Quarta-feira, Março 05, 2008

Manuel Cardoso - E pur si muove

Lurdes Rodrigues
(Imagem: We have kaos in the garden)




Exma Srª Drª
Maria de Lurdes Rodrigues
Ministra da Educação

Permita-me sugerir a Sua Exª que mande retirar imediatamente a página obscena que foi colocada no sítio da Internet do Ministério que dirige. Julgo que a ousadia da minha sugestão ficará clara ao longo da exposição.

O jovem professor de matemática Manuel Cardoso, de uma escola de Ribeirão, aparenta ter uma idade em que poderia ser meu filho. Na noite de 25 de Fevereiro exprimiu-se com uma coragem e clareza que não podem deixar de lhe ser reconhecidas. Foi quase o único interveniente que tocou num aspecto muito sensível da Educação que, pela sua gravidade, diria que suplanta todos os outros problemas que naquele programa foram levantados. O assunto interessa sobremaneira à parte da administração pública que dirige, mas principalmente a todos nós, simples cidadãos: o facilitismo instaurado no ensino. É sintomático que o documento de retratação que teve o despudor de exibir não mencione este aspecto e isso é o que me preocupa na máxima medida. Nem quero admitir a possibilidade de Sª Exª desconhecer o assunto, tão óbvio é ele aos olhos de toda a gente. Já me custa saber que, neste capítulo, desperdiçou todo o tempo para procurar uma solução satisfatória nos já muitos meses de governação que cumpriu e para os quais se sentiu merecedora do salário que aufere.

Como quer que os cidadãos acreditem na ausência de facilitismo, quando o abandono e insucesso crescem incompreensivelmente a partir do nono ano? O que falta fazer no ensino básico para que tal não continue a verificar-se? Porque falham redondamente a capacidade de expressão oral ou escrita e as competências rudimentares do cálculo no fim do básico, tão necessárias para o desenvolvimento das disciplinas de história, geografia, física e química do secundário? Como foi possível chegar a este estado de coisas? Em que falharam os ministros que a antecederam? Como construir o sucesso nos estudos superiores ou numa futura profissão nesta base? Que tem a dizer aos pais dos alunos para os deixar descansados? O facilitismo é a fonte de todo o desconforto no sistema de ensino. Quando muito se fala em competição, algo não conjuga com o que se observa no seu ministério. Nunca a vi preocupada com a desarticulação dos programas; com o absurdo das aulas de noventa minutos; a desiquilibrada distribuição dos períodos de actividade e descanso; a dispersão e superficialidade das matérias. Já nem quero referir a equiparação das faltas injustificadas dos alunos a faltas justificadas.

Qualquer pessoa um pouco mais experiente que o jovem do Movimento dos Professores Revoltados ter-se-ía munido da fotocópia da acta onde a recomendação atribuída ao inspector estaria explicitamente registada. E tê-lo-ía feito antes de se deslocar a Lisboa. A isso eu chamo: experiência política. Aquela que leva na medida justa em consideração o princípio da desconfiança entre as pessoas. Como bem sabe, não foi isso que Manuel Cardoso fez.

Sua Exª, accionando uma deslocação com caracter de urgência do corpo de inspecção à escola de Ribeirão, revelou uma grande preocupação com a hipótese de as afirmações do professor Cardoso corresponderem a uma realidade. Mas não precisava, para confirmar a existência do facilitismo bastar-lhe-ia perguntar a qualquer cidadão com que se cruzasse na rua. A não ser que os factos que a colocam em sobressalto sejam a muito improvável circunstância de uma afirmação daquele teor, feita por um inspector, ficar registada em acta com assinatura de todos os presentes e de não haver extravio de qualquer acta passados dois ou mais anos. É isso que a preocupa, Srª Ministra? Se é isso, então pode dormir descansada. Não honra o seu estatuto de ministra para quem os assuntos devem ser políticos e não pessoais, como afirma. Muito menos honra o nome do ministério onde se encontra. Diria que a especificidade das competências que demonstra seriam mais úteis noutro tipo de ministério, melhor ainda noutro tipo de regime. Como cidadão preocupado com as consequências desastrosas do seu e dos anteriores magistérios da pasta da Educação em Portugal, informo Sª Exª que a rapidez com que pretendeu resolver o facilitismo não contribuiu para me deixar descansado.

Ao ler o conteúdo da página que acima referi, não reconheço de modo algum o jovem Manuel Cardoso que vi no programa Prós & Contras. São necessariamente duas pessoas diferentes. Falta qualquer coisa de genuino, de irreverente que só existe naquela idade. Como se, em dois dias, o jovem passasse para o dobro da idade. Quando um jovem se auto-esmaga, aí começam a tocar todos os meus sinais de alarme. Desejaria que tais insólitos estivessem relegados para os confins da história, fora da realidade em que vivemos. O que começou como um debate de idéias em ambiente de tolerância democrática acabou como um embate brutal, com receios pela filha à mistura. A coragem que muitos querem reconhecer em Sª Exª encontrou no jovem e indefeso professor o pior alvo para ser demonstrada.

Enquanto a página da vergonha estiver publicada poderá Sª Exª vangloriar-se de coisas bem destestáveis: surpreender um jovem na sua inexperiência política; conter pelo menos um jovem revoltado e corajoso, cuja opinião foi directamente ao encontro do interesse público e da imagem que ele havia construido para a sua carreira profissional; escamotear uma questão pertinente com episódios menos relevantes; no limite, arrasar uma vocação. Não vou felicitá-la pelo seu feito. Perdeu uma oportunidade genuína de contar com a colaboração da juventude, irreverente que seja, para prosseguir os objectivos que se propõe.

