Terça-feira, Outubro 30, 2007

Helena Matos e a inteligência dos pobres/ricos

Não gosto de etiquetas. Classifica-se a pessoa A ou B como sendo de direita ou de esquerda, do PCP ou do PSD. Habituámo-nos a duvidar do conteúdo de um qualquer artigo só porque foi escrito por X ou Y e, muitas vezes, nem o lemos por puro preconceito. O mesmo sucede com as religiões: é ateu, é muçulmano, é católico, hindu...

Estou cansada destas catalogações e, perante os problemas que as sociedades actuais enfrentam, qualquer opinião com que eu concorde, que eu considere válida para mudar, alterar uma situação, ou simplesmente, tomar conhecimento de algo que desconheça, para mim é válida venha ela de onde vier, desde que reconheça os direitos do próximo e respeite as suas liberdades.

Vem isto a propósito de um artigo de Helena Matos, da revista Atlântico, considerada de direita.

O que ela escreveu no Público, 29/10, é crítico e no sentido de mudança, não de conservadorismo, por isso, me interessou. (M.R.)



Passo a transcrever:

"Em que escola estavas quando foi o 25 de Abril? Em que escola estão os teus filhos?"

À célebre pergunta "Onde é que estavas no 25 de Abril?" é imperioso que se juntem agora estas duas interrogações. Experimente-se por exemplo fazer estas perguntas aos ministros, deputados, autarcas, assessores, artistas, professores... e descobrir-se-á que a maior parte deles frequentou o ensino público, mas optou pelo ensino privado na hora de inscrever os seus filhos e netos na escola. Não porque os seus filhos sejam mais ou menos inteligentes, mas simplesmente porque têm medo que a falta de exigência os embruteça.


Duvido que alguns destes hipotéticos inquiridos o assumisse claramente. Dariam como justificação os horários, os amigos, às vezes até os piolhos, mas o que dificilmente diriam é que o fazem porque não acreditam na qualidade do ensino público. Muitos provavelmente serão oficialmente a favor do Estatuto do Aluno, tal como foram da afectação de tempos lectivos a "coisas" como a Área de Projecto ou da desautorização dos professores e funcionários. Na prática isso não os afecta, porque os seus filhos e os seus netos estão a salvo destes desmandos. O falhanço do ensino público em Portugal tornou-se uma ratoeira contra os mais pobres: pobreza e o insucesso escolar tornaram-se sinónimos. E assim continuaremos, para que ninguém preste contas por aquilo que começou por ser um erro e se está a transformar num crime.

Ao contrário do que se tornou quase banal dizer, não foi a massificação do ensino público que comprometeu a sua qualidade. Os responsáveis por aquilo que os rankings cruamente espelham foram aqueles que fizeram da escola pública um espaço de experiências sociológicas. Passamos a vida a discutir os programas, mas um mau programa ainda é um programa.

O pior foi baixar em cada ano lectivo o nível de exigência. Primeiro, porque era mais moderno. Depois, porque assim não se faziam distinções entre mais e menos inteligentes. Depois, porque o objectivo da escola não era ensinar conteúdos, mas sim ensinar a relacionar-se. Depois, porque já não podia ser de outro modo.

Os filhos dos pobres não são nem mais nem menos inteligentes que os filhos dos ricos. Tiveram sim o azar de os seus pais não ganharem o suficiente para os poupar a esse papel de cobaias de teorias que tanto vêem na ignorância o estado supremo da perfeição igualitária, como entendem que aprender tem de ser divertido e fácil.

Nada disto afecta quem legisla, porque os seus filhos não estão nas escolas públicas ou quando estão souberam souberam contornar o crivo das moradas e horários, de modo a frequentarem as turmas ditas "dos filhos dos professores". Quem não pode fugir das más escolas é quem não tem dinheiro nem conhecimentos.

