Sexta-feira, Novembro 16, 2007

Joseph Stiglitz - As consequências económicas do Sr Bush (4)

Desprezo pelo Mundo

Os défices orçamentais e comerciais atingiram níveis recorde sob a presidência Bush. Para falar a verdade, os défices não são em si próprios um problema. Se um empresário pede um empréstimo para comprar uma máquina, isto é uma coisa boa, não uma coisa má. Durante os últimos seis anos, os EUA - o seu governo, as suas famílias, o país inteiro - pediu empréstimos para manter o seu nível de consumo. Ao mesmo tempo, os investimentos em activos fixos - instalações fabris e equipamentos que nos ajudassem a amumentar a riqueza - foi declinando.

Qual o impacto para o homem da rua? O ritmo de crescimento dos padrões de vida nos EUA irá certamente abrandar. A economia americana pode cometer muitos abusos, mas nenhuma economia é invencível e as nossas vulnerabilidades estão à vista de todos. A confiança na economia americana afundou-se, tal como o câmbio do dólar - que perdeu 40 porcento face ao euro desde 2001.

Os desarranjos das nossas políticas económicas domésticas seguem a par das nossa políticas económicas internacionais. O Presidente Bush culpou os chineses pelo nosso défice comercial gigantesco, mas a valorização do Renminbi (RMB, moeda chinesa), apenas nos levaria a comprar mais têxteis e aparelhagem ao Bangladesh ou ao Cambodja, em lugar da China; o défice manter-se-ía inalterado. O Presidente reclama-se adepto do comércio livre, no entanto promulgou medidas de protecção para a indústria nacional do aço. Os EUA pressionaram fortemente o estabelecimento de uma série de acordos comerciais bilaterais com países mais pequenos à custa de ameaças e levando-os a aceitar toda a espécie de condições draconianas, tais como alargar o âmbito das patentes de forma abrangerem os medicamentos de que esses países tanto carecem para lutarem contra a SIDA. Pressionámos o mundo inteiro a abrir o mercado, mas impedimos a China de adquirir a Unocal, uma pequena companhia petrolífera dos EUA cujos activos se encontram principalmente fora do país.

Sem surpresa, explodiram protestos contra as práticas comerciais dos EUA em países como a Tailândia e Marrocos. Mas os EUA recusaram os compromissos - por exemplo, para abdicar dos enormes subsídios agrícolas, que distorsem o mercado internacional e prejudicam os agricultores pobres dos países em desenvolvimento. Esta intransigência levou ao colapso das negociações empreendidas para a abertura dos mercados internacionais. Como em muitas outras áreas, o Presidente Bush esforçou-se por enfraquecer o multirateralismo - a noção de que todos os países precisam cooperar - substituindo-o pelo sistema de domínio americano. Afinal, não conseguiu impôr o domínio - mas conseguiu enfraquecer a cooperação.

O desprezo primário da administração pelas instituições globais atingiu o cúmulo quando, em 2005, designou Paul Wolfowitz, antigo Secretário-adjunto para a Defesa e mentor principal da guerra do Iraque, como Presidente do Banco Mundial. Alvo da suspeição geral e cedo apanhado nas malhas de uma controvérsia particular, Wolfowitz transformou-se numa vergonha internacional e foi obrigado a demitir-se passados menos de dois anos no posto.

Globalização significa que a economia americana se tornou intimamente ligada à economia do resto do mundo. Consideremos as más hipotecas americanas. À medida que as famílias falhavam as prestações, os detentores das casas hipotecadas descobriram que apenas possuiam pedaços de papel inútil. Os originadores destes empréstimos problemáticos já os haviam vendido a outros, que os fundiram de forma não-transparente com outros valores, transferindo-os depois para terceiros não identificados. Quando o problema se tornou visível, as bolsas de valores globais sofreram abalos reais: descobriu-se que milhares de milhões de dólares em empréstimos incobráveis se encontravam escondidos em títulos accionistas na Europa, na China e na Austrália e até nos bancos de investimento exemplares dos EUA, tais como o Golden Sach e o Gear Stearns. A Indonésia e outros países em desenvolvimento - espectadores realmente inocentes - sofreram quando o índice global de risco dos investimentos subiu e os investidores sacaram o dinheiro destes mercados emergentes, à procura de paraísos mais sólidos. Demorará anos a ultrapassar esta situação.

Entretanto, tornámo-nos dependentes de outras nações para financiarmos a nossa própria dívida. Hoje, a China sozinha detem mais de 1 bilião de dólares em títulos de dívida americana públicos e privados. O valor acumulado dos empréstimos contraídos no estrangeiro pela administraçao Bush ao longo dos seis últimos anos totaliza perto de 5 biliões de dólares. É plausível que estes credores não reivindiquem o seu dinheiro - se o fizessem, desencadeariam uma crise financeira mundial. Mas há algo de bizarro e perturbador no facto de a nação mais rica do mundo não conseguir, nem de perto nem de longe, viver pelos seus próprios meios. Tal como Guantánamo e Abu Graib feriram a autoridade moral dos EUA, assim a política doméstica da administração Bush desgastou a nossa autoridade económica.

Anya Schiffrin and Izzet Yildiz colaboraram nas pesquisas para este artigo.

in
Joseph Stiglitz
The Economic Consequences of Mr. Bush
publicado por Vanity Fair em Dezembro? Novembro de 2007

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