Atenciosamente
António Ferrão





Afinal até actas há. Não são é públicas. Mas já começam a notar-se:


* Os resultados das Provas de Aferição deste ano (quase meio milhão) são difíceis de comparar com os anos anteriores, dado que, anteriormente, essas provas eram aplicadas por amostra. Todas as escolas devem interpretar esses resultados, definindo estratégias de melhoria;
* Os Conselhos Executivos têm de ter particular cuidado na nomeação dos correctores de exames. Segundo a responsável da Direcção Regional da Educação,
“Os alunos têm direito a ter sucesso. Talvez fosse útil excluir de correctores aqueles professores que têm repetidamente classificações muito distantes da média. O que honra o trabalho do professor é o sucesso dos alunos;”


(Obrigado Maria Lisboa)


E pur si muove

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7 Comentários:

At 13:03, Blogger José Ferrão disse...

Ainda não vi esclarecido se a escola do Ribeirão possui ou não o livro de actas que é exigido por lei.
Também não consegui ver documentado o nome do inspector e o objectivo e data da sua visita à escola.

 
At 14:20, Blogger Eros disse...

Para debater estes e outros assuntos relacionados com a Educação visitem e registem-se em www.saladosprofessores.com!!
Já somos mais de 11.000 membros registados e a participar activamente no fórum! Quantos mais membros mais alto se ouvirá a nossa voz! Juntem-se a nós!

 
At 15:19, Blogger Maria Lisboa disse...

Um exemplo:



Leiam e retirem as vossas conclusões. Não necessita de comentário. É um extracto de acta de uma reunião de um CP

Informações da reunião com um responsável de uma DRE (7 de Janeiro de 2007)

* Os resultados das Provas de Aferição deste ano (quase meio milhão) são difíceis de comparar com os anos anteriores, dado que, anteriormente, essas provas eram aplicadas por amostra. Todas as escolas devem interpretar esses resultados, definindo estratégias de melhoria;
* Os Conselhos Executivos têm de ter particular cuidado na nomeação dos correctores de exames. Segundo a responsável da Direcção Regional da Educação, “Os alunos têm direito a ter sucesso. Talvez fosse útil excluir de correctores aqueles professores que têm repetidamente classificações muito distantes da média. O que honra o trabalho do professor é o sucesso dos alunos”;*

Este extracto de acta de uma reunião do Conselho Pedagógico foi-me enviado por alguém que não quis ser identificado porque, segundo afirmou, há medo e intimidação nas escolas.

http://professoresramiromarques.blogspot.com/2008/03/leiam-e-tirem-as-vossas-concluses-no.html

 
At 20:10, Blogger José Ferrão disse...

O Ministério teve mais pressa em publicar este nojo do que os acórdãos do tribunal que lhe foram desfavoráveis.

 
At 22:14, Blogger maria disse...

fiquei perplexa com a notícia de que o colega em causa tenha sido tão precipitado nas suas afirmações que, logo a seguir,tenha pedido desculpas pelas alegadas inverdades que teria proferido.Pensei: ou é tolo ou mal intencionado ou foi pressionad de qq. maneira...
e isto deveria ser esclarecido, sob pena de ficarem mal, ele e toda uma classe profissional...:(
E não tenho dúvidas nenhumas de que todo o nosso sistema de ensino e ainda bem em certa medida, quando por exemplo, contempla o domínio afectivo na avaliação dos alunos dos níveis mais básicos,dizia eu, todo o sistema, através da legislação inclusive,aponta para um nível menor de exigência de modo a ajustar-se ao baixo nível de escolaridade e desenvolvimento cultural do meio familiar da maior parte dos nossos alunos
Para não falar da quase obrigatoriedade de apresentar bons resultados estatísticos e justificações adicionais em caso de mais de 50% de negativas...
creio que o nosso colega nos deve a todos uma explicação, pois em caso de uma situação de pressão, porque eu não vejo outra,estaremos todos do seu lado.
maria cecilia louraço
escola básica prof. lindley cintra lisboa

 
At 23:09, Blogger António Chaves Ferrão disse...

...sob pena de ficarem mal, ele e toda uma classe profissional...

Maria

Pode observar o vídeo novamente. Vê um jovem não pressionado, com capacidade de expressão e um pensamento estruturado. Que levantou uma ponta do véu que cobre muita hipocrisia. Isso é que assustou a ministra, que optou então por tratar a coisa instrumentalmente e episodicamente. Veja se a corajosa ministra se meteu com mais alguém? O problema levantado por Manuel Cordeiro é pesado, não tenho dúvidas, mas só porque se instalou em grande parte às ocultas do público é que vingou. Se desejarmos fazer alguma coisa por ele e pela classe, transformando o resultado final em a ministra ficar mal não podemos falar apenas dos conflitos profissionais com a tutela, há que discutir muito mais. É cedo para pedir a Manuel Cardoso mais alguma coisa. Muitos outros têm que dar também o primeiro passo.
Muito obrigado pela visita e pelo seu comentário.

 
At 22:52, Blogger José Luiz Sarmento disse...

Todo este episódio me faz lembrar os julgamentos políticos estalinistas em que o acusado era obrigado a fazer uma autocrítica pública antes de levar um tiro na nuca.

 

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