487 milhões de trabalhadores em pobreza extrema (vivendo com menos de um dólar por dia) e cerca de metade dos trabalhadores ao nível mundial encontrava-se em situação vulnerável de acordo com a definição da OIT. OIT, Global Employment Trends, Janeiro 2008.
[17] OIT, Global Employment Trends, Janeiro 2008.
[18] OIT, comunicado de imprensa ILO/08/45, 20/10/2008.
[19] Esta afirmação pode ser comprovada, em termos médios, de década para década, pelos dados da Comissão Europeia referentes á quota salarial ajustada e da OCDE referentes ao rendimento nacional.
[20] OIT, World of Work Report 2008, 16/10/2008.
[21] Carvalho, P., «A crise estrutural do capitalismo, Entre dois fogos: a sobreprodução e a queda das taxas de lucro», Revista Seara Nova nº 1702 (Inverno 2007).
[22] Apesar das diferentes formas de cálculo do produto mundial, o FMI aponta para uma desaceleração do crescimento do PIB mundial para 3,9% em 2008 e 3,0% em 2009 face aos 5% de 2007. A previsão para 2009 aponta para uma estagnação no crescimento económico do centro do sistema capitalista mundial e recuo de 0,1% do produto per capita. FMI, World Economic Outlook, Outubro 2008.
[23] Estes dados referem-se às projecções do FMI e tem como base os índices do FMI para os preços médios das matérias-primas, medidos em dólares. FMI, World Economic Outlook update, Julho 2008.
[24] Blanch, Hedelbert L., «A África e o poder das transnacionais», publicado em www.odiario.info, 20/9/2007.
[25] ONU, «Economic Report on Africa 2007, accelerating Africa´s development through diversification», Fevereiro 2007, pp. 50
[26] AIE, «Key world energy statistics», 2006.
[27] FMI, World Economic Outlook database, Abril 2008.

Porto, 23 de Outubro de 2008

* Economista


Pedro Carvalho, A crise por detrás da(s) crise(s)
– financeirização, sobreprodução e a queda das taxas de lucro, ODiario.info, 29 de Outubro de 2008

Etiquetas: ,

Terça-feira, Outubro 28, 2008

N'Gola Ritmos com Lurdes Van-Dunem - Monami

(Meu filho)

Etiquetas: ,

Sérgio Ribeiro - Romper com o capitalismo

Sérgio RibeiroQuem escora a sua leitura e interpretação da História no marxismo-leninismo, confrontando-a permanentemente com a realidade que vive, tem hoje motivos de satisfação. Não por vanglória de ter razão; não por estulta vaidade pessoal, não porque seja agradável de ver (e de conviver com) o espectáculo do mundo, bem pelo contrário. Mas porque, isso sim, dá força para a luta. Contínua.

Com a humildade que deve ser intrínseca a quem se arroga dessa leitura e interpretação, e de que Marx e Engels deram exemplo, como o prova, de forma cabal, o prefácio de 1872 ao Manifesto de 1848, quando afirma que o programa está hoje, num passo ou noutro, antiquado e que a aplicação dos princípios - que conservam, grosso modo, ainda hoje a sua plena correcção - dependerá sempre e em toda a parte das circunstâncias historicamente existentes.

Hoje, 160 anos depois, o mercado mundial a que se referia o Manifesto, como nele se lê deu ao comércio, à navegação, às comunicações por terra, um desenvolvimento imensurável (e ainda estavam para vir as comunicações por ar, em toda a sua acepção). E acrescenta-se que Este (desenvolvimento) reagiu sobre a extensão da indústria, e na mesma medida em que a indústria, o comércio, a navegação, os caminhos de ferro (e o mais que veio depois, pode acrescentar-se) se estenderam, desenvolveu-se a burguesia, multiplicou os seus capitais, empurrou todas as classes transmitidas da Idade Média para segundo plano (e entre estas estão os estados intermédios, no Manifesto o pequeno industrial, o pequeno comerciante, o artesão, o camponês).

Multiplicou os seus capitais...!, quer isto dizer que, sendo o capital uma relação social ele é, também, um valor sob a forma monetária que é investido para a criação de mais-valia.

Ora, se a possibilidade de ocorrência de sobressaltos (chamemos-lhes crises) na circulação começa com a transformação de M-M (coisa trocada por coisa) em M-D-M (mercadoria trocada por mercadoria por intermédio de moeda, na designação genérica de dinheiro), com o capitalismo, como modo de produção, a circulação passa a ser D-M-D (dinheiro trocado por mercadorias para serem trocadas por dinheiro), e as crises começam a fazer parte do funcionamento do sistema pois a circulação exige que as mercadorias se troquem por dinheiro e o objectivo dela deixou de ser o de satisfazer as necessidades sociais, com M no final da circulação, mas o de realizar mais dinheiro, com D' (mais dinheiro) no final da circulação económica e, para essa realização, não são suficientes as disponibilidades para consumo criadas durante o ciclo.

Na viragem da década de 70 para a de 80 do século passado, tudo se complicou ainda mais com a ultrapassagem, no quadro da luta de classes, de um pico de crise (monetária com inconvertibilidade do dólar, do petróleo) pela via neo-liberal, monetarista, com expressão na crescente importância da circulação D-D' (dinheiro trocado por mais dinheiro, sem passar pelo ciclo produtivo). Chamemos-lhe especulação (bolsista e outras).

Mas esta foi uma forma, precária, instável e desestabilizadora, de ultrapassar uma contradição. Agravando-a. E, ao mesmo tempo, ilustrando a crise como inerente ao sistema, pois servindo para o capitalismo tentar superar, dentro dos seus parâmetros de classe, a contradição no seu funcionamento, cuja é a do desenvolvimento incessante e sem limites das forças produtivas em oposição às dificuldades e aos limites da valorização do capital, enquanto valor sob forma monetária.

Daqui resulta a necessidade, para a sobrevivência do sistema, da destruição de forças produtivas excedentárias (maxime, de seres humanos), excedentárias para a reprodução do capital por não permitirem o processo de sua valorização como valor monetário.

Cada vez mais concentrado e menos valendo porque, mantendo-se a necessidade vital de criação de mais-valia e agudizando-se o desenvolvimento da contradição fulcral entre a capacidade de produção e a capacidade de consumo, esse capital monetário está cada vez mais empolado pela desmedida circulação D-D' (dinheiro a mais dinheiro), com intervenção também cada vez mais relevante do crédito, até pelos constrangimentos e travões na evolução dos níveis salariais.

Por isso mesmo, no actual e gravíssimo pico de crise, a injecção de dinheiro pelo moderno poder de Estado (que... lê-se no Manifesto) é apenas uma comissão que administra os negócios comunitários de toda a classe burguesa, a injecção de disponibilidades financeiras (dizia) é solução precária para a situação estrutural, sistémica, agravando-a a prazo, prazo cuja dimensão temporal é - e só esta o é - imprevisível.

As leis da economia, ainda que sacudidas tempestuosamente pela financeirização, são inelutáveis. No quadro do capitalismo, não existe saída para a crise que não passe pela radicalização violenta, fascizante ou fascista, como foi o caso dos anos 30 do século XX depois da crise de 29, a coberto de aparências democráticas, e pela destruição significativa de forças produtivas, como a militarização e a guerra o exigem e provocam.



O actual pico de crise confirma que o socialismo é um imperativo ditado pela evolução histórica. Mas para que, como possibilidade objectiva que é, ela se torne realidade, exigem-se forças sociais capazes de a concretizarem. Ora, nalgumas partes do mundo essas forças sociais perderam, batalhas que pareciam ter sido ganhas - e que o foram durante décadas -, noutras partes do mundo as forças sociais capazes de protagonizar reais mudanças, isto é, rupturas, não chegaram ainda à maturidade, por ausência de unidade entre os explorados, por divisões entre os trabalhadores, pelo atraso na tomada de consciência da classe operária e de todos os explorados, tudo entretecido capciosamente pela classe dominante e por quem a serve, com uso e abuso desmesurado da força da comunicação e informação, novos e poderosos instrumentos da luta de classes, pela agressividade do imperialismo na defesa dos interesses classistas e na permanente busca de recuperar posições perdidas.

Todas as flutuações que são próprias do processo histórico em nada põem em causa a característica fundamental da nossa época:

a crise do capitalismo abre o caminho para a alternativa ao capitalismo que é o socialismo. Tendo-se de ter bem presente que época histórica não se confina, temporalmente, aos horizontes de existência dos humanos.

Por outro lado, este pico de crise, depois de nos anos 90 do século passado e nesta primeira década do milénio em que outros já houve, depois de sucessivos sobressaltos enquanto se apregoava a estabilidade e o fim da História, este pico de crise veio trazer de novo à ribalta, e numa outra perspectiva, a noção de globalização, que apareceu com o objectivo ideológico de apagar a realidade do imperialismo. Citando Paul Krugman em 1997 (e fica sempre bem citar um Prémio Nobel...): A maioria dos governos do mundo avançado e industrializado, não são tão abalados pela globalização económica como se imagina. Eles mantêm bastante autonomia na regulação das suas economias, na definição das suas políticas sociais, e para a manutenção de instituições que diferem das que impõem aos seus parceiros económicos. E, enquanto se tergiversava sobre globalização, agudizou-se a concorrência inter-imperialista podendo dizer-se que foi a crise que se tornou global! Até já se tendo de falar nos off-shores...

Por isso mesmo, um pouco à boleia do Nobel tão fresquinho e ignorando os que ele chama teóricos acidentais que por aí pululam quando acontece o que outros previram e preveniram, ainda algo acrescentaria sobre geografia económica e soberania nacional.

É que, neste pico da crise do capitalismo, nesta situação evidentemente grave por mais que se avancem com analgésicos comunicacionais, com esperanças-ilusões como Obama ou até mesmo o tão dotado e dito irreverente Nobel da Economia, tudo configura novas formas de adiar a ruptura, através das mudanças à Lampedusa para que tudo fique na mesma, depois de arranjos em que prevaleça a alternância entre os neo-liberais acusados pelos sociais-democratas procurando, aqui, fazer esquecer que compartilharam sempre governos e responsabilidades pelas políticas e invertendo-se, ali, os respectivos papeis na farsa.

Voltando à geografia económica, as referências aos países emergentes são múltiplas e, por exemplo, os nossos banqueiros e políticos da política de direita não fogem ao canto da sereia (ou do cisne?), sempre com Angola nos lábios ou no pensamento. Foi, aliás, um grupo banqueiro transnacional - o Goldman Sachs, que faz parte dos que têm andado agora nas bocas do mundo, e onde o vice-presidente do PSD, e guru do neo-liberalismo, António Borges terá tido lugar importante -, foi este banco que lançou, em 2001, o acrónimo BRIC, a partir de Brasil, Rússia, Índia e China, auto-denunciando intenções estratégicas a que podemos chamar globalizantes, neo-coloniais, imperialistas, ou simplesmente divisão internacional do trabalho, em que esses países teriam lugares proeminentes e papeis destinados no contexto imperialista, o Brasil e a Rússia como fornecedores de espaço e de natureza, a Índia e a China como fornecedores de força de trabalho e de consumidores.

Para este peditório da divisão imperialista do trabalho já Portugal deu, através do que foi a integração no espaço económico europeu, com a subordinação do território e do mar (sublinho: do mar) sob soberania nacional a lógicas alheias ao interesse do País, favoráveis ao grande capital e potências estrangeiras, e o que tem representado uma verdadeira subversão da Constituição da República Portuguesa.

Sublinho, para quem não o lembre, que acabo de citar 2 das 10 rupturas com as políticas de direita que, na Conferência nacional do PCP sobre questões económicas e sociais, realizada em Novembro de 2007!, foram consideradas indispensáveis e urgentes para uma política alternativa que evitasse aos portugueses as consequências das políticas de direita que se inscrevem, servilmente, nesta fase do capitalismo.

Às mudanças nas políticas de direita, há que opor a luta por uma ruptura (e rupturas) com o capitalismo. A alternativa ao que se vive, e aos perigos que a Humanidade corre, é o socialismo!


Sérgio Ribeiro, A Crise do Capitalismo – as causas e a resposta necessária, Partido Comunista Português, 23 Outubro 2008

Etiquetas: , , ,

Segunda-feira, Outubro 27, 2008

A falsa avaliação dos professores - o segundo tempo

Esta não parece ser a história da vara e da cenoura. Mais se parece com o holofote que obscurece a borda da ribanceira.


O momento presente caracteriza-se pelo preenchimento das fichas de avaliação e a fixação dos objectivos. Está escrito: os objectivos para o ano corrente (a média das notas de cada turma) não poderão ser inferiores ao do ano anterior. O professor está assim, perante o dilema: se sente que a turma poderá não alcançar tal média, segundo o seu próprio discernimento, estabelece uma meta mais modesta e aceita uma avaliação negativa do Minsitério, com consequências para a progressão na carreira; ou então, cede à tentação de relaxar o seu sentido de rigor, na esperança de conseguir passar pelo crivo legal. Tudo isto é o que eu designaria por primeiro tempo.


Resta o segundo tempo, ao qual poucos professores se têm referido. Afastemo-nos do buliço das vozes, tentemos perspectivar o desenvolviemnto desta situação num prazo de um ou dois anos. Com toda a probabilidade - está na lógica do mecanismo implementado, caso não lhe seja posto um travão - haverá um número significativo de professores que terão optado pela adesão involuntária ao facilitismo do modelo. Para defenderem o seu ganha-pão, é verdade, porque a isso foram pressionados até por superiores hierárquicos que se "esqueceram" de registar em acta as suas palavras. Que sorte poderão esperar estes professores? Estarão menos vulneráveis que aqueles que tenham optado pela firmeza deontológica na sua prática lectiva? Como será fácil, nessa altura, demonstrar a falsidade dos resultados dos alunos constantes nas pautas: e começar a pedir selectivamente justificações para as classificações atribuidas e assinadas. A assinatura de um trabalhador intelectual é o que ele tem de mais precioso. Para que perca valor, basta ser mal usada uma vez.


Atroz dilema, que mais vale ser ponderado na plenitude das consequências de cada alternativa, antes de moldar de forma irremediável todo o futuro profissional. Este tem que ser defendido em todos os momentos, não se compadece com relaxamentos.

O mais perverso do actual modelo de "avaliação" dos docentes é que tende a transformar todos os professores em cúmplices de um monumental simulacro de sucesso escolar sem qualquer correspondência na real difusão dos conhecimentos, apenas pela via da alteração do significado das notas dos alunos.

Maria de Lurdes Rodrigues já tinha mostrado ao que vinha quando enviou rapidamente um inspector para sacar uma retratação de Manuel Cardoso, na sequência da acusação feita por este de facilitismo ao Ministério. Usou a ministra um motivo instrumental - o eclipse de uma acta de reunião na noite anterior - para esconder a sua responsabilidade política. Note-se que a acusação foi feita nessa altura e pela primeira vez em público, precisamente por esse jovem. Qual o significado da retratação, considerando devidamente as circunstâncias em que foi feita? O seguinte: condição necessária para que a filha de Manuel Cardoso continuasse a beneficiar da profissão do pai para o seu sustento. É tão inglório tentar descobrir as conclusões a que Manuel Cardoso chegou da sua experiência enquanto professor pelo texto da retratação publicada pelo Ministério, como descobrir os avanços que Galileu imprimiu à Física moderna lendo a retratação apresentada à Inquisição.

Com a avaliação de cada docente a depender das notas atribuidas aos alunos, estas deixam de representar a fracção das respostas certas dadas por estes nos testes elaborados pelos professores, significam adicionalmente a condição necessária para que os professores continuem a exercer a sua profissão. Vemos assim que, na arte de instrumentalização dos trabalhadores, o episódio de Manuel Cardoso foi apenas um balão de ensaio. E todas as notas dos alunos daqui para a frente, caso o modelo vingue, não terão correspondência com as notas dos anos passados, no tempo em que os professores não eram forçados a fundir a sua própria classificação com a classificação dos seus alunos.

Etiquetas: , , , ,

Domingo, Outubro 26, 2008

Maria Lisboa - A falsa avaliação dos professores

Que o diploma sobre a avaliação docente é um verdadeiro monstro burocrático já todos constatámos. Que a esse monstro foram sendo implementadas mais cabeças, com os diferentes despachos e memorandos que lhe foram sendo anexados, em nome da regulamentação do monstro, transformando-o numa hidra de Lerna, também já todos nos apercebemos. Que os serviços intermédios do ME, com as suas estranhas interpretações, ainda, o “amostrenguem” mais, também já todos sabemos.
Que entre nós ainda consigamos aprimorar o “bicho” tornando-o ainda pior do que é, é que já ninguém entende.

Espanto-me, cada vez mais, como alguns elementos de uma classe diferenciada, portadora das mais altas habilitações académicas, revela a sua total iliteracia quanto à leitura, interpretação e aplicação de simples articulados de uma legislação.

Que a maioria das leis são mal redigidas é uma verdade. Que a maioria das leis são dúbias é outra verdade. Que nós não somos juristas também é verdade.

Por isso, o que temos que fazer é, apenas, ler. Ler como quem lê um texto. Ler, analisar e aplicar. Não temos que inventar. Não temos que devanear sobre… Não temos que inventar sobre…

Também sabemos que o considerar os resultados dos alunos, como um dos pontos chaves desta avaliação, é um dos maiores erros do monstro. Todos estamos cientes de que este item apenas visa a obrigatoriedade de mostrar resultados para as estatísticas e não o melhorar do ensino e ou da aprendizagem. Por isso mesmo, ainda se torna mais compungente o resultado da criatividade de que enfermam alguns “artistas grelhadores”.

Vejamos o que diz o 2/2008 sobre a relação entre: os resultados dos alunos, a definição de objectivos individuais a auto-avaliação e a avaliação do Presidente do Conselho Executivo (e onde me refiro a resultados dos alunos poderia referir abandono):

Quais são os elementos de referência para a definição de objectivos individuais?

Os objectivos individuais são formulados tendo por referência os seguintes itens:
A melhoria dos resultados escolares dos alunos;
(…)

Quais são os elementos de referência para a avaliação? *

A avaliação do desempenho tem por referência:
  1. Os objectivos e metas fixados no projecto educativo e no plano anual de actividades para o agrupamento de escolas ou escola não agrupada;
  2. Os indicadores de medida previamente estabelecidos pelo agrupamento de escolas ou escola não agrupada, nomeadamente quanto ao progresso dos resultados escolares esperados para os alunos e a redução das taxas de abandono escolar tendo em conta o contexto socioeducativo.


* Reiterados neste ponto que consigna as competências da Comissão de Coordenação da Avaliação do Desempenho:

Os objectivos fixados e os resultados a atingir pelo agrupamento de escolas ou escola não agrupada no âmbito do respectivo projecto educativo ou plano de actividades são considerados pela comissão de coordenação da avaliação do desempenho no estabelecimento de directivas para uma aplicação objectiva e harmónica do sistema de avaliação do desempenho.

Que diz sobre a auto-avaliação?

A ficha de auto-avaliação é entregue aos avaliadores em momento anterior ao preenchimento, por estes, das fichas de avaliação, constituindo elemento a considerar na avaliação de desempenho mas não sendo os seus resultados vinculativos para a classificação a atribuir.

A ficha de auto-avaliação deve explicitar o contributo do docente, durante o exercício das suas funções, para o cumprimento dos objectivos individuais fixados, em particular os relativos à melhoria dos resultados escolares obtidos pelos seus alunos.

Para o efeito da parte final do número anterior o docente apresenta, na ficha de auto -avaliação, os seguintes elementos:
  1. Resultados do progresso de cada um dos seus alunos nos anos lectivos em avaliação:
    1. Por ano, quando se trate da educação pré -escolar e do 1.º ciclo do ensino básico;
    2. Por disciplina, quando se trate dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e do ensino secundário;
  2. A evolução dos resultados dos seus alunos face à evolução média dos resultados:
    1. Dos alunos daquele ano de escolaridade ou daquela disciplina naquele agrupamento de escolas ou escola não agrupada;
    2. Dos mesmos alunos no conjunto das outras disciplinas da turma no caso de alunos dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e do ensino secundário;
  3. Resultados dos seus alunos nas provas de avaliação externa, tendo presente a diferença entre as classificações internas e externas.
Além dos referidos no número anterior, pode o docente apresentar outros elementos (…) que permitam comprovar o seu contributo para o progresso dos resultados escolares dos alunos, a redução das taxas de abandono escolar e a apreciação do respectivo contexto socioeducativo.

E sobre a avaliação realizada pela direcção executiva?

Na avaliação efectuada pelo órgão de direcção executiva os indicadores de classificação ponderam o seguinte:
Progresso dos resultados escolares esperados para os alunos e redução das taxas de abandono escolar, tendo em conta o contexto socioeducativo — aprecia os dados apresentados pelo docente na ficha de auto-avaliação os quais são objecto de validação pelos avaliadores;

Como é possível que lendo o mesmo que eu li (e transcrevi) haja quem seja capaz de fazer uma ficha de registo de avaliação do PCE, como esta?

Fichas Península de Setúbal

Ou uma ficha de definição de objectivos individuais, como esta?

Objectivos individuais


Ou seja obrigado, como noutra que eu conheço, a, na ficha de objectivos individuais, indicar a média de cada turma no ano anterior e a definir objectivos de manutenção ou superação dessas médias (indicando critérios de êxito/superação), não tendo em conta se a turma era do professor, se as notas/níveis foram resultado de subida por votação em conselho de turma, se existem alunos novos na turma, etc.

Ou ainda como noutra, em que foi definida uma determinada média de sucesso por ano de escolaridade e “foi decidido” que se, por acaso existe uma turma mais fraca, outra turma desse ano, que seja melhor, tem que compensar a média (“ganhando” o seu sucesso e mais o sucesso que a outra não conseguir, para cumprir a média).

Só posso dizer que não são os deuses que devem estar loucos, mas sim os humanos! Neste caso específico, alguns humanos-professores!

