Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

Eu animal me confesso


O estampido do martelo sobre a mesa como que sublinhou a sentença:
- Condenada a três anos de prisão.
Enquanto recolhia aos calabouços, já pesava sobre a mim a responsabilidade deste acontecimento.
Não vale a pena fugir. Desde que temos o poder de eleger os representantes da assembleia legislativa, tudo o que sai de lá passa a ser responsabilidade comum. Neste caso, a favor ou contra a prisão.
Sabemos com segurança a relação entre os catetos e a hipotenusa. A dependência da atracção mútua de dois corpos com a distância. A particularidade sui generis da minúscula molécula hexagonal do benzeno. As cambalhotas das moléculas de água sob a acção de um feixe de micro-ondas. Ciência feita, que não passa da porta de entrada do grande edifício do conhecimento que está quase todo por construir. As nossas convicções começam a esmorecer quando transitamos para as ciências sociais. O raciocínio linear já não funciona. E fazemos papel de ignorantes quando enfrentamos a realidade do simples e irredutível indivíduo.
Mas não haverá certezas neste domínio? Eu tenho poucas. Sei que a mulher não é menos submetida à força bruta, animalesca, do impulso sexual que o homem. Mas as consequências que advêm da procura da sua satisfação são bem diferentes para os dois sexos. Há diferenças inevitáveis, logo, resolvidas por si próprias. A essas acrescem hoje, como ontem, algumas que são puras construções sociais para desiquilibrar mais a balança a favor de um dos lados. Construções que procuram apoio na racionalidade. Racionalizar o que não é racionalizável. Estaremos à procura do estado de loucura de Nietche? Prefiro ater-me aqui ao simples bom senso, à meneira do saudoso José Redinha: A civilização no homem tem a espessura da pele. O meu-eu racional não mais está disposto a medir forças com o meu eu-animal. Porque já sei quem perde, sem apelo nem agravo.
Tudo no domínio das relações sexuais é frágil e volátil. É a antítese do mundo das certezas. As diferentes condições face à lei jogam contra a sua própria sobrevivência. Como sei? É simples: quando um fogoso jovem chega à Europa, proveniente dos países muçulmanos, fica imediatamente encantado pelas jovens europeias. Que têm elas de diferente das suas companheiras no país natal do recem-chegado? Um estatuto de liberdade acrescida. Através dele, a possibilidade de se mostrarem como são, em vez de como alguém pretende que elas sejam (uma subversão dos valores). Que vantagem líquida se pode retirar dos milhentos condicionalismos que pesam sobre as mulheres muçulmanas? Ignoro, mas mútua satisfação é-me difícil conceber.
Sejamos modestos. Não estamos no micro-universo ficcionado da mecânica, do electromagnetismo, ou da química orgânica. A pergunta que nos é colocada no referendo sobre o aborto remete-nos para o nosso verdadeiro mundo, com todas as suas imperfeições. A prisão, ou a sua ameaça, desquilibra demasiado a balança. Estaria disposto a votar não, se a medida que se pretende manter abrangesse por igual os dois responsáveis. Com os testes de ADN, isso nem seria dificil. Uma vez que não se trata disso, não vou facilitar a repetição do acto descrito no início.

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5 Comentários:

At 18:02, Blogger José Ferrão disse...

Realmente a lei não trata por igual o pai e a mãe, no caso do aborto.
Mas a mãe tem a capacidade de distribuir melhor as responsabilidades, ao ser-lhe dada a palavra em sua defesa.
E além disso, também vemos muito mais homens do que mulheres nos julgamentos acerca das violações e da pedofilia: a carne é mais fraca, e não será por isso que vamos pedir essas despenalizações.

 
At 20:49, Blogger António Chaves Ferrão disse...

José
Não há desculpas. Ou travas a mão do juiz no dia 11, ou ajuda-lo a bater com o martelo. Prosseguindo na senda do atávico desiquilíbrio, não preveja que menos homens se tornem pedófilos ou violadores. No momento em que a participação no jogo do amor não se possa desenvolver em termos de igualdade de responsabilidades, tende a desviar-se para seres incapazes de se defenderem. Aí está o animal em todo o seu esplendor, saído directamente da sociedade que se quis super-racional. A prudência manda que em todos os momentos reconheçamos os limites impostos pela nossa condição. Nunca a ignorá-la para que venha a manifestar-se in extremis.

 
At 22:26, Blogger José Ferrão disse...

António,
Eu travar a mão do juiz, infelizmente não posso; mas talvez consiga orientá-la para cair em cima de quem se pode defender melhor.
Porque desaparecendo o martelo reprovador, a alternativa é o bisturi que cai em cima, não vou dizer do feto, mas de toda a sociedade, a começar pela mãe.
E depois, qualquer que seja a alternativa, nunca haverá leis que possam contentar toda a gente.
O que não concordo, é que se a mãe cometeu um erro, se ponha os outros a pagar por ele, e tudo isto por força de uma opção íntima tomada em momento de desespero.
E como o interesse não é pessoal, porque não sou mulher, ao menos que me consiga contentar com a coerência da minha opção.

 
At 09:38, Blogger espumante disse...

Mais um bocadinho e concordava contigo, não fora aquela imagem trovejante e ameaçadora do estampido do martelo do Juíz. Insisto na ideia de que o "sim" validará a liberalização do aborto e nao a despenalização. Insisto na convicção de que existe já hoje um enquadramento jurídico que permite que a mulher aborte sem perigo e que evita a inaceitável situação de que se aborte só poque se quer. Evita, enfim, o exercício manipulador, demagógico e arrogante de especialistas na matéria como o Vital Moreira ontem no Prós e Contras e de muitos dos nossos "colegas" bloggers que lá estavam presentes (dezenas...). Para não falar dos patetas habituais de serviço.
Termino dizendo que não esperava de ti essa do estampido do martelo!... :)É quase tão eficaz como a excomunhão do padre de não sei de aonde ou do da ameaça do funeral religioso que deixaríamos de ter se votássemos sim. Vistas bem as coisas, diz lá se não é a mesma coisa... mais martelada menos martelada
:)
um abraço sem marteladas

 
At 12:01, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Espumante
Obrigado pelas tuas palavras. Retirar o martelo, também depende de ti.

 

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