Quinta-feira, Setembro 27, 2007

Mamed ElBaradei - No fio da navalha

Mamed ElBaradei é o presidente da Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA), criada pelas Organização das Nações Unidas para impedir a proliferação das armas nucleares.(AF)




MOHAMED ELBARADEI
  • Spiegel - (Com o antecedente da Coreia do Norte) Não se estará a enviar a mensagem errada aos governantes déspotas -- adquiram armas nucleares e ameacem com um programa de desenvolvimento a sério dessas armas, se quiserem ser respeitados?
  • Mamed ElBaradei - Há esse risco. Mas também é verdade que, para sermos credíveis junto dos estados que procuram o armamento nuclear, temos que exigir aos estados que detêm armas nucleares que sejam dados passos no sentido do desarmamento. -- um compromisso estabelecido pelo tratado de não-proliferação, mas que não está a ser cumprido. Lastimo esta abordagem de dupla-face. Se quase todas as actuais potências nucleares estão neste momento a modernizar, em vez de reduzirem, os seus arsenais nucleares, como podemos argumentar junto dos estados não-nucleares?
  • Spiegel - Há também especulações de que a Al-Quaeda procura equipar-se com armas nucleares. Pensa que há um risco sério de que os terroristas venham a obter uma bomba moderna?
  • Mamed ElBaradei - Essa constitui a minha maior preocupação, um cenário de horror. Mas não estou a pensar numa bomba atómica. Nenhuma organização terrorista dispõe do necessário conhecimento técnico ou recursos para adquirir estas armas. Mas armas pequenas, as chamadas bombas sujas com materiais radioactivos, que podem ser detonadas em qualquer parte numa grande cidade, podem custar vidas humanas e espalhar o terror massivo com consequências económicas sérias. Por vezes penso que é um milagre que isto não tenha ainda acontecido. Rezo para que assim continue.
  • Spiegel - Encontra-se à frente da IAEA há dez anos. O seu trabalho tornou-se mais fácil ou mais difícil com o passar dos anos?
  • Mamed ElBaradei - Mais difícil. Prestamos demasiado pouca atenção às ameaças verdadeiras, as condições de vida inhumanas de milhares de milhões de pessoas, as alterações do clima e os riscos do holocausto nuclear. Estamos numa encruzilhada e aproximamo-nos rapidamente do abismo. Existem actualmente 27000 projécteis atómicos no mundo. Se não mudarmos a nossa forma de pensar, a previsão de John F. Kennedy de que poderiam aparecer 20 potências atómicas tornar-se-á uma realidade em pouco tempo. E, por cada novo jogador ou nova bomba atómica, os riscos de uma explosão intencional ou fortuita acrescam.
  • Spiegel - O que gostaria de deixar como legado?
  • Mamed ElBaradei - Propugno um acordo multinacional em matéria de enriquecimento e reprocessamento de urânio: em última instância, nenhum país isolado estaria em posição de produzir material nuclear independentemente.
  • Spiegel - Deve estar a sonhar.
  • Mamed ElBaradei - Nunca devemos esquecer-nos de que a corrida às armas nucleares não é um jogo, mas um assunto mortalmente sério. Facilmente conduz à catástrofe e pulveriza as bases da existência do género humano. Precisamos de um sistema internacional de garantias que permita a todos os países sentirem-se seguros sem necessidade da bomba atómica. Já não podemos adiar este objectivo por mais tempo. Nem um só dia.


Excerto da entrevista dada por Mamed ElBaradei publicada pelo
Spegel Online International a 3 de Setembro de 2007

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