Domingo, Novembro 11, 2007

Joseph Stiglitz - As consequências económicas do Sr Bush (1)

O próximo presidente terá de lidar com mais um legado estropiado de George W. Bush: a economia. Joseph Stglitz antecipa que a recuperação seja empreendimento para uma geração inteira.
Quando um dia olharmos retrospectivamente para o desastre que foi a administração Bush, lembrar-nos-emos de várias coisas: da tragédia do Iraque, da vergonha de Guantânamo e de Abu Graib, da erosão das liberdades civis. Os danos infligidos à economia americana não fazem hoje os títulos dos jornais, porém as suas repercursões estender-se-ão muito para além da vida de qualquer um que leia esta página.

Já posso ouvir os irritados descrentes. O Presidente não conduziu os Estados Unidos da América (EUA) para uma recessão ao longo dos seus quase sete anos de governo. O desemprego estabilizou no nível repeitável de 4,6 porcento. Muito bem! Só que o outro lado do balanço geme de exaustão: uma política de impostos hediondamente desiquilibrada a favor dos ricos; uma dívida externa que terá crescido provavelmente 70 porcento à data em que este presidente se retirar de Washington; uma cascata galopante de erros nas hipotecas; um desiquilíbrio da balança comercial próxima de 850 mil milhões de dólares; preços do petróleo mais altos do que já alguma vez estiveram; finalmente, um dólar tão fraco que o simples acto de pagar um café em Londres ou Paris - ou mesmo no Canadá (Yukon) - tornou-se um exercício financeiro complicado para os americanos.

Pior ainda. Após quase sete anos de presidência, os EUA encontram-se menos preparado do que alguma vez estiveram para enfrentar o futuro. Não instruímos engenheiros e cientistas suficientes, pessoas de que iremos precisar para competir com a China ou com a Índia. Não investimos nos sectores fundamentais da investigação, aqueles que nos colocaram no lugar de destaque nos finais do século XX. Embora o Presidente compreenda agora - ou assim o declara - que devemos apartar-nos do petróleo e do carvão, de facto tronámo-nos mais dependentes de ambos durante o seu mandato.

Até à data, a voz corrente apontava Herbert Hoover, cujas políticas agravaram a Grande Depressão, como o detentor do título de pior presidente americano na categoria de desempenho económico. Só quando Franklin Roosevelt assumiu a presidência e inverteu as políticas de Hoover pode o país começar a recuperar. Os efeitos económicos da presidência de Bush são ainda mais devastadores que os de Hoover, mais difíceis de ultrapassar, e plausivelmente manifestar-se-ão por tempo mais prolongado. Não há ameaça de que os EUA venham a perder a sua posição de economia mais rica do mundo. Mas os nossos netos estarão ainda a viver, ou a debater-se, com a reparação das implicações económicas das políticas do Sr Bush.

Lembram-se do superavit?


O mundo era um lugar bem diferente, falando em economia, quando Gearge W. Bush assumiu o poder em Janeiro de 2001. Na ensurdecedora década de 1990, muitos pensaram que a Internet iria transformar tudo. Os ganhos de produção, que se haviam situado em média nos 1,5 porcento no período que se estendeu dos anos 70's até aos anos 90's, aproximavam-se agora dos 3 porcento. No segundo mandato de Bill Clinton alguns ganhos de produtividade na indústria chegaram mesmo a ultrapassar os 6 porcento. O Presidente da Reserva Federal, Alan Greenspan, anunciou a chegada de uma Nova Economia caracterizada por ganhos de produtividade contínuos na mesma medida em que a Internet rompia as velhas formas de fazer negócio. Outros foram mesmo ao ponto de anunciarem o fim dos ciclos de negócio. Greenspan interrogou-se mesmo, alto e bom som, como conseguiria ele gerir a política monetária quando a dívida externa estivesse totalmente paga.

