Sexta-feira, Outubro 12, 2007

Comunistas e os exames nacionais

Alguma vez tinha que suceder. Depois de se desinvestir no ensino, depois de se desmantelar parte importante dos equipamentos laboratoriais, depois de se desviar a atenção dos professores para precipitadas "Ciências da Educação" de onde se extirparam vestígios dos métodos científicos, depois de se preencher o tempo dos alunos mais que o bom senso aconselha, depois de se desvirtuarem os programas da sua sequência lógica natural, depois de se espalhar a confusão sobre os livros didácticos, alguém se lembrou - finalmente - de consertar tudo isto de uma penada: restaurar os exames nacionais. Simplex. Mesmo assim, fui incomodar dois amigos para tentar entender a razão do alarido.(AF)




  1. Caro António

    Acho que todos nós devemos pensar pela nossa cabeça, independentemente do Partido a que pertencemos (ou não). E podemos - e devemos - levantar aí aquilo que consideramos estar mal.

    Em relação aos exames, penso que deve haver uma posição equilibrada.Tenho dúvidas sobre exames, como havia antigamente na quarta classe. Mas tenho a certeza que não podemos continuar a ter analfabetos, que não sabem nada de coisa nenhuma, com o diploma do novo ano. Por outro lado, de nada servem provas globais feitas nas escolas. No actual contexto, penso que deveria haver exames nacionais no sexto, nono décimo-primeiro e décimo segundo anos de escolaridade. Mas desde logo isso impossibilitaria os governos de apresentarem estatísticas cada vez melhores. Porque muitos dos que agora dizem ter o nono ano ou o décimo segundo têm menos conhecimentos básicos do que nós tinhamos no terceiro ou quarto ano de liceu (é o caso de um miudo que tem o 12º ano feito na província e teria chumbado o nosso segundo ano de liceu). Estamos essencialmente a formar analfabetos com diploma.E o tão badalado programa novas oportunidades, pelo que sei dele, vai no mesmo sentido. Quando o que nós precisamos é de programas que qualifiquem as pessoas, independentemente de equivalências a diplomas escolares.

    Mas os exames não são a SOLUÇÃO e só fazem sentido no âmbito de uma profunda remodelação de todo o sistema de ensino.

    Acho que tem havido uma tendência para fazer a promoção do ensino privado (geralmente escolas que só alguns podem pagar) como a excelência do ensino no básico e secundário: Esquecendo que aqueles que vão para esse ensino saem frequentemente de classes sociais com maior nível económico e cultural (quando é só nível económico pagam a explicadores). Mas tembém não podemos fazer de conta que não sabemos que o actual sistema de ensino público não funciona (excepto para escolas situadas em bairros da classe alta). Porque muitas crianças (geralmente de meios mais desfavorecidos) estão desinteressadas por aquele tipo de ensino com base no abstracto, completamente desligado das suas vivências, e não têm alternativas. Da incapacidade para acompanhar os outros surge a indisciplina, o tentarem afirmar-se por uma liderança nas questões negativas, e o impedimento da aprendizagem dos próprios e dos outros.

    É preciso criar alternativas de ensino, com vertentes mais práticas para os que não querem ou não têm capacidade para chegar à Universidade. Alternativas que devem começar não apenas a partir do nono ano -mesmo aí existem poucas, mas logo a partir do sexto ano de escolaridade (vejam bem, eu que contestava as escolas técnicas e comerciais). ?Há crianças que não se adaptam a um tipo de nesino mais abstracto, mas também há muitas que não têm capacidades intelectuais e precisam de uma vertente mais prática e de ensino especial.

    Tudo isto revela a necessidade de uma profunda reforma.

    Portanto. Eu sou a favor de alguns exames (nacionais), mas por si só pouco resolvem. Devemos bater-nos por uma reforma de ensino a sério, amplamente discutida, com a participação de professores, pais, especialistas e de toda a sociedade. Que não saia da cabeça de ministros ou ministras prepotentes e da sua "entourage".