Alguns como Francisco Louçã querem agora diabolizar os rankings, vislumbrando apoios da extrema-direita aos colégios que se encontram nos primeiros lugares. Engana-se redondamente. Quem fez a fortuna recente das escolas de maristas, jesuítas e da Opus Dei, dos colégios franceses, ingleses e modernos, sem esquecer as escolas alemãs e americanas, foram precisamente aqueles -às vezes de esquerda mas nem sempre - que resolveram que a escola pública não era o local onde todos tinham igual oportunidade de aprender, mas sim o espaço onde a irrelevância medíocre dos resultados provaria que todos podemos ser igualmente ignorantes e irresponsáveis.


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4 Comentários:

At 00:31, Blogger Maria Lisboa disse...

Ontem comprei o Público só mesmo por causa deste artigo. Era minha intenção "sacaneá-lo" e colocá-lo num qq blog.

Helena Matos coloca o dedo na ferida. Aponta aquilo que andamos a dizer há anos mas que ningu´´em quer ver. É tão mais fácil alijar as culpas e fazê-las recair todas sobre os professores! A culpa não morre solteira. A sociedade fica feliz porque há a quem "bater". O "trio merdilhas" fica satisfeito porque pode implementar todas as medidas que castigam os professores. E os alunos continuam sem aprender porque não se atacou a raíz do mal.

 
At 10:29, Blogger José Ferrão disse...

Também gostava de saber onde estudam os descendentes dos ministros da educação.

É que as teorias que andam constantemente a cozinhar, não se conseguem aplicar nem sequer às suas próprias práticas.
Para não ir mais longe, veja-se a moderna teoria da progressão na carreira:

Para os professores, aplica-se a lei militar, que diz que é impossível que todos os recrutas venham a ascender a general.
Para os alunos, aplica-se o contrário, de modo a que aquele professor que se atreva a reter um aluno, será o primeiro a riscar da lista dos que podem ascender a titular.

E como não hão-de ser os professores que terão o poder de deitar o governo abaixo, o resultado é que as retenções estão condenadas e com elas a escola pública de qualidade.

Não por opção ou culpa dos professores, mas sim dos sucessivos governos e de quem os lá colocou.
Devolve-se assim as responsabilidades à sociedade no seu conjunto, que é o que faz a ministra quando lhe colocam uma pergunta que não dá para responder atirando as culpas para cima dos professores.
Como por exemplo, quando lhe perguntam acerca do desemprego entre os professores.

 
At 11:07, Blogger Catarina disse...

E o espantoso «socialismo» de Sócrates, que já me tinha feito concordar com Paulo Portas, faz-me agora concordar com Helena Matos. O futuro avizinha-se tenebroso. Já agora, as minhas filhas frequentam a escola pública, mas têm a sorte de viver num ambiente familiar que as poupa aos nefastos efeitos da «experimentação» escolar.

 
At 14:22, Blogger Fernando disse...

Olá Helena Matos
Esta coisa do casamento gay não me sai da cabeça, se não vejamos;
Um homem que é amado por 3 mulheres e ele ama as 3 mulheres, porque razão só pode casar com uma, ou a mesma coisa mas em relação a uma mulher.
Afinal a liberdade começa a meter tudo no mesmo saco de tal forma que se dentro dele for peros ou laranjas o que se destaca é fruta, e a partir daí ninguem pode escolher a fruta que quer.
A liberdade tem estes custos, mas não será possivel continuar a distinguir os peros das laranjas.
Lanço daqui e com a dimensão que tenho este apelo: DIA 25 ABRIL UMA MANIFESTAÇÃO APOIANDO DUAS DESIGNAÇÕES EMBORA COM OS MESMOS DIREITOS; CASAMENTO GAY E
CASAMENTO DE FAMILIA.

Parece-me justo distinguir um casamento que não pode criar em relação ao que pode.

Fica um pensamento de quem não se julga dono da verdade, e que só tem pena de nesta idade ter de comentar assuntos elementares criados pela própria natureza.

De quem podia ser teu pai, mas nunca mãe, recebe um respeitoso beijo.
Fernando Faria, militante do PS (EM LIBERDADE) desde 1974.

 

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