George McGovern – A guerra dos belicistas

Através das suas palavras, as ideias do orador escorrem fluidas nesta palestra do Clube da Imprensa. George McGovern encarna o que há de melhor do pensamento político nos Estados Unidos da América (EUA). Uma intervenção de qualidade invulgar. (AF)


Estou feliz por regressar ao Clube da Imprensa. Para dizer a verdade, com 84 anos, já me sinto feliz por me encontrar em qualquer sítio. Em jovem, pensando no envelhecimento e querendo parecer sensato, dizia: “Não importa os anos que tenha, mas sim o que tiver feito ao longo dos anos”. Já não penso assim. Agora quero chegar aos cem anos. Porquê? Porque gozo plenamente a vida e há tantas coisas que tenho ainda que fazer, antes de penetrar nos mistérios do além.

A mais importante destas coisas é retirar os soldados americanos da armadilha infernal que Bush-Cheney e seus teóricos neo-conservadores criaram no Iraque; que – em tempos – foi o berço da civilização. Crê-se ter sido o lugar dos Jardins do Éden. Relembro aos neo-conservadores o reparo de Walter Lippman: “Nada há de mais perigoso que o belisista.”

Questões impertinentes

Entre as coisas que me fazem sentir saudades dos 18 anos que passei no Senado dos EUA estão as histórias dos velhos democratas do Sul. Nem sempre votei com eles, mas adorava a sua técnica de responderem aos seus opositores com histórias de humor. Uma vez, quando o senador Sam Irvin da Carolina do Norte teve que contestar uma questão difícil colocada por Mike Mansfield, disse: “Sabe, Senhor Dirigente, a sua questão lembra-me a do velho pregador protestante que contava a história da Criação aos rapazes da escola num domingo: ‘Deus criou Adão e Eva. Desta união nasceram dois filhos, Caim e Abel, e então a raça humana desenvolveu-se.’ Um dos rapazes perguntou: ‘Reverendo, onde foram Caim e Abel buscar as suas mulheres?’ Depois de hesitar por momentos, o pregador respondeu: ‘Jovem, são questões impertinentes como essa que ferem a religião.'”

Pois bem, Sr Bush Júnior, preparei algumas questões impertinentes para si.

Sr Presidente, Excelência, quando o repórter Bob Woodward lhe perguntou se tinha pedido conselho ao seu pai antes de dar a ordem de avanço às tropas para o Iraque, respondeu: “Não, ele não é o género de pai que é preciso consultar para se tomar uma decisão como esta. Falei com o meu Pai celestial que está acima de nós.” A questão que tenho para lhe apresentar, Sr Presidente, é: se Deus lhe exigiu que bombardeasse, invadisse e ocupasse o Iraque por quatro anos, porque deu uma mensagem contrária ao Papa? Sabe que o seu pai, George Bush Sénior, o respectivo Secretário de Estado, James Backer, além do Consultor para a Segurança Nacional, o general Scowcroft, se oposeram à sua invasão? Não teria sido melhor para si, para as nossas tropas, para todos os americanos e iraquianos se tivesse prestado atenção às pessoas mais experientes, incluindo o seu pai terreno? Em vez de culpar Deus pela terrível catástrofe que espalhou pelo Iraque, não tería sido menos pretensioso se se justificasse com a muito citada explicação para os erros: “O diabo mandou-me fazê-lo?”

E, Sr Presidente, após os ataques do 11 de Setembro contra as torres gémeas em Nova York, que atraiu sobre nós a simpatia e o apoio de todo o mundo, porque ordenou a invasão do Iraque, que nada tem a ver com o 11 de Setembro? Tem consciência de que os seus actos delapidaram a reserva de confiança internacional sobre as boas intenções dos EUA? Qual o custo para a América da destruição do estatuto e influência do nosso país aos olhos do mundo?

Porque razão, Sr Presidente, presssionou a CIA a reportar falsidades sobre o fabrico de armas de destruição maciça incluindo armas nucleares? E, quando mandou o Secretário de Estado, Colin Powel, deslocar-se a Nova York para apresentar às administrações das Nações Unidas “provas” de que o Iraque era uma ameaça nuclear eminente para os EUA, sabe porventura que, depois de ler esse depoimento fraudulento, o Sr Powel disse a um ajudante que as supostas provas eram “merda”?

É razoável para si, Presidente Bush, que Colin Powel tenha dito no fim do seu primeiro mandato que ele não continuaria na sua administração caso fosse eleito para um segundo mandato? Que pessoa decente poderia sobreviver a dois mandatos completos de imposição de mentiras e fraudes?

E Sr Presidente, como disfruta os seu tempos de descanso, e como consegue dormir à noite, sabendo que 3.014 jovens americanos morreram numa guerra que desencadeou por engano? Que tem a dizer aos 48.000 jovens americanos estorpiados física ou mentalmente para o resto das suas vidas? Que tem a declarar quanto às conclusões do mais importante jornal de Medicina britânico (Lancet) que nos informa que, desde que iniciou os bombardeamentos e ocupação do Iraque há quatro anos, já foram mortos 600.000 iraquianos: homens, mulheres e crianças? O que pensa da destruição dos lares iraquianos, dos seus sistemas de abastecimento de água e de electricidade assim como dos seus edifícios públicos?