Será assim tão difícil perceber o que está escrito?

Será difícil perceber que a escola/agrupamento (departamentos e conselho pedagógico) propõe uma meta de consecução de resultados, quer seja em % de redução do insucesso, quer seja em % de aumento do sucesso, que essa meta estabelecida a nível de escola/agrupamento (em geral, ou considerando excepções em determinadas disciplinas que pensem não conseguir atingir a % proposta) deverá constar do Projecto Educativo e que todos os professores deverão trabalhar com os seus alunos para essa meta?

Será difícil perceber que o que se pretende é a melhoria dos resultados, através da redução/aumento da média do insucesso/sucesso obtida na globalidade dos alunos/disciplinas/anos de escolaridade, em função da tal % estabelecida no PE, e não em cada um per si?

Será difícil perceber que só no final é que o professor, na sua auto-avaliação deve fazer a análise, em função dos diferentes itens contidos na ficha de auto-avaliação, justificando aí o seu trabalho neste item? E que será a partir dessa análise que o PCE considerará se houve ou não cumprimento do objectivo neste campo?

Será tão difícil perceber que o professor não pode trabalhar em função de uma média de turma, pré-definida, garantindo que a terá de manter, ou melhorar? É isso que se pretende, mas as circunstâncias variam de ano para ano.

Será difícil perceber um professor não pode definir como objectivo individual o número de 2, 3, 4 ou 5 que vai dar no final do ano… e muito menos ser penalizado porque em vez de cinco 4, e três 5, deu sete 4 e um 5?

Será difícil perceber que um professor não é um fabricante de peças avulso cuja produção pode ser incrementada (… e mesmo aqui só até um certo patamar)?

E que dizer da “definição das médias” encontrada na 1ª ficha de que dou o link? E que dizer quando se considera que um professor é excelente quando atinge uma progressão superior a 100%?

Só pode! Está tudo louco! Ou será que é mesmo, e só, maldade?
Esta ADD é impossível e mais impossível se torna quando os "grelhadores" atingem níveis de loucura que a tornam num inferno de que nem Dante se lembraria.



Maria Lisboa, Loucura ou maldade?, Professores sem quadro, 26 de Outubro de 2008

Etiquetas: ,

Sexta-feira, Outubro 24, 2008

Plataforma Sindical de Professores - Suspensão do modelo de avaliação

Assim não se pode ser professor



A Plataforma Sindical dos Professores e a Ministra da Educação estão em rota de colisão.Plataforma Sindical de Professores



Notícia sobre a necessidade de suspensão do modelo de avaliação em Frenprof, 24 de Outubro de 2008

Etiquetas: , ,

Ministério da Educação - Directores pára-quedistas nas escolas

Para o consumo público ficam os bons princípios. Mas logo a seguir, trata de se desmentir, agindo em contradição com as próprias palavras. Quanto às vozes críticas, basta ir dizendo que são pessoas que não respeitam compromissos, não é assim, Drª Maria de Lurdes Rodrigues? Pois não espere dos outros, sejam o público ou os críticos, maior consideração pelas suas palavras que aquela que demonstra ser capaz através dos seus actos. Até se dissesse que o seu desejo é transformar cada director de escola num lugar apropriado para um boy (ou girl) do Partido Socialista, grangearia da minha parte, se não a anuência, pelo menos o respeito devido a quem sabe ser coerente. O que a fará, Senhora Ministra, correr por tão esconsos caminhos? Estará mesmo convencida de que todos os que escutamos as suas palavras estamos privados de discernimento? (AF)



O Presidente do Conselho Executivo, e simultaneamente Presidente do Conselho Pedagógico, não precisa ser TITULAR! Como explica isto Srª Ministra? A senhora Ministra criou esta distinção entre TITULARES e PROFESSOR! Então os Professores TITULARES não seriam aqueles que iriam desempenhar as funções de maior responsabilidade nas Escolas, um grupo altamente qualificado? Ou será que o Presidente do CE e do CP não é um cargo de responsabilidade? Como justifica que não seja necessário o título de TITULAR, se para outros cargos de menor importância, como Coordenador de Departamento ou de Directores de turma tal cargo é exigido? EXPLIQUE Srª Ministra! E quando este mesmo Presidente do Conselho Executivo tem apenas o equivalente ao antigo 7º ano (ou seja, é bacharel, depois de uma formação à distância de alguns meses)? Há TANTOS nas nossas escolas! Vai avaliar colegas com mestrados e licenciaturas? É ele que vai avaliar TODOS os colegas da Escola. Muitas vezes, para além de ter habilitação muito inferior aos avaliados, há anos que não lecciona! Isto é avaliação séria, Srª Ministra?

A sinistra ministra, 24 de Outubro de 2008

Etiquetas: , ,

Quinta-feira, Outubro 23, 2008

Plataforma sindical de professores - suspensão do processo de avaliação

Plataforma Sindical dos Professores apresenta publicamente exigência de suspensão do processo de avaliação em curso



A Plataforma Sindical dos Professores promove na nesta sexta-feira, dia 24 de Outubro, pelas 17.00 horas, no Hotel Marquês de Sá, uma Conferência de Imprensa em que tornará públicas as razões por que, face à actual situação de desorganização, disfuncionamento e conflitualidade que a aplicação do modelo de avaliação do desempenho está a provocar nas escolas, exige a sua imediata suspensão.

A Plataforma Sindical dos Professores convida os/as Senhores/as Jornalistas a acompanharem esta Conferência de Imprensa.

Fonte: Fenprof, 23 de Outubro de 2008

Etiquetas: , , ,

APEDE reune com FENPROF

APEDE
No próximo dia 29 de Outubro, a APEDE, o MUP e outros movimentos que se queiram juntar irão reunir com a direcção da Fenprof.

Fonte: APEDE, 23 de Outubro de 2008

Etiquetas: , , ,

Várias escolas pedem suspensão da avaliação

Professores de várias escolas aprovaram moções e abaixo-assinados a exigir ao Ministério da Educação a suspensão do processo de avaliação de desempenho, segundo sindicatos e professores contactados pela Agência Lusa.

Ler o resto em Portugal Diário, 23 de Outubro de 2008

Etiquetas: , , ,

Quarta-feira, Outubro 22, 2008

Escola Secundária da Amadora - Proposta de suspensão da avaliação

Escola Secundária da AmadoraSendo a definição dos objectivos individuais simultaneamente o ponto de partida e de retorno do processo de avaliação, é absolutamente fundamental que os professores tenham na sua posse atempadamente os elementos que lhe permitam estabelecê-los de forma realista.
Ora esses objectivos devem assentar:
- na indicação de metas que tenham por referência, de acordo com o estabelecido nos artº 8º e 9º do Dec.-Reg. nº2/2008, o PEE. Sucede que, por nem sempre se considerarem aplicáveis, o C.P. ainda se encontra em processo de revisão e discussão das mesmas;
- no fornecimento de dados estatísticos sobre resultados escolares que cubram um período superior a dois anos de modo a que se possa formular uma proposta credível. Acresce que tais dados, certamente existentes, devem ser integrados no Projecto de Avaliação do Desempenho da escola e facultados antecipadamente a todos os professores;
-nos dados estatísticos sobre abandono escolar por período semelhante ao atrás mencionado, informação igualmente ainda a fornecer aos professores;
- na articulação interdepartamental, em termos de propostas gerais comuns, que obedeçam a um projecto de escola. Tal articulação não foi até à data efectuada por falta de tempo;
-no levantamento de todas as situações em que, por deficiência de instalações e/ou de materiais disponíveis, seja impossível o uso de novas tecnologias e/ou técnicas inovadoras. Até este momento, não há informação de que esse levantamento esteja a ser posto em prática.
Desta forma, e considerando que não existe uma inventariação dos itens anteriormente referidos, parece-nos impraticável manter a data de 31 de Outubro ou mesmo de 14 de Novembro para a apresentação dos objectivos individuais, como inicialmente proposto. Assim, propõe-se a suspensão sine die do calendário já aprovado em Conselho Pedagógico.

Amadora, 21 de Outubro de 2008



Fonte: Resistindo, resistindo..., publicado por ASHA em A sinistra ministra em 22 de Outubro de 2008

Etiquetas: , ,

José Eduardo Agualusa - A Conjura

José Eduardo Agualusa"Contra os bretões marchar, marchar...", este o grito do povo, os versos que o povo deu de cantar na capital do reino e que desceram depois por aí abaixo até às ruas de Luanda. Em Lisboa a notícia do Ultimatum trouxe à cena multidões furiosas mas sem direcção, como um enxame de abelhas a que se lança uma pedra. Escusadamente tremeu o rei pela sua cabeça; escusadamente empalideceram os nobres fidalgos, a próspera colónia inglesa de Sintra e de Cascais: ninguém se lembrou de os guilhotinar! Povo de ódios mansos, de brandas vinganças, os alfacinhas limitaram-se a estilhaçar as vidraças da redacção do jornal progressista Novidades e, defronte do edifício de O Século, à Rua Formosa, a aclamar longamente os eufóricos arautos da república. Em vão se barricou D. Carlos no seu palácio de Belém, toda a noite incomodado por fortes diarreias; toda a noite de espada na mão, a bradar que venham, venderemos cara a vida. (Que isto de ser rei exige exemplar heroísmo e compostura!)

A Conjura @ 2008, José Eduardo Agualusa

Etiquetas: , , , ,

Paulson e Bernanke - Pedido de empréstimo

Stewart: Então, meus senhores, Paulson, Bernanke, é um prazer vê-los aqui… novamente.

Paulson: Quero dizer-lhe que esta não é uma posição na qual eu queria estar. Eu não queria estar nesta posição…

Stewart: Descontraia-se, meu caro… sendo avaliador de empréstimos ouço isto todos os dias. Agora passemos a algumas formalidades. Como foi a sua carreira profissional?

Paulson: Fui director executivo da Goldman Sachs desde… Janei… Desde Maio de 1999 até sair, para vir para cá, em meados de 2006.

Bernanke: Nunca trabalhei em Wall Street, não tenho esses interesses nem essas ligações.

Stewart: Não estejam nervosos rapazes. Ambos são brancos, ambos são ricos, logo é claro que isto não é um daqueles empréstimos “sub-prime” com que nós tivemos de lidar. Muito bem, chega de conversa fiada, passemos aos números. Quanto é que estão a pedir?

Paulson: 700 mil milhões de dólares.

Stewart: 700 mil milhões? É que, segundo os meus registos, já cá esteve quatro vezes este ano, a pedir 25 mil milhões para a indústria automóvel, 85 mil milhões para uma companhia de seguros, 200 mil milhões para umas tais de Fannie e Freddie não-sei-quantas…

Paulson: É preciso mais.

Stewart: Pois, bem… Só de aceitares um cheque, ó careca. Aliás, um cheque careca. Um cheque sem cabelo… Digo cobertura… Só mais uma perguntas, minha gente, para quem é que vai esse dinheiro? Para o povo, calculo?

Paulson: Uma vasta gama de instituições… Bancos grandes, bancos pequenos, de depósitos e empréstimos, cooperativas de crédito…

Stewart: Porque é que não disse logo? Eles são de confiança, vão devolver-nos o dinheiro, certo? Barbudo (Bernanke), tens estado para aí calado.

Bernanke: Vai ser recuperada uma percentagem substancial, mas se será o total é difícil saber.

Stewart: É difícil saber… Interessante. Normalmente exijo uma resposta melhor, mas tendo em conta que foram vocês que nos meteram nesta crise, não terei o mesmo grau de exigência. Vamos ver se percebi bem: querem que vos demos quase um bilião de dólares para vocês os entregarem a bancos falidos, geridos por tipos que usam notas para acender os charutos e o melhor que me conseguem dizer é que talvez nos devolvam algum do nosso dinheiro?

Bernanke: Os contribuintes americanos verão o seu dinheiro bem empregue. Não consigo prever o futuro e já me enganei diversas vezes.

Stewart: Sabem que mais? Que se f… levem lá o dinheiro. Mais um empréstimo perdido? Tanto faz.



Transcrição de Diogo.

Não perca o video com legendas em português.

Etiquetas: , ,

A auto-avaliação dos alunos

Posição pessoal acerca da ficha de auto-avaliação

Não aceito que a ficha de auto-avaliação dos alunos seja incorporada no meu processo de avaliação de desempenho, por ofender as minhas convicções pessoais acerca da acção docente.

Ao solicitar aos meus alunos o preenchimento da sua ficha de auto-avaliação, deverei fundamentar a honestidade do seu preenchimento, na desvinculação dessa ficha à avaliação, quer do aluno, quer do docente.

Se não puder afirmar isso explícitamente, nesse caso a mensagem que lhes faço chegar, por omissão será que o preenchimento da ficha destina-se precisamente a produzir efeitos, quer na avaliação do aluno quer do professor.

E eles vão perceber que o interesse em dizer bem do professor é recíproco, uma vez que ele tem necessidade de ilustrar boas notas com boas apreciações, do mesmo modo como tem necessidade de justificar más notas com depreciações.

E para a escola, então será o desastre total da sua credibilidade externa, uma vez que passará a ser aquela escola onde os professores são avaliados pelos alunos, onde aquele professor que não deixa os alunos irem à casa de banho não tem hipótese de progredir na carreira.

E para cúmulo, até o calendário em que a ficha é aprovada contribui para reforçar essa ideia, porque não é uma ficha que já se encontrava em vigor nas tradições da escola, no momento em que a escola decidiu integrá-la no sistema de avaliação docente.

Por tudo isso, e acima de tudo por uma questão de respeito aos meus alunos, venho informar da minha recusa em aceitar a introdução da ficha de auto-avaliação dos alunos no meu processo de avaliação de desempenho. Não posso aceitar que o meu relacionamento com os alunos venha a ser envenenado por um processo de avaliação que não tem por ambição interferir no processo pedagógico, mas apenas observá-lo.

Etiquetas: , ,

SPGL - A avaliação de desempenho nas escolas

(via (Re)flexões)

Etiquetas: , ,

Jean Salem - Lenine e a Revolução

Para compreender a História do Século XX (AF)
Jean Salem, Lenine e a Revolução


Ver também:
Entrevista com o Autor
Apresentação por Miguel Urbano Rodrigues

Etiquetas: , , ,

Terça-feira, Outubro 21, 2008

Portimão - Manifestação da Revolta Docente

Manifestação da Revolta docente, Portimão, 21 de Outubro de 2008

Manifestação da Revolta Docente



Moção



Os professores e educadores presentes na Manifestação da Revolta Docente, em Portimão:

  1. Declaram o seu mais veemente protesto e repúdio perante o Novo Modelo de Avaliação de Desempenho introduzido pelo Decreto Regulamentar nº 2/2008.
  2. Recusam um modelo que configura uma lógica burocrática, economicista, punitiva, anti-pedagógica e normalizadora, desviando os reais objectivos que devem presidir ao processo de ensino-aprendizagem e sujeitando os professores a tarefas de índole meramente burocráticas de elaboração de documentos, em prejuízo das funções pedagógicas e didácticas.
  3. Rejeitam um modelo de avaliação assente num Estatuto da Carreira Docente que divide arbitrariamente a carreira em duas categorias, bem como um regime de quotas que impõe uma manipulação dos resultados da avaliação, o que irá provocar nas escolas situações de uma tremenda parcialidade e injustiça e fabricar um falso sucesso escolar.
  4. Consideram ilegítimo e injusto que a avaliação de desempenho e a progressão na carreira dos docentes, se subordine a parâmetros como a avaliação atribuída aos seus alunos e o sucesso destes. Tal como rejeitam frontalmente a penalização nos critérios de obtenção de “Muito Bom” ou de “Excelente”, pelo facto de usarem direitos protegidos e consagrados constitucionalmente, como sejam a maternidade/paternidade, doença, o cumprimento de obrigações legais e nojo, ou a participação em eventos de reconhecida relevância social ou académica.
  5. Acham execrável que este modelo de avaliação de desempenho – um autêntico monstro – sirva para adulterar a graduação profissional dos professores através da introdução de uma nova variável na graduação, ou seja, um professor que obtenha Excelente vai ter mais 3 valores na graduação, um que tenha Muito Bom terá mais 2 valores e os restantes, com Bom, Insuficiente ou Regular levam todos zero.
  6. A vida nas escolas está num autêntico sufoco e os professores já não aguentam mais, passado que é apenas um mês de aulas. São reuniões sucessivas e intermináveis, sobrecarga de tarefas e aumento de ritmos e horas de trabalho, aumento das divisões e tensões na classe, preenchimento de grelhas, objectivos e de todo o tipo de papelada burocrática que não serve rigorosamente para nada. Os professores e educadores, a perder cada vez mais os seus direitos históricos, não têm tempo para se dedicarem ao nobre acto para que foram formados – ensinar devidamente os seus alunos. Tal, irá reflectir-se negativamente na aprendizagem destes.
  7. Os professores e educadores não questionam a avaliação de desempenho como um instrumento que conduza à valorização das suas práticas docentes, com resultados positivos nas aprendizagens dos alunos e promotor do desenvolvimento profissional. Um modelo que seja o resultado de um amplo debate nacional entre os docentes, os seus legítimos representantes e o Ministério da Educação, que seja consistente, formador e capaz de valorizar a diversidade de competência que compõem a escola. Desta forma, a Escola Pública será prestigiada, valorizada e dignificada.


Perante o acima exposto, os professores e educadores presentes:
  1. Exigem ao ME a suspensão imediata do actual modelo de avaliação de desempenho.
  2. Saúdam as diversas iniciativas de resistência e protesto que se têm vindo a manifestar em diversas escolas do país contra este modelo de avaliação.
  3. Apelam a todos os Movimentos e Sindicatos de Professores para que, Todos em Unidade, participem em Novembro, numa Manifestação Nacional contra este modelo de avaliação de desempenho e as políticas negativas do governo na área do ensino e educação.
  4. Exortam todos os Professores e Educadores deste país a lutarem pelos seus direitos e em Defesa da Escola Pública, resistindo, ampliando e participando em todas as acções de protesto e revolta contra essas políticas negativas e, em particular, contra o “monstro” que representa este modelo de avaliação de desempenho. Há que aniquilar o “monstro”, antes que nos devore!


Portimão, 21 de Outubro de 2008


Observação: Esta Moção foi aprovada por unanimidade e aclamação por uma centena de professores presentes na Manifestação da Revolta Docente.




Fonte: Fénix Vermelha

Etiquetas: , , ,

Escola de Vila Nova de Poiares - Suspensão da Avaliação de professores

(Recebido via email de Moriae)

"O Agrupamento de Escolas de Vila Nova de Poiares pediu ao Ministério da Educação a suspensão do processo de avaliação de desempenho. Segundo o Conselho Executivo, o modelo é "inexequível" e os professores estão "sem tempo" para os alunos.
Numa carta enviada à ministra da Educação, a que a Lusa teve acesso, 116 dos 130 professores do Agrupamento de Escolas de Vila Nova de Poiares pedem a "revogação imediata" do despacho que institui a avaliação de desempenho e de toda a legislação "conexa".
Os docentes consideram que a aplicação do modelo é "inexequível, por ser inviável praticá-lo segundo critérios de rigor, imparcialidade e justiça" e que "não contribui nem para o sucesso dos alunos, nem para a qualidade do trabalho pedagógico que os professores pretendem".

"Assenta numa perspectiva desmesuradamente burocrática, quantitativa e redutora da verdadeira avaliação de desempenho dos docentes. Pela sua absurda complexidade, não é aceite pela maioria dos professores deste país, não se traduzindo, por isso mesmo, em qualquer mais-valia pessoal e/ou profissional", lê-se na missiva.

Em declarações à agência Lusa, a presidente do Conselho Executivo afirma que os professores já andam "deprimidos, extremamente cansados e desmotivados", garantindo que o tempo disponível para os alunos "é diminuto".

"Se esta burocracia traduzisse no final um benefício para a educação fazíamos um sacrifício ainda maior. Mas pensamos que o que se passa é o contrário. Isto é acabar com o ensino porque os professores estão sem tempo para os alunos", garantiu Maria Eduarda Carvalho.

Segundo a responsável, os problemas começam logo com a divisão da carreira em duas categorias: professor e professor titular. Naquele agrupamento de escolas, os professores titulares do departamento de Matemática, avaliadores, são todos docentes da disciplina.

"Como podem avaliar um professor de Física, Química ou Informática quando cientificamente não tem nada a ver? Com a delegação de competências tenho professores de Educação Visual a avaliar professores de Educação Física", crítica a docente.

Maria Eduarda Carvalho acrescenta que a "grande maioria" dos docentes do agrupamento trabalha "muito mais" do que as 35 horas semanais e que alguns já estão a pensar abandonar a profissão.

"Este ano já se reformaram dois professores e outros dois estão a pensar pedir a reforma para o ano, ainda que com penalizações. O que me vale é que tenho um corpo docente jovem e sem tempo de serviço para o poder fazer", diz.

A presidente do Conselho Executivo sublinha ainda que a avaliação vai interferir com o "futuro e as vidas" dos professores, já que a classificação final influenciará o concurso de 2009, que vai ditar as colocações para os quatro anos seguintes.

"Não pode ser com uma avaliação leviana como esta", criticou a responsável, afirmando que, no seu caso, não se sente "preparada" nem "formada" para avaliar um docente de Educação Física, por exemplo: "Não sei avaliar se ele está a preparar bem as aulas".

Sublinhando que "os objectivos individuais e colectivos dos professores do agrupamento são ensinar os alunos e prepará-los para uma sólida construção de um projectos de vida", o conselho pedagógico aprovou no final de Setembro um outro documento, onde manifesta "repúdio" e "oposição" ao modelo do Ministério da Educação.

"A existência e o uso destes instrumentos de avaliação, ou de quaisquer outros baseados na mesma legislação, merecem o nosso repúdio e a nossa total oposição por serem não só inadequados como prejudiciais à nossa função de professores", lê-se numa declaração, igualmente enviada a Maria de Lurdes Rodrigues.

