Franklin Spinney – Porque não corre o tempo a favor de Bush?

Já nem os analistas militares acreditam em Bush? (AF)


Franklin C. Spinney foi analista do Pentágono, tendo trabalhado no DoD (NT – Departamento de Defesa) durante 33 anos, dos quais 28 no Pentágono. Nos primeiros 7 anos foi oficial engenheiro da Força Aérea e no restante analista civil na sede da Secretaria de Defesa. Os seus escritos sobre as questões de defesa podem ser encontrados no sítio

O ponto fundamental de qualquer estratégia de condução da guerra é a arte de colocar o adversário debaixo de uma pressão ameaçadora tal que ele se veja obrigado a tomar uma decisão, retirando-lhe a oportunidade de decidir razoavelmente fora do contexto imposto pela ameaça. A comissão Backer tentou comprar tempo, lançando uma bóia de salvação para o Comandante-em-Chefe, mas este recusou-a, tendo optado por desperdiçar dois meses de tempo precioso para alinhavar uma estratégia que, no melhor dos casos, exigiria um horizonte temporal alargado para que fizesse sentido e fosse executada militarmente.

O Sr Bush, pelas sua próprias palavras, não se encontra nas melhores circunstâncias. O resultado é uma amálgama de contradições paralisantes. Pior do que isso é o facto de estar a perder a oportunidade.

O crédito da estratégia do Comandante-em-Chefe está em risco. A reacção do público ao seu discurso de expansão da guerra foi morna, para sermos suaves. Enfrenta uma oposição crescente entre os republicanos do Capital Hill, não contando com a alienação para os democratas de ambas as câmaras do Congresso. Em resumo, a coesão interna dos Estado Unidos está a desfazer-se, o que Sun Tsu teria previsto facilmente, dadas as deturpações a que Bush recorre para justificar a agressão ao Iraque. Azar ainda maior, a predisposição do nosso aliado mais importante está a enfraquecer. Tony Blair já disse e repetiu que a Grã-Bretanha não enviará mais tropas para o Iraque e dará seguimento ao seu plano de repatriamento das tropas estacionadas no Sul chiita.

O plano militar de Bush está também desfasado da realidade política e militar do Iraque. Segundo um relatório do New York Times datado de 15 de Janeiro, Bush está a implementar uma controversa cadeia sobreposta de comando envolvendo iraquianos e americanos em cada nível de tomada de decisão. Analisando positivamente, o esforço suplementar de coordenação acarreta demoras de tempos (NT – em português, no original) operacionais com sacrifício da oportunidade. No pior dos casos, com a intromissão de mais gente de lealdade duvidosa nos processos de tomada de decisão em todos os níveis, a cadeia de comando inventada por Bush não só aumentará as oportunidades dos nossos adversários, como lhes facilitará as condições para se inflitrarem e agirem por dentro dos nossos planos tácticos e operacionais.

E há mais loucuras.

O sistema de comando e controlo do Sr Bush entra em contradição com a sua própria estratégia de “conquistar e ocupar”. “Conquistar e ocupar” pressupõe a possibilidade de disseminar pequenos êxitos tácticos para alcançar sucessos operacionais mais amplos; culminando eventualmente na obtenção do objectivo geral. Mas a estrutura de comando e controlo que se prepara para implementar tornará muito mais fácil para os nossos adversários anular esta estratégia desarticulando-a nos níveis tácticos e operacionais inferiores do conflito, que são determinantes.

Nada há de novo na teoria da “conquista e ocupação” senão a aplicação da feitiçaria do Sr Bush, para dizer o mínimo. “Conquista e ocupa” é, de facto, uma retomada adulterada da estratégia que o Marechal Lyautey empreendeu nos tempos coloniais da entrada do século XX, sob o nome de tache d’huil (NT – em francês no original; mancha de óleo), para ganhar o apoio de diversas tribos árabes/berberes do Norte de África, em troca de protecção e serviços sociais – numa expansão lenta e metódica da área sob domínio francês. Tal como Lyautey, o Sr Bush usaria unidades rápidas de infantaria ligeira para desfazer depressa as concentrações do inimigo; e tal como Lyautey, o Sr Bush compreende que o sucesso desta estratégia depende da expansão gradual das zonas pacificadas ou “manchas de óleo”. Mas, ao contrário de Lyautey, que percebeu perfeitamente que esta estratégia exigia um tempo dilatado, a atitude do Sr Bush, tal como a dos seus apoiantes, é “vamos dar-lhes um tiro rápido” para vermos se alcançamos resultados tangíveis em alguns meses numa frente urbana.

Muita gente morrerá neste tiro rápido porque, infelizmente, o TEMPO está a favor daqueles que nos querem expulsar do Iraque e eles sabem disso, mesmo que discordem de tudo o resto que possamos dizer.

Os pilotos de combate usam uma descrição para a paralisia do pensamento que acompanha o estado mental desesperado que as confusões do Sr Bush evidenciam: O homem está “fora da altitude, da rota e do juízo”.

Tradução do original em inglês:

publicado em 17 de Janeiro de 2007 por

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