Paulo Guinote - Opções insanas na política da Educação
Há duas maneiras de ultrapassar a ansiedade dos factos adversos às nossas aspirações: prepararmo-nos cuidadosamente para vencer uma a uma cada dificuldade ou baixarmos as nossas expectativas. Quando assumidas, qualquer uma destas opções é válida, embora naturalmente com resultados diferentes. Mas há quem ceda à tentação de enveredar pela segunda e se convença que está a seguir a primeira. Aparentemente, há um tipo de esquizofrenia induzida pela tentativa do exercício de funções acima do nível de competência. (AF)
É recorrente em Portugal dizer-se que a Educação está mal. De tanto o dizermos tornou-se uma espécie de ruído de fundo familiar, uma das nossas fatalidades, à qual já nos habituámos e sem a qual dificilmente viveríamos. Se desaparecesse, estranharíamos. É o escape para todos os nossos falhanços:
É recorrente em Portugal dizer-se que a Educação está mal. De tanto o dizermos tornou-se uma espécie de ruído de fundo familiar, uma das nossas fatalidades, à qual já nos habituámos e sem a qual dificilmente viveríamos. Se desaparecesse, estranharíamos. É o escape para todos os nossos falhanços:
- A economia não se desenvolve? É a falta de qualificações!
- A vida política é uma lástima? Falta de educação cívica!
- A corrupção e o cunhismo são um modo de vida? Precisamos de uma mudança de mentalidade que deve começar na Escola.
Mas, neste particular, o actual Governo inovou com alguma ousadia e não pouco arreganho, pois decidiu que apesar de estarmos mal, a partir de agora vamos ter números para demonstrar à saciedade que estamos bem.
- Há falta de qualificações? Damos Novas Oportunidades ao desbarato para o pessoal se certificar e diplomar.
- Há (ou voltam a haver) sinais do abandono escolar não descer? Retira-se gravidade à falta de assiduidade dos alunos.
- Há maus resultados nos exames? Manda-se «melhorar a qualidade» dos exames.
O actual Governo, pelas mãos diligentes da equipa do Ministério da Educação decidiu apresentar «reformas», traduziu-as em milhentas iniciativas legislativas e declarou que a partir de agora tudo entraria nos eixos, a começar pelos professores, esses dispendiosos malandros, que são responsáveis, desde sempre, pelas políticas educativas, pelos decretos, leis, portarias e despachos, pela sua própria formação e pelas condições de ingresso na carreira, pelo currículo, pelos programas e pelo sistema de avaliação, mais o desequilíbrio orçamental.
As coisas não parecem dar mais resultado do que libertar verbas para equipar as escolas, porque os alunos em pouco parecem ter melhorado o seu desempenho? Fabrica-se sucesso a rodos, a começar pela Matemática, essa velha bête noire do sistema educativo. Os alunos não sabem a tabuada aos 10 anos? Coloca-se a dita no formulário do exame. Aos 12 não sabem calcular a área de um quadrado ou círculo, coloca-se a fórmula no enunciado. Aos 15 ainda não sabem o que devioam saber aos 12? Então elaboram-se questões para um aluno de 10 anos.
E assim se constrói toda uma nova realidade ridente, de muitos numerozinhos feita.
Deve ser um novo paradigma.
Paulo Guinote in O estado da Educação
publicado em A Educação do meu umbigo em 11 de Julho de 2008
As coisas não parecem dar mais resultado do que libertar verbas para equipar as escolas, porque os alunos em pouco parecem ter melhorado o seu desempenho? Fabrica-se sucesso a rodos, a começar pela Matemática, essa velha bête noire do sistema educativo. Os alunos não sabem a tabuada aos 10 anos? Coloca-se a dita no formulário do exame. Aos 12 não sabem calcular a área de um quadrado ou círculo, coloca-se a fórmula no enunciado. Aos 15 ainda não sabem o que devioam saber aos 12? Então elaboram-se questões para um aluno de 10 anos.
E assim se constrói toda uma nova realidade ridente, de muitos numerozinhos feita.
Deve ser um novo paradigma.
Paulo Guinote in O estado da Educação
publicado em A Educação do meu umbigo em 11 de Julho de 2008
Etiquetas: A desarticulação do ensino, Portugal
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