Joseph Stiglitz - As consequências económicas do Sr Bush (5)

O caminho em frente
Quem quer que vá para a Casa Branca em Janeiro de 2008 irá deparar-se com uma situação económica pouco invejável. Desentrelaçar o país do Iraque será a tarefa mais sangrenta, mas retomar o curso da economia doméstica será tortuoso e lavará anos.O desafio mais imediato será simplesmente repor a economia nos trilhos normais. Isto significará passar de uma taxa de poupança próxima de zero (ou menos) para um valor mais típico, digamos 4 porcento. Apesar deste incremento ser bom para a economia a longo prazo, as suas consequências a curto-prazo serão dolorosas. Dinheiro poupado é dinheiro não gasto. Se as pessoas não gastam o dinheiro, o mecanismo económico estagna. Se os proprietários de casas cortarem abruptamente as suas despesas - algo a que poderão ver-se forçados a fazer, devido ao congelamento das hipotecas - poderá ocorrer uma recessão; se reduzirem de forma mais comedida, ainda assim teremos um abrandamento prolongado. As situações de execução hipotecária e de falência devidas a excesso de endividamento dos proprietários das casas plausivelmente irão agravar-se antes de voltarem a melhorar. O governo federal está amarrado: qualquer tentativa de restaurar depressa a sanidade fiscal apenas irá agravar ambos os problemas.
Ainda há mais. O que é necessário fazer não é difícil de descrever: resume-se a pôr fim ao nosso comportamento e fazer o exacto oposto. Significa não gastar o dinheiro que não temos, aumentar os impostos aos ricos, reduzir os benefícios às corporações, reforçar a segurança dos mais carenciados e investir mais em educação, inovação tecnológica e infra-estruturas.
A propoósito de impostos, deveremos tentar que eles deixem de incidir sobre as coisas que reconhecemos como boas, tais como trabalho e poupanças, para incidir naquelas que reconhecemos como más, tais como a poluição. Relativamente às despesas de segurança, é preciso lembrar que quanto mais o governo ajudar os trabalhadores a melhorarem as suas aptidões e gozarem de bons cuidados de saúde, mais disponíveis deixaremos os homens de negócios para competirem na economia global. Finalmente, estaremos em melhor posição se trabalharmos com os demais países no sentido de criar sistemas financeiros e de comércio global equitativos e eficientes. Teremos melhor oportunidade de assistir à abertura de outros mercados se nós próprios não nos comportarmos hipocritamente - isto é, se abrirmos o nosso próprio mercado às suas exportações e deixarmos de subsidiar a nossa agricultura.
Uma parte dos estragos provocados pela administração Bush pode ser reparada rapidamente. A parte maior levará décadas a reparar - e isto assumindo que a vontade política exista tanto na Casa Branca como no Congresso. Pensemos no fardo dos juros que estamos a pagar, ano após ano, sobre os quase 4 biliões de dívida acrescentada - mesmo a 5 porcento, isto representa um pagamento anual de 200 mil milhões ou seja, duas guerras do Iraque por ano e para sempre. Pensemos nos impostos que o futuro governo terá de cobrar para satisfazer ainda que seja uma pequena parte da dívida que acumulámos. Pensemos na divisão cada vez mais acentuada entre pobres e ricos nos EUA, um fenómeno que suplanta a economia e intercede com o próprio sonho americano.
Em síntese, vivemos um momento que exigirá uma geração para ser revertido. Daqui por diante e por décadas, teremos que medir cuidadosamente o que fizermos e também teremos que rever as ideias feitas. Merecerá hoje Herbert Hoover o seu troféu pouco honroso? Estimo que George W. Bush tenha conquistado um pódio ainda mais sinistro.
Anya Schiffrin and Izzet Yildiz colaboraram nas pesquisas para este artigo.
in Joseph Stiglitz
The Economic Consequences of Mr. Bush
publicado por Vanity Fair em



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