Terça-feira, Outubro 16, 2007

O sonho de Katulembe

Esta brasileira, autora do dicionário online de Kimbundo - uma preciosidade raríssima senão única, - foi entrevistada pelo ANGONOTÍCIAS.(AF)



Fátima ou simplesmente Katulembe é o nome de uma investigadora brasileira e médica de profissão, apaixonada pelos rituais tradicionais angolanos...
Katulembe

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Faz cinco anos que comecei o estudo do kimbundu. Sem medo, com ousadia, comecei a Kimbundo Home Page devido a falta de pessoas que falem a língua...
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Quando comecei o estudo, percebi a beleza da língua e passei a estudar com amor.
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Eu não sou professora, mas sou uma divulgadora da língua que está morrendo. Apesar de não preencher todas as necessidades das pessoas que desejam falar com habilidade, ofereço e deixo visível o estudo que estou fazendo sozinha. Escrevo na Kimbundo Home Page as coisas que leio, e repasso do modo como entendi. Mas se a língua está morrendo, se faltam professores e livros também, o pouco é um começo para nós que desejamos salvar a língua.
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Helli Chatelain no prefácio da "Gramática do Kimbundu"(1888-89), diz que o seu livro foi destinado aos nativos, para aprenderem a amar e cultivar a sua bela língua pátria; aos portugueses, funcionários e negociantes de Angola para melhor cumprirem seus deveres e atender seus interesses, particulares e nacionais; aos missionários cristãos, para anunciação do evangelho; e finalmente, aos africanistas.
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Nos dias de hoje, a gramática destina-se a quem? A língua portuguesa predomina hoje em Angola, e quem poderia estar com interesse em aprender línguas nativas? Restam-nos os africanistas que dedicam-se ao estudo profundo da Mãe África, e os angolanos que desejam preservar a sua história e sua cultura.
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Em ambos, o único desejo é o amor puro, despojado de qualquer conveniência ou qualquer desejo financeiro. Porém, estes últimos, motivaram sempre as ações da maior parte da humanidade.
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As línguas nativas de Angola estão morrendo. A língua carrega a história da terra, a maneira de ver, sentir, e pensar de um povo. Não podemos enterrar esta riqueza!
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Apesar das dificuldades, precisamos seguir com coragem, porque temos um compromisso com todo um passado que não podemos esquecer. Como diz minha Mãe Maza Kessy, "Angola tu és rica e poderosa!".
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Ndoko tuakabulule o unvama iú? Etu, ku ubeka uetu, ki tu kima etu, maji ni kisangela tutena ima ioso (Vamos preservar esta riqueza? Nós, sozinhos, não somos nada, mas com união podemos todas as coisas).


Excertos de Investigadora brasileira, fala em entrevista bilingue da sua paixão pelo Kimbundo
Publicado por ANGONOTÍCIAS em 23 de Abril de 2007

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5 Comentários:

At 11:35, Blogger José Ferrão disse...

É uma pena que o nacionalismo angolano tenha vencido todas as barreiras que havia a ultrapassar, até chegar, não à independência, mas ao petróleo.
Hoje em dia, tudo o que não cheire a petróleo, deixou de contar para Angola como país.
Restam alguns "pára-quedistas" para tentar segurar as pontas daquilo que restou de um passado onde se teima em procurar as origens de uma nação que não chegou a existir.

 
At 13:06, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Sonhar é preciso...

 
At 20:38, Blogger Maria Lisboa disse...

Interessantissimo!

É pena que não haja mais gente a dedicar-se à recolha, compilação e divulgação dialectos crioulos dos países de Língua Portuguesa.

De Cabo Verde tenho uma gramática e um estudo do dialecto CV que engloba um pequeno dicionário. Não porque tenha estado lá, mas porque 80% dos meus alunos são CV e eu gosto de saber do que falam (no entanto, acabo por me perder quando começam a algarviar.... :))

 
At 23:43, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Maria Lisboa: hoje saiu-me o jackpot :)
Feita a paz em Angola, o jovem militar apresentou ao pai a prestensão de emigrar para Lisboa. O pai limitou-se a aconselhá-lo a procurar o avô. Este ouviu a prestensão e apenas respondeu: Vai! Mas dança só com um pé.
Esta forma abrangente, não acutilante, de expressão deixa todo o espaço de liberdade e responsabilidade do lado do ouvinte. Há uma cultura em risco e se se perder, não será um prejuízo apenas dos angolanos.

 
At 01:42, Blogger Maria Lisboa disse...

"Vai! Mas dança só com um pé."

Conselho extraordinário!
Esta frase contém mais do que um "tratado" sobre um como agir/estar/ser!
Que maravilha!

PS: quando se perde a cultura de um povo não é um prejuízo apenas desse povo... é uma perda universal (veja-se as culturas perdidas: aztecas, maias, indios, celtas (especialmente a que centralizou na irlanda), etc.

 

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