Vietname

E Sr Bush e Sr Cheney, embora nunhum de vós tenha estado alguma vez em combate (tendo o Sr Cheney requerido e obtido cinco adiamentos de incorporação durante a guerra do Vietname), terão pelo menos lido ou recebido informações sobre os custos terríveis dessa guerra mal-aconselhada e igualmente sem fim que a América impôs ao minúsculo Vietname? Repararam que outro presidente do Texas, Lyndon Baines Johson, desistiu de se candidatar ao segundo mandato, em parte, porque perdeu credibilidade devido ao seu desastroso envolvimento na guerra ao Vietname? Tendes consciência de que um dos mentores principais daquela guerra, o Secretário da Defesa Robert McNamara, resignou ao seu posto e publicou anos mais tarde um livro em que declarou que a guerra foi um logro trágico? Conheceis a história recentemente vinda a lume que relata que 58.000 jovens americanos morreram nesto processo de matar 2 milhões de vietnamitas: homens, mulheres e crianças? Se não conheceis este terrível logro do Vietname, conheceis ao menos a afirmação de um dos nossos grandes filósofos: “Aqueles que desconhecem a História estão condenados a repeti-la.” E, Sr Presidente, no meio da sua ignorância das lições da História, não estará a condenar as nossas tropas e o nosso povo a repetir a mesma tragédia no Iraque?

Durante os longos anos desde 1963 até 1975, quando lutei para pôr termo à guerra do Vietname, inicialmente como senador da Dacota do Sul e, mais tarde, como membro designado pelo meu partido para a candidatura presidencial, certa noite, as minhas quatro filhas conspiraram contra mim: “Pai! porque não desistes dessa luta? Andas a vituperar essa guerra louca desde que somos bébés. Quando ganhares a nomeação para presidente pelo Partido Democrático, vais ficar esmagado por Nixon.” Retorqui: “Não esqueçam que acontece na História que até erros trágicos podem conduzir a algo de bom. O bom àcerca do Vietname é que é um logro tão terrível, que não iremos repeti-lo novamente.” Sr Presidente, caímos novamente nessa asneira. Que devo dizer às minhas filhas? E que diz o Sr às suas filhas?

Sr Presidente, não falo como pacifista nem como tosco espertalhão. Falo como um dos que, após o ataque a Pearl Harbour, se apresentou voluntariamente aos dezanove anos na Força Aérea e completou 35 missões de vôo num bombardeiro B-24. Acreditei nessa guerra na altura e continuo a acreditar nela hoje, passados que são 65 anos – e, como eu, o resto da América. Sr Presidente, faltar-lhe-á capacidade intelectual e moral para distinguir entre uma guerra justificada e as guerras de loucura do Vietname e do Iraque?

Opinião pública

As sondagens à opinião pública indicam que dois terços dos americanos pensam que a guerra do Iraque foi um erro da sua parte. É largamente aceite que esta guerra constituiu a razão principal da mudança de ambas as câmaras do Cogresso para os democratas. As sondagens realizadas entre os iraquianos indicam que quase todos desejam que a nossa presença militar no seu país nos últimos quatro anos termine já. Porque insiste em desafiar a opinião pública tanto dos EUA como do Iraque e demais países sobre a Terra? Julga-se omnisciente? Qual a sua opinião sobre a doutrina da auto-regulação que tanto prezamos na América?

E, milagre dos milagres, Sr Presidente, depois de tal matança e destruição, primeiro nas florestas vietnamitas, depois no deserto árabe, como consegue mandar mais 21.500 soldados americanos para o Iraque? Tem a noção de que, à medida que a guerra do Vietname andava de mal para pior, os nossos dirigentes enviaram mais tropas e desperdiçaram mais milhares de milhões de dólares até que o número de soldados dos EUA que se encontravam naquele pegueno país chegou a atingir os 550.000? Como velho piloto bombardeiro, até tremo só de me lembrar que caíram mais bombas sobre os vietnamitas e o seu país que o total de bombas despejadas por todas as aviações militares em todos os países na Segunda Guerra Mundial. Está, Sr Presidente, honestamente convencido de que precisamos de mais dezenas de milhares de soldados e de um orçamento suplementar de guerra da ordem de 200 mil milhões de dólares , antes de nos retirarmos deste pesadelo da velha Bagdad?

Coservador compassivo

No início da sua campanha para presidente, Sr Bush, definiu-se a si próprio como um “conservador compassivo”. Onde está a compaixão, quando se condena a juventude americana a uma guerra desnecessária e sem fim á vista que já durou mais tempo que a Segunda Guerra Mundial? E que há de conservador em reduzir os impostos necessários para financiar esta guerra, optando em vez disso por elevar a nossa dívida externa a nove biliões de dólares com dinheiro emprestado pela China, Japão, Alemanha e Grã-Bretanha? Será este déficit selvagem a sua idéia de conservadorismo? Sr Presidente, como pode um verdadeiro conservador ser indiferente aos custos sempre crescentes da guerra que já atingiram os 7 mil milhões de dólares por mês, ou seja, 237 milhões por dia? Perdurbá-lo-á, como conservador que afirma ser, tomar conhecimento de que apenas os juros da nossa dívida cósmica já ascendem a 760.000 dólares por cada dia que passa? Sr Presidente, o nosso compatriota – agraciado com o prémio Nobel – Joseph Stiglitz, estima que, se esta guerra se prolongar até 2010 como indicou, o seu custo irá exceder um bilião de dólares.

