IST, 16 de Março de 1972

Alguns elementos da Direcção da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico (AEIST), vigente no ano anterior, haviam sido presos pela Direcção Geral de Segurança (DGS). Tal motivou um comunicado aos estudantes, istando o Director do Instituto Superior Técnico (IST), o Eng Químico Dr Fraústo da Silva, a obter informações sobre o acontecimento. Cerca das dez da manhã, aparentemente porque essa iniciativa que dava visibilidade às prisões não agradava à DGS, uma força policial significativa concentrou-se em frente ao portão principal do IST. O Dr Fraústo da Silva ficou alarmado com a situação e advertiu a polícia de que, enquanto ele fosse Director do Instituto, a polícia não tinha autorização de entrada nas instalações. Como seria de esperar, reinava grande efervescência entre os estudantes, surpreendidos por estes factos numa normal manhã de aulas que nada fazia prever que viesse a ser diferente das outras. As aulas foram interrompidas e concentraram-se todos na grande calçada em frente ao Pavilhão Central. Alguns estudantes tomaram espontaneamente a palavra, entre eles João Sarmento e Acácio Barreiros. Apelavam à calma para que se evitasse qualquer provocação. Quando eram cerca da dez e meia, deu-se a entrada intempestiva da Polícia pelo portão principal, voltado para a Alameda Afonso Henriques. À frente vinham agentes com cães polícia à trela. Foi a confusão geral. Nem todos os estudantes se aperceberam ao mesmo tempo. Seguiu-se uma correria desordenada em direcção aos dois portões laterais. Quando a frente de ataque da polícia ficou descoberta, tomei também o meu caminho, em direcção à Avenida Rovisco Pais. A meio da descida para o portão estava um monte de corpos engalfinhados, de onde sobressaiam as pernas das estudantes que levavam saias, assim como sapatos e pastas, canetas e réguas de cálculo espalhados pelo chão - uma presa demasiado fácil para os agentes que se aproximavam. Por mim, como uma flecha, vejo passar o Fred - mais tarde seria uma membro do Comité Central da UDP - gritando bem alto "Filhos da Puta". Isto deu-se perto do Instituto Nacional de Estatística.
A invasão do Técnico (abreviatura de IST) pela polícia nesse dia viria a tornar-se o elemento de detonação de acontecimenhtos marcantes na fase final do marcelismo, que ainda durou mais cerca de dois anos:
A invasão do Técnico (abreviatura de IST) pela polícia nesse dia viria a tornar-se o elemento de detonação de acontecimenhtos marcantes na fase final do marcelismo, que ainda durou mais cerca de dois anos:
- Do ponto de vista de hábitos estudantis, as saias das estudantes passaram a dar lugar às calças, geralmente as jeans; os sapatos altos foram substituídos rapidamente por ténis.
- Nesse mesmo dia, o Director do IST, o Dr Fraústo da Silva, demitiu-se.
- Nesse mesmo dia, a AEIST foi encerrada.
- Pela reabertura da Associação foi feita a greve aos exames mais participada de toda a Academia em Portugal: dos cerca de cinco mil estudantes, apresentaram-se a exame cerca de cinquenta estudantes, ou seja, perto de um por cento. Para conseguirem realizar os exames entraram no Técnico em veículo de transporte policial. Mesmo assim, houve que aderisse à greve mesmo já estando na sala de exames, em parte por não compreender porque razão tão pouca gente lá estava, em parte porque era audível o burburinho que entrava pelas janelas, vindo do exterior; finalmente, porque era muito desagradável suportar o cheiro das bombinhas de mau cheiro do Carnaval enquanto tentavam concentrar-se nos assuntos das perguntas.
- Depois de um longo período de negociações, a época de exames foi anulada e repetida após a férias grandes; a AEIST foi reaberta na mesma altura.
Etiquetas: memórias, Portugal, resistência cívica, totalitarismo
(clique para aumentar)
(clique para navegar)

0 Comentários:
Enviar um comentário
<< Home