Sábado, Novembro 10, 2007

Coro do Exército Vermelho - Poljuschka polje

Post dedicado.

Por ocasião dos 90 anos da Grande Revolução de Outubro.(AF)








A propósito, a entrada na Wikipedia com a letra em russo.
...

A crença na propriedade privada



Repare-se, por exemplo, na crença da propriedade privada - crença nascida originariamente com a família patriarcal e que consiste no direito que cada homem supõe ter relativamente ao produto do seu próprio trabalho, ou o direito que ele foi capaz de obter naquilo que conquistou pela espada. Apesar da antiguidade e diminuição de poder destas origens remotas da crença na propriedade privada e apesar do facto de nenhumas novas origens serem apontadas, a grande maioria da humanidade tem uma profunda e indiscutível crença nestas inviolabilidades, devidas am grande parte ao tabu que resulta das palavras não roubarás. É certo que a propriedade privada é uma herança da era pré-industrial, quando um indivíduo ou uma família podiam fazer qualquer produto por suas próprias mãos. Num sistema industrial um homem nunca faz o todo de qualquer coisa, mas antes a milésima parte de um milhão de coisas. Nestas circunstâncias, é totalmente absurdo dizer que um homem possui um direito relativamente ao produto do seu próprio trabalho. Considerai um carregador numa estação, cuja ocupação é carregar e descarregar comboios de mercadorias: que proporção de mercadorias carregadas pode representar o produto do seu trabalho? A questão é totalmente impossível de resolver.

Deste modo, é impossível assegurar a justiça social dizendo que cada homem deve possuir o que ele próprio produz.

Os primeiros socialistas antes de Marx sugeriram isto como uma cura para as injustiças do capitalismo, mas as suas sugestões foram a um tempo utópicas e retrógradas, desde que se tornaram incompatíveis com a indústria em larga escla. É, por conseguinte, evidente que a injustiça do capitalismo não pode ser sarada enquanto a inviolabiliade da propriedade privada for reconhecida. Os bolcheviques observaram isto e, por consequência, confiscaram todo o capital privado para uso do Estado. Foi por terem recusado a crença na inviolabilidade da propriedade privada que a perseguição contra eles foi tão grande. Mesmo entre os socialistas declarados, há muitos que sentem um estremecimento de horror ao pensar na expulsão dos homens ricos das suas casas, para darem lugar aos proletários. Tais sentimentos instintivos são difíceis de vencer, por razões óbvias. Os poucos homens que conseguem isto, tais como os chefes bolcheviques, têm de enfrentar a hostilidade do mundo. Mas com a criação actual de uma ordem social que não tenha em vista somente os malefícios tradicionais, está-se mais habilitado a destruir tais malefícios nos espíritos vulgares do que o que pode ser feito num século de propaganda teórica. Creio que se mostrará, quando, na devida altura, os homens observarem as coisas na sua verdadeira proporção, que o principal serviço prestado pelos bolcheviques assenta na sua recusa prática da crença na propriedade privada, crença que não existe, de modo algum, somente entre ricos e constitui no momento presente um obstáculo ao progresso fundamental - e um tão grande obstáculo, que unicamente a sua destruição tornará possível um mundo melhor.

in Romeu de Melo:
O Pensamento de Bertrand Russel, Selecção de textos
publicado por Editorial Presença, Lda, LISBOA, 1966

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1 Comentários:

At 23:51, Blogger red disse...

Caro António Ferrão:

Antes de mais, agradeço o post dedicado e linkado ao Vermelho Vivo que, confesso, me sensibilizou bastante.

Depois:
Este artigo é um excelente contributo para a compreensão das distâncias que existem entre capitalismo e socialismo e confirmam exactamente a razão da dialética comunista.

A propriedade privada tem a sua essência na "posse" individual. Esta essência, porque egoista, esbarra inevitavelmente numa das componentes humanas mais perigosas: a AMBIÇÃO. Que em muitos e muitos casos, a sede de mais e mais posse, transforma numa ambição desmedida e sem olhar a meios para atingir os fins.
É isto que o capitalismo tem provado e promovido e que, continua hoje e continuará amanhã a praticar. Não se coibe da exploração humana de milhões nem se preocupa com a porovocação da tragédia alheia para manter essa "posse" de alguns.

Não só os Bolcheviques perceberam isto como a dialética comunista é de extrema lucidez nesta matéria: Não é possível uma sociedade livre da exploração e opressão, em que o benefício e a dignidade de todos se deve elevar contra os interesses de alguns, sem que as estruturas que possam garantir a sua efectivação sejam PROPRIEDADE DO ESTADO.

Cumprimentos,
Vermelho Vivo

 

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