Talvez devesse meditar, Sr Presidente, nas palavras de um genuino conservador, o parlamentar inglês do século XIX, Edmund Burke: “Um homem conscioso deve rodear-se de cautelas ao decidir assuntos que implicam sangue”.

E, Sr Presidente, no momento em que os mais respeitados generais chegaram à conclusão de que o caos e o conflito no Iraque não podem ser resolvidos nem por mais dólares americanos nem por mais mortes de jovens americanos, alguma vez teve em consideração os sentimentos da ansiosa e perturbada sociedade doméstica? Que tal as palavras de outro verdadeiro conservador, o general e presidente Dwight Eisenhour, que afirmou: “Cada espingarda que é fabricada, cada navio de guerra que é lançado ao mar, cada disparo de canhão significam, em última instância, uma ameaça para os que têm fome e não têm alimento, para aqueles que têm frio e não têm roupa para se proteger.”

E, Sr Presidente, não lhe faria bem tal como a todos nós, considerar as palavras de despedida do presidente Eisenhower: “Nos gabinetes governamentais, deveremos estar alertas contra a presença não solicitada do complexo militar-industrial. O perigo do crescimento desastroso de um poder sem controlo existe e continuará a existir”.

Finalmente, Sr Presidente, pergunto-lhe se honrou o seu juramento feito sobre a Constituição, ao usar aquilo que designa por guerra ao terrorismo para atacar os Direitos e Garantias dos cidadãos? Em qual teoria constitucional se baseia para a detenção de prisioneiros sem acusação, por vezes torturando-os em prisões estrangeiras? Com que base constitucional ou legal intercepta chamadas telefónicas sem aprovação dos tribunais como é exigido por lei? Estará Vossa Excelência acima da Constituição, acima da Lei e acima da Convenção de Genebra? Se estamos a lutar pela liberdade no Iraque, porque se mostra tão indiferente à protecção das liberdades aqui, nos EUA?

Fora do Iraque

Muitos americanos interrogam-se: “A guerra americana no Iraque criou aí uma confusão horrível, mas como poderemos abandoná-lo agora?” William Polk, um antigo professor de Estudos do Mádio Oriente nas universidades de Harvard e Chicago e também antigo perito em questões do Médio Oriente no Departamento de Estado, emparceirou comigo na escrita de um livro recente, solicitado pela editora Simon & Schuster. O título é: “Fora do Iraque: Um Plano Prático para o Repatriamento Imediato.”

Sinto-me embaraçado em apresentá-lo, e por isso reproduzo as palavras da respeitável jornalista do New York Times e agora também da Newsweek, Anna Quindlen, que declarou em entrevista ao excelente programa de televisão de Charlie Rose: “É um livro maravilhoso que recomendo a todos. É muito pequeno e muito fácil de ler, este livro de George McGovern e de William Polk chamado ‘Fora do Iraque’. Rapidamente passa pela história deste país, a sua construção, como chegámos lá, que argumentos usámos na altura – muitos deles sem fundamentação – e como poderemos sair de lá. É como uma obra-prima. Penso que toda a Nação deve lê-lo e, então, estaremos unidos.”

Se pretenderem segunda opinião, posso citar também a do estimado Liberty Journal: “Neste livro, com argumentos vigorosos e convincentes, o ex-senador McGovern e o académico Polk desenvolvem uma crítica contundente e clara à guerra no Iraque. O que torna este livro altamente legível singular é que não só argumenta porque devem os EUA retroceder militarmente do Iraque já, mas também indica claramente os passos práticos que devem ser dados para o repatriamento das tropas. Uma leitura obrigatória para todos os que desejam terminar com a confusão em que está envolvida a actual política dos EUA. Altamente recomendável para o público e para a academia.”

O professor Polk é descendente do Presidente Polk e irmão do notável George Polk, que se encontra hoje connosco vindo da sua residência do Sul de França, e que se juntará a mim neste pódium no final desta interrogação imparcial que fiz ao presidente Bush. E agora, caros membros do Clube de Imprensa e convidados, é a vossa vez de examinarem Bill Polk e a mim próprio , certamente, do mesmo modo imparcial.

George McGovern, o canditado presidencial do Partido Democrático em 1972, esteve ao serviço da Casa dos Representantes desde 1957 até 1961 e do Senado por 18 anos. Foi também presidente do Conselho para as Questões do Médio Oriente em Washington, DC durante seis anos. Pronunciou o seu discurso na National Press Club em Washington, DC em 12 de Janeiro de 2007.

Tradução integral do artigo:

publicado a 22 de Janeiro por .

Deixe um comentário

Tem que se Identificar para comentar.