    Já agora. O ensino soviético tinha a vertente de dar diferentes saídas de ensino, era exigente, deu uma formação escolar sólida - como ainda hoje se vê, naqueles países. Mas nem tudo seriam maravilhas. Uma reforma em Portugal tem de ser portuguesa.

    Um abraço




  2. Meu caro Tónio Ferrão:



    Não assisti a esse telejornal. Mas, independentemente da opinião de quem quer que seja, eu subscrevo o que disseste. Hoje, desde a escola primária até à licenciatura (e considero legítimo haver dúvidas sobre a validade do mestrado) produzem-se analfabetos. A culpa não é dos formandos, nem sequer de muitos professores, eles próprios já formados em “analfabetismo”; esses, e a sociedade no seu conjunto, são as vítimas. E acrescento que o objectivo não se limita ao favorecimento do ensino privado, mas também à produção, como se duma fábrica se tratasse, de eunucos mentais, de amorfos que sirvam abulicamente os desígnios da filosofia neoliberal. Para isso, as vertentes do conhecimento, do saber, da capacidade racional, convém que sejam limitadas e direccionadas; ora, a tal se opõe a capacidade científica ou o simples saber, como muito bem sabia o Tónio das Botas. E os Botas de agora souberam desenvolver este conceito, aplicando-o com aparente argumentação “científica”. Por isso, a ausência duma avaliação de conhecimentos válida faculta tais objectivos, com a vantagem adicional de aumentar o “sucesso”escolar tão apregoado. E na mesma senda se enquadra a porcaria das licenciaturas em 3 anos (nada tenho contra o bacharelato) para que, depois, quem quiser (e só podem querer os economicamente mais capazes), faça o mestrado, o qual não passa da antiga licenciatura (aliás, nem lá chegará). Do mesmo passo alcança-se o objectivado desinvestimento na educação (o neoliberalismo está outra vez presente), em favor do ensino privado. Este, mesmo sendo muito pobre, se o for um pouco menos que o público, angaria “freguesia” entre os que pretendam aceder ao superior (apetece-me dizer inferior). E lá chegaremos à privatização de todo o ensino, como também da assistência na doença e no desemprego, da segurança social, enfim, à privatização total do estado. Depois…



    Quero crer que as declarações do deputado do PCP, que não ouvi, não sei quais são, nem sei quem é, não são opinião do PCP. Mas, se acaso o fossem, considero que seria muito mau. Porém, não posso pronunciar-me com segurança visto não ter assistido nem nunca ter ouvido nada sobre isso. Que os exames, em certos moldes, possam ser um castigo, parece-me que sim; e poderá ser isso que PP quer. Mas todas as exigências podem ser um castigo se mal equacionadas, desenquadradas, enviesadas. Contudo, o que existe hoje, não irá além de falso ensino e falsa avaliação. Também os exames, mesmo não sendo a feijões, só por si valem pouco; é preciso, primeiro, que o ensino seja sério e, depois, que os exames lhe correspondam e retirando-lhes o conceito de espada de Dâmocles. E é este ensino sério, isento, não enviesado, não limitativo, que o neoliberalismo rejeita.

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2 Comentários:

At 13:57, Blogger Laurentina disse...

Ele é exames , ele é concursos , ele é tudo o que diz respeito ao ensino em Portugal...a começar pela "Lurdette" que não apareceu nas cerimonias do 5 de Outubro e hoje confrontada com o patetico discurso do P.R. disse que: "não o ouvi mas estou totalmente de acordo"...ahahahahahahahahahahahahhahahahahahahahahah, se não fosse anedótico dava para chorar!!!

Beijão grande

 
At 18:25, Blogger José Ferrão disse...

Eu acho que os exames nacionais, só por si não fazem a primavera, mas o que sei mesmo, da minha experiência pessoal, é que sempre me safei mais enquanto estudante, foi precisamente nos famigerados exames nacionais.
O que penso, é que deveriam ser os próprios estudantes a reclamar a sua realização.
Mas o que acontece, é que eles se vão deixando manipular pelo nacional-porreirismo da balda, sem perceber que quem paga o grosso da factura são eles próprios.

 

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