Quinta-feira, Junho 21, 2007

22 de Junho de 2007

Querido pai

Já não te escrevo há muito tempo e não posso deixar que esta data passe em branco. Já lá vão 86 anos! Nasceste numa época muito difícil mas,"chegaste, viste e venceste"!

Agora já quase não se escrevem cartas, só se "tecla", pois a vida corre mais depressa do que quando cá estavas. Mas hoje fiz um esforço e embora não te vá pô-la no correio, escrevo-te à mesma.

Eu gostava de receber postais das viagens que fazias e as tuas cartas mostravam uma paciência infinita às minhas propostas de inovação de procedimentos, às minhas tentativas de afirmação perante ti, às minhas mudanças, à minha sofreguidão de vida. Escrevia-te sempre mesmo que para te contradizer, adorava fazê-lo!

Hoje, sonho com os tempos em que, ao teu colo, me mostravas as estrelas. As noites eram mornas, suaves, deitávamo-nos naquelas cadeiras compridas que nos permitiam olhar o céu e sentir a brisa húmida, com cheiro a terra vermelha.
As estrelas abundavam e eu só conseguia fixar as obrigatórias: Estrela Polar, as 3 Marias, a Cassiopeia, Orion, a Ursa maior, a menor (mais?).
Fascinava-me como uma estrela tinha ajudado os nossos navegadores a escolherem rumos como me contavas tão perigosos e desconhecidos. Sorvia as estórias ( agora escreve-se estórias, em vez de histórias, vê lá tu!) que nos contavas, umas verdadeiras, outras inventadas - eram mais as inventadas - que tinham sempre um final moralista.
Assustava-me a tua rectidão, o teu rumo de vida desenhado, não percebia o teu afastamento de pessoas sem interesse, oportunistas, fingidas, vaidosas. Não entendia o teu descomprometimento com a sociedade que nos rodeava, afinal, o teu isolamento.

Hoje entendo. Percebo a asfixia em que se vivia, o apertar do cerco quando se era diferente! E também penso agora que só aprendemos a ser bons filhos quando somos pais e pais quando experimentamos a alegria de ser avós.

Lembro-me particularmente de um poema que recitavas várias vezes e que acabei por decorar e entender a sátira que encerra. Querias que eu o soubesse e conseguiste. Há 50 anos que me vou "deliciando" com ele. Hei-de ensiná-lo aos meus netos também.
Tentei identificar o autor mas ainda não consegui. Alguém me terá dito que é de Francisco Quevedo y Villegas mas não o comprovei ainda. Se souber digo-te depois, O.K.?

Vou transcrevê-lo para to relembrar:

Com propósitos severos,
A bien de la religión,
Hallabanse en reunión
Distinguidos caballeros.

Uno era contribuyente,
Otro, dueño de una tienda,
Otro, ex ministro de Hacienda,
Y así sucesivamente.

-Hay que enfrentar la cosa
Con mucha severidad
Porque reina la impiedad
De una manera asombrosa!

Mientras la gente pía
Se entusiasma y arrebata,
Falta un tintero de plata
Que estaba en la escribanía.

Dice el cura a los colosos
Con aire muy altanero:
- Todos sois muy religiosos,
Pero aquí falta un tintero!

Y para que no se sepa
Aquel que ladrón fué
Yo la luz apagaré
E vuélvalo que lo tenga.

Sopló... y por la sacristía
Se extendió un negro capuz.
E cuando volvió la luz
Faltaba la escribanía!


Não sei se está bem escrito mas o que interessa é o sorriso que se "arranca" a quem lê esta sátira! E tu conseguias passar-me essa mensagem!

Obrigada por esses bons momentos e mando-te muitos, muitos beijinhos.

P.S. Os meus netitos também te mandam muitos, muitos ...

Etiquetas: ,

6 Comentários:

At 20:33, Blogger Moriae disse...

Muito pessoal, extremamente comovente. Senti que não comentaria bem mas, mesmo assim, gostava de lhe transmitir alguma coisa. Nem que seja a saudade que também sinto, assim como a presença, de entes queridos. E que senti uma brisa leve ao ler ...
Abraço,
Margarida.

 
At 23:33, Blogger Magda Nieto Reprezas disse...

Obrigada, Margarida.
Tentei colmatar o vazio sentido numa data de grande significado para mim. Não sabia o que fazer mas,ao escrever um pouco, serenei e senti-me mais próxima das minhas raízes.
Agora é a minha vez de ser o tronco e folhagem onde outros se refugiam. E só agora começo a perceber os ciclos, a vida e como cada um é importante no todo.
Abraços,
Magda

 
At 17:22, Anonymous Anónimo disse...

Gostaria de ter dito isso à minha mãe.
Posso colar?
citizen

 
At 18:25, Blogger Magda Nieto Reprezas disse...

Citizen
Não me importe que "cole" desde que mencione a fonte, por favor.
Obrigada pelo cuidado.
Magda

 
At 19:28, Anonymous Anónimo disse...

Obrigado.

citizen

 
At 21:23, Blogger meny disse...

Magda,
Surpresa agradável esta minha hoje!
Sempre acreditei que se a gente quer muito algo, um dia pode acontecer!
Depois de tanto procurar pelo titulo esse poema, em muitos sites, de todas as formas, nunca o havia encontrado. Ele faz parte de anos bons de minha juventude, turma de faculdade, fazíamos História, éramos críticos e satirizávamos a falsa moral, costumes dúbios da sociedade moralista... Eu tinha um colega também muito querido; entre outras tantas poesias sociais, a declamava pra mim:" Una session clerical" era o nome,eu a sabia de cor, mas os versos foram se perdendo na lembrança e pouco restava dela..
Hoje digitei as duas primeiras estrofes e lá estava o poema inteirinho em seu blog!Que felicidade!Veio junto a uma linda "estória" de momentos mágicos junto a seu pai, que lhe ensinava olhar o céu, nomear estrelas, ( lhe falava talvez da tramontana, estrela polar que os bravos marinheiros de então, por conhecê-las puderam viajar por mares, nunca dantes navegados)! Junto com estrelas, navegantes, estava o homem, seu pai, sábio, especial, lhe transmitindo toda sua individualidade, sua identidade marcante de Homem de atitudes, que tinha coragem de se isolar das coisas ou pessoas que não lhe acrescentavam. Hoje entendemos melhor, por que crescemos( no sentido pleno da palavra) e porque tivemos o privilégio de ter lastro, deixado por mente tão sábia quanto à dele! Parabéns, hoje estou muito feliz.Foi um grande prazer navegar por aqui!Muito obrigada, Maria Eny Felipe Bazilli

 

Enviar um comentário

<< Home


hits: