Domingo, Junho 03, 2007

Apenas bloguistas



Hoje dispomos desta capacidade de atirarmos palavras ao vento, com ou sem assinatura, avançarmos para o diálogo de uma forma ampla que não era possível até há pouco tempo. Nem todos mantêm aberta a caixa de diálogos, nem todos assumem plenamente a sua identidade, nem todos têm computador ligado à rêde global mas não há dúvida de que o campo está profundamente alterado. Isto é, genuinamente, a concretização de um velho sonho. Não há limites ou melhor, os limites formais - ou legais - e tecnológicos estão imensamente ampliados. Um palco para oportunidades está aberto que era difícil mesmo imaginar que aparecesse em tão pouco tempo. Com a vantagem de se desenvolver através da linguagem escrita, o que lhe confere uma dignidade adicional, além de contribuir activamente para a literacia.
Para quem sentiu o que era a asfixia da palavra, o não poder dizer o que lhe ía nas entranhas, calar a revolta, ouvir as suas intenções deturpadas por vozes autorizadas - este tempo é de festa.
As palavras emergem em grande quantidade, chocam-se, soltam-se as paixões, revitalisam-se fantasmas, marca-se território, rebuscam-se memórias, contrapõe-se argumentos, compara-se exemplos, perscruta-se intenções, ignora-se as razões institucionais, descobrem-se novas razões, dá-se contribuições individuais para a amálgama geral das opiniões. O resultado parece um pouco confuso. Nada parecido com a simples polarização da situação versus do contra dos tempos do antanho.
Alguns já se vão dando conta das novas responsabilidades que a escrita acarreta: discordando, procuram fazê-lo de modo que as suas palavras não possam ser viradas contra o próprio. É uma faceta difícil de desenvolver na arte de discordar. Mas mantém as portas abertas para que um dia possamos descobrir que da mente que nos pareceu mais obtusa viesse a solução mais inesperada e prometedora para algum desconforto que nos tenha atormentado.
Por particularidades que fica bem aos sociólogos explicar, os professores estão bastante activos nesta festa. Já por duas ocasiões deparei, com surpresa, que o seu estatuto profissional é usado contra eles, numa tentativa de os fazer calar. Como se, na blogosfera, não estivessemos mais próximos da cidadania directa e activa, fazendo pontes transprofissionais, desobrigados mas não impedidos de usar calão técnico específico, mas igualmente livres de mostrarmos outras facetas das nossas personalidades que o exclusivo exercício da profissão tende a asfixiar. Pequenos escolhos num terreno que já mudou radicalmente a paisagem comunicacional, mas que ocasionalmente não apreciamos na sua plenitude. Como se, nesta festa, não fôssemos todos apenas blogistas.

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6 Comentários:

At 08:19, Blogger espumante disse...

Esta mensagem foi removida pelo autor.

 
At 08:21, Blogger espumante disse...

A escola não pode, não deve, ser um alfobre de militância, sobretudo na forma em que no nosso país ela se manifesta e na substância da sua aplicação, porque normalmente é feita ao sabor de critérios sindicais e, concomitantemente, desconfiáveis.
Concordo com o que dzes no post (como não concordar?), mas um professor tem, em permanência, a obrigaçao de não comunicar à escola este estilo de guerrilha permanente, em que as mais elementares noções de hierarquia, respeito e cultura cívica, disciplina e respeito pelos próprios mestres são desprezadas sumariamente. Daí a cenas como os rabos mostrados a uma ministra ou à violência de alunos sobre professores é um passo. É fácil de entender...
Resumindo, é líquido que um professor pode ser mil vezes bloguista, tem é de saber separar as coisas e não dar exemplos à escola como, infelizmente e com muita frequência, dão.
Um abraço para ti.
P.S. Gostei particularmente do pormenor da festa do fogo de artifício... :)

 
At 12:13, Blogger António Chaves Ferrão disse...

espumante:
My pleasure...

PS: Alguma deriva para o políticamente correcto? :)

 
At 17:29, Blogger José Ferrão disse...

Se a ministra ainda guarda algum respeito pelos professores, não é pelo que eles possam dizer nos blogs...
...mas sim nas aulas!

 
At 22:25, Blogger António Chaves Ferrão disse...


Estás à espera de algum respeito da tua ministra? Afinal vives em que país?

 
At 23:43, Blogger Jorge Ferrão disse...

Nas aulas!

 

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