Segundo o Conselho Pedagógico, o Ministério da Educação, com as suas reformas, conseguiu "um efeito verdadeiramente subversivo". "Subverteu a essência do trabalho dos professores: em vez de estar a ser orientado para resolver os problemas dos alunos, ele centra-se, agora, nos problemas profissionais dos professores".

"Esperamos que este esforço não seja em vão e que, pelo menos, possa levar, no final deste ano lectivo, à revisão e alteração deste monstro aterrador que nascido do casamento entre a injustiça e o disparate só pode parir injustiças e disparates", lê-se.

Contactado pela Lusa, o assessor de imprensa do Ministério da Educação sublinhou que o Conselho Pedagógico aprovou os instrumentos de registo e que a avaliação "não está parada" no estabelecimento de ensino." (Lusa / EDUCARE| 2008-10-21)

Etiquetas: , , , ,

Jim Brown - Tempestade no Deserto

Apresente-se, por favor.
Chamo-me Jim Brown. Sou veterano do exército americano com dez anos de experiência.

Quando esteve no Iraque?
Fui enviado para Arábia Saudita para apoiar as tropas que deveriam intervir no Iraque. Entrei em serviço em 25 de Setembro e deixei a Arábia Saudita em 16 de Fevereiro de 1991.

O que ocorreu ali que ainda não é conhecido?
Os militares americanos, junto com seus aliados, lançaram uma bomba nuclear de cerca de cinco quilotoneladas de potência na zona de Basrá, no Iraque.

Onde a lançaram?
Entre a cidade de Basra e a fronteira com o Irão.

Quem a lançou?
O serviço foi feito por militares americanos. É uma bomba nuclear de cinco quilotoneladas que tem o nome de ''bomba nuclear de potência variável''.

...


Não tem medo de falar disso?
É preciso entender o que é o medo. Há um ponto em que deve dizer: Basta! E quando você supera essa linha, não é por estar muito certo de si. Você faz ou não faz. Quando estava ao serviço levantei a mão direita e fiz um juramento, afirmando ''Isso é o que defenderei''.

Transcrição parcial da entrevista encontrada em Antreu, 20 de Outubro de 2008

Jim Brown
(Clicar sobre a figura para lançar o vídeo da entrevista)


Mais referências em:
L’accusa del veterano la terza bomba nucleare, RaiNews24, 8 de Outubro de 2008

Etiquetas: , , ,

Zé Carlos - Acção de Formação do magalhães

A verdadeira apoteose do caciquismo do Ministério da Educação. Maria de Lurdes Rodrigues revela o que entende por autonomia das escolas e a sua visão sobre o futuro de Portugal. O Ministério transformado numa máquina de lavagem cerebral. Professores transformados em crentes imbecilizados. Magnífica peça dos Gatos Fedorentos. Há momentos em que só o sarcasmo em altas doses permite recuperar o equilíbrio psico-somático.




Fonte: Episodio 3 - Zé Carlos - Acção de Formação do magalhães

Etiquetas: , , , ,

Segunda-feira, Outubro 20, 2008

Previsões políticas para 2009

Laboratoire Européen d'Antecipation Politique
  1. A evolução recente, em alta, do dólar é uma consequência directa e provisória da queda das bolsas mundiais
  2. O "baptismo político" do euro acaba de ter lugar dando uma alternativa "de crise" ao dólar, enquanto "valor refúgio" crível
  3. A dívida pública americana incha de maneira doravante incontrolável
  4. O colapso em curso da economia real dos Estados Unidos impede toda solução alternativa à cessação de pagamentos.
  5. "Forte inflação ou hiper-inflação nos Estados Unidos em 2009", esta é a única questão.


Laboratoire Européen d'Antecipation Politique, Alerte Crise Systémique Globale - Eté 2009 : Cessation de paiement du gouvernement américain, 15 de Outubro de 2008

Tradução para português em Resistir.info, 20 de Outubro de 2008

Etiquetas: , , , , ,

Ana Lima - Aos alunos e aos pais

Pais e filhos
- Porque é bom estar precavido contra as informações, tantas vezes falaciosas, dos media e a campanha enganadora, folclórica, do Ministério da Educação …

- Porque, sobretudo, todos queremos o bem dos nossos alunos / dos nossos filhos, e uma escola pública de qualidade, impõe-se uma reflexão, e uma divulgação:

Por que razão acabam os alunos tão prejudicados por estes modelos educativos, por este processo de avaliação dos seus professores?

1. desde logo, as passagens quase administrativas que se antevêem (e a ministra apregoa sem pudor) e que mais tarde conduzirão esta geração (que, ainda por cima, vai competir com alunos de países europeus que levam a educação muito a sério)- apenas - ao desemprego.
Passagens essas (as estatísticas do sucesso), convém saber, que condicionam a avaliação dos professores e a cujo apelo apenas alguns (muito poucos) resistirão.

2. os Cursos de Educação e Formação (CEFS) em que o aproveitamento dos alunos que os integram (os que não conseguem ou não têm apetência por frequentar um curso de currículo ‘normal’) é um ‘dado adquirido’ - e exigido pela tutela, seja qual for o nível das suas aprendizagens (normalmente zero, não nos iludamos…) .
Em que estes alunos, conscientes da inimputabilidade dos seus comportamentos e do ’sucesso’ que lhes é, à partida, garantido, inviabilizam sistematicamente qualquer tentativa de se lhes ensinar o que quer que seja, fazem gala em evidenciar uma total ausência de empenhamento ou de interesse (seja pelo que for) e transformam a vida dos seus professores num inferno.
Futuro, mais que previsível - assegurado, para estes alunos: o desemprego, eventualmente a marginalidade

3. prejudicados, também (e muito!!) virão (estarão já) a ser, todos os alunos, pelo estado de exaustão em que se encontram os seus professores (e ainda agora começámos o ano lectivo), resultante de um processo burocrático que lhes consome tempo e energias para actividades alheias ao trabalho das aulas, por horários de permanência na escola para além de qualquer limite razoável e sem condições mínimas de trabalho, que os impedem de fazer aquilo que verdadeiramente interessaria: preparar aulas e materiais de apoio às aprendizagens dos seus alunos - em casa – que é onde melhor o fazem (onde sempre o fizeram…) , pura e simplesmente porque é aí que têm as condições necessárias.

Desta exaustão dos professores decorrem consequências inevitáveis:

- as aulas mal preparadas ou improvisadas
- a falta de paciência para com os alunos
- a demora na entrega dos testes e outros trabalhos
- a falta de saúde que se seguirá (que está já a afectá-los…)

É bom que se saiba que grande parte dos professores deste país já só se ‘aguenta’ à base de antidepressivos, ansiolíticos, calmantes, e .. cafés. Que grande parte vem tendo já muita dificuldade em dormir. Avaliem, então, do estado em que estarão, quando lidam com os vossos filhos…

É bom que se saiba, também, o que todos nós, professores (se calhar de todas as idades), já receamos: mais cedo ou mais tarde, ou ficamos de baixa, ou morremos! E não, não é exagero! (antes fosse.) Já no ano passado, foram inúmeros os casos de AVC a meio da aula, os casos de ‘n’ professores a terem de ser assistidos nas urgências dos hospitais porque a tensão arterial de repente ‘disparou’, em resultado do stress, do excesso de trabalho, do desgaste em que se traduzem horas e horas improdutivas passadas na escola , e das campanhas difamatórias a que vêm sendo sujeitos desde que esta equipa ministerial entrou em funções.

Então … parece-me claro: o futuro dos nossos alunos (e temo que próximo, muito próximo) só pode ser este: turmas e turmas sem aulas porque o professor ‘rebentou’ .

E levará tempo, muito tempo, até que a escola, o ministério, reponham as baixas. Até que nos substituam por outros masoquistas/ missionários. Esperemos, a bem dos nossos alunos, que não-mercenários.
E não, não haverá Magalhães que lhes valham…

E é precisamente isto, colegas, amigos, mães e pais, que, na minha opinião, os nossos alunos, os seus Encarregados de Educação, deveriam saber. E que está nas nossas -nas vossas- mãos explicar-lhes. Já.

Os filhos das classes ‘privilegiadas’ optarão por colégios particulares. Todos os outros verão o seu futuro seriamente comprometido: pelo baixo nível de exigência, pelo facilitismo, e pelo decorrente clima de indisciplina, de violência, que só poderá agravar-se.

A escola pública portuguesa, que até há bem pouco tempo tinha mais qualidade e melhores profissionais que a privada, irá brevemente reproduzir o modelo das escolas americanas que vemos nos filmes. Irá reproduzir, também, os actos violentos, impensáveis, que ocorrem nas escolas dos EUA, cujos ecos periodicamente nos chegam, carregados de horror.
É esta a meta desta equipa, no ME. Em nome da redução do déficit, da construção de uma imagem eleitoralista, de estatísticas fictícias para ‘Europa ver’.
É este o panorama , o futuro, de que temos, todos, de estar cientes. A tendência que temos, todos, obrigação de contestar, de inverter. Em nome dos nossos alunos, dos nossos filhos, dos filhos deles.

Saudações,

Ana Lima


Ana Lima in A educação do meu umbigo, 20 de Outubro de 2008

Etiquetas: ,

Para cantar na camioneta ... !!

Para todos aqueles que se preparam para se deslocar a Lisboa, aqui envio uma sugestão para animar a caminhada.
Desejando uma boa viagem, na companhia daqueles que não deixam por mãos alheias a reclamação do que sentem como seu.


Etiquetas: , , ,

Mortalidade Infantil

Mortalidade infantil

Editorial de The New Tork Times de 18 de Outubro de 2008

Etiquetas: ,

Domingo, Outubro 19, 2008

Deutsche Weller - Esmagar os paraísos fiscais

Com a economia mundial ferida pelo aguilhão da quebra financeira, muitos países desejam esmagar os chamados paraisos fiscais num esforço desesperado para levantar as suas finanças.

Depois de os governos do EUA e da Europa terem salvo numerosos bancos, muitos políticos começam agora a questionar sobre a razão da algumas instituições financeiras continuarem a operar em países que encorajam a evasão fiscal.
Será normal que um banco ao qual caucionamos os empréstimos com os nossos fundos ... continue a operar em paraísos fiscais?
perguntou o Presidente da França, Sarkozy, na semana passada.

Vinte países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) encontrar-se-ão em Paris na próxima terça-feira para discutirem como resolver a questão, se bem que os EUA não participem porque a campanha eleitoral está no seu fim.

Os países publicarão uma carta expressando o seu desejo de esmagar os paraísos fiscais.

Paraísos fiscais são países com uma estrutura de impostos tal que indivíduos ricos ou companhias pagam pouco ou nenhum imposto. Atraem investidores estrangeiros porque o dinheiro pode lá ser depositado com alto nível de secretismo e protecção contra as polícias de investigação internacional.

O Liechtenstein foi recentemente visado de uma forma particular, pelo secretismo contemplado aos investidores e depositantes internacionais das contas nos seus bancos. A OCDE qualificou este ano este pequeno principado como não colaborante.

A Alemanha à caça de fugitivos aos impostos

A Alemanha persegue alguns cidadãos nacionais, incluindo o exonerado Director Nacional dos Correios, pela falta de pagamento dos impostos, protegendo os activos em instituições financeiras do Liechtenstein.

Segundo o grupo de pressão Transparency International France, existem aproximadamente 50 paraísos fiscais em todo o mundo, nos quais operam mais de 400 bancos, dois terços dos bancos de crédito a outros bancos (hedge funds) e dois milhões de empresas de topo ocultam cerce de 10 triliões de dólares de activos financeiros - quatro vezes o Produto Nacional Bruto da França.

A reunião já havia sido agendada várias vezes, mas a crise financeira conferiu-lhe um carácter de urgência.
Não podemos resolver a crise financeira introduzindo maior regulação e mantendo bolsas de desregulação a prosperar,
disse Pascal Saint Amans, chefe da divisão internacional de impostos da OCDE.

Os centros de Offshore não são directamente responsáveis pela crise

Embora não sejam a causa da crise, para Christian Chevagneux, autor de um livro sobre o assunto, os centros de offshore permitiram a bancos como o Britain's Northern Rock, ou bancos de investimento dos EUA como o Bear Stern, ocultarem os seus prejuizos.

Também afectaram a estabilidade do sistema, ao hospedarem a maior parte dos bancos "hedge funds", estando muitos sediados nas ilhas Caimã. Estes fundos não-regulados e especulativos venderam muitos activos nas duas últimas semanas, contribuindo para a queda das acções no mercado e para a baixa dos preços das matérias-primas.

Para os paraísos fiscais, no clima político actual acabaram-se as complacências.
A França e a Alemanha sempre foram hostis aos paraísos fiscais. Se Barack Obama for eleito, os tempos vindouros serão bem duros para ele,
disse Chavagneux aos repórteres.

Com uma postura contrária à do Presidente George W. Bush, o candidato presidencial fez do combate aos paraísos fiscais uma peça chave da sua campanha.

NDA (jornalista da Deutsche Weller), OECD to Crack Down on Tax Havens in Finance Crisis Action, 19 de Outubro de 2008

Etiquetas: , , , , ,

Sábado, Outubro 18, 2008

Concordo, como mãe e professora

Comentário copiado do Blog: Educação do meu umbigo
relativo ao post:
Mais Imbróglios Financeiro-Tecnológicos
(EF)

CARTA DE E.de EDUCAÇÂO A JOSÉ SOCRATES

É longa, mas vale a pena ler

Sr. Engº José Sócrates,

Antes de mais, peço desculpa por não o tratar por Excelência nem por Primeiro-Ministro, mas, para ser franca, tenho muitas dúvidas quanto ao facto de o senhor ser excelente e, de resto, o cargo de Primeiro-ministro parece-me, neste momento, muito pouco dignificado.

Também queria avisá-lo de antemão que esta carta vai ser longa, mas penso que não haverá problema para si, já que você é do tempo em que o Ensino do Português exigia grandes e profundas leituras. Ainda pensei em escrever tudo por tópicos e com abreviaturas, mas julgo que lhe faz bem recordar o prazer de ler um texto bem escrito, com princípio, meio e fim, e que, quiçá, o faça reflectir (passe a falta de modéstia).

Gostaria de começar por lhe falar do “Magalhães”. Não sobre os erros ortográficos, porque a respeito disso já o seu assessor deve ter recebido um e-mail meu. Queria falar-lhe da gratuitidade, da inconsequência, da precipitação e da leviandade com que o senhorEngenheiro anunciou e pôs em prática o projecto a que chama de E-escolinha.

O senhor fala em Plano Tecnológico e, de facto, eu tenho visto a tecnologia, mas ainda não vi plano nenhum. Senão, vejamos a cronologia dos factos associados ao projecto “Magalhães”. No princípio do mês de Agosto, o senhor engenheiro apareceu na televisão a anunciar o projecto e-escolinhas e a sua ferramenta: o portátil Magalhães. No dia 18 de Setembro (quinta-feira) ao fim do dia, o meu filho traz na mochila um papel dirigido aos encarregados de educação, com apenas quatro linhas de texto informando que o “Magalhães” é um projecto do Governo e que, dependendo do escalão de IRS, o seu custo pode variar entre os zero e os 50 euros. Mais nada! Seguia-se um formulário com espaço para dados como nome do aluno, nome do encarregado de educação, Escola, concelho, etc. E, por fim, a oportunidade de assinalar, com uma cruzinha, se pretendemos ou não adquirir o “Magalhães”. No dia 22 de Setembro (segunda-feira), ao fim do dia, o meu filho traz um novo papel, desta vez uma extensa carta a anunciar a visita, no dia seguinte, do primeiro-ministro para entregar os primeiros “Magalhães” na EB1 Padre Manuel de Castro. Novamente uma explicação respeitante aos escalões do IRS e ao custo dos portáteis. No dia 23 de Setembro (terça-feira), o meu filho não traz mais papéis, traz um “Magalhães” debaixo do braço.

Ora, como é fácil de ver, tudo aconteceu num espaço de três dias úteis em que as famílias não tiveram oportunidade de obter esclarecimentos sobre a futura utilização e utilidade do “Magalhães”. Às perguntas que colocámos à professora sobre o assunto, ela não soube responder. Reunião de esclarecimento, nunca houve nenhuma.

Portanto, explique-me, senhor engenheiro: o que é que o seu Governo pensou para o “Magalhães”? Que planos tem para o integrar nas aulas? Como vai articular o seu uso com as matérias leccionadas? Sabe, é que 50 euros talvez seja pouco para se gastar numa ferramenta de trabalho, mas, decididamente, e na minha opinião, é demasiado para se gastar num brinquedo. Por favor, senhor engenheiro, não me obrigue a concluir que acabei de pagar por uma inutilidade, um capricho seu, uma manobra de campanha eleitoral, um espectáculo de fogo de artifício do qual só sobra fumo e o fedor intoxicante da pólvora.

Seja honesto com os portugueses e admita que não tem plano nenhum. Admita que fez tudo tão à pressa que nem teve tempo de esclarecer as Escolas e os professores. E não venha agora dizer-me que cabe aos pais aproveitarem esta maravilhosa oportunidade que o Governo lhes deu e ensinarem os filhos a lidar com as novas tecnologias. O seu projecto chama-se e-escolinha, não se chama e-familiazinha! Faça-lhe jus! Ponha a sua equipa a trabalhar, mexa-se, credibilize as suas Iniciativas!

Uma coisa curiosa, senhor engenheiro, é que tudo parece conspirar a seu favor nesta sua lamentável obra de empobrecimento do ensino assente em medidas gratuitas.

Há dias arrisquei-me a ver um episódio completo da série Morangos com Açúcar. Por coincidência, apanhei precisamente o primeiro episódio da nova série que significa, na ficção, o primeiro dia de aulas daquela miudagem. Ora, nesse primeiro dia de aulas, os alunos conheceram a sua professora de matemática e o seu professor de português. As imagens sucediam-se alternando a aula de apresentação de matemática por contraposição à de português. Enquanto a professora de matemática escrevia do quadro os pressupostos da sua metodologia - disciplina, rigor e trabalho - o professor de português escrevia no quadro os pressupostos da sua - emoção, entrega e trabalho. Ora, o que me faz espécie, senhor engenheiro, é que a personagem da professora de matemática é maldosa, agressiva e antiquada, enquanto que o professor de português é um tipo moderno e bué de fixe. Então, de acordo com os princípios do raciocínio lógico, se a professora de matemática é maldosa e agressiva e os seus pressupostos são disciplina e rigor, então a disciplina e o rigor são coisas negativas. Por outro lado, se o professor de português é bué de fixe, então os pressupostos da emoção e da entrega são perfeitos. E de facto era o que se via. Enquanto que na aula de matemática os alunos bufavam, entediados, na aula de português sorriam, entusiasmados.

Disciplina e rigor aparecem, assim, como conceitos inconciliáveis com emoção e entrega, e isto é a maior barbaridade que eu já vi na minha vida. Digo-o eu, senhor engenheiro, que tenho uma profissão que vive das emoções, mas onde o rigor é “obstinado”, como dizem os poetas. Eu já percebi que o ensino dos dias de hoje não sabe conciliar estes dois lados do trabalho. E, não o sabendo, optou por deixar de lado a disciplina e o rigor. Os professores são obrigados a acreditar que para se fazer um texto criativo não se pode estar preocupado com os erros ortográficos. E que para se saber fazer uma operação aritmética não se pode estar preocupado com a exactidão do seu resultado. Era o que faltava, senhor engenheiro!

Agora é o momento em que o senhor engenheiro diz de si para si: mas esta mulher é um Velho do Restelo, que não percebe que os tempos mudaram e que o ensino tem que se adaptar a essas mudanças? Percebo, senhor engenheiro. Então não percebo? Mas acontece que o que o senhor engenheiro está a fazer não é adaptar o ensino às mudanças, você está a esvaziá-lo de sentido e de propósitos. Adaptar o ensino seria afinar as metodologias por forma a torná-las mais cativantes aos olhos de uma geração inquieta e voltada para o imediato. Mas nunca diminuir, nunca desvalorizar, nunca reduzir ao básico, nunca baixar a bitola até ao nível da mediocridade.

Mas e por falar em Velho do Restelo…

Li, há dias, numa entrevista com uma professora de Literatura Portuguesa, que o episódio do Velho do Restelo foi excluído do estudo d’Os Lusíadas. Curioso, porque este era o episódio que punha tudo em causa, que questionava, que analisava por outra perspectiva, que é algo que as crianças e adolescentes de hoje em dia estão pouco habituados a fazer. Sabem contrariar, é certo, mas não sabem questionar. São coisas bem diferentes: contrariar tem o seu quê de gratuito; questionar tem tudo de filosófico. Para contrariar, basta bater o pé. Para questionar, é preciso pensar.

Tenho pena, porque no meu tempo (que não é um tempo assim tão distante), o episódio do Velho do Restelo, juntamente com os de Inês de Castro e da Ilha dos Amores, era o que mais apaixonava e empolgava a turma. Eram três episódios marcantes, que quebravam a monotonia do discurso de engrandecimento da nação e que, por isso, tinham o mérito de conseguir que os alunos tivessem curiosidade em descodificar as suas figuras de estilo e desbravar o hermetismo da linguagem. Ainda hoje me lembro exactamente da aula em que começámos a ler o episódio de Inês de castro e lembro-me das palavras da professora Lídia, espicaçando-nos, estimulando-nos, obrigando-nos a pensar. E foi há 20 anos.

