Segunda-feira, Novembro 12, 2007

Joseph Stiglitz - As consequências económicas do Sr Bush (2)

O próximo presidente terá de lidar com mais um legado estropiado de George W. Bush: a economia. Joseph Stglitz antecipa que a recuperação seja empreendimento para uma geração inteira.

O estrondo da bancarrota

Com um soberano desprezo pelas regras mais básicas da justiça fiscal, a administração continuou a reduzir os impostos até quando enveredou por novos e dispendiosos programas e embarcou na ruinosa guerra de eleição com o Iraque. De um excedente orçamental de 2,4 porcento do produto nacional bruto (PNB) com que foi brindado à chegada, Bush passou a um défice orçamental de 3,6 porcento do PNB em quatro anos. Os EUA não haviam passado pela experiência de uma inversão desta amplitude desde a crise da Segunda Guerra Mundial.

Os subsídios para a agricultura duplicaram entre 2002 e 2005. Os encargos públicos - o vasto sistema de subsídios e regalias ocultas na legislação fiscal - aumentaram mais do que um quarto.
As reduções de impostos para os amigos do presidente na indústria petrolífera atingiram valores de muitos milhares de milhões de dólares. Sim, nos cinco anos subsequentes ao 11 de Setembro de 2001, as despesas militares também aumentaram (cerce de 70 porcento), se bem que a maior parte desta despesa adicional não tenha de todo sido aplicada na Guerra ao Terror, antes delapidada ou alienada a firmas privadas em missões falhadas no Iraque. Entretanto, outros fundos continuaram a escoar-se como habitualmente em armas de fancaria que, ou não funcionam, ou se destinam a inimigos que não temos. Em síntese, o dinheiro foi gasto por todo lado menos onde era necessário. Ao longo dos últimos sete anos a porcentagem de gastos em investigação aplicada a sectores além da defesa e saúde caiu. Pouco se fez para manter as infra-estruturas - fossem os diques de Nova Orleães ou as pontes de Mineápolis. Recairá sobre o próximo ocupante da Casa Branca reparar os estragos.

A política de concessões no domínio da saúde, ainda que conduzida contra os que dela mais necessitavam, sofreu o maior aumento em quatro décadas - através do irreflectido programa de benefícios para as receitas médicas, arquitectado tanto como armadilha eleitoral como dádiva à indústria farmacêutica. Como mais tarde os documentos internos vieram a revelar, o conhecimento dos verdadeiros custos deste programa foi sonegado ao Congresso. No meio tempo, as companhias farmacêuticas receberam favores especiais. Para terem acesso aos novos benefícios, os doentes idosos ficaram impedidos de adquirir medicamentos mais baratos no Canadá ou noutros países. A lei também proibiu o governo dos EUA, o maior comprador singular de medicamentos, de negociar com fabricantes para manter os preços baixos. Como resultado, os consumidores americanos pagam pelos medicamentos muito mais que as pessoas em qualquer outro país desenvolvido.


Ainda se ouve alguns - e o próprio presidente, ruidosamente - alegar que as reduções dos impostos se destinavam a estimular a economia, mas isto nunca foi verdade. Tanto barulho por uma ninharia (*): o montante de estímulo por cada dólar de défice foi espantosamente baixo. Assim, o verdadeiro trabalho de estímulo à economia ficou entregue aos cuidados da Reserva Federal, que carregou ao fundo no acelerador fazendo descer os juros de empréstimo ao nível sem precedente histórico de 1 porcento. Em termos reais, se se considerar o efeito da inflacção, os juros de empréstimos ficaram negativos em 2 porcento. Como seria de esperar, o resultado foi um disparo do consumo sem pudor. Por outras palavras, o exemplo de irresponsabilidade da política de Bush encorajou a irresponsabilidade de todos os demais. O crédito foi distribuido às pazadas e as hipotecas de risco médio ficaram ao alcance de todos os que respiravam. No Verão de 2007, as dívidas dos cartões de crédito já descambavam nos 900 mil milhões de dólares. Qualificado por nascença tornou-se o mote da era Bush. Os americanos proprietários de casas tiraram partido dos juros baixos, subscreveram mais umas tantas hipotecas com juros iniciais de brincadeira e dirigiram-se à cidade à procura de mais oportunidades.

Todas estas despesas fizeram a economia parecer que melhorava durante algum tempo; o presidente pôde - e fê-lo - tregivesar as estatísticas económicas. Porém, as consequências tornaram-se evidentes para muitas famílias em poucos anos, quando os juros de empréstimo subiram e o retorno das hipotecas se mostrou impossível de concretizar. Certamente que, nas previsões do presidente, o dia do ajuste de contas só deveria acontecer algures para lá de 2008. Chegou porém 18 meses mais cedo. O número de americanos que deverão perder as suas casas nos próximos meses aproxima-se de um milhão e setecentos mil. Para muitos, tal representará a arrancada para uma espiral rumo à pobreza.

Entre Março de 2006 e Março de 2007 o ritmo de falências individuais sofreu um aumento acima dos 60 porcento. À medida que as famílias faliam, um número crescente delas passou a distinguir entre quem foram os vencedores e quem foram os perdedores dos custos da bancarrota empreendida pelo Presidente em 2005, o que tornou ainda mais penosa a satisfação dos compromissos de forma sensata. As firmas de crédito que haviam pressionado as reformas foram os claros vencedores, tenho ganho no processo capacidade de acção e protecção adicionais para os seus investimentos; os que acabaram por enfrentar o esgotamento financeiro apanharam as canas.


(*) the bang for the buck

in Joseph Stiglitz
The Economic Consequences of Mr. Bush
publicado por Vanity Fair em Dezembro? Novembro de 2007

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