Paulo Guinote – responsabilidade intelectual

Aproveitando as possibilidades de comunicação disponíveis hoje, este professor de História deu origem, em Portugal, a um fenómeno totalmente invulgar. Construiu uma sala sui generis onde cada um é livre de falar, sentindo a presença de outros interlocutores, tanto mais próxima quanto mais rápido encontra a réplica às suas opiniões. As luzes permanecem apagadas: nenhum registo visual. Com o tempo, começamos ainda assim a reconhecer a figura dos comvivas.

O anfitrião detém uma prodigiosa capacidade de intervenção, tanto em quantidade como em qualidade. É facil adivinhar muitas leituras, espírito de observação aguçado, capacidade de pesquisa de informações preciosas, pontos de vista críticos sedimentados numa arrumação complexa e desenvolvida dos conhecimentos. Diria, para sua eventual surpresa: um exemplo acabado de sucesso do sistema educativo.

Mas engana-se quem pensar que o anfitrião faz a festa. Há lá representantes de muitas classes de pessoas: pais não docentes, professores de Filosofia, Desenho, Português, Inglês, História, defensores do ensino privado, defensores e adversários da TLEBS, sindicalistas, engenheiros, gestores, liberais, visitantes ocasionais, até plagiadores. Numa sala sem púlpito cada lugar da plateia vai preenchendo esse papel.

Os assuntos giram, está bem de ver, à volta da Educação. A greve dos professores justificou-se? É possível agir com mais sentido nos resultados? As crianças de dez anos já devem saber pesquisa bibliográfica? Nuno Crato tem razão? Porquê a actual taxa de insucesso? Como ensinar a Constituição dos Estados Unidos? Em que partes deve ser dividida uma aula? São úteis as aulas de substituição? E os métodos de avaliação? E os regulamentos disciplinares? E os métodos vigentes de colocação dos professores?
Por vezes a discussão descai para os gostos ideológicos. Outras vezes, centra-se nos assuntos terra-a-terra. Ouve-se um ponto de ordem, como se houvesse mesa nesta reunião virtual. Um desabafo de cansaço. Ou de alguma etilização. Falta de sono, naturalmente, não fossem professores. Falta de tempo para os filhos. Fins-de-semana e feriados a disfrutar o prazer de mais duas turmas para corrigir as provas. Uma aluna triste por ser transferida recorre ao impossível amparo do professor – demonstrando afinal em quem confiam, por muito que isso custe aos tecnocratas-burocratas. Um Ministério tomado daquele sentido de liderança a que José Sócrates nos habituou, desde que Vitor Constâncio lhe arrancou a máscara emprestada quinze dias após as eleições. Demasiado para descrever num artigo. O Leitor só tem uma solução: vá para crer. Mas está advertido: aquilo é viciante.

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