Bem sei que vivemos numa era em que a imagem se sobrepõe à palavra, mas veja só alguns versos do episódio de Inês de Castro, veja que perfeita e inequívoca imagem eles compõem:

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano d’alma ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito (…)

Feche os olhos, senhor engenheiro, vá lá, feche os olhos. Não consegue ver, perfeitamente desenhado e com uma nitidez absoluta, o rosto branco e delicado de Inês de Castro, os seus longos cabelos soltos pelas costas, o corpo adolescente, as mãos investidas num qualquer bordado, o pensamento distante, vagueando em delícias proibidas no leito do príncipe? Não vê os seus olhos que de vez em quando escapam às linhas do bordado e vão demorar-se na janela, inquietos de saudade, à espera de ver D. Pedro surgir a galope na linha do horizonte? E agora, se se concentrar bem, não vê uma nuvem negra a pairar sobre ela, não vê o prenúncio do sangue a escorrer-lhe pelos fios de cabelo? Não consegue ver tudo isto apenas nestes quatro versos?

Pois eu acho estes quatro versos belíssimos, de uma simplicidade arrebatadora, de uma clareza inesperada. É poesia, senhor engenheiro, é poesia! Da mais nobre, grandiosa e magnífica que temos na nossa História. Não ouse menosprezá-la. Não incite ninguém a desrespeitá-la.

Bem, admito que me perdi em divagações em torno da Inês de Castro. O que eu queria mesmo era tentar perceber porque carga de água o Velho do Restelo desapareceu assim. Será precisamente por estimular a diferença de opiniões, por duvidar, por condenar? Sabe, não tarda muito, o episódio da Ilha dos Amores será também excluído dos conteúdos programáticos por “alegado teor pornográfico” e o de Inês de Castro igualmente, por “incitamento ao adultério e ao desrespeito pela autoridade”.

Como é, senhor engenheiro? Voltamos ao tempo do “lápix” azul? E já agora, voltando à questão do rigor e da disciplina, da entrega e da emoção: o senhor engenheiro tem ideia de quanta entrega e de quanta emoção Luís de Camões depôs na sua obra? E, por outro lado, o senhor engenheiro duvida da disciplina e do rigor necessários à sua concretização? São centenas e centenas de páginas, em dezenas de capítulos e incontáveis estrofes com a mesma métrica, o mesmo tipo de rima, cada palavra escolhida a dedo… o que implicou tudo isto senão uma carga infinita de disciplina e rigor?

Senhor engenheiro José Sócrates: vejo que acabo de confiar o meu filho ao sistema de ensino onde o senhor montou a sua barraca de circo e não me apetece nada vê-lo transformar-se num palhaço. Bem, também não quero ser injusta consigo. A verdade é que as coisas já começaram a descarrilar há alguns anos, mas também é verdade que você está a sobrealimentar o crime, com um tirinho aqui, uma facadinha ali, uma desonestidade acolá.

Lembro-me bem da época em que fiz a minha recruta como jornalista e das muitas vezes em que fui cobrir cerimónias e eventos em que você participava. Na altura, o senhor engenheiro era Secretário de Estado do Ambiente e andava com a ministra Elisa Ferreira por esse Portugal fora, a inaugurar ETAR’s e a selar aterros. Também o vi a plantar árvores, com as suas próprias mãos. E é por isso que me dói que agora, mais de dez anos depois, você esteja a dar cabo das nossas sementes e a tornar estéreis os solos que deveriam ser férteis.

Sabe, é que eu tenho grandes sonhos para o meu filho. Não, não me refiro ao sonho de que ele seja doutor ou engenheiro. Falo do sonho de que ele respeite as ciências, tenha apreço pelas artes, almeje a sabedoria e valorize o trabalho. Porque é isso que eu espero da escola. O resto é comigo.

Acho graça agora a ouvir os professores dizerem sistematicamente aos pais que a família deve dar continuidade, em casa, ao trabalho que a escola faz com as crianças. Bem, se assim fosse eu teria que ensinar o meu filho a atirar com cadeiras à cabeça dos outros e a escrever as redacções em linguagem de sms. Não. Para mim, é o contrário: a escola é que deve dar continuidade ao trabalho que eu faço com o meu filho. Acho que se anda a sobrevalorizar o papel da escola. No meu tempo, a escola tinha apenas a função de ensinar e fazia-o com competência e rigor. Mas nos dias que correm, em que os pais não têm tempo nem disposição para educar os filhos, exige-se à escola que forme o seu carácter e ocupe todo o seu tempo livre. Só que infelizmente ela tem cumprido muito mal esse papel.

A escola do meu tempo foi uma boa escola. Hoje, toda a gente sabe que a minha geração é uma geração de empreendedores, de gente criativa e com capacidade iniciativa, que arrisca, que aposta, que ambiciona. E não é disso que o país precisa? Bem sei que apanhámos os bons ventos da adesão à União Europeia e dos fundos e apoios que daí advieram, mas isso por si só não bastaria, não acha? E é de facto curioso: tirando o Marco cigano, que abandonou a escola muito cedo, e a Fatinha que andava sempre com ranhoca no nariz e tinha que tomar conta de três irmãos mais novos, todos os meus colegas da primária fizeram alguma coisa pela vida. Até a Paulinha, que era filha da empregada (no meu tempo dizia-se empregada e não auxiliar de acção educativa, mas, curiosamente, o respeito por elas era maior), apesar de se ter ficado pelo 9º ano, não descansou enquanto não abriu o seu próprio Pão Quente e a ele se dedicou com afinco e empenho. E, no entanto, levámos reguadas por não sabermos de cor as principais culturas das ex-colónias e éramos sujeitos a humilhação pública por cada erro ortográfico. Traumatizados? Huuummm… não me parece. Na verdade, senhor engenheiro, tenho um respeito e uma paixão pela escola tais que, se tivesse tempo e dinheiro, passaria o resto da minha vida a estudar.

Às vezes dá-me para imaginar as suas conversas com os seus filhos (nem sei bem se tem um ou dois filhos…) e pergunto-me se também é válido para eles o caos que o senhor engenheiro anda a instalar por aí. Parece que estou a ver o seu filho a dizer-lhe: ó pai, estou com dificuldade em resolver este sistema de três equações a três incógnitas… dás-me uma ajuda? E depois, vejo-o a si a responder com a sua voz de homilia de domingo: não faz mal, filho… sabes escrever o teu nome completo, não sabes? Então não te preocupes, é perfeitamente suficiente…

Vendo as coisas assim, não lhe parece criminoso o que você anda a fazer? E depois, custa-me que você apareça em praça pública acompanhado da sua Ministra da Educação, que anda sempre com aquele ar de infeliz, de quem comeu e não gostou, ambos com o discurso hipócrita do mérito dos professores e do sucesso dos alunos, apoiados em estatísticas cuja real interpretação, à luz das mudanças que você operou, nos apresenta uma monstruosa obscenidade. Ofende-me, sabe? Ofende-me por me tomar por estúpida.

Aliás, a sua Ministra da Educação é uma das figuras mais desconcertantes que eu já vi na minha vida. De cada vez que ela fala, tenho a sensação que está a orar na missa de sétimo dia do sistema de ensino e que o que os seus olhos verdadeiramente dizem aos pais deste Portugal é apenas “os meus sentidos pêsames”.

Não me pesa a consciência por estar a escrever-lhe esta carta. Sabe, é que eu não votei em si para primeiro-ministro, portanto estou à vontade. Eu votei em branco. Mas, alto lá! Antes que você peça ao seu assessor para lhe fazer um discurso sobre o afastamento dos jovens da política, lembre-se, senhor engenheiro: o voto em branco não é o voto da indiferença, é o voto da insatisfação! Mas, porque vos é conveniente, o voto em branco é contabilizado, indiscriminadamente, com o voto nulo, que é aquele em que os alienados desenham macaquinhos e escrevem obscenidades.

Você, senhor engenheiro, está a arriscar-se demasiado. Portugal está prestes a marcar-lhe uma falta a vermelho no livro de ponto. Ah… espere lá… as faltas a vermelho acabaram… agora já não há castigos…

Bem, não me vou estender mais, até porque já estou cansada de repetir “senhor engenheiro para cá”, “senhor engenheiro para lá”. É que o meu marido também é engenheiro e tenho receio de lhe ganhar cisma.

Esta carta não chegará até si. Vou partilhá-la apenas e só com os meus E-leitores (sim, sim, eu também tenho os meus eleitores) e talvez só por causa disso eu já consiga hoje dormir melhor. Quanto a si, tenho dúvidas.

Para terminar, tenho um enorme prazer em dedicar-lhe, aqui, uma estrofe do episódio do Velho do Restelo. Para que não caia no esquecimento. Nem no seu, nem no nosso.

A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?



Atenciosamente e ao abrigo do artigo nº 37 da Constituição da República Portuguesa,

Uma mãe preocupada

Etiquetas: , ,

Honório Novo - Redução da taxa de juro

Honorio Novo
Senhor Presidente
Senhores Deputados

Sem surpresa, a recente descida da taxa de juros do BCE não teve consequências sensíveis na descida da taxa Euribor. Decidida tardiamente e com valores insuficientes, os seus efeitos práticos dificilmente podiam ser outros.
Por isso o PCP entende que continua a ser fundamental que o Governo Português insista e exija novas descidas dos juros que tenham em conta as dificuldades das economias mais débeis, que potenciem um maior crescimento económico e que permitam combater o desemprego.
Mas não é só no plano europeu que se pode atenuar a dramática situação das famílias que estão literalmente afogadas pelo crescimento imparável das prestações mensais dos empréstimos à habitação.
Se o Governo e a maioria do PS quiserem há formas de descer esta factura mensal das famílias!

Senhor Presidente
Senhores Deputados

Há quase um milhão e trezentos e dez mil empréstimos à habitação em Portugal no regime geral de crédito à habitação.
Estes contratos são mais de 75% do total de empréstimos à habitação e bem mais de 80% da dívida contraída, acima de 82.000 milhões de euros!
Por causa do valor atingido pela Euribor e das margens de lucro usadas pela Banca Comercial há hoje milhares de famílias insolventes, a devolverem os apartamentos e a perderem o seu património! É possível resolver este drama, se o Governo intervier para baixar essas margens de lucro, impondo à CGD a utilização de um spread máximo de 0,5 pontos percentuais em todos os empréstimos à habitação em vigor, renegociando os seus termos sem custos nem comissões adicionais.
E não se venha aqui usar o argumento da concorrência ou do mercado! Não se venha aqui dizer que isto é impossível!
Basta para isso que o Governo imponha aos outros o que já faz consigo próprio. É que o Estado decidiu impor - e bem - uma taxa de referência no cálculo das bonificações (TRCB) que paga à banca no regime de crédito bonificado. Neste semestre ela é de 5,428% e já inclui um spread máximo imposto de 0,5 pp, não obstante esta margem ter sido contratada com o valor de 1,5 pp!
Como se vê não é impossível! Basta que o Governo "diga" à Banca Comercial que não pode cobrar aos portugueses com empréstimos à habitação margens superiores ao valor que o próprio Estado paga no regime bonificado!
Por isso, o PCP entende que é necessário o Governo determinar à Caixa Geral de Depósitos - através da sua posição accionista - a baixa da margem de lucro e a imposição de taxas de juro até ao valor da taxa Euribor mais 0,5 pontos percentuais.

Senhor Presidente
Senhores Deputados

A Caixa tem cerca de 1/3 do total dos contratos à compra de habitação. Se o spread baixar nestes contratos, toda a restante banca comercial irá também baixar as suas taxas. Se não o fizesse veria certamente os seus contratos serem transferidos para o banco público.
Com esta medida, apenas com esta medida, os portugueses veriam baixar imediatamente as suas prestações mensais: Para um empréstimo de 100.000 euros e um spread actual de 1% a poupança seria de 32 euros/mês; para um spread de 1,5% seria de 65 euros/mês; e para um spread de 2% poderia atingir quase 100 euros/mês o valor da poupança.
Se o PS quiser beneficiar mais de um milhão e 300 mil portugueses, se quiser baixar entre 30 e 100 euros os seus encargos mensais votará o Projecto de Resolução do PCP (projecto de resolução nº 390/X).
Mas se insistir em tentar salvar a economia de casino, inventando fundos de investimento para salvar os especuladores imobiliários e para dar uma mãozinha ao sector bancário, então rejeita o nosso Projecto de Resolução mas será certamente o responsável pela falência patrimonial de dezenas de milhares de portugueses."


Contudo, ainda apoiando o PCP e, considerando que a negociação real está sempre condicionada, que, as exigências, no contexto parlamentar, devem observar certa moderação, mas, assumindo como que, o governo se situa no contexto europeu para justificar as medidas que promulga e que, posteriormente, de forma invariável, se revelam lesivas para a população, pregunto:

Se, já em 2005, a taxa media de IRC, relativa à banca e, nos três anos anteriores, apresentava estes rácios,
Taxa média dos ultimos 3 anos:
Millenium BCP8,49%
CGD12,90%
BES13,67%
Totta15,04%
BPI19,50%
Que o nosso vizinho, Espanha, grava a banca, por este mesmo conceito, em trinta por cento (30%), que a Caixa geral de depósitos (CGD), hoje, nesse país, como entidade estrangeira, tem vindo a demonstrar uma expansão relativamente significativa - o que revela um investimento substancial - e que, practíca um "Spread", ou diferencial, de trinta e três pontos(0,33%), sabendo que em Portugal - onde a CGD é pública - a banca, hoje, paga, em média, doze e meio por cento (12,5%) de IRC e que, está cada vez mais aprovisionada, será dificil apoiar esta proposta do PCP? Não seria, inclusivamente, digna do nosso apoio, uma proposta de redução do "Spread" até aos trinta e cinco pontos (0,35%)?



Honório Novo, PCP propõe redução das taxas de juro no Crédito à Habitação, Partido Comunista Português, 17 de Outubro de 2008

Etiquetas: , ,

Sexta-feira, Outubro 17, 2008

Marc Lebeaupin - Falências na China

Smart Union em Cantão
O choque foi brutal para os seis mil trabalhadores da fábrica do grupo Smart Union em Dongguan, nos arredores de Cantão. Sem qualquer pré-aviso, no princípio da semana encontraram a porta da fábrica fechada por motivo de falência.


Marc Lebeaupin in L'économie chinoise ne joue plus, Radio France International, 17 de Outubro de 2008

Etiquetas: , , ,

Alunos, pais e contribuintes em geral: Vejam!




nota:Apagarei estas imagens a pedido de qualquer um dos seus figurantes.

Não ataquemos estes homens porque:

1º Se não fossem eles, nós nunca saberíamos disto.
2º Às vezes é preciso que as pretensões se concretizem para que se vislumbre melhor a dimensão do problema.
3º Gosto da melodia.
4º A letra foi bem escolhida.
5º Esqueceram-se dos passos mas já ouço chloc, chloc, chloc, chloc.

Para os colegas mais zangados:
Não olhem para a parte má. Vejam antes a parte boa: Foi quebrado o isolamento da classe. A maioria dos professores não tem consciência que a sua voz morre dentro da classe.

C3 G3 C4 Bb3

O homem de cor

video
(recebido por mail)

Etiquetas: , ,

Quinta-feira, Outubro 16, 2008

François Chesnais - Limites do capitalismo

...

Por isso, outro elemento a ter em conta é que esta crise tem ainda outra dimensão: a de marcar o fim da etapa em que os Estados Unidos podiam actuar como potência mundial sem concorrência... Na minha opinião, saímos do momento que analisava Mészáros no seu livro de 2001, e os Estados Unidos vão ser submetidos a uma prova: num prazo muito curto, todas as suas relações mundiais modificar-se-ão e terão, no melhor dos casos, de renegociar e reordenar todas as suas relações com base no facto de serem obrigados a partilhar o poder. E isto, evidentemente, é algo que nunca aconteceu de forma pacífica na história do capital...


Artigo Completo: François Chesnais, O capitalismo tentou romper os seus limites históricos e criou um novo 1929, ou pior, O Diario.info, 16 de Outubro de 2006

Etiquetas: ,

A escola pública

Greve dos alunosNão estou a alcançar o apelo à unidade, entre coisas que são diferentes.
Os sindicatos devem fazer, e bem, aquilo para que estão mandatados que é a defesa dos direitos laborais dos professores.
Os movimentos empenham-se na defesa dos valores da escola pública.
Se as acções de rua puderem coincidir, tanto melhor;
senão, também não será por isso que cada um poderá acusar o outro de divisionismo.
E sobretudo, não será por isso que cada parte poderá acusar a outra parte dos seus próprios desaires.
Não vejo como é que deverei abster-me de defender a escola pública, pelo simples facto de não ter concorrido às eleições sindicais.
Se eu como defensor da causa da escola pública me revoltar contra o novo estatuto do aluno, que obriga a escola a avaliar um aluno que faltou a uma semana de aulas, precisamente acerca da matéria que o aluno perdeu por ter faltado, aonde é que está o sindicato para colocar o «eduquês» no seu lugar?


Imagem: Global Notícias, 16 de Outubro de 2008

Etiquetas: , ,

Quarta-feira, Outubro 15, 2008

João Vasconcelos - Apelo à unidade

MEMBRO DA FENPROF APELA À UNIDADE SINDICATOS/MOVIMENTOS

CONTRA A ESPADA DE DÂMOCLES O MEU GRITO DE REVOLTA!

UNIDADE E LUTA É O CAMINHO!
João Vasconcelos (*)


João VasconcelosSou membro do Conselho Nacional da Fenprof e também faço parte do Movimento Escola Pública pela Igualdade e Democracia. Mas acima de tudo sou um modesto professor. Um professor que discordou – tal como todos os professores do meu Agrupamento que reuniram no Dia D - do Memorando de Entendimento assinado entre o Ministério da Educação e a Plataforma Sindical de Professores. E porquê? As razões encontram-se expostas num artigo que escrevi no passado dia 14 de Abril (antes do Dia D, 15 de Abril e em que a Plataforma já anunciara que aceitava o Memorando). Este artigo, com o título Vitória Pírrica?, circulou pelos blogues e até motivou a criação do blogue Fénix vermelha (aqui se encontra como 1º artigo), perante o grande descontentamento e revolta face à previsível assinatura do memorando. Na reunião do Conselho Nacional da Fenprof, de Junho, continuei a discordar do acordo e, a realidade dos últimos desenvolvimentos – com apenas um mês de aulas – estão a provar a justeza das minhas posições (e de todos aqueles que não aceitaram o memorando, um pouco por todo o país).
Escrevi em “Vitória Pírrica?” que o «Memorando (…) se transformará numa grande vitória de Sócrates e da Ministra e numa profunda e dramática derrota dos professores, se estes não continuarem vigilantes e mobilizados. Afinal o que se conseguiu com o Memorando? Muito pouco, tendo em conta que vieram 100 mil professores para a rua. A Marcha da Indignação do passado dia 8 de Março é a prova provada do descontentamento e da revolta de uma classe profissional como nunca se viu neste país. E tudo levava a crer que os professores estavam dispostos a continuar uma luta que só agora a iniciaram em força. Ficamos com um sentimento de vazio e com uma sensação de que era possível ir muito mais além. Conseguiram os professores uma vitória pírrica? Se assim foi, vão ser, nos próximos tempos, inevitável e clamorosamente derrotados. E a Escola Pública vai ser, inexoravelmente destruída».
Efectivamente, digo e reafirmo hoje que os professores conseguiram “uma mão cheia de nada” e a questão central – esta avaliação de desempenho - apenas foi protelada no tempo. Com uma agravante: bem muito pior do que julgou a Plataforma Sindical. Passou apenas um mês de aulas e os docentes estão fartos, já não aguentam mais. Tal como no início do ano, a sua revolta surda sente-se e ouve-se nas escolas e vai explodir de novo. É por isso cedo para Sócrates e a Maria de Lurdes cantarem vitória, pois os professores vão mobilizar-se de novo e voltar à rua, não obstante ter sido assinado um Memorando de entendimento. A próxima vitória não poderá ser à moda de Pirro – as consequências para a classe docente seriam desastrosas.
Voltando ao artigo, sublinhava a dado passo: «Só nos meses de Junho e Julho de 2009 – como prevê o Memorando – é que haverá ‘um processo negocial com as organizações sindicais, com vista à introdução de eventuais modificações ou alterações’ do modelo. Mas então não se trata de um modelo de avaliação altamente burocrático, injusto, punitivo, subjectivo, arbitrário, economicista, quer vai manter as quotas e assente numa estrutura de carreira dividida em duas categorias? É este o cerne da questão – o Estatuto da Carreira Docente tem de ser revisto, alterado, revogado e os professores jamais poderão aceitar estarem divididos, de forma arbitrária, em duas categorias. O grito dos professores mais ouvido foi: ‘categoria só há uma, a de professor e mais nenhuma’. Disto não podemos abdicar».
Reafirmo que aqui reside o cerne da questão – trata-se de um modelo de avaliação que divide os docentes em duas categorias e que é economicista, punitivo, subjectivo, arbitrário, injusto e terrivelmente burocratizado. Veja-se o que está a acontecer nas nossas escolas – são reuniões e mais reuniões, grelhas para tudo e para nada, objectivos individuais que não têm ponta por onde se pegue, mais instrumentos para isto e para aquilo, são os inúmeros planos de aula, as aulas assistidas por titulares com formação científica diferente dos assistidos, é o receio da não obtenção de créditos e a penalização daí decorrente, é a conflitualidade nas escolas a aumentar (e infelizmente há sempre os mais papistas que o Papa). São medidas que não promovem a melhoria pedagógica e científica, antes pelo contrário e que visam o controlo administrativo dos professores e a proibição de ascenderem ao topo da carreira. É a Espada de Dâmocles que se encontra suspensa sobre a cabeça dos professores e educadores deste país. Nunca, em caso algum, a Plataforma Sindical –e em particular a Fenprof, como a estrutura sindical mais representativa da classe docente – devia ter assinado um acordo que contemplasse a manutenção do actual ECD. E os professores estavam dispostos a continuar com a luta.
Concluía em “Vitória Pírrica?” que os professores «terão de continuar a lutar (…), mostrando à Plataforma Sindical que é possível obter conquistas bem mais significativas (…). A Plataforma deverá continuar a manter a unidade e continuar a ser a porta-voz dos anseios e reivindicações dos professores. Um passo precipitado ou mal calculado poderá deitar tudo a perder, depois será tarde demais para voltar atrás. Por mim não assinava o acordo e continuava com a luta. Há razões muito fortes para tal. Temos a força de 100 mil professores na rua. Este é o nosso ponto forte e, simultaneamente, o ponto fraco de Sócrates, de Maria de Lurdes e do governo».
Os 100 mil professores que protagonizaram a Marcha da Indignação no passado dia 8 de Março nas ruas de Lisboa, responderam em uníssono aos apelos dos Sindicatos e dos Movimentos. A unidade foi a razão da nossa força e todos compreenderam isso. Cometeu-se um erro com a assinatura do Memorando. Mas tudo isto pode ser ultrapassável continuando a apostar na unidade e de novo na luta. Um novo passo errado acarretará, certamente, consequências desastrosas para o movimento docente e para a Escola Pública, que perdurará por largos anos. Respondendo aos anseios, aspirações e revolta dos professores alguns Movimentos convocaram uma manifestação nacional, para Lisboa, dia 15 de Novembro. Mais uma vez os Movimentos se anteciparam aos Sindicatos, não havendo nenhum mal nisto. Já não vivemos nos séculos XIX e XX, a vida mudou, os tempos são outros – só não mudou a exploração e a opressão dos poderosos sobre os mais fracos, antes agravou-se. E os Movimentos hoje fazem parte da vida e das lutas dos Povos. Assim como os Sindicatos continuam a ser imprescindíveis – quem não compreender isto não percebe a realidade onde se movimenta.
A divisão será o pior se acontecer no seio dos professores e em nada acrescentam as declarações anti-sindicais ou anti-movimentos. Todos fazemos falta, tal como aconteceu no passado dia 8 de Março. Quem protagonizar a divisão só irá dar mais força a um governo que despreza, massacra e procura destruir a classe docente e a Escola Pública e, será meio caminho andado para, mais cedo do que espera, ficar arredado da marcha inexorável da História.
O meu apelo é para que todos se entendam – Sindicatos e Movimentos de Professores – chegando a um consenso para a realização, em conjunto, de uma poderosa Manifestação Nacional no mês de Novembro. Condição indispensável para a obtenção da vitória. Os professores irão provar que têm voz e que têm força. Entendimento sim, mas desde que se aniquile o “monstro” (esta avaliação de desempenho e o ECD). Caso contrário, seremos devorados. Contra a “Espada de Dâmocles” o meu grito de revolta! Unidade e luta é o caminho!