Esta tremenda confiança colocou o índice Dow Jones em níveis cada vez mais altos. Os ricos estiveram bem, mas também os não-tão-ricos e até os menos pobres. Os anos de Clinton não constituíram o Nirvana económico; como encarregado na altura do Conselho de Consultores Económicos do Presidente, eu próprio me apercebi de erros e oportunidades perdidas. Os acordos globais de comércio que pressionámos eram muitas vezes injustos para os países em vias de desenvolvimento. Deveríamos ter investido mais em infra-estruturas, exercido um controlo mais apertado na regulação do mercado das seguradoras e avançado mais na promoção da poupança de energia. Ficámos aquém das expectativas por motivos políticos, por falta de dinheiro e também, para sermos francos, porque interesses particulares condicionaram por vezes a agenda mais do que deveriam. Ainda assim, a expansão destes anos permitiu que o défice estivesse controlado pela primeira vez desde Jimmy Carter. Foi também a primeira vez desde os anos 70's que os rendimentos da base da pirâmide social cresceram acima dos rendimentos do topo - um marco que merece celebração.

Por alturas em que George W. Bush se preparava para o juramento, parte deste quadro brilhante começou a esmorecer. A explosão tecnológica acabou. O índice Nasdaq caiu 15 porcento num único mês de Abril de 2000 e ninguém soube ao certo qual o efeito do colapso da bolha da Internet na economia real. Estávamos num momento propício para a economia Keynesiana, no tempo certo para dar o impulso decisivo gastando mais dinheiro na educação, na tecnologia e nas infra-estruturas - tudo quanto a América necessitava desesperadamente, tal como ainda necessita, tendo porém a administração Clinton preferido adiar a favor da eliminação do déficit. Bill Clinton ofereceu ao Presidente Bush as condições ideiais para prosseguir estas políticas. Lembram-se, nos debates presidenciais de 2000 entre Al Gore e George Bush, de como ambos os candidatos teceram considerações sobre a melhor forma da América gastar os 2,2 biliões de dólares de superavit? O país bem podería tinha os recursos necessários para reforçar os investimentos domésticos nas áreas chave. De facto, se o tivéssemos feito, travaríamos a recessão a curto prazo, ao mesmo tempo que impulsionaríamos o crescimento a longo prazo.

Porém a administração Bush tinha outras ideias. A primeira iniciativa económica importante perseguida pelo Presidente foi um corte maciço dos impostos dos ricos, que entraram em vigor em Junho de 2001. Aqueles com rendimentos superiores a 1 milhão de dólares viram os seus impostos reduzidos em 18 mil dólares - mais do que trinta vezes superior à redução concedida em média a todos os americanos. Este desiquilíbrio foi ainda ampliado por um segundo corte dos impostos, em 2003, uma vez mais beneficiando largamente os ricos. Estes cortes nos impostos, quando estiverem totalmente implementados e caso se tornem permanentes, representarão uma redução média para os americanos com redimentos abaixo dos 20 porcento nacionais próximo dos 45 dólares, enquanto para aqueles com rendimentos superiores a 1 milhão de dólares, a factira dos impostos terá sido reduzida em cerca de 162 mil dólares.

A administração alega que a economia cresceu - cerce de 16 porcento - nos primeiros seis anos, porém este crescimento beneficiou principalmente aqueles que não precisavam de ser ajudados e não beneficiou aqueles que precisavam muito de ser ajudados. Uma maré crescente levantou todos os iates. A desigualdade alarga-se agora na América e a um ritmo nunca visto em três quartos de século. Um jovem adulto à volta dos trinta anos tem hoje um rendimento, ahustado à inflacção, que se situa 12 porcento abaixo daquele que o seu pai auferia quando completou trinta anos. Cerca de 5,3 milhões de americanos adicionais engrossaram as fileiras daqueles que vivem na pobraza desde que Bush se tornou presidente. A estrutura de classes na América ainda não chegou lá, mas está a caminho da do Brasil e dos México.


in Joseph Stiglitz
The Economic Consequences of Mr. Bush
publicado por Vanity Fair em Dezembro? Novembro de 2007

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2 Comentários:

At 20:22, Blogger cadeiradopoder disse...

Deixar o Bush brincar aos presidentes tinha de ter as suas consequencias, e nunca poderiam ser boas.

 
At 23:31, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Cadeiradopoder
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