Terça-feira, Outubro 09, 2007

Travar para pensar

Recebi hoje um texto da autoria de Carlos Magalhães, que subscrevo inteiramente, sobre o que poderia ser feito na educação com o dinheiro do TGV.

"Há uns meses optei por ir de Copenhaga a Estocolmo de comboio. Comprado o bilhete, dei comigo num comboio que só se diferenciava dos nossos Alfa por ser menos luxuoso e dotado de menos serviços de apoio aos passageiros.
A viagem, através de florestas geladas e planícies brancas a perder de vista, demorou cerca de cinco horas.
Não fora ser crítico do projecto TGV e conhecer a realidade económica e social desses países, daria comigo a pensar que os nórdicos, emblemas únicos dos superavites orçamentais, seriam mesmo uns tontos. Se não os conhecesse bem perguntaria onde gastam eles os abundantes recursos resultantes da substantiva criação de riqueza.
A resposta está na excelência das suas escolas, na qualidade do seu Ensino Superior, nos seus museus e escolas de arte, nas creches e jardins-de-infância em cada esquina, nas políticas pró-activas de apoio à terceira idade. Percebe-se bem porque não construíram estádios de futebol desnecessários, porque não constroem aeroportos em cima de pântanos, nem optam por ter comboios supersónicos que só agradam a meia dúzia de multinacionais.
O TGV é um transporte adaptado a países de dimensão continental, extensos, onde o comboio rápido é, numa perspectiva de tempo de viagem/custo por passageiro, competitivo com o transporte aéreo.
É por isso, para além da já referida pressão de certos grupos que fornecem essas tecnologias, que existe TGV em França ou Espanha (com pequenas extensões a países vizinhos). É por razões de sensatez que não o encontramos na Noruega, na Suécia, na Holanda e em muitos outros países ricos. Tirar 20 ou 30 minutos ao Lisboa-Porto à custa de um investimento de cerca de 7,5 mil milhões de euros não trará qualquer benefício à economia do País.
Para além de que, dado hoje ser um projecto praticamente não financiado pela União Europeia, ser um presente envenenado para várias gerações de portugueses que, com mais ou menos engenharia financeira, o vão ter de pagar.
Com 7,5 mil milhões de euros podem construir-se mil escolas Básicas e Secundárias de primeiríssimo mundo que substituam as mais de cinco mil obsoletas e subdimensionadas existentes (a 2,5 milhões de euros cada uma), mais mil creches inexistentes (a 1 milhão de euros cada uma), mais mil centros de dia para os nossos idosos (a 1 milhão de euros cada um).
Ainda sobrariam cerca de 3,5 mil milhões de euros para aplicar em muitas outras carências, como a urgente reabilitação de toda a degradada rede viária secundária.

CABE ao Governo REFLECTIR.

CABE à Oposição CONTRAPOR.

CABE AOS CIDADÃOS MANIFESTAREM-SE!!!

CABE À TUA CONSCIÊNCIA REENCAMINHAR OU DEIXAR FICAR."

Carlos Magalhães


Certamente que os benefícios a longo prazo do investimento na educação seriam muito mais relevantes do os benefícios da redução do tempo de transporte nas linhas do TGV. Sei que a falta de investimento não resolve todos os problemas da educação, mas não vale a pena dizer que a culpa é da gestão local das escolas quando elas nem sequer têm recursos para manter os edifícios e a actividade do dia a dia. Isto para não falar na quase inexistência de creches públicas.

O que será necessário para mudar isto? É assim tão complicado?

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2 Comentários:

At 09:58, Blogger Magda Nieto Reprezas disse...

Não me parece ser assim tão complicado. Basta ter equilíbrio, bom senso e vontade.
O problema é que a maioria dos nossos governantes sabe isto tudo mas tem estado "lá", não para defender os interesses da população como um todo mas, sim para salvaguardar interesses que envolvem muito dinheiro: negócios privados, a banca, troca de favores, interesses partidários e outros certamente que me falham!
A nós cabe-nos denunciar a situação e votar em quem nos defenda, ou achamos que nos defende.
Também nos nossos locais de trabalho, nas nossas mini-organizações podemos seguir e defender linhas de rumo que consideremos correctas. É o que podemos fazer.
Se sairmos "por aí aos tiros" quem fica mal não vão ser eles mas nós, por enquanto, pelo menos.

 
At 12:29, Blogger José Ferrão disse...

Lúcio,
Temos que ver que, se isto continua assim, o TGV está a tornar-se cada vez mais necessário.
Não própriamente para passear entre Lisboa e Porto, mas sim para transformar Portugal em dormitório da Espanha.
Cada vez há mais estudantes e trabalhadores lusos no país vizinho, e também notícias de acidentes trágicos nas vias rodoviárias.
Antigamente as mulheres iam abortar a Espanha para fugir aos abortos em vãos de escada, hoje vão dar à luz a Espanha para fugir aos partos em ambulância.
Depois, enquanto se estuda a localização do futuro aeroporto, tem que se fazer alguma coisa para os turistas não deixarem de nos visitar.

 

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