(*) Membro do Conselho Nacional da Fenprof, do Movimento Escola Pública e Delegado Sindical na Escola E. B. 2, 3 D. Martinho de Castelo Branco – Portimão

Nota: Caso considerem útil, agradeço a divulgação pelos vossos contactos e blogues.


João Vasconcelos, CONTRA A ESPADA DE DÂMOCLES O MEU GRITO DE REVOLTA! UNIDADE E LUTA É O CAMINHO!, Fénix Vermelha, 15 de Outubro de 2008

Etiquetas: , ,

Governo dos EUA nacionaliza bancos

Washington - Os directores executivos de nove dos maiores bancos dos EUA encafuaram-se numa sala de conferências apertada no Departamento do Tesouro (Ministério das Finanças), às 3 da tarde. Para seu espanto, cada um levava um papel na mão onde se declarava que concordava em vender acções ao governo. Mais tarde, o Secretário do Tesouro, o Sr Henry M. Paulson, informou-os que deveriam assinar o papel antes de abandonar a sala.

Ler o resto aqui.

Etiquetas: , ,

A crise do suprime

Recebido por email de Agostinho Rodrigues (AF)

Para quem não entendeu ou não sabe bem o que é ou gerou a crise americana, segue breve relato econômico para leigo entender...
É assim:
O seu Biu tem um bar, na Vila Carrapato, e decide que vai vender cachaça 'na caderneta' aos seus leais fregueses, todos bêbados, quase todos desempregados. Porque decide vender a crédito, ele pode aumentar um pouquinho o preço da dose da branquinha (a diferença é o sobre preço que os pinguços pagam pelo crédito).

O gerente do banco do seu Biu, um ousado administrador formado em curso de emibiêi, decide que as cadernetas das dívidas do bar constituem, afinal, um ativo recebível, e começa a adiantar dinheiro
ao estabelecimento, tendo o pindura dos pinguços como garantia.

Uns seis zécutivos de bancos, mais adiante, lastreiam os tais recebíveis do banco, e os transformam em CDB, CDO, CCD, UTI, OVNI, SOS ou qualquer outro acrônimo financeiro que ninguém sabe exatamente o que quer dizer.

Esses adicionais instrumentos financeiros, alavancam o mercado de capitais e conduzem a operações estruturadas de derivativos, na BM&F, cujo lastro inicial todo mundo desconhece (as tais cadernetas do seu Biu).

Esses derivativos estão sendo negociados como se fossem títulos sérios, com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países.

Até que alguém descobre que os bêbados da Vila Carrapato não têm dinheiro para pagar as contas, e o Bar do seu Biu vai à falência. E toda a cadeia sifudeu !

Viu... é muito simples...!!!

Etiquetas: ,

Teixeira dos Santos - o Timming certo

Teixeira dos Santos

- Posso entrar?
- Claro meu caro jovem. Sente-se à vontade. Em que posso ajudá-lo?
- Diga-me Dr Teixeira dos Santos, o Sr considera-se um democrata?
- Mas é claro. Que pergunta...
- Confia então que o povo português sabe optar em consciência face aos diversos programas?
- Isso resulta de eu ser um democrata.
- Como encara a realização de um programa?
- No partido, faço sempre questão que todos tenham em consideração os dois níveis em que as questões programáticas estão divididas.
- Como?
- Já explico. Há o programa antes das eleições e o programa depois das eleições. Nunca se deve confundir uma coisa com a outra.
- É por essa razão que propõe um orçamento de Estado para 2009 com derrapagem do défice comercial, condenando os jovens de hoje ao pagamento de juros na sua vida profissional futura? Foi o que eu ouvi o Dr Medina Carreira dizer.
- Olhe, meu querido amigo. Está na hora de começar a perder a ingenuidade. Compreenda que o homem da rua não tem discernimento para avaliar essas questões técnicas. No novo timming eleitoral, aberto com a proposta de Orçamento de Estado que entreguei ontem ao parlamento, estão acautelados os factores necessários para uma futura vitória do Partido Socialista. Nós, os dirigentes do partido, pomos cada macaco no seu galho: por um lado, as elites conscientes do interesse geral. Entre nós, falamos à vontade, sabemos as consequências de cada acto que praticamos. Mas como vê, por um infeliz acaso da nossa história, temos que submeter-nos a um escrutínio de quatro em quatro anos. Isto já foi bem diferente no passado, nos saudosos tempos dessa figura ímpar que foi Salazar. Não quereria, já agora, que fôssemos confiar na capacidade de escolha de gente que não sabe ao que anda: era o que mais faltava. Infelizmente, temos que usar de subterfúgios, dizer as verdades apenas quando é conveniente.
- Sr Dr, mas actua dessa forma porque está sinceramente convencido que é o interesse geral que defende? Há quem diga que é apenas o interesse de uma clientela muito restrita do Partido Socialista ou, quando muito, dos partidos do centrão.
- Não estou a ver o ponto. Interesse geral é apenas uma expressão cómoda. A Comunicação Social tem a incumbência de difundir a imagem da defesa do interesse geral. Os ignaros devem viver no mundo da ilusão, coitados. Mas o meu caro jovem, distinto e promissor elemento da nossa elite, tem obrigação de ver mais longe. A governação é a arte de manter a populaça endividada. Só assim continuaremos a usufruir do trabalho do dia-a-dia desses acéfalos armados em eleitores.

Etiquetas: , ,

Maria Lisboa - Sindicalismo entre os professores

  1. Nos moldes em que a sociedade está estruturada os trabalhadores necessitam de uma organização intermédia que os represente não só junto da entidade empregadora e dos diferentes ministérios, a que a sua actividade se liga, para dirimir possíveis conflitos laborais, mas também que negoceie os direitos e deveres de cada classe. Enfim, que seja a voz dos trabalhadores no garante das suas condições sócio-profissionais. Sem este tipo de organizações, sem esta voz, voltaríamos ao tempo em que não existiam classes profissionais, em que os trabalhadores viviam, cada um per si, explorados e humilhados pelos patrões, sujeitos a uma enorme precariedade a nível de direitos (factos que não vale a pena relembrar). Se repararem estamos a regressar a passos largos a esse estádio. Basta olhar para as novas leis sobre contratação para nos apercebermos da tentativa (já bastante conseguida – vejam-se as novas ofertas de escola!) de isolar o trabalhador através de um contrato individual de trabalho e, posteriormente, através de uma avaliação que se quer secreta entre o avaliado e o avaliador. E não me falem numa nova recessão porque ao analisarmos, criticamente, os factos, o desemprego, a individualização do emprego e o aniquilamento dos direitos que estão a ser feitos em nome de uma instabilidade económica internacional, os argumentos não colhem. Há cada vez mais os mesmos a engordar na proporção inversa aos mesmos que cada vez mais apertam o cinto (também já vi isto algures pela história do mundo…). E cada vez mais se culpa o trabalhador, por reflectir na prática, o descalabro das más políticas, das gestões de jeitos, da ganância, dos sonhos individuais de promoção pessoal a todo o custo (que se tornam pesadelos para quem trabalha), do querer de um dia para o outro o lucro que demora anos a construir, de tudo o que tem conduzido os países, em geral, e Portugal, em particular, ao estado em que se encontram neste momento.
    .
    Os sindicatos são necessários, mas os sindicatos são os sócios e não (apenas) as direcções. E aqui começa o 1º problema: as pessoas sindicalizam-se e pensam que, ao fazê-lo, adquiriram voz directa nos órgãos de decisão. Por isso descansam. Por isso ficam em casa achando que o advogado está tratando do seu caso. Quando são chamadas a dar opinião, em reuniões, na rua, seja em que acção for, dizem estará lá quem me represente. Quando descobrem que afinal todos pensaram da mesma maneira, viram-se contra os sindicatos… não mobilizaram, não estão à altura, não têm capacidade… Afinal não têm força, afinal não representam ninguém! Esquecem-se que a força dos sindicatos é a força que todos e cada um dos sindicalizados lhes derem.
    .
    Historicamente, em quase todos os países, e em especial em Portugal, o sindicalismo está conotado com a contestação sistemática, a acção de rua, o esquerdismo (mais especificamente com os comunas). Aqui reside o 2º problema: as pessoas, apesar de um 25 de Abril, não consciencializaram a sua capacidade de exigir o que lhes é devido, nem a necessidade de luta por direitos, quer pelos que lhes são inerentes enquanto cidadãos produtores, quer pela sua manutenção. Lutar é feio… não fica bem, é conotado com os esquerdistas. Mais… as pessoas têm medo! As pessoas cultivam o medo do que lhes pode acontecer se fizerem isto ou aquilo (nas salas de professores isso é cada vez mais perceptível). E o patrão é como o cão… cheira o medo, cheira-o e avança a passos cada vez maiores, com os dentes cada vez mais arreganhados. O patrão conhece o seu poder sobre o resultado dos 50 anos que nos (de)formaram (e que continua a ser transmitido no íntimo da maioria das casas portuguesas) e usa-o.
    .
  2. No sindicalismo docente passa-se o mesmo que em todas as profissões, mas com sérias agravantes. É uma classe de intelectuais, o que muitas vezes se torna um impedimento a uma acção (embora esta condição devesse ser uma mola, torna-se em geral handicap). O conhecimento da história, das filosofias, das teorias é, muitas vezes, um entrave à manifestação dinâmica do que se quer, daquilo a que se tem direito. Perdemo-nos em tertúlias, em debates, em ler nas linhas e nas entrelinhas, e acabamos por agir tarde, ou por não agir. Não fica bem a um intelectual meter-se em lutas materiais. Por outro lado, a classe é constituída, maioritariamente, por mulheres com um certo status, a quem também não fica bem a tomada de determinadas posições/acções. Temos, ainda, as opções partidárias, que tolhem muitos dos nossos movimentos. Infelizmente, a maioria, quando tem um cartão, torna-se cega à realidade e acrítica relativamente às posições que se vão tomando, não fazendo mais do que baixar a cabeça e dizer amem. Por isso, vamos todos deixando andar, na convicção de que alguém nos defenderá. E não vou referir que o enorme desemprego existente dentro da classe e que todos os documentos emanados deste ME estão a ferir gravemente o já pequeníssimo espírito de classe existente, fazendo com que se olhe exclusivamente para o próprio umbigo (exactamente o que eles pretendem).
    .
  3. Todos sabemos que a proliferação de sindicatos tem diversas origens. Desde as políticas, nomeadamente das que se dizem de não-alinhamento, às que são da cor da ocasião (que apenas serviram para, na altura, serem apoiantes e signatários das propostas de momento), às de protagonismo individual, há de tudo um pouco. Um exemplo interessante é o de um colega (por acaso do meu grupo) que aquando da saída dos primeiros formados pelas ESE (que na altura não saíam licenciados) ter ficado indignado com os sindicatos existentes por os aceitarem como sócios e ter resolvido constituir um sindicato destinado apenas a professores licenciados. Soube, não muito tempo depois, que paralelamente a esse seu acto, tinha aceite ser professor numa dessas escolas que formavam professores que ele não considerava ao nível de se sindicalizarem nos sindicatos de professores. Enfim… protagonismos e hipocrisias!!!
    .
    Todos sabemos, também, que a maioria dos professores (com uma formação cada vez menos politizada, por ausência quase total de associativismo estudantil), que se sindicaliza, o faz no princípio da carreira e que quase nenhum tem conhecimento dos sindicatos que existem. Por isso pergunta ao amigo, ao colega mais próximo, e acaba por sindicalizar-se no que aquela pessoa que considera de confiança indicou. Não há uma análise, não há uma escolha do que é oferecido.
    .
    Todos sabemos, ainda, que muitos dos sindicatos existentes poucos sócios têm para além dos que constituem os seus órgãos sendo, no entanto, legais… já o mesmo não posso dizer da sua representatividade (talvez não seja ilegal… representativa é que não o é de certeza... pelo menos para mim.).
    .
  4. O movimento sindical deve ser da responsabilidade de todos os que dele são sócios. Essa responsabilidade passa pela participação crítica dentro do próprio sindicato, passa pela discussão dos problemas reais e pelo fazer ver a quem não está na escola (e aqui refiro-me a sindicalistas que se acomodaram) que lá não se vivem teorias mas práticas. Se o não faz dentro do sindicato não lhe reconheço o direito de o fazer fora. Se o fizer lá dentro e, sentindo-se dentro da razão, achar que o deve fazer fora do sindicato, aí sim, considero que tem o direito de o fazer, embora a ética me possa fazer cócegas. O grande problema é que a maioria das pessoas (sindicalizadas) que criticam a actuação dos sindicatos nunca apareceram numa reunião para dar a sua opinião, para apresentar as suas críticas. A maioria, não conhece, inclusivamente, as linhas com que se cose (falo de legislação que os beneficia e/ou prejudica – pelo que vejo/oiço a maioria não leu uma linha dos últimos documentos, apenas conhece alguns títulos de jornais o que é muito pouco abonatório da nossa classe; muitas vezes ouviram uma noticiazita e quando me vêm perguntar do que se trata e eu os elucido dizem-me não pode ser, lá estás tu a exagerar – o problema é quando não há nada a fazer e reconhecem que até lhes dei uma explicação soft… mesmo assim não aprendem; na vez seguinte acontece a mesma cena).
    .
    Creio que os não sindicalizados também têm a obrigação de contribuir com a sua opinião, já que apesar de não serem sindicalizados acabam por vir a ser beneficiados/ prejudicados pelas decisões/negociações decorrentes da actividade sindical. E assim como acho que se devem pronunciar, acho que também deveriam ser ouvidos pelos sindicatos. Talvez esta atitude, se assumida por ambos os lados, se constituísse num foco de maior dinamização e unidade da classe.
    .
    Sei que há muita gente desiludida com a actividade sindical. Este facto resulta da pouca participação dos sócios por um lado e da pouca actividade (perceptível) dos sindicalistas por outro. Tal como em altura de tempestades, só nos lembramos de Santa Bárbara quando há trovões. Também aqui se passa o mesmo. Só nos lembramos dos sindicatos em momentos de crise. Durante o resto do tempo abandonamo-los à sua sorte, não lhes damos apoio, deixamo-los decidir sozinhos. Isso aconteceu nos últimos anos. Houve um ligeiro tempo de bonança em que não fomos grandemente atacados, grandemente prejudicados… acomodámo-nos e deixámos os sindicatos sozinhos… também um pouco acomodados pela falta de grandes lutas, diga-se em abono da verdade…. Quando, de repente, chegou a crise, iniciada com o concurso de 2004, aqui d`el rei, os sindicatos não fizeram, os sindicatos não aconteceram
    .
    Os sindicatos somos nós … mas nunca dizemos nós não fizemos, nós não acontecemos. Depois queixamo-nos deles porque se sentiram sozinhos e agiram quase sozinhos, porque tentaram mobilizar-nos mas nós estávamos amuados e fizemos beicinho e dissemos agora não brincamos. Pois é … talvez nos falte a todos uma consciência política, uma consciência de classe, uma consciência de direitos, uma consciência dos deveres que temos para connosco e para com a classe, enquanto profissionais. Sim, porque ser profissional não é, apenas, exercer a profissão no nosso localzinho de trabalho. Ser profissional é ser crítico, é ser membro de uma classe, é lutar pela dignificação dessa classe nos seus diferentes status: social, científico, pedagógico, laboral. E essa luta não pode ser individual, já que numa luta desse tipo não se marcam muitos pontos. Os itens, que referi, constituem os pilares de uma profissão. Faltando a autenticidade de um deles que seja o estatuto do profissional fica ferido e a profissão de todos e de cada um é afectada.


Maria Lisboa, Sindicalismo, Professores sem Quadro, 16 de Março de 2007

Etiquetas: , ,

Terça-feira, Outubro 14, 2008

F J Santos - Bom senso é necessário

F J Santos
Depois do exercício de promoção completamente descabido, que constituiu a convocação da “assembleia geral de professores” nas Caldas da Raínha, para o passado sábado;

Depois do exercício de auto-contentamento, que se traduziu em antecipar o agendamento de uma manifestação nacional, esperando que as direcções sindicais fossem a reboque de quem nem coragem tem para lhes disputar o poder, em sede de eleições no interior das respectivas organizações;

Depois de ficar claro que a Plataforma Sindical vai marcar uma manifestação para data anterior à manifestação da Apede e do Mup, segundo declarações prestadas po Mário Nogueira ainda hoje;

Resta deixar um apelo para que as pessoas que, no espaço de dez meses, não foram capazes de cumprir as pequenas tarefas a que se tinham comprometido:
  • Escrever uma carta-tipo que possa ser assinada por qualquer pessoa, professor e não só, sendo que todos os signatários se encarregarão de a enviar aos principais órgãos de soberania, aos órgãos de comunicação com maior projecção e, claro está, ao Ministério da Educação;
  • Escrever uma carta aos encarregados de educação, a ser distribuída por intermédio dos presidentes das associações de pais das diferentes escolas, esclarecendo os motivos do descontentamento dos professores, salientando o impacto das actuais políticas educativas na degradação da qualidade do ensino, e deixando claro que a formação das crianças e dos jovens deste país necessita de uma classe docente motivada, socialmente reconhecida e com condições para exercer o seu trabalho de forma condigna;
  • Articular os professores de diferentes escolas de uma mesma zona ou agrupamento, de modo a promover núcleos de acção transversais a vários estabelecimentos de ensino;
  • Usar, como forma de resistência no interior das escolas, todos os mecanismos de questionamento relativos ao processo de avaliação do desempenho;
tenham agora o bom senso e a humildade de perceber que o discurso anti-sindical apenas serve para dividir os professores, porque em última instância replica a estratégia ministerial de Maria de Lurdes Rodrigues, Jorge Pedreira e Valter Lemos que, desde que tomaram posse, não se cansam de afirmar que os sindicatos não representam os professores.

Da parte da Plataforma Sindical espera-se que haja a capacidade negocial e o sentido diplomático que permita estender a mão a estes “jovens turcos”, convidando-os a juntarem-se à manifestação que vier a ser marcada pelos sindicatos, permitindo-lhes “salvar a face” antes de voltarem para o galho de que nunca deviam ter saído, para brincar com a banana a que têm direito.

Esperemos que ainda vão a tempo.

Quanto a mim, franco-atirador e eterno descontente, estarei presente sempre que o inimigo a abater for o ministério e as políticas públicas erradas que destroem a escola pública. Porque contra outros professores, mesmo que dirigentes sindicais, recusar-me-ei a marchar. Sempre!

VAMOS A ISSO COMPANHEIR@S


FJSantos, Diplomacia, bom senso e humildade q.b. é o mais necessário, Reflexões, 14 de Outubro de 2008

Etiquetas: , , , ,

John Mage - Enterrar a estaca no coração do neoliberalismo

Monthly Review
Por entre a crise, o país menos afectado é e será Cuba; já está para além de qualquer dúvida que o melhor lugar em todo o mundo para confiar na protecção social, em vez de confiar nas migalhas das poupanças individuais, o melhor local para quem nada possui, é Cuba.

