Eu dou a cara pelo NÃO porque:
- Penso que a despenalização não pode senão aumentar a taxa de abortos, e com isso não apenas reduzir os nascimentos mas aumentar o sofrimento das mulheres que são atingidas por esse flagelo;
- Aumenta a pressão social de toda a espécie (familiar, laboral e tudo o mais) sobre as mulheres, atirando para cima delas toda a responsabilidade pelo aborto;
- Não reduz a discriminação social no aborto, pelo contrário uma mulher que não tem posses está sujeita a uma resposta dos "serviços" a dizer que já passaram mais de 10 semanas, aumentando a sua determinação por essa opção na clandestinidade, ao passo que uma mulher com outros "atributos" pode encontrar mais flexibilidade, canalisando para si os recursos estatais - como aliás já acontece com a assistência estatal à saúde em geral, que reserva muito menos recursos para os mais desfavorecidos económicamente;
- Uma mulher que se encontra em "estado de choque" por uma gravidez indesejada, não se encontra em condições de assumir uma responsabilidade exclusiva, de tão graves consequências;
- A medicina não foi feita para atentar contra a vida humana, seja em que estádio for do seu desenvolvimento: é muito mais saudável para a própria mulher, deixar vir o filho e entregá-lo, do que praticar o aborto; na maior parte dos casos, a própria mãe pode mudar de opinião no decurso da sua gestação; e já agora, os nossos impostos também não foram cobrados para atentar contra a vida humana nem para pagar os erros alheios.
- À mãe que pretende abortar, não lhe faltam porta-vozes e defensores, a começar por elas próprias; ao passo que aqueles que ainda não têm voz, não lhes resta senão falar através daqueles que são capazes de colocar a razão acima de todos os outros argumentos;
- E finalmente, nunca vi nesta como na outra campanha, nada que coloque em causa todas estas e as outras razões. Eu não preciso de invocar o que diz o governo, a igreja ou o parlamento europeu, ou até a campanha adversária, para justificar a minha posição: basta invocar aquilo que vejo com os meus próprios olhos, a minha inteligência e as minhas convicções.



7 Comentários:
O referido "aumento" de abortos não passa de um maior realismo no registo de abortos. É uma hipocrisia falar-se num aumento de abortos. Eu vou votar "Sim" e concordo com grupos de apoio à pessoa que deseja abortar. Concordo que a pessoa deixe nascer a criança e a dê à adopção, ou melhor, que fique com a criança. A diferença é que não acho correcto que se feche a alternativa do aborto à hipotética mãe. Por falar em diferenças entre o tratamento de pessoas abastadas e pessoas com dificuldades financeiras, o que se passa hoje é que as pessoas abastadas têm todas as condições e conforto que é possível ter e as não-abastadas acabam por recorrer a "clínicas" sem condições e com elevadas probabilidades de algo correr mal. A acontecer num hospital, com melhor tratamento ou pior, pelo menos ambas estarão legais.
Vamos todos votar no "SIM"...
Por um aborto muito mais democrático, mais higiénico, mais despenalizado, mais generalizado, mais moderno, mais registado (ou será melhor "menos registado"?)...
...e então se for feito na "minha" clínica, será um autêntico alívio!
...resultados garantidos e preços especiais para mulheres portadoras de certificados com mais de dez semanas!
...nos casos de reincidência o serviço é completamente grátis!
...preços garantidos de valor inferior aos métodos contraceptivos mais correntes!
"- Uma mulher que se encontra em "estado de choque" por uma gravidez indesejada, não se encontra em condições de assumir uma responsabilidade exclusiva, de tão graves consequências;"
-Mas encontra-se em condições de assumir a responsabilidade (quantas vezes exclusiva) de educar a criança?
Obrigado pela pergunta.
Mas desde o estado de choque até à educação ainda vão uns meses muito largos, que dão para tanta coisa...
Eu conheço uma moça, cuja mãe me pediu dinheiro para abortar, e eu recusei; se o aborto fosse como este referendo nos propõe, essa moça não existia.
Agora vão dizer a essa mãe que devia ter abortado a filha, a ver o que é que ela responde.
- Penso que a despenalização pode diminuir a taxa real de abortos, pelo menos na prevenção de reincidências. Os serviços de planeamento prestados nos centros de saúde e hospitais terão que procurar respostas para os novos problemas que surgirão. Só existe solução se houver e conhecermos o problema.
- Neste momento, neste assunto, a mulher tem sobre as suas costas toda a pressão social e de toda a espécie. A despenalização vai lhe dar o direito de auto-responsabilização (o que incomoda muita gente).
- Reduz a discriminação social, pelo menos até às 10 semanas. Neste período qualquer mulher portuguesa terá o direito a assistência, apoio e tratamento (se for o caso disso)em igualdade de condições nos serviços de saúde.Quanto a ilegalidades no serviço de saúde existem e existirão sempre, quem as conhecer tem o dever de as denunciar às entidades próprias.
- Sem a penalização, "uma mulher em estado de choque" por uma gravidez indesejada, continuará a ser "uma mulher em estado de choque", com as mesmas condições de assumir responsabilidades exclusivas, no momento. O que poderá ser diferente, será conversar sobre o assunto, e tomar decisões mais calmamente.
- "é muito mais saudável para a própria mulher, deixar vir o filho e entregá-lo, do que praticar o aborto;" - Quem diz? Os médicos? É mais uma questão individual... Pessoalmente, penso: As mulheres que tiveram um filho que não queriam ter de todo,ou à partida sabiam que não iam poder manter, e o entregaram para uma instituição de adopção (o que não é garantia que será adoptado, só se respeitar alguns "requisitos"), desresponsabilizando-me do acto, pensando: pelo menos deixei-o viver!(que piedosa),sem considerar o sofrimento que lhe iria causar, e privando-o a tantos direitos essenciais como os de ter pais, de ser amado... Se um dia pensar a sério nisso, não sei se irá ser uma pessoa mais saudável, do que aquela que assumiu o sofrimento dos seus actos só para si.
Já agora, ultimamente os nossos impostos têm servido para pagar todo o tipo de erros alheios, e até para camuflar e executar muitos delitos de várias ordens, deixe-mo-nos de ingenuidades. Mas este é outro assunto.
- "aqueles que ainda não têm voz", resta-lhes apenas contar com os pais, e esperar que tenham razão e coração para os defender de tantas manipulações politicas, sociais e alheias, completamente inconscientes, que se dizem falar em nome deles. Salvo aqueles que digam a uma mulher: Tem a criança que eu irei cria-la!
Esta é a minha visão das razões pelas quais dá a cara pelo não. Como deve calcular também são as minhas convicções e algumas razões pelas quais dou a cara pelo SIM.
Não posso deixar de invocar duas outras razões muito fortes para a minha posição:
- Detesto hipocrisias.
- Recuso-me a manipular a liberdade alheia.
Esquecia-me de escrever uma razão, que por sinal é a principal:
Colocar a vida humana, acima de tudo o resto.
Em vez de colocar tudo o resto, acima da vida humana.
Também detesto hipocrisias, mas não à custa da vida humana: se for preciso, serei hipócrita para salvar uma vida.
E recuso-me a manipular a vida alheia.
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