Segunda-feira, Janeiro 08, 2007

Joseph Stiglitz - Pode a economia ser salva?

Pode a economia mundial ser salva? Os dias do sistema de reserva dólar estão contados.



Um dos meus antecessores como Presidente do Conselho Económico gracejou um dia: aquilo que não é sustentável não será sustentado. O défice da balança comercial dos Estados Unidos da América (EUA)- que atinge actualmente os 900 mil milhões de dólares po ano - não é sustentável. O endividamento enorme e prolongado tranquilizou quem se convenceu que a posição excepcional dos EUA os tornava capaz de sustentar esta situação. Mas os optimistas do dólar deveriam lembrar-se que, no passado, tais défices enormes resultaram em sérios enfraquecimentos do dólar.

Há 35 anos apenas, Richard Nixon foi obrigado a pôr termo à paridade do dólar em ouro, tornando esta divisa flexível. Os grandes défices durante a administração Reagan foram um factor determinante para o enfraquecimento do dólar, no princípio dos anos de 1980.

Tudo isto é importante porque os países no mundo à volta possuem dólares nas suas reservas. Fazem-no para dar confiança à sua própria moeda e à sua economia e também como modo de assegurar aos seus credores que os seus empréstimos contraídos serão liquidados em dólares.

Mas a sua confiança no dólar decresce na mesma medida que cresce a dívida total dos EUA.

Os países que guardam montanhas de dólares em reserva estão a ver essa reserva a diminuir. Talvez preferissem comprar euros. Afinal, com os biliões de dólares que possuem em reserva, as suas perdas são enormes. Ainda ninguém entrou em pânico, no entanto, são cada vez mais os bancos centrais que adoptam um princípio basilar, daqueles que se aprendem em qualquer escola de negócios: diversificar. Vendem dólares e compraram outras divisas, e desta forma o dólar deverá continuar a cair, talvez de forma gradual, talvez não.

Os EUA têm conseguido forçar a China a suportar o peso do seu défice - insistindo em que, se a China não desvalorizar o dólar, os EUA deixarão de comprar muitas das suas mercadorias. E, se a China optar por reavaliar o dólar, a situação poderá até agravar-se. Os EUA poderiam continuar a comprar noutros lados, mas isso terminaria quando estivesse a negociar com países que não estão dispostos a retribuir a preferência adquirindo títulos do Tesouro dos EUA. Até ao momento, a China está, de facto, a financiar a exportação para os EUA dos seus texteis, equipamento e bens de consumo. Outros exportadores, tais como o Bangla Desh ou o Camboja, talvez prefiram reinvestir no país os seus ganhos ou então comprar euros.

Quem financiará nessa altura o défice dos EUA? A natureza do mercado é tal que de uma coisa poderemos estar certos: ele será financiado de alguma maneira. O ajuste é que poderá ser um processo indisciplinável, acompanhado por abrandamentos económicos ou mesmo por recessões. Dado o papel chave que os EUA desempenham na economia global, isto é um assunto que interessa não apenas aos EUA, mas também ao seu principal parceiro comercial, o Canadá, bem como ao resto do mundo.

Muitos economistas questionam os EUA pelo seu nível de endividamento, e têm razão. No entanto, os erros do passado colocaram os EUA e todo o mundo numa posição incómoda. Se o défice fiscal dos EUA fosse eliminado, digamos, por cortes repentinos da despesa pública, o decréscimo geral da procura poderia desencadear uma recessão - ampliando o quase inevitável abrandamento devido ao enfraquecimento do mercado interno.

Uma política fiscal mais inteligente - com subida de impostos para os mais ricos e cortes de impostos para os pobres já esgotados e para os trabalhadores de rendimentos médios - poderia conduzir a um aumento global do consumo. É difícil imaginar que tal política fosse seguida por uma administração apostada em cortar nos impostos para os ricos, indiferente às consequências para a economia. Além disso, com os consumidores domésticos a gastar hoje mais do que aquilo que produzem, os ganhos a curto prazo seríam obtidos à custa de problemas futuros.

Alternativamente, em princípio, uma desvalorização suficientemente forte do dólar estimularía o valor bruto das exportações, mantendo a economia a funcionar. Mas as mudanças para tal podem ser disruptivas, requerendo ajustes que não parecem suaves. E a erosão da confiança no dólar e no sistema de reserva do dólar podem ser prolongadas.

O que está claro, é que os dias da reserva em dólar estão contados. Alguns na Europa regozijam-se com a oportunidade de se tornarem a nova sede da divisa internacional, mas deveríam refrear os seus ânimos. Se se tornarem a nova reserva cambial, encontrar-se-ão mais adiante na mesma situação que estão hoje os EUA, enfrentando um défice da balança comercial resultante da "exportação" de euros para que outros o enterrem como forma de se protegerem contra dias mais agitados.

Mas exportar euros não cria empregos da mesma forma que a exportação de máquinas ou outros bens, e assim o nível de desemprego da Europa subiria ainda mais. E, com uma flexibilidade reduzida nas suas políticas macroeconómicas - um banco central exclusivamente preocupado com a inflacção e um pacto de estabilidade e crescimento que restringe os défices governamentais - pouca coisa poderá ser feita para estimular a economia.

O mundo precisa de um sistema financeiro global melhor. A instabilidade está instalada: à medida que mais e mais dólares fiquem em mãos estrangeiras como reserva, torna-se praticamente inevitável que a confiança no dólar desapareça. A questão não está em saber se tal irá acontecer, mas quando.

Também as centenas de milhares de milhões de dólares postos como reserva todos os anos afastam-nos da circulação monetária, não alimentam a procura. O défice dos EUA adiou os efeitos depressivos do sistema de reserva, mas isto é insustentável. Em vez disso, é necessária uma solução mais duradoira. Há quase 75 anos, o grande economista John Maynard Keynes detectou esta falha essencial no sistema financeiro global e propugnou uma divisa global de reserva (designou-a por bancor). No entanto, a necessidade do seu conselho não se fez sentir naquela altura, pois os problemas britânicos, marcados por um prolongado crescimento lento, ficaram resolvidos quando o dólar tomou o lugar da libra estrelina como divisa de reserva global.

O mundo está hoje muito mais globalizado que então. A necessidade da reforma ainda é maior, e este é o nosso entendimento do sistema financeiro e económico - com algum esforço, poderíamos adaptar as ideias de Keynes à realidade actual. A questão é, retomaremos estas ideias antes ou depois da próxima crise?



Tradução do original em inglês no sítio do autor,
publicado em 12 de Outubro de 2006

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