A democracia da interrupção
Em cada dois votos no NÃO, cairam três votos no SIM.
Fraco resultado para a coligação que se formou. Três partidos, um governo em maioria absoluta juntaram-se para enfrentar a consciência humana. Não há nada em que estejam de acordo, mas entenderam que a altura tinha chegado para construir um episódio que fosse considerado suficiente para atirar para cima da população a responsabilidade da modificação da lei.
Azar, para cada cinco votos que cairam nas urnas, houve sete votantes que se recusaram a validar o resultado daqueles cinco.
Para os "dignos" vencedores, isso é o menos, o que interessa mesmo é que o SIM ganhou; a sua expectativa é que a parte pior do aborto é a clandestinidade, e nesse sentido a legalização não apenas irá torná-lo menos penoso para a mulher, mas até pode ser canalizada para a redução do próprio aborto.
Para os outros, onde eu tenho a honra de me incluir depois de ter dado a cara pelo NÃO, a abstenção tem o significado de que a democracia não foi feita para normalizar aquilo que não é normal.
Os padres dizem que a vida não é referendável, eu digo que a despenalização da mulher não despenaliza o crime, e cada um à sua maneira cá ficaremos a assistir ao resultado (e a pagar os crimes alheios).
E para todos (os que não forem abortados, claro), cá ficaremos à espera de ver, daqui a outros oito anos, como é que aqueles três partidos vão explicar que já não é preciso continuar a fazer referendos sobre o aborto. Tudo isso bem condimentado com estatísticas, claro.
Entretanto, eu já extraí a minha lição: para votar nos partidos que não têm escúpulos em adicionar os votos que foram feitos para governar, em artilharia pesada contra a consciência humana, prefiro exercer o meu direito de não votar, ou até mesmo votar em partidos com que não me identifico, do que mostrar àqueles partidos a cor do meu voto.



5 Comentários:
Deves ter reparado que expus a minha animalesca opinião, mas não alimentei a discórdia. Um conselho de amigo não é susceptível de contra-argumentação: vale apenas tomá-lo ou deitá-lo fora. Nem sempre as coisas públicas correm a nosso perceito. Haverá no entanto mais questões no fituro que irão merecer a tua sagacidade e combatividade, e bem espero que estas tuas qualidades voltem a manifestar-se. E agora tenta relaxar um pouco, pois muita coisa já aconteceu e muitas mais estão ainda para acontecer. Um abraço.
Acreditas mesmo que há oito milhôes de eleitores?
Achaste a estatística da abstenção expressiva?
Um recado para os mortos:
"se não podem votar, pelo menos não se abstenham!"
A estatística da abstenção foi ainda menos expressiva se considerarmos que dos cadernos eleitorais fazem parte -- o que é assumido pelas próprias entidades responsáveis -- cerca de 600.000 a 1.000.000 de não votantes (por duplicações de inscrição, falecimentos não registados e emigrantes incorrectamente inscritos). Assim, se os cadernos eleitorais estivessem devidamente actualizados, o referendo teria inclusivé sido vinculativo.
Parece-me que o José Ferrão tem demasiada paixão... ou talvez um perder difícil.
Se a minha avó não tivesse morrido...
Tinha piada que o número de eleitores inscritos ultrapassasse um dia o número de portugueses apurados no censo populacional( o próximo deverá ser feito em 2011).
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