John Mage in A Monthly Review e a crise do crédito, publicado por Resistir.info em 12 de Outubro de 2008

(Tradução de Margarida Ferreira)

Etiquetas: ,

Explicação simples da crise financeira

(link recebido por email de Silva Santos)

Etiquetas: , ,

Segunda-feira, Outubro 13, 2008

José David Carracedo - Angola: Eleições reforçam o governo

Já na década de 1980 a maioria do Comité Central do MPLA era constituida por ovimbundos. Na mesma altura, Jonas savimbi continuava a apostar no tribalismo. Estes factos, mais que quaisquer devaneios que pretendem iludir a realidade, explicam as actuais dificuldades da Unita no processo político angolano. (AF)
Mapa das tribos de Angola em 1970

Nas eleições depois do final da guerra, o partido no poder, o MPLA, obteve 80 dos votos e mais de 2/3 do Parlamento. O partido da antiga guerrilha, a UNITA, com 10%, reconhece a derrota.

Num país devastado por 29 anos de guerra, o Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) constituído em 1956 como guerrilha marxista-leninista contra o domínio colonial português e no poder desde 1975, alcançou uma contundente vitória nas caóticas eleições realizadas em 5 de Setembro passado. Apesar dos maus augúrios, estas eleições decorreram num clima pacífico, ao contrário das realizadas durante a trégua de 1992 que desaguaram numa reedição da guerra até 2002, em que a UNITA não aceitou os resultados.

Ao contrário do que dizia o El País (6/09/08), em Angola não se deu o cliché africano de divisão por etnias e o MPLA venceu tanto entre os ovimbundos como entre os quimbundos, os dois grupos étnicos maioritários.

Os esmagadores resultados obtidos pelo MPLA permitiram ao presidente, José Eduardo dos Santos, no poder desde 1979, avançar para a reforma consttucional, pois obteve os dois terços necessários. A falta de violência no acto eleitoral abre caminho para eleições presidenciais no próximo ano. A grande derrotada foi a ex-guerrilha UNITA (União Nacional Para a Independência Total de Angola).

A UNITA, fundada por Jonas Savimbi em 1966 e aliado no passado tanto da China como dos EUA ou o regime racista da África do Sul, apenas obteve 10% dos votos, um número que muito distante dos 34% alcançados nas eleições de 1992. Como não eram permitidas sondagens, esta derrocada surpreendeu nos seus feudo tradicionais (Benguela, Huambo e Bié), onde venceram nas eleições de 1992, realizadas sob o auspício da ONU com os dois exércitos presentes. Segundo diversos testemunhos recolhidos em Huambo por DIAGONAL, ao retomar a guerra, a UNITA praticou uma política de aniquilação dos votantes do MPLA.

16 anos depois e depois de uma derrota militar, a UNITA parece ter compreendido que a sua única opção de chegar ao poder consiste no alicerçar do processo democrático e conjunturalmente se produza uma alternância. Agora aceitaram os resultados de um Estado supostamente multipartidário, ainda que na prática, até agora, tenha sido um sistema de partido-Estado. A recordação da guerra alargou o medo de criticar o partido no poder e fomenta a intimidação política como declararam os 14 partidos da oposição. Os meios de comunicação são estatais e estão controlados pelo MPLA, salvo em Luanda onde se permitem alguns meios privados.

Situação económica

Angola, a antiga jóia do império colonial português, experimentou um rápido crescimento. Actualmente é o primeiro país do mundo em crescimento do PIB per capita (14% em 2006 e 27% em 2007) maioritariamente baseado no auge dos preços do petróleo e dos diamantes. Desde 11 de Setembro ostenta a presidência da OPEP. Segundo dados do FMI, Angola ultrapassou recentemente a Nigéria como primeiro produtor africano de petróleo, com mais de dois milhões de barris diários. A petrolífera norte-americana estadunidense Chevron, com uma extracção de 500.000 barris por dia em Angola estima que irá duplicar a sua produção em cinco anos. No entanto, a diferença entre a riqueza dos poços e a pobreza da grande maioria da população era, até há uns meses, a maior do planeta. No ranking de desenvolvimento humano, Angola ocupa o 162º lugar entre 177 países (PNUD, 2007) com uma esperança de vida de 40 anos. Com mais de 4,7 milhões de deslocados internos devido à guerra, Luanda, a capital, tem quase cinco milhões de pessoas. Sem censo estatal, com uma popuação estimada em 16,4 milhões (OCDE, 2007), a maioria da população vive distribuída em dezenas de milhares de aldeias com um tamanho médio de 50 pessoas. Sem luz, sem água potável nem vias de comunicação, subsistem numa economia rural sem acesso à educação e à saúde. A maior carga recai sobre as mulheres, que em muitas regiões são consideradas sujeitas a posse. Esta situação contrasta com as grandes riquezas que acumula a classe dirigente, encabeçada pelo homem mais rico do país, o presidente José Eduardo dos Santos.

No entanto, no último ano, Angola viveu um assombroso processo de construção de infra-estruturas: em algumas cidades, iluminação pública, ruas asfaltadas e água corrente e no campo um ambicioso plano de estradas e caminho-de-ferro. A concessão é disputada por empresas europeias, norte-americanas e chinesas, sendo estas últimas as que claramente dominam a situação. Segundo declarava ao DIAGONAL um ex-combatnte do MPLA, «por ora, do marxismo só ficou a retórica».

História de uma guerra

Três guerrilhas lutavam contra o domínio português: MPLA, apoiada pelo bloco soviético e particularmente Cuba. A UNITA, de cariz maoista, era apoiada pela China e a FNLA, muito ligada ao regime de Mobutu Sese Seko (Zaire) e apoiada pelos EUA. Durante as guerras coloniais, militares portugueses politizados na contenda formam o Movimento das Forças Armadas, que em 25 de Abril toma o poder através da Revolução dos Cravos. O novo governo português reconhece o direito à autodeterminação em Moçambique, Timor Orienta, Guiné… e Angola, onde os acontecimentos se precipitam. Rebentam os combates entre as guerrilhas. Perante a derrota da FNLA, os Estados Unidos elege como aliado a UNITA. Em Outubro de 1975 o governo racista da África do Sul, em apoio da UNITA, invade Angola (a partir do território ocidental sob sua administração, que no decorrer da guerra alcançará a independência e transformar-se-á na actual Namíbia). Em Novembro de 1975 Cuba envia pa Angola em ajuda do MPLA. A presença de tropas de ambos os países prolonga-se até finais dos anos 80. A intervenção da ONU consegue uma trégua e eleições em 1992. A Unita não reconhece os resultados e rebenta a guerra. Com a morte do seu líder, Savimbi, em 2002, o presidente José Eduardo dos Santos decreta o fim da guerra e apela a uma política de reconciliação nacional que se consagra nos acordos de Lusaka.

José David Carracedo, Angola: Eleições reforçam o governo, O Diário.info, 11 de Outubro de 2008

Etiquetas: , , , ,

Sábado, Outubro 11, 2008

Petromar constrói plataforma de injecção de gás no Ambriz

Uma plataforma de injecção de gás começa a ser construída em Dezembro deste ano no bloco 2, na localidade de Ambriz, província do Bengo, pela empresa angolana Petromar, segundo o director-geral adjunto da companhia, António Bravo Neto.À margem da conferência sobre recrutamento de estudantes angolanos finalistas e pré-finalistas do ramo de engenharia, realizada de terça a quinta-feira, o responsável informou que a construção da plataforma foi encomendada pela petrolífera Total."Estamos a preparar condições materiais e humanas com vista a dar início às actividades, previstas para Dezembro próximo", sublinhou António Bravo Neto, que se encontra na capital da Namíbia, desde segunda-feira última em visita de trabalho de sete dias.Em Dezembro, esclareceu, a empresa começa igualmente a construir dois reservatórios de 160 metros cúbicos cada, para armazenar o gás da futura fábrica "Angola LNG" a localizar-se no município do Soyo, província do Zaire. A Petromar fabrica infra-estruturas de exploração de petróleo para as companhias petrolíferas Sonangol, Total, BP, Chevron, Esso, Somoil e ENI e assiste tecnicamente as indústrias do sector.

Etiquetas:

Petromar constrói plataforma de injecção de gás no Ambriz

Uma plataforma de injecção de gás começa a ser construída em Dezembro deste ano no bloco 2, na localidade de Ambriz, província do Bengo, pela empresa angolana Petromar, segundo o director-geral adjunto da companhia, António Bravo Neto.À margem da conferência sobre recrutamento de estudantes angolanos finalistas e pré-finalistas do ramo de engenharia, realizada de terça a quinta-feira, o responsável informou que a construção da plataforma foi encomendada pela petrolífera Total."Estamos a preparar condições materiais e humanas com vista a dar início às actividades, previstas para Dezembro próximo", sublinhou António Bravo Neto, que se encontra na capital da Namíbia, desde segunda-feira última em visita de trabalho de sete dias.Em Dezembro, esclareceu, a empresa começa igualmente a construir dois reservatórios de 160 metros cúbicos cada, para armazenar o gás da futura fábrica "Angola LNG" a localizar-se no município do Soyo, província do Zaire. A Petromar fabrica infra-estruturas de exploração de petróleo para as companhias petrolíferas Sonangol, Total, BP, Chevron, Esso, Somoil e ENI e assiste tecnicamente as indústrias do sector.

Sexta-feira, Outubro 10, 2008

Português Moderno

A NOVA LÍNGUA PORTUGUESA
Desde que os americanos se lembraram de começar a chamar aos pretos 'afro-americanos', com vista a acabar com as raças por via gramatical - isto tem sido um fartote pegado!

As criadas dos anos 70 passaram a 'empregadas domésticas' e preparam-se agora para receber menção de 'auxiliares de apoio doméstico' .

De igual modo, extinguiram-se nas escolas os 'contínuos 'passaram todos a 'auxiliares da acção educativa'.

Os vendedores de medicamentos, com alguma prosápia, tratam-se por' delegados de informação médica'.

E pelo mesmo processo transmudaram-se os caixeiros-viajantes em 'técnicos de vendas'.

O aborto eufemizou-se em 'interrupção voluntária da gravidez';

Os gangs étnicos são 'grupos de jovens'.

Os operários fizeram-se de repente 'colaboradores';

As fábricas, essas, vistas de dentro são 'unidades produtivas'e vistas da estranja são 'centros de decisão nacionais'.

O analfabetismo desapareceu da crosta portuguesa, cedendo o passo à 'iliteracia' galopante.

Desapareceram dos comboios as 1.ª e 2.ª classes, para não ferir a susceptibilidade social das massas hierarquizadas, mas por imperscrutáveis necessidades de tesouraria continuam a cobrar-se preços distintos nas classes 'Conforto' e 'Turística'.

A Ágata, rainha do pimba, cantava chorosa: «Sou mãe solteira...» agora, se quiser acompanhar os novos tempos, deve alterar a letra da pungente melodia: «Tenho uma família monoparental...» - eis o novo verso da cançoneta, se quiser fazer jus à modernidade impante.

Aquietadas pela televisão, já se não vêem por aí aos pinotes crianças irrequietas e «terroristas»; diz-se modernamente que têm um 'comportamento disfuncional hiperactivo'.

Do mesmo modo, e para felicidade dos 'encarregados de educação' , os brilhantes programas escolares extinguiram os alunos cábulas; tais estudantes serão, quando muito, 'crianças de desenvolvimento instável'.

Ainda há cegos, infelizmente. Mas como a palavra fosse considerada d esagradável e até aviltante, quem não vê é considerado 'invisual'. (O termo é gramaticalmente impróprio, como impróprio seria chamar inauditivos aos surdos - mas o 'politicamente correcto' marimba-se
para as regras gramaticais...)

As putas passaram a ser 'senhoras de alterne'.

Para compor o ramalhete e se darem ares, as gentes cultas da praça desbocam-se em 'implementações', 'posturas pró-activas', 'políticas fracturantes' e outros barbarismos da linguagem. E assim linguajamos o Português, vagueando perdidos entre a «correcção política e o novo-riquismo linguístico.

Estamos lixados com este 'novo português'; não admira que o pessoal tenha cada vez mais esgotamentos e stress. Já não se diz o que se pensa, tem de se pensar o que se diz de forma 'politicamente correcta'.

E na linha do modernismo linguístico, como se chama uma mulher que tenta destruir a educação em Portugal?
Ministra!

Quinta-feira, Outubro 09, 2008

Esta semana temos...

...que acabar de corrigir as fichas de diagnóstico, entregar os respectivos relatórios/síntese, continuar a marrar nas grelhas, fazer novas grelhas, reunir imensoooo, falar muuuuuuuito de grelhas, inventar novas grelhas... e assim!!!
Que bom!

(Recebido por email de uma colega que está entretida a fazer grelhas!)

Etiquetas: , , ,

Quarta-feira, Outubro 08, 2008

Dirk Kurbjuweit - Capitalismo em crise, pacto quebrado com o povo

Primeiro, estranhei que ontem o Presidente dos EUA, George Bush, tivesse telefonado a Gordon Brown, Sarkozy e Berlusconi, não tendo feito o mesmo a Angela Merkel. Agora, percebo porquê. (AF)


De confiar no Capitalismo e fugir à interferência do governo, estamos falados. Mas banqueiros irresponsáveis viram uma oportunidade de enriquecer rapidamente e foram atrás dela. O seu fiasco, tornou-se nosso - e a promessa de um bem comum evaporou-se tal como a fé no capitalismo democrático.

A Alemanha subiu aos céus. Às 9H00 da mnahã de terça-feira 2 de Outubro, o Airbus A310 da Luftwaffe - o equivalente alemão do Air Force One - havia descolado da pista do Aeroporto Tegel de Berlim, meia-hora antes. O avião ruma para Leste, com destino a São Petersburgo, Rússia. Elementos da tripulação servem o pequeno-almoço farto como é costume, incluindo omeletes, carnes, fatiados, quejo e mel. A bordo, estão muitas pessoas que determinaram a posição que a Alemanha ocupa no Mundo: a Chanceler Alemã Angela Merkel e seis ministros, os presidentes de algumas das maiores empresas, como a Siemens, o Deutsche Gahn e a E.on, além de jornalistas. Não há banqueiros no avião, mas eles ocupam o lugar principal nas preocupações de todos os presentes e também nas suas conversas.

Após o pequeno-almoço, a Chanceler Ângela Merkel convidou os jornalistas a dirigirem-se a uma sala à frente para uma conversa off-the-record com a imprensa. Todos se aninharam na pequena sala, 25 pessoas no total, em pé, ou vários sentados na mesma cadeira, alguns mesmo sentados no chão. "O microfone avariou-se outra vez", disse a chanceler para começar.

Falou sobre a Rússia e depois referiu-se à crise financeira. De vez em quando, ouve-se o som do autoclismo: a casa de banho do avião fica adjacente à sala de conferências. A discussão é sincera. Os jornalistas põem questões com ar sério e a chanceler responde com gentileza. Cada palavra transmite preocupação.


in Dirk Kurbjuweit, CAPITALISM IN CRISIS The Broken Pact with the People, Der Spegel, 8 de Outubro de 2008

Etiquetas: , , ,

Jochen Scholz - Projecto Europeu para o Novo Século (10)

(Início)

Perspectivas

A Europa não pode, pelo seu peso global, furtar-se a desempenhar um papel mundial. É escutada fora do «Ocidente» e nos níveis mais altos da ONU. Não, concerteza, por reproduzir ou se deixar envolver na actual ordem hegemónica. Uma ordem mundial conforme ao espírito europeu deveria antes apontar para que «a Europa e os USA se entendam, ainda que as suas posições não sejam no futuro tão dominantes como hoje.» Se substituirmos nesta afirmação «os USA e a Europa» por «A Inglaterra e a França», revelar-se-á a chave do sucesso desta proposta dentro da União Europeia. Helmut Khol, assim como os seus antecessores, estão conscientes disso, mas os sucessores, não havendo passado pela experiência da guerra, reclamam para a Alemanha uma normalidade que a sua História no Século XX não permite. Enviarão para os órgãos do governo, onde se encontram os escalões intermédios de gestão, um sinal errado. Os escalões intermédios estão já nas mãos de uma geração que nem havia atingido a idade da reflexão no tempo da Guerra Fria.
Só um empenhamento activo em prol de uma mudança nas condições da política internacional terá hipóteses de criar novas oportunidades. Cada euro que a Europa gaste para reparar os Estados despedaçados pelos golpes cirúrgicos dos EUA é retirado aos investimentos nacionais. O recurso às empresas sub-contratadas que lucram com isso, como no Iraque neste momento, não compensam as perdas para a economias domésticas. Cada yuan dispendido em dólares é retitado ao desenvolvimento interno da China. As tentativas europeias de inflectir a política não passaram, até à data, do estado embrionário, apesar dos sinais de apoio muito claros, vindos, por exemplo, da China. Os «encontros euro-asiáticos anuais e as visitas das chancelarias alemãs a Pequim nada alteraram. Logo, considerando as previsões de especialistas reputados do petróleo e a extrema fragilidade do sistema financeiro mundial, o tempo urge. Os recentes acontecimentos no Cáucaso anunciam, além disso, uma mudança de paradigma: a Rússia regressa à cena internacional. Os EUA encaixaram aqui o seu primeiro «contra-golpe», que Chalmer Johnson anteviu há oito anos:
«Os USA facilmente se arvoram em vitoriosos da Guerra Fria. Com toda a verossimilhança, quem espreitar retrospectivamente para este século, não o irá lá descobrir como vencedor, principalmente se os EUA se obstinarem na sua actual política imperial.»

A reacção de um jogador de boxe é conhecida. A História oferece-nos muitos exemplos de Estados que jogaram tudo na mesma carta, logo que se convenceram que estavam encostados à parede. O ex-diplomata Kishore Mahbubani anunciou, no seu livro aparecido em 2008 «O Novo Hemisfério Asiático. O Deslize Irresistível do Poder Global para Leste» o «crepúsculo dos deuses» do ocidente. Da imagem dada pelos media ocidentais durante a breve guerra na Geórgia, escreveu, a 20 de Agosto de 2008:
É, portanto, crucial para o Ocidente que tire lições dos acontecimentos na Geórgia. Deve ter em conta que o seu pensamento estratégico restringe as opções à sua disposição. Após o afundamento da União Soviética, os analistas ocidentais acreditaram que, para o Ocidente, seriam dispensáveis novos compromissos geopolíticos. Pederiam impôr os seus ditames. Agora, devem reconhecer a realidade. A população conjunta da América do Norte, União Europeia e Australásia é de 700 milhões, cerca de 10% da população mundial. Os restantes 90% lutam por deixarem de ser objecto da História, para se tornarem sujeitos da História. O ‹Financial Times› de 18 de Agosto de 2008 proclamava ‹Frente ocidental unida na Geórgia›. Melhor fora que escrevesse ‹resto do mundo ri-se do Ocidente por causa da Geórgia›
Estas análises, contudo, ainda não foram suficientes para convencer o conselheiro-chefe do candidato democrata à presidência dos EUA, Zbigniew Brzezinski, como mostram os comentários que fez à crise no Cáucaso. Eis como exprime o seu furor sagrado:
«Actualmente a Europa - apesar do seu crescimento económico e integração financeira, assim como da duração das suas relações transatânticas - é um protectorado militar de facto dos Estados Unidos da América. Esta situação gera necessariamente tensões e ressentimentos, especialmente desde que a ameaça directa que pendia sobre a Europa e que justificava essa dependência dos EUA se desvaneceu. É um facto que a aliança entre os EUA e a Europa é desiquilibrada, mas mais do que isso, é verdade que o desiquilíbrio existente entre os dois irá ampliar-se a favor dos EUA.»
Junte-se a lastimável estratégia de divisão empreendida pela entrada da Polónia e da República Checa no «Sistema Nacional de Defesa» [a instalação do escudo antimissil]. Tudo isto exige da Europa uma resposta adequada. Até para bem dos próprios EUA.

(Traduzido por Michèle Mialane, revisto por Fausto Giudice/Tlaxcala)

Tradução a partir da versão francesa:
Jochen Scholz, PNEC – Project for the New European Century, Horizons et débats, 15 de Seyembro de 2008

Etiquetas: , , ,

A Pergunta

O Estado não paga aos utentes nenhum medicamento, sem ouvir o médico;
Mas o mesmo Estado subsidia a internet aos utentes, sem ouvir o Professor.

A pergunta que se põe, é muito simples:
Se um Professor fizer a denúncia de um benefício que o Estado concedeu ao seu aluno,

Essa denúncia corre contra as regras que o Estado impôs para conceder o benefício, ou contra a avaliação que o Estado faz do desempenho do Professor?

Da resposta (ou falta dela) que o avaliador registar em acta, irá depender o tipo de participação que o avaliado fizer na avaliação do seu desempenho.

Etiquetas: , ,

Terça-feira, Outubro 07, 2008

8ª Convenção Internacional da Associação Portuguesa de Killifilia

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Outubro 06, 2008

Jochen Scholz - Projecto Europeu para o Novo Século (9)

(Início)

O papel da China

Os EUA estão compelidos a manter a actual ordem mundial. Só os EUA conseguem reunir recursos económicos necessários para a manutenção do aparelho militar gigantesco, tão indispensável para o estatuto de superpotência, como para segurar a circulação do dólar. De momento, a China é um comprador bem-vindo, porque insubstituível, dos títulos do Tesouro dos EUA. Mas a China não se irá cingir a este papel indefinidamente. A presença militar dos EUA, cercando a China, torna a questão da energia um verdadeiro paiol. Muitos dos que investem em dólares começam também a interrogar-se: Por quanto tempo deverão os credores tolerar que o devedor os force a aceitar, para pagamento dos excedentes comerciais e financeiros, uma moeda desvalorizada acompanhada de uma ameaça contra si dirigida?
Se a Europa não ousar mudar o rumo da sua política mundial, ver-se-á um dia na circunstância de ter de acertar o passo com a potência imperial em novas guerras globais sob a bandeira da «luta contra o terrorismo». No entanto, como já ficou patenteado desde Israel à Irlanda do Norte, do Afganistão à Indonésia, passando pelas Filipinas, não é possível combater o terrorismo por meios militares. Está na natureza da «guerra desigual». Todas as capturas de chefes terroristas foram fruto de um trabalho paciente e meticuloso de polícias e serviços de espionagem, levados a cabo por cooperação internacional. Os que encarregam disso os militares, comprarão uma nova «Guerra dos Cem Anos» - como evocou o ex-director da CIA, James Woosley - para tentar vergar à disciplina dos valores ocidentais a nova comunidade dos seus vassalos.

Um barril de pólvora para o dólar

Em vez de continuar a subvencionar o motor desgastado da economia mundial com os seus próprios excedentes, a economia europeia deveria utilizar a sua produtividade elevada para se tornar, ela própria, um motor. A ameaça dos EUA, de estrangular as exportações por via do poder sobre o dólar, revelar-se-á vã, caso os bancos centrais asiáticos comecem a aceitar euros. Porque sem os investimentos externos - da Europa e da Ásia - é impossível financiar o défice dos EUA. A China já iniciou a diversificação das suas reservas em divisas, provocando o recuo do dólar sem fim à vista. O grupo ASEAN+3 procura fixar em moeda regional as obrigações do estado. Eis um barril de pólvora para o dólar. Mas esta evolução requer um gestão conceptual e institucional. Deixada a si própria, arrisca-se-ia a espalhar efectivamente o caos de que Greenspan e consortes agitam com virtuosismo o espantalho para manterem em ordem as suas fileiras.

Uma ordem económica mundial mais justa e equitativa é possível

A Europa, em cooperação com a Ásia e a Rússia, é suficientemente forte para assumir a responsabilidade. Mas deve ser suficientemente sagaz para não repetir os erros do imperialismo do dólar das últimas décadas. Os EUA não poderão excluir-se à dinâmica de um tal processo. Afinal de contas, ele irá beneficiar a sua própria economia.
Os atlantistas de ambos os lados irão logo brandir a ameaça do isolacionismo dos EUA. Também isto é um bluff, pois os EUA não poderão furtar-se por razões geo-estratégicas. O isolacionismo significaria a morte dos EUA como grande potência mundial, pois o lado europeu, fortemente interligado e em princípio dialogante de boa fé, é-lhe indispensável. As elites dos EUA têm disso perfeita consciência. Portanto, também aqui não há razões para cobardia da Europa. Razões há sim, para que alguém seja arrastado para um canto do ring com uma infeliz jogada de póker.


(continua)


Tradução a partir da versão francesa:
Jochen Scholz, PNEC – Project for the New European Century, Horizons et débats, 15 de Seyembro de 2008

Etiquetas: , , , , , ,

O que pensam os alunos sobre a escola actual?

Convido todos os alunos de Portugal a contribuírem com as suas visões do panorama actual da escola de modo a obtermos uma mudança de ângulo. Será certamente proveitoso para todos.

Ser professor em Portugal - Mª Teresa Caldeira

Cara colega,

Recebi o teu mail que me foi reencaminhado por uma amiga que é tua colega na Escola Secundária de Odivelas. A ******. Ela poderá confirmar-te o que abaixo te descrevo. Como presidente do C.E. da minha escola está um professor primário que odeia dar aulas, esteve toda a vida como vereador na câmara da Arruda dos Vinhos, onde se incompatibilizou com os seus pares e teve de voltar à para a escola. Tudo fez para há 3 anos, ser eleito para o Executivo. Agora tornou-se "mais papista que o papa", sobrecarregando-nos de forma perfeitamente hedionda, com trabalho e mais trabalho, papelada e mais papelada. Já nos marcou as aulas observadas, quer portefólio com planificações de tudo, relatórios de tudo, etc. Desde o dia 15 de Setembro que passei a poder dormir apenas 4h por noite e passo os fins-de-semana a trabalhar (não para os alunos, mas a fazer grelhas, papeladas e mais papeladas) estou esgotada, parece que estou a viver o meus anos de estágio, mas com a agravante de que nesses anos tinha 2 turmas e 2 níveis. Agora pedem-me o mesmo trabalho, mas para 8 turmas e 4 níveis, mais documentos e fichas e relatórios, para as aulas de substituição e de apoio, mais organização de 2 actividades por período, que envolvam pais e alunos, mais 2 acções de formação (desta forma, só se as houver entre as 2h e as 6h da manhã, que é o único tempo em que não estou a trabalhar para a escola. Já me foi comunicado que não terei excelente, porque o presidente não me atribuiu nenhum cargo. ISTO É HEDIONDO, E EU NÃO ESTOU A AGUENTAR TRABALHAR ASSIM.
Desculpa, eu sei que tu pedias outra coisa, mas estas situações também têm de ser denunciadas e eu não sei como.
Envio-te em anexo o mail que enviei ao sindicato, a pedir ajuda.
Se me pudesses ajudar… agradecia.
Mª Teresa Caldeira

Carta com pedido de divulgação publicada por A sinistra ministra em 6 de Outubro de 2006

Etiquetas: ,

Zeferino Lopes - Avaliação dos professores

Caros Colegas Professores

Todos à manifestação nacional no dia 15 de Novembro contra o modelo de avaliação atomista, complicado e burocrático, imposto pelo Ministério aos professores.

Por uma avaliação simples, holista e produtiva, que não confunda o acto de avaliar com o de formar!

Este modelo de avaliação, imposto pelo Ministério, é perverso e contraprodutivo. O legislador, desconhecendo a realidade e a prática do ensino, assim como o contexto em que se desenrola, decretou medidas que aparentemente são muito justas e racionais mas que, por efeito de composição, levadas a cabo por um conjunto enorme de pessoas, produzem efeitos contrários ao esperado e, por isso, se revelam absurdas quando postas em prática.

Jean-Pierre Dupuy, o maior filósofo francês vivo, inspirado nos trabalhos de Ivan Illich, demonstrou que a contraprodutividade do trabalho resulta, na maior parte das vezes, desta mentalidade tecnocrática, utilitarista e consequencialista, que procura sempre e sempre mais meios para atingir os fins. De tanta preocupação com os meios, o trabalho perde-se nas “técnicas” e nos “instrumentos”, nos “recursos”, na “preparação” e nas “estratégias” e, quanto ao fim propriamente dito, esse fica esquecido ou não é atingido por causa do desperdício de tempo nos meios. Vou dar um exemplo simples dos transportes. Imaginem que toda a população de um determinado território se convence, por efeito mimético, que o automóvel é o meio mais racional, muito mais rápido e confortável para fazer as suas deslocações do que os transportes públicos. Todos, fazendo o mesmo e às mesmas horas, entopem as ruas e estradas e ninguém anda: demora-se muito mais tempo do que andar de bicicleta ou até mesmo a pé. Conclusão: uma decisão aparentemente racional, inteligente e correcta revelou-se absurda e contraprodutiva, perversa.

O mesmo se passará e já se passa com este modelo de avaliação: ele insiste tanto nos “meios” para o ensino, nas “estratégias”, nas “preparações” e “planificações”, nos “recursos” e nas “técnicas” que o fim (o ensino e a aprendizagem) ficará num lugar muito secundário o que, como tem sucedido, se irá provar nas provas internacionais dos nossos estudantes. Os professores vão gastar muito mais tempo do horário normal de trabalho por semana (35 horas) a dizer e a explicar o que vão fazer e, depois, a explicar o que fizeram e como o fizeram do que a ensinar e a ajudar os alunos a prender. Daí resultará uma enorme contraprodutividade que os resultados dos exames não conseguirá disfarçar.

E porque sucede assim? Porque o modelo é extremamente complicado: confunde o acto de avaliar com o acto de formar. Embora toda a avaliação deva ter implicações na formação contínua do professor, avaliar e formar devem ser actos distintos, o que não se verifica. Com este modelo, será legítimo perguntar se o trabalho dos orientadores de estágio foi em vão já que tudo o que se fez antes está posto em causa! Mais, os próprios orientadores serão avaliados/formados pelos seus avaliadores, pondo em causa o trabalho com os seus formandos!!! Há aqui qualquer coisa de muito perverso e absurdo, para já não falar no facto de um licenciado poder avaliar/formar um doutorado!

A avaliação do professor deve incidir apenas sobre 4 factores gerais: a progressão dos seus alunos que se mede pela comparação dos resultados médios entre uma avaliação diagnóstica exaustiva e completa à partida e uma avaliação sumativa aferida à chegada, podendo professor retirar uma ou outra turma cuja motivação para os estudos é abaixo de zero, pela pontualidade/assiduidade como funcionário do Estado, pela sua formação e estudos/publicações no domínio científico e pedagógico, pela participação na vida cultural da escola. O resto é pura perda de tempo e demagogia. Os professores sabem como dar aulas, o que sucede é que muitas vezes não têm os meios humanos (alunos e pais), organizacionais (complicação burocrática e gestão centralizada) e condições materiais para o poder fazer com qualidade. Quantas salas estão equipadas com projecção multimédia?!

Temos que dar um empurrão definitivo a este monstro absurdo mascarado de pedagogia científica!


Zeferino Lopes, Prof. e Dout. em Filosofia na Escola Secundária de Penafiel em 29 de Setembro de 2008.

Etiquetas: , , ,

Jerónimo de Sousa - Enfrentar a crise do capitalismo

Jerónimo de SousaO PCP entende que face à grave crise do sistema capitalista e aos seus impactos na economia nacional e na vida do Povo português, o governo deve encarar de frente a situação, assumir as suas responsabilidades e deixar-se de mistificações.

– É uma mistificação afirmar-se que a crise se deve à ganância de alguns, como se a crise fosse a violação de normas éticas, ou como se a busca do máximo lucro não fosse inerente ao sistema Capitalista.

– É uma mistificação explicar a crise apenas pelo rebentamento da bolha do sub-prime. Na verdade, a crescente financeirização da economia mundial em detrimento da produção real, a prática especulativa dos grandes senhores do dinheiro, aos quais tudo é permitido, a crescente desvalorização dos salários e a sua substituição pelo incentivo e facilitação do endividamento, são aspectos incontornáveis da grave situação a que chegámos.

– É uma desculpa esfarrapada afirmar-se que o governo foi surpreendido quando a verdade é que há muito era conhecida a bolha especulativa imobiliária. O governo conhecia a situação e mesmo depois da deflagração da crise, em Agosto do ano passado, continuou a desvalorizar a sua profundidade e a ocultar as suas consequências.

– É uma ilusão e uma mistificação pensar-se que pode haver transparência e regulação no actual quadro de economia de mercado, com a livre circulação de capitais e os off-shores, como aliás o evidenciam as medidas tomadas após o rebentamento da penúltima bolha especulativa – “nova economia” – em que se tomaram novas medidas de regulação, controlo e transparência, sem que as questões de fundo tivessem sido alteradas. Recorde-se também, que os casos do BCP e as suas ligações aos off-shores só foram conhecidas pelo Banco de Portugal porque houve denúncia interna.
Isto não significa que o PCP entenda que não se devem agravar sanções e tomar medidas que reforcem os deveres de transparência dos mercados e informação das instituições sobre a sua actividade e os seus ditos produtos.

– É uma mistificação e uma ilusão considerar-se que o país tem resistido à crise e que está hoje, melhor preparado. Infelizmente o país encontra-se estagnado, como o provam a diminuição do PIB (Produto Interno Bruto), das exportações, o aumento das taxas de juro e a quebra do poder de compra dos trabalhadores e das camadas médias, são consequências conjugadas de uma política interna desastrosa e da crise internacional.

O endividamento do País e do sistema financeiro ao estrangeiro e o endividamento das famílias a par com a fragilidade do nosso aparelho produtivo e o domínio com as privatizações de empresas básicas e estratégicas pelo estrangeiro agudizam substancialmente a exposição à crise.

O PCP considera que esta crise põe também em evidência, a falsidade dos dogmas do neo-liberalismo, do “menos Estado”, do “Estado não intervencionista”, da “mão invisível do mercado”, do mercado “regulador”. Os grandes defensores do “tudo ao privado” e do “Estado mínimo”, são agora os maiores defensores da intervenção do Estado e da nacionalização dos prejuízos, procurando assim passar a factura da crise para o povo em geral e premiar com milhões, os que ganharam e ganham milhões com especulação.

O capitalismo revela mais uma vez a sua natureza e as suas profundas contradições, um sistema que não resolve os problemas da humanidade, antes os agrava, fomentador das desigualdades, das injustiças, da pobreza, da miséria de milhões de seres humanos.

O PCP considera que face à grave crise o governo deve desde já tomar as seguintes medidas:

 No plano interno, intervir junto do sistema bancário para diminuir as taxas de juro; tomar medidas para valorizar, defender e promover a produção nacional, aliviar a tesouraria das empresas acelerando os pagamentos em dívida e de todos os fundos comunitários; aumentar os salários e repor o poder de compra dos trabalhadores; reforçar as prestações sociais designadamente, às famílias mais carenciadas; melhorar a distribuição do Rendimento Nacional.
 Na União Europeia, intervir junto do BCE para a descida das taxas de juro; a suspensão do Pacto de Estabilidade; o combate às deslocalizações; o reforço dos Fundos Estruturais e outras medidas orçamentais que relancem as actividades económicas e o investimento; aumento dos salários por forma a melhorar o poder de compra e a alargar assim o mercado interno. O Governo deveria tomar a iniciativa junto da EU para acabar com os offshores.

 O PCP está a favor da revisão do Sistema Monetário e Financeiro internacional e do combate aos privilégios do dólar, mas tal não pode ser feito com a valorização artificial do Euro, à custa das economias mais débeis da União, como é o caso de Portugal.


O PCP considera também que apesar dos planos Bush/Paulson, das intervenções em bancos em vários países da Europa e das injecções dos Bancos Centrais, a crise vai ainda perdurar e que as principais medidas já ensejadas visam passar os custos da crise para as populações em geral e terão como consequência uma ainda maior concentração da riqueza e centralização do capital.

A grande participação que hoje se registou no Dia Nacional de Luta convocado pela CGTP-IN, onde milhares de trabalhadores do sector público e privado, em greves, paralisações e acções de rua, manifestaram o seu repúdio à intenção do Governo PS de alteração para pior do Código do Trabalho, e exigiram o aumento dos salários e o combate à precariedade, constitui um sinal inequívoco da vontade de uma outra política comprometida com o interesse e a soberania nacional, a defesa do aparelho produtivo, uma mais justa repartição da riqueza, um país de progresso e justiça social, aspectos estes que, perante a gravidade dos últimos acontecimentos, se tornaram ainda mais decisivos para o futuro do país.


Jerónimo de Sousa, Sobre a crise internacional do capitalismo, publicado pelo Partido Comunista Português em 1º de Outibro de 2008

Etiquetas: , , , ,

Domingo, Outubro 05, 2008

Jochen Scholz - Projecto Europeu para o Novo Século (8)

(Início)

Os pilares de um contra-projecto europeu

Que linhas de força poderiam integrar um «Projecto para um XXIº século europeu», capaz de grangear o consenso de todos à parte os EUA, porque estaria desprovido de ambições hegemónicas? Um projecto cujos objectivos económicos estariam orientados prioritariamente para o mercado interno, em vez de continuar a utilizar o mercado mundial como arena de gladiadores económicos? As propostas aqui feitas partem da análise política de segurança segundo a qual a Europa não se encontra ameaçada militarmente a médio prazo, logo, (já) não carece do «guarda-chuva americano»:
  • Reforçar os circuitos económicos regionais na Ásia, América Latina e África;
  • encorajar e apoiar a formação de comunidades económicas asiática, latino-americana e africana segundo um modelo próximo ao da União Europeia;
  • apoiar a ASEAN+3 nas suas tentativas rudimentares já empreendidas neste sentido;
  • apoiar o MERCOSUL no seu processo de integração latino-americana;
  • promover uma estratégia de cooperação económica entre a União Europeia, a Ásia, a Rússia, a América Latina e a África;
  • alterar os critérios de Maastricht, afim de prosseguir a edificação das infra-estruturas europeias e de criar novas artérias comerciais para além da Europa Oriental;
  • alterar os princípios monetários e as funções do Banco Central Europeu, hoje servo das praças financeiras de Nova York e de Londres, dominadas pelo dólar;
  • acabar com a ideologia dos excedentes comerciais que dão força a um sistema enfeudado ao dólar próximo do estretor e minam a coesão social;
  • acabar com a ideologia do livre-câmbio mundial entre os fortes contra os fracos;
  • impulsionar uma iniciativa dos governos europeus a favor de um novo «Bretton Woods», afim de reorganizar o sistema financeiro mundial compatível com o desenvolvimento económico;
  • estabelecer o euro como alternativa ao dólar e encorajar os países asiáticos a diversificar as suas reservas em divisas;
  • romper as ligações actuais com o FMI e o Banco Mundial;
  • reforçar o papel - até à data muito restrito devido às pressões de Washington - do Banco Asiático para o Desenvolvimento no financiamento de estruturas económicas regionais;
  • fazer explodir o cartel dos petrodólares, estabelecendo relações privilegiadas com os países exportadores de petróleo, incluindo a Rússia;
  • alterar as estruturas parasitárias da política europeia, tais como o PAC e as posições assumidas na Organização Mundial do Comércio aquando das negociações na Ronda de Doha;
  • orientar prioritariamente a política financeira a favor dos investimentos;
  • fazer valer para a União Europeia, como quadro único da sua política externa, a segurança e a defesa;
  • abdicar, dentro da União Europeia, ao estatuto de potência militar mundial, e aos corrspondentes esforços de apetrechamento militar;
  • orientar as forças armadas exclusivamente para as acções defensivas e desenvolver as capacidades de estabilização em regiões em crise, desde que mandatadas pela ONU ou pela OSCE;
  • promover iniciativas da União Europeia a favor de uma Força de Manutenção da Paz na ONU;
  • organizar uma «Conferência para a Segurança, a Cooperação e o Desenvolvimento no Próximo e Médio-Oriente» análoga à «Conferência para a Segurança e Cooperação Europeia» de Helsínquia nos anos 70, com a representação de todas as partes envolvidas no conflito actual;
  • prevenir a agudização das crises por meio do primado da resolução diplomática e do reforço das relações económicas nas relações externas, na base do respeito pelos interesses de cada parte e do princípio da reciprocidade;
  • respeito absoluto pelo Direito;
  • impulsionar uma iniciativa da União Europeia a favor do reforço e da reforma da ONU;
  • impulsionar uma iniciativa com vista a lutar contra o terrorismo exclusivamente por meios civis e da justiça penal, no quadro das Nações Unidas;


(continua)


Tradução a partir da versão francesa:
Jochen Scholz, PNEC – Project for the New European Century, Horizons et débats, 15 de Seyembro de 2008

Etiquetas: , , , ,

Madalena Santos - Bom dia, Professor!

Como se distingue um bom professor? No Dia Mundial do Professor, Madalena Santos oferece-nos uma resposta inteligente, simples, directa e clara. Onde também se percebe porque é que aqueles que escolheram os professores como adversários não têm qualquer hipótese. (AF)


Bom Dia, Professor!

World Teachers’ Day reminds governments and the general public of the role of teachers and of the need to improve their status and working conditions. Above all, it is an opportunity to show appreciation for their work in preparing the next generation to function efficiently in a changing world.

Felizmente este texto tem idade suficiente (dez anos) para evitar conclusões fáceis daqueles que procuram ridicularizar e menorizar a luta dos professores por melhores condições de trabalho.
Os professores têm em mãos uma "Avaliação de Desempenho" e tentam viabilizar de forma justa o que é na sua essência injusto: avaliar os professores pelos resultados escolares, passando por cima do princípio da identidade individual do aluno e do professor, esquecendo que o verdadeiro sucesso escolar e educativo depende de muito mais do que uma simples nota atribuída no final do ano.
O sucesso é, na minha perspectiva, um resultado equilibrado e harmonioso, feito de conhecimentos adquiridos (quanto mais, melhor!) e valores, que ao longo da vida, se tornam preciosos para o sucesso pessoal. Mas, na sociedade moderna, o que manda é o número, o que nos governa é o papel, um papel desalmado, desumanizado que fornece os elementos necessários para a invenção da máquina burocrática que reduz os meninos e os professores a números e pouco mais. Deixa cá ver este se está a estragar a taxa de abandono. E vai de deitar para o papel o abandono do verdadeiro papel da escola que é, ou devia ser, integrar sem mentiras.
E "vai-se-a-ver" isto é tudo mentira!!!
Ao longo destes trinta e três anos de serviço, eu tenho a certeza que fui avaliada pelos pais dos meus alunos, e pelos alunos, pelos colegas e pela comunidade em geral, de modo informal, "despapelado", mas fui. Fomos todos. Nenhum Encarregado de educação ousava bater-nos, mesmo que os maus resultados dos filhos lhes causasse tanta dor na estima de pais que lhes apetecesse espancar o filho e tudo o que à volta contribuísse para esta dor. Havia então uma cultura de não-violência que urge trazer à escola de novo. Quem sai da escola hoje, sai minado de violência, por dentro, por fora, por palavras, gestos, comportamentos e até pensamentos.
É isso que é preciso combater.
É tão bom ser professor! Corrijo: é tão bom ter sido professora nos anos setenta e oitenta! Tenho reencontrado alunos desse tempo e, ironicamente, nos lugares onde a minha fragilidade se escancara e logo perante eles, ou melhor, no caso concreto, elas. O facto de me reconhecerem já de si é muito gratificante. Mas o melhor é o carinho que põem nos cuidados de que sou alvo por circunstâncias que não vêm ao caso.
São memórias destas que eu vou guardar no meu "portfólio" da minha carreira, onde vou destacar, como os artistas, os momentos de ouro. A partir daí, Senhores Ministros, Presidentes dos Conselhos Todos, avaliem-me como quiserem. Eu não vou mudar por dentro, mesmo que tenha de mudar por fora. A minha satisfação profissional está incrustada na minha alma e já não sai.
A todos os professores, eu desejo, um Bom Dia! A todos os que não são professores eu desejo o mesmo Bom Dia!


Madalena Santos, Bom dia, Professor!, 5 de Outubro de 2008

Etiquetas: ,

Sexta-feira, Outubro 03, 2008

Jochen Scholz - Projecto Europeu para o Novo Século (7)

(Início)

Terrorismo: um meio de esconder os objectivos imperialistas

A nova ordem mundial, sob o lema «America first», baseia-se na supremacia militar, no dólar como moeda-padrão, no controlo dos fluxos de combustíveis, na mão firme sobre as instituições que dominam a economia mundial e no direito do mais forte. O «terrorismo internacional» só serve para justificar, aos olhos da população dos EUA, a manutenção de um aparelho de defesa gigantesco após o desaparecimento de todas as ameaças sérias. Paralelamente, o novo inimigo permite manter na trela os países emergentes e industrializados e forçar os países credores a aceitar uma moeda desgarrada da economia real.
Face à ordem do mundo, em que um dos actores beneficia de forma desproporcionada face aos meios de que dispõe, os restantes actores são forçados a colocar-se algumas questões às quais é possível encontrar dois tipos de respostas:

Adaptar-se - submeter-se - acompanhar contrariado - acomodar-se - reagir?

Os maiores riscos associados à primeira fórmula são: a dependência crescente indo até à vassalagem, a perda das margens de manobras próprias e do poder de iniciativa política autónoma, a insegurança jurídica, o comprometimento em guerras desestabilizadoras, a morte dos seus soldados, a delapidação dos seus recursos materiais e intelectuais, a emergência de contra-poderes agressivos, o descrédito da Europa e o perigo do afundamento do sistema democrático. A esperança de se encontrar no futuro entre os vencedores é bem pequena, na maior parte dos casos. A Europa e os países asiáticos alinhados com os EUA enganar-se-ão, caso procurem em anos vindouros os retornos económicos que caracterizaram os anos de 1945-1990. Estes deveram-se exclusivamente à Guerra Fria.

A Europa tem de encontrar aliados para reconduzirem os EUA à razão

De facto, o «bom mestre» de Joseph Joffe já não serve. O seu propósito de continuar a partilhar, como no passado, um bolo cada vez mais pequeno já não é viável. A concorrência está demasiado forte e ele está submerso até ao pescoço. A segunda via também comporta riscos. Mas oferece mais oportunidades que riscos, pois se trata de uma alternativa necessariamente oposta, leia-se «civil», e a dinâmica a que está associada oferece muitas possibilidades. A iniciativa, a dinamização e o suporte desta alternativa cabe somente à Europa, porque a sua economia é bastante forte, o seu processo de unificação está relativamente avançado e a sua postura de respeito por interesses díspares, pelo Estado de Direito, pela concertação diplomática dos conflitos é universalmente reconhecida. Não é, no entanto, suficientemente forte para avançar sozinha. Dificilmente os EUA aceitarão um projecto multilateral enquanto prevalecer uma situação em que consigam retirar todas as cantanhas do lume, sobrestimar a sua posição dominante e deixar que o resto do mundo pague as despesas. Além disso, não é possível concertar, sem a participação dos EUA, os problemas que se irão levantar. Portanto, a Europa tem de encontrar aliados que consigam reconduzir a os EUA à razão. Para contrariar a estratágia dos EUA, não são os meios que faltam Europa, o que tem faltado é uma visão lúcida dos diversos interesses em jogo, a coragem para distinguir os factos das arengas e a vontade de actuar em vez de reagir.
Mas, em vez de analisar com cuidado os seus próprios interesses e os alheios, a Europa, com a Alemanha à cabeça, tem-se desconsolado pela fé na «comunidade de interesses transatlântica» há muito perdida, de mistura com sentimentos de reconhecimento, respeito e reverência. A realidade é, portanto, a seguinte:
Em meados de Janeiro de 2004, Alan Greenspan, no seu discurso em Berlim, voltou a ludibriar sem vergonha a Europa, acusando-a de ser a responsável pela fragilidade do dólar e deixando a seguinte recomendação: para impedir o afundamento financeiro dos EUA, devem transformar os activos das pensões de reforma em fundos privados que seriam investidos nos EUA logo a seguir.

Libertar-se ou destruir as bases da sua própria economia

Em Davos, reunem-se todos os anos os altos responsáveis do mundo político e financeiro. Em 2004, Dick Cheney, vice-Presidente dos EUA, permitiu-se deslumbrar a sua audiência com o anúncio do crescimento de 8% da economia dos EUA no 3º trimestre de 2003, crescimento esse pago, graças aos benefícios fiscais, em grande medida pelos investidores estrangeiros. Ninguém retorquiu, nem em Berlim, nem em Davos. Desta forma, torna-se impossível quebrar o círculo vicioso dependência - obrigação de exportar - investir em dólares - acentuar o défice dos EUA - voltar a exportar.
Quem aceita os pressupostos dos EUA para fazer funcionar a economia mundial, acabará por destruir as bases da sua própria economia. De cada vez que o Presidente da Reserva Federal faz menção de tocar nas taxas de juro, as Bolsas começam uma dança de ping-pong por todo o mundo. Por quanto mais tempo as empresas e as economias nacionais inteiras irão aceitar esta dependência em prejuizo da população. Não existe outro devedor que dite as suas próprias condições aos seus credores .

Projecto para o Novo Século Americano (PNAC)

Tal é a formulação, voluntariamente agressiva e visionária, que transformou há oito anos o resto do mundo em excluídos. Mas rapidamente esta visão tomou contornos bem reais, porque foi aplicada no plano político: no Iraque, no Afganistão, no enfrentamento com a Rússia, nas divisões criadas na Europa, no Irão, no Paquistão. Logo bancos e empresas europeias se apressaram, antecipando-se às ordens, a romper os seus laços comerciais com o Irão, a tal ponto temiam a cólera dos auto-proclamados deuses do Olimpo EUA, em detrimento das economias nacionais. É urgente agir. Se a Europa e outros não desejam tornar-se vítimas e vassalos das imposições que lhes são feitas, devem demonstrar que são capazes de elaborar e pôr em prática a sua própria visão política. Não se limitarem a grunhir no seu canto.

(continua)


Tradução a partir da versão francesa:
Jochen Scholz, PNEC – Project for the New European Century, Horizons et débats, 15 de Seyembro de 2008

Etiquetas: , , , ,

Quinta-feira, Outubro 02, 2008

Comissão europeia multa cartel de produtores de parafina

A comissão europeia decidiu multar em 676 milhões de euros um conjunto de 9 empresas - ENI, ExxonMobil, Hansen & Rosenthal, Tudapetrol, MOL, Repsol, Sasol, RWE, e Total - por formarem um cartel de parafina na Europa entre 1992 e 2005. A Shell também participou no cartel, mas não foi multada por ter denunciado a existência do mesmo cartel à comissão europeia.
-----
Só não percebo por que razão não conseguimos fazer o mesmo contra o cartel nacional para o preço dos combustíveis. Se examinarmos o preço de referência dos combustíveis, eles não variam mais do que 2% e são alterados quase sempre em bloco pela Galp, BP e Repsol. Será assim tão difícil o trabalho da Autoridade da Concorrência? Estarei eu a ver mal o problema?

Etiquetas: ,

Jochen Scholz - Projecto Europeu para o Novo Século (6)

(Início)

As condições económicas

Actualmente e a médio prazo o gás e o petróleo são os elementos incontornáveis da economia, logo do desenvolvimento, do poder e da influência. Face ao projecto da «grand strategy» anunciado pelos EUA, é espantoso que um assunto da máxima importância continue a ser debatido apenas em círculos fechados a sete chaves, em vez de ser tratado em discussões públicas a nível mundial (como por exemplo as mudanças climáticas): o «pico petrolífero». Os economistas relativizam a situação, contando com as reservas anunciadas pelas companhias petrolíferas. Tem todo o aspecto de um embuste, pois adia o problema central e inclui nos valores dos «recursos» as reservas, que não passam de suposições. A questão principal, segundo especialistas conceituados da geologia petrolífera, é outra: Em que momento se verificará o máximo da produção petrolífera, dando início ao seu declínio inexoravel. Estes especialistas situam entre 2010 e 2020. Mas, ao mesmo tempo, a procura dos países emergentes irá aumentar. A China é hoje o segundo importador de petróleo, a seguir aos EUA, absorvendo 20% da produção mundial.

Controlo da economia mundial

O «Cheney National Energy Report», publicado em Abril de 2001, que tem em consideração as previsões dos geólogos da «grand strategy» do PNAC, oferece explicações mais convincentes quanto à política externa, económica e financeira, e às recentes intervenções militares dos EUA, que aquelas que nos são oferecidas pelos oráculos políticos e mediáticos especializados da Casa Branca. Tanto mais interessantes são essas explicações, quanto é certo que os seus autores não são spin doctors [doutores de imagem], antes funcionários superiores e decisores com assento em lugares-chave das administração das principais companhias petrolíferas dos EUA. O relatório contem uma lista de países - para além do Iraque - que são os "felizes" contemplados pela especial atenção dos EUA, tanto nos planos político como militar, onde também se encontram informações adicionais: a Venezuela, o México, a Colômbia, o Sudão, a costa ocidental da África (São Tomé e Prícipe, Argélia e Marrocos), a Líbia - atente-se à evolução dos últimos anos, assaz reveladora - a Geórgia e a região do Cáucaso, as repúblicas muçulmanas ex-soviéticas, o Irão, o Paquistão, a Índia (com o último negócio do acordo nuclear, entretanto abortado, sobre uma parceria estratégica), a Indonésia, o Afganistão, o Japão e a Coreia. A disseminação de forças militares americanas pelo mundo e os esforços para conseguir instalar bases militares nas regiões estratégicas para o aprovisionamento de petróleo, podendo ir até à ocupação de um país, enviaram uma mensagem clara: Queremos assegurar-nos do controlo sobre a economia dos nossos rivais, decidindo quem irá terá petróleo, quanto petróleo terá e qual o preço.
«Sendo certo que há muitas regiões com grandes oportunidades para a exploração do petróleo, é no Médio Oriente, com os seus dois terços das reservas mundiais, que o preço se define em última instância. Indo directamente ao ponto: a diferença mais importante entre a Coreia do Norte e o Iraque é que, economicamente, não temos alternativa válida ao petróleo do Iraque. Este país nada num oceano de petróleo.»
Não é possível ser-se mais claro. Escutando com o ouvido atento o «Autumn Lunch Speech» (discurso para o almoço de Outono [!]) feito pelo ex-Presidente do Conselho de Administração da Halliburton e actual vice-Presidente dos EUA Dick Cheney, nota-se em que carris ele já se movia em 1999. Desde essa altura se interrogava Cheney onde poderiam ser encontrados os 50 milhões de barris suplementares que a economia mundial iria precisar, por cada dia, no ano de 2010, caso 90% dos campos petrolíferos pemanecessem nas mãos dos diferentes governos e companhias nacionais. Para dar uma ordem de grandeza: a previsão do aumento de procura situava-se em quase dois terços da produção mundial total de 1999. Cheney considerava por isso a soberania nacional como um dos problemas principais. Eis porque a preparação de uma «opção militar» visando derrubar o regime iraquiano começou oito meses antes do 11 de Setembro de 2001.

Todas as cartas na mesa!

Nunca os Estados Unidos da América haviam usado de tamanha brutalidade, quer com os seus aliados mais próximos, quer com as Nações Unidas, criando factos consumados; tampouco haviam afrontado numa medida comparável a opinião pública do próprio país com falsidades, como o fez quando se tratou de justificar a guerra ao Iraque. Assumiram o risco de desestabilizar a região que representa para eles a prioridade das prioridades nos seus planos estratégicos e que ocupa um lugar charneira no funcionamento da economia mundial. Comprometeram a sua reputação de «potência tranquila» ao serviço da paz e da estabilidade e são hoje olhados pelo mundo inteiro como mentirosos. Ocorre, então, uma pergunta: o que impeliu políticos normalmente ponderados a enveredar por semelhantes aventuras e colocar todas as cartas na mesa? Se os agentes não eram incendiários, nem doentes mentais, uma explicação se impõe: os planos e as iniciativas do governo dos EUA basearam-se no conhecimento que dispõem relativamente ao pico petrolífero, e destinam-se a impedir que as suas consequências dramáticas ponham em causa a supremacia dos EUA.
Em socorro desta tese pode citar-se o programa económico estabelecido por Paul Bremer, em Setembro de 2003, constante no decreto 39. A exploração do gás e do petróleo iraquiano deveria permanecer sob controlo dos EUA. (As coisas alteraram-se mais tarde). Em seu favor pesa igualmente um facto que passou quase despercebido à opinião pública, embora fosse muito significativo: em Agosto de 2003, o Japão renunciou, sob pressão dos EUA, a assinar um contrato com o Irão, que já estava negociado e redigido, para a exploração de um importante campo petrolífero.
(continua)


Tradução a partir da versão francesa:
Jochen Scholz, PNEC – Project for the New European Century, Horizons et débats, 15 de Seyembro de 2008

Etiquetas: , , , , , ,

Ser professor em Portugal: Margarida Azevedo

Rompendo a cortina do silêncio e da vergonha. (AF)
Escola EB2/3 de Vila Nova de PoiaresNum ápice, o que dava prazer transforma-se numa espécie de fobia. Esta é a história de uma professora, investigadora, mestre em Ciências Musicais, com curso de Musicoterapia, especializada em Educação Especial que deixou de acreditar na escola, pelo menos naquela onde tentava leccionar. Desenvolveu uma enorme aversão, teve acompanhamento psiquiátrico e agora está afastada da actividade devido a um cancro.

Margarida Azevedo adora(va) a sua profissão e sente-se «frustrada» por não poder exercê-la condignamente.
«Um dia, simplesmente deixei de ir trabalhar. Fui falar com um psiquiatra, disse-lhe que me recusava a aparecer naquela escola sentia com fobia e o mais provável era abandonar o ensino. Porque, não estudei a vida toda, nem me dediquei a vida toda a estas coisas para chegar a este ponto».
Sente-se o peso da decisão:
«Passado um mês e meio tentei voltar, mas voltei para casa... Ao telefone, com o psiquiatra, um querido amigo, chorava, porque não conseguia lá estar».
A medicação para a depressão foi a solução imediata, mas que não podia antever o que ainda estava para acontecer.
«Em 2006/07, leccionava em nove turmas diferentes, cerca de duzentos alunos, para além de ser directora de turma e dar aulas de substituição. Nesse ano passei para a Educação Especial - já que precisavam de professor de apoio educativo e eu tinha experiência desde 1997 - mas ainda foi pior dada a incompetência e práticas na escola»,
conta. Um ano depois, leccionando Educação Musical a crianças do 5º e 6º ano, mantinha oito turmas, mais três com áreas de projecto, em 4 níveis diferentes.

Depois de ter trabalhado vários anos em Educação Especial, não conseguiu destacamento por erro da aplicação informática da DREC («que infelizmente não detectei tendo acreditado que não poderia ser destacada já que o meu grupo é Ed. Musical») e acabou por ser colocada na Escola EB 2/3 de Vila Nova de Poiares. Para quem vivia em Coimbra, era uma tormenta percorrer aqueles quase 90km de curvas (ida e volta), para depois encontrar um pesadelo.

«Sou forte e profissional, mas por causa da forma como me trataram, transformei-me numa pessoa frustrada. Com os alunos senti-me sempre bem, o resto é que não funcionava, pois havia muita gente sem competência»,
recordou, contando que chegou a ter de «tentar corrigir e evitar colaborar em erros gravíssimos».

Em duas horas, tudo mudou.

Sem o enquadramento necessário na escola, a sentir-se recuperada Margarida candidatou-se a uma bolsa da Gulbenkian, a um projecto de investigação: dois meses para estudar e contribuir para a implementação da Educação Especial em Timor, com a colaboração do governo local.

Às 16h do dia 16 de Maio, a vida parecia tomar novo rumo, pois a bolsa tinha sido aprovada. Projectos feitos, ideias de Doutoramento, hipóteses de realização na sua área profissional, «podendo efectivamente ajudar pessoas, crianças». Duas horas depois, porém, uma visita à sua médica para conhecer os resultados de uma biópsia, ditariam um outro destino: cancro na mama. Volvidos oitos dias já estava a fazer uma mastectomia e os objectivos passavam a ser a reconstituição total e, no limite, a sobrevivência.

Não há certezas científicas, mas «o stress é apontado como uma das origens possíveis do cancro». Margarida tenta esquecer o passado enquanto vai recuperando. Pediu destacamento por doença para Coimbra, que não lhe foi concedido, e entretanto cumpre baixa médica. «No próximo ano, há concursos. Concorrerei para a Educação Especial», assegura.

Hoje em dia tenta encontrar a força na luta dos outros, ajudando colegas, denunciando outros casos e deixando o alerta:
«Não se deixem matar nem desgastar em limites preocupantes. O defeito não está em nós, mas no sistema».
A chama mantém-se viva num dos blogues de educação mais activos a nível nacional, A Sinistra Ministra.

Filipe Caetano, «Professores que sofrem»: a escola como fobia, IOL Portugal Diário, 2 de Outubro de 2008

Etiquetas: , , , ,

Quarta-feira, Outubro 01, 2008

Cheque mate ao liberalismo

Nestes dias o mundo tem os olhos postos na sorte que o Congresso dos EUA irá reservar à Wall Street, enquanto símbolo do primado da iniciativa privada para o desenvolvimento económico. Os primeiros derrotados foram a Reserva Federal e a administração Bush, que já só vêm no saque directo ao dinheiro dos contribuintes a solução para que uma elite anti-social continue a acumular capitais. No Congresso, porém, este pragmatismo não colhe. Há ainda quem queira interpretar os acontecimentos recentes como resultado da cupidez de alguns financeiros ou seus intermediários, como uma questão pontual de falta de honradez na administração dos dinheiros dos pequenos accionistas. Olhando para indivíduos, os congressistas teimam em ignorar que os grandes meios financeiros, cristalizando o trabalho de milhões de pessoas, têm um caracter irremediavelmente social. Têm de ser removidos da margem de manobra da propriedade privada. É notável que tenham sido maioritariamente os republicanos, mais enfeudados à ideologia liberal, a opor-se ao plano de salvamento de Bush. Tal também revela que os aspectos ideológicos têm mais força entre os republicanos que entre os democratas.
O jogo de forças ainda não terminou. Mas a pureza da ideologia liberal está irremediavelmente afectada. Se o plano não for aprovado pelo Congresso, o risco de recessão passa a ser imediato, segundo os próprios economistas do regime: demonstração pública do fiasco de tão ampla liberdade da Wall Street na gestão privada de recursos. No caso contrário, fica publicamente reconhecido que a sociedade - representada pelo estado - tem a obrigação de cercear liberdades excessivas dos cidadãos individuais em matérias de mercado. A regulação dos mercados sai da esfera privada e entra, por direito próprio, na esfera estritamente social. Esse é um pesadelo ainda maior para os apologistas do liberalismo económico. Vale, no entanto, a pena recordar que, enquanto ideologia, o liberalismo económico já estava ultrapassado pela realidade no final do século XIX. Nessa altura, as ilusões de que qualquer indivíduo poderia desempenhar um papel de igual para igual no crescimento da economia, já tinha suficientes desmentidos nos fenómenos de concentração monopolista, nas cartelizações, nas condições de sobrevivência cada vez mais difíceis das pequenas e médias empresas, dadas as condições de acesso ao crédito financeiro e no empobrecimento de sectores amplos da população e nas primeiras crises. De costas voltadas para a realidade, os ideólogos sobreviventes do liberalismo têm vivido os seus dias de piores pesadelos. Como aceitar condições regulatórias impondo limites aos fluxos de capitais na Wall Street? Como pode sobreviver a iniciativa criativa dos investidores, sujeitos a supervisões, a regulamentos, e a penalizações definidas pelo estado, essa entidade inerte e economicamente incapaz? Decididamente, o fim do mundo deve estar próximo: o mundo dos desmandos, do caos e da falta de transparência dos actos com severas repercursões na sociedade em geral. Tudo indica que, doravante, a lei passe a ser outra: a iniciativa privada é socialmente benéfica? Sim, talvez, mas não por definição dogmática. É preciso analisar caso a caso. Principalmente, é preciso impor-lhe limites de intervenção: tudo quanto ultrapasse esse limite, passa a ser assunto do estado: My dear friend liberal, you must stay out. That's just not of your business. I'm so sorry.

O debate ideológico não esgota, além disso, o problema. Ao serem definidas condições em Wall Street, fica aberta a porta para a fuga da alta finança para praças mais conformes às suas expectativas e às leis com que se sente confortável. Isso significa que a Wall Street perderá este importante atractivo, que até agora têm sabido defender, e que tem permitido a Washington controlar o mercado mundial. Esta questão prática é ainda mais aterradora ao olhos dos que têm procurado manter os EUA como potência hegemónica na economia. Como agir daqui para a frente? Fazer valer apenas a supremacia militar, desprovida de mecanismos de persuasão económica que tão bem têm funcionado nas relações diplomáticas? Decididamente, as coisas não vão bem para o lado republicano.

Etiquetas: , ,

Eugénio Rosa - Lucros da Galp e benefícios fiscais

Eugénio RosaCaro (a) amigo (a)

Neste estudo que envio analiso o aumento dos lucros extraordinários da GALP no 1º semestre de 2008 em 159% , assim como a Proposta de Lei nº 418/2008 que o governo enviou para a Assembleia da República sobre a chamada "Taxa Robim dos Bosques", bem como a Resolução do Conselho de Ministros nº 55/2008 que concede um beneficio fiscal à GALP no montante de 211,8 milhões de euros.

Espero que ele seja útil.

Com consideração

Eugénio Rosa
Economista


edr@mail.telepac.pt

13.9.2008


Estudo: Lucros extraordinários da Galp no 1º semestre de 2008 sobem 159%, não paga “taxa Robin dos Bosques” e o governo “oferece” 212 milhões de euros de IRC

Etiquetas: